segunda-feira, 21 de maio de 2012

[POL] Stalin é a figura mais sanguinária do Século XX

Eric S. Margolis, 21/01/2008

A União Soviética é o país da mentira, da absoluta mentira, da mentira integral. Stalin e seus capangas estão sempre mentindo, em qualquer momento, sob quaisquer circunstâncias, e de tanto mentir eles já não percebem mais que estão mentindo. Onde todos mentem, ninguém mente. A União Soviética não é nada exceto uma mentira baseada em fatos. Nas quatro palavras cujas inciciais as resumem (URSS), não há menos do que quatro mentiras.

Boris Souvarine, 1937

Extraído de Stalin´s Secret War, Robert W. Stephan.

Em 1932, o líder soviético Josef Stalin promoveu um genocídio na Ucrânia. Stalin estava determinado a forçar milhões de camponeses ucranianos independentes - chamados kulaks - a aderirem à agricultura coletivizada soviética, e esmagar o crescente espírito nacionalista da Ucrânia.

Deparado com a resistência à coletivização, Stalin liberou o terror e despachou 25.000 militantes jovens do partido de Moscou - versão mais antiga dos Guardas Vermelhos de Mao - para forçar 10 milhões de camponeses ucranianos a aderir a fazendas coletivas. Unidades da polícia secreta da OGPU iniciaram execuções seletivas de fazendeiros obstinados.



Quando os guardas vermelhos de Stalin falharam, a OGPU recebeu ordens de começar execuções em massa. Mas simplesmente não havia Chekistas (policiais) em número suficiente para matar tanta gente, então Stalin decidiu substituir balas por um meio de assassinato mais barato - fome em massa.

Todos os estoques de sementes, silos e animais foram confiscados das fazendas ucranianas. (O ditador comunista da Etiópia, Mengistu Haile Mariam, usou o mesmo método nos anos 1970 para forçar a coletivização. A fome resultante causou 1 milhão de mortes.)

Os agentes da OGPU e as tropas do Exército Vermelho fecharam todas as estradas e ferrovias. Nada chegava ou saía da Ucrânia. As fazendas eram revistadas e saqueadas de alimentos e combustível. Os ucranianos rapidamente começaram a morrer de fome, doenças e frio.

Quando a OGPU falhou em conseguir os números semanais de execução, Stalin enviou seu capataz Lazar Kaganovitch para destruir a resistência ucraniana. Kaganovitch, o Eichmann soviético, realizou a tarefa, executando 10.000 ucranianos semanalmente. 8% dos intelectuais ucranianos foram executados. Um membro do partido chamado Nikita Kruschev ajudou a supervisionar o martírio.

Durante o inverno rigoroso de 1932-33, a fome em massa criada por Kaganovitch e a OGPU atingiu força máxima. Os ucranianos comiam seus animais de estimação, botas e cintos, cascas de árvores e raízes. Alguns pais comeram até seus filhos recem-nascidos.

A Inglaterra, os EUA e o Canadá estavam totalmente cientes do genocídio ucraniano e de outros crimes monstruosos de Stalin. (O líder Josef Stalin cometeu genocídio nos anos 1930, então tornou-se um aliado contra Hitler nos anos 1940).

O número preciso de ucranianos mortos pelos esquadrões da morte da Cheka e da política de fome de Stalin permanece desconhecido até hoje. Os arquivos da KGB e o trabalho recente de historiadores russos mostram que pelo menos 7 milhões morreram. Historiadores ucranianos colocam o número em nove milhões ou mais. 25% da população da Ucrânia foi exterminada.

Seis milhões de outros camponeses na União Soviética foram mortos por fome ou fuzilados durante a coletivização. Stalin disse a Churchill que ele liqüidou 10 milhões de camponeses durante os anos 1930. Acrescentando as execuções em massa da Cheka na Estônia, Lituânia e Letônia, o genocídio de três milhões de mulçumanos, massacres de Cossacos e alemães étnicos, o genocídio industrial soviético soma pelo menos 40 milhões de vítimas, sem contar os 20 milhões mortos na guerra.

Kaganovitch e muitos funcionários superiores da OGPU (mais tarde, NKVD) eram judeus. A predominância dos judeus entre os líderes bolchevistas e os crimes assustadores e crueldade infligida pela Cheka de Stalin na Ucrânia, nos países Bálticos e na Polônia, levou as vítimas do Terror Vermelho a culpar os judeus tanto pelo comunismo quanto pelo seu sofrimento. Consequentemente, durante a ocupação nazista subseqüente da Europa Oriental, os judeus inocentes da região tornaram-se vítimas da vingança feroz de ucranianos, bálticos e poloneses.

Enquanto o mundo está agora bem ciente da destruição dos judeus europeus pelos nazistas, a estória do Holocausto numericamente superior na Ucrânia foi suprimido, ou ignorado. O genocídio da Ucrânia ocorreu oito ou nove anos antes de Hitler começar o Holocausto judeu e foi cometido, ao contrário dos crimes nazistas, diante dos olhos de todo mundo. Mas o assassinato de milhões de Stalin foi simplesmente negado ou escondido por uma conspiração de silêncio pelas esquerdas que continua até hoje. Na geometria moral insólita do morticínio em massa somente os nazistas são culpados.

Intelectuais socialistas como Bernard Shaw, Beatriz e Sidney Webb e o Primeiro-Ministro francês Edouard Herriot, viajaram à Ucrânia entre 1932 e 1933 e proclamaram que os relatórios da fome em massa eram falsos. Shaw anunciou: "Não vi um subnutrido na Rússia." O correspondente do New York Times, Walter Duranty, que ganhou um Prêmio Pulitzer por sua reportagem russa, escreveu que as afirmações de fome eram "propaganda maliciosa". Sete milhões de pessoas estavam morrendo ao redor dessa gente e estes idiotas não viam nada. O New York Times jamais repudiou as mentiras de Duranty.

Os esquerdistas modernos não se importam de serem lembrados que suas raízes ideológicas e históricas estão entrelaçadas com o maior crime do século XX - o resultado inevitável da engenharia social forçada e a teologia marxista.

Os historiadores ocidentais delicadamente "saem pela tangente" quando confrontados com o fato de que os governos da Inglaterra, EUA e Canadá estavam totalmente cientes do genocídio ucraniano e dos outros crimes monstruosos de Stalin. Além disso, eles ansiosamente receberam-no como aliado durante a Segunda Guerra Mundial. Stalin, que Franklin Roosevelt chamava de "Tio Joe", assassinou quatro vezes mais pessoas que Adolf Hitler.

Nenhum dos assassinos em massa soviéticos que cometeram genocídio jamais foram levados à justiça. Lazar Kaganovitch morreu tranquilamente em Moscou alguns anos atrás, ainda usando a Ordem da União Soviética e recebendo uma generosa pensão do Estado.

http://www.thepeoplesvoice.org/cgi-bin/blogs/voices.php/2008/01/21/p22696

http://www.ericmargolis.com/

[POL] Ian Kershaw sobre os últimos dias do Terceiro Reich

Der Spiegel, 18/11/2011


SPIEGEL: Professor Kershaw, o senhor gastou os últimos três anos estudando o colapso da Alemanha Nazista. No final, somos obrigados a balançar nossas cabeças em estupefação com o absurdo da fase final, ou o senhor, como historiador também sente algo parecido a admiração pela perseverança dos alemães?

KERSHAW: O balançar de cabeça predomina, em qualquer sentido. Estou convencido que nós ingleses teríamos desistido muito mais cedo. É certamente incomum para um país continuar lutando até o ponto da completa aniquilação. É o tipo de coisa que geralmente vemos em guerras civis, mas não em conflitos nos quais nações hostis estão em guerra entre si.

SPIEGEL: A questão por que os alemães insistiram por tanto tempo é o ponto de partida para o seu novo livro. Qual teria sido a coisa mais óbvia a fazer?

KERSHAW: Num conflito armado, há eventualmente um ponto no qual um dos lados percebe que acabou. Se as pessoas no poder não desistem mas, ao invés disso, continuam a mergulhar a nação na ruína, há tanto uma revolução vinda debaixo, como foi o caso da Alemanha e da Rússia no final da Primeira Guerra Mundial, ou há um golpe pelas elites, que tentam salvar o que pode ser salvo. Um exemplo disso é a derrubada de Benito Mussolini na Itália em julho de 1943.

SPIEGEL: Qual o último ponto no qual os alemães deveriam ter reconhecido de que não ganhariam mais a guerra?

KERSHAW: Eu diria que no verão de 1944, após o desembarque bem sucedido dos Aliados na Normandia e os enormes ganhos territoriais no leste pelos russos. Naquele ponto, a guerra estava objetivamente perdida, mesmo se o público alemão não visse dessa forma. Mas começando em dezembro de 1944, após o fiasco da Ofensiva das Ardenas (Batalha do Bulge), estava claro para a elite no poder do Reich Alemão que não havia mais nada a ser ganho militarmente. Naquele ponto, teria feito sentido entrar em negociações de capitulação.

SPIEGEL: Até o final derradeiro, a liderança das forças armadas alemãs, a Wehrmacht, se agarrou à esperança de que a coalizão aliada seria quebrada, de modo a garantir uma paz em separado com as potências ocidentais. Dado o rápido fim da aliança militar na Guerra Fria, esta idéia não parece de todo absurda.

KERSHAW: de certo, a idéia não era idiota, mas naquele ponto da guerra, era completamente ilusório apostar que a coalisão terminaria. Nunca houve quaisquer considerações sérias por parte dos Aliados Ocidentais de fazerem a coisa sozinhos. A maior prioridade era derrotar o Reich de Hitler, e para aquele propósito a aliança com os russos era indispensável. Churchill, na medida em que não confiava em Stalin, argumentou isto muitas vezes e ficou surdo a todas as outras alternativas.

SPIEGEL: Seu livro começa com a tentativa frustrada de assassinato de Hitler em julho de 1944. Na sua visão, a tentativa de assassinato prolongou a guerra significativamente.

KERSHAW: O plano de 20 de julho levou a um fortalecimento do regime, pelo menos temporariamente. Houve um aumento perceptível da popularidade de Hitler com o público. O efeito de choque do ataque foi enorme, como podemos ver por muitos registros particulares. Mas o mais importante é o fato de que um expurgo do oficialato na Wehrmacht foi alcançado. Ultra-leais substituíram pessoas que eram consideradas não confiáveis. Toda a resistência foi abafada como resultado.

SPIEGEL: O senhor notou que a saudação hitlerista só foi introduzida na Wehrmacht no verão de 1944. Por que tão tarde?

KERSHAW: Hitler precisava da Wehrmacht mais do que qualquer outra organização do regime nazista, de modo que é o motivo pelo qual ele era tão reticente ao lidar com a liderança por tanto tempo. A tentativa de assassinato de 20 de julho levou-o a concluir que era tempo de fazer o exército entrar na linha. Dentro do oficialato, havia um consenso enorme com o Estado Nazista em termos de objetivos e mentalidade. Mas quando alguém considera um ultra-nazista como o Marechal de campo Ferdinand Schörner, vemos onde as diferenças existem entre alguém como ele e outros oficiais graduados, que foram nazificados mas não eram de fato nazistas verdadeiros.

SPIEGEL: No verão de 1944, a maioria das principais cidades alemãs estava em ruínas, e desde a derrota em Stalingrado, não havia notícias do front de quaisquer vitórias decisivas. Como estava o clima entre a população?

KERSHAW: Profundamente consciente, ansiosa e deprimida. Mas a confiança em Hitler não havia ido embora ainda. Foi somente no final de 1944 que sua reputação começou a cair como uma pedra. De acordo com um relatório do serviço de segurança próximo de Berchtesgaden, em março de 1945, no assim chamado Heldengedenktag (feriado nazista para comemorar os heróis mortos em combate), ninguém queria mais fazer a saudação hitlerista.

SPIEGEL: O quão confiáveis eram esses relatórios, que a liderança nazista usou para dimensionar o ânimo no país?

KERSHAW: Os relatórios oficiais da base eram relativamente moderados em suas afirmações. Em meados de 1944, o secretário de Hitler, Martin Bormann, impediu a disseminação dos resultados desses relatórios no Reich, argumentando que eles tornavam o clima sob uma luz negativa. Os relatórios dos escritórios de propaganda, que eram enviados para Joseph Goebbels, também revelam este declínio no ãnimo geral. Há marcas freqüentes na página onde Goebbels havia desenhado uma linha grossa com uma caneta verde, porque ele esperava relatórios de vitórias.

SPIEGEL: Foi Goebbels que, após 20 de julho, pediu grandes sacrifícios da populaçãocivil. Hitler era mais reticente em relação a isso?

KERSHAW: Hitler sempre foi sensível para qualquer coisa que enfraquecesse a moral do povo alemão. Foi uma lição que ele aprendeu da Primeira Guerra, em especial era importante manter as pessoas otimistas, ou poderia haver uma revolta vinda debaixo, como ocorreu em 1918. Este é o motivo que ele garantiu aos fazendeiros bávaros acesso à sua cerveja. Goebbels viu muito mais claramente que Hitler que a população alemã estava de fato preparada para aceitar medidas duras, desde que elas afetassem todos igualmente.

SPIEGEL: O sistema funcionou até o final. Somente alguns meses antes do fim da guerra, pedidos para construção foram submetidos e aprovados, e salários foram pagos. O último concerto da Filarmônica de Berlim aconteceu em 12 de abril de 1945.

KERSHAW: E a ofensiva soviética sobre a capital alemã começou quatro dias depois. A platéia sentou no auditório congelado da Filarmônica, vestindo casacos pesados, enquanto (Wilhelm) Furtwängler conduzia a Sinfonia nº 4 de Bruckner.

SPIEGEL: E em 23 de abril de 1945, o Bayern de Munique derrotou o TSV 1860 numa disputa de futebol.

KERSHAW: Sim, eles venceram por 3 x 2. Quando li isto, fiquei tão chocado que pensei que a data poderia estar errada. Mas ela era correta.

SPIEGEL: O senhor tem alguma explicação para esta necessidade em preservar a normalidade?

KERSHAW: A normalidade da rotina, mesmo se é somente uma falsa normalidade, é provavelmente essencial para o funcionamento da ordem humana. Você vai para seu trabalho verificar seus arquivos, mesmo se o trabalho é completamente inútil. E quando seu escritório não existe mais, pois foi bombardeado, você simplesmente parte para fazer outra coisa.

SPIEGEL: Mas isto não é o suficiente para manter a ordem pública.

KERSHAW: É verdade que isto não seria possível sem um serviço civil bem treinado. A burocracia exemplar era o esqueleto do regime. Mesmo o serviço postal foi mantido mais ou menos intacto. Quando a rede ferroviária foi destruída, o ministro postal do Reich emitiu uma ordem que motocicletas fossem usadas ao invés de trens. Quando houve um racionamento de gasolina para as motocicletas, eles passaram a usar bicicletas. No final, eles caminhavam pelas montanhas com uma mochila em suas costas. É bizarro imaginar, mas funcionou.

SPIEGEL: O senhor reconhece um caráter alemão específico no trato disso tudo?

KERSHAW: Eu não posso sequer imaginar que isso fosse possível na Itália ou na Grécia. Havia algo tipicamente alemão nisso. Não quero dizer como um esteorótipo nacional. Estou pensando mais de uma tradição cultural que é inserida através da educação e encoraja certas virtudes. Em um ponto do meu livro, eu menciono Friedrich Wilhelm Kritzinger, o secretário de estado na Chancelaria do Reich, que, quando perguntado durante um questionamento por que ele continuou trabalhando tão diligentemente até o final, respondeu sob surpresa que aquela era sua função. Ele sequer compreendeu a pergunta.

SPIEGEL: Falta aos alemães a habilidade de questionar?

KERSHAW: Alguém poderia colocar dessa forma. É claro, é na verdade uma coisa muito positiva ter um senso de dever ou mesmo honra. mas os nazistas distorceram completamente esses valores. O que significa dever para um general na fase final do Reich? manter lutando até tudo estar em ruínas? Ou emitir uma ordem de rendição?

SPIEGEL: Talvez houvessem muitos nazistas comprometidos verdadeiramente com a causa. O oportunismo pode às vezes ser benéfico.

KERSHAW: Isto é provavelmente verdadeiro. Em muitos casos, o destino de uma cidade foi determinado se ela seria administrada por pessoas que simplesmente queriam salvar suas peles, ou por fanáticos que ordenariam o fuzilamento a quem quer que pendurasse uma bandeira branca na janela. Considere Breslau (hoje Wroclaw), por exemplo, onde Karl Hanke, o Gauleiter local (líder regional do NSDAP), emitiu a ordem para resistir até o último homem. O centro da cidade foi pulverizado, e um sofrimento indizível castigou a população até Breslau cair finalmente em mãos soviéticas, foi tudo em vão.

SPIEGEL: Hanke garantiu a si próprio estar no último avião que partiu da cidade.

KERSHAW: Isto era típico desses funcionários do partido, que falavam para resistir até a última bala. Mas somente dois de 43 Gauleiters morreram em combate. A maioria garantiu sua segurança mais cedo ou abandonou a população.

SPIEGEL: Muitos historiadores militares enfatizam o espírito especial de luta da Wehrmacht alemã. Para o soldado raso, havia uma alternativa a continuar lutando?

KERSHAW: A única coisa que eu vejo seria a deserção, que significaria morte se fosse capturado.

SPIEGEL: Qual a sua opinião sobre Hitler como comandante militar?

KERSHAW: Sua influência, especialmente na fase final da guerra, foi certamente fatal. Mas muitos generais tornam muito fácil para si próprios, após o fato, culpá-lo por todas as decisões erradas. Se você ler os relatórios das reuniões, você verá que Hitler raramente ia contra eles. Você sabe, por exemplo, a respeito da tentativa gradualmente desesperada do Coronel-general Georg-Hans Reinhardt na Prússia Oriental em convencer Hitler para aprovar uma retirada tática do Grupo de Exército Central. Mas não foi apenas Hitler que rejeitou a idéia. De fato, ele gostava do apoio amplo dos oficiais em seu ambiente imediato.

SPIEGEL: "Olhei em seus olhos e soube que tudo iria ficar bem," disse o Almirante Karl Dönitz após uma reunião com Hitler. Outros oficiais tiveram sentimento semelhante. De onde esta fé absoluta no Führer veio entre homens que não eram totalmente passionais?

KERSHAW: Você deveria perguntar aos psicólogos. Por que Albert Speer vôou de volta ao bunker quando de fato tudo havia acabado? Aparentemente ele era incapaz de dissociar-se de Hitler até o final, e muitos outros no círculo íntimo sentiam a mesma coisa. Esta dependência emocional é também evidente no encontro dos Gauleiter em 24 de fevereiro de 1945, no qual os líderes partidários viram Hitler como um homem em frangalhos e ficaram completamente horrorizados pelo que viram. Mas então Hitler aproximou-se de cada homem individualmente e olhou-o nos olhos, quando então o clima de repente ficou mais leve, como o Gauleiter Rudolf Jordan escreve em suas memórias.

SPIEGEL: O encanto foi repentinamente quebrado quando Hitler cometeu suicídio.

KERSHAW: Tudo aconteceu muito rápido após aquilo. Goebbels foi quase o único que permaneceu ao lado de Hitler até a morte. Quase todo mundo fugiu. Mesmo o leal (Martin) Bormann tentou escapar do mundo do bunker e foi até onde ele podia.

SPIEGEL: Os lados bizarros de seu livro incluem as descrições das intrigas na corte. A Alemanha estava em cinzas e mesmo assim os paladinos estavam lutando por poder e influência.

KERSHAW: Isto também explica a persistente resistência do sistema. A falta de confiança mútua entre os membros da liderança impediu a formação de facções dentro da estrutura de poder que poderiam ter sido perigosas para Hitler. Havia, na melhor das hipóteses, alianças de curto prazo, que imediatamente sumiam quando uma pessoa descrobia uma vantagem, como a entre Goebbels e Speer.

SPIEGEL: O senhor descreve Speer como a figura mais enigmática no círculo íntimo do ditador. O que fez com que uma pessoa tão realista e inteligente acreditar até o final?

KERSHAW: Uma ambição inextingüível, e certamente a fé em Hitler e também a missão. Speer permanece um enigma para mim até hoje. Ninguém estava mais ciente da condição que o Reich estava e, mesmo assim, em março ele escreveu um memorando no qual ele recomendava a continuação da luta no Reno e no Oder. É claro que ele não citou isso em suas memórias.

SPIEGEL: O senhor escreveu que a indústria armamentista alemã produziu seu maior volume de armas em dezembro de 1944, apesar do bombardeio devastador.

KERSHAW: Sem a habilidade de Speer em manter a produção de armas sob as mais adversas condições, a guerra teria terminado muito mais cedo. Até a Ofensiva das Ardenas, ele e seus funcionários conseguiram verdadeiros milagres na produção de munição. Não há outro modo de expressar isso.

SPIEGEL: Se os golpistas de 20 de julho tivessem sido bem sucedidos com sua bomba contra Hitler, a guerra teria terminado no máximo no outono de 1944. Como historiador, o senhor desejaria que Hitler tivesse sido assassinado naquele dia ou está contente que a tentativa de assassinato tenha falhado?

KERSHAW: Tenho me perguntado sobre isso. Quando alguém escreve estas coisas, sente um desejo interior que a cisa tivesse sido bem sucedida. Acredito que esse seja o sentimento de alguém que não é fascinado pelas idéias do nazismo. No último ano da Segunda Guerra, mais pessoas morreram na Europa do que em todos os fronts por toda a Primeira Guerra. Politicamente falando, contudo, é provavelmente uma benção que os golpistas tenham falhado. De outro modo, as chances de ter uma Alemanha democrática teriam diminuído significativamente.

SPIEGEL: Professor Kershaw, muito obrigado pela entrevista.

Ian Kershaw, 68, é um dos mais respeitados historiadores britânicos. Até sua recente aposentadoria, ele era professor da Universidade Sheffield. Ele tem estudado a Era Nazista por quase 40 anos e é provavelmente mais conhecido por sua biografia de Hitler em dois volumes. Seu último livro é chamado "O Fim: O Desafio e Destruição da Alemanha de Hitler, 1944 - 1945."

[POL] O Mito Hitler - Entrevista com Ian Kershaw

Segunda, 11 de maio de 2009

Terra Magazine

Fernando Eichenberg, de Paris

O fim de semana passado foi esticado para os franceses graças à sexta-feira de folga do trabalho. A França comemora com um feriado o 8 de maio 1945, data oficial do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa (a capitulação alemã entrou em vigor às 23h01). O dia 20 do mês passado marcou outro acontecimento, o qual, ao contrário do 8 de maio, não é motivo de comemoração: os 120 anos do nascimento de Adolf Hitler.

Recentemente, entrevistei aqui o historiador britânico Ian Kershaw. Nascido em 1943, no dia 29 de abril (nove dias depois do aniversário do Führer), em uma Inglaterra bombardeada em plena Segunda Guerra Mundial, Kershaw se tornou historiador do nazismo e biógrafo de Hitler de reputação internacional. Suas pesquisas históricas, no entanto, debutaram com a Idade Média, em estudos sobre a economia monástica na Inglaterra dos séculos 13 e 14. Nos anos 1970, seduzido pela história mais recente, mergulhou no período mais difícil, delicado e trágico da Alemanha moderna. Suas teses sobre as especificidades da liderança carismática e da popularidade de Hitler ampliaram as perspectivas da compreensão das engrenagens e dos mecanismos do nazismo.


Nenhum dirigente político do século 20 tenha talvez igualado o grau de popularidade alcançado por Adolf Hitler na Alemanha, nos dez anos que se seguiram a sua chegada ao poder, em 30 de janeiro de 1933. O apoio da população ao partido nazista era tímido se comparado à veneração dos alemães pelo seu líder máximo. O culto ao mito exerceu um papel determinante no funcionamento do Terceiro Reich e na aterradora dinâmica do nazismo. Adorado pelo povo, adulado por seus subordinados e temido no resto da Europa e no mundo, Hitler entrou para a história como a encarnação da barbárie, o artífice do Holocausto, o símbolo de um dos regimes mais horrendos já conhecidos da humanidade.


Ian Kershaw, hoje professor de História Moderna na Universidade de Sheffield, é autor de um monumental trabalho sobre o Führer. Sua biografia de Hitler - editada em dois consistentes volumes de cerca de 2,5 mil páginas no total - é considerada por especialistas como a melhor já publicada até hoje. Durante sua breve estada em Paris, para participar do lançamento de uma versão resumida do livro, o generoso historiador reservou um espaço de sua disputada agenda para, em uma sala do hotel em que estava hospedado na capital francesa, no bairro Odéon, conversarmos sobre o mito Hitler.


A entrevista foi feita para a revista Aventuras na História (ed. Abril), publicada na edição do mês passado (04/09), mas como o papo se estendeu e muito de nossa conversa permaneceu inédito aproveito aqui para disponibilizar a íntegra.


Para o senhor, Hitler é um perfeito exemplo da teoria de "liderança carismática" do sociólogo Max Weber (1864-1920). A real importância de Hitler não estava em si mesmo, mas em como os alemães o viam.

Ian Kershaw - Na definição de Max Weber de líder carismático, a maioria dos exemplos usados são personagens religiosos. Em períodos de grande crise, esses personagens, profetas, pareciam oferecer a salvação para as pessoas. Para Weber, carisma era algo visto no personagem por aqueles ao redor dele. Não significa necessariamente que o personagem era grandioso, num sentido convencional, ou que possuía algo especial. Mas ele tinha qualidades de liderança heróica, investidas nele pela visão dos outros, o que Weber chamava de "comunidade carismática". Para a Alemanha nazista, apliquei esta noção de Max Weber em certas condições que ele próprio obviamente não poderia imaginar, pois aqui, esse indivíduo Hitler não tinha grande apelo pessoal e era um talentoso orador popular, além disso é difícil ver o que o povo enxergava nele.

Nesse contexto da República de Weimar, da perda da guerra, da humilhação nacional, turbulências políticas, miséria econômica, crise cultural, as pessoas estavam preparadas para investir nesse indivíduo, ver nele qualidades de grande liderança que poderiam trazer uma salvação nacional para a Alemanha. À medida que o partido nazista ganhava terreno, mais pessoas eram atraídas pelo apelo popular de Hitler, e mais ele pôde desenvolvê-lo. Até chegar ao poder, o culto de Hitler era um fenômeno que pôde ditar a natureza do regime. O que se vê é um estranho modelo de liderança imposto a uma moderna forma de funcionamento de estado burocrático. E as tensões e estruturas do regime nascem da natureza dessa liderança carismática.

O senhor diz que Hitler era um "ditador preguiçoso", não tinha muito interesse em se envolver no funcionamento diário da Alemanha nazista, exceto nas decisões militares e de política estrangeira. Mas discorda da tese do historiador alemão Hans Mommsen de que Hitler era um "ditador fraco". Como defini-lo?

O estilo de sua liderança não era de microgerenciamento, de se envolver em todos os níveis. Não era como a liderança de Stalin, que absorvia tudo, em um forma burocrática estabelecida para que ele controlasse todas as diretivas. Hitler se contentava em deixar as coisas correrem, enquanto estivessem indo na direção que ele determinou. Em momentos cruciais ele teve de intervir para tomar decisões-chave. Na política estrangeira, tomou decisões cruciais. Em outras questões, durante a guerra, ele estava longe de ser um "ditador preguiçoso", mergulhou mais e mais no microgerenciamento com componentes militares, o que foi catastrófico para a Alemanha. Na guerra, como notou Albert Speer (1905-1981, ministro do Armamento do Terceiro Reich), o Hitler velho "ditador preguiçoso" desapareceu e se investiu completamente na direção e administração do conflito. Isso consumiu praticamente cada hora de seus dias e de suas noites. Hitler mudou em certas coisas ao longo dos anos.

De que forma sua teoria "Trabalhar para o Führer" (Working Towards the Führer) explica a particularidade da liderança de Hitler?

Num sentido, "Trabalhar para o Führer" é uma idéia que você pode aplicar em qualquer tipo de administração. É a forma como opera o gerenciamento, em que as pessoas antecipam o que o patrão quer e tentam se assegurar de que estão fazendo a coisa certa. Nesse caso, temos uma forma extrema, em uma estrutura política enquadrada, na qual Hitler representava um número de ideias-chave que outras pessoas procuravam colocar em prática. Essas ideias eram imperativos ideológicos cruciais, como a remoção dos judeus e a expansão territorial. Estruturavam frouxamente uma visão para o futuro, mas ao mesmo tempo delineavam políticas abaixo de Hitler, sem que ele precisasse dar muitas direções, já que outras pessoas ansiavam em levar adiante essas políticas sozinhas, de acordo com os imperativos ideológicos de Hitler. Isso foi um elemento crucial da dinâmica desse regime, "Trabalhar para o Führer" dirigiu sozinho a dinâmica do regime. Pode-se notar como essa radicalização cumulativa atua e ganha espaço sem ordens diretas do próprio Hitler.

O senhor afirma que a Alemanha Nazista era constituída de uma reunião caótica de burocracias rivais em constante luta. A ditadura nazista não era um totalitarismo monolítico, mas uma coalizão instável de diferentes blocos. Era ao mesmo tempo uma monocracia e um policracia.

É verdade. Mas o debate se era uma forma monocrática ou policrática de governo, de certo modo perde o foco principal. Claro que havia diferentes grupos de poder dentro do Estado, mas cada um deles tinha de operar de uma forma coincidente com as ideias representadas pelo próprio Hitler. O determinante crucial desse regime era a liderança de Hitler. Sem isso, haveria somente a competição de feudos, de lordes, abaixo de Hitler. Nesse nível, era policrático. Mas o centro determinante era monocrático.

Cada um desse grupos rivais tinha de apelar a Hitler, não desafiava Hitler, nem competia com Hitler, antes havia a concretização de seus desejos por meio desses grupos rivais abaixo dele.

Há Hitler, o mito, e Hitler, o homem. O senhor o descreve como uma pessoa tediosa, sό Goebbels e outros poucos eram capaz de suportá-lo.

Como homem ele representava esse enorme poder. O que ele representava, sua figura de poder, era interessante às pessoas. E por causa disso, pessoas achavam ou diziam que achavam o que ele dizia interessante. Ele podia entusiasmar as pessoas em volta quando falava sobre arquitetura ou música, mas era também bastante repetitivo. Seus secretários e assistentes ouviram as mesmas histórias centenas de vezes, havia uma repetição monótona das mesmas coisas. Ele não era interessante no sentido dos grandes filósofos, pensadores ou artistas. O interesse que ele provocava nas pessoas ao redor vinha do poder que ele encarnava, ele oferecia um futuro brilhante para elas e para a Alemanha. Ele era um homem capaz de oferecer às pessoas oportunidades impossíveis de imaginar. Quando Hitler chegou ao poder, parecia que o céu era o limite, você pode fazer mais do que quer, há dinheiro para os seus projetos. Se você é arquiteto, construa seus enormes e monumentais edifícios. Se você é engenheiro, projete uma via férrea até a Criméia. Se você é médico, além de experiências em animais, agora pode fazê-las em seres humanos. Em todos esses caminhos, aberturas se tornaram possíveis. Projetos grandiosos e desumanos se tornaram possíveis. Para todas as pessoas que tinham algum poder ou autoridade se abriu uma janela grandiosa. E Hitler representava isso. Por um lado, ele era tedioso, monótono ou repetitivo falando sobre música, artes, arquitetura ou o futuro da Alemanha, construção e engenharia. Mas havia também um excitamento das pessoas, pois elas podiam enxergar todas as possibilidades de se beneficiar de tudo isso.

Isso em relação a sua entourage. Para a massa da população, que ouvia Hitler no rádio ou em seus comícios, ele era a imagem. Como num show de música pop, seu herói é o cantor pop, você não conhece aquela pessoa, sô vê a imagem, o que ela representa via a mídia de massa. De uma certa forma, era o caso de Hitler também.

Hitler dizia "caminhar com o destino", ser guiado pela Providência. Fazia parte do mito ou ele realmente acreditava nisso?

Ele acreditava. Era esse tipo de individuo que sentia ser, desde cedo, alguém realmente especial. Qual a psicologia por trás disso não está claro. Há sinais de que ele sempre pensou que era alguém diferente e especial. O fato de que, até o final da Primeira Grande Guerra, era um fracassado, era ninguém, não tinha futuro, tudo isso parecia trancado dentro dele, como alguém que não obtinha o que merecia. Mais tarde, no período pós-guerra, as circunstâncias mudaram, ele se via como alguém especial e então outras pessoas começaram a dizer: "Sim, você tem algo especial. Isso é música para os ouvidos, todos dizendo que você é uma grande figura. Em seus discursos, ele podia entusiasmar os indivíduos como as massas. As pessoas o viam como alguém completamente diferente, um político com ideias diferentes, ele falava às pessoas comuns de uma maneira que outros não o faziam. Então ele começou a assumir seus atributos de líder carismático autoritário. Ele sente que é um futuro grande líder. A sensação de "caminhar com o destino" se intensifica mais o tempo avança, mais ele obtém sucessos, mais ele tem a adulação das massas, mais ele pensa que é infalível, mais ele pensa que caminha com "a certeza instintiva de um sonâmbulo" - como ele disse em 1936.

E, obviamente, no período da guerra, quando ocorrem coisas como o atentado contra a sua vida, que falhou em 1944, ele vê isso como um sinal da Providência, que ele está destinado a conduzir a Alemanha até o último minuto, que foi salvo pela Providência.

Não é somente uma criação de propaganda, mas algo em que ele realmente acreditava. Hitler era muito perigoso como político, porque tinha essa incomum combinação de um ideólogo idealista e firme com um brilhante propagandista, junto com um esperto homem de Estado que conhecia a fraqueza de seus oponentes. Era também alguém que acreditava em sua própria capacidade. Investia em coisas nas quais realmente acreditava de forma séria e determinada. Isso tudo junto fazia dele um tipo de líder muito perigoso, um caso patológico de líder. Não apenas um charlatão da propaganda - como algumas pessoas pensaram após a guerra e mesmo nos dias de hoje -, mas um ideólogo resoluto com um talento de propagandista de massas e uma grande habilidade para descobrir as fraquezas de seus inimigos.

Perto do fim, com derrotas importantes nos dois fronts - leste e oeste -, Hitler acreditava que poderia virar o jogo e ainda vencer a guerra?

Até um estágio muito perto do fim ele pensou que ainda havia alguma chance, acreditava que algo aconteceria para salvar a Alemanha, que haveria no último momento uma disputa entre os Aliados, e não era o único a pensar nisso. Achava que algo aconteceria. Penso que somente muito tarde ele se deu conta de que havia realmente perdido. Por outro lado, ele teve momentos de absoluta lucidez e realismo na guerra. Ele reconhecia a realidade, não era um idiota. Podia reconhecer a força de seus inimigos, o fato de que as defesas alemãs estavam destruídas. Nesse sentido, penso que nas últimas semanas do Terceiro Reich, por um lado, ele se agarrava as suas última chances, como um náufrago que se agarra a qualquer pau de madeira; por outro, tinha consciência de que estava acabado e se preparou para uma saída heróica, para o final heróico, a noção de sua meta crucial - "nunca mais a capitulação de 1918" -, desta vez entraria para a história, deixaria um legado para o futuro. Acho que foram esses os pensamentos de Hitler nas últimas semanas da guerra.

A liderança carismática de Hitler é autodestrutiva?

É autodestrutiva. E tem relação com a sua própria capacidade. Nos seus últimos meses, o apelo das massas de Hitler se desintegrou bastante. O grande apelo do povo alemão que ele tinha antes estava agora acabado, as pessoas viam Hitler como um obstáculo para o fim da guerra, de forma bastante correta, penso. Mas as pessoas em volta de Hitler ainda tinham uma ligação individual com ele. Além disso, a liderança carismática destruiu a capacidade efetiva do regime de agir como coletividade. Não era possível desafiar Hitler. Isso é autodestrutivo. Hitler era insubstituível, e enquanto ele estava lá o caminho para a destruição já estava feito, ninguém poderia removê-lo, não havia possibilidade de complô contra ele, não havia forma de organização na Alemanha como a que depôs Mussolini (1883-1945) na Itália, em julho de 1943. Nesse sentido, era intrinsecamente autodestrutivo.

"A Queda" (2004, sobre as últimas horas de Hitler) é um bom filme na sua opinião?

Penso que é um filme muito bom. Distorce acontecimentos de algumas maneiras, como faz qualquer filme de ficção, por isso melhor não vê-lo como História. Mas é um bom filme de ficção. Foi o que eu disse ao produtor, Eichinger (Bernd): "É um excelente filme, mas não é História". Se você vê um personagem-chave no filme - à parte Hitler, obviamente -, sua secretária, Traudl Jungl. Na realidade, ela era apenas uma secretária, não tinha um papel importante. Realmente importante no bunker era Martin Bormann, que raramente aparece no filme. Nesse caso, há uma distorção da realidade. Há uma série de outros pequenos detalhes que não cabe falar aqui. Mas o principal é que qualquer filme de ficção, quão bom seja, deve ter algo essencial dos verdadeiros acontecimentos, mas de todo modo é uma criação.

Se você faz um documentário, não pode inventar palavras, deve se ater às gravações históricas. Num filme de ficção, você pode, porque é mais impressionante do ponto de vista dramatúrgico. Claro, há todas essas outras questões, muitos críticos alemães disseram que o filme se limita aos acontecimentos passados no bunker, que humaniza Hitler, não mostra o que ocorre na Alemanha. Tudo isso é verdade, mas um filme tem limites, e o foco desse filme está no que acontece no bunker. Sobre a humanização de Hitler, ninguém poderá achá-lo um personagem simpático nesse filme. Por outro lado, Hitler era um ser humano, ele poderia ser gentil com secretárias. Isso não significa que ele não fez todas essas coisas horríveis e que foi menos responsável pelo genocídio ou pela catástrofe que se abateu sobre a Alemanha e a Europa. Mas por que também não mostrar esse outro lado? É uma tentativa de se distanciar da desumanização de Hitler, o que é bom.

O senhor conta que quando o ditador italiano Benito Mussolini esteve preso na ilha de Ponza, Hitler deu um jeito de lhe enviar como presente de aniversário de 60 anos as obras completa do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1944-1900). Hitler era um bom leitor?

Hitler leu muito mais do que se imagina. Ele leu muitas resenhas, mas duvido que tenha lido Nietzsche do início ao fim. Sua biblioteca ainda existe, com muitos de seus livros, na biblioteca do Congresso americano. Ele leu alguns livros, muitos estão inclusive sublinhados. Em muitos casos, no início ele aprendeu muito ao ler artigos nos jornais que resumiam livros. Não creio que ele tenha lido as obras de Karl Marx ou Lênin, por exemplo. Mas estou certo de que pode ter lido algo de Nietzsche. É interessante que ele tenha enviado suas obras para Mussolini: "Está aqui o que você precisa aprender" (risos).

Quais foram os limites da penetração ideológica e da propaganda de manipulação nazista? Na sua opinião, Joseph Goebbels (1897-1945, ministro da Propaganda) fracassou na criação da chamada Volksgemeinschaft (a comunidade do povo) da propaganda nazista, pois durante o Terceiro Reich os alemães estavam mais interessados em seu problemas cotidianos do que na política.

Isso também é verdade, mas em outras áreas a propaganda nazista foi bem-sucedida, principalmente na criação desse culto a Hitler, do mito Hitler como um grande líder carismático. A propaganda de Goebbels teve um papel importante na criação dessa idéia, que foi crucial e importante, unindo diferentes grupos rivais na Alemanha. A propaganda também foi muito importante para explorar o sentimento nacionalista dos alemães, sobre os quais se centraram conquistas do regime e do próprio Hitler. Outro ponto de sucesso foi na intensificação do antagonismo e do ódio aos judeus. A propaganda do antissemitismo se tornou mais intensa e radical. Na questão do nacionalismo, na propaganda da guerra e do mito Hitler, foi um sucesso, mas em outras áreas, da vida cotidiana, a propaganda foi menos sucedida. As pessoas se preocupavam mais com os problemas do cotidiano do que com todas essas questões de maior amplitude.

O senhor diz que o nazismo não pode ser definido como uma ideologia.

Havia um corpo ideológico, com um certo número de ideias inflexíveis e imutáveis. Ninguém poderia argumentar, por exemplo, que ser judeu era uma boa coisa na Alemanha, isso não era permitido naquele contexto. Havia um número limitado de ideias que, juntas, formavam uma ideologia. Mas eram um amplo amálgama de ideias difusas, facilmente inseridas dentro desse corpo de preceitos ideológicos. Eram ideias soltas que podiam ser adotadas e depois descartadas, que podiam ter um certo apelo para este ou aquele grupo da população. Mas as ideias centrais eram inflexíveis e imutáveis.

Quais foram os limites da penetração ideológica e da propaganda de manipulação nazista? Na sua opinião, Joseph Goebbels (1897-1945, ministro da Propaganda) fracassou na criação da chamada Volksgemeinschaft (a comunidade do povo) da propaganda nazista, pois durante o Terceiro Reich os alemães estavam mais interessados em seu problemas cotidianos do que na política.

Isso também é verdade, mas em outras áreas a propaganda nazista foi bem-sucedida, principalmente na criação desse culto a Hitler, do mito Hitler como um grande líder carismático. A propaganda de Goebbels teve um papel importante na criação dessa idéia, que foi crucial e importante, unindo diferentes grupos rivais na Alemanha. A propaganda também foi muito importante para explorar o sentimento nacionalista dos alemães, sobre os quais se centraram conquistas do regime e do próprio Hitler. Outro ponto de sucesso foi na intensificação do antagonismo e do ódio aos judeus. A propaganda do antissemitismo se tornou mais intensa e radical. Na questão do nacionalismo, na propaganda da guerra e do mito Hitler, foi um sucesso, mas em outras áreas, da vida cotidiana, a propaganda foi menos sucedida. As pessoas se preocupavam mais com os problemas do cotidiano do que com todas essas questões de maior amplitude.

Uma das grandes vantagens de Hitler como líder eram essas ideias, como a de remoção dos judeus. Poderia significar diferentes coisas para diferentes pessoas em diferentes tempos. Não se estava dizendo que era a única maneira que se tinha de fazer, eram ideias soltas, mas imutáveis e não contestáveis. A política tinha de ir numa direção específica, sem diretivas específicas. É isso que chamo de imperativos ideológicos. Alguns poucos eram enquadrados de forma solta, e porque eram soltos a ideologia de Hitler podia abranger pontos específicos nos quais alguns dos líderes abaixo dele estavam interessados. Muitas coisas eram flexíveis, exceto essas três ideias cruciais (nacionalismo, expansão e remoção dos judeus), que não eram passíveis de mudança.

Qual a relação entre o antissemitismo da população alemã em geral e o antissemitsimo ideológico do partido nazista?

Antes de Hitler se tornar líder, a Alemanha era um país no qual havia um antissemitismo latente muito difundido. Muitas pessoas não apreciavam os judeus, achavam que os judeus eram poderosos demais, controlavam a economia, a mídia de massa. Mas elas não eram propensas a se engajar em ações violentas contra os judeus, muito menos a se comprometer com qualquer noção ideológica de que judeus eram uma ameaça interna ou internacional à Alemanha. Hitler era ele mesmo o mais radical dos radicais em termos de antissemitismo. Muitos outros eram igualmente radicais, mas não com um pensamento tão consistente como o de Hitler em relação aos judeus. O que vemos é uma liderança nazista que transformou essa fixação paranóica em relação à ameaça interna dos judeus em algo externo. Quando Hitler assumiu o poder em 1933, havia essa paranóia antissemita representada pela liderança do Estado. E havia também pessoas que eram elas próprias não mais do que antissemitas latentes, procurando formas de mostrar que eram mais anitissemitas, agir contra judeus, prontos a se envolver em ações contra judeus.

Mais e mais pessoas foram absorvidos pelo partido nazista, que era determinado por esse antissemitismo racial, por essa necessidade patológica de expulsar os judeus da Alemanha. Mais as pessoas aderiam ao partido nazista, mais estavam expostas a isso. A nação se tornou mais intensamente antissemita. E o antissemitismo dos radicais do partido nazista se estendeu à burocracia de Estado, à organização policial, se tornou um leitmotiv do regime como um todo, sem ter penetrado da mesma maneira nas ideias do povo em sua maioria.

A política de genocídio foi decidida nos 12 meses compreendidos entre as primaveras européias de 1941 e 1942. Como isso se deu?

As reais decisões relativas ao genocídio tomadas nesse período emergiram como uma resposta ao processo daquele regime. É preciso entender isso em termos desse imperativo ideológico de remoção dos judeus, de destruição do poder dos judeus. Isso estava lá desde o início. Mas decidir como fazê-lo demorou, e as propostas mudaram ao longo do tempo. A idéia básica - remover os judeus e destruir o seu poder - permaneceu constante, mas as políticas práticas de opções mudavam com o tempo. Quando a guerra começa, a Alemanha estava lidando não só com 500 mil judeus no país, mas com outros 2,5 milhões de judeus na Polônia, por exemplo. As logísticas para tentar resolver esse problema da forma que os nazistas queriam - deportação, etc - fracassaram. Uma opção fracassou após a outra. Madagascar fracassou no verão de 1940, porque eles não controlavam os mares. Então a idéia foi a deportação para a Rússia. Logo que a guerra fosse vencida na Rússia, todos os judeus do oeste europeu seriam deportados para os descampados árticos da Rússia. Mas a guerra não terminou. Tiveram de ser pensadas outras iniciativas e encontradas outras alternativas.

A improvisação radical terminou na solução final e nas câmeras de gás, não na União Soviética, mas na Polônia. Esse processo foi desenvolvido em um curto período de tempo. A diferença com os genocídios da Armênia ou de Ruanda, por exemplo, é que nessa guerra o genocídio foi planejado cuidadosa e meticulosamente. Apesar disso surgir nessas condições em 1941, já havia um longo passado no qual o objetivo era o de destruir os judeus. A questão prática surgiu nesses meses de 1941 e do começo de 1942. Na conferência de Wannsee, em janeiro de 1942 (sobre a Solução Final da questão judaica), veem-se os planos serem meticulosamente traçados para a destruição de milhões de judeus, mesmo em países que a Alemanha não havia conquistado, como a Grã-Bretanha, Irlanda ou Suíça. Essa planificação meticulosa e burocrática não se vê nos genocídios da Armênia ou de Ruanda.

Segundo o senhor, Hitler teve uma papel decisivo no desenvolvimento da políticas do genocídio, mas, ao mesmo tempo, muitas das decisões que levaram ao Holocausto foram tomadas em níveis inferiores de poder, sem ordens diretas do Führer. Como funcionava esse mecanismo?

Há documentos sobre a Solução Final, mas não há documentos com "a" decisão de Hitler. Quase nunca houve documentos escritos, mas oficializações verbais. Mas há documentos que ligam Hitler ao aniquilamento de judeus. Sabemos que em dezembro de 1941 ele conversou privadamente com Himmler, por exemplo, sobre o extermínio de judeus. Os relatórios dos Einsatzsgruppen (grupos paramilitares de extermínio) sobre os massacres de milhões de judeus na URSS foram enviados a Hitler. Se ele os leu, não podemos provar, mas foram enviados para ele. Sabemos de um documento que lhe foi enviado que revela a morte de 350 mil judeus. É certo que ele tinha consciência de tudo isso. Seus próprios e repetidos comentários da chamada profecia sobre a destruição dos judeus indicam uma guerra em andamento. Sem Hitler, sem Holocausto. Ele foi absolutamente fundamental e central nessa política de extermínio.

Mas a parte prática disso tudo era algo que ele podia facilmente deixar para Himmler (Heinrich, 1900-1945, oficial da SS e da Gestapo), Heydrich (Reinhard, 1904-1942, oficial da SS e um dos líderes da Solução Final), e eles, por sua vez, podiam delegar para pessoas abaixo, como Eichmann (Adolf, 1906-1962, oficial da SS)e outros. Hitler não necessitava fazer nada no sentido prático para aplicar as políticas, mas a sua autorização era fundamental para o que devesse ser feito. Ele não falava abertamente sobre isso. Quando o fazia era de forma generalizada ou algumas vezes em uma linguagem não muito clara. As pessoas têm diferentes opiniões em relação aos arquitetos da Solução Final, se era Himmler ou Heydrich. Eu costumo usar a metáfora do edifício, em que você pode ver Heydrich como o chefe de obras e Himmler como o arquiteto. Mas ambos necessitavam de alguém que encomendasse o edifício, essa pessoa era Hitler.

No encontro de líderes da SS em Poznan, em outubro de 1943, Himmler disse que o extermínio dos judeus era "uma gloriosa página" da história alemã, "que nunca poderá ser escrita". Como era isso para Hitler?

Hitler considerava os judeus uma ameaça cósmica. Não se tratava apenas de uma ameaça interna na Alemanha, de 500 mil judeus numa população de 68 milhões de habitantes. Os genocídios na Armênia ou em Ruanda eram mais convencionais: há um grupo visto como um desafio ao poder ou um inimigo potencial para a sociedade, como eram percebidos os armênios; ou rivais na luta pelos recursos, no caso dos tutsis e hutus, em Ruanda. Na Alemanha, os judeus eram uma escassa minoria, 0,76% da população em 1933. Não estavam em uma posição de desafiar o poder nem de competir pelo governo. Eram um fantasma. Mas a ameaça foi aplicada internacionalmente, o que é uma outra diferença crucial. Não há só uma ameaça interna, mas uma ameaça que era então vista na relação entre os judeus e os bolcheviques na União Soviética.

Desse modo, os judeus estavam em Moscou dirigindo o bolchevismo, mas também dirigindo o capitalismo em Wall Street, em Nova York, ou na City de Londres. É uma ameaça internacional. Essa ameaça cósmica necessita uma solução apocalíptica, e era o que Hitler oferecia naquela época. Essa tentativa de destruir os judeus deve ser vista como única em termos de genocídio, nunca houve nada parecido antes. O tabu em relação a isso reflete a frase de Himmler - "uma página gloriosa de nossa história que não poderá ser escrita". Não havia neles nenhum sentimento moral de que estavam fazendo algo que fosse um crime, mas a questão é não sabiam qual seria sobre a resposta da população alemã em relação a isso. Remover e deportar judeus é uma coisa, mas notícias contando que maridos, irmãos estavam matando mulheres e crianças aos milhares era algo para o qual achavam que a população alemã não estava preparada. Por isso a preocupação em manter isso um segredo. Em discursos públicos, Hitler falou da vingança aos judeus por terem causado essa guerra, que suas profecias agora seriam cumpridas. Eram sempre termos vagos. Por um lado, ele está contando à população o que está acontecendo, por outro, a propaganda nazista está todo o tempo tentando endurecer as atitudes em relação aos judeus na Alemanha. Mas ninguém fala exatamente o que está acontecendo, ninguém descreve os massacres e tudo o mais, porque o povo alemão não estava preparado para isso. Por isso Himmler fala de "página gloriosa de nossa história" que deve ser mantida em segredo, "nunca poderá ser escrita".

O programa de extermínio de doentes mentais foi deflagrado antes, em setembro de 1939. Como o senhor compara esse processo com a decisão posterior em relação aos judeus?

A decisão de exterminar os doentes mentais em hospícios na Alemanha foi tomada no final do verão de 1939. Hitler autorizou isso por escrito, em cinco linhas escritas em folhas com seu cabeçalho pessoal, de maneira bastante informal.

Não houve uma lei, apenas essas cinco linhas informais autorizando seu próprio médico, no comando da chancelaria do Führer, para dirigir esse programa. Foi algo mantido em segredo, camuflado por certos arranjos para remover os doentes mentais para os hospícios onde seriam executados. Aqui também, tudo foi mantido em segredo porque havia o sentimento de que a população não estava preparada para isso. Rumores começaram a circular. O bispo von Galen em particular, em Münster, fez um discurso denunciando essa prática. O programa foi cancelado. A eutanásia continuou em segredo, mas o programa estabelecido em 1939 foi cancelado. Não se pode provar, mas parece bastante provável que Hitler tenha aprendido uma lição disso: nada escrito em papel e segredo total. E obviamente, no caso do extermínio dos judeus, foi feito mais distante, na Polônia, não na Alemanha. Lições também foram aprendidas do programa de eutanásia em termos de instrumentalização para a Solução Final. Em 1941, quando o programa foi suspenso, as equipes envolvidas na criação de mecanismos para matar esses pacientes doentes mentais com gás venenoso foram transferidas para a Polônia para trabalhar na implantação dos primeiros pequenos campos de extermínio em Belzec. Há uma relação direta entre as técnicas de gás utilizadas na eutanásia e no extermínio dos judeus.

Uma de suas frases - "A estrada para Auschwitz foi construída com ódio, mas pavimentada pela indiferença" - é constantemente citada. Qual o seu significado?

Quis dizer com essa frase que a dinâmica das forças dirigentes que conduziram a Auschwitz foi provida por esse ódio patológico, imbuído em Hitler e representado também por outros líderes nazistas. Sem esse ódio patológico, sem esse imperativo ideológico, não haveria estrada para Auschwitz. Mas para muitas das pessoas comuns, não havia essa fixação em relação aos judeus partilhada por Hitler e a liderança nazista. Para eles, no meio da guerra, os problemas de todo o dia predominavam.

Elas estavam preocupados com os bombardeios, com pais, irmãos, tios servindo no front; com as perdas na campanhas militares; com as privações em casa, as dificuldades para se obter comida ou acomodação. Não havia simpatia pelos judeus, muitas vezes ficavam contentes quando os judeus partiam, mas elas não estavam constantemente preocupadas com a questão dos judeus da mesma forma que a liderança nazista. Eu usei o termo "indiferença", que significa uma "indiferença moral", não se trata de maneira nenhuma de um comentário positivo. É uma atitude de virar as costas para o diabo, fechar os olhos, não ouvir o que se está dizendo sobre os judeus, basicamente ignorar o problema vivendo o seu cotidiano. O que tentei sugerir é que a dinâmica do ódio da minoria era capaz de obter sucesso porque a maioria não se importava, por isso "pavimentada pela indiferença".

Os interesses de Hitler de expansão estavam concentrados na Europa, com extensão para o leste. Estados Unidos, Japão e América do Sul nunca entraram em seus planos.

Hitler temia a expansão do comunismo soviético, e o objetivo de sua estratégia era o de bloquear isso, dominar o país e destruir o bolchevismo judeu baseado na URSS. Em relação aos EUA, em seu chamado Segundo Livro - escrito em 1928 e nunca publicado em vida -, ele fala bem mais do tema do que o fez em Mein Kampf. Nos anos 1930, os EUA se tornaram um real problema para a Alemanha, num sentido mais estratégico. Se os americanos entram na guerra, sem que ela tenha sido vencida no oeste, os alemães não teriam como combatê-los. Eles podem atacar a URSS com forças terrestres, mas não podem bombardear Nova York ou Washington. Portanto, as ameaças dos EUA, com todo seu poderio econômico e militar, é algo que Hitler vê como um perigo potencial para a Alemanha. Com o desenrolar da guerra, Hitler não pôde forçar a Grã-Bretanha a chegar a um acordo, e vê a aliança entre os britânicos os EUA como um perigo crescente para a Alemanha.

Ele disse algumas vezes que se não vencesse a guerra em mais ou menos dentro do próximo ano, estaria em perigo diante do potencial militar e econômico dos EUA. Ele não levou de jeito nenhum a América do Sul em consideração. No outono de 1941, Roosevelt produziu um mapa da América Latina mostrando planos de invasão alemã no continente, mas eram falsos, feitos a partir de informações do serviço secreto britânico.

O senhor já afirmou que gostaria de pensar que se vivesse na Alemanha nazista teria sido um resistente engajado contra o regime, mas relativiza ao dizer que poderia estar tão confuso e desesperançado como os alemães na época. Em circunstâncias extremas o homem é também capaz do pior.

Situações e circunstâncias mudam indivíduos. Felizmente, penso que o mundo, particularmente no contexto em que vivemos, não tem sido exposto a esse tipo de condições. Pessoas que fizeram coisas horríveis na era nazista eram antes pessoas perfeitamente comuns, e se encontraram em situações dispostas a fazer essas coisas horríveis. Claro que quando se olha para trás, nós todos gostaríamos de pensar que seríamos totalmente antinazistas, completamente contra tudo aquilo, tentando derrubar Hitler e seu regime, engajado nesses grupos de resistência ilegais. Mas a verdade é que a maioria de nós estaria em posições em que nos veríamos forçados a transigir com o regime, a se ajustar. Ao se ajustar, você é cada vez mais sugado pelo regime, e você talvez vá acabar no Exército ou em alguma organização, onde fará coisas que, no sentido moral, do ponto de vista de uma democracia livre, será aberrante. Por mais que teria gostado de estar na resistência ao regime, é mais provável que fosse um seguidor do regime, absorvido nele de alguma forma. Acho que foi assim que a maioria da pessoas tiveram de funcionar na época.

Mesmo que estejamos em outro contexto histórico, o senhor vê o perigo de que circunstâncias extremas similares às da Alemanha nazista pudessem, hoje, fazer surgir um novo Hitler?

As circunstâncias fazem com que muitas pessoas comuns, sem uma motivação ideológica, sejam levadas a apoiar um movimento político que ofereça, por exemplo, uma panacéia para todos os problemas, um futuro brilhante, uma salvação política. E mesmo que as razões não tenham sido ideológicas, as organização para a qual foram aspiradas tem objetivos ideológicos. Sem ter tempo de saber onde foi parar, de alguma forma você se tornou mais um seguidor do regime. A questão da motivação dos membros ordinários do partido nazista, e muito menos pessoas que nem faziam parte do partido, é muito difícil de estabelecer, mas muitas vezes as razões pelas quais se faz essas coisas, mesmo mais tarde, não tem um impulso ideológico num primeiro momento. São pessoas impulsionadas por ambições de carreira, questões materiais. Esses tipo de coisas. Mas acima disso há imperativos ideológicos que vão dirigindo esse processo. Claro que o perigo sempre vai existir em condições de total crise social, política e econômica. O nazismo não vai se repetir, mas movimentos podem surgir, que seriam perigosos, e para os quais as pessoas seriam aspiradas por razões bastante banais.

Como o senhor vê o marketing político moderno na construção de mitos e de personalidades políticas? O senhor conta, por exemplo, que Hitler atentava mesmo para não usar óculos em público, pois seria um sinal de fraqueza.

Miss Palin (Sarah Palin, candidata a vice-presidente pelo Partido Republicano nas últimas eleições americanas) usa seus óculos hoje como um sinal de força, todos querem ter os mesmo óculos de Miss Palin (risos). Hitler pessoalmente, mas também o partido nazista, era extremamente moderno no uso da mídia de massa, na sua imagem de comunicação. O potencial para construir personalidades individuais hoje é muito mais sofisticado do que era naquele tempo.

Enquanto houver personalidades limitadas por instituições, em um sistema de controles, tudo bem. Mas quando esses limites diminuem, o culto à personalidade fica livre e se torna muito perigoso.

Em sua obra Leviathan, o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) diz que a vida do homem era "sórdida, rude e curta" e que as pessoas eram em grande parte controladas pela autoridade. O senhor escreveu que trata-se de uma visão bastante pessimista, mas não muito distante da sua maneira de pensar.

De uma certa forma, há aspectos na humanidade, em termos gerais, que sempre me surpreendem de maneira constante em relação aos lados positivos do ser humano, sua capacidade, sua enorme inventividade, atos humanitários de grande caridade a atividade benevolente. E também altruístico, não só egocêntricos. Desastres e catástrofes geralmente fazem emergir isso das pessoas, pessoas que você jamais imaginaria são capazes disso. Esse é um lado muito positivo e que pode ocorrer em todo o lugar. E há outra coisas que acontecem quando há uma quebra na autoridade, um colapso de governo ou algo semelhante, e você vê o lado duro e brutal da natureza humana. Ver o que ocorreu no Sudão ou no Zimbábue, por exemplo, ver como seres humanos podem descer até tal nível de degradação deixa bastante desesperançado. Olhando a humanidade como um todo é impossível de chegar a uma conclusão geral, mas aí tudo se torna um questão de temperamento, se você se impressiona mais pelos pontos positivos do que pelos negativos. Talvez eu tenha escrito aquilo num dia ruim, outras vezes eu não teria citado Thomas Hobbes (risos). Mas há vezes em que penso que essa abordagem muito pessimista está certa, e que só uma forma de autoridade - não quero dizer com isso um despotismo ou tirania -, mas uma forma de autoridade coletiva, aprovada por todos, pode controlar essa anarquia que resulta não só em caos mas numa descida a uma degradação.

Por um lado, há muitas coisas positivas na maneira de como as pessoas se comportam, por outro lado, há uma sombra que permanece pessimista. Uma das razões desse pessimismo está no fato de que possuímos capacidades óbvias de explodirmos a nós mesmos, mas também de destruir o planeta, no sentido ecológico. Minha aposta na sobrevivência nos próximos 200 anos não seria muito alta, acho que temos mais capacidade de nos destruir do que nos preservar.

Como é hoje a relação dos alemães com Hitler e o período nazista de sua história?

Não há hesitações em discutir tudo isso. A Alemanha, mais do que qualquer outro país, deu grandes passos para tentar afrontar seu infeliz e turbulento passado. Se você comparar com Japão, Espanha, Itália ou a França de Vichy, a Alemanha foi quem mais fez esforços para lidar com isso, investigar e tentar entender o que ocorreu. A Alemanha é hoje provavelmente o país menos nacionalista da Europa, se não do mundo - à parte talvez a Holanda e os países escandinavos. De todo o modo, é um dos grandes países nada nacionalista. É uma democracia muito sólida e consolidada. Houve uma total e completa transformação em relação à Alemanha dos tempos de pré-guerra. O país mostrou que é possível aprender algo com a História, mesmo que a um certo custo. A Alemanha é uma história de sucesso. Muito desse sucesso vem da forma como os alemães tentam afrontar a parte mais nociva de seu passado. Nas escolas, nas universidades, a era do nazismo e do Holocausto está devidamente tratada, quase a ponto de as pessoas dizerem que já se falou demais disso tudo, que os alemães precisam recuperar outras partes de seu passado e que sua história não se resume à experiência nazista. Em termos gerais, houve grande avanços em relação a isso na Alemanha, sobretudo nos últimos 20 anos. É algo admirável.

Qual é a sua opinião no debate sobre o fim da história, proposto no livro de Francis Fukuyama, o choque de civilizações (Samuel Huntington) e as chamadas guerras étnicas e culturais?

Quando o livro de Fukuyama foi lançado, em algumas das resenhas que li notei que havia uma forma meio banal de lidar com aquilo. Pensei que é claro que se presume que a história tende a continuar. Mas ele quis se referir ao triunfo do capitalismo e da civilização ocidental. Os acontecimentos dos últimos dez anos ou mais demonstraram que era muito otimista em sua nova posição liberal-conservadora. Não chegamos ao final da história nesse sentido, agora temos novos e assustadores desafios, como o do terrorismo global, e também grandes ameaças potenciais no Oriente Médio. Não se sabe o que vai acontecer, provavelmente o Irã terá mísseis nucleares, um fator muito desestabilizante para região. O Paquistão é uma enorme preocupação, com os conflitos em suas fronteiras. Paquistão e a Índia possuem armas nucleares e estão ao lado um do outro. Há uma enorme capacidade para destruição e perigo. O perigo das chamadas "guerras culturais", como Al Qaeda, é obviamente presente, mas penso que temos de ter um senso de perspectiva em relação a isso. Se esse tipo de oposição ao Ocidente - centrado nos EUA mas que atinge o Ocidente em geral -, se restringe a grupos dentro da Al Qaeda capazes de lançar ataques suicidas ou atentados como os ocorridos em Londres, Madri ou nas Torres Gêmeas, é uma coisa. Mas se você tem isso alinhado a um poder, a uma nação ou Estado com mísseis nucleares, os perigos são outros. Mas historiadores só sabem lidar com o passado, não com o futuro. Como qualquer pessoa, só podemos especular sobre o futuro e esperar pelo melhor. De uma certa forma, é difícil ter esperança, vide os problemas insolúveis como na Palestina e Israel, um ferida aberta que não cicatriza e origina outros problemas.

domingo, 20 de maio de 2012

[POL] Um Proeminente Historiador Alemão lida com os Tabus da História do Terceiro Reich

Mark Weber

Quase metade de um século após sua despedida dramática, o Terceiro Reich continua a fascinar milhões e provocar discussão acalorada. Historiadores, sociólogos, jornalistas e pessoas esclarecidas debatem questões como: Como foi possível o regime Nacional Socialista? Quão profundo foi o apoio popular a Hitler e seu governo? Foi o regime Nacional Socialista "reacionário" ou "moderno", ou alguma combinação de ambos? O Terceiro Reich representou uma aberração ou continuidade na história alemã? Qual é a origem e a natureza precisa da "solução final da questão judaica"?

Poucas pessoas são tão qualificadas para lidar com tais questões quanto o Dr. Ernst Nolte, professor emérito de História na renomada Universidade Livre de Berlim. Melhor conhecido por seu aclamado estudo do fenômeno do fascismo - publicado em inglês como As Três Faces do Fascismo - Nolte é o autor de numerosos livros e artigos acadêmicos. Sem ser estranho à controvérsia, foi o professor Nolte que provocou o debate intelectual furioso durante o final dos anos 1980 sobre o legado de Hitler e do Nacional Socialismo Alemão, conhecido como a "controvérsia dos historiadores", ou Historikerstreit.

Nolte continua a discussão disto, em seu último e mais controverso livro - Pontos de Contestação: Controvérsias Atuais e Futuras sobre o Nacional Socialismo, 1993, Propyläen - um trabalho caracterizado pelas observações e discernimentos cativantes, e escrito com um estilo de narrativa agradável que significa tanto para o especialista como para o leitor culto. Este livro atrativamente produzido foi publicado por uma das editoras mais proeminentes e respeitadas da Alemanha.

Hitler

Como ele deixa claro repetidas vezes neste livro, o professor de Berlim não é certamente nazista ou "apologista de Hitler". (Nolte pode ser caracterizado como um céptico tradicionalista.) Ao mesmo tempo, contudo, ele tenta, ao longo do livro, entender o significado de Hitler, apresentando uma visão complexa do líder alemão que contrasta consideravelmente com a imagem midiática popular.

Contrariamente à visão geral de Hitler como um pessoa de baixa cultura e ignorância, as transcrições das "conversas informais" do líder alemão com seus colegas, mostra-o como sendo um homem de inteligência extarordinária, percepção e conhecimento muito extenso. Hitler compreendia francês e inglês, e algum italiano. Ele lia vorazmente, e tinha um incrível conhecimento em muitas áreas. Uma leitura das transcrições de suas conversas com o Ministro Albert Speer, por exemplo, mostra que Hitler tinha um conhecimento especializado em armamentos. (pág. 163)

Nolte ressalta o trabalho de Rainer Zitelmann, um jovem historiador alemão que reuniu evidência constrangedora que mostra que Hitler foi um líder mais notavelmente visionário, sutil, inteligente e "moderno" do que os historiadores têm entendido ou conhecido (pág. 131, 150) Como Nolte observa, o historiador britânico Alan Bullock argumenta que no campo militar, as idéias e inovações de Hitler foram mais avançadas e progressistas do que aquelas de outros estadistas da época.

Muito mais precisamente do que Churchill, Stalin e Roosevelt, Hitler anteviu o formato do mundo que emergeria das conseqüências da Segunda Guerra Mundial. Ele anteviu claramente a rivalidade da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, e o lugar da Alemanha no mundo do pós-guerra.

Realizações

Uma compreensão verdadeira do Terceiro Reich, Nolte mantém, exige um conhecimento não somente das falhas de Hitler, mas também de suas realizações inegáveis como líder político e estadista.

Talvez o "grande empreendimento" de Hitler - na visão de um historiador citado aqui - foi seu sucesso em ganhar o apoio da grande maioria do povo alemão. Isto foi devido em grande parte a outra façanha: o sucesso de Hitler em tirar a Alemanha da Grande Depressão Mundial, e em criar um "milagre econômico" com pleno emprego e prosperidade sem inflação.

Uma "realização incrível" foi o sucesso de Hitler, em apenas cinco anos, em transformar uma nação forçosamente desmilitarizada na potência militar mais forte da Europa.

Após uma visita à Alemanha em 1936, David Lloyd George - que foi Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha na Primeira Guerra Mundial - elogiou Hitler como "a sorte grande que apareceu em seu país desde Bismarck, e pessoalmente diria desde Frederico, o Grande."

Ditadura Fraca

O Terceiro Reich de Hitler marcou uma imagem própria de um Führerstaat (Estado de Liderança) totalitário, "monocrático" e autoritário. Infelizmente, afirma Nolte, muitos historiadores têm aceitado indiscriminadamente esta imagem defeituosa.

Ecoando argumentos que foram feitos por outros, incluindo o historiador britânico David Irving*, Nolte esclarece que a autoridade e poder no Terceiro Reich foi na verdade mais difusa do que muitos compreendem. Com a negligência de Hitler, líderes políticos e uma rede desconcertante de agências de Estado e partidárias competiam entre si, frequentemente trabalhando em propostas antagônicas.

Comentando (talvez com algum exagero) neste estado de coisas, um Joseph Goebbels frustrado escreveu em seu diário em 1942: "Qualquer um faz e aprova o que quer porque não há uma autoridade forte em qualquer lugar... O partido faz sua própria coisa, e não se permitirá influenciar por qualquer um." Os ministérios governamentais do Terceiro Reich inteiro permaneceram praticamente "livres do Nazismo", afirma Nolte, e enquanto muitos jovens oficiais foram dedicados nacional socialistas, as forças armadas alemãs permaneceram em grande parte livres da influência partidária nazista.

Sir Neville Henderson, embaixador britânico em Berlim em 1939, lembrou de Hitler como sendo essencialmente um homem racional e moderado, enquanto que o chefe de propaganda alemão Dr. Goebbels reclamou durante a guerra da falta de iniciativa de Hitler. Como Nolte observa, o historiador Hans Mommsen caracterizou Hitler como um "ditador fraco". (pág. 179)

Na vida cultural e intelectual, as numerosas rivalidades oficiais contribuíram para fomentar um grau surpeendente de "pluralidade". O ministro de assuntos da Igreja aguçadamente criticou as visões "neo-pagãs" do ideólogo do partido Rosenberg que, de sua parte, denunciou os textos do ministro da educação Rust como ideologicamente direcionados de maneira errada. (pág. 175)

Fazendo paralelos entre o estilo de governo do Terceiro Reich de Hitler e o New Deal de Roosevelt, Nolte sugere que um grau de "caos" das autoridades e agências governamentais podem ser um aspecto integrante do moderno estado democrático liberal. (pág. 384)

* David Irving não tem formação acadêmica em história, está mais para um investigador especializado. Os críticos de suas idéias geralmente lembram isso e o acusam de ser um charlatão. No entanto, Irving possui uma vasta bibliografia sobre o Terceiro Reich, e suas obras são fonte de consulta quase obrigatória para estudiosos desse período.

Reacionário ou Moderno?

Frequentemente retratado como a quintessência do regime "reacionário", Nolte reune considerável evidência aqui para mostrar que o Terceiro Reich foi, em muitos aspectos, uma sociedade "moderna" típica. Em anos recentes, Nolte e outros historiadores alemães (geralmente mais jovens) têm enfatizado mais e mais fortemente as tendências "modernistas" no Terceiro Reich, que antecipou desenvolvimentos nos Estados Unidos e em outras sociedades democrático-liberais. "Na sua essência", uma historiadora recentemente concluiu (pág. 150), o Nacional Socialismo alemão foi uma "força modernizadora, anti-tradicional." (N. do T.: talvez tenha a ver com o fato de que os principais líderes nazistas eram jovens; Hitler tinha 44 anos quando assumiu o cargo de Chanceler.)

Nolte lembra aqui das políticas inovadoras de planejamento urbano e ambientalismo de larga escala, sua promoção de casas populares modernas para a população, educação para crianças super dotadas de famílias pobres em escolas de elite progressistas, um processo forte de democratização dentro das Forças Armadas Alemãs, o caráter do partido Nacional Socialista como um "partido popular" vaso e não-sectário, e a eliminação do desemprego em massa e a criação de empregos através de programas que podem ser chamados de "keynesianos".

Mesmo a máquina de propaganda malígna do Dr. Goebbels pode ser mais acuradamente descrita como um "instrumento moderno de governo segundo um modelo americano, através do qual as democracias procuram continuar seu poder na sociedade pós-burguesa e perpetuar seu sistema tecnocrático." (pág. 150)

A Guerra Civil Européia

Uma premissa central deste livro é a visão do autor de que o núcleo da história européia no século XX é a era de 1914 a 1991 - isto é, do início da Primeira Guerra Mundial até o colapso da União Soviética.

Nolte caracteriza este período como a grande Guerra Civil Européia, uma luta de vida e morte entre as forças do Comunismo, de um lado, e o resto da Europa e o Ocidente, do outro. Ele escreve (pág. 11):

A grande guerra civil do século XX foi a luta de vida e morte entre o Comunismo milenar, que chegou ao poder pela primeira vez em um grande Estado (Rússia) em 1917, e todas as outras forças, o qual estava convencido de que elas estavam destinadas ao fracasso como "capitalistas" ou "burguesas", embora estas últimas estivessem concentradas em força surpreendente e decisão contra o Nacional Socialismo Alemão...

O ponto alto desta luta foi o embate titânico entre os exércitos da Rússia Soviética e da Alemanha Nacional Socialista.

Estrela Vermelha ou Suástica?

Voltando para "futuras controvérsias", Nolte lida demoradamente com a natureza e o impacto do Comunismo Soviético (Bolchevismo). Muito mais do que tem sido o caso com a Alemanha Nacional Socialista, ele sugere, historiadores têm aceitado rapidamente a imagem propagandística do regime soviético de si próprio. A maioria dos historiadores ocidentais falhou em apreciar a realidade sanguinária do Comunismo Soviético, ou a real ameaça que ela significou para a Europa.

Na época de sua morte em 1953, Nolte observa, Stalin era admirado por milhões ao redor do mundo, mesmo tendo ele sentenciado à morte em épocas de paz mais pesoas do que Hitler ordenaria mais tarde durante a guerra. Stalin impôs a revolução social mais sanguinária na história - a chamada "coletivização" da agricultura - que significou a morte de milhões dos fazendeiros mais produtivos da Rússia Soviética. (pág. 158)

Como Nolte esclarece, mais e mais evidência têm vindo à luz em anos recentes mostrando que Stalin estava preparando um ataque contra a Alemanha e a Europa em 1941, e que o ataque "Barbarossa" de Hitler em 22 de junho de 1941, teve o caráter de um ataque preventivo. Esta tese, que se for verdadeira exigirá uma revisão dramática da visão geralmente aceita da Segunda Guerra Mundial como um todo, foi apresentada de forma persuasiva pelo historiador russo V. Suvorov em seu livro Icebreaker. (pág. 269 - 271)

(N. do T.: a idéia do "ataque preventivo" tem recebido uma aceitação relativamente grande entre os historiadores, um dos primeiros a mencioná-la foi Ernst Topitsch em Stalin´s War, mais recentemente John Mosier em Deathride: Hitler vs. Stalin (págs. 81-82) e Constantine Pleshakov em Stalin´s Folly (pág. 52). No entanto, Suvorov e Pleshakov divergem quanto à razão do ataque da URSS contra a Alemanha, o primeiro acha que era o expansionismo comunista e o segundo diz que seria um ataque preventivo contra a ameaça da Alemanha.)

Para milhões de europeus nos anos 1920 e 1930, a Estrela Vermelha e a Suástica representavam as únicas realidades alternativas para o futuro da Alemanha, e de fato, para o resto do Ocidente. Hitler não era de modo algum o único líder europeu a tomar seriamente o perigo soviético para a ordem, cultura e civilização européias. Sem a realidade desta ameaça, a resposta "fascista" da Alemanha (e de outras nações européias) é dificilmente concebível.

Hitler, na visão de Nolte, era um anti-comunista por causa da energia espiritual e determinação "comunista". Sozinho entre seus contemporâneos, ele lutou contra o comunismo com brutalidade radical, não-burguesa. (pág. 349 - 367). Nolte escreve (pág. 366):

A história mundial do século 20 é somente compreensível quando alguém deseja conhecer a conexão feita pelos inimigos do Bolchevismo entre o medo da aniquilação e uma intenção de aniquilação, e reconhecer a simples verdade que as declarações de anti-comunistas sobre as maldades do Bolchevismo eram bem fundamentadas. Desde 1990, pelo menos, estes fatos não são mais colocados em dúvida, e que mesmo os exageros propagandísticos (de anti-comunistas) refletiam um argumento racional...

Algum dia, a questão da hierarquia de motivos de Hitler e do Nacional Socialismo tornar-se-ão um motivo de controvérsia na literatura acadêmica, e a tese da primazia do anti-comunismo é provavelmente para ser o ponto principal.

O Tabu Judeu

Totalmente consciente que qualquer discussão franca do papel judaico na história do século XX é carregado de perigo, Nolte mesmo assim corajosamente investe nesse tabu protegido a ferro e fogo. Por exemplo, ele cita aprobativamente palavras do estudioso israelense do Holocausto Yehuda Bauer: "A visão Nacional Socialista era precisa em relação aos judeus como um elemento estrangeiro na sociedade européia, com uma religião e ancestralidade diferentes." (pág. 376) Em outro ponto, Nolte escreve: "Para os sionistas, incluindo Herzl e Weizmann, o antisemitismo era uma reação inteiramente natural das "nações hospedeiras" para a atividade separatista e agressiva dos judeus, que era baseada na superioridade intelectual." (pág. 419)

Tomando nota da tradição judaica de oposição zelosa a qualquer regime que parecia ameaçar os interesses judeus, Nolte acrescenta que semanas após a chegada de Hitler ao poder, líderes judeus influentes estavam prontos para organizar uma guerra econômica contra a Alemanha.

No ínicio da guerra na Europa em 1939, o líder sionista Chaim Weizmann preparou um tipo de declaração de guerra contra a Alemanha, e em agosto de 1941, judeus soviéticos de destaque emitiram um apelo apaixonado para os judeus do mundo a se juntar a uma luta de vida ou morte contra a Alemanha Nacional Socialista. (pág. 396)

Rejeitando a visão do "Bolchevismo Judaico" como enganosamente simplista, Nolte diz que é "fato inegável" de que os judeus tiveram um papel altamente desproporcional na revolução bolchevista. "Nada era mais compreensível do que o fato de que judeus e membros de outras minorias étnicas teriam um papel principal nas revoluções de fevereiro e outubro de 1917 (na Rússia): dos dez homens que se encontraram com Lênin em 23 de outubro de 1917, e concordaram em lançar a revolução (bolchevista), não menos que seis eram judeus." Referindo-se ao papel judeu nos anos iniciais críticos do Estado Soviético, Nolte comenta: "É de fato duvidoso se o regime bolchevista pudesse ter sobrevivido à guerra civil (russa) (de 1917 - 1920) sem homens como Trotsky, Zinoviev, Sverdlov, Kamenev, Sokolnikov e Uritsky." (pág. 418)

Revisionismo Radical

O que é mais impressionantemente novo neste livro é o tratamento informativo e não preconceituoso do trabalho que ele chama de "revisionismo radical". Com sinceridade que é muito rara entre os acadêmicos proeminentes, Nolte confessa (pág. 7 - 9) no prefácio:

... Devo esclarecer que, sem ter examinado-os com mais detalhes, aceito como verdade a realidade dos eventos, incluindo o número de seis milhões de vítimas (judaicas) e a importância primária das câmaras de gás como um instrumento de extermínio, como afirmado pelos perpetradores e vítimas nos julgamentos de larga escala dos anos 1960, e que não foram questionados pelos advogados de defesa dos réus.

Somente muito tarde, no final dos anos 1970, tornei-me cônscio das dúvidas e das contra-afirmações de uma nova escola, a dos revisionistas. Durante este mesmo período, a pesquisa de historiadores de história contemporânea da estatura de Martin Broszat (que fundou a então chamada escola "funcionalista"), colocou em questão a afirmação de que os eventos de extermínio foram o resultado de uma intenção de Hitler, e assim de uma ideologia.

Ao mesmo tempo, a tese mais radical, mais efetivamente expressada pelos franceses Paul Rassinier e Robert Faurisson, de que nunca houve uma "solução final" no sentido de um extermínio em massa baseado ideologicamente, e que as mortes de centenas de milhares nos campos e guetos, ou como resultado de execuções pelos Einsatzgruppen (forças policiais de segurança), devem ser vistas no contexto das demandas e circunstâncias da época e certos desejos excessivos por parte da liderança militar. Esta tese não pode mais ser rejeitada como sendo simplesmente sem sentido ou perversa.

Eu logo cheguei à conclusão que esta escola (revisionista) estava sendo tratada na literatura oficial como sendo um modo amador, isto é, da simples rejeição, ao colocar a perspectiva dos autores e, acima de tudo, ao tratá-la com silêncio.

Mas mesmo uma rápida olhada é suficiente para mostrar que a perspectiva do socialista e antigo membro da Assembléia Nacional Francesa, Paul Rassinier, apesar de anti-sionista, é também humana. E ninguém pode acusar Robert Faurisson ou Carlo Mattogno de falta de conhecimento especializado.

No capítulo intitulado " 'A Solução Final da Questão Judaica' na Visão dos Revisionistas Radicais", Nolte lida detalhadamente com os escritos de revisionistas do Holocausto Proeminentes, incluindo Rassinier, Faurisson, Carlo Mattogno e Arthur Butz. Nolte também relata - de forma não polêmica e com algum respeito - do trabalho do Instituto de Revisão Histórica e do seu Jornal.

Defendendo o trabalho destes pesquisadores (pág. 308), ele escreve:

A opinião comumente mantida de que quaisquer dúvidas sobre a visão dominante em relação ao "Holocausto" e aos Seis Milhões devem ser tratadas, desde o princípio, como a expressão de uma perspectiva perversa e desumana, e, se possível, banida... é absolutamente inaceitável, e de fato deve ser rejeitada como um ataque contra o princípio da liberdade acadêmica.

... As questões (levantadas pelos revisionistas) sobre a confiabilidade das testemunhas, o valor dos documentos como evidência, a praticabilidade de certas operações, a credibilidade das estimativas estatísticas, e a importância das circunstâncias não são apenas permissíveis, mas, no terreno acadêmico, inevitáveis. Além disso, toda tentativa de suprimir os argumentos e evidência (revisionistas) ignorando-os ou proibindo-os deve ser visto como ilegítimo.

Apesar de sua atitude séria e respeitosa em relação à pesquisa revisionista, e de sua rejeição de algumas das afirmações extensamente aceitas do Holocausto, seria um erro afirmar que Nolte é um "revisionista do Holocausto".

Ele aceita, por exemplo, que entre cinco e seis milhões de judeus morreram como vítimas da política alemã durante a guerra, e que centenas de milhares de judeus foram gaseados em Auschwitz-Birkenau, Treblinka e outros campos (pág. 289 - 290).

Característica é a sua visão das bem conhecidas "confissões" do comandante de Auschwitz Rudolf Höss. Apesar de reconhecer que o argumento central da evidência do Holocausto foi obtida por meio da tortura, e que porções-chaves são "exageradas", Nolte mesmo assim reconhece-as como "qualitativamente" válidas. (pág. 293 - 294, 310)

Analogamente, Nolte é céptico de pelo menos alguns trechos do "depoimento" da testemunha das "câmaras de gás" Filip Müller, e lembra o "relatório testemunhal" de Elie Wiesel (em seu conhecido livro A Noite) como sendo "sem muito crédito. (pág. 311, 476). Ainda, Nolte defende que deve haver um fundo de verdade na estória do "gaseamento" porque ela foi confirmada - na sua essência, senão em seus detalhes - por muitas "testemunhas".

Nolte resume de forma precisa as descobertas do engenheiro americano Fred Leuchter**, que examinou as supostas "câmaras de gás" de Auschwitz em 1988 - e concluiu que elas nunca foram usadas para matar pessoas como alegado. Mais recentemente, Nolte defendeu favoravelmente o relatório detalhado do químico alemão Germar Rudolf, que igualmente conduziu o exame forense das pretendidas "câmaras de gás" de Auschwitz. (Rudolf reafirmou as conclusões feitas por Leuchter.) Em uma carta de janeiro de 1992, Nolte elogiou o relatório Rudolf como "uma importante contribuição para um assunto muito importante," e expressou a esperança que ela provocará extensa discussão. "A palavra final nesta troca entre especialistas técnicos," escreve Nolte, "ainda não foi dita." (pág. 316)

Em relação à evidência documental, Nolte nota que "O fato de que tantos documentos de Nuremberg existirem somente como cópias, e que a grande maioria dos 'originais' nunca term sido tornados disponíveis é um argumento válido que não pode sequer ser dispensado." (pág. 314)

** Leuchter não é engenheiro de formação. Ele trabalhou com câmaras de gás para prisioneiros sentenciados à morte nos EUA. Acabou ganhando fama no julgamento do neonazista e negacionista do Holocausto Ernest Zundel nos anos 1980. Suas alegações foram colocadas em dúvidas por especialistas da área e seus contratos com os governos estaduais foram cancelados. Leuchter caiu no ostracismo e teve prisão decretada em países da Europa por estar envolvido com a negação do Holocausto.

Reflexão Real

Consistente com o argumento forte do autor por uma visão mais contemplativa e objetiva do fenômeno Hitler e Nacional Socialismo, Nolte apresenta suas visões frequentemente heterodoxas sem polêmica, de fato, com uma certa reserva e tentativa. Diferentemente daqueles que incessantemente insistem que não devemos "jamais esquecer" as "lições do Holocausto", Nolte pede uma avaliação da era Hitler tão livre quanto seja possível das polêmicas estridentes e emotivas e dos objetivos interesseiros. Qualquer compreensão útil verdadeira do Terceiro Reich, Nolte defende persuasivamente, exige uma compreensão informada do contexto histórico.

Enquanto Nolte não lembraria deste livro como qualquer tipo de palavra final dos "pontos de disputa" trabalhados aqui, ele conclui (pág. 431) com palavras de otimismo:

Eu confiantemente espero que no futuro reflexão real sobre a era Nacional Socialista terá um papel maior na literatura acadêmica, e que as controvérsias da parte final para as quais este livro é dedicado tornar-se-ão temas para discussão.

Apesar da distorcida imagem midiática popular da história do século XX que atualmente predomina é certa de continuar a influenciar por muitos anos ainda, livros como este dão razão para esperança que a verdade e o bom senso possam eventualmente prevalecer.

http://www.ihr.org/jhr/v14/v14n1p37_Nolte.html

O perfil do historiador Ernst Nolte pode ser visto aqui:

http://en.wikipedia.org/wiki/Ernst_Nolte

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Arte de Manipular Imagens

Apesar de a manipulação fotográfica ter se tornado mais comum na era das câmeras digitais e softwares de edição de imagens, ela é quase tão antiga quanto a própria fotografia. Na foto abaixo, feita pelo fotógrafo Mathew Brady em 1865, o General Sherman é visto junto com seus oficiais de confiança. O General Francis P. Blair (extrema direita) foi adicionado à fotografia original.




Na edição digital, as fotografias são obtidas por câmeras digitais e baixadas diretamente em um computador. A edição de imagem compreende qualquer coisa que pode ser feita com uma foto. A manipulação fotográfica é frequentemente mais explícita do que alterações sutis no balanço de cor e contraste e pode envolver a colocação de uma cabeça em um outro corpo, por exemplo. A fotografia abaixo mostra como a revista Yated Ne'eman alterou digitalmente em abril de 2009 a foto oficial do gabinete do Primeiro-Ministro Binyamin Netanyahu retirando duas mulheres e substituindo-as por homens, por motivos religiosos.



Antes dos computadores, a manipulação fotográfica era realizada pela repintura com tinta, pintura, exposição dupla, união de fotos e aerografia. Abaixo seguem alguns exemplos de manipulação fotográfica feita pelos soviéticos, que dominaram essa "arte", já que as imagens possuíam forte apelo político.

a) Nesta foto, o Comissário Nicolai Yezhov é "sumido" após cair em desgraça diante do ditador Josef Stalin.



b) Nesta foto, Trotsky é removido da foto.




c) No início dos anos 1960, durante a Corrida Espacial, um dos astronautas soviéticos tornou-se persona non-grata e foi removido.



Em fotos antigas, é fácil notar a manipulação em virtude do fato de que a "qualidade" da foto manipulada tem baixa definição, com rostos e definições de corpos geralmente borrados ou com textura excessiva.



Existe a Verdade?

Clóvis Rossi, 02/03/2012


Milagros Pérez Oliva, a ombudsman do jornal espanhol "El País", despediu-se do cargo no domingo, ao terminar o mandato de três anos. Despediu-se com um belo texto, que, em resumo, diz que, "em jornalismo, a verdade não pode ser a média entre as diferentes versões" e, mais grave ainda, nos acusa, aos jornalistas, de "termos sido negligentes na defesa da verdade factual".

Eu me proponho hoje discutir essas duas afirmações centrais ao artigo, cuja íntegra está aqui.

A primeira afirmação me parece essencialmente correta. Faz uns 30 anos, desde as famosas greves no ABC, que implico com a maneira como nos livramos de buscar a tal verdade factual, usando a cômoda muleta de publicar as diferentes versões. Ou, concretamente, o usual no jornalismo, em caso de greves, tem sido informar que o sindicato x calcula que x% dos trabalhadores pararam mas os patrões juram que foram apenas y%.

Ou, posto de outra forma, publicamos conscientemente pelo menos uma mentira, talvez duas.

Muito bem. A questão seguinte é saber se há de fato condições de o próprio repórter constatar quantos por cento aderiram à greve.

Nesse exemplo, acho até que dá, com esforço, claro, e contando com fontes confiáveis.

Mas há outro exemplo de versões contraditórias serem aceitas, que é o caso do cálculo de multidões. A "Folha" até fez um esforço de solicitar ao Datafolha que calculasse quantas pessoas havia em um comício x ou y ou em uma festa tipo Parada Gay. Mas é um esforço caro e, além disso, impraticável quando o evento não tem megaimportância.

Aí, acho que buscar a verdade factual é algo que escapa à capacidade do jornalista. Pelo menos da minha. Eu não sei calcular multidões e nem me atrevo a fazê-lo.

Pulemos agora para o segundo ponto levantado pela ombudsman, a suposta ou real negligência "na defesa da verdade factual".

Primeiro, acho que generalizações como essa são quase sempre incorretas. Haverá jornalistas que realmente negligenciaram a busca da verdade factual, mas haverá também os que se matam (às vezes literalmente) nessa busca.

O ponto aqui acho que é outro: existe A verdade?

Gosto muito de uma frase que ouvi de Carl Bernstein, o mitológico repórter do caso Watergate, em uma palestra séculos atrás na USP: "Reportagem é a melhor versão da verdade possível de obter".

Por que gosto? Porque uns 80% ou mais do que sai nos jornais não têm um jornalista como testemunha ocular. Logo, o trabalho do repórter é reconstituir os fatos a partir das versões das testemunhas oculares, sem que ele possa, de fato, jurar que A verdade é esta ou aquela.

Conto a propósito uma experiência pessoal que me angustiou meses: em 2002, Israel invadiu os territórios palestinos (a parte deles que havia sido devolvida à Autoridade Palestina). Um dado dia, houve um confronto pesado no campo de refugiados de Jenin, ao qual os jornalistas não tínhamos acesso. Bem que tentei chegar, junto com uma equipe de TV italiana, mas ficamos apenas numa estradinha que daria acesso à cidade, a alguns quilômetros de distância.

As versões sobre o fato eram absolutamente contrapostas: os palestinos juravam que houvera uma carnificina; os israelenses preferiam "violentos combates".

Quando finalmente consegui chegar ao campo de refugiados, tudo o que podia fazer era recolher testemunhos de ambos os lados. O texto final --aliás considerado antológico pelo ombudsman da época, se o leitor me permite um pouco de autopropaganda-- ia além de "violentos combates" mas não chegava a carnificina.

Passei os meses seguintes angustiado, achando que poderia ter carregado a mão demais ou de menos, até que saiu um relatório da Cruz Vermelha que dava razão à minha avaliação. Curiosamente, um jornalista inglês do "Guardian" publicou junto com o relatório o seu próprio alívio pelas informações levantadas pela Cruz Vermelha porque ele também ficara com a mesma sensação que eu.

Resumo: acho que fiz todo o esforço para obter a tal "verdade factual", mas não a dou por alcançada, como creio que ocorre em bom número de casos, que se passam longe dos olhos da gente.

Ainda assim, a discussão é absolutamente relevante.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/1056252-existe-a-verdade.shtml