segunda-feira, 11 de junho de 2012

[ARM] V-2: O primeiro míssil balístico

Em 1933, com a mudança do perfil político na Alemanha, o foguetismo começou a ser encarado como um assunto de segurança nacional. Na verdade, o exército alemão já fazia pesquisas secretas com foguetes como peças de artilharia desde o final dos anos 20, pois o Tratado de Versalhes (1918) havia extinto a antiga força aérea alemã. Assim, uma das primeiras medidas do governo nazista foi extinguir a VFR e transferir todas as atividades relacionadas a foguetes para o exército.

Três meses após o vôo de demonstração do Mirak, von Braun foi recrutado para trabalhar no projeto de foguetes a propelente líquido para o exército. Em dezembro de 1934, von Braun logrou seu primeiro sucesso com um foguete A2 de 270 kg alimentado com etanol e oxigênio líquido, conseguindo lançá-lo a uma altitude de 2km da base de Kummensdorf, próximo a Berlim. Von Braun e seus colaboradores produziram um certo número de projetos experimentais, sendo que o mais famoso deles foi o foguete A-4, que ganhou um “lugar de honra” na história com outro nome: “Arma da Vingança número 2” (Vergeltungswaffe), ou simplesmente V-2. Este foi o primeiro míssil balístico de longo alcance, e a von Braun é creditado o seu desenvolvimento.

Von Braun e oficias da Wehrmacht em Peenemünde

Os pesquisadores rapidamente aumentaram suas instalações em Kummensdorf de modo que, em 1936, as operações tiveram de ser transferidas para uma ilha remota na costa do Mar Báltico, Peenemünde. Entre 1937 e 1941, o grupo de von Braun lançou uns 70 foguetes A3 e A5, cada um testando os componentes que seriam utilizados no projeto do A-4 (figura 1). O A-4 tinha 14 metros de comprimento por 1,6 metro de diâmetro e carregava 738kg de explosivos em sua ogiva, tendo um alcance de 320km. Ele era guiado por um sofisticado sistema de giroscópios que enviavam sinais para o controle aerodinâmico das empenas. Seu sistema de propulsão era constituído de tanques de armazenamento de propelentes, os quais continham álcool (uma mistura de 75% de álcool etílico e 25% de água) e LOX (Oxigênio Líquido).


Figura 1

Os dois fluidos eram entregues na câmara de empuxo por duas bombas centrífugas, comandadas por turbinas a vapor. A turbina operava a 5.000 rpm através de propelentes auxiliares, constituídos por peróxido de hidrogênio (80%) e uma mistura de permanganato de sódio (66%) com água (33%). Este sistema gerava quase 250 kN de empuxo na partida, que aumentava para 720 kN quando a máxima velocidade era atingida. O tempo de combustão do motor era de 60 segundos, impulsionando o foguete a uma velocidade de 1,3 km/s. A câmara de combustão atingia cerca de 2.700ºC, de modo que o envelope metálico era refrigerado por álcool etílico circulando por uma tubulação que passava pela câmara.

Durante a fase propulsiva, o A-4 era controlado por meio de 4 lemes de grafite e 4 palhetas localizadas nas empenas. O processo de guiamento era feito como segue. Suponhamos os lemes e palhetas verticais 1 e 3 e os lemes e palhetas horizontais 2 e 4. Os elementos 1 e 3 controlavam juntos a oscilação e o curso no movimento lateral, enquanto que os elementos 2 e 4 executavam a mesma tarefa no movimento vertical. As palhetas 2 e 4 controlavam a estabilização de rolamento. Todas as palhetas eram controladas por um giroscópio, de modo que elas mantinham o eixo do A-4 vertical. Os lemes 2 e 4 eram controlados por outro giroscópio. Eles cuidavam do ângulo em relação à vertical durante o período de combustão. O último giroscópio era comandado por um terceiro giroscópio que assegurava que o primeiro quilômetro seguia uma trajetória reta, após o que o veículo iniciava um giro para alcançar a correta elevação. Esta elevação era mantida até que a velocidade era alta o suficiente para alcançar o alvo. Finalmente, o último giroscópio desligava o sistema de propulsão, após o que o foguete se comportava como um projétil comum.

O primeiro A-4 vôou em março de 1942, mal atingindo algumas nuvens baixas e se espatifando no mar cerca de 800 metros do local de lançamento.

O segundo lançamento ocorreu em agosto de 1942 e o foguete conseguiu atingir uma altitude de 11 km antes de explodir. Um terceiro lançamento foi realizado em 3 de outubro do mesmo ano, no qual o A-4 seguiu a trajetória predeterminada e sofreu impacto no alvo estabelecido situado a 193km de distância. De fato, este vôo pode ser considerado como o primeiro passo em direção da conquista do espaço, já que pela primeira vez na história dispunha-se de um veículo suficientemente potente para alcançar as regiões mais distantes da atmosfera. O general Walter Dornberger, um dos responsáveis pelo projeto, comentou: “Invadimos o espaço com nosso foguete e pela primeira vez – guarde bem isso – usamos o espaço como uma ponte entre dois pontos da Terra; provamos que a propulsão a foguete é possível para a viagem espacial. Este terceiro dia de outubro de 1942 representa uma nova era do transporte, qual seja a viagem espacial.”




A produção em escala industrial do A-4 começou em 1943. Nessa época, cerca de 17.000 pessoas trabalhavam na base de Peenemünde. De fato, tratava-se do primeiro míssil balístico de longo alcance da história, o qual iria infernizar a vida dos londrinos por algum tempo. A figura 13.10 apresenta um destes foguetes sendo carregado para a rampa de lançamento. Em setembro de 1944, os A-4 foram rebatizados para V-2 e disparados em direção de Londres e dos Países Baixos. Ainda neste ano, apesar da situação cada vez mais difícil da Alemanha, os cientistas de Peenemünde prosseguiam em suas pesquisas para melhorar o desempenho do A-4. Uma atualização que foi feita consistiu na colocação de um par de asas enflexadas no corpo do foguete. A possibilidade de melhorar o guiamento durante a fase balística do vôo prometia aumentar sensivelmente o alcance do míssil. O A-4 modificado finalmente foi testado estaticamente entre o final de 1944 e início de 1945, porém as duas primeiras tentativas de lançamento falharam.

Em 24 de janeiro de 1945, o A-4b finalmente alçou vôo e tornou-se o primeiro foguete dotado de asas a atingir velocidade supersônica de Mach 4. Entretanto, durante a reentrada, o veículo perdeu suas asas e falhou em atingir o alcance preestabelecido. Ademais, apesar de toda a tecnologia empregada na época, os V-2 não chegaram a influenciar o resultado da guerra, revelando-se armas de capacidade destrutiva limitada. De qualquer maneira, as autoridades militares aliadas e russas viram nestes foguetes potencialidades estratégicas enormes e iniciaram uma busca frenética para conseguir essa tecnologia.

No início de 1945, Hitler nomeou o general Hans Kammler, das SS, como comandante das instalações de Peenemünde, incluindo seus cientistas, técnicos e familiares. Por volta desta época, a desordem era tanta que segundo Von Braun: “Tinha dez ordens por escrito em minha mesa. Cinco delas diziam que seríamos mortos por fuzilamento se abandonássemos o lugar e as outras cinco prometiam que eu seria morto se permanecêssemos na base.” Em seguida, Von Braun recebeu ordens de Kammler para evacuar Peenemünde e se dirigir para a Alemanha central, onde ficavam as instalações industriais das peças da V-2. Um comboio partiu de lá em fevereiro de 1945, levando consigo milhares de pessoas e toneladas de equipamentos. Com o colapso da defesa alemã, os técnicos de Peenemünde não tiveram outra alternativa a não ser se entregar para os Aliados, de preferência para os norte-americanos. Em abril de 1945, num hotel perto de Oberjoch, na região de Haus Ingeburg, von Braun e mais de 100 peritos em foguetes esperavam pelo fim. Toda a equipe foi condenada à morte por um Hitler ensandecido para evitar sua captura. O irmão de von Braun, Magnus, contudo, organizou contato com as forças americanas antes que as tropas nazistas executassem sua missão. Numa operação chamada “Paperclip”, o exército americano conseguiu não só a inteligência por trás do V-2, mas também peças e instrumentos suficientes para construir cerca de 200 foguetes nos EUA.

No final da guerra, aproximadamente 8.000 técnicos e cientistas alemães foram aprisionados pelos Aliados. O governo britânico interrogou algumas dessas pessoas e iniciou uma busca por toda a Alemanha à procura de peças para a montagem de foguetes completos para lançamento, operação esta que se chamou “Backfire”. Em outubro de 1945, próximo de Cuxhaven, na Alemanha, os prisioneiros alemães, sob o acompanhamento próximo dos técnicos britânicos, iniciaram a construção de oito exemplares do V-2, sendo que somente três deles foram efetivamente lançados e, dentre estes, apenas um foi lançado com sucesso. Um fato curioso é que muitas das fotos e filmes existentes sobre os V-2 foram feitos em Cuxhaven, com os alemães da equipe de apoio ainda vestindo seus uniformes militares de guerra. Após estes testes, Von Braun, Dornberger e mais alguns supervisores de Peenemünde foram enviados a Londres para ver os estragos provocados pela sua arma. De fato, o ressentimento era tanto que os britânicos queriam ver Dornberger enforcado e somente o libertaram da prisão em 1947.

Os soviéticos também tinham conhecimento dos foguetes A-4. Desde 1935, o governo comunista de Moscou recebia informações da Alemanha. Segundo se soube mais tarde, um espião infiltrado nas SS acompanhou os testes iniciais de foguete a propelente líquido de Von Braun e repassava estas informações para um contato em Berlim, que, por sua vez, informava Moscou. Entretanto, não havia detalhes a respeito dos A-4.

Em maio de 1945, Peenemünde caiu nas mãos dos soviéticos, porém eles não encontraram nada de valor. No final de junho, o exército vermelho tomou a região da Turingia, onde ficavam as instalações industriais do V-2. Lá, encontraram partes intactas de foguetes e alguns especialistas alemães, que deixaram o grupo de Von Braun.

Após a rendição, Von Braun e seus principais assessores foram levados pelos americanos para uma base do exército no deserto de White Sands (Novo México), de onde, até 1952, 64 V-2 foram lançados.



 
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Condecoração "Pour Le Mérite"

Estabelecida em 1740 por Frederico, o Grande, da Prússia a Ordem “Pour Le Mérite” tornar-se-ia a maior condecoração nacional a serviços prestados para o Rei e o País até o final da Primeira Guerra Mundial.

A “Pour Le Mérite” ganhou fama internacional durante a Primeira Guerra Mundial. Apesar de qualquer oficial militar ou civil poder ser agraciado, seus mais famosos ganhadores foram os pilotos do Serviço Aéreo do Exército Alemão (Luftstreitkräfte), cujas façanhas foram celebradas nas propagandas de guerra. No combate aéreo, um piloto de caça era nomeado para ganhar o prêmio após a derrubada de oito aeronaves inimigas. Os azes Max Immelmann e Oswald Böcke foram os primeiros aviadores a receber a condecoração, em 12 de janeiro de 1916. Pelo fato do reconhecimento de Immelmann entre os seus colegas pilotos ser maior, o “Pour Le Mérite” acabou ficando conhecido como “O Max Azul” (“The Blue Max” em inglês ou “Blauer Max” em alemão).

A condecoração era uma Cruz Maltesa azul-esmaltada com águias entre as armas, baseado no símbolo da ordem Johanniter (alfabeto real prussiano) e da lenda francesa “Pour Le Mérite” (pelo Mérito), arranjada sobre os braços da cruz.




Alguns ganhadores famosos do Max Azul com folhas de carvalho:

Paul von Hindenburg: Marechal-de-campo e último presidente da Alemanha, antes da ascensão dos nazistas. Agraciado com a Ordem em setembro de 1914 e com as folhas de carvalho em fevereiro de 1915.

Otto von Bismarck: Chanceler prussiano e alemão durante o período de unificação; decorado em 1884 com o Max Azul com folhas de carvalho.

Manfred von Richthofen: mais conhecido como “Barão Vermelho”, foi o melhor piloto da Primeira Guerra. Richthofen também recebeu a Ordem Militar da Saxônia de Santo Henrique e a Ordem de Mérito Militar de Württemberg, assim como outras condecorações alemãs.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

[SGM] Afrika Korps

Em 14 de fevereiro de 1941, o general Rommel desembarca em Trípoli, carregando consigo a nova unidade do exército alemão, o Deutsche Afrika Korps (DAK). O DAK era formado, no início, pela 5ª Divisão Ligeira, que era constituída, por sua vez, por um regimento de dois batalhões, com 90 tanques cada um. A 15ª Divisão Panzer (formada por três batalhões) chegou logo em seguida para ajudar na tarefa de derrotar os ingleses. Entretanto, o primeiro desafio dos alemães na África foi enfrentar o clima inclemente do deserto, com suas variações extremas de temperatura – do frio noturno intenso até o calor insuportável do dia. As dificuldades eram aumentadas ainda pela corrosão inevitável dos veículos provocada pela areia e pela falta de obstáculos naturais – como os que existiam no teatro europeu – para a proteção das tropas de infantaria.




O primeiro embate entre alemães e ingleses aconteceu em 24 de fevereiro, embora a primeira vitória germânica tenha ocorrido em 31 de março. Neste dia, um ataque em Mersa Brega desorganizou os ingleses, provocando sua retirada e o abandono de grande quantidade de blindados e caminhões. Rommel dividiu então suas forças em três grupos bem separados. No caso da infantaria, os panzergranadier teriam que ficar próximos dos tanques, devido à inexistência de abrigos naturais. Do lado britânico, os comandantes que haviam vencido os italianos foram deslocados para a campanha da Grécia. Além disso, os blindados, castigados por meses de duras batalhas no deserto, não eram páreo para as forças recém-chegadas de Rommel. Conseqüentemente, os ingleses foram encurralados em Bengazi; os que conseguiram fugir ficaram estacionados em Tobruk, de costas para a fronteira com o Egito.

Após ser repelido de Tobruk em maio, Rommel tomou Halfaya, na fronteira egípcia. Nesta posição, ele consolidou uma linha de defesa com canhões 88 mm, enquanto aguardava o momento certo para atacar. Em junho os ingleses atacaram o passo de Halfaya, mas os canhões anti-tanque conseguiram repelir o ataque. Rommel, por sua vez, tentou dar a resposta empurrando os ingleses de volta à sua posição inicial com suas divisões panzer. Entretanto, a conquista da Rússia era a prioridade nos planos do Führer e Rommel ficou aguardando a vez para receber o abastecimento de que tanto necessitava. Somente em maio de 1942 o DAK recebeu sua quarta companhia de tanques, mesmo assim a engenhosidade alemã permitiu que sua força blindada fosse mantida na África do Norte, através da recuperação de seus próprios veículos ou da adaptação dos equipamentos capturados do inimigo.

O objetivo agora era a tomada da fortaleza sitiada de Tobruk. Os britânicos lançaram o primeiro ataque pelo flanco do deserto com três colunas blindadas. Rommel se surpreendeu com o ataque, pois em setembro de 1941 havia feito incursões pelo Egito com a sua 21ª Divisão (antiga 5ª Ligeira) e não percebeu nenhuma movimentação importante. Em termos de tanques, os britânicos estavam em vantagem: 756 contra os 569 das forças do Eixo. A figura 1 mostra as fases do avanço alemão na África entre 1941 e 42.


Figura 1


Mesmo com essa superioridade, os ingleses não lograram êxito em sua investida, pois dispersaram suas forças, ao invés de concentra-las como os alemães costumavam fazer. Como resultado, Rommel alcançou vitórias importantes ao sul de Tobruk. Entretanto, uma falha tática do general alemão tirou-lhe a vitória de suas mãos. Ao invés de prosseguir no ataque, castigando as desorganizadas tropas inimigas, Rommel decidiu atacar as linhas de comunicação inglesas. Isto permitiu que os britânicos recuperassem seus equipamentos no campo de batalha e se reorganizassem rapidamente. A luta, que poderia ter sido decidida em 24 horas a favor dos alemães, acabou prosseguindo por mais duas semanas, acarretando em perdas proibitivas para as divisões panzer.

Apesar da derrota e da entrada dos EUA na guerra ao lado do Reino Unido, o moral das tropas alemãs não foi abalado seriamente, pois os soldados depositavam toda sua confiança em seus líderes e prosseguiam lutando mesmo quando tinham que recuar. Assim, Rommel planejou uma grande ofensiva sobre os ingleses a fim de expulsa-los definitivamente da África do Norte. Ele sabia que o tipo de guerra que estava sendo travada – uma briga de gato e rato – não poderia ser prolongado por muito tempo. Eventualmente, os britânicos assimilariam suas táticas e, com a ajuda do abastecimento inesgotável de armamento norte-americano, a derrota alemã chegaria mais cedo ou mais tarde. Em 26 de maio de 1942, os alemães iniciaram seu ataque, tentando flanquear os campos minados e as posições de infantaria da costa até Bir Hakeim. O que ele não esperava, contudo, era encontrar os ingleses armados com os novos tanques estadunidenses Grant junto com canhões anti-tanque de 6 libras (equivalentes aos 50mm alemães). Mesmo capturando material abandonado pelos inimigos, estava claro que os alemães não conseguiriam superar os aliados.

Rommel dispôs suas forças numa posição defensiva, chamada “Caldeirão”, como uma forma de provocar desgaste nos ingleses com seus canhões anti-tanque. Apesar dos ataques inclementes ao Caldeirão, os britânicos desviaram suas forças para atacar outras posições. Esse alívio permitiu a Rommel repensar sua estratégia, desferindo um golpe devastador sobre os ingleses e tomando-lhes o suprimento de que tanto necessitava para prosseguir a guerra. A força blindada aliada, inicialmente superior à alemã, agora sequer conseguia apoiar a infantaria em Tobruk. Conseqüentemente, a fortaleza caiu em 21 de junho.

Após a tomada de Tobruk, celebrada com grande entusiasmo pelos alemães, Rommel solicitou autorização a Hitler para prosseguir sua perseguição aos ingleses até o Egito, e alcançar as linhas de defesa de El Alamein. A batalha se prolongou de julho a novembro, caracterizando-se como uma guerra de atrito. Prejudicado pela extensa linha de comunicação, pela falta de reposição de recursos e pelos ataques ferozes da RAF sobre suas posições e linhas de abastecimento, Rommel entendeu que a Alemanha seria derrotada na África. Em setembro, o general voltou para casa, mas acabou retornando em outubro para enfrentar os ingleses pela última vez. Os aliados operavam agora o tanque Sherman, com seu canhão de 75mm capaz de perfurar a blindagem panzer e enfrentar os temíveis canhões 88. Contando com apenas 50 tanques remanescentes de sua força original, os alemães se retiraram definitivamente do Egito em novembro.

No final de 1942, não obstante, começaram a chegar os primeiros reforços norte-americanos no Marrocos e Argélia. Neste caso, havia o risco de o DAK ser prensado dos dois lados, a leste pelas forças britânicas de El Alamein e a oeste pelas forças anglo-americanas na Argélia. O Alto-Comando alemão iniciou então os preparativos para a retirada de suas forças da África do Norte, contudo Hitler determinou que Rommel defendesse cada pedaço de solo que estivesse sob seu controle, ou seja, a tática do “render-se jamais”, que tanto infortúnio trouxe à Wehrmacht durante a guerra. Assim, em janeiro de 1943, Rommel, agora no comando de todas as forças do Eixo na África, recebeu recursos para criar mais duas divisões panzer, inclusive contando com batalhões compostos do novo modelo de tanque Tigre. Em 13 de fevereiro, o general von Armin, comandante do 5o. Ex. Panzer, realizou uma bem-sucedida ofensiva contra a inexperiente divisão blindada norte-americana. Rommel, por sua vez, tentou um ataque direto na Tunísia contra o 8° Ex., do general inglês Montgomery, utilizando três divisões panzer. Seu ataque, entretanto, já estava sendo esperado pelos aliados e o alemão foi derrotado. Após esse fracasso, Rommel retornou à Europa e foi substituído por Armin no comando do DAK. A partir daí, iniciou-se a retirada definitiva das forças ítalo-germânicas da África.


General Erwin Rommel

A Arte da Guerra

"Evitar guerras é muito mais gratificante do que vencer mil batalhas.”


A Arte da Guerra (ou "Estratégia Militar de Sun Tzu"), é um tratado militar escrito durante o século IV a.C. pelo estrategista conhecido como Sun Tzu. O tratado é composto por treze capítulos, onde em cada capítulo é abordado um aspecto da estratégia de guerra, de modo a compor um panorama de todos os eventos e estratégias que devem ser abordados em um combate racional. Acredita-se que o livro tenha sido usado por diversos estrategistas militares através da história como Napoleão, Adolf Hitler e Mao Tse Tung.

Desde 1772 existem edições européias (quatro traduções russas, uma alemã, cinco em inglês), apesar de serem consideradas insatisfatórias. A primeira edição ocidental tida como uma tradução fidedigna data de 1927.

Apesar da antiguidade da obra, nenhuma obra ou tratado é tão compreensível e tão atual quanto A Arte da Guerra.

Com seu caráter sentencioso, Sun Tzu forja a figura de um general cujas qualidades são o segredo, a dissimulação e a surpresa.

Hoje, A Arte da Guerra parece destinado a secundar outra guerra: a das empresas no mundo dos negócios. Assim, o livro migrou das estantes dos estrategistas para as do economista e do administrador.

Embora as táticas bélicas tenham mudado desde a época de Sun Tzu, esse tratado teria influenciado, segundo a Enciclopédia Britânica, certos estrategistas modernos como Mao Tsé-Tung, em sua luta contra os japoneses e os chineses nacionalistas.

A obra é composta por 13 capítulos:


Capítulo 1 - PLANEJAMENTO INICIAL

O primeiro capítulo de A Arte da Guerra é dedicado à importância da estratégia. Como o clássico I Ching afirma: "O líder planeja no início, antes de começar a agir", e "o líder avalia os problemas e os previne”. Em termos de operações militares, A Arte da Guerra coloca cinco aspectos que devem ser determinados antes de empreender qualquer ação: Caminho, o clima, o terreno, a liderança militar e a disciplina.

Neste contexto, o Caminho (Tao*) se refere à liderança civil, ou, antes, ao relacionamento entre a liderança política e a população. Tanto na linguagem taoísta como na confucionista, um governo justo é descrito como "imbuído pelo Tao", e Sun Tzu também fala do Caminho como aquele que "induz o povo a ter o mesmo objetivo que os líderes".

O exame do clima, o problema da estação mais propícia para a ação, também tem relação com o interesse pelo povo, significando tanto a população em geral quanto os militares. O ponto essencial, aqui, é evitar a interrupção das atividades produtivas do povo, as quais dependem das estações, e evadir extremos climáticos que poderiam criar obstáculo ou prejudicar as tropas no campo de batalha.

O terreno deve ser avaliado em termos de distância, grau de dificuldade para a locomoção, dimensões e segurança. A utilização de batedores e de guias nativos é importante nesse ponto porque, como diz o I Ching, "Ir à caça sem um guia é perder o dia".

Os critérios oferecidos por A Arte da Guerra para avaliar os líderes militares são as virtudes tradicionais, as mesmas que são recomendadas pelo Confucionismo e pelo Taoísmo medieval: a inteligência, a confiabilidade, a humanidade, a coragem e a austeridade. De acordo com o grande budista Chan, Fushan: "Humanidade sem inteligência é como ter um campo, mas não ará-lo. Inteligência sem coragem é como ter uma vegetação florescente, mas não limpá-la das ervas daninhas. Coragem sem humanidade é saber colher, mas não saber semear”. As outras duas virtudes, a confiabilidade e a austeridade são as que possibilitam ao líder obter, respectivamente, a lealdade e a obediência das tropas.

O quinto elemento a ser avaliado, a disciplina, refere-se à coerência e à eficiência organizacional. A disciplina está muito ligada à confiabilidade e à austeridade, ambas desejáveis nos líderes militares, visto que ela utiliza os mecanismos correspondentes da recompensa e da punição. Muita ênfase é posta na tarefa de estabelecer um sistema claro e objetivo de prêmios e castigos que seja aceito pêlos guerreiros como justo e imparcial. Este foi um dos aspectos mais importantes do Legalismo, uma escola de pensamento que surgiu durante o período dos Estados Belicosos e que acentua mais o valor da organização racional c do estatuto da lei do que o de um governo feudal personalista.

*O Tao não é só um caminho físico e espiritual; é identificado com o Absoluto que, por divisão, gerou os opostos/complementares Yin e Yang, a partir dos quais todas as “dez mil coisas” que existem no Universo foram criadas. O Yin é feminino e representa escuridão, ódio, intolerância, embotamento, sedentarismo e no símbolo do Yin e do Yang, o Yin é representado com uma cor mais escura. O Yang é masculino e representa: luz, atividade, amor, tolerância, criatividade, iniciativa e no símbolo com uma cor mais clara. Juntos representam a união e complementaridade entre os opostos. No meio da claridade do Yang existe um pequeno círculo de sombra de Yin e no meio da sombra do Yin existe um pequeno círculo claro de Yang. O que simboliza o movimento contínuo e constante de evolução dos atributos de um para os atributos do outro. É um conceito muito antigo, adotado como princípio fundamental do taoísmo, doutrina fundada por Lao Zi.

Continuando a discussão dessas cinco avaliações, A Arte da Guerra passa a analisar a importância fundamental da simulação: "Uma operação militar envolve simulação. Mesmo sendo competente, mostra-te incompetente. Embora eficiente, aparenta ser ineficiente.”  É como o Tao-Te King recomenda: "Quem tem grande habilidade mostra-se inapto”.O elemento surpresa, tão necessário para a vitória com o máximo de eficiência, depende de conhecer os outros sem ser por eles conhecido, de modo que o segredo e a informação distorcida são considerados artes essenciais. Falando de maneira geral, a luta corpo a corpo é o último recurso do guerreiro habilidoso. Deste, Sun Tzu diz que deve estar preparado e, no entanto, tem de evitar o confronto direto com um adversário destemido. Mestre Sun recomenda que, em vez de dominar o inimigo diretamente, deve-se cansá-lo pela fuga, fomentar a intriga entre seus escalões, manipular seus sentimentos e usar sua ira e seu orgulho contra si próprio. Assim, em síntese, a proposição inicial de A Arte da Guerra introduz os três aspectos principais da arte do guerreiro: o social, o psicológico e o físico.


Capítulo 2 - GUERREANDO

O segundo capítulo de A Arte da Guerra, sobre a batalha, ressalta as conseqüências domésticas da guerra, mesmo da guerra externa. A ênfase é posta sobre a velocidade e a eficiência, com advertências incisivas para não prolongar as operações, especialmente campo adentro. A importância de se conservar a energia e os recursos materiais recebe atenção particular. Para minimizar o desgaste que a guerra causa na economia e na população, Sun Tzu recomenda a prática de alimentar o inimigo e de usar as forças cativas por meio de um bom tratamento.


Capítulo 3 - ESTRATÉGIA OFENSIVA

O terceiro capítulo, planejamento do assalto, também acentua a conservação — o objetivo geral é chegar à vitória mantendo intacto o maior número possível de bens, sociais e materiais, e não destruindo todas as pessoas e coisas que estejam no caminho. Neste sentido, Mestre Sun afirma que é melhor vencer sem lutar. Várias recomendações táticas reforçam este princípio de conservação geral. Primeiro, por ser desejável vencer sem lutar, Sun Tzu diz que é melhor vencer os adversários logo no início das operações, frustrando assim seus planos. Se isso não for possível, Sun Tzu recomenda isolar o inimigo e torná-lo indefeso. Aqui também poderia parecer que o tempo é essencial, mas, na verdade, velocidade não significa pressa, e uma preparação completa se faz necessária. Sun Tzu conclui enfatizando que, obtida a vitória, esta deve ser completa e total, para evitar os custos de manutenção de uma força de ocupação.

O capítulo prossegue delineando as estratégias para a ação de acordo com o número relativo de protagonistas e de antagonistas, novamente observando que é mais prudente evitar pôr-se em circunstâncias desfavoráveis, se possível. O I Ching diz: "É má fortuna teimar diante de circunstâncias insuperáveis”.Além disso, enquanto a formulação da estratégia depende de uma inteligência prévia, é também imperativo adaptar-se às situações reais da batalha. Como afirma o I Ching: "Chegando a um impasse, muda; depois de mudar, podes prosseguir”.Em seguida, Mestre Sun relaciona cinco modos de averiguar a possibilidade de vitória, de conformidade com o tema de que guerreiros hábeis lutam só quando têm certeza da vitória.

De acordo com Sun, os vitoriosos são aqueles que sabem quando lutar e quando não lutar; os que sabem quando usar muitas ou poucas tropas; aqueles cujos oficiais e soldados formam uma unidade compacta; os que enfrentam os incautos com preparação; e os que são comandados por generais capazes que não são pressionados pelo governo. Este último ponto é muito delicado, visto que põe uma responsabilidade moral e intelectual ainda maior sobre os líderes militares. Enquanto a guerra nunca deve ser deflagrada pêlos militares, como mais adiante se explicará, mas pelo comando do governo civil, Sun Tzu afirma que uma liderança civil ausente que interfere de modo ignorante no comando de campanha "afasta a vitória embaraçando os militares". Novamente, a questão parece ser a do conhecimento; a premissa de que a liderança militar no campo não deve estar sujeita à interferência do governo civil baseia-se na idéia de que a chave para a vitória é o conhecimento profundo da situação real. Delineando esses cinco modos para determinar qual dos lados tem possibilidade de prevalecer sobre o outro, Sun Tzu afirma que quando conhecemos a nós mesmos e aos outros nunca estamos em perigo; quando conhecemos a nós mesmos, mas não aos outros, temos cinqüenta por cento de possibilidade de vencer, e quando não conhecemos a nós próprios nem aos outros, estamos em perigo em qualquer batalha.


Capítulo 4 - DISPOSIÇÕES

O quarto capítulo de A Arte da Guerra trata da formação, uma das questões mais importantes da estratégia e do combate. Numa postura caracteristicamente taoísta, Sun Tzu declara que o segredo para a vitória é a adaptabilidade e a inescrutabilidade. Como o comentador Du Mu explica: "A condição interior do informe é inescrutável, enquanto que a daqueles que adotaram uma forma específica é claramente manifesta. O inescrutável vence, o manifesto perde”. Neste contexto, a inescrutabilidade não é meramente passiva, não significa apenas afastar-se ou esconder-se dos outros; significa, sim, a percepção do que é invisível aos olhos dos outros e a reação a possibilidades ainda não percebidas por aqueles que só observam o manifesto. Discernindo oportunidades antes que sejam visíveis aos outros e agindo com rapidez, o misterioso guerreiro pode tomar conta da situação antes que as coisas se escoem por entre os dedos. Seguindo esta linha de raciocínio, Sun Tzu volta a pôr ênfase na busca da vitória certa pelo conhecimento do momento de agir e de não agir. Torna-te invencível, diz ele, e enfrenta o adversário no momento em que ele é vulnerável: "Os bons guerreiros tomam posição onde não podem perder e não descuidam das condições que tornam o inimigo propenso à derrota." Revendo essas condições, Sun reelabora alguns dos pontos principais para a avaliação das organizações, tais como a disciplina e a ética versus ambição e corrupção.


Capítulo 5 - ENERGIA

O tema do capítulo quinto de A Arte da Guerra é a força, ou o ímpeto, a estrutura dinâmica de um grupo em ação. Aqui, Mestre Sun ressalta as habilidades organizacionais, a coordenação e o uso tanto de métodos de guerra ortodoxos como de guerrilha. Ele enfatiza a mudança e a surpresa, empregando variações intermináveis de táticas e usando as condições psicológicas do adversário para manobrá-lo a posições vulneráveis. A essência do ensinamento de Sun Tzu sobre a força é a unidade e a coerência na organização, utilizando a força do ímpeto antes de contar com as qualidades e habilidades individuais: "Bons guerreiros buscam a eficácia da batalha na força do ímpeto, não em cada pessoa." É esse reconhecimento do poder do grupo para equilibrar disparidades internas e para funcionar como um único corpo de força que distingue A Arte da Guerra do individualismo idiossincrático dos espadachins samurais do Japão feudal posterior, cujas artes marciais estilizadas são tão conhecidas no Ocidente. Esta ênfase é uma das características essenciais que tornou a antiga obra de Sun Tzu tão útil para os guerreiros organizados em corporação da Ásia moderna, entre os quais A Arte da Guerra é amplamente lida e ainda hoje considerada o clássico inigualável de estratégia no conflito.


Capítulo 6 - FRAQUEZAS E FORÇAS

O capítulo sexto aborda, a questão da "vacuidade e da plenitude", já mencionadas como conceitos taoístas fundamentais geralmente adaptados às artes marciais. A idéia é encher-se de energia ao mesmo tempo em que se esvazia o oponente. Como Mestre Sun diz, isto é feito para nos tornarmos invencíveis e para enfrentar os adversários somente quando estes são vulneráveis. Uma das mais simples dessas táticas é muito conhecida não apenas no contexto da guerra, mas também na manipulação social e dos negócios: "Bons guerreiros atraem o inimigo a si; não são eles que atacam o inimigo." Outra função da inescrutabilidade tão intensamente valorizada pelo guerreiro taoísta é a que recomenda conservar a própria energia ao mesmo tempo em que se induz os outros a desperdiçar a sua: "O objetivo de formar um exército é chegar à não-forma", diz Mestre Sun; assim, ninguém poderá elaborar uma estratégia contra ti. Ao mesmo tempo, diz ele, induz o adversário a organizar suas próprias formações, leva-o a esparramar-se; testa o oponente para sondar seus recursos e reações, mas permanece desconhecido. Neste caso, o informe e o fluido não são apenas meios de defesa e surpresa, mas meios de preservar o potencial dinâmico, a energia que pode ser facilmente perdida por manter-se numa posição ou formação específica. Mestre Sun compara uma força bem-sucedida à água, que não tem forma constante, mas que, como observa o Tao-Te-King, prevalece sobre tudo a despeito de sua fraqueza aparente. Sun afirma: "Uma força militar não tem formação constante, a água não tem forma constante. A habilidade de alcançar a vitória mudando e adaptando-se de acordo com o inimigo é chamada de genialidade”.


Capítulo 7 - MANOBRAS

O sétimo capítulo de A Arte da Guerra, sobre a luta armada, trata da organização efetiva no campo e das manobras de combate, e também reintroduz vários dos principais temas de Sun Tzu. Começando com a necessidade de informações e preparação, Sun afirma: "Entra em ação somente depois de fazer a devida avaliação. Aquele que por primeiro avaliar a distância do perto e do longe vencerá — está é a lei da luta armada”. O I Ching diz: "Prepara-te, e terás boa fortuna." Novamente expondo sua filosofia tática minimalista/essencialista, característica que lhe é muito própria. Sun Tzu continua: "Suga a energia do exército adversário, arranca o coração dos seus generais." Retomando seus ensinamentos sobre a vacuidade e a plenitude, também afirma: "Evita a energia intensa, ataca a moderada e a fugidia." Para aproveitar ao máximo os benefícios dos princípios da vacuidade e da plenitude, Sun ensina quatro tipos de habilidades essenciais ao guerreiro insondável: domínio da energia, domínio do coração, domínio da força e domínio da adaptação. Os princípios da vacuidade e da plenitude também põem à mostra o mecanismo fundamental dos clássicos princípios yin-yang, sobre os quais os primeiros se baseiam, o mecanismo da reversão de um para o outro nos extremos. Mestre Sun diz: "Não interrompas a marcha de um exército em seu retorno para casa. Um exército cercado deve ter uma saída. Não pressiones um inimigo desesperado." O I Ching diz: "O soberano usa três caçadores, deixando a caça à frente escapar", e "se fores muito inflexível, a ação será mal sucedida, mesmo que estejas certo."


Capítulo 8 - AS NOVE VARIÁVEIS

O capítulo oitavo é dedicado à adaptação, já vista como uma das pedras angulares da arte bélica. Mestre Sun assevera: "Se os generais não souberem adaptar-se de modo vantajoso, mesmo que conheçam a disposição do terreno, não conseguirão tirar proveito dela." O I Ching diz: "Persiste intensamente no que está além de tua profundidade, e tua fidelidade a essa direção trará a desgraça, não o proveito." A adaptabilidade depende naturalmente da prontidão, outro tema que se repete de A Arte da Guerra. Mestre Sun afirma: "O preceito das operações militares é não supor que o inimigo não avance, mas dispor de meios para lidar com ele; não confiar que o adversário não ataque, mas esperar em ter o que não pode ser atacado." O I Ching diz: "Se te sobrecarregares sem ter uma base sólida, serás por fim exaurido, o que te trará dificuldades e má fortuna." Em A Arte da Guerra, a prontidão não significa apenas preparação material; sem um estado mental apropriado, a mera força física não é suficiente para garantir a vitória. Mestre Sun define indiretamente as condições psicológicas do líder vitorioso, enumerando cinco perigos — ter muita disposição para morrer, ter muita ansiedade de viver, encolerizar-se com muita rapidez, ser puritano ou sentimental demais. Mestre Sun afirma que qualquer um desses excessos cria pontos vulneráveis que podem ser facilmente explorados por adversários astutos. O I Ching diz: "Ao aguardar à beira de uma situação, antes que o tempo adequado para entrar em ação chegue, mantém-te alerta e evita ceder ao impulso — assim fazendo, não errarás."


Capítulo 9 - MOVIMENTAÇÕES

O capítulo nono trata de exércitos em manobras estratégicas. Mais uma vez Mestre Sun fala sobre os três aspectos da arte do guerreiro — o físico, o social e o psicológico. Em termos físicos concretos, ele recomenda certos tipos óbvios de terreno que favorecem as probabilidades de vitória: elevações, rio acima, o lado ensolarado dos morros, regiões abundantes de recursos. Com base nas três dimensões, descreve ainda os modos de interpretar os movimentos do inimigo.

Embora Mestre Sun nunca deixe de levar em conta o peso dos números ou do poder material, aqui como em outras partes há uma forte sugestão de que fatores sociais e psicológicos têm condições de superar o tipo de poder que pode ser quantificado fisicamente: "Nas questões militares, não é necessariamente benéfico ter mais: benéfico é evitar agir agressivamente; é suficiente consolidar o teu poder, avaliar os adversários e conquistar o povo; isto é tudo." O I Ching afirma: "Quando tens os meios, mas não estás chegando a lugar nenhum, procura parceiros apropriados, e terás boa fortuna." Do mesmo modo, enfatizando o esforço do grupo dirigido, A Arte da Guerra diz: "O individualista sem estratégia que considera os adversários com leviandade irá inevitavelmente tornar-se um cativo." A solidariedade requer especialmente compreensão mútua e relação estreita entre os líderes e os liderados, adquirida tanto através da educação como do treinamento. O sábio confuciano Meneio disse: "Os que enviam pessoas a operações militares sem educá-las as destroem." Mestre Sun diz: "Dirige-os pelas artes da cultura, unifica-os pelas artes marciais; isto é vitória certa." O I Ching diz: "É boa fortuna quando os dirigentes dão suporte a seus dirigidos, ficando atentos a eles e deles extraindo suas potencialidades."


Capítulo 10 - TERRENO

O capítulo décimo, que analisa a questão do terreno, dá continuidade às idéias de manobras técnicas e à adaptabilidade, delineando tipos de terreno e maneiras adequadas de se acomodar a eles. Requer-se reflexão para transferir os padrões desses tipos de terreno a outros contextos, mas o ponto fundamental está em considerar a relação do protagonista com as configurações do ambiente material, social e psicológico. Mestre Sun adota esse ponto de vista com observações sobre as deficiências organizacionais fatais pelas quais o líder é responsável. Aqui, novamente, a ênfase está posta no moral da unidade: "Considera teus soldados como filhos bem-amados, e eles de boa vontade morrerão contigo." O I Ching diz: "Os que estão acima asseguram seus lares pela bondade para com os que estão abaixo." Apesar disso, ampliando a metáfora, Mestre Sun também adverte contra ser abertamente indulgente, o que traria como conseqüência tropas semelhantes a crianças mimadas. Este capítulo ressalta também a inteligência, no sentido de conhecimento preparatório. Sua definição inclui de modo particular a percepção clara das capacidades das próprias forças, da vulnerabilidade do adversário e da disposição do terreno: "Quando conheces a ti mesmo e aos outros, a vitória não está ameaçada; quando conheces o céu e a terra, a vitória é inesgotável." O I Ching diz: "Sê cuidadoso no começo, e não terás dificuldades no fim."


Capítulo 11 - AS NOVE VARIÁVEIS DE TERRENO

O décimo primeiro capítulo, intitulado "Nove Regiões", apresenta um tratamento mais detalhado do relevo, especialmente em termos do relacionamento de um grupo com o terreno. Pode-se compreender que essas "nove regiões" se aplicam não só ao mero território físico, mas também ao "território" em seus sentidos social e mais abstraio. As nove regiões relacionadas por Mestre Sun são assim denominadas: região de dissolução, região leve, região de contenda, região de tráfego, região de intersecção, região pesada, região ruim, região sitiada e região de morte (ou mortal). Uma região de dissolução é um estágio de guerra destrutiva para ambos os lados ou guerra civil. A região leve se refere a incursões marginais ao território inimigo. Uma região de contenda é a que pode ser vantajosa para ambos os lados de um conflito. Uma região de tráfego é aquela em que se verifica passagem livre. Região de intersecção é um território que controla artérias de comunicação importantes. Região pesada, em comparação com a leve, refere-se a incursões profundas no território adversário. Região ruim é terreno difícil ou imprestável. Região sitiada é a que tem acesso restrito, própria para emboscada. Região de morte é uma situação em que é necessário lutar imediatamente ou ser destruído. Ao descrever a tática apropriada a cada tipo de região, Mestre Sun inclui uma reflexão sobre os elementos social e psicológico do conflito, na medida em que esses estão inextricavelmente ligados à reação ao ambiente: "Deve-se examinar os seguintes aspectos: adaptação às diferentes regiões, vantagens da contração e da expansão, padrões de sentimentos humanos e condições."


Capítulo 12 - ATAQUES COM O EMPREGO DE FOGO

O décimo segundo capítulo de A Arte da Guerra, sobre o ataque com fogo, inicia com uma breve descrição dos vários tipos de ataque incendiário e inclui observações técnicas e estratégias para o acompanhamento. Talvez porque, num sentido material comum, o fogo seja a forma mais perversa de arte marcial (os explosivos existiam no tempo de Sun Tzu, mas não eram usados militarmente), é neste capítulo que encontramos o mais ardente apelo pela humanidade, fazendo eco à idéia taoísta de que as "armas são instrumentos de desgraça que devem ser usadas somente quando for inevitável". Concluindo abruptamente sua breve reflexão sobre o ataque com fogo, Mestre Sun diz: "Um governo não deve mobilizar um exército motivado pela raiva, os líderes militares não devem provocar a guerra movidos pela cólera. Antes, deves agir se for benéfico; caso contrário, deves desistir. A raiva pode se transformar em alegria, a cólera pode se tornar prazer, mas uma nação destruída não pode ser restaurada para a existência, e os mortos não podem ser devolvidos à vida."


Capítulo 13 - UTILIZAÇÃO DE AGENTES SECRETOS

O décimo terceiro e último capítulo trata da espionagem, fechando assim o círculo com o capítulo inicial sobre a estratégia, para a qual a inteligência é essencial. Novamente guiando-se pelo minimalismo orientado para a eficiência e pelo conservadorismo, para os quais se voltam as habilidades que ensina, Mestre Sun começa falando da importância dos agentes de inteligência nos termos mais enfáticos: "Uma operação militar de importância é um escoadouro grave da nação, e pode ser mantida por anos de luta pela vitória de um dia. Por isso, desconhecer as condições do inimigo por não querer recompensar a inteligência é algo extremamente desumano."

A seguir, Sun define cinco tipos de espiões, ou agentes secretos. O espião local é contratado dentre a população de uma região em que as operações são planejadas. Um espião infiltrado é contratado entre os oficiais de um regime contrário. Um espião reverso é um agente duplo, contratado dentre espiões inimigos. Um espião morto é o que recebe a missão de levar informações falsas. Um espião vivo é o que vem e vai com informações.

Neste ponto, também existe um forte elemento social e psicológico na compreensão que Sun Tzu tem da complexidade prática da espionagem do ponto de vista da liderança. A Arte da Guerra inicia com a questão da liderança, e também termina com a observação de que o uso eficaz de espiões depende do líder. Mestre Sun diz: "Não se pode utilizar espiões sem sagacidade e conhecimento, não se pode usar espiões sem humanidade e justiça, não se pode sem sutileza conseguir a verdade de espiões", e conclui: "Só um governante hábil ou um general brilhante que pode utilizar os mais inteligentes para a espionagem tem garantia de sucesso."

sábado, 2 de junho de 2012

[HOL] Denis Avey realmente esteve em Auschwitz?

Guy Walters

Daily Mail, 8/04/2011


A estória de Denis Avey é uma de compaixão profunda e heroísmo surpreendente. É uma estória de guerra que ele manteve para si por muitas décadas, antes de finalmente revelá-la em um livro que foi publicado este mês.

Chamado O Homem que Venceu Auschwitz, o livro já é um best-seller.




Ele conta como o sr. Avey foi mantido pelos alemães em um campo de prisioneiros de guerra próximo de Auschwitz, e como ele arriscou sua vida ao trocar de lugar com um interno judeu em duas ocasiões e entrou clandestinamente no campo de concentração para registrar os horrores do maior crime de todos os tempos.

O livro também conta como Avey salvou a vida de um outro interno judeu, chamado Ernst Lobethal, ao fornecer-lhe cigarros.

Lobethal cresceu num orfanato em Breslau no que hoje é a Polônia, e em janeiro de 1943 ele foi enviado para Auschwitz, onde ele teve que usar sua inteligência para sobreviver.

Ele era capaz de trocar cigarros por novas solas para seus sapatos - sapatos que eram vitais para sua sobrevivência em uma marcha forçada "mortal" do campo através da neve no final da guerra.

Quando foi Primeiro-Ministro, Gordon Brown ofereceu a Avey o Prêmio de Herói Britânico do Holocausto numa recepção na Downing Street 10.

Seu nome também foi colocado no Yad Vashem, o memorial oficial de Israel às vítimas do Holocausto, ao ser feito "Corretos entre as Nações", uma honra dada a gentis que salvaram judeus durante a guerra, ocupado por Oskar Schindler. Avey tem sido chamado de um homem de "coragem física e moral ilimitada" pelo jornalista Henry Kamm, vencedor do prêmio Pulitzer, e seu livro traz um prefácio pelo renomado historiador Martin Gilbert.

Ele tem dado inúmeras entrevistas sobre suas experiências e apareceu muitas vezes na TV e no rádio.

Na semana passada, Avey fez milhões de pausas para pensar quando ele deu uma longa e modesta entrevista para o BBC Brakfast, no qual ele revelou suas terríveis experiências.


Denis Avey


A estória de Avey está alcançando uma audiência poderosa – seu livro está sendo publicado pelo menos em dez países. E ele está sendo pego de surpresa por toda essa atenção. “Refletindo, ele diz, “Não posso realmente acreditar que pessoas acreditassem no que eu fiz.”

O problema é que um número crescente de pessoas não acredita nele. Entre elas estão antigos prisioneiros de Auschwitz, historiadores e organizações judaicas – e todos eles desconfiam muito que ele tenha estado em Auschwitz.

Esta semana, o dr. Piotr Setkiewicz, historiador-chefe em Auschwitz, disse que ele não acreditava na estória da troca do Sr. Avey. Ele disse que seu medo era que a estória poderia dar munição para os negadores do Holocausto que gostam de explorar memórias implausíveis no sentido de “provar” que o Holocausto não aconteceu.

O Congresso Mundial Judaico agora chamou os editores do Sr. Avey para verificar a precisão histórica do livro. “Estamos profundamente preocupados em relação à possibilidade de que uma parte significativa da estória do Sr. Avey – isto é, que ele supostamente entrou clandestinamente no campo de concentração de Auschwitz-Buna – seja exagerada senão completamente fabricada,” disse a organização.

Esta semana também foi noticiado que o Yad Vashem se sentiu incapaz de nomear o Sr. Avey com o “Correto entre as Nações”, porque ele não podia provar sua estória.

“Não encontramos ninguém para confirmá-la,” disse Irena Steinfeld, uma porta-voz do Yad Vashem. “Analisamos muitos testemunhos de internos judeus e nenhum deles mencionou que isso aconteceu. Não havia nada para evidenciá-lo.”

A srta. Steinfeld acrescentou: “Freqüentemente recebemos recomendações que mostram que o candidato ganhou uma honra de um governo, mas que isso não é por si só evidência.”

Antigos prisioneiros em Auschwitz e no campo E715 – o campo de prisioneiros de guerra britânicos próximo no qual o sr. Avey estava mantido preso – têm também sérias dúvidas sobre a estória de Avey, argumentando que a troca teria sido impossível. Vamos olhar em detalhes a sua principal declaração – que ele entrou ilegalmente em Auschwitz.

Nascido em 1919, Avey foi alistado na Brigada de Infantaria em 1939 e foi enviado ao Egito. Ele foi capturado pelo Afrika Korps na Líbia em novembro de 1940 e após uma sucessão de campos de prisioneiros de guerra, incluindo um ano na Itália, terminou no campo E715.

Lá, ele trabalhou como operário e ficou distante umas poucas centenas de metros de uma das maiores partes de Auschwitz, conhecida como Auschwitz III ou Monowitz.

Foi vendo o tratamento terrível sendo dispensado aos internos judeus de Auschwitz com quem ele trabalhava na mesma fábrica química que ele chegou à ideia de trocar de lugar com um prisioneiro judeu. Seu motivo, ele diz, era ver o que poderia acontecer com ele próprio e “prestar testemunho” e ajudar a prender os nazistas com seus depoimentos após a guerra.

De acordo com Avey, o plano exigia uma enorme quantidade de preparação. Por semanas, ele diz, ele estudou os prisioneiros judeus no campo de Auschwitz III e aprendeu como a imitá-los. Ele raspou sua cabeça, lambuzou sua cara com sujeira, e então encontrou um prisioneiro judeu com quem ele pudesse trocar.

Ele diz que usou cigarros como suborno para obter um par de sola de madeira que era usado pelos internos judeus e subornou um “kapo” – ou guarda – para fazer vista grossa para a troca.

Um dia, à medida que as duas colunas de trabalho de prisioneiros judeus e britânicos se aproximavam, o prisioneiro judeu e Avey se lançaram para uma barraca próxima, rapidamente trocaram de roupa, e então retornaram para as fileiras.

Enquanto ele estava dentro de Auschwitz III, Avey disse ter visto um corpo pendurado numa forca, permaneceu uma noite nas barracas junto com prisioneiros judeus gemendo e gritando, e lanchou alface estragado e casca de batata.

Ele diz que retornou ao E715 e mais tarde trocou de lugar com o prisioneiro uma segunda vez, apesar de que ambos decidiram que arriscar uma outra tentativa seria fatal. Ambos sabiam que a penalidade seria a morte se eles fossem pegos. Entretanto, a ideia que ambos os homens poderiam simplesmente trocado de fileira, duas vezes, sem serem vistos pelos guardas alemães ou descobertos mais tarde é implausível.

“Eu não acredito nisso,” diz Brian Bishop, 91, um sobrevivente de Dunquerque que foi capturado na África em 1942 e esteve no campo E715, “Eu não compreendo como ele conseguiu fazê-lo. Para fazer algo parecido você precisava ter muitas pessoas te ajudando em ambos os lados – nosso lado e do lado judeu.”

Sam Pivnik, 84, um judeu polonês, foi enviado para Auschwitz com a idade de 16 em agosto de 1943 e foi mantido lá como o prisioneiro 135913 até janeiro de 1945. Ele compartilha dúvidas semelhantes. “A estória de Avey parece-me altamente improvável,” ele diz. “Trocar de lugar com um prisioneiro de Auschwitz não apenas significava arriscar sua própria vida, mas de qualquer um de seu setor; e ele estava assumindo um risco enorme que ele não havia sido informado. Essa é uma chance que eu jamais pegaria. Os prisioneiros de Auschwitz eram tão desesperados que você não poderia arriscar em confiar neles.”

O historiador de Auschwitz, Dr. Setkiewicz, concorda com os dois sobreviventes. Ele aponta que muitas pessoas teriam que estar envolvidas em tal troca, e isto teria sido extremamente arriscado já que havia muitos espiões no campo: “Como não há nenhum testemunho de outros sobreviventes, eu certamente não incluiria esta estória em qualquer livro que eu escrevesse.”

Então, há a inconsistência nas declarações do Sr. Avey tanto da identidade do homem com quem ele trocou de lugar quanto o lugar que a troca ocorreu.

Em seu livro, ele escreve que trocou lugar com um judeu holandês chamado “Hans” e entrou clandestinamente de um campo de prisioneiros ingleses direto no campo de extermínio conhecido como Auschwitz III.

Entretanto, numa entrevista que ele deu ao Daily Mail em dezembro de 2009, o Sr. Avey – que diz que ele era chamado “Ginger” quando estava no campo – diz ter trocado de lugar com o prisioneiro Ernst Lobethal, o homem com quem ele trocava cigarros.

Na mesma entrevista – e numa conversa que ele deu subseqüentemente a estudantes em Oxford – o Sr. Avey disse que Ernst estava em Auschwitz II, ou Birkenau, o qual é cerca de 5 km distante de Auschwitz III.

Em seu livro, o Sr. Avey também escreve sobre passar sobre o infame letreiro “Arbeit Macht Frei” – O Trabalho Liberta – quando entrava em Auschwitz III. Como o Dr. Setkiewicz confirma, não havia tal letreiro lá; era no campo Auschwitz I cerca de 7 km distante.

O Sr. Avey declara que as roupas que ele pegou do prisioneiro judeu estavam infestadas com piolhos. Este detalhe é colocado em dúvida pelo antigo interno Sam Pivnik. “Éramos escrupulosamente limpos todo tempo nos campos de trabalho em Auschwitz III, e você estava sujeito a uma surra severa se você estivesse sujo,” diz Pivnik.

“A SS tinha pavor que epidemias de tifo se espalhassem e os uniformes dos prisioneiros, camas e barracas eram constantemente desinfectadas e limpas.”

A afirmação do Sr. Avey de ter entrado em Auschwitz é mesmo descartada por Ingrid Lobet, filha de Ernst Lobethal. Enquanto a sra. Lobet siz que ela não teria razões para duvidar que o Sr. Avey tenha trocado “a moeda internacional mágica”, cigarros, com seu pai, ela nãoaceita a estória da troca de lugar.

“Eu não acredito que isto aconteceu,” ela diz. “Onde está o detalhe que ele viu lá que não pode ser obtido do mais vago testemunho do Holocausto?”

“Os prisioneiros de guerra britânicos eram alimentados,” acrescenta ela. “Os judeus não. Os judeus pareciam famintos, os britânicos não. A maioria dos judeus falava somente Iídiche. Como é que um judeu magro, falando Iídiche, seria confundido com um prisioneiro inglês nas barracas de prisioneiros de guerra? ‘Ginger’ memorizou o número do sobrevivente em alemão de modo que ele poderia responder durante uma chamada?”

O que é também problemático é que a estória da troca do Sr. Avey é quase idêntica àquela dita por outro antigo prisioneiro de guerra no campo E715 chamado Charles Coward.

Num julgamento do pós-guerra – Coward deu um testemunho – agora totalmente desacreditado pelos estudiosos do Holocausto – no qual ele declarava que havia entrado ilegalmente em Auschwitz trocando de lugar com um prisioneiro judeu. Este conto é chamado A Senha é Coragem e impresso na capa vem a frase “O Homem que venceu Auschwitz” – o mesmo título do livro de Avey.

A chance de que dois prisioneiros de guerra britânicos, independente um do outro, tenham pensado na ideia perigosa de trocar de lugar com um interno de Auschwitz leva a credibilidade da estória ao limite.

A semelhança entre os dois contos também levanta a questão de que por que o Sr. Avey levou tanto tempo para falar de suas experiências de guerra. Foi em 2001 que as experiências do Sr. Avey em E715 apareceram pela primeira vez, publicadas num livro chamado Espectador no Inferno, de Collin Rushton, um poeta e historiador.

O Sr. Avey revelou muito que foi traumatic, incluindo um incidente no qual ele perdeu um olho após ser alvejado por um oficial da SS, e a morte de 38 prisioneiros de guerra em um bombardeio aliado. Mas ele nunca mencionou a troca.

Em 16 de julho de 2001, o Sr. Avey deu uma entrevista de 5 horas para o Museu Imperial de Guerra no qual ele falou sobre sua prisão, assim como o impacto psicológico da guerra e seus problemas com pesadelos. Em nenhuma vez desta entrevista ele fala sobre entrando ilegalmente em Monowitz.

Em setembro de 2004 e janeiro de 2005, Avey foi entrevistado pelo jornalista Diarmuid Jeffreys para o seu livro O Cartel do Inferno. Ele menciona o incidente com a pistola mas novamente falhou ao falar da troca ou sobre Ernst ou Hans.

Somente em 2009, numa entrevista com o jornalista da BBC Rob Broomby, o Sr. Avey finalmente menciona que ele havia entrado ilegalmente em Auschwitz III. E Rob Broomby rapidamente se ofereceu a co-escrever o livro que agora está disponível.

O Sr. Broomby explicou que o sr. Avey deixou para contar a estória por tanto tempo porque ele sofria de desordem de stress pós-traumática quando ele voltou da guerra.

Por que, então, ele foi capaz de falar sobre todas aquelas outras experiências da guerra nos anos anteriores?

O professor Kenneth Waltzer, diretor do Programa de Estudos Judaicos na Universidade Estadual de Michingan e uma autoridade mundial em campos de concentração nazistas, é céptico: “O padrão de silêncio mantido, apesar das entrevistas, e então a divulgação repentina da estória levanta de fato suspeitas.”

O antigo colega de campo do Sr. Avey, Brian Bishop, é mais severo: “Por que ele vem com essa estória justamente agora? Não compreendo por que todas essas estórias estão sendo lançadas agora. Parece que eles estão esperando que todos morram e então ninguém vai contradizê-los.”

Assim como estar traumatizado, o sr. Avey também afirma que sua reticência nasceu do fato de que as autoridades militares não queriam ouvir sua estória após a guerra – de acordo com ele, o negócio entre as autoridades era continuar a vida e esquecer os horrores do campo.

Entretanto, o oposto parece ser o caso. Em 1947, o sr. Avey foi convocado por promotores americanos através do Escritório de Guerra para pedir se ele gostaria de fazer uma declaração de suas experiências para ajudar a preparar um caso para um tribunal de crimes de guerra. Mas ele recusou.

Esta semana, o Sr. Avey foi incapaz de explicar as inconsistências em sua estória. Quando perguntado por que ele não mencionou a troca para o Museu Imperial da Guerra, ele disse: “Eu não sei por quê. Não escolhi mencioná-la na época. Mas o que eu escrevi no livro é a verdade. Eu não preciso defendê-lo. Não me importo com o que qualquer um diz. Eu sei o que fiz.”

Seu co-autor, Rob Broomby, também foi incapaz de confirmer se a estória da troca do Sr. Avey era realmente verdadeira. “É muito difícil verificar neste estágio,” ele disse. “Você não vai encontrar pessoas após 70 anos. É somente quando você investe um tempo com o Denis que você realmente o conhece. Isto não é história acadêmica de rodapé. Você tem que olhar dento dos olhos do homem e saber que tipo ele é.”

Há pessoas que pensam que é inapropriado questionar as palavras de um ancião – o sr. Avey tem agora 92 anos. Mas é vital que as estórias parecidas com esta sejam sujeitas a um escrutínio apropriado.

Como ninguém menos que o falecido Ernst Lobethal escreveu para o New York Times em fevereiro de 1994: “Eu acho importante verificar as inexatidões, a fim de que os revisionistas do Holocausto não o façam em nosso lugar.”


http://www.dailymail.co.uk/news/article-1375018/Denis-Avey-broke-Auschwitz-expose-Holocaust-account-insult.html#ixzz1ixlAyuxA

[HOL] Wannsee: Não foi aqui que a Solução Final Nasceu

Haaretz, 20/01/2012

O diretor do Centro de Memória da Conferência de Wannsee, em Berlim, foi entrevistado por um jornal alemão, quando esfriou o entusiasmo pelo 70º aniversário da reunião da conferência.

O Dr. Norbert Kampe, diretor do Memorial da Conferência de Wannsee em Berlim surpreendeu numa entrevista a um jornal alemão ontem, quando diminuiu o entusiasmo da mídia pelo septuagésimo aniversário da convocação da conferência, mencionou o jornal hoje em todo o mundo.

Kampe, 63, nasceu sete anos depois da convocação da infame conferência, que está gravada na memória coletiva - de forma não muito precisa - como o lugar e a época em que o regime nazista decidiu adotar o plano de "solução final", ou extermínio do povo judeu.

"É difícil entender isso, mas a conferência tratou da organização e tomada de decisão", disse Kampe ao jornal alemão "Tageszeitung". "É bastante claro que esta reunião, a nível de secretários de Estado, tratou da organização da conferência, lidando com a coordenação entre agências do governo," acrescentou. Para provar seu ponto de vista, ele afirmou que Hitler e seus ministros não participaram da conferência. "Neste momento, em janeiro de 1942, não havia nenhum plano organizado para campos de extermínio," concluiu.

Não se engane. Kampe não é antisemita. Certamente não é um negador do Holocausto. Pelo contrário. Como esperado de um historiador profissional, ele estudou inumeráveis textos relevantes, documentos e testemunhos sobre o evento particular... Sua conclusão é o resultado direto de uma análise estudada de material escrito em sua posse.

O resultado é uma lição instrutiva de história. O Ministério da Educação Israelense não tem condições de manter esse debate no ensino do Holocausto. Os estudantes do ensino médio escrevem sobre o termo "Conferência de Wannsee" sem abordar o assunto com a complexidade necessária. Certamente, não é preciso deixá-lo de lado. O Holocausto, como qualquer outro evento histórico, também precisa de símbolos. A Conferência de Wannsee é, sem dúvida, um dos melhores deles. A discussão mais aprofundada deve ser deixada para os historiadores.

Algumas pessoas devem ter se sentido ultrajadas pelas palavras do diretor do Memorial. Elas ampliaram suas críticas, vão apresentar pontos de vista diferentes e argumentam que ele não sabe o que está falando. O que está claro é que até hoje ninguém sabe com total certeza e confiança exatamente o que aconteceu em 20 de janeiro de 1942, nesta vila deslumbrante no subúrbio abastado de Berlim.

Quinze pessoas participaram desta conferência, conduzida por uma hora e meia. Eles eram altos funcionários do governo, do partido nazista e da SS, mas a maioria permaneceu totalmente desconhecida para a geração do pós-guerra, que não os reconheceria pelos nomes e imagens. A exceção foi Adolf Eichmann, cuja imagem foi publicada após ele ser seqüestrado pelo Mossad, julgado e executado em Israel. Eichmann, chefe da Gestapo para assuntos judaicos, teve um papel importante na conferência. Ele escreveu seu protocolo.

Apenas uma cópia deste documento sobreviveu à guerra. Ele foi descoberto em 1947. Os outros documentos foram deliberadamente destruídos pelos nazistas num esforço para ocultar provas. Este protocolo apresenta o testemunho autêntico do que aconteceu em Wannsee e é o único documento a fazer uso explícito da frase "Solução Final". A importância histórica é indiscutível, mas como qualquer documento histórico ele também deve ser lido atentamente.

Se acreditarmos no que Eichmann disse no julgamento em israel, o documento foi modificado e editado, e não reflete tudo com precisão e, literalmente, do que foi dito na conferência.

Além disso, as palavras "morte" ou "assassinato" não aprecem nele. Ao invés disso, temos "declínio natural", "tratamento adequado", "outras opções de solução" e "diferentes formas de solução." As únicas palavras explícitas neste documento tratam da deportação, e não do extermínio. Mesmo a famosa tabela anexada a ele, informando o número de judeus em cada país, não afirma que eles devem ser destruídos.

Não é de estranhar. Após décadas de pesquisa sobre o Holocausto, não se conseguiu encontrar uma ordem clara e explícita de líderes nazistas determinando o extermínio em massa dos judeus. Ao invés disso, os nazistas disfarçaram suas intenções em comentários longos, em código secreto e palavras dissimuladas, que supostamente deveriam ser interpretadas pelos oficiais como sendo a "vontade" de Hitler.

Esta semana, no aniversário de 70 anos da Conferência de Wannsee, 80 especialistas reunidos em Berlim em um seminário, trataram da conferência. Não podemos esperar que eles cheguem a um consenso do que foi ou não foi dito nesta conferência. Mas temos certeza de que não faria nenhuma diferença. A real importância deste dia é como sendo um dos momentos importantes para a memória do Holocausto.

http://www.haaretz.co.il/news/education/1.1621978

N.do T.: A reportagem do Haaretz mencionada acima está em hebraico, usei o Google translator para conseguir o texto em português. Tive que fazer algumas adaptações para tornar o texto inteligível.

[SGM] Infâmia Mal Distribuída

Srdja Trifkovic

Chronicles Magazine, 7/12/2008

Nos últimos 67 anos, a América tem relembrado os 2.400 marinheiros, soldados e pilotos que foram mortos no ataque japonês de Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Todo aniversário deste tipo nos lembra que toda a História é, de alguma forma, uma continuação da história contemporânea: quase sete décadas após o evento, o mito da bondade e grandeza de FDR (Franklin D. Roosevelt) - revivida para objetivos políticos atuais durante e após a campanha eleitoral deste ano - torna menos "apropriado" do que nunca perguntar se ele sabia do ataque; e, mais importante, se ele o desejava. Esta data "viverá na infâmia," por umas poucas décadas a mais pelo menos, até que sucumba pela amnésia coletiva deste país. Podemos estar correndo contra o tempo para colocar esta infâmia de forma mais correta.

O presidente Franklin D. Roosevelt estava ansioso para entrar na Guerra na Europa. Ele queria muito isto após a queda da França (junho de 1940) – quando ele chegou a acreditar que sem a intervenção americana os nazistas logo conquistariam o Velho Continente – e desesperadamente após a Alemanha atacar a União Soviética um ano depois. No seu desejo, ele foi apoiado pela velha elite da costa leste, que era tradicionalmente anglófila, pelo influente lobby judeu, e – depois de 22 de junho de 1941 – pelos simpatizantes de Moscou em sua equipe e no país como um todo.

Após encontrar o presidente na Conferência do Atlântico (14 de agosto de 1941) Churchill notou a “profundidade incrível do desejo intenso de Roosevelt pela guerra.” Mas havia um problema: FDR não poderia passar por cima da resistência isolacionista para uma “guerra europeia” sentida pela maioria dos americanos e pelos seus congressistas. O clima do país era anti-guerra e, de acordo com a afirmação dos revisionistas, Roosevelt provocou os japoneses para atacar os Estados Unidos – enquanto que seu alvo principal era Hitler. Foi mais tarde alegado que, mesmo que Roosevelt estivesse ciente de como impedir o ataque a Pearl Harbor, ele deixou acontecer, e sentiu-se aliviado quando aconteceu.

A evidência da manobra de FDR para jogar o Japão na guerra, disponível por décadas, foi semi-definitivamente apresentada no livro “O Dia da Fraude” (1999), de Robert Stinnett. A evidência de seu conhecimento antecipado do ataque aparece igualmente de forma convincente em três aspectos: negligência da inteligência da Marinha; má condução de seus comandantes, nas duas semanas anteriores antes do ataque, fazendo crer que as negociações com o Japão estavam em andamento; e mantendo-os mal informados sobre o local da frota de porta-aviões japoneses.

Cronologicamente, os elementos importantes do cenário agiram como segue:

Em 27 de setembro de 1940, o Pacto Tripartite – o tratado de assistência mútua entre Alemanha, Itália e Japão – foi assinado em Berlim. Ele implicou na possibilidade de que a Alemanha declarasse guera contra a América se esta entrasse em guerra contra o Japão, o qual impactou grandemente na política de FDR sobre o Japão a partir de então.

Em 7 de outubro de 1940, somente uma semana após assinar o Pacto Tripartite, o tenente-comandante Arthur McCollum, um oficial da Marinha americana no Escritório de Inteligência Naval (ONI), sugeriu uma estratégia para provocar o Japão a atacar os EUA, iniciando as provisões assistenciais mútuas do Pacto Tripartite, e levando a América para a Segunda Guerra Mundial. Resumido no memorando de McCollum, a proposta da ONI sugeria por passos específicos na provocação ao Japão. Seu núcleo central era manter o grosso da frota americana baseada no Havaí como uma isca para o ataque japonês, e impor um embargo de petróleo americano ao Japão. “Se, por estes meios, o Japão puder ser conduzido a cometer um ato de guerra, melhor para nós,” concluiu o memorando.

Igualmente, em outubro de 1940, o comandante da frota do Pacífico, Almirante J. O. Richardson, protestou contra a decisão do presidente Roosevelt em mover a frota das águas protegidas da costa oeste para a base vulnerável no Havaí. Richardson foi dispensado de seu comando quatro meses após seu encontro com FDR e foi substituído pelo contra-almirante Kimmel.

Em 23 de junho de 1941 – um dia após o ataque de Hitler contra a URSS – o secretário do interior e também consultor de FDR, Harold Ickes, escreveu um memorando para o presidente no qual observa que

Haveria de desenvolver de um embargo de petróleo ao Japão tal situação que seria não somente possível, mas fácil de conseguir entrar nessa guerra de maneira efetiva. E se pudéssemos assim indiretamente ser conduzidos para ela, poderíamos evitar a crítica de que nos aliamos à Rússia Comunista.

Em 22 de julho, o almirante Richmond Turner declarou em um relatório,

Acredita-se comumente que cortando o suprimento americano de petróleo conduzirá imediatamente à invasão das Índias Orientais Holandesas. Parece certo que (o Japão) também incluiria ação militar contra as ilhas filipinas, o que nos envolveria imediatamente numa guerra no Pacífico.

Em 24 de julho, Roosevelt disse ao Comitê de participação Voluntária, “Se tivéssemos cortado o petróleo, eles provavelmente teriam ido para as Índias Orientais Holandesas um ano atrás, e vocês teriam tido a guerra.”

Em 25 de julho, Roosevelt congelou todos os ativos japoneses nos Estados Unidos e impôs um embargo de petróleo. A partir daquele momento, o Japão enfrentou uma ameaça existencial dos Estados Unidos, uma ameaça que não poderia ser evitada por meios pacíficos, exceto abdicar de sua posição de grande potência e visivelmente perder poder – uma impossibilidade total.

Em 24 de setembro, Washington decifrou uma mensagem do Quartel-General de Inteligência Naval em Tóquio para o consulado geral do Japão em Honolulu, requisitando as posições exatas dos navios da Marinha americana no porto. Os comandantes no Havaí não foram alertados. A inteligência naval americana havia quebrado os códigos navais japoneses um ano antes, permitindo que FDR recebesse traduções de todas as mensagens principais.

Em 18 de outubro, Harold Ickes anotou em seu diário: “por um longo tempo, acreditei que nossa melhor entrada na guerra seria através do Japão.” Ainda que o Japão tivesse que atirar primeiro: em 22 de outubro, pesquisas de opinião revelavam que 74% dos americanos se opunham a uma guerra contra o Japão, e somente 13% a apoiavam.

Em 25 de novembro de 1941, o Secretário da Guerra, Stimson, escreveu em seu diário que FDR disse que um ataque estava para acontecer em dias, e pensou “como podemos manobrá-los na posição de dar o primeiro tiro sem muito perigo para nós”:

Apesar do risco envolvido, entretanto, ao deixar os japoneses atirar primeiro, percebemos que, no sentido de ter total apoio do povo americano, é desejável estar certo que os japoneses sejam os responsáveis por isso, de modo que não fique nenhuma dúvida na cabeça de qualquer um de quem é o agressor.

Em 26 de novembro, o Secretário de Estado Hull emitiu uma nota escrita provocativa – um ultimato, realmente – exigindo a completa retirada de todas as tropas japonesas não somente da Indochina Francesa, mas também da China. De acordo com o relatório do Escritório de Investigação do Exército em Pearl Harbor (1945), o embaixador dos EUA no Japão, Grew, chamou isto de “o documento que apertou o botão que iniciou a guerra.” Os japoneses reagiram de imediato: em 1 de dezembro, a autorização final foi dada pelo imperador, após uma maioria de líderes japoneses o terem aconselhado que a nota de Hull poderia “destruir os frutos do incidente na China, colocar em perigo Machukuo e corroer o controle japonês da Coréia.”

Igualmente, em 26 de novembro, Washington ordenou que os dois porta-aviões americanos, o Enterprise e o Lexington, saíssem de Pearl Harbor “tão logo seja possível.” Esta ordem resultou em deixar Pearl Harbor sem 50 aviões, ou 40% de sua já precária proteção aérea. No mesmo dia, Cordell Hull, emitiu um ultimato exigindo a retirada total japonesa da Indochina e toda China.

Em 1 de dezembro, o Escritório de Inteligência Naval, ONI, 12º. Distrito Naval em São Francisco, descobriu a frota japonesa ao relacionar relatórios de quatro serviços de notícias sem fio e de várias companhias cargueiras que estavam obtendo sinais a oeste do Havaí. Como sabemos, os navios da frota japonesa de porta-aviões comunicava-se diariamente por rádio com o alto-comando no Japão, com os comandos militares no pacífico Central, e entre si – como Robert Stinnett conclusivamente estabeleceu ao ler as interceptações de rádio das transmissões japonesas pela inteligência naval. A Marinha Americana não “perdeu” os porta-aviões.

Em 5 de dezembro, FDR escreveu ao Primeiro-Ministro australiano que “nos próximos quatro ou cinco dias decidiremos o assunto” com o Japão. Mais tarde, no mesmo dia, no encontro do gabinete, o Secretário da Marinha, Frank Knox, disse, “Bem, o senhor sabe, presidente, sabemos onde a frota japonesa está?” “Sim, eu sei... Bem, diga-lhes qual é Frank,” respondeu Roosevelt. Quando Knox estava para falar, Roosevelt teve um segundo pensamento eo interrompeu, dizendo: “Não tivemos nada além da informação perfeita de seu destino.” (Toland, p. 294).”

Em 6 de dezembro de 1941, em um jantar na Casa Branca, Roosevelt recebeu as primeiras treze partes de um total de quinze da declaração de guerra decodificada da diplomacia japonesa e disse “Isto quer dizer guerra!” para Harry Hopkins, mas não interrompeu a refeição.

Não menos revelador é o comportamento de Roosevelt no dia do ataque e durante as suas consequências.

Harry Hopkins, que estava sozinho com FDR quando ele recebeu as notícias, escreveu que o presidente não estava surpreso e expressou “grande alívio.” Mais tarde, Hopkins escreveu que a conferência do gabinete de guerra “reuniu-se numa atmosfera não muito pesada porque acho que todos nós acreditávamos, em última análise, que o inimigo era Hitler... e que o Japão apenas nos deu a oportunidade.”

Naquela mesma noite, FDR disse ao seu gabinete, “temos razão para crer que os alemães disseram aos japoneses que se o Japão declarasse guerra, eles também o fariam. Em outras palavras, uma declaração de guerra pelo Japão automaticamente leva...” – neste momento, ele é interrompido, mas suas expectativas estão perfeitamente claras.

O jornalista da CBS, Edward R. Murrow, encontrou-se com FDR à meia-noite e ficou surpreso com sua reação tranquila. Na manhã seguinte, Roosevelt afirmou para seu porta-voz Rosenman que “Hitler ainda era o alvo principal, mas ele temia que uma grande parte dos americanos insistiria que fizéssemos a guerra no Pacífico igualmente importante como a guerra com Hitler.” Jonathan Daniels, assistente administrativo e secretário de imprensa de FDR, mais tarde disse que “o golpe foi mais pesado do que ele esperava... mas os riscos valeram a pena, até mesmo a perda valeu o preço.”

Roosevelt confirmou isto a Stalin em Teerã em 30 de novembro de 1943, ao dizer que “se os japoneses não tivessem atacado os EUA, duvido muito que seria possível enviar qualquer tropa americana para a Europa.”

O historiador John Toland concluiu em seu livro Infâmia: Pearl Harbor e suas Consequências,

Era possível imaginar um presidente que disse, “Isto quer dizer guerra,” após ler a mensagem (de 6 de dezembro), não de imediato convocando para a Casa Branca os comandantes do Exército e da Marinha, assim como seus secretários da Guerra e da Marinha?... Stimson, Marshall, Stark e Harry Hopkins gastaram a maior parte da noite de 6 de dezembro na Casa Branca com o presidente. Todos estavam esperando o que eles sabiam que viria: um ataque em Pearl Harbor. A comédia de erros no sexto e sétimo parece incrível*. Somente faz sentido se isso fosse uma charada, e Roosevelt e seu círculo interno já sabiam sobre o ataque.

N. do T.: quem viu o filme “Tora!Tora!Tora!” percebeu que os americanos estavam perdidos com as ordens e contra-ordens na véspera do ataque. Como o autor salienta, tratava-se de uma charada, algo para desviar a atenção dos níveis inferiores militares.

Churchill mais tarde escreveu que FDR e seus altos conselheiros “sabiam por completo do objetivo imediato de seu inimigo”:

Um ataque japonês contra os EUA era uma vasta simplificação de seus problemas e de seu dever. Como podemos imaginar que eles lembravam a forma real do ataque, ou mesmo sua escala, como incomparavelmente menos importante do que o fato de que a nação inteira americana estaria unida?

O alvo principal, Adolf Hitler, declarou guerra aos Estados Unidos em 10 de dezembro de 1941, assim garantindo a derrota alemã. O resto, como se diz, é história.

Diz-se que o falecido Murray Rothbard argumentava que, longe de ser uma evidência de uma característica “paranoica” na mente americana, a crença em conspirações como um fator na história americana não era geralmente levada longe o bastante. A verdade por trás da maioria das conspirações, ele alegou, era muito mais hedionda e diabólica do que até mesmo o mais teórico obstinado conspiracionista poderia imaginar. Os eventos que levaram ao Dia da Infâmia em 1941 provou que ele estava certo, não menos do que aqueles que levaram às guerras dos EUA contra o México, contra a Confederação Sulista, Espanha (1898), Sérvia (1999) ou Iraque (2003). Em todos estes casos, a diplomacia não “falhou” porque ela não foi usada para evitar a guerra, mas para garantir que ela ocorreria.


http://www.chroniclesmagazine.org/2008/12/07/misallocated-infamy/