sexta-feira, 8 de junho de 2012

A Arte da Guerra

"Evitar guerras é muito mais gratificante do que vencer mil batalhas.”


A Arte da Guerra (ou "Estratégia Militar de Sun Tzu"), é um tratado militar escrito durante o século IV a.C. pelo estrategista conhecido como Sun Tzu. O tratado é composto por treze capítulos, onde em cada capítulo é abordado um aspecto da estratégia de guerra, de modo a compor um panorama de todos os eventos e estratégias que devem ser abordados em um combate racional. Acredita-se que o livro tenha sido usado por diversos estrategistas militares através da história como Napoleão, Adolf Hitler e Mao Tse Tung.

Desde 1772 existem edições européias (quatro traduções russas, uma alemã, cinco em inglês), apesar de serem consideradas insatisfatórias. A primeira edição ocidental tida como uma tradução fidedigna data de 1927.

Apesar da antiguidade da obra, nenhuma obra ou tratado é tão compreensível e tão atual quanto A Arte da Guerra.

Com seu caráter sentencioso, Sun Tzu forja a figura de um general cujas qualidades são o segredo, a dissimulação e a surpresa.

Hoje, A Arte da Guerra parece destinado a secundar outra guerra: a das empresas no mundo dos negócios. Assim, o livro migrou das estantes dos estrategistas para as do economista e do administrador.

Embora as táticas bélicas tenham mudado desde a época de Sun Tzu, esse tratado teria influenciado, segundo a Enciclopédia Britânica, certos estrategistas modernos como Mao Tsé-Tung, em sua luta contra os japoneses e os chineses nacionalistas.

A obra é composta por 13 capítulos:


Capítulo 1 - PLANEJAMENTO INICIAL

O primeiro capítulo de A Arte da Guerra é dedicado à importância da estratégia. Como o clássico I Ching afirma: "O líder planeja no início, antes de começar a agir", e "o líder avalia os problemas e os previne”. Em termos de operações militares, A Arte da Guerra coloca cinco aspectos que devem ser determinados antes de empreender qualquer ação: Caminho, o clima, o terreno, a liderança militar e a disciplina.

Neste contexto, o Caminho (Tao*) se refere à liderança civil, ou, antes, ao relacionamento entre a liderança política e a população. Tanto na linguagem taoísta como na confucionista, um governo justo é descrito como "imbuído pelo Tao", e Sun Tzu também fala do Caminho como aquele que "induz o povo a ter o mesmo objetivo que os líderes".

O exame do clima, o problema da estação mais propícia para a ação, também tem relação com o interesse pelo povo, significando tanto a população em geral quanto os militares. O ponto essencial, aqui, é evitar a interrupção das atividades produtivas do povo, as quais dependem das estações, e evadir extremos climáticos que poderiam criar obstáculo ou prejudicar as tropas no campo de batalha.

O terreno deve ser avaliado em termos de distância, grau de dificuldade para a locomoção, dimensões e segurança. A utilização de batedores e de guias nativos é importante nesse ponto porque, como diz o I Ching, "Ir à caça sem um guia é perder o dia".

Os critérios oferecidos por A Arte da Guerra para avaliar os líderes militares são as virtudes tradicionais, as mesmas que são recomendadas pelo Confucionismo e pelo Taoísmo medieval: a inteligência, a confiabilidade, a humanidade, a coragem e a austeridade. De acordo com o grande budista Chan, Fushan: "Humanidade sem inteligência é como ter um campo, mas não ará-lo. Inteligência sem coragem é como ter uma vegetação florescente, mas não limpá-la das ervas daninhas. Coragem sem humanidade é saber colher, mas não saber semear”. As outras duas virtudes, a confiabilidade e a austeridade são as que possibilitam ao líder obter, respectivamente, a lealdade e a obediência das tropas.

O quinto elemento a ser avaliado, a disciplina, refere-se à coerência e à eficiência organizacional. A disciplina está muito ligada à confiabilidade e à austeridade, ambas desejáveis nos líderes militares, visto que ela utiliza os mecanismos correspondentes da recompensa e da punição. Muita ênfase é posta na tarefa de estabelecer um sistema claro e objetivo de prêmios e castigos que seja aceito pêlos guerreiros como justo e imparcial. Este foi um dos aspectos mais importantes do Legalismo, uma escola de pensamento que surgiu durante o período dos Estados Belicosos e que acentua mais o valor da organização racional c do estatuto da lei do que o de um governo feudal personalista.

*O Tao não é só um caminho físico e espiritual; é identificado com o Absoluto que, por divisão, gerou os opostos/complementares Yin e Yang, a partir dos quais todas as “dez mil coisas” que existem no Universo foram criadas. O Yin é feminino e representa escuridão, ódio, intolerância, embotamento, sedentarismo e no símbolo do Yin e do Yang, o Yin é representado com uma cor mais escura. O Yang é masculino e representa: luz, atividade, amor, tolerância, criatividade, iniciativa e no símbolo com uma cor mais clara. Juntos representam a união e complementaridade entre os opostos. No meio da claridade do Yang existe um pequeno círculo de sombra de Yin e no meio da sombra do Yin existe um pequeno círculo claro de Yang. O que simboliza o movimento contínuo e constante de evolução dos atributos de um para os atributos do outro. É um conceito muito antigo, adotado como princípio fundamental do taoísmo, doutrina fundada por Lao Zi.

Continuando a discussão dessas cinco avaliações, A Arte da Guerra passa a analisar a importância fundamental da simulação: "Uma operação militar envolve simulação. Mesmo sendo competente, mostra-te incompetente. Embora eficiente, aparenta ser ineficiente.”  É como o Tao-Te King recomenda: "Quem tem grande habilidade mostra-se inapto”.O elemento surpresa, tão necessário para a vitória com o máximo de eficiência, depende de conhecer os outros sem ser por eles conhecido, de modo que o segredo e a informação distorcida são considerados artes essenciais. Falando de maneira geral, a luta corpo a corpo é o último recurso do guerreiro habilidoso. Deste, Sun Tzu diz que deve estar preparado e, no entanto, tem de evitar o confronto direto com um adversário destemido. Mestre Sun recomenda que, em vez de dominar o inimigo diretamente, deve-se cansá-lo pela fuga, fomentar a intriga entre seus escalões, manipular seus sentimentos e usar sua ira e seu orgulho contra si próprio. Assim, em síntese, a proposição inicial de A Arte da Guerra introduz os três aspectos principais da arte do guerreiro: o social, o psicológico e o físico.


Capítulo 2 - GUERREANDO

O segundo capítulo de A Arte da Guerra, sobre a batalha, ressalta as conseqüências domésticas da guerra, mesmo da guerra externa. A ênfase é posta sobre a velocidade e a eficiência, com advertências incisivas para não prolongar as operações, especialmente campo adentro. A importância de se conservar a energia e os recursos materiais recebe atenção particular. Para minimizar o desgaste que a guerra causa na economia e na população, Sun Tzu recomenda a prática de alimentar o inimigo e de usar as forças cativas por meio de um bom tratamento.


Capítulo 3 - ESTRATÉGIA OFENSIVA

O terceiro capítulo, planejamento do assalto, também acentua a conservação — o objetivo geral é chegar à vitória mantendo intacto o maior número possível de bens, sociais e materiais, e não destruindo todas as pessoas e coisas que estejam no caminho. Neste sentido, Mestre Sun afirma que é melhor vencer sem lutar. Várias recomendações táticas reforçam este princípio de conservação geral. Primeiro, por ser desejável vencer sem lutar, Sun Tzu diz que é melhor vencer os adversários logo no início das operações, frustrando assim seus planos. Se isso não for possível, Sun Tzu recomenda isolar o inimigo e torná-lo indefeso. Aqui também poderia parecer que o tempo é essencial, mas, na verdade, velocidade não significa pressa, e uma preparação completa se faz necessária. Sun Tzu conclui enfatizando que, obtida a vitória, esta deve ser completa e total, para evitar os custos de manutenção de uma força de ocupação.

O capítulo prossegue delineando as estratégias para a ação de acordo com o número relativo de protagonistas e de antagonistas, novamente observando que é mais prudente evitar pôr-se em circunstâncias desfavoráveis, se possível. O I Ching diz: "É má fortuna teimar diante de circunstâncias insuperáveis”.Além disso, enquanto a formulação da estratégia depende de uma inteligência prévia, é também imperativo adaptar-se às situações reais da batalha. Como afirma o I Ching: "Chegando a um impasse, muda; depois de mudar, podes prosseguir”.Em seguida, Mestre Sun relaciona cinco modos de averiguar a possibilidade de vitória, de conformidade com o tema de que guerreiros hábeis lutam só quando têm certeza da vitória.

De acordo com Sun, os vitoriosos são aqueles que sabem quando lutar e quando não lutar; os que sabem quando usar muitas ou poucas tropas; aqueles cujos oficiais e soldados formam uma unidade compacta; os que enfrentam os incautos com preparação; e os que são comandados por generais capazes que não são pressionados pelo governo. Este último ponto é muito delicado, visto que põe uma responsabilidade moral e intelectual ainda maior sobre os líderes militares. Enquanto a guerra nunca deve ser deflagrada pêlos militares, como mais adiante se explicará, mas pelo comando do governo civil, Sun Tzu afirma que uma liderança civil ausente que interfere de modo ignorante no comando de campanha "afasta a vitória embaraçando os militares". Novamente, a questão parece ser a do conhecimento; a premissa de que a liderança militar no campo não deve estar sujeita à interferência do governo civil baseia-se na idéia de que a chave para a vitória é o conhecimento profundo da situação real. Delineando esses cinco modos para determinar qual dos lados tem possibilidade de prevalecer sobre o outro, Sun Tzu afirma que quando conhecemos a nós mesmos e aos outros nunca estamos em perigo; quando conhecemos a nós mesmos, mas não aos outros, temos cinqüenta por cento de possibilidade de vencer, e quando não conhecemos a nós próprios nem aos outros, estamos em perigo em qualquer batalha.


Capítulo 4 - DISPOSIÇÕES

O quarto capítulo de A Arte da Guerra trata da formação, uma das questões mais importantes da estratégia e do combate. Numa postura caracteristicamente taoísta, Sun Tzu declara que o segredo para a vitória é a adaptabilidade e a inescrutabilidade. Como o comentador Du Mu explica: "A condição interior do informe é inescrutável, enquanto que a daqueles que adotaram uma forma específica é claramente manifesta. O inescrutável vence, o manifesto perde”. Neste contexto, a inescrutabilidade não é meramente passiva, não significa apenas afastar-se ou esconder-se dos outros; significa, sim, a percepção do que é invisível aos olhos dos outros e a reação a possibilidades ainda não percebidas por aqueles que só observam o manifesto. Discernindo oportunidades antes que sejam visíveis aos outros e agindo com rapidez, o misterioso guerreiro pode tomar conta da situação antes que as coisas se escoem por entre os dedos. Seguindo esta linha de raciocínio, Sun Tzu volta a pôr ênfase na busca da vitória certa pelo conhecimento do momento de agir e de não agir. Torna-te invencível, diz ele, e enfrenta o adversário no momento em que ele é vulnerável: "Os bons guerreiros tomam posição onde não podem perder e não descuidam das condições que tornam o inimigo propenso à derrota." Revendo essas condições, Sun reelabora alguns dos pontos principais para a avaliação das organizações, tais como a disciplina e a ética versus ambição e corrupção.


Capítulo 5 - ENERGIA

O tema do capítulo quinto de A Arte da Guerra é a força, ou o ímpeto, a estrutura dinâmica de um grupo em ação. Aqui, Mestre Sun ressalta as habilidades organizacionais, a coordenação e o uso tanto de métodos de guerra ortodoxos como de guerrilha. Ele enfatiza a mudança e a surpresa, empregando variações intermináveis de táticas e usando as condições psicológicas do adversário para manobrá-lo a posições vulneráveis. A essência do ensinamento de Sun Tzu sobre a força é a unidade e a coerência na organização, utilizando a força do ímpeto antes de contar com as qualidades e habilidades individuais: "Bons guerreiros buscam a eficácia da batalha na força do ímpeto, não em cada pessoa." É esse reconhecimento do poder do grupo para equilibrar disparidades internas e para funcionar como um único corpo de força que distingue A Arte da Guerra do individualismo idiossincrático dos espadachins samurais do Japão feudal posterior, cujas artes marciais estilizadas são tão conhecidas no Ocidente. Esta ênfase é uma das características essenciais que tornou a antiga obra de Sun Tzu tão útil para os guerreiros organizados em corporação da Ásia moderna, entre os quais A Arte da Guerra é amplamente lida e ainda hoje considerada o clássico inigualável de estratégia no conflito.


Capítulo 6 - FRAQUEZAS E FORÇAS

O capítulo sexto aborda, a questão da "vacuidade e da plenitude", já mencionadas como conceitos taoístas fundamentais geralmente adaptados às artes marciais. A idéia é encher-se de energia ao mesmo tempo em que se esvazia o oponente. Como Mestre Sun diz, isto é feito para nos tornarmos invencíveis e para enfrentar os adversários somente quando estes são vulneráveis. Uma das mais simples dessas táticas é muito conhecida não apenas no contexto da guerra, mas também na manipulação social e dos negócios: "Bons guerreiros atraem o inimigo a si; não são eles que atacam o inimigo." Outra função da inescrutabilidade tão intensamente valorizada pelo guerreiro taoísta é a que recomenda conservar a própria energia ao mesmo tempo em que se induz os outros a desperdiçar a sua: "O objetivo de formar um exército é chegar à não-forma", diz Mestre Sun; assim, ninguém poderá elaborar uma estratégia contra ti. Ao mesmo tempo, diz ele, induz o adversário a organizar suas próprias formações, leva-o a esparramar-se; testa o oponente para sondar seus recursos e reações, mas permanece desconhecido. Neste caso, o informe e o fluido não são apenas meios de defesa e surpresa, mas meios de preservar o potencial dinâmico, a energia que pode ser facilmente perdida por manter-se numa posição ou formação específica. Mestre Sun compara uma força bem-sucedida à água, que não tem forma constante, mas que, como observa o Tao-Te-King, prevalece sobre tudo a despeito de sua fraqueza aparente. Sun afirma: "Uma força militar não tem formação constante, a água não tem forma constante. A habilidade de alcançar a vitória mudando e adaptando-se de acordo com o inimigo é chamada de genialidade”.


Capítulo 7 - MANOBRAS

O sétimo capítulo de A Arte da Guerra, sobre a luta armada, trata da organização efetiva no campo e das manobras de combate, e também reintroduz vários dos principais temas de Sun Tzu. Começando com a necessidade de informações e preparação, Sun afirma: "Entra em ação somente depois de fazer a devida avaliação. Aquele que por primeiro avaliar a distância do perto e do longe vencerá — está é a lei da luta armada”. O I Ching diz: "Prepara-te, e terás boa fortuna." Novamente expondo sua filosofia tática minimalista/essencialista, característica que lhe é muito própria. Sun Tzu continua: "Suga a energia do exército adversário, arranca o coração dos seus generais." Retomando seus ensinamentos sobre a vacuidade e a plenitude, também afirma: "Evita a energia intensa, ataca a moderada e a fugidia." Para aproveitar ao máximo os benefícios dos princípios da vacuidade e da plenitude, Sun ensina quatro tipos de habilidades essenciais ao guerreiro insondável: domínio da energia, domínio do coração, domínio da força e domínio da adaptação. Os princípios da vacuidade e da plenitude também põem à mostra o mecanismo fundamental dos clássicos princípios yin-yang, sobre os quais os primeiros se baseiam, o mecanismo da reversão de um para o outro nos extremos. Mestre Sun diz: "Não interrompas a marcha de um exército em seu retorno para casa. Um exército cercado deve ter uma saída. Não pressiones um inimigo desesperado." O I Ching diz: "O soberano usa três caçadores, deixando a caça à frente escapar", e "se fores muito inflexível, a ação será mal sucedida, mesmo que estejas certo."


Capítulo 8 - AS NOVE VARIÁVEIS

O capítulo oitavo é dedicado à adaptação, já vista como uma das pedras angulares da arte bélica. Mestre Sun assevera: "Se os generais não souberem adaptar-se de modo vantajoso, mesmo que conheçam a disposição do terreno, não conseguirão tirar proveito dela." O I Ching diz: "Persiste intensamente no que está além de tua profundidade, e tua fidelidade a essa direção trará a desgraça, não o proveito." A adaptabilidade depende naturalmente da prontidão, outro tema que se repete de A Arte da Guerra. Mestre Sun afirma: "O preceito das operações militares é não supor que o inimigo não avance, mas dispor de meios para lidar com ele; não confiar que o adversário não ataque, mas esperar em ter o que não pode ser atacado." O I Ching diz: "Se te sobrecarregares sem ter uma base sólida, serás por fim exaurido, o que te trará dificuldades e má fortuna." Em A Arte da Guerra, a prontidão não significa apenas preparação material; sem um estado mental apropriado, a mera força física não é suficiente para garantir a vitória. Mestre Sun define indiretamente as condições psicológicas do líder vitorioso, enumerando cinco perigos — ter muita disposição para morrer, ter muita ansiedade de viver, encolerizar-se com muita rapidez, ser puritano ou sentimental demais. Mestre Sun afirma que qualquer um desses excessos cria pontos vulneráveis que podem ser facilmente explorados por adversários astutos. O I Ching diz: "Ao aguardar à beira de uma situação, antes que o tempo adequado para entrar em ação chegue, mantém-te alerta e evita ceder ao impulso — assim fazendo, não errarás."


Capítulo 9 - MOVIMENTAÇÕES

O capítulo nono trata de exércitos em manobras estratégicas. Mais uma vez Mestre Sun fala sobre os três aspectos da arte do guerreiro — o físico, o social e o psicológico. Em termos físicos concretos, ele recomenda certos tipos óbvios de terreno que favorecem as probabilidades de vitória: elevações, rio acima, o lado ensolarado dos morros, regiões abundantes de recursos. Com base nas três dimensões, descreve ainda os modos de interpretar os movimentos do inimigo.

Embora Mestre Sun nunca deixe de levar em conta o peso dos números ou do poder material, aqui como em outras partes há uma forte sugestão de que fatores sociais e psicológicos têm condições de superar o tipo de poder que pode ser quantificado fisicamente: "Nas questões militares, não é necessariamente benéfico ter mais: benéfico é evitar agir agressivamente; é suficiente consolidar o teu poder, avaliar os adversários e conquistar o povo; isto é tudo." O I Ching afirma: "Quando tens os meios, mas não estás chegando a lugar nenhum, procura parceiros apropriados, e terás boa fortuna." Do mesmo modo, enfatizando o esforço do grupo dirigido, A Arte da Guerra diz: "O individualista sem estratégia que considera os adversários com leviandade irá inevitavelmente tornar-se um cativo." A solidariedade requer especialmente compreensão mútua e relação estreita entre os líderes e os liderados, adquirida tanto através da educação como do treinamento. O sábio confuciano Meneio disse: "Os que enviam pessoas a operações militares sem educá-las as destroem." Mestre Sun diz: "Dirige-os pelas artes da cultura, unifica-os pelas artes marciais; isto é vitória certa." O I Ching diz: "É boa fortuna quando os dirigentes dão suporte a seus dirigidos, ficando atentos a eles e deles extraindo suas potencialidades."


Capítulo 10 - TERRENO

O capítulo décimo, que analisa a questão do terreno, dá continuidade às idéias de manobras técnicas e à adaptabilidade, delineando tipos de terreno e maneiras adequadas de se acomodar a eles. Requer-se reflexão para transferir os padrões desses tipos de terreno a outros contextos, mas o ponto fundamental está em considerar a relação do protagonista com as configurações do ambiente material, social e psicológico. Mestre Sun adota esse ponto de vista com observações sobre as deficiências organizacionais fatais pelas quais o líder é responsável. Aqui, novamente, a ênfase está posta no moral da unidade: "Considera teus soldados como filhos bem-amados, e eles de boa vontade morrerão contigo." O I Ching diz: "Os que estão acima asseguram seus lares pela bondade para com os que estão abaixo." Apesar disso, ampliando a metáfora, Mestre Sun também adverte contra ser abertamente indulgente, o que traria como conseqüência tropas semelhantes a crianças mimadas. Este capítulo ressalta também a inteligência, no sentido de conhecimento preparatório. Sua definição inclui de modo particular a percepção clara das capacidades das próprias forças, da vulnerabilidade do adversário e da disposição do terreno: "Quando conheces a ti mesmo e aos outros, a vitória não está ameaçada; quando conheces o céu e a terra, a vitória é inesgotável." O I Ching diz: "Sê cuidadoso no começo, e não terás dificuldades no fim."


Capítulo 11 - AS NOVE VARIÁVEIS DE TERRENO

O décimo primeiro capítulo, intitulado "Nove Regiões", apresenta um tratamento mais detalhado do relevo, especialmente em termos do relacionamento de um grupo com o terreno. Pode-se compreender que essas "nove regiões" se aplicam não só ao mero território físico, mas também ao "território" em seus sentidos social e mais abstraio. As nove regiões relacionadas por Mestre Sun são assim denominadas: região de dissolução, região leve, região de contenda, região de tráfego, região de intersecção, região pesada, região ruim, região sitiada e região de morte (ou mortal). Uma região de dissolução é um estágio de guerra destrutiva para ambos os lados ou guerra civil. A região leve se refere a incursões marginais ao território inimigo. Uma região de contenda é a que pode ser vantajosa para ambos os lados de um conflito. Uma região de tráfego é aquela em que se verifica passagem livre. Região de intersecção é um território que controla artérias de comunicação importantes. Região pesada, em comparação com a leve, refere-se a incursões profundas no território adversário. Região ruim é terreno difícil ou imprestável. Região sitiada é a que tem acesso restrito, própria para emboscada. Região de morte é uma situação em que é necessário lutar imediatamente ou ser destruído. Ao descrever a tática apropriada a cada tipo de região, Mestre Sun inclui uma reflexão sobre os elementos social e psicológico do conflito, na medida em que esses estão inextricavelmente ligados à reação ao ambiente: "Deve-se examinar os seguintes aspectos: adaptação às diferentes regiões, vantagens da contração e da expansão, padrões de sentimentos humanos e condições."


Capítulo 12 - ATAQUES COM O EMPREGO DE FOGO

O décimo segundo capítulo de A Arte da Guerra, sobre o ataque com fogo, inicia com uma breve descrição dos vários tipos de ataque incendiário e inclui observações técnicas e estratégias para o acompanhamento. Talvez porque, num sentido material comum, o fogo seja a forma mais perversa de arte marcial (os explosivos existiam no tempo de Sun Tzu, mas não eram usados militarmente), é neste capítulo que encontramos o mais ardente apelo pela humanidade, fazendo eco à idéia taoísta de que as "armas são instrumentos de desgraça que devem ser usadas somente quando for inevitável". Concluindo abruptamente sua breve reflexão sobre o ataque com fogo, Mestre Sun diz: "Um governo não deve mobilizar um exército motivado pela raiva, os líderes militares não devem provocar a guerra movidos pela cólera. Antes, deves agir se for benéfico; caso contrário, deves desistir. A raiva pode se transformar em alegria, a cólera pode se tornar prazer, mas uma nação destruída não pode ser restaurada para a existência, e os mortos não podem ser devolvidos à vida."


Capítulo 13 - UTILIZAÇÃO DE AGENTES SECRETOS

O décimo terceiro e último capítulo trata da espionagem, fechando assim o círculo com o capítulo inicial sobre a estratégia, para a qual a inteligência é essencial. Novamente guiando-se pelo minimalismo orientado para a eficiência e pelo conservadorismo, para os quais se voltam as habilidades que ensina, Mestre Sun começa falando da importância dos agentes de inteligência nos termos mais enfáticos: "Uma operação militar de importância é um escoadouro grave da nação, e pode ser mantida por anos de luta pela vitória de um dia. Por isso, desconhecer as condições do inimigo por não querer recompensar a inteligência é algo extremamente desumano."

A seguir, Sun define cinco tipos de espiões, ou agentes secretos. O espião local é contratado dentre a população de uma região em que as operações são planejadas. Um espião infiltrado é contratado entre os oficiais de um regime contrário. Um espião reverso é um agente duplo, contratado dentre espiões inimigos. Um espião morto é o que recebe a missão de levar informações falsas. Um espião vivo é o que vem e vai com informações.

Neste ponto, também existe um forte elemento social e psicológico na compreensão que Sun Tzu tem da complexidade prática da espionagem do ponto de vista da liderança. A Arte da Guerra inicia com a questão da liderança, e também termina com a observação de que o uso eficaz de espiões depende do líder. Mestre Sun diz: "Não se pode utilizar espiões sem sagacidade e conhecimento, não se pode usar espiões sem humanidade e justiça, não se pode sem sutileza conseguir a verdade de espiões", e conclui: "Só um governante hábil ou um general brilhante que pode utilizar os mais inteligentes para a espionagem tem garantia de sucesso."

sábado, 2 de junho de 2012

[HOL] Denis Avey realmente esteve em Auschwitz?

Guy Walters

Daily Mail, 8/04/2011


A estória de Denis Avey é uma de compaixão profunda e heroísmo surpreendente. É uma estória de guerra que ele manteve para si por muitas décadas, antes de finalmente revelá-la em um livro que foi publicado este mês.

Chamado O Homem que Venceu Auschwitz, o livro já é um best-seller.




Ele conta como o sr. Avey foi mantido pelos alemães em um campo de prisioneiros de guerra próximo de Auschwitz, e como ele arriscou sua vida ao trocar de lugar com um interno judeu em duas ocasiões e entrou clandestinamente no campo de concentração para registrar os horrores do maior crime de todos os tempos.

O livro também conta como Avey salvou a vida de um outro interno judeu, chamado Ernst Lobethal, ao fornecer-lhe cigarros.

Lobethal cresceu num orfanato em Breslau no que hoje é a Polônia, e em janeiro de 1943 ele foi enviado para Auschwitz, onde ele teve que usar sua inteligência para sobreviver.

Ele era capaz de trocar cigarros por novas solas para seus sapatos - sapatos que eram vitais para sua sobrevivência em uma marcha forçada "mortal" do campo através da neve no final da guerra.

Quando foi Primeiro-Ministro, Gordon Brown ofereceu a Avey o Prêmio de Herói Britânico do Holocausto numa recepção na Downing Street 10.

Seu nome também foi colocado no Yad Vashem, o memorial oficial de Israel às vítimas do Holocausto, ao ser feito "Corretos entre as Nações", uma honra dada a gentis que salvaram judeus durante a guerra, ocupado por Oskar Schindler. Avey tem sido chamado de um homem de "coragem física e moral ilimitada" pelo jornalista Henry Kamm, vencedor do prêmio Pulitzer, e seu livro traz um prefácio pelo renomado historiador Martin Gilbert.

Ele tem dado inúmeras entrevistas sobre suas experiências e apareceu muitas vezes na TV e no rádio.

Na semana passada, Avey fez milhões de pausas para pensar quando ele deu uma longa e modesta entrevista para o BBC Brakfast, no qual ele revelou suas terríveis experiências.


Denis Avey


A estória de Avey está alcançando uma audiência poderosa – seu livro está sendo publicado pelo menos em dez países. E ele está sendo pego de surpresa por toda essa atenção. “Refletindo, ele diz, “Não posso realmente acreditar que pessoas acreditassem no que eu fiz.”

O problema é que um número crescente de pessoas não acredita nele. Entre elas estão antigos prisioneiros de Auschwitz, historiadores e organizações judaicas – e todos eles desconfiam muito que ele tenha estado em Auschwitz.

Esta semana, o dr. Piotr Setkiewicz, historiador-chefe em Auschwitz, disse que ele não acreditava na estória da troca do Sr. Avey. Ele disse que seu medo era que a estória poderia dar munição para os negadores do Holocausto que gostam de explorar memórias implausíveis no sentido de “provar” que o Holocausto não aconteceu.

O Congresso Mundial Judaico agora chamou os editores do Sr. Avey para verificar a precisão histórica do livro. “Estamos profundamente preocupados em relação à possibilidade de que uma parte significativa da estória do Sr. Avey – isto é, que ele supostamente entrou clandestinamente no campo de concentração de Auschwitz-Buna – seja exagerada senão completamente fabricada,” disse a organização.

Esta semana também foi noticiado que o Yad Vashem se sentiu incapaz de nomear o Sr. Avey com o “Correto entre as Nações”, porque ele não podia provar sua estória.

“Não encontramos ninguém para confirmá-la,” disse Irena Steinfeld, uma porta-voz do Yad Vashem. “Analisamos muitos testemunhos de internos judeus e nenhum deles mencionou que isso aconteceu. Não havia nada para evidenciá-lo.”

A srta. Steinfeld acrescentou: “Freqüentemente recebemos recomendações que mostram que o candidato ganhou uma honra de um governo, mas que isso não é por si só evidência.”

Antigos prisioneiros em Auschwitz e no campo E715 – o campo de prisioneiros de guerra britânicos próximo no qual o sr. Avey estava mantido preso – têm também sérias dúvidas sobre a estória de Avey, argumentando que a troca teria sido impossível. Vamos olhar em detalhes a sua principal declaração – que ele entrou ilegalmente em Auschwitz.

Nascido em 1919, Avey foi alistado na Brigada de Infantaria em 1939 e foi enviado ao Egito. Ele foi capturado pelo Afrika Korps na Líbia em novembro de 1940 e após uma sucessão de campos de prisioneiros de guerra, incluindo um ano na Itália, terminou no campo E715.

Lá, ele trabalhou como operário e ficou distante umas poucas centenas de metros de uma das maiores partes de Auschwitz, conhecida como Auschwitz III ou Monowitz.

Foi vendo o tratamento terrível sendo dispensado aos internos judeus de Auschwitz com quem ele trabalhava na mesma fábrica química que ele chegou à ideia de trocar de lugar com um prisioneiro judeu. Seu motivo, ele diz, era ver o que poderia acontecer com ele próprio e “prestar testemunho” e ajudar a prender os nazistas com seus depoimentos após a guerra.

De acordo com Avey, o plano exigia uma enorme quantidade de preparação. Por semanas, ele diz, ele estudou os prisioneiros judeus no campo de Auschwitz III e aprendeu como a imitá-los. Ele raspou sua cabeça, lambuzou sua cara com sujeira, e então encontrou um prisioneiro judeu com quem ele pudesse trocar.

Ele diz que usou cigarros como suborno para obter um par de sola de madeira que era usado pelos internos judeus e subornou um “kapo” – ou guarda – para fazer vista grossa para a troca.

Um dia, à medida que as duas colunas de trabalho de prisioneiros judeus e britânicos se aproximavam, o prisioneiro judeu e Avey se lançaram para uma barraca próxima, rapidamente trocaram de roupa, e então retornaram para as fileiras.

Enquanto ele estava dentro de Auschwitz III, Avey disse ter visto um corpo pendurado numa forca, permaneceu uma noite nas barracas junto com prisioneiros judeus gemendo e gritando, e lanchou alface estragado e casca de batata.

Ele diz que retornou ao E715 e mais tarde trocou de lugar com o prisioneiro uma segunda vez, apesar de que ambos decidiram que arriscar uma outra tentativa seria fatal. Ambos sabiam que a penalidade seria a morte se eles fossem pegos. Entretanto, a ideia que ambos os homens poderiam simplesmente trocado de fileira, duas vezes, sem serem vistos pelos guardas alemães ou descobertos mais tarde é implausível.

“Eu não acredito nisso,” diz Brian Bishop, 91, um sobrevivente de Dunquerque que foi capturado na África em 1942 e esteve no campo E715, “Eu não compreendo como ele conseguiu fazê-lo. Para fazer algo parecido você precisava ter muitas pessoas te ajudando em ambos os lados – nosso lado e do lado judeu.”

Sam Pivnik, 84, um judeu polonês, foi enviado para Auschwitz com a idade de 16 em agosto de 1943 e foi mantido lá como o prisioneiro 135913 até janeiro de 1945. Ele compartilha dúvidas semelhantes. “A estória de Avey parece-me altamente improvável,” ele diz. “Trocar de lugar com um prisioneiro de Auschwitz não apenas significava arriscar sua própria vida, mas de qualquer um de seu setor; e ele estava assumindo um risco enorme que ele não havia sido informado. Essa é uma chance que eu jamais pegaria. Os prisioneiros de Auschwitz eram tão desesperados que você não poderia arriscar em confiar neles.”

O historiador de Auschwitz, Dr. Setkiewicz, concorda com os dois sobreviventes. Ele aponta que muitas pessoas teriam que estar envolvidas em tal troca, e isto teria sido extremamente arriscado já que havia muitos espiões no campo: “Como não há nenhum testemunho de outros sobreviventes, eu certamente não incluiria esta estória em qualquer livro que eu escrevesse.”

Então, há a inconsistência nas declarações do Sr. Avey tanto da identidade do homem com quem ele trocou de lugar quanto o lugar que a troca ocorreu.

Em seu livro, ele escreve que trocou lugar com um judeu holandês chamado “Hans” e entrou clandestinamente de um campo de prisioneiros ingleses direto no campo de extermínio conhecido como Auschwitz III.

Entretanto, numa entrevista que ele deu ao Daily Mail em dezembro de 2009, o Sr. Avey – que diz que ele era chamado “Ginger” quando estava no campo – diz ter trocado de lugar com o prisioneiro Ernst Lobethal, o homem com quem ele trocava cigarros.

Na mesma entrevista – e numa conversa que ele deu subseqüentemente a estudantes em Oxford – o Sr. Avey disse que Ernst estava em Auschwitz II, ou Birkenau, o qual é cerca de 5 km distante de Auschwitz III.

Em seu livro, o Sr. Avey também escreve sobre passar sobre o infame letreiro “Arbeit Macht Frei” – O Trabalho Liberta – quando entrava em Auschwitz III. Como o Dr. Setkiewicz confirma, não havia tal letreiro lá; era no campo Auschwitz I cerca de 7 km distante.

O Sr. Avey declara que as roupas que ele pegou do prisioneiro judeu estavam infestadas com piolhos. Este detalhe é colocado em dúvida pelo antigo interno Sam Pivnik. “Éramos escrupulosamente limpos todo tempo nos campos de trabalho em Auschwitz III, e você estava sujeito a uma surra severa se você estivesse sujo,” diz Pivnik.

“A SS tinha pavor que epidemias de tifo se espalhassem e os uniformes dos prisioneiros, camas e barracas eram constantemente desinfectadas e limpas.”

A afirmação do Sr. Avey de ter entrado em Auschwitz é mesmo descartada por Ingrid Lobet, filha de Ernst Lobethal. Enquanto a sra. Lobet siz que ela não teria razões para duvidar que o Sr. Avey tenha trocado “a moeda internacional mágica”, cigarros, com seu pai, ela nãoaceita a estória da troca de lugar.

“Eu não acredito que isto aconteceu,” ela diz. “Onde está o detalhe que ele viu lá que não pode ser obtido do mais vago testemunho do Holocausto?”

“Os prisioneiros de guerra britânicos eram alimentados,” acrescenta ela. “Os judeus não. Os judeus pareciam famintos, os britânicos não. A maioria dos judeus falava somente Iídiche. Como é que um judeu magro, falando Iídiche, seria confundido com um prisioneiro inglês nas barracas de prisioneiros de guerra? ‘Ginger’ memorizou o número do sobrevivente em alemão de modo que ele poderia responder durante uma chamada?”

O que é também problemático é que a estória da troca do Sr. Avey é quase idêntica àquela dita por outro antigo prisioneiro de guerra no campo E715 chamado Charles Coward.

Num julgamento do pós-guerra – Coward deu um testemunho – agora totalmente desacreditado pelos estudiosos do Holocausto – no qual ele declarava que havia entrado ilegalmente em Auschwitz trocando de lugar com um prisioneiro judeu. Este conto é chamado A Senha é Coragem e impresso na capa vem a frase “O Homem que venceu Auschwitz” – o mesmo título do livro de Avey.

A chance de que dois prisioneiros de guerra britânicos, independente um do outro, tenham pensado na ideia perigosa de trocar de lugar com um interno de Auschwitz leva a credibilidade da estória ao limite.

A semelhança entre os dois contos também levanta a questão de que por que o Sr. Avey levou tanto tempo para falar de suas experiências de guerra. Foi em 2001 que as experiências do Sr. Avey em E715 apareceram pela primeira vez, publicadas num livro chamado Espectador no Inferno, de Collin Rushton, um poeta e historiador.

O Sr. Avey revelou muito que foi traumatic, incluindo um incidente no qual ele perdeu um olho após ser alvejado por um oficial da SS, e a morte de 38 prisioneiros de guerra em um bombardeio aliado. Mas ele nunca mencionou a troca.

Em 16 de julho de 2001, o Sr. Avey deu uma entrevista de 5 horas para o Museu Imperial de Guerra no qual ele falou sobre sua prisão, assim como o impacto psicológico da guerra e seus problemas com pesadelos. Em nenhuma vez desta entrevista ele fala sobre entrando ilegalmente em Monowitz.

Em setembro de 2004 e janeiro de 2005, Avey foi entrevistado pelo jornalista Diarmuid Jeffreys para o seu livro O Cartel do Inferno. Ele menciona o incidente com a pistola mas novamente falhou ao falar da troca ou sobre Ernst ou Hans.

Somente em 2009, numa entrevista com o jornalista da BBC Rob Broomby, o Sr. Avey finalmente menciona que ele havia entrado ilegalmente em Auschwitz III. E Rob Broomby rapidamente se ofereceu a co-escrever o livro que agora está disponível.

O Sr. Broomby explicou que o sr. Avey deixou para contar a estória por tanto tempo porque ele sofria de desordem de stress pós-traumática quando ele voltou da guerra.

Por que, então, ele foi capaz de falar sobre todas aquelas outras experiências da guerra nos anos anteriores?

O professor Kenneth Waltzer, diretor do Programa de Estudos Judaicos na Universidade Estadual de Michingan e uma autoridade mundial em campos de concentração nazistas, é céptico: “O padrão de silêncio mantido, apesar das entrevistas, e então a divulgação repentina da estória levanta de fato suspeitas.”

O antigo colega de campo do Sr. Avey, Brian Bishop, é mais severo: “Por que ele vem com essa estória justamente agora? Não compreendo por que todas essas estórias estão sendo lançadas agora. Parece que eles estão esperando que todos morram e então ninguém vai contradizê-los.”

Assim como estar traumatizado, o sr. Avey também afirma que sua reticência nasceu do fato de que as autoridades militares não queriam ouvir sua estória após a guerra – de acordo com ele, o negócio entre as autoridades era continuar a vida e esquecer os horrores do campo.

Entretanto, o oposto parece ser o caso. Em 1947, o sr. Avey foi convocado por promotores americanos através do Escritório de Guerra para pedir se ele gostaria de fazer uma declaração de suas experiências para ajudar a preparar um caso para um tribunal de crimes de guerra. Mas ele recusou.

Esta semana, o Sr. Avey foi incapaz de explicar as inconsistências em sua estória. Quando perguntado por que ele não mencionou a troca para o Museu Imperial da Guerra, ele disse: “Eu não sei por quê. Não escolhi mencioná-la na época. Mas o que eu escrevi no livro é a verdade. Eu não preciso defendê-lo. Não me importo com o que qualquer um diz. Eu sei o que fiz.”

Seu co-autor, Rob Broomby, também foi incapaz de confirmer se a estória da troca do Sr. Avey era realmente verdadeira. “É muito difícil verificar neste estágio,” ele disse. “Você não vai encontrar pessoas após 70 anos. É somente quando você investe um tempo com o Denis que você realmente o conhece. Isto não é história acadêmica de rodapé. Você tem que olhar dento dos olhos do homem e saber que tipo ele é.”

Há pessoas que pensam que é inapropriado questionar as palavras de um ancião – o sr. Avey tem agora 92 anos. Mas é vital que as estórias parecidas com esta sejam sujeitas a um escrutínio apropriado.

Como ninguém menos que o falecido Ernst Lobethal escreveu para o New York Times em fevereiro de 1994: “Eu acho importante verificar as inexatidões, a fim de que os revisionistas do Holocausto não o façam em nosso lugar.”


http://www.dailymail.co.uk/news/article-1375018/Denis-Avey-broke-Auschwitz-expose-Holocaust-account-insult.html#ixzz1ixlAyuxA

[HOL] Wannsee: Não foi aqui que a Solução Final Nasceu

Haaretz, 20/01/2012

O diretor do Centro de Memória da Conferência de Wannsee, em Berlim, foi entrevistado por um jornal alemão, quando esfriou o entusiasmo pelo 70º aniversário da reunião da conferência.

O Dr. Norbert Kampe, diretor do Memorial da Conferência de Wannsee em Berlim surpreendeu numa entrevista a um jornal alemão ontem, quando diminuiu o entusiasmo da mídia pelo septuagésimo aniversário da convocação da conferência, mencionou o jornal hoje em todo o mundo.

Kampe, 63, nasceu sete anos depois da convocação da infame conferência, que está gravada na memória coletiva - de forma não muito precisa - como o lugar e a época em que o regime nazista decidiu adotar o plano de "solução final", ou extermínio do povo judeu.

"É difícil entender isso, mas a conferência tratou da organização e tomada de decisão", disse Kampe ao jornal alemão "Tageszeitung". "É bastante claro que esta reunião, a nível de secretários de Estado, tratou da organização da conferência, lidando com a coordenação entre agências do governo," acrescentou. Para provar seu ponto de vista, ele afirmou que Hitler e seus ministros não participaram da conferência. "Neste momento, em janeiro de 1942, não havia nenhum plano organizado para campos de extermínio," concluiu.

Não se engane. Kampe não é antisemita. Certamente não é um negador do Holocausto. Pelo contrário. Como esperado de um historiador profissional, ele estudou inumeráveis textos relevantes, documentos e testemunhos sobre o evento particular... Sua conclusão é o resultado direto de uma análise estudada de material escrito em sua posse.

O resultado é uma lição instrutiva de história. O Ministério da Educação Israelense não tem condições de manter esse debate no ensino do Holocausto. Os estudantes do ensino médio escrevem sobre o termo "Conferência de Wannsee" sem abordar o assunto com a complexidade necessária. Certamente, não é preciso deixá-lo de lado. O Holocausto, como qualquer outro evento histórico, também precisa de símbolos. A Conferência de Wannsee é, sem dúvida, um dos melhores deles. A discussão mais aprofundada deve ser deixada para os historiadores.

Algumas pessoas devem ter se sentido ultrajadas pelas palavras do diretor do Memorial. Elas ampliaram suas críticas, vão apresentar pontos de vista diferentes e argumentam que ele não sabe o que está falando. O que está claro é que até hoje ninguém sabe com total certeza e confiança exatamente o que aconteceu em 20 de janeiro de 1942, nesta vila deslumbrante no subúrbio abastado de Berlim.

Quinze pessoas participaram desta conferência, conduzida por uma hora e meia. Eles eram altos funcionários do governo, do partido nazista e da SS, mas a maioria permaneceu totalmente desconhecida para a geração do pós-guerra, que não os reconheceria pelos nomes e imagens. A exceção foi Adolf Eichmann, cuja imagem foi publicada após ele ser seqüestrado pelo Mossad, julgado e executado em Israel. Eichmann, chefe da Gestapo para assuntos judaicos, teve um papel importante na conferência. Ele escreveu seu protocolo.

Apenas uma cópia deste documento sobreviveu à guerra. Ele foi descoberto em 1947. Os outros documentos foram deliberadamente destruídos pelos nazistas num esforço para ocultar provas. Este protocolo apresenta o testemunho autêntico do que aconteceu em Wannsee e é o único documento a fazer uso explícito da frase "Solução Final". A importância histórica é indiscutível, mas como qualquer documento histórico ele também deve ser lido atentamente.

Se acreditarmos no que Eichmann disse no julgamento em israel, o documento foi modificado e editado, e não reflete tudo com precisão e, literalmente, do que foi dito na conferência.

Além disso, as palavras "morte" ou "assassinato" não aprecem nele. Ao invés disso, temos "declínio natural", "tratamento adequado", "outras opções de solução" e "diferentes formas de solução." As únicas palavras explícitas neste documento tratam da deportação, e não do extermínio. Mesmo a famosa tabela anexada a ele, informando o número de judeus em cada país, não afirma que eles devem ser destruídos.

Não é de estranhar. Após décadas de pesquisa sobre o Holocausto, não se conseguiu encontrar uma ordem clara e explícita de líderes nazistas determinando o extermínio em massa dos judeus. Ao invés disso, os nazistas disfarçaram suas intenções em comentários longos, em código secreto e palavras dissimuladas, que supostamente deveriam ser interpretadas pelos oficiais como sendo a "vontade" de Hitler.

Esta semana, no aniversário de 70 anos da Conferência de Wannsee, 80 especialistas reunidos em Berlim em um seminário, trataram da conferência. Não podemos esperar que eles cheguem a um consenso do que foi ou não foi dito nesta conferência. Mas temos certeza de que não faria nenhuma diferença. A real importância deste dia é como sendo um dos momentos importantes para a memória do Holocausto.

http://www.haaretz.co.il/news/education/1.1621978

N.do T.: A reportagem do Haaretz mencionada acima está em hebraico, usei o Google translator para conseguir o texto em português. Tive que fazer algumas adaptações para tornar o texto inteligível.

[SGM] Infâmia Mal Distribuída

Srdja Trifkovic

Chronicles Magazine, 7/12/2008

Nos últimos 67 anos, a América tem relembrado os 2.400 marinheiros, soldados e pilotos que foram mortos no ataque japonês de Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Todo aniversário deste tipo nos lembra que toda a História é, de alguma forma, uma continuação da história contemporânea: quase sete décadas após o evento, o mito da bondade e grandeza de FDR (Franklin D. Roosevelt) - revivida para objetivos políticos atuais durante e após a campanha eleitoral deste ano - torna menos "apropriado" do que nunca perguntar se ele sabia do ataque; e, mais importante, se ele o desejava. Esta data "viverá na infâmia," por umas poucas décadas a mais pelo menos, até que sucumba pela amnésia coletiva deste país. Podemos estar correndo contra o tempo para colocar esta infâmia de forma mais correta.

O presidente Franklin D. Roosevelt estava ansioso para entrar na Guerra na Europa. Ele queria muito isto após a queda da França (junho de 1940) – quando ele chegou a acreditar que sem a intervenção americana os nazistas logo conquistariam o Velho Continente – e desesperadamente após a Alemanha atacar a União Soviética um ano depois. No seu desejo, ele foi apoiado pela velha elite da costa leste, que era tradicionalmente anglófila, pelo influente lobby judeu, e – depois de 22 de junho de 1941 – pelos simpatizantes de Moscou em sua equipe e no país como um todo.

Após encontrar o presidente na Conferência do Atlântico (14 de agosto de 1941) Churchill notou a “profundidade incrível do desejo intenso de Roosevelt pela guerra.” Mas havia um problema: FDR não poderia passar por cima da resistência isolacionista para uma “guerra europeia” sentida pela maioria dos americanos e pelos seus congressistas. O clima do país era anti-guerra e, de acordo com a afirmação dos revisionistas, Roosevelt provocou os japoneses para atacar os Estados Unidos – enquanto que seu alvo principal era Hitler. Foi mais tarde alegado que, mesmo que Roosevelt estivesse ciente de como impedir o ataque a Pearl Harbor, ele deixou acontecer, e sentiu-se aliviado quando aconteceu.

A evidência da manobra de FDR para jogar o Japão na guerra, disponível por décadas, foi semi-definitivamente apresentada no livro “O Dia da Fraude” (1999), de Robert Stinnett. A evidência de seu conhecimento antecipado do ataque aparece igualmente de forma convincente em três aspectos: negligência da inteligência da Marinha; má condução de seus comandantes, nas duas semanas anteriores antes do ataque, fazendo crer que as negociações com o Japão estavam em andamento; e mantendo-os mal informados sobre o local da frota de porta-aviões japoneses.

Cronologicamente, os elementos importantes do cenário agiram como segue:

Em 27 de setembro de 1940, o Pacto Tripartite – o tratado de assistência mútua entre Alemanha, Itália e Japão – foi assinado em Berlim. Ele implicou na possibilidade de que a Alemanha declarasse guera contra a América se esta entrasse em guerra contra o Japão, o qual impactou grandemente na política de FDR sobre o Japão a partir de então.

Em 7 de outubro de 1940, somente uma semana após assinar o Pacto Tripartite, o tenente-comandante Arthur McCollum, um oficial da Marinha americana no Escritório de Inteligência Naval (ONI), sugeriu uma estratégia para provocar o Japão a atacar os EUA, iniciando as provisões assistenciais mútuas do Pacto Tripartite, e levando a América para a Segunda Guerra Mundial. Resumido no memorando de McCollum, a proposta da ONI sugeria por passos específicos na provocação ao Japão. Seu núcleo central era manter o grosso da frota americana baseada no Havaí como uma isca para o ataque japonês, e impor um embargo de petróleo americano ao Japão. “Se, por estes meios, o Japão puder ser conduzido a cometer um ato de guerra, melhor para nós,” concluiu o memorando.

Igualmente, em outubro de 1940, o comandante da frota do Pacífico, Almirante J. O. Richardson, protestou contra a decisão do presidente Roosevelt em mover a frota das águas protegidas da costa oeste para a base vulnerável no Havaí. Richardson foi dispensado de seu comando quatro meses após seu encontro com FDR e foi substituído pelo contra-almirante Kimmel.

Em 23 de junho de 1941 – um dia após o ataque de Hitler contra a URSS – o secretário do interior e também consultor de FDR, Harold Ickes, escreveu um memorando para o presidente no qual observa que

Haveria de desenvolver de um embargo de petróleo ao Japão tal situação que seria não somente possível, mas fácil de conseguir entrar nessa guerra de maneira efetiva. E se pudéssemos assim indiretamente ser conduzidos para ela, poderíamos evitar a crítica de que nos aliamos à Rússia Comunista.

Em 22 de julho, o almirante Richmond Turner declarou em um relatório,

Acredita-se comumente que cortando o suprimento americano de petróleo conduzirá imediatamente à invasão das Índias Orientais Holandesas. Parece certo que (o Japão) também incluiria ação militar contra as ilhas filipinas, o que nos envolveria imediatamente numa guerra no Pacífico.

Em 24 de julho, Roosevelt disse ao Comitê de participação Voluntária, “Se tivéssemos cortado o petróleo, eles provavelmente teriam ido para as Índias Orientais Holandesas um ano atrás, e vocês teriam tido a guerra.”

Em 25 de julho, Roosevelt congelou todos os ativos japoneses nos Estados Unidos e impôs um embargo de petróleo. A partir daquele momento, o Japão enfrentou uma ameaça existencial dos Estados Unidos, uma ameaça que não poderia ser evitada por meios pacíficos, exceto abdicar de sua posição de grande potência e visivelmente perder poder – uma impossibilidade total.

Em 24 de setembro, Washington decifrou uma mensagem do Quartel-General de Inteligência Naval em Tóquio para o consulado geral do Japão em Honolulu, requisitando as posições exatas dos navios da Marinha americana no porto. Os comandantes no Havaí não foram alertados. A inteligência naval americana havia quebrado os códigos navais japoneses um ano antes, permitindo que FDR recebesse traduções de todas as mensagens principais.

Em 18 de outubro, Harold Ickes anotou em seu diário: “por um longo tempo, acreditei que nossa melhor entrada na guerra seria através do Japão.” Ainda que o Japão tivesse que atirar primeiro: em 22 de outubro, pesquisas de opinião revelavam que 74% dos americanos se opunham a uma guerra contra o Japão, e somente 13% a apoiavam.

Em 25 de novembro de 1941, o Secretário da Guerra, Stimson, escreveu em seu diário que FDR disse que um ataque estava para acontecer em dias, e pensou “como podemos manobrá-los na posição de dar o primeiro tiro sem muito perigo para nós”:

Apesar do risco envolvido, entretanto, ao deixar os japoneses atirar primeiro, percebemos que, no sentido de ter total apoio do povo americano, é desejável estar certo que os japoneses sejam os responsáveis por isso, de modo que não fique nenhuma dúvida na cabeça de qualquer um de quem é o agressor.

Em 26 de novembro, o Secretário de Estado Hull emitiu uma nota escrita provocativa – um ultimato, realmente – exigindo a completa retirada de todas as tropas japonesas não somente da Indochina Francesa, mas também da China. De acordo com o relatório do Escritório de Investigação do Exército em Pearl Harbor (1945), o embaixador dos EUA no Japão, Grew, chamou isto de “o documento que apertou o botão que iniciou a guerra.” Os japoneses reagiram de imediato: em 1 de dezembro, a autorização final foi dada pelo imperador, após uma maioria de líderes japoneses o terem aconselhado que a nota de Hull poderia “destruir os frutos do incidente na China, colocar em perigo Machukuo e corroer o controle japonês da Coréia.”

Igualmente, em 26 de novembro, Washington ordenou que os dois porta-aviões americanos, o Enterprise e o Lexington, saíssem de Pearl Harbor “tão logo seja possível.” Esta ordem resultou em deixar Pearl Harbor sem 50 aviões, ou 40% de sua já precária proteção aérea. No mesmo dia, Cordell Hull, emitiu um ultimato exigindo a retirada total japonesa da Indochina e toda China.

Em 1 de dezembro, o Escritório de Inteligência Naval, ONI, 12º. Distrito Naval em São Francisco, descobriu a frota japonesa ao relacionar relatórios de quatro serviços de notícias sem fio e de várias companhias cargueiras que estavam obtendo sinais a oeste do Havaí. Como sabemos, os navios da frota japonesa de porta-aviões comunicava-se diariamente por rádio com o alto-comando no Japão, com os comandos militares no pacífico Central, e entre si – como Robert Stinnett conclusivamente estabeleceu ao ler as interceptações de rádio das transmissões japonesas pela inteligência naval. A Marinha Americana não “perdeu” os porta-aviões.

Em 5 de dezembro, FDR escreveu ao Primeiro-Ministro australiano que “nos próximos quatro ou cinco dias decidiremos o assunto” com o Japão. Mais tarde, no mesmo dia, no encontro do gabinete, o Secretário da Marinha, Frank Knox, disse, “Bem, o senhor sabe, presidente, sabemos onde a frota japonesa está?” “Sim, eu sei... Bem, diga-lhes qual é Frank,” respondeu Roosevelt. Quando Knox estava para falar, Roosevelt teve um segundo pensamento eo interrompeu, dizendo: “Não tivemos nada além da informação perfeita de seu destino.” (Toland, p. 294).”

Em 6 de dezembro de 1941, em um jantar na Casa Branca, Roosevelt recebeu as primeiras treze partes de um total de quinze da declaração de guerra decodificada da diplomacia japonesa e disse “Isto quer dizer guerra!” para Harry Hopkins, mas não interrompeu a refeição.

Não menos revelador é o comportamento de Roosevelt no dia do ataque e durante as suas consequências.

Harry Hopkins, que estava sozinho com FDR quando ele recebeu as notícias, escreveu que o presidente não estava surpreso e expressou “grande alívio.” Mais tarde, Hopkins escreveu que a conferência do gabinete de guerra “reuniu-se numa atmosfera não muito pesada porque acho que todos nós acreditávamos, em última análise, que o inimigo era Hitler... e que o Japão apenas nos deu a oportunidade.”

Naquela mesma noite, FDR disse ao seu gabinete, “temos razão para crer que os alemães disseram aos japoneses que se o Japão declarasse guerra, eles também o fariam. Em outras palavras, uma declaração de guerra pelo Japão automaticamente leva...” – neste momento, ele é interrompido, mas suas expectativas estão perfeitamente claras.

O jornalista da CBS, Edward R. Murrow, encontrou-se com FDR à meia-noite e ficou surpreso com sua reação tranquila. Na manhã seguinte, Roosevelt afirmou para seu porta-voz Rosenman que “Hitler ainda era o alvo principal, mas ele temia que uma grande parte dos americanos insistiria que fizéssemos a guerra no Pacífico igualmente importante como a guerra com Hitler.” Jonathan Daniels, assistente administrativo e secretário de imprensa de FDR, mais tarde disse que “o golpe foi mais pesado do que ele esperava... mas os riscos valeram a pena, até mesmo a perda valeu o preço.”

Roosevelt confirmou isto a Stalin em Teerã em 30 de novembro de 1943, ao dizer que “se os japoneses não tivessem atacado os EUA, duvido muito que seria possível enviar qualquer tropa americana para a Europa.”

O historiador John Toland concluiu em seu livro Infâmia: Pearl Harbor e suas Consequências,

Era possível imaginar um presidente que disse, “Isto quer dizer guerra,” após ler a mensagem (de 6 de dezembro), não de imediato convocando para a Casa Branca os comandantes do Exército e da Marinha, assim como seus secretários da Guerra e da Marinha?... Stimson, Marshall, Stark e Harry Hopkins gastaram a maior parte da noite de 6 de dezembro na Casa Branca com o presidente. Todos estavam esperando o que eles sabiam que viria: um ataque em Pearl Harbor. A comédia de erros no sexto e sétimo parece incrível*. Somente faz sentido se isso fosse uma charada, e Roosevelt e seu círculo interno já sabiam sobre o ataque.

N. do T.: quem viu o filme “Tora!Tora!Tora!” percebeu que os americanos estavam perdidos com as ordens e contra-ordens na véspera do ataque. Como o autor salienta, tratava-se de uma charada, algo para desviar a atenção dos níveis inferiores militares.

Churchill mais tarde escreveu que FDR e seus altos conselheiros “sabiam por completo do objetivo imediato de seu inimigo”:

Um ataque japonês contra os EUA era uma vasta simplificação de seus problemas e de seu dever. Como podemos imaginar que eles lembravam a forma real do ataque, ou mesmo sua escala, como incomparavelmente menos importante do que o fato de que a nação inteira americana estaria unida?

O alvo principal, Adolf Hitler, declarou guerra aos Estados Unidos em 10 de dezembro de 1941, assim garantindo a derrota alemã. O resto, como se diz, é história.

Diz-se que o falecido Murray Rothbard argumentava que, longe de ser uma evidência de uma característica “paranoica” na mente americana, a crença em conspirações como um fator na história americana não era geralmente levada longe o bastante. A verdade por trás da maioria das conspirações, ele alegou, era muito mais hedionda e diabólica do que até mesmo o mais teórico obstinado conspiracionista poderia imaginar. Os eventos que levaram ao Dia da Infâmia em 1941 provou que ele estava certo, não menos do que aqueles que levaram às guerras dos EUA contra o México, contra a Confederação Sulista, Espanha (1898), Sérvia (1999) ou Iraque (2003). Em todos estes casos, a diplomacia não “falhou” porque ela não foi usada para evitar a guerra, mas para garantir que ela ocorreria.


http://www.chroniclesmagazine.org/2008/12/07/misallocated-infamy/

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Segunda Guerra foi tão inútil quanto a Guerra do Iraque?

Peter Hitchens

Daily Mail, 19 de abril de 2008


Ao escrever isso, sinto-me como um traidor. A Segunda Guerra Mundial foi minha religião pela maior parte da minha vida.

Bravos, sozinhos, feridos, desafiadores, nós britânicos a ganhamos por nosso próprio mérito contra o inimigo mais malvado e poderoso que se pode imaginar.

Nascido 6 anos após o seu término, senti-me como se a tivesse vivido, como meus pais enfaticamente a viveram, com alguma bravura e muito sacrifício em ambos os casos.

Com meus soldadinhos de brinquedo, tanques e metralhadoras, derrotei os nazistas diariamente no chão do meu quarto.

Me perdi nos livros com títulos despreocupados como "Homens de Glória", com seus relatos revigorantes, tocantes de atos de incrível bravura por pessoas comuns que poderiam ter sido meus vizinhos.

Li aventuras imaginárias do ás de bombardeiro da RAF Matt Braddock na crença de que as estórias eram verdadeiras, e sem me preocupar sobre o que acontecia com suas bombas quando chegavam ao solo. Hoje, eu me preocupo.

Após isto, vieram todos aqueles filmes patrióticos que enriqueceram a imagem da decência, coragem discreta e humor auto-zombeteiro que eu pensava ser a essência britânica.

Está foi nossa melhor hora. Era a medida contra a qual tudo mais deveria ser medido.

Logo, foi muito difícil para mim desde que as dúvidas começaram. Eu não queria realmente saber se era exatamente como isso. Mas isso acabou exercendo uma pressão sobre mim.

Quando morei na Rússia no final da era Soviética, encontrei um país que fez muito mais na guerra do que nós.

Eu mesmo empreguei um veterano fantástico do Exército Vermelho para me ajudar a organizar o escritório lá: um velho senhor honesto, totalmente confiável como a geração do meu pai, exceto que ele era russo e um estalinista convicto que fez trabalhos estranhos para a KGB.

Eles tinham seus filmes de guerra também. E suas cicratizes honrosas.

E eles estavam tão convencidos de que ganharam a guerra sozinhos quanto nós.

Eles lembram o Dia D como um evento ordinário e nunca ouviram falar de El Alamein.

Uma vez, me peguei pensando: "Eles estão usando a guerra como uma forma de consolo contra seu declínio nacional, e está claro que eles estão perdendo sua disputa com a América."

E então me toquei que isto poderia ser uma descrição do meu próprio país.

Quando morei na América, onde descobri que a Segunda Guerra Mundial, na visão deles, se centrava mais no Pacífico, e em qualquer caso não significava metade do que a Guerra Civil e a Guerra do Vietnã significou, levei um segundo choque, uma lição de história não pedida.

Agora, vem outra. Em uma recente visita aos EUA, comprei dois novos livros que vão fazer uma porção de pessoas ficar zangadas.

Eu os li, incapaz de desviar os olhos, parecido como tentar desviar os olhos de uma cena de acidente, em um tipo de escuridão deprimente.

Eles são uma reação ao uso - em minha visão, abuso - da Segunda Guerra Mundial para justificar a Guerra do Iraque.

Nos disseram que a guerra de 1939-45 foi uma boa guerra, lutamos para superar um tirano perverso, que a guerra no Iraque seria a mesma coisa, e que aquelas pessoas que se opunham eram parecidas com os apaziguadores de 1938.

Bem, não me senti como Neville Chamberlain (um homem que ainda desprezo) quando argumentei contra a Guerra do Iraque. E ainda não me sinto.

Alguns daqueles que se opuseram à Guerra do Iraque perguntam uma questão perturbadora.

As pessoas que nos venderam o Iraque o fizeram como se eles fossem os atuais Churchills. Eles estavam errados.

Naquele caso, como podemos estar certos que a guerra de Churchill foi uma boa guerra?

E se os Homens de Glória não precisassem morrer ou arriscar suas vidas? E se a coisa toda foi um desperdício mal calculado de vidas e recursos que destruiu a Grã-Bretanha como uma grande potência e tornou-a em um prisioneiro falido dos EUA?

Divertido o bastante, estas questões ecoam igualmente desconfortáveis como fui freqüentemente perguntado por leitores aqui.

A versão moderada é: "Quem realmente ganhou a guerra, desde que a Inglaterra está sujeita agora à União Européia comandada pela Alemanha?"

A outra é uma que ouvi de um número crescente de veteranos de guerra contemplando a paisagem da Grã-Bretanha de grosseria e desordem e relembrando os sacrifícios que eles fizeram por isso: "Por que nos importamos?"

Não continue lendo se isso abala o seu universo.

Os dois livros, a serem publicados logo neste país, são "Churchill, Hitler e a Guerra Desnecessária" de Patrick Buchanan e "Fumaça Humana" (Human Smoke) de Nicholson Baker.

Eu conheço Pat Buchanan e o respeito, mas nunca gostei de sua simpatia pelo "Primeiro, a América", o movimento que tentou manter os EUA fora da Segunda Guerra Mundial.

Quanto a Nicholson Baker, ele se tornou famoso somente porque seu romance erótico, Vox, foi dado de presente a Bill Clinton por Monica Lewinsky.

Fumaça Humana não é um romance, mas uma série de itens factuais arrumados deliberadamente para destruir a estória aceita da guerra, e tem recebido tratamento generoso da mídia americana, especialmente do New York Times.

Baker é um pacifista, uma posição idiota aberta somente a cidadãos de países livres com grandes armadas.

Ele selecionou com cuidado para defender sua posição, mas muitos dos fatos aqui, especialmente sobre Winston Churchill e o entusiasmo inicial da Grã-Bretanha no bombardeio de alvos civis, estragou a visão oficial.

Aqui está Churchill, em um artigo de jornal de 1920, supostamente criticando a "confederação sinistra" da judiaria internacional.

Eu digo "supostamente" porque não vi o original. Também digo isso porque sou relutante em acreditar nisso, assim como sou relutante em acreditar em outra informação de Baker que sugere que Franklin Roosevelt estava envolvido em um esquema para limitar o número de judeus na Universidade de Harvard.

Tais coisas hoje encerrariam a carreira política em um instante.

Muitos acreditam que a guerra de 1939-45 foi lutada para salvar os judeus de Hitler. Nenhum fato suporta essa crença.

Se a guerra salvou quaiquer judeus, foi por acidente.

Sua deflagração parou nos trens "Kindertransport" resgatando crianças judias do Terceiro Reich. Ignoramos relatórios confiáveis de Auschwitz e nos recusamos a bombardear a ferrovia que chegava lá.

Baker é também inteligente em mostrar que a decisão de Hitler de exterminar os judeus da Europa veio somente após a guerra estar totalmente lançada, e que antes disso, apesar do seu tratamento dos judeus ser revoltante e homicida, ele parou bem aquém do extermínio em massa industrializado.

A implicação disto, que o Holocausto foi o resultado da guerra, e não a causa dela, é especialmente perturbadora.

Uma porção de pessoas terão problema também com o conhecimento do que Churchill disse de Hitler em 1937, quando a natureza de seu regime era bem conhecida: "Um funcionário altamente competente, ponderado, bem informado com maneiras agradáveis, um sorriso irresistível, e poucos têm sido pouco afetados pelo seu magnetismo sutil pessoal."

Três anos depois, uma visão semi-oficial, ainda muito acreditada, era que Hitler era o demônio na forma humana e mais ou menos insano.

Buchanan é, por sua vez, mais prejudicial. Ele retrata Churchill como um homem que amava a guerra para seu próprio lucro, e a preferia em lugar da paz.

Quando a Primeira Guerra Mundial começou em 1914, dois observadores, Margot Asquith e David Lloyd George, descreveram Churchill como "radiante, sua face brilhando, seu jeito interessado.. você pode ver que ele era um homem realmente feliz."

Churchill também é acertado diretamente no pescoço por Buchanan por ter desmantelado as forças armadas britânicas no período entre-guerras.

Foi Churchill que, como Chanceler do Exchequer*, exigiu cortes profundos na Marinha Real em 1925, de modo que quando ele adotou o rearmamento como sua causa dez anos depois, foi contra suas própria decisão infeliz que ele lutou.

* N. do T.: O Exchequer é um departamento governamental do Reino Unido responsável pelo gerenciamento e coleta de impostos e outras rendas governamentais.

Bem, todo país precisa de homens que gostam de guerra, se é para enfrentar e lutar quando necessário. E todos nós cometemos enganos, que são esquecidos se então conseguimos uma coisa espetacularmente certa, como Churchill fez.

Os americanos podem gostar ou abandonar as opiniões do Sr. Buchanan sobre se eles deveriam ter permanecido fora, mas os EUA fez muito bem numa guerra na qual a Inglaterra e a Rússia fizeram a maior parte da luta, enquanto Washington apenas colheu (e continua colhendo) a maior parte dos benefícios.

Analisando o resumo frígido de Buchanan, encontrei-me envolto por muitas perguntas.

A Primeira e Segunda Guerras Mundiais, como Buchanan diz, são realmente apenas um conflito.

Fomos à guerra contra o Kaiser em 1914 principalmente porque temíamos ser ultrapassados pelos alemães como grande potência naval. Ainda que um dos principais resultados da guerra foi que ficamos tão fracos que fomos ultrapassados pelos EUA.

Fomos também forçados, pela pressão americana, a terminar nossa aliança naval com o Japão, que protegeu nosso Império no Extremo Oriente durante a guerra de 1914-1918.

Esta decisão, mais do que qualquer outra, nos custou aquele Império. Ao tornar o Japão nosso inimigo, mas sem a força naval ou militar para proteger nossas possessões, garantimos que seríamos páreo fácil em 1941.

Após a queda de Singapura em 1942, nossa força e reputação na Ásia terminaram de vez e nossa despedida da Índia inevitável.

Pior ainda é a análise de Buchanan de como entramos na guerra.

Sempre achei que o momento que deveríamos ter parado Hitler foi quando ele reocupou a Renânia em 7 de março de 1936. Mas Buchanan mostra que ninguém estava interessado em tal ação naquela época. Ninguém? Sim.

Isto inclui Churchill., que disse insensatamente em 13 de março: "Ao invés de retaliar por uma força armada, como teria sido feito pela geração anterior, a França optou pelo caminho apropriado e ordenado de apelar para a Liga das Nações."

Então, ele mesmo clamou de forma emocionada a "Herr Hitler" para fazer a coisa decente e desistir.

Buchanan não acha que a Inglaterra e França poderiam ter salvo a Tchecoslováquia em 1938, e suspeito que ele está certo.

Mas este é um assunto menor diante do seu exame clínico da garantia inglesa em ajudar a Polônia em março de 1939. Hitler viu nossa posição como um blefe vazio, e o enfrentou.

Os poloneses foram esmagados e assassinados, e seu país varrido do mapa. A derrota final de Hitler deixou eventualmente a Polônia sob o jugo soviético por duas gerações.

Embarcamos então em uma guerra que nos custou nosso Império, muitos de nossos melhores mercados de exportação, o que foi deixado de nossa supremacia naval, e a maior parte de nossa riqueza nacional - alegremente tomada de nós por Roosevelt em retorno aos suprimentos do Lend-Lease.

Como resultado direto, dispensamos a presença de um Mercado Comum que havia sido nossa independência nacional.

Deveríamos ter sido mais sábios e se comportar como os EUA, ficando de fora e esperando Hitler e Stalin se aniquilarem?

Hitler realmente queria mesmo uma guerra contra a Inglaterra ou acabar com o Império Britânico?

O país mais interessado em desmontar nosso Império era os EUA. Hitler nunca construiu uma marinha de superfície verdadeiramente capaz de desafiar a nossa e, para nossa sorte, ele deixou para muito tarde a construção de submarinos para nos matar de fome.

Ele foi derrotado por pouco na Batalha da Inglaterra, mas como teríamos temido se, um ano depois, ele tivesse usado as forças que ele usou na Rússia para nos atacar?

Mas ele não o fez. Seu "plano" de invadir a Inglaterra, a famosa "Operação Leão Marinho", era apenas um esboço, rapidamente abandonado.

Pode ser verdade que ele não estava muito interessado em lutar ou nos invadir? Seus assessores sempre ficavam perplexos pela sua admiração do Império Britânico, sobre o qual ele falaria por horas.

É claro, ele era um ditador cruel. Mas assim também era Joseph Stalin, que mais tarde tornou-se nosso honrado aliado, sustentado com armas britânicas, bajulado por nossa imprensa e políticos, incluindo o próprio Churchill.

Por volta de 1940, Stalin de fato havia matado mais pessoas do que Hitler e havia invadido quase número idêntido de países.

Quase declaramos guerra a ele em 1940 e ele ordenou aos comunistas britânicos para subverter nosso esforço de guerra contra os nazistas durante a Batalha da Inglaterra.

E, em aliança com Hitler, ele abasteceu a Luftwaffe com muito do combustível e recursos que ela precisava para bombardear Londres.

Não é simples, não? Analise o século XX e verá a Inglaterra repetidamente lutando contra a Alemanha, a um custo colossal.

Ninguém pode duvidar do valor e sacrifício envolvidos.

Mas no final, a Alemanha domina a Europa por trás da cortina de fumaça da União Européia; nosso Império e nosso domínio dos mares se foi, lutamos com todos os tipos de problemas de uma grande civilização em declínio, e nosso amigo especial,os EUA, nos superou alegremente para sempre. Mas nós ganhamos a guerra.

http://www.dailymail.co.uk/news/article-560700/Was-World-War-Two-just-pointless-self-defeating-Iraq-asks-Peter-Hitchens.html#ixzz1wPH8lFx9

[SGM] "Não culpem Hitler sozinho pela Segunda Guerra"

Eric Magnolis, 07/09/2009


A História é a propaganda dos vitoriosos. Realmente, Adolf Hitler da Alemanha tem recebido toda a culpa pelo início da Segunda Guerra na Europa, o conflito mais mortal da história no qual 50 milhões morreram.

É interessante que o septuagésimo aniversário da Segunda Guerra tenha aberto velhas feridas e iniciado uma batalha terrível de palavras entre a Rússia e seus vizinhos não muito queridos, Ucrânia, Polônia e os Estados Bálticos. Os últimos dois acusam Moscou de tê-los traído em 1939, ao tornar-se aliada da Alemanha Nazista.

A Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) recentemente acusou a URSS e a Alemanha "igualmente pela Segunda Guerra Mundial." (http://eurodialogue.org/OSCE-Resolution-Equating-Stalinism-With-Nazism-Enrages-Russi ). Após 70 anos, já era tempo.

"Uma mentira descarada," respondeu raivosamente o presidente da Rússia, Dimitry Medvedev. O custo da guerra da União Soviética foi 25 milhões de mortos. Os russos estão totalmente certos em acreditar que foram eles, não os EUA e o Império Britânico, que derrotaram a Alemanha de Hitler. Os russos lutaram com incrível heroismo, sofreram baixas e danos inimagináveis, e varreram a Alemanha Nazista. Os Aliados tiveram um importante, mas comparativamente menos importante, papel na Europa contra uma Alemanha já derrotada e arruinada.

Sublinhando a reabilitação de Stalin por Moscou, Medvedev diz que o ditador soviético salvou a Europa de Hitler e rejeita todas as tentativas de igualá-lo ao ditador alemão.

Mas os fatos nos mostram dados diferentes. Stalin foi um assassino em massa pior do Hitler num fator de três ou quatro. Stalin era também um estrategista, líder guerreiro e diplomata mais esperto que Hitler, que arrastou a Alemanha para uma guerra que ela possivelmente não ganharia e para a qual estava pouco preparada.

O primeiro-ministro Vladimir Putin admite que o Pacto Molotov-Ribbentrop de 1939 que dividiu a Polônia entre Alemanha e a União Soviética, entregando os Estados Bálticos e a Bessarábia da Romênia para os soviéticos, foi "imoral".

Mas Putin corretamente diz que o Pacto de Munique de 1938 assinado pela Inglaterra e França com Hitler, no qual retornava a região étnica dos Sudetos para o controle da Alemanha-Áustria foi igualmente imoral. Ele lembrou do papel decisivo da Polônia no retalhamento da Tchecoslováquia. Ele acusou os críticos da Europa oriental de "colaboradores do fascismo."

Interessantemente, sabemos que Hitler estava determinado a desfazer os efeitos perniciosos dos tratados de "paz" pós-Primeira Guerra Mundial, os quais cruelmente desmembraram o Reich alemão, e os Impérios Austro-Húngaro e Otomano. Ele estava decidido a restabelecer as fronteiras de 1914.

Mas é pouco compreendido que Stalin também estava envolvido numa retificação histórica e geográfica. Ele queria apagar os efeitos do Tratado de Brest-Litovsk de 1918, imposto à Rússia derrotada e em revolução pelas Potências Centrais lideradas pela Alemanha.

O tratado draconiano retirou um quarto da população e indústria da Rússia, e envolveu vastas extensões de territórios dominados pela Rússia: Polônia, Estados Bálticos, Belarus, Ucrânia, Criméia, Bessarábia e Finlândia. Como Hitler, Stalin estava determinado a reconquistar os territórios perdidos. Isto, ele largamente fez de 1920 a 1939. O pacto Molotov-Ribbentrop era o ato final na restauração do velho Império Tzarista.

Um livro fascinante, O Grande Culpado, de Victor Suvorov, pseudônimo de um desertor da inteligência militar soviética (GRU), faz novas revelações explosivas sobre o papel de Stalin em iniciar a Segunda Guerra Mundial. Meus velhos amigos na KGB desprezam a GRU. Mas foi a GRU que conseguiu agentes de nível 2-3 na Casa Branca de Roosevelt e configurou a política estrangeira de guerra da América.




O argumento de Suvorov é simples. Stalin inteligentemente jogou Hitler na guerra ao oferecer a partilha da Polônia. Este ato, Stalin sabia, faria com que Inglaterra e França declarassem guerra à Alemanha. Stalin esperava colher os pedaços que sobrassem do conflito.

Stalin também sabia que a Alemanha não era páreo para a União Soviética. Hitler tinha somente 3.332 tanques, a maioria dos quais eram veículos leves armados com metralhadoras ou canhões de 20mm. Ao contrário de nossas imagens de uma blitzkrieg motorizada, 75% do transporte alemão era feito por cavalos(!) (pense no valor e na quantidade de vagões que são necessários para alimentar 750.000 cavalos). A Wehrmacht não tinha uniformes de inverno. O Alto-Comando Alemão esperava ganhar a guerra contra a Rússia em somente três meses - antes que o inverno chegasse.

Mais imprtante, a Alemanha não tinha matérias-primas exceto o carvão. Suas raras reservas de petróleo vinham da Romênia e Rússia. A Alemanha tinha petróleo suficiente para uma campanha de dois meses contra a União Soviética. Ela não tinha lubrificantes de motor compatíveis para o clima rigoroso de inverno de dezenas de graus abaixo de zero da Rússia.

Ao escavar os aruivos da GRU, Suvorov garante que na primavera de 1941, Stalin estava decidido a lançar 170 divisões, 24.000 tanques e milhares de aviões numa blitzkrieg surpresa contra a Europa Ocidental, apoiado por montanhas de munições e mais exércitos reservas da Ásia e do Oriente distante. O primeiro alvo era Ploesti, Romênia, a única fonte de petróleo da Alemanha. A Alemanha era também a única fonte de petróleo da Itália. A perda de Ploesti teria nocauteado ambas as potências do Eixo.

O Exército da Rússia e a Força Aére foram colocadas em formações ofensivas vulneráveis na nova fronteira teuto-soviética. Stalin ordenou que todas as 1.000 casamatas defensivas da formidável Linha Stalin, que faziam a defesa da fronteira ocidental da URSS, fossem destruídas.

Mas Hitler atacou primeiro. Sabendo da ameaça soviética, Hitler secretamente armou seus exércitos e atacou em 22 de junho de 1941. A Operação Barbarossa pegou os russos de surpresa: aviões no solo, tanques nos carros de transporte, munições ainda fechadas. As forças terrestres soviéticas foram rapidamente envolvidas, cortadas e destruídas em números gigantescos. Tivessem eles estado posicionados em posições defensivas atrás da Linha Stalin, esta vitória não teria acontecido.

A propaganda soviética mais tarde tentou encobrir o plano de Stalin de ataque à Europa, dizendo que suas forças eram antiquadas e despreparadas e os generais incompetentes. Esta visão ainda prevalece hoje.

Não mais, diz Suvorov. Sua visão deixará os historiadores ortodoxos enfurecidos. Eu li atentamente a análise militar de Suvorov. Para mim, como um veterano analista militar, seus números parecem confirmar que Stalin estava prestes a atacar quando Hitler atacou-o preventivamente.

Em 1945, o Exército Vermelho tomou metade da Europa. Mas, pensa Suvorov, se Hitler não tivesse atacado primeiro em 1941, o exército de 30 milhões de Stalin, alimentado por uma produção industrial gigantesca, teria sobrepujado toda a Europa em 1941 numa blitz surpresa.

A conclusão não declarada de Suvorov: Hitler salvou a Europa Ocidental de Stalin. Ele diz, com menos confiança, que a ofensiva de Hitler contra a Rússia levou à inevitável dissolução da União Soviética em 1991 - e o término real da Segunda Guerra Mundial.

Na visão do autor, se a Polônia tivesse devolvido a cidade alemã de Danzig para a Alemanha, a guerra poderia ter sido evitada. O Império Britânico colapsou por causa de sua decisão de ir à guerra contra a Alemanha em 1939 pela Polônia, uma nação que não poderia defender-se.

Tudo isso é uma grande heresia. Precisamos afastar as nuvens prolongadas da propaganda de guerra e começar a compreender o que realmente aconteceu.

http://www.ericmargolis.com/political_commentaries/dont-blame-hitler-alone-for-world-war-ii.aspx

terça-feira, 29 de maio de 2012

GUERRA ASSIMÉTRICA

Gen Ex CARLOS ALBERTO PINTO SILVA
BRASÍLIA - DF, 18 Set 2007
MINISTÉRIO DA DEFESA
EXÉRCITO BRASILEIRO
COMANDO DE OPERAÇÕES TERRESTRES
 
 
Guerra Assimétrica não é somente a guerra do fraco contra o forte: é a introdução de um elemento de ruptura, tecnológico, estratégico ou tático, um elemento que muda a idéia preconcebida; é a utilização de um ponto fraco do adversário. Não existe, pois, conflito armado assimétrico somente pela desigualdade entre os adversários, senão quando os adversários adotam formas de combate diferentes em sua concepção e desenvolvimento.

Em termos operacionais, então, a assimetria (entendida como desbalanceamento) “deriva-se de uma força empregando novas capacidades, que o oponente não percebe, nem compreende, nem espera: capacidades convencionais que sobrepujam as do adversário ou que representam novos métodos de ataque e defesa”.

É a guerra da infantaria realmente leve, que possa se mover para mais longe e mais rapidamente por terra que o inimigo, que tenha um repertório tático completo (não apenas manter o contato e solicitar apoio de fogo), que possa lutar com suas próprias armas (ao invés de depender de armas de apoio) e que se mantenha com o mínimo de apoio logístico.

A convicção moral e a eficiência militar convencional sozinhas não nos permitirão compreender e combater a ameaça que ataca a sociedade e as suas estruturas operacionais. Portanto, é essencial uma definição diferente de nível de adestramento e unidades com pessoal treinado e equipado para adaptação a novas tarefas operacionais inopinadas.

Derrotar estas novas ameaças exige a adequação de nossos sistemas decisórios para operações e a reorganização de nossas estruturas para as necessidades da Inteligência (obtenção e consolidação). Requer equipes híbridas de pensadores, cientistas e profissionais militares escolhidos, trabalhando juntos sob pressão. Depende de combinar a atuação das diversas agências de inteligência, com acesso ao ambiente operacional, considerando isto como assunto de interesse nacional.
 
REFLEXÕES SOBRE O EMPREGO DA FORÇA TERRESTRE NA GUERRA ASSIMÉTRICA

1. Não existe inimigo emassado, contra o qual possamos aplicar todo o poder de combate que a FTer pode dispor. A FTer não poderá ser empregada para romper um inexistente desdobramento inimigo, destruir ou neutralizar forças inimigas e dominar um terreno chave, materializando objetivos em um determinado espaço geográfico.

2. O emprego do fogo em massa, ou a ação contundente, rápida e profunda das formações blindadas perdem protagonismo.

3. A atuação da FTer será fundamental na luta contra um inimigo que empregue o procedimento do tipo guerrilha, contudo contra a subversão e o terrorismo seu papel haverá de ser de apoio às atividades das Forças de Segurança Pública.

4. Devemos considerar a possibilidade de que a FTer, além de ter as capacidades militares clássicas, deve adquirir outras, mais “civis”, que a permita adaptar-se à conjuntura da Guerra de Quarta Geração ou Assimétrica.

5. Na conjuntura da Guerra de Quarta Geração ou Assimétrica, trata-se de resolver situações sociais e culturais complexas em um ambiente hostil, as quais requerem uma preparação e métodos de execução diferentes dos que tradicionalmente têm sido empregados.

6. Combate e Manobra
- Isolar o inimigo eletronicamente e fisicamente.
- Realizar patrulhas, infiltrações, emboscadas, cercos etc.
- Máximo protagonismo de armas inteligentes de precisão.
 
7. Defesa Aérea
A utilização pelos terroristas de aeronaves (e mísseis) que explodem contra um objetivo de alto valor psicológico, nos leva à necessidade de estabelecer normas para Defesa Aérea que estabeleçam as formas de localização, acompanhamento, controle e, se for o caso, derrubada dessas armas.

8. Apoio de Fogo
No combate assimétrico, as ações de fogo haverão de ser: de precisão, seletivas, e, fundamentalmente, efetuadas de plataformas aéreas, tripuladas ou não, utilizando projéteis guiados.

9. Inteligência de Combate
Potencializar todos os órgãos de informações, tanto civis como militares, com maior protagonismo da contra-inteligência, inteligência cultural e atividades de obtenção através de fontes humanas e de sinais.

10. Comunicações
Com três componentes:
- Informações Públicas
- Operações Psicológicas
- Comando e Controle
  1. Guerra Eletrônica
  2. Segurança das Comunicações
  3. Dissimulação

11. Mobilidade, contramobilidade e proteção
As atividades associadas à mobilidade, contramobilidade e proteção têm escassas possibilidades de emprego no conflito assimétrico. Assim, as ações se concentram, fundamentalmente, no flanqueamento de obstáculos, constituídos por massas de minas em pontos de passagem obrigatórios e em zonas semeadas por armadilhas explosivas, e no desbloqueio de ruas, pontes, túneis, etc. O trabalho da FTer não será normalmente em apoio a sua própria manobra, senão em benefício da população civil mediante a construção e reconstrução da infra-estrutura danificada ou destruída pela ação do inimigo.

CONCLUSÃO

O Exército deverá antecipar os prováveis conflitos do milênio, por meio de análise de trabalhos publicados e de estudos prospectivos. Em função desses prováveis conflitos – tipologia e características – serão estabelecidas e desenvolvidas as doutrinas e as tecnologias pertinentes.

A preparação para a defesa da soberania deve receber a mais alta prioridade, mesmo que, dentro das hipóteses consideradas, seja estimada como remota, pois a eficiência alcançada é a base para o desenvolvimento de qualquer outra preparação específica.

As missões de combate, tal como estão concebidas, não garantem o êxito das operações em um conflito assimétrico.

Conflitos assimétricos passarão a ser a norma e não a exceção.

Na Guerra de Quarta Geração, o Estado perde o monopólio sobre a guerra. Em todo o mundo os militares se encontram combatendo oponentes não estatais. Quase em toda a parte o Estado está perdendo.

Para o nosso Exército, a Guerra de Quarta Geração ou Assimétrica representa duas vertentes importantes: como protagonistas, desenvolvendo essa Guerra (Força de Resistência) ou como uma Força Convencional, combatendo uma Força que empregue este tipo de ação militar. Para estas duas opções se faz necessária a devida preparação, aí incluída a Doutrina que nos orientará para o preparo e o emprego de nossas Forças.

Temos ainda que pensar na adaptação desses conceitos para a nossa realidade. Podemos analisar sob este prisma ações possíveis em áreas internas de nosso país, onde, seja pela forma de operar ou pelos meios de combate utilizados, as Forças de Segurança Pública não tenham capacidade de vencer. Ou, ainda, as Operações de Paz, onde o Brasil por seus objetivos de Política Externa está cada vez mais envolvido e comprometido, gerando, para o campo militar, possibilidades de emprego em ambientes operacionais desconhecidos e de enfrentamento com inimigos dos quais não tem nenhuma informação antecipada.

“As forças lutam como são adestradas".

A doutrina deve preparar as forças singulares com uma atitude pronta para lidar eficaz e rapidamente com a incerteza. Deve possuir um conceito operacional que inclua mais do que guerra convencional.

A doutrina do Exército deve tratar a assimetria como uma via de dois sentidos. A assimetria nada mais é do que mudar o nível de incerteza, ou de surpresa, para um novo nível que envolve estilos, meios e até fins. Todos os conflitos assimétricos exibem uma grande disparidade de vontade.

Toda a força militar competente se adapta. A adaptação é crítica para o êxito militar, uma vez que a guerra, assimétrica ou não, trata com a incerteza.

Fazer mudanças em técnicas e procedimentos para que sejam eficazes em toda a força exige experimentação, treinamento e disseminação. Essas ações são partes da natureza adaptável do combate.

Não devemos reescrever a Doutrina do Exército, apenas adaptar suas Forças para executarem a doutrina de novas maneiras.