domingo, 17 de junho de 2012

[HOL] A história do judeu polonês que sobreviveu a sete campos de concentração

Flávia Ribeiro  25/04/2012


"É cobra. Pode jogar no bicho que dá cobra", diz, com um sorriso largo, o taxista aposentado Alexander Liberman sobre o número marcado em seu antebraço esquerdo: A18.534. O bom humor certamente o ajudou a chegar aos 80 anos e não dá pistas do que a vida lhe reservou até aqui. Aos 9 anos, levou um tiro e passou por sete campos de concentração na Polônia, Alemanha, Áustria e Bósnia. Perdeu pai, mãe e três irmãos, mortos pelos nazistas. Com o fim da Segunda Guerra, foi levado para a Rússia e conheceu Josef Stalin. Soldados soviéticos ficaram tão impressionados com seu precário estado de saúde que decidiram mostrá-lo ao ditador. Em 1947, embarcou no navio Exodus para Israel, que levava ilegalmente refugiados judeus, mas acabou preso na ilha de Chipre após confrontar tropas inglesas que interceptaram o navio. Mais tarde, já sargento do Exército israelense, foi atingido por estilhaços de duas granadas durante a Guerra de Independência do país. Uma delas o deixou surdo de um ouvido. Tudo isso até os 21 anos de idade.

Aos 25, veio para o Brasil, onde foi motorista de táxi até cerca de dois anos atrás nas ruas do Rio de Janeiro. E só recentemente ganhou coragem para contar sua história: "Antes eu me revoltava... Agora conto porque já estou no final... É lógico que me emociono lembrando, já tive muito pesadelo com isso. Mas não tenho mais. O que tinha que passar, passei. Perdi tanta coisa na minha vida... Mas agora estou tranquilo."

Como era sua vida antes da guerra?

Tive uma infância tranquila até os 9 anos. Meu pai era comerciante de material de sapateiro, com meu tio. Nasci na Polônia, em 1930. Eu tinha três irmãos: um de 7 anos, uma de 3 e uma bebê de 6 meses.

O que houve com sua família após a invasão da Polônia, em 1939?

Os alemães logo caíram em cima dos judeus. Primeiro, foram à loja e levaram meu pai e meu tio para Treblinka. Soubemos que os dois foram mortos na guilhotina lá. A gente se escondeu no forro de casa por dois meses, vivendo do que havia na cozinha. Fomos descobertos, nos levaram para um polígono da cidade e botaram a gente na fila para morrer. Vi pessoas sendo fuziladas. Aí pegaram minha irmãzinha de 6 meses, jogaram para o alto e atiraram, como se fosse uma brincadeirinha. Gritei na hora para minha mãe: "Vou fugir. Não vou dar minha cabeça!" Fugi, me desviando das balas, mas uma pegou aqui (mostra uma cicatriz no abdômen). Consegui sumir na floresta que havia ali perto.

Alguém da sua família sobreviveu?

Não sei quando morreram. Não achei nada. Mas morreram, ou eu teria achado. Procurei, mas nunca tive notícia. Descobri um tio em Israel. Depois, achei uma tia na Argentina e um tio no Uruguai.

E o tiro no abdômen?

Essa bala não caiu num lugar para me matar, né? Encontrei seis ou sete pessoas escondidas na floresta. Tinha que entrar naquele grupo que estava lutando com os alemães. Eu era o mais novo, mas era bem desenvolvido e acharam que eu podia ajudar em alguma coisa. Arrumamos gaze e iodo para o ferimento. E não inflamou.

Como era a vida na floresta?

Vivíamos em cima das árvores para não sermos vistos. Os outros tinham fuzis. Me arranjaram um revólver pequeno e me ensinaram a atirar. Fiquei uns dois meses com esse grupo. Éramos partisans. Íamos às casas próximas pegar comida, mas não tinha muito. Uma vez me mandaram à cidade comprar comida, achando que, porque eu era criança, não desconfiariam de mim. Quando eu estava saindo da loja, dois soldados me viram e perguntaram: "Você é judeu?" Eu disse que não, mas me levaram para um quarto e abaixaram minha calça. Fui levado para um campo de trabalho em Budzyn, onde plantávamos batatas. Fui escolhido várias vezes para morrer, mas me escondia nos barracões lotados. No dia seguinte, saía para trabalhar normalmente. Alguns meninos conseguiram se esconder, outros foram achados e morreram. Passei por sete campos de concentração. Em alguns, fiquei só um período de quarentena antes de ser mandado para o que deveria ficar mesmo.

Com a guerra já braba, os russos se aproximaram e os alemães levaram a gente para o campo de Majdanek, com sete câmaras de gás. Os nazistas me escolheram para arrancar os dentes de ouro dos judeus mortos usando alicates. Tinha gente que sobrevivia e pedia: "Arranca os dentes, mas não conta que estou vivo!" Tirei dentes de ouro de pessoas vivas. Não doía, não gritavam. Depois, fomos levados embora, a pé.

Quando?

Eu não sabia mais do tempo. Sabia que estava no galinheiro com as outras galinhas e que precisava arranjar um jeito de sobreviver. A guerra é uma confusão danada.

Como o senhor lidava com tudo isso?

Só pensava em viver. Vi um tio morrer e não chorei. Encontrei o irmão do meu pai num dos campos - morreu de tifo. Não dava tempo de chorar. Chorei uma só vez, quando fui pego, aos 9 anos. Achava que ia morrer, mas nunca pensei em entregar os pontos.

Mas o senhor não sentia revolta?

Claro! Quando pedi ajuda a Deus, não fui atendido. Eu disse então: "Sou ateu!" E eu me revoltava comigo mesmo por ter nascido judeu. Se eu não fosse judeu, não estaria passando por tudo aquilo. Era o que eu pensava. Perdi tanta coisa na vida... e era uma criança. Eu não entendia.

E depois de Majdanek?

Fui levado para Birkenau, em Auschwitz. Foi lá que me marcaram, botaram o número no meu braço: A18.534. Pode jogar no bicho que dá cobra! Foi um dos campos em que estive de passagem. Lá me ensinaram a ser ferramenteiro. Para não morrer, tinha vontade de aprender tudo. Me levaram para trabalhar numa fábrica de aviões e canhões. Fui para um lugar chamado Laurahütte (um subcampo do complexo Auschwitz-Birkenau). O engenheiro de lá gostava do meu serviço, tinha pena de mim e me dava, escondido, uns sanduíches. Mas os americanos se aproximaram e tive de me mudar de novo. Fomos para vagões de trem superlotados. Levaram a gente para Mauthausen-Gusen (Áustria) e depois para Dachau (Alemanha). Ficamos também pouco tempo. De lá, fomos para o campo de Gradiska(Bósnia). Quando cheguei, em 1945, eu já estava tão magro que parecia um esqueleto vivo. Estava com 14 anos e com tifo, mas eu ainda não sabia.

Como foi sua libertação?

Os russos chegaram e libertaram o campo (em 23 de abril de 1945). Eles me viram daquele jeito, ficaram impressionados por eu estar vivo e disseram: "Temos de mostrar esse aqui para alguém!" Então me limparam e me botaram num avião para Moscou. Me levaram ao Kremlin. Encontrei Stalin e ele me perguntou se eu sabia falar russo. Eu falava um pouquinho. Stalin me disse que eu seria bem tratado e mandou me botarem num internato em Moscou. Eu estava muito fraco e tinha um grupo de garotos vagabundos. Eu estava com uma roupa boa, que os russos me deram. Quando dormi, veio um mais forte e levou minha roupa. O que eu ia fazer? Roubei a roupa de um menino ainda mais fraco e fui embora. Achei a Cruz Vermelha e pedi para ir para a Polônia.

O senhor conseguiu?

Voltei, mas estava muito fraco. Estava bem doente, com febre e manchas no corpo: era tifo. Fiquei meses no hospital. Quando saí da cama, não conseguia andar. Chegou um avião dos Estados Unidos para levar uma turma para lá, mas eu não quis ir.

Por que não?

Tinha medo de que me matassem. Queria ir para Israel, mas acabei indo para a Alemanha. Me levaram para um internato para sobreviventes de guerra em Landsberg am Lech, onde fiquei dois anos. Já tinha um grupo de Israel lá, o Haganah Palmach (uma milícia). Aprendi hebraico - antes, falava polonês, alemão, iídiche e um pouco de russo. Fizemos treinamento de táticas de guerra. Em 1947, eu estava com 16 anos, chegou o Exodus (navio que levava refugiados para Israel).

Eu queria ficar com os que sofreram como eu. Não queria me afastar dos judeus. Sabíamos que iríamos lutar lá e já tínhamos aprendido a lutar na Alemanha. Já tivemos que lutar no navio, com os ingleses (em 1947, a Inglaterra proibiu a imigração clandestina para Israel. O Exodus, com 4515 sobreviventes do Holocausto, foi o primeiro navio a receber a ordem marítima policial, em 18 de julho. Houve combate a bordo e três pessoas morreram). Fui mandado para uma prisão no Chipre, onde fiquei uns dois meses. Primeiro tentei fugir dentro de um caminhão de lixo, mas me pegaram. Com 17 anos, fui solto e consegui ir para Israel. Fui direto para um kibutz trabalhar na terra e aprender coisas do Exército. No Exército, fui treinador de recrutas e paraquedista. Lutamos contra os árabes, participei da Batalha do Egito. Isso foi em 1948, por aí. A gente libertou Israel. Fiquei nas Forças Armadas até 1951.

Como foi sua participação na guerra?

Saltei de paraquedas em lugares perigosos. Uma vez, nosso helicóptero desceu no deserto de Negev. Teve tiroteio e fui atingido, atrás da orelha esquerda, por estilhaços de uma granada. Fiquei três meses no hospital e sou surdo desse ouvido. Também tenho uma cicatriz na perna direita por causa de outra granada.

Em Israel, me casei. Tenho duas filhas lá, seis netos e sete bisnetos. Trabalhei em construção, em muita coisa.

Por que o senhor veio para o Brasil?

Eu achava que tinha direito a alguma coisa lá (uma indenização), mas eu não tinha pistolão. Pensei: "Depois de tudo o que eu fiz, ainda preciso de pistolão?" Aí me aborreci, quis ir embora, em 1958. Vim com uns amigos. Depois, minha mulher veio com minhas filhas, uma com 3 anos e a outra com uns 9 meses. Moramos em Ramos (no Rio de Janeiro), mas ela não aguentou a umidade. Tinha bronquite, quis voltar para Israel. Mas eu não podia, né? Trabalhava como vendedor.

O que o senhor fez aqui?

Eu não falava português. Vendia roupas de porta em porta lendo um texto. Me naturalizei brasileiro em 1963. Tive uma loja de modas em Ipanema, depois um salão de cabeleireiro e uma butique na Gávea. Nessa época, arranjei uma úlcera. O doutor Gazzola, um médico que alugava um quarto na minha casa quando era estudante, me operou. Nessa operação, ele tirou aquela bala do abdômen! Depois, a butique não andava bem. Comecei a trabalhar como motorista de táxi nos anos 1960 e foi assim até dois anos atrás. Uma vez, fui sequestrado. Me deram uma injeção de gasolina, me roubaram, mas não levaram o táxi. Isso foi há uns 30 anos. Outra vez, escapei de um assalto no Flamengo me jogando debaixo do carro.

Hoje, tem uma pessoa que dirige meu táxi. Recebo uma indenização dos alemães, uma mixaria, e outra mixaria de aposentadoria. Mas me casei de novo aqui (com a católica Lenice, 60 anos), tive dois filhos: o Anderson (engenheiro, 30) e a Alexandra (designer, 25).

O senhor tem algum contato com suas filhas em Israel?

Eu não tinha nenhum contato. Ela (aponta para Alexandra) é que achou minhas filhas e foi à casa delas lá. Quando elas saíram daqui, tentei me comunicar, mas não consegui. Fui ao consulado, pedia ajuda a quem ia para Israel e nada. Falei com minhas filhas (Hedva, 55 anos, e Yocheved, 53) por telefone. Fico feliz de saber que estão bem. Um dos meus netos já veio me visitar (Alexandra explica que, na verdade, foram elas que os encontraram com a ajuda do Museu do Holocausto de Washington).

Por que o senhor demorou tanto para contar sua história?

No táxi, jornalistas viam esse número no meu braço e queriam que eu contasse a minha vida. Mas o meu advogado, na época, achava melhor não para não atrapalhar as coisas com a indenização dos alemães. E antes eu não conseguia nem contar porque me revoltava. Agora conto porque já estou no final... Lógico que me emociono lembrando, já tive muito pesadelo com isso. Mas não tenho mais. O que tinha que passar, passei. Perdi tanta coisa na minha vida... Agora estou tranquilo.

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/veja-historia-judeu-polones-sobreviveu-sete-campos-concentracao-682985.shtml

sábado, 16 de junho de 2012

[HOL] O Holocausto na Vida Americana

Alguns irão datar o início do Holocausto em setembro de 1939, quando os alemães atacaram a Polônia; outros, quando da invasão da União Soviética em junho de 1941; outros ainda quando da Conferência de Wannsee em janeiro de 1942. Alguns irão associar o Holocausto a datas importantes do Terceiro Reich: por exemplo, a ascensão de Hitler ao poder em 1933, ou as Leis de Nuremberg em 1935. De fato, se você consultar algumas cronologias do Holocausto, elas frequentemente terão o nascimento de Adolf Hitler como o ponto de partida, e algumas têm até o nascimento de Jesus Cristo no topo da lista, na suposição de que o Holocausto foi o resultado do antisemitismo cristão. De todas as qualidades do livro O Holocausto na Vida Americana, de Peter Novick (Houghton Mifflin Co., 1999), uma tem que ser destacada. O livro fornece um antídoto estimulante para a literatura doentia e inutilmente sentimentalista do Holocausto. Detonando muitos mitos do Holocausto no processo, o livro também fornece o contexto no qual o Holocausto começou.




O Holocausto na Vida Americana, de Peter Novick, é um excelente trabalho, e deveria servir como fonte de consulta para discussão e pesquisa adicional nas próximas décadas. Novick, professor emérito de História na Universidade de Chicago, trabalha cronologicamente, dividindo seu livro em cinco seções e considerando a resposta americana durante os períodos da guerra, do pós-guerra, da “transição” (anos 1960 e 1970), do tempo atual e do futuro. “Este livro teve sua origem na curiosidade e no ceticismo”, ele nos informa no início, e estas ferramentas críticas permanecem a chave para sua pesquisa prodigiosa e análise cuidadosa ao longo do texto. Novick formula perguntas provocantes; cético, ele oferece respostas que desafiam o consenso majoritário.

As ações nazistas contra os judeus antes da guerra, das primeiras medidas discriminatórias na elaboração das leis de Nuremberg em 1935 e culminando com a Noite dos Cristais (Kristallnacht) em 1938, foram extensamente relatadas na imprensa americana e repetidamente denunciadas em todos os níveis da sociedade americana. Ninguém duvida que os judeus estavam na lista de vítimas reais e potenciais do Nazismo, mas era uma lista longa, e os judeus, em um certo sentido, não estavam no topo. Apesar das tentativas nazistas de manter segredo do que ocorria nos campos de concentração nos anos 1930, seus horrores eram conhecidos no Ocidente, e eram o principal símbolo da brutalidade nazista. Mas até o final de 1938, havia poucos judeus, pelo fato de serem judeus, entre aqueles presos, torturados e assassinados nos campos. As vítimas eram majoritariamente comunistas, socialistas, corporativistas e outros oponentes do regime de Hitler. E ainda decorreriam outros quatro anos antes que o destino especial que Hitler havia reservado para os judeus na Europa tornar-se conhecido no Ocidente.

O ponto deveria ser salientado: do início de 1933 até o final de 1942 – mais de três quartos dos doze anos do Reich de Mil Anos de Hitler, os judeus foram, é bastante razoável supor, vistos como uma das, mas de nenhuma forma as principais, vítimas do regime nazista. Esta era a percepção geral dos gentios americanos; era também a percepção de muitos judeus americanos. Na época em que notícias de extermínio em massa de judeus apareceram no decorrer da guerra, aqueles que haviam acompanhado os crimes dos nazistas por dez anos imediata e naturalmente as assimilaram na já existente narrativa.

Somente após as consequências da Kristallnacht é que um grande número de judeus foi acrescentado às populações dos campos, e mesmo então, para a maior parte brevemente, como parte de uma política alemã de pressionar os judeus a emigrar. Até este ponto, as mortes de judeus alemães eram uma fração minúscula daqueles que foram assassinados por bandos de forças ucranianas anti-soviéticas vinte anos antes. Apesar de os judeus americanos responderem com desalento profundo e horror ao antisemitismo nazista em relação aos gentios americanos, sua reação não foi separada de um certo fatalismo conformista: tais períodos haviam ocorrido em séculos anteriores; eles passariam; no ínterim, todos fariam o que poderiam fazer e aguardariam por dias melhores.

No Ocidente, o início da Guerra resultou em interesse ainda menor ao destino dos judeus. O começo da luta militar - e os relatos dramáticos das frentes de batalha – levou a perseguição judaica longe das primeiras páginas e da consciência pública. A Kristallnacht, onde dezenas de judeus foram mortos, foi relatada na primeira página do New York Times por mais de uma semana; quando as estatísticas de óbitos judaicos passaram dos milhares aos milhões, isso não foi divulgado novamente de maneira tão incisiva.

Do outono de 1939 ao outono de 1941, a atenção de todos estava voltada aos eventos militares: a guerra marítima, a queda da França, a Batalha da Inglaterra, a invasão alemã à URSS. Quando os americanos confrontaram o que parecia ser a iminente probabilidade de um domínio nazista invencível sobre todo continente europeu, não é de surpreender que, exceto por alguns judeus, pouca atenção foi dada ao que estava acontecendo com a população judaica na Europa sob o domínio nazista. Que a “guetotização” da judiaria polonesa e a deportação de judeus alemães e austríacos aos guetos poloneses trouxeram enorme sofrimento ninguém duvidava. Além disso, pouco era sabido com qualquer certeza e relatórios fragmentados chegando ao Ocidente eram frequentemente contraditórios. Assim, em dezembro de 1939, uma agência de imprensa estimou que ¼ de milhão de judeus haviam sido mortos; duas semanas depois, a mesma agência reportou que as perdas eram cerca de um décimo daquele número. (Estimativas discrepantes semelhantes aconteceram durante toda a guerra, sem dúvida conduzindo muitos a suspender julgamento sobre os fatos e suspeitar de exagero. Em março de 1943, o The Nation escreveu sobre sete mil judeus sendo massacrados a cada semana, enquanto o The New Republic usava a mesma estimativa como um fato diário.)

Ao longo de 1940, 1941 e 1942, relatórios de atrocidades contra os judeus começaram a acumular. Mas estes, como os números citados, eram frequentemente contraditórios. Na natureza da situação, não havia relatos em primeira mão de jornalistas ocidentais. Ao invés disso, eles vinham de uma porção de judeus que haviam escapado, de fontes secretas, de informantes anônimos alemães e, talvez a mais duvidosa de todas, do governo soviético. Se, como muitos suspeitavam, os soviéticos mentiam sobre o massacre na Floresta de Katyn, porque não preservar um ceticismo sadio quando eles falavam das atrocidades nazistas contra os judeus soviéticos? Assim, após a recaptura soviética de Kiev, o correspondente do New York Times, viajando junto com o Exército Vermelho, sublinhou que enquanto os oficiais soviéticos afirmavam que dezenas de milhares de judeus haviam sido mortos em Babi Yar, “nenhuma testemunha do fuzilamento... conversou com os correspondentes”; “é impossível para este correspondente julgar a verdade ou falsidade da estória contada a nós”; “há pouca evidência no desfiladeiro para provar ou rejeitar a estória.”

O relatório mais importante sobre o Holocausto chegou ao Ocidente de um comerciante alemão anônimo, e foi repassado em meados de 1942 por Gerhard Riegner, representante do Congresso Mundial Judaico na Suíça. Mas Riegner repassou o relatório “com certa reserva” em relação à sua veracidade. Apesar dos contornos principais da campanha de extermínio em massa relatados por Riegner serem todos verdadeiros, seu informante também afirmou ter “conhecimento pessoal” da transformação de corpos de judeus em sabonete - um símbolo terrível da atrocidade nazista hoje descartado como sendo sem fundamento por historiadores do Holocausto. No outono de 1943, mais de um ano após a informação de Riegner ser transmitida, um memorando interno do Departamento de Estado dos EUA concluiu que os relatórios eram “essencialmente corretos.” Mas era difícil seguir em frente com a observação acompanhante de que os relatórios de 1942 eram “às vezes confusos e contraditórios” e que eles “incorporavam estórias que eram reminiscências dos contos de terror da última guerra.”

Tais embelezamentos como a estória do sabonete resultaram numa atitude de descrença que era comum entre judeus e gentios – uma atitude compreensível. Quem, depois de tudo, queria pensar que tais coisas eram verdadeiras? Quem não saudaria uma oportunidade de acreditar que enquanto coisas terríveis estavam acontecendo, sua escala estava sendo exagerada; que muito do que estava sendo dito era propaganda de guerra que o leitor pudente deveria descontar? Um diplomata britânico, cético da estória soviética em Babi Yar, observou que “temos que nós mesmos descontar os rumores de atrocidades e horrores com diversos fins, e não tenho dúvidas que esta prática está sendo extensamente conduzida.” De fato, funcionários do Escritório de Informação da Guerra dos EUA e do Ministério da Informação britânico concluíram que, apesar dos fatos do Holocausto estarem aparentemente sendo confirmados, eles pareciam tão exagerados que as agências perderiam sua credibilidade ao disseminá-los.

É frequentemente dito que quando a estória completa do Holocausto em construção alcançou o Ocidente, começando em 1942, ela foi desacreditada porque a magnitude absoluta do plano nazista de extermínio em massa tornou-o literalmente incrível – além da compreensão. Mas falta de consciência era comum entre os melhores colocados e geralmente educados: somente no final da guerra a ignorância dissipou. William Casey, mais tarde diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), era chefe da inteligência secreta no teatro europeu para o Escritório de Serviços Estratégicos, o predecessor da CIA.

A experiência mais devastadora da guerra para a maioria de nós foi a primeira visita a um campo de concentração... Sabíamos, de uma forma superficial, que os judeus estavam sendo perseguidos, que eles estavam sendo cercados... e que brutalidade e assassinato estavam acontecendo nestes campos. Mas poucos compreendiam a apavorante magnitude dela. Não era suficientemente real para se igualar à geral brutalidade e sofrimento que é a guerra.

Entretanto, ao longo deste livro, Novick contesta a visão de que os Estados Unidos deveriam ter feito mais durante a Segunda Guerra Mundial para ajudar os judeus, argumentando que tal “papo de culpa” tem simplesmente fornecido desculpas para convencer os americanos de que eles têm uma obrigação contínua de apoiar Israel. Ele argumenta que a questão do bombardeamento aliado das linhas ferroviárias que conduziam aos campos de concentração nazistas “pode ser descartada imediatamente”, pois “experiência incontestável” nos ensinou que “bombardear linhas ferroviárias nunca foi eficiente” e ele acrescenta que havia “possibilidades práticas pouco viáveis” para outras tentativas de resgate dos judeus.

Quanto à questão do porquê os Estados Unidos não facilitarem sua política de imigração restritiva do pré-guerra para permitir a entrada de mais judeus, ele escreve que a América “não estava ainda livre da Depressão, com o desemprego ainda alto” e que “o sentimento anti-imigração era muito forte no Congresso e entre o público em geral, de modo que levantar esta questão para debate parecia piorar ao invés de facilitar as condições; melhor deixar piorar sozinho.”

Novick argumenta, de forma convincente, que os judeus americanos “esqueceram” do Holocausto após a guerra porque a Alemanha era aliada dos EUA na Guerra Fria. O editor de Commentary clamou para a importância de encorajar os judeus a desenvolver uma “atitude realista ao invés de vingativa e recriminatória em relação à Alemanha, que era agora o pilar da civilização democrática ocidental.”

Em contraste, a fidelidade de Israel na Guerra Fria era menos clara. Os líderes da judiaria americana preocupavam-se que a liderança esquerdista, na maioria vinda da Europa Oriental, queria fazer parte da esfera de influência soviética. Apesar de Isral logo ter se alinhado aos EUA, muitos israelenses dentro e fora do governo mantinham forte sentimento pela União Soviética. Presumivelmente, os judeus na América que não eram esquerdistas preferiram manter Israel a uma certa distância.

Desde o início da Guerra Fria as organizações judaicas principais estavam ansiosas pela briga. Enfrentando o estereótipo dos judeus como comunistas ou simpatizantes dos comunistas, eles não pestanejaram em sacrificar irmãos judeus no altar do anti-comunismo. O Comitê Judeu Americano (AJC) e a Liga Anti-Difamação (ADL) forneceram às agências governamentais acesso aos seus arquivos de supostos subversivos judeus e teve parte ativa na “Caça às Bruxas” Mcarthista. Antes de ser decana em estudos do Holocausto, Lucy Dawidowicz manteve listas de judeus comunistas para a AJC. Dos Rosenberg, ela escreveu no New Leader que ninguém não poderia apoiar a sentença de morte de Hermann Göring e não apoiar o mesmo para os espiões judeus. A AJC manteve-se indiferente em relação à campanha para dar clemência aos Rosenberg. Ansiosos para impulsionar suas credenciais anti-comunistas, a maioria dos judeus que poderiam ser ouvidos fizeram vista grossa a antigos membros da SS que entraram no país.

Conduzindo uma pesquisa sobre o “judaísmo americano” em 1957, o sociólogo Nathan Glazer relatou que o Holocausto tinha pouca importância nas vidas dos judeus americanos. Até o final dos anos 1960, o Holocausto mal figurava na vida da América, ou dos judeus americanos. Como Peter Novick lembra, entre o final da Segunda Guerra Mundial e o final dos anos 1960, somente uns poucos livros e filmes tocaram no tema. Intelectuais judeus davam pouca atenção a ele. Nenhum memorial ou tributo marcava o evento. Pelo contrário, as maiores organizações judaicas se opunham a tal lembrança.

Temerosos de alienar os gentios ao enfatizar a importância da experiência judaica foi sempre um problema para os judeus americanos (assim como para os europeus), e durante a Segunda Guerra Mundial acabou inibindo os esforços para resgatar os judeus na Europa. “Através dos anos 1950 e entrando nos anos 1960,” relata Novick, O Comitê Judeu Americano, a Liga Anti-Difamação e outros grupos “trabalharam em uma variedade de frentes” para dispersar a imagem dos judeus como desleais. A prioridade destas organizações não era lembrar o Holocausto ou dar voz de apoio a Israel, mas apoiar os EUA na Guerra Fria.

O julgamento de Eichmann em 1961 despertou o interesse público no Holocausto, mas a verdadeira mudança de atitude veio com as consequências da Guerra dos Seis Dias em 1967. Apesar de “Israel não estar em perigo sério” em 1967, entre os judeus americanos “pensamentos de um novo Holocausto estavam certamente presentes.” Além disso, “A vitória milagrosa de Israel também facilitou a integração do Holocausto na consciência religiosa judaica,” e “ofereceu uma teologia popular do ‘Holocausto e Redenção’.” Ao término da Guerra do Yom Kippur em 1973, a “discussão sobre o Holocausto... tornou-se gradativamente institucionalizada”; como o escrutínio e a crítica da presença e ações de Israel nos territórios ocupados cresceu, “a narrativa do Holocausto permitiu colocar como irrelevante qualquer crítica a Israel.”

Nos anos 1970 e 1980, o Holocausto tornou-se uma coisa distinta, chocante e massiva: claramente demarcada, qualitativa e quantitativamente, de outras atrocidades nazistas e de outras perseguições anteriores contra os judeus. Este modo de ver é hoje lembrado como apropriado e natural, a “resposta humana normal.” Mas esta não foi a resposta da maioria dos americanos, mesmo dos judeus americanos, enquanto o Holocausto estava sendo conduzido. Não somente o Holocausto tinha a centralidade na consciência que ela teve a partir dos anos 1970, mas para a esmagadora maioria dos americanos – e, novamente, isto incluía uma boa parte dos judeus também – ele mal existia como um evento singular próprio. As ações criminosas do regime nazista, que mataram entre cinco e seis milhões de judeus europeus, foram bem reais. Mas “o Holocausto” como o conhecemos hoje em dia, foi grandemente uma construção retrospectiva, algo que não teria sido reconhecido pela maioria das pessoas na época. Para falar do “Holocausto” como uma entidade distinta, que os americanos responderam (ou falharam em responder) de vários modos, é para introduzir um anacronismo que permanece no modo de compreensão das respostas contemporâneas.

O Holocausto tornou-se, indubitavelmente, uma fixação na cultura americana. O que veio a se tornar a “americanização do Holocausto” é o objeto de estudo de vários livros recentes, uma discussão intensa dentro da comunidade judaica americana e mesmo um curso em história americana na Universidade de Heidelberg. Entre as muitas tentativas de documentar e explicar como o Holocausto foi americanizado, talvez o mais ambicioso e provocativo seja justamente O Holocausto na Vida Americana, de Peter Novick.

A narrativa apresentada pelo livro de Novick é aquela de uma trajetória ascendente da consciência do Holocausto desde o final dos anos 1960. Novick preocupa-se que a atual preocupação americana com o Holocausto seja permanente. Sua posição sobre a institucionalização contínua da memória do Holocausto na forma de museus e cadeiras nas Universidades é bem formulada. Mas sua conclusão que esta trajetória continuará no futuro é especulativa, e possivelmente improvável. Os anos 1990 viram a convergência de muitos fatores que trouxeram o Holocausto para a vanguarda da consciência americana, por exemplo, filmes de Hollywood como A Lista de Schindler, e a abertura do museu de Washington, o último estando intimamente ligado ao fim do ciclo de vida de uma grande parcela de sobreviventes do Holocausto. Os excessos da mídia também aumentaram a atenção dada ao Holocausto por estes desenvolvimentos cronologicamente específicos. Enquanto não resta nenhuma dúvida que o Holocausto foi absorvido definitivamente pela cultura americana, Novick falha entretanto em reconhecer que essa atenção obsessiva no assunto, que ele de forma eficiente descreve e documenta, pode ser um fenômeno transitório. Somente o tempo dirá.

Fontes de consulta:

http://www.nytimes.com/books/first/n/novick-holocaust.html

http://digitalcommons.unl.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1087&context=historyfacpub

http://www.lrb.co.uk/v22/n01/norman-finkelstein/how-the-arab-israeli-war-of-1967-gave-birth-to-a-memorial-industry

http://www.vho.org/tr/2000/1/tr01novick.html

http://www.vcn.bc.ca/outlook/library/articles/antiSemitism/p05HolocaustAmericanLife.htm

http://www.fpp.co.uk/Auschwitz/Novick/Michiko.html

sexta-feira, 15 de junho de 2012

[SGM] Entrevista com Erna Flegel, a última enfermeira de Hitler

The Guardian, 02/05/2005

Transcrição de uma entrevista entre Luke Harding, do Guardian, e Erna Flegel, enfermeira da Cruz Vermelha que ficou com Hitler no bunker em Berlim nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial

Guardian: Frau Flegel, a senhora esteve no bunker de Hitler no final da Segunda Guerra Mundial?

Flegel: Sim. Estive no bunker quando a guerra terminou em 1945. Estava trabalhando na clínica da Universidade (na Ziegelstrasse em Berlim) e fui levada de carro da clínica até a Chancelaria do Reich. No final, sempre estávamos lá. Vivíamos lá.

Guardian: Como a senhora conseguiu o trabalho?

Flegel: Estava trabalhando como enfermeira na frente oriental. Um dia, chegou uma ordem... e a irmã-chefe disse que eu estaria interessada, havia um cargo na Chancelaria do Reich. Eu disse sim. Estávamos acostumadas, quando havia uma ordem, a obedecê-la. Se tivesse recusado, bem... eu achei que poderia fazer algo na Chancelaria do Reich. Eu fui lá e dei uma olhada. Era linda. E o modo como tudo terminou lá. Mais tarde, eu tinha meu próprio apartamento. Era muito agradável. Mas então (à medida que os russos se aproximavam) o círculo ficou cada vez menor. As pessoas foram colocadas juntas e viviam mais modestamente. Compartilhava um quarto com outra enfermeira.

Guardian: A senhora se encontrou com Magda Goebbels, a esposa do Ministro da Propaganda Nazista, no bunker. O que a senhora achava dela?

Flegel: Ela era uma mulher muito inteligente, num nível acima da maioria das pessoas... Ela era casada antes e decidiu um dia que não estava funcionando, que estava ficando chato, e então ela se separou do primeiro marido. Então veio o segundo casamento. É difícil dizer de fora que ele era mais feliz (em relação ao primeiro). Goebbels aproveitou muitos casos ao máximo. Eu não sei os detalhes. Era tudo fofoca e lixo.

Guardian: Como eram os filhos de Goebbels?

Flegel: As crianças eram encantadoras. Cada uma delas era absolutamente maravilhosa. O fato dela (Magda Goebbels) tê-las matado é imperdoável.

Guardian: A senhora tentou persuadir Frau Goebbels a não matar seus próprios filhos?

Flegel: Você tem que entender que vivíamos uma realidade totalmente distinta. Eu queria que ela levasse uma ou duas crianças para fora de Berlim. Mas Frau Goebbels me disse: 'As crianças me pertencem. Tudo me pertence.' Mas eu ainda não entendi como ela pode matar seis crianças. Geralmente, Frau Goebbels cuidava das crianças. Mas uma noite ela me disse: 'Tenho que ir ao dentista e não posso estar com elas, gostaria que você dissesse boa noite para elas.' Eu disse: 'É claro. Eu o farei. Não se preocupe.' No quarto onde as crianças Goebbels estavam dormindo havia dois beliches, um acima do outro. As crianças tinham um pedaço de corda ligado às suas camas, e se elas quisessem algo, elas precisavam apenas puxá-la. As crianças eram tão encantadoras. Elas brincavam umas com as outras. Elas deveriam ter vivido. Elas não tinham nada a ver com o que estava acontecendo. Foi impossível. Mas ela (Magda Goebbels) não queria saber. Ela disse: "Eu pertenço ao meu marido e as crianças pertencem a mim." Não poupar uma ou duas crianças foi loucura, terrível.

Guardian: O que a senhora achava de Joseph Goebbels, o chefe de propaganda de Hitler, que levou sua família ao bunker em 20 de abril de 1945?

Flegel: Eu não gostava dele. Ninguém gostava dele. Havia sempre pessoas ao seu redor, é claro, parentes e coisas do tipo, mas eram apenas três porque elas queriam ajudar suas carreiras. Havia também uma porção de mulheres que eram jovens e bonitas. Elas costumavam bajular seu ministro. Elas tinham mais vantagens em relação ao resto de nós, para quem as coisas eram mais difíceis.

Guardian: e Frau Goebbels opunha-se aos seus inúmeros casos?

Flegel: Ela não falava nada.

Guardian: O que a senhora achava de Eva Braun? No interrogatório que a senhora deu aos americanos após a guerra a senhora rotulou-a como uma "personalidade completamente desinteressante". A senhora também disse que quando Hitler aceitou casar com Eva Braun era "perfeitamente claro que isto significava o fim do Terceiro Reich". Como ela era?

Flegel: Oh, Deus. Ela não tinha qualquer importância. Ninguém esperava muito dela. Ela não era realmente a esposa de Hitler.

Guardian: Havia boatos na época que Eva Braun estava grávida e que o pai da criança não era Hitler?

Flegel: Eu não soube nada disso e não acredito nesse boato. É verdade que na Chancelaria do Reich próximo do quarto onde o Führer dormia havia acomodação onde Eva Braun também ficava. Ela realmente não era nada. Ela era apenas uma garota.

Guardian: Quando a senhora encontrou Hitler, que permaneceu em Berlim desde novembro de 1944? Qual foi sua impressão dele?

Flegel: Estava na casa (a Chancelaria do Reich) e então alguém disse: "O Führer está aqui." Bem, por favor. Isso não me afetava particularmente na época. Foi a primeira vez. Então o Führer estava há muito tempo longe de Berlim. De repente, ele voltou. Alguém disse: "O Führer está no prédio." Aquilo foi uma experiência e tanto. Todo mundo estava comentando. Hitler então cumprimentou todas as pessoas que ele não havia cumprimentado antes. Foi interessante. Obviamente isto não era um encontro formal. Após isso, ele conversava conosco regularmente, e não apenas sobre o tempo. Eram discussões muito interessantes, mas não num sentido real.

Guardian: A senhora pode descrever o clima no bunker nos dias que antecederam a morte de Hitler?

Flegel: Nos últimos dias, Hitler afundou em si próprio. Todo mundo tem seu próprio jeito, tanto negativo quanto positivo.

Guardian: No seu interrogatório, a senhora descreve como Hitler se despediu de sua equipe médica na noite de 29 de abril de 1945, um pouco antes de seu suicídio. O que aconteceu?

Flegel: Ele saiu do quarto adjacente, apertou a mão de todos, e disse umas poucas palavras amigáveis. E foi isso. Havia poucas pessoas que então ouviram (o tiro, quando Hitler se matou na sala seguinte) e havia outros que não ouviram. O Führer de repente não estava mais lá. A equipe então decidiu se ficava ou partia. Eu sabia que Hitler estava morto. De repente havia mais médicos no bunker, incluindo o professor (Werner) Haase (um dos médicos de Hitler). Eu não vi o corpo de Hitler. Ele foi levado para o jardim. O Führer tinha tanta autoridade que quando ele estava lá você sabia. Era um sentimento tão extraordinário. Ele era tão informal. Ele conversaria contigo de forma muito natural.

Guardian: O que aconteceu em seguida?

Flegel: Correu a informação de que Hitler estava morto. Isto significava que as pessoas não precisavam mais seguir o juramento de lealdade que elas haviam feito para ele.

Guardian: A senhora achou que poderia deixar o bunker viva?

Flegel: Nós simplesmente não pensamos em nada. Sabíamos, naturalmente, quem tinha a palavra, quem estava no comando, e não podia conversar sobre isso. Os soldados gradualmente abandonaram o local. Após isso, muitos de nós foram para o metrô na esperança de que quando eles chegassem eles poderiam escapar mesmo se eles encontrassem os russos. Todo mundo estava tentando tão corajosamente quanto fosse possível cair fora daquela confusão intacto. E então tudo acabou.

Guardian: Após a morte de Hitler, a maioria dos oficiais da SS tentaram escapar. A senhora ficou para trás. O que aconteceu?

Flegel: Sabíamos que os russos estavam se aproximando. Como estávamos no bunker, uma irmã (enfermeira) telefonou e disse: "os russos estão chegando." Então eles avançaram sobre a Chancelaria do Reich. Era um prédio muito forte. Os alemães foram levados para longe e nós ficamos. Os russos nos trataram muito bem. Eles se aproximaram da entrada e negociamos com eles. No início, eles enviaram alguém para conversar conosco e dar uma olhada. Neste estágio, havia apenas seis ou sete de nós, não mais. Eles olharam aqui e acolá. Eles (os russos) eram pessoal selecionado e se comportaram de maneira totalmente decente. Eles encontraram tudo armazenado nos andares mais baixos. Todo mundo que precisasse de qualquer coisa ia lá para baixo. Os russos respeitaram isso. Os alemães não eram mais responsáveis por qualquer coisa. Funcionou. Permaneci no bunker por outros seis a dez dias.

Guardian: Após a guerra, em novembro de 1945, oficiais da inteligência americana interrogaram a senhora sobre a sua época no bunker. A senhora se lembra do interrogatório?

Flegel: Eles nos convidaram para um jantar e nos trataram de seis modos diferentes no sentido de acalmar-nos. Não funcionou comigo, contudo. Eles tentaram nos acalmar com uma comida esquisita. Eu tive um par de refeições com eles.

Guardian: Por que a senhora decidiu permanecer calada por 60 anos sobre suas experiências?

Flegel: Foi porque após 1945 as pessoas começaram a apontar dedos entre si e que esse ou aquele era um infectado (isto é, um nazista). Houve muitas pessoas que não disseram nada. E depois disso, isto permaneceu uma fonte de controvérsia. Não discuti com minha família. Enquanto estava no bunker eu não tinha idéia se meus pais erstavam vivos ou mortos. De fato, ambos sobreviveram à guerra. Estávamos felizes de ter sobrevivido.

Guardian: A senhora recentemente viu A Queda, o filme indicado para o Oscar sobre os dias finais de Hitler. O que a senhora achou dele?

Flegel: Foi bom. Eles erraram em alguns pequenos detalhes, mas geralmente estava correto. Eu mesma me reconheci como uma enfermeira.

Guardian: A senhora se arrepende do seu papel no Terceiro Reich? Ou foi um período excitante?

Flegel: É difícil quando você tem uma sociedade (os nazistas) e é difícil discutir isso depois tanto pela esquerda quanto pela direita. Freqüentemente, é visto como errado. Todo mundo tem sua própria opinião.

http://www.guardian.co.uk/world/2005/may/02/germany.secondworldwar?INTCMP=ILCNETTXT3487

quinta-feira, 14 de junho de 2012

[POL] As Origens do NSDAP e o Golpe no Salão da Cervejaria

Não podemos compreender Hitler e o Terceiro Reich sem entender a cidade de Munique após a Primeira Guerra Mundial. Entre novembro de 1918 e maio de 1919, uma série de levantes políticos violentos transformaram Munique e a Bavária de uma terra tranqüila de conservadores católicos em um caldeirão de agitação política radical. Uma parte da violência política que atingiu Munique foi resultante da velha rivalidade entre bávaros e prussianos. Por exemplo, na Bavária, o apelido do prussiano ou berlinense era, e continua sendo, Saupreusse (prussiano estúpido). Os prussianos também possuem seu próprio vocabulário para os bávaros. No fim da guerra, esta rivalidade secular alcançou o limite crítico – uma rivalidade regional alimentada por um fator político. Para muitos bávaros, Berlim era o lar dos “Criminosos de Novembro”: os políticos do partido social-democrata (SPD) que assinaram o Tratado de Versalhes e impuseram a Constituição de Weimar para o resto da Alemanha. Pelo fato de que as autoridades locais de Munique e do governo regional da Bavária favoreceram e protegeram organizações patrióticas como os nazistas e os Freikorps (milícias armadas de veteranos de guerra) e outros grupos de extrema direita – incluindo os assassinos do ministro Walter Rathenau – a cidade de Munique logo adquiriu a péssima reputação de lar do terrorismo político.


Hitler e Munique

Em 21 de novembro de 1918, com quase trinta anos, em situação financeira precária, sem perspectivas profissionais, Hitler voltou a Munique. Ele não estava sozinho, já que a cidade era um centro de triagem para as tropas que retornavam do front para serem desarmadas e liberadas para a vida civil. A cidade que ele conheceu em 1914 deve ter lhe parecido irreconhecível. Reuniões de soldados agora corriam pelas barracas do Exército. O governo revolucionário Bávaro, formado por um conselho nacional provisório, era dominado por socialistas e comunistas e liderado pelo antigo crítico teatral Kurt Eisner. Eisner era um intelectual boêmio e sonhador. Ele proclamou que o novo regime transformaria o mundo “em um campo cheio de flores no qual cada homem pode ter o seu pedaço.” Nem Eisner ou qualquer de seus companheiros eram bávaros; a maioria era intelectuais judeus. Em fevereiro, Eisner seria assassinado enquanto caminhava por uma rua. Sua morte apenas tornou as coisas piores porque resultou em um levante comunista. Uma milícia do tipo “Exército Vermelho” tomou reféns, assaltou bancos e declarou sua intenção de confiscar as propriedades da burguesia. Carros blindados percorriam as ruas cheios de soldados que trombeteavam por alto-falantes “Vingança para Eisner!” Alguns reféns foram mortos. Rudolf Hess, futuro secretário de Hitler, escapou milagrosamente de ser pego como refém dos Guardas vermelhos. Por volta de abril de 1919, os comunistas tinham tomado o poder e declarado que a cidade seria uma república soviética – baseando-se no exemplo de Lênin e Moscou. O exército e o Freikorps finalmente “libertaram” Munique e isto levou ao primeiro envolvimento de Hitler com a política.


Freikorps

A versão de Hitler destes eventos deixa muitas questões não respondidas. No Mein Kampf, a bíblia do movimento nacional-socialista, é dedicada apenas uma página para este período extraordinário, entre novembro de 1919 e março de 1920, e a informação dada não é completamente precisa. A maioria dos historiadores argumenta que Hitler foi mais um produto da Revolução Bávara de 1919 do que de suas experiências juvenis em Viena. Por que ele foi tão reticente em seu registro autobiográfico dos eventos de 1919? Há muitas explicações possíveis. Primeira, Adolf Hitler teve pouca participação tanto na Revolução de Munique quanto na sua repressão. Como ele mesmo colocou, “Não possuía a menor base para qualquer ação útil.” Em outras palavras, ele não fez nada. Esta falta de ação não se enquadrava bem com o mito político que Hitler e seus seguidores tentaram criar nos anos seguintes. De fato, ele apenas observou estes eventos de sua barraca. Há mesmo alguma evidência para sugerir que ele mesmo flertou com o SPD. Ele mesmo lembrou em 1921, ao defender a idéia de antigos socialistas juntarem-se ao partido nazista, que “todo mundo já foi uma vez um social-democrata.” A verdade é que Adolf Hitler se beneficiou da proteção e apoio de extremistas no governo bávaro, no exército e na polícia municipal. Como o chefe da polícia de Munique explicou, “Estávamos convencidos desde o início de que (o movimento nazista) era a melhor opção para infiltrar-se entre os trabalhadores infectados pela praga do marxismo e trazê-los de volta para os ideais nacionalistas. Por este motivo, protegemos o Partido Nacional Socialista e o senhor Hitler.”

A verdadeira guinada na vida de Hitler chegou no verão de 1919, não na experiência melodramática do hospital, que ele tanto ressaltou no Mein Kampf. Hitler deveu sua carreira ao exército alemão, ou pelo menos ao seu comandante, o capitão Karl Mayr. Mayr recrutou Hitler para ser um “agente de educação política” e o enviou para um treinamento em oratória. Mayr disse em um artigo para uma revista americana em 1941, “Quando eu o encontrei pela primeira vez, ele parecia um cãozinho procurando por um dono.” Em julho de 1919, Mayr designou Hitler para palestrar nas barracas em torno de Munique e alertar os soldados sobre os perigos da conspiração do comunismo judaico internacional. Sua performance nestas palestras chamou a atenção de seus oficiais superiores. Um ouvinte, um historiador universitário de direita, perguntou ao capitão Mayr, “o senhor conhece algum orador com talento entre os seus soldados?” Não é exagero dizer que Adolf Hitler finalmente havia encontrado seu destino e descobriu seu talento inquestionável – a habilidade de influenciar pessoas através do discurso. Eventualmente, ele tornou-se algo mais do que um mero gritalhão; ele tornar-se-ia a voz do medo e ressentimento alemão. No pico de sua carreira como orador, disse por volta de 1930 Otto Strasser, um crítico e rival de Hitler dentro do partido nazista:

Hitler responde à vibração do coração humano com a delicadeza de um sismógrafo, ou talvez sem qualquer conexão física, permitindo-o, com uma certeza que nenhum dom consciente poderia dotá-lo, comportar-se como um alto-falante, proclamando os desejos mais íntimos, os instintos menos admissíveis, os sofrimentos e as revoltas de toda uma nação.

Em setembro de 1919, Hitler recebeu ordens de investigar um dos muitos partidos radicais de extrema direita nos arredores de Munique: o Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP). Entretanto, chamar este grupo de partido é um exagero. Na realidade, era mais um grupo de discussão que se encontrava semanalmente para culpar os responsáveis pela situação catastrófica: os judeus, os comunistas e a aristocracia. O fundador do partido era maquinista e músico nas horas vagas, chamado Anton Drexler. Drexler escreveu um livro argumentando que a solução para todos os problemas econômicos da Alemanha residia na reconciliação do nacionalismo e do socialismo. Hitler compareceu em um encontro e achou que o grupo era “sufocante em seu filistinismo.” Mesmo assim, ele tomou a palavra e entregou uma arenga contra um participante que sugeriu que a Bavária se separasse da Alemanha e se unisse à Áustria. Anton Drexler virou-se para um amigo e murmurou, “Ele é bocudo. Podemos usá-lo.” Drexler convidou Hitler a se juntar ao partido. Naquela semana, Hitler recebeu um telegrama contendo um cartão de membro incluindo o cartão número 555 (o partido tinha apenas 25 membros) e um convite para juntar-se ao comitê executivo. Após alguma hesitação, Hitler foi ao encontro, juntou-se ao partido e tornou-se o membro da mesa executiva número 7. Quando ele foi avaliar a tesouraria do partido, encontrou apenas RM 7 e 50 pf (menos que U$ 1, em valor da época).

A princípio, a política mais parecia uma escapatória para os problemas da vida diária. Ela exigia apenas aquelas qualidades que ele já possuía: paixão, imaginação, um dom demagógico e muito tempo livre. Nas barracas, ele escrevia convites aos encontros e compilava listas de possíveis recrutas. Ele já era claramente o membro mais pró-ativo do comitê executivo. Em 16 de outubro de 1919, Hitler organizou o primeiro encontro público do partido. Com 111 pessoas presentes, Hitler tomou a palavra como segundo palestrante da noite e descobriu, por si próprio, que era um orador natural. No Mein Kampf, ele escreveu: “Finalmente, foi-me oferecida a oportunidade para falar diante de uma plateia grande; e a coisa que eu sempre suspeitei do meu próprio sentimento foi confirmado: Eu podia discursar.”


Hitler na época de sua iniciação política


A partir daquele momento, como chefe de propaganda, mas de fato o líder do partido, Hitler estabeleceu a missão de transformar um grupo político excêntrico em um “partido lutador barulhento de consciência pública,” Ele alugou uma pequena sala acima de uma cervejaria local, tinha um telefone instalado, e trouxe segurança para as finanças do partido. Ele começou cobrando a admissão para os encontros e reuniões. Ele conseguiu uma velha máquina de escrever e um carimbo. Um membro do partido afastou-se chamando-o de megalomaníaco. Ele ainda afirmava ser um retratista arquitetônico quando assinou o arrendamento da sede do partido. O partido fez a sua primeira grande reunião em 24 de fevereiro de 1920 na grande cervejaria de Munique Hofbräuhaus, com 2.000 pessoas presentes. Hitler ainda não era o grande orador; de fato, os pôsteres de propaganda sequer mencionavam seu nome. Ele tomou a palavra e apresentou a nova plataforma política do partido nazista, “interrompido frequentemente por chatos, assobios e aplausos,” como a polícia de Munique registrou. A polícia mais tarde registrou que o encontro terminou em “grande confusão” com muitos socos e pontapés. A lenda nazista mais tarde comparou este discurso com a aclamação de Martinho Lutero de suas 95 Teses diante da porta da Igreja em Wittenberg. Hitler descreveu a recepção da plataforma como uma conversão política coletiva: “Unanimemente e novamente unanimemente” cada ponto do programa era aceito, “e quando a última tese encontrou o coração das massas, lá estava um salão repleto de pessoas unidas por uma nova convicção, uma nova fé, um novo sonho.”

A Plataforma do Partido Nazista

A plataforma do partido merece alguma discussão, embora nem Hitler e tampouco a liderança nazista mais tarde pareçam ter dado muita atenção aos pontos defendidos. Hermann Göring, por exemplo, disse que nunca se preocupou em ler o documento. Muito da plataforma parecia não controversa fazendo uso de chavões do tipo “auto-determinação nacional” para o povo alemão junto com uma exigência da abolição do Tratado de Versalhes. Na maior parte, tratava-se da predominância de negativas: era anti-capitalista, anti-marxista, antisemita e anti-parlamentarista. O Quarto Ponto dizia “Nenhum judeu pode pertencer à Nação.” As exigências positivas eram, em sua maioria, afirmações vagas por justiça econômica. O Ponto 16 clamava pela quebra dos grandes conglomerados financeiros em favor de negócios pequenos e familiares. A máxima de que o bem comum precede sobre o bem individual tornou-se a base do Terceiro Reich. Nas palavras de Joachim Fest, “Muito foi feito na determinação para eliminar os abusos do capitalismo, para superar a falsa luta de classes do Marxismo e conseguir a reconciliação de todos os grupos em uma comunidade racial integrada e poderosa.” Uma semana depois, o partido mudou seu nome para “Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães”.

No ano seguinte – de novembro de 1919 até novembro de 1920 – Hitler continuou discursando para audiências cada vez maiores. Muito de sua retórica focava na sua crença de que os judeus estavam por trás tanto do comunismo internacional quanto do capitalismo selvagem. A União Soviética, para muitos de seus ouvintes, era na verdade um front do “Comunismo Judaico”. Ele constantemente invocava a ameaça comunista para tudo o que era decente e alemão. Ele advertiu que uma vitória comunista na Alemanha significava “a aniquilação de toda cultura ocidental cristã. O objetivo do Partido Nazista pode ser simplesmente definida: a aniquilação e extermínio do Marxismo.”

Sua confiança crescia, assim como o número de seus seguidores. Frequentemente, ele atraía quase 3.000 ouvintes. Em outubro de 1920, o capitão Mayr, antigo oficial comandante de Hitler, escreveu: “Consegui trazer uns jovens competentes para a primeira fila. O senhor Hitler, por exemplo, tornou-se uma força dinâmica, um tribuno do povo da mais alta consideração.” De acordo com um policial observador, que anotou as palavras proferidas, um discurso típico de Hitler deste período era um assalto retórico aos judeus:

O palestrante (Hitler) falou sobre o judaísmo. O palestrante afirmou que em qualquer lugar existem judeus. Toda Alemanha é governada por judeus. É uma vergonha que o trabalho alemão deixe ser perseguido pelos judeus. Naturalmente, porque o judeu tem dinheiro. Ele continuou falando sobre a Rússia. E quem fez tudo aquilo? Somente os judeus. Portanto, os judeus devem se unir e lutar contra os judeus. Porque eles comerão nosso último pedaço de pão diante de nossos olhos. As palavras finais do palestrante foram: Deixe-nos lutar até que o último judeu seja removido do Reich alemão!

A fama crescente de Hitler era ainda basicamente um fenômeno de Munique . Ela era a única cidade na Alemanha onde a origem austríaca de Hitler e o sotaque não seriam consideradas uma desvantagem. Ele fez tudo para chamar a atenção. Seu instinto dizia-lhe que não existia coisa pior do que má publicidade. Como ele escreveu no Mein Kampf, “Não faz diferença nenhuma se eles riem de nós ou nos vilificam, se eles representam-nos como palhaços ou criminosos; o principal é que eles falam de nós, que eles se preocupam conosco cada vez mais.” Se Hitler trouxe algo novo para a arte da política democrática, foi a sua predileção pela novidade e sua desobediência pelas velhas regras do jogo.

Mas ainda não era inteiramente claro o que Hitler perseguia. Ele resistiu brevemente quando o partido começou a mencioná-lo como “Meu Líder” (Mein Führer). Ele apresentava-se a si mesmo como um precursor ou “o tambor” para todo movimento nacionalista. Ele via-se a si mesmo como a pessoa que prepararia o caminho para o grande líder. Ele disse a um membro do partido que sua função era como a de João Batista: “Somos todos pequenos São João. Espero pelo Cristo.” Em 1922, quando ele discursou para um grupo de líderes financeiros e industriais, ele continuou a referir-se a si mesmo como “o tambor”: “Quando o front nacional for tão forte que ele pode alcançar o poder, o Führer estará aqui também.”

A SA

Imediatamente após ter tomado o controle do partido, Hitler formou sua milícia política, a SA. Hitler se beneficiou da pressão internacional sobre o governo alemão para dissolver e desarmar os vários grupos Freikorps e para-militares procurando refúgio sob a proteção do governo regional bávaro. Os Aliados viam estes grupos, com razão, como uma base potencial para uma rápida mobilização de um novo exército alemão. Uma ameaça aliada para invadir a Alemanha forçou o governo local, e Berlim emitiu um ultimato para Munique: dispersar e desarmar as milícias ou o exército alemão o faria através da força. Muitos destes valentões simplesmente juntaram-se à SA nazista. Ao criar um exército político uniformizado de simpatizantes, Hitler estava simplesmente seguindo a prática bávara. Quase todo partido político possuía bandos de valentões para proteger suas reuniões e interromper as reuniões dos adversários. Hitler estava determinado que os brutamontes nazistas seriam os mais eficientes e intimidadores de todas as milícias políticas. A violência era uma parte importante da mística nazista.

Começando no outono de 1920, a SA era presença em toda reunião nazista, batendo nos abelhudos com os punhos, porretes de borracha e bastões de madeira. Eles também invadiam reuniões de adversários e atacavam os oponentes nas ruas. Sem surpresa, a SA parecia estar especialmente interessada em espancar judeus. A polícia de Munique tinha que intervir frequentemente para interromper a violência nazista nas ruas. Hitler então ordenou que a SA mantivesse a disciplina e não chamasse mais a polícia de “queridinhos dos judeus”, “pois eles também odeiam os judeus.” Mas a SA raramente atacava a polícia ou conduzia ações violentas contra representantes do Estado, portanto, eles não desafiavam o desejo do cidadão alemão comum pela lei e ordem. Ele prometeu-lhes que se mantivessem sua disciplina, logo dominariam Munique. Simultaneamente, ele não queria seus homens muito educados; acima de tudo, o objetivo era aterrorizar os inimigos do partido. Como os comunistas faziam, Hitler possuía caminhões de carga para rodar pelas ruas. Diferentemente dos brutamontes proletários comunistas que aterrorizavam os bairros de classe média, a SA apresentava a imagem de soldados patriotas e disciplinados. O desejo de Hitler era pela violência controlada e orquestrada, não a repressão genuína. Na verdade, a SA provou ser tão arruaceira e brutal quanto os comunistas – a ameaça que eles estavam supostamente combatendo.

Exceto pela beligerância nacionalista generalizada, a SA não desenvolveu qualquer ideologia específica. Muito mais do que isso, sua psicologia estava próxima dos veteranos desmobilizados e impacientes que preenchiam suas fileiras. Nas palavras de Joachim Fest, “Ao manter o espírito da camaradagem masculina e homossexualidade que permeava a SA, o soldado médio fazia seu juramento não a um programa, mas a uma personalidade de liderança.” Hitler disse em uma reunião da SA que ele pretendia recrutar boxeadores profissionais para ensinar o soldado médio na arte do boxe “de modo que os partidos de oposição molharão suas calças assim que ouvirem o nome SA.” Com seu sentimento psicológico extraordinário, Hitler reconheceu que a violência exercia um magnetismo especial:

As pessoas precisam de uma boa cicatriz. Elas querem ser assustadas. Elas querem alguém que as façam se sentir com medo, alguém que possa submetê-las a um arrepio. Não ouviram falar que após uma pancadaria em um encontro, aqueles que apanham são os primeiros a se filiar ao partido? O que é essa babaquice que vocês falam sobre violência e como vocês ficam chocados pela tortura? As massas querem isso. Eles precisam de algo horroroso.

A Estética Nazista

Hitler apresentou considerável originalidade e criatividade ao criar uma estética; ele desenhou os estandartes, bandeiras e uniformes do partido e da SA. Ele escolheu o pardo para a cor do uniforme da sua SA em homenagem ao vitorioso exército britânico*; dos regimentos de elite alemães e austríacos ele escolheu o boné de alpinista. Hitler queria a SA sendo atraente assim como perigosa. Em 1920, ele introduziu a saudação Heil (Viva!). Seu chefe de imprensa, nascido nos EUA, “Putzi” Hanfstaengel, afirmou que o ritual Sieg Heil foi adotado de um time de futebol de Harvard. Para simbolizar o comprometimento do partido com a política racial, Hitler adotou a bandeira suástica vermelho-preto-branco como emblema oficial do partido. Ele explicou, “Nossa bandeira é vermelha porque somos socialistas, o círculo é branco porque somos nacionalistas, e a suástica significa que somos antisemitas.”



* Outra versão diz que o uniforme pardo foi adquirido em uma liquidação de uniformes do exército alemão da campanha na África.

O Golpe do Salão da Cervejaria

Em 1923, Hitler e os nazistas eram um fenômeno local, com uma base de 55.000 membros e 15.000 soldados na SA. Hitler estava fazendo incursões na alta sociedade e começando a atrair contribuintes ricos – o caixa do partido agora continha U$ 45.000. Neste ponto, Hitler decidiu arriscar tudo em um lance de dados. Ele decidiu tentar tomar o poder pela força na Bavária e, assim, começar uma revolução nacional para derrubar a República de Weimar e impor uma ditadura de extrema direita à nação. Mas Hitler e outros radicais de direita foram inspirados pela revolução fascista na Itália, que culminou com a “Marcha sobre Roma” de Benito Mussolini, a qual conseguiu derrubar o governo italiano de forma bem sucedida. Era uma ideia audaz, já que Hitler e os nazistas eram pouco conhecidos fora dos círculos radicais de direita e, é claro, seus seguidores em Munique. Hitler não era nada mais do que o líder do grupo central de nazistas. Entretanto, havia muitos no governo bávaro que favoreciam tais objetivos. Munique estava em polvorosa com o boato de que Gustav Von Khar, o presidente separatista bávaro, e o comandante do exército na Bavária, General Otto Von Lossow, poderiam estar organizando um golpe (putsch) contra o governo central. Hitler e seus seguidores já haviam lucrado com seu apoio clandestino. Agora, ele decidiu usar a força contra Kahr e Lossow.

Em junho de 1922, o presidente Friederich Ebert realizou uma visita oficial a Munique. Quando as autoridades locais hastearam a bandeira da república na estação ferroviária para a sua chegada, arruaceiros a retiraram e queimaram o “Trapo Judaico”. Hitler anunciou que a visita de Ebert era um “insulto à Bavária” e prometeu acabar com ela. O cônsul britânico relatou, “O presidente chegou ontem pela manhã e teve uma recepção fria. Ele teve a péssima experiência de ser vaiado onde quer que fosse. Não havia sinais de tropas ou batedores e a maior parte dos turistas estavam totalmente desavisados que o chefe de Estado alemão estava visitando.” O líder religioso da Bavária arcebispo Michael Von Faulhaber (que mais tarde foi promovido a cardeal) disse aos católicos para manter suas “consciências limpas e livres em relação à República,” que ele afirmou ter nascido da “maldição da revolução” e que era contra “o desígnio de Deus.”

Em 24 de junho de 1922, terroristas de extrema direita assassinaram o Ministro do Exterior Walter Rathenau em uma rajada de metralhadora nas ruas de Berlim. O Reichstag apressadamente aprovou a Lei para Proteção da República, que continha novas restrições a grupos anti-republicanos. Para piorar as coisas, 1923 foi o ano da hiper-inflação e havia um coro de vozes clamando pelo fim da República. O Chanceler, Gustav Stressemann, reconheceu que a República só poderia ser salva se a crise econômica pudesse ser resolvida e se o exército apoiasse o governo com a força para defender a constituição. Stressemann pediu ao Comandante do Reichswehr, o formidável General Hans Von Seeckt, o seu apoio. Apesar de Seeckt não ser democrata, ele decidiu que o governo democrático não era uma ameaça ao exército e que era a única salvação contra a desagregação política completa.

Seeckt fez saber a todos que o exército estaria ao lado do governo nacional. Quando Heinrich Class, o líder de um grupo ultra-nacionalista, se aproximou de Seeckt no sentido de liderar um putsch contra o governo, Seeckt respondeu que ele não tomaria parte de uma traição. Ele advertiu que o exército “lutaria até o último homem contra os revolucionários da direita assim como aqueles da esquerda.” Hitler respondeu no jornal nazista, o “Observador Popular” (Völkisher Beobachter), que o General Seeckt, como o Chanceler Stressemann, tinham ambos esposas judias que os influenciavam politicamente.

Stressemann e Seeckt mantiveram sua ameaça. O exército abafou um levante comunista na Saxônia. Hitler agora julgou mal tanto o clima político quanto sua própria importância. Ele continuou ameaçando empregar sua AS como as tropas de uma nova revolução. Ele afirmou ser nada mais que um “tambor” para despertar as massas adiante – o novo líder seria o General Erich Ludendorff, que agora era aliado de Hitler. Hitler, entretanto, estava em uma posição difícil; era um grande risco tentar tomar o poder pela força; por outro lado, se ele não fizesse nada, ele arriscava perder a lealdade e apoio de seus próprios seguidores. Quando ele ouviu o boato de que Gustav Von Khar estava planejando fazer um discurso no grande Salão da Cervejaria de Munique em 9 de novembro de 1923, Hitler decidiu agir com força. Esta é, provavelmente, a melhor explicação que podemos dar para os eventos infelizes e destrutivos que Hitler colocou em prática.

Ele mobilizou a SA e se dirigiu até o prédio onde Kahr estava liderando uma reunião em seu Mercedez vermelho. Logo, caminhões carregados com soldados da SA começaram a chegar. Hitler, vestido em um casaco sobre seu paletó, parecendo uma “mistura de Charlie Chaplin e um maitre” disparou um tiro e anunciou que “a revolução nacional estava acontecendo.” Ele então tomou Kahr e Lossow como prisioneiros, apontando-lhes a arma, e exigiu sua cooperação. Eles concordaram, mas imediatamente fugiram assim que Hitler e seus SA foram embora. Kahr imediatamente emitiu ordens tornando o NSDAP ilegal; para tornar as coisas ainda piores, Lossow ordenou que unidades do exército abafassem a revolta de Hitler. À medida que a noite chegava, Hitler finalmente percebeu que foi enganado. Ele tentou uma última jogada desesperada. Na manhã seguinte, Hitler e Ludendorff, acompanhados de cerca de 2.000 soldados SA e simpatizantes, marcharam sobre a Prefeitura de Munique para conseguir apoio popular.

No meio do caminho, os revoltosos encontraram uma barreira de policiais armados. Tiros foram disparados e a polícia atirou contra os nazistas por 30 segundos. Hermann Göring caiu com um tiro na virilha. Hitler foi ao chão deslocando seu ombro. Seu guarda-costas, Ulrich Graf, recebeu onze balas que supostamente deveriam ter atingido Hitler. Enquanto seus seguidores limpavam as feridas, Hitler fugiu. Mais tarde, os nazistas disseram que Führer deixou o local para carregar uma criança para longe do tiroteio. O resultado foram treze nazistas mortos e vários outros feridos. Hrmann Göring, por exemplo, tornou-se viciado em morfina por causa de seu ferimento doloroso e não retornou à Alemanha por quatro anos. A polícia eventualmente encontrou Hitler e o General Ludendorff e acusou-os de traição.

No julgamento midiático, Hitler conseguiu uma reviravolta contra a Promotoria e retratou-se como um patriota verdadeiro que enfrentou a morte para salvar a Alemanha dos “Criminosos de Novembro” em Berlim. Novamente, ele conseguiu lucrar com a disputa velha Munique contra a mentalidade de Berlim. O veredito anunciado pela corte foi extremamente generoso. A corte sentenciou Hitler a cinco anos de prisão, com a possibilidade de um perdão em seis meses. O putsch falhou miseravelmente, mas Hitler conseguiu converter a derrota em um triunfo pessoal. O correspondente do Times de Londres escreveu, “Munique está rindo à toa do veredito, que está sendo visto como uma excelente piada.”

A publicidade em torno do julgamento, tornou Hitler uma figura nacional pela primeira vez. Com sua inspiração para publicidade, Hitler concluiu que as coisas não pareciam tão más para o futuro: “Não sou mais um desconhecido, e isto nos dá uma boa base para o recomeço.” Sua prisão era confortável e o encarceramento deu-lhe um tempo para repensar sua tática política. Ele decidiu que sua tentativa de usar a SA como uma força armada foi um erro. Ele decidiu vender a si próprio para o povo alemão como um novo tipo de político: tanto revolucionário quanto um defensor da ordem existente. Como o historiador John Lukacs escreveu:

Seu putsch falhou, mas o levou a reconhecer algo mais: que ele possuía não somente poder oratório mas força política, não apenas grande habilidade demagógica, mas grande habilidade democrática. Ele alcançaria o poder na Alemanha não por uma revolução violenta que apelava para a imaginação popular, mas impressionando as pessoas através de um processo político (e assim legal e respeitado).

Obras consultadas:

Hitler, Jochim Fest

Hitler, Ian Kershaw

O Hitler da História, John Lukacs

Mein Kampf, Adolf Hitler.

Suicídios de soldados americanos superam mortes durante combate

The New York Times   14/06/2012

A taxa de suicídio entre agentes militares em serviço ativo disparou este ano, superando o número de soldados que morrem no campo de batalha e determinando um ritmo que pode bater o recorde anual registrado desde o início das guerras no Iraque e no Afeganistão há mais de uma década, informou o Pentágono.

O número de suicídios aumentou mesmo apesar de os militares americanos terem retirado suas tropas do Iraque e intensificado os esforços para fornecer assistência de saúde para problemas psicológicos, que visa limitar o uso de drogas e álcool, além de providenciar aconselhamento financeiro.



Os militares americanos afirmaram na sexta-feira que houve pelo menos 154 suicídios entre soldados na ativa até 7 de junho. O número representa 18% de aumento em relação ao mesmo período em 2011, que registrou 130 suicídios entre militares na ativa. Foram 123 suicídios entre janeiro e junho de 2010 e 133 durante o mesmo período em 2009, informou o Pentágono.

Por outro lado, foram registradas 124 mortes de militares americanos no Afeganistão até o dia 1º de junho deste ano, segundo o Pentágono.

Os índices de suicídio entre militares subiram acentuadamente desde 2005, à medida que as guerras no Iraque e no Afeganistão se intensificaram. Recentemente, o Pentágono criou o Gabinete de Prevenção do Suicídio.

Na sexta-feira, a porta-voz do Departamento de Defesa Cynthia Smith afirmou que o Pentágono tenta lembrar os comandantes que aqueles que procuram aconselhamento não devem ser estigmatizados.

"Esta é uma questão preocupante e estamos empenhados em conseguir a ajuda que nossos membros necessitam", disse ela. "Quero enfatizar que a obtenção de ajuda não é um sinal de fraqueza, é um sinal de força."

Em uma carta a comandantes militares no mês passado, o secretário de Defesa Leon E. Panetta disse que "a prevenção do suicídio é uma responsabilidade da liderança", e acrescentou: "Comandantes e supervisores não podem tolerar qualquer ação que deprecie, humilhe ou ostracize qualquer indivíduo, especialmente aqueles que estão se comportando de maneira responsável ao procurar a ajuda profissional de que necessitam".

Mas grupos de veteranos disseram que o Pentágono não tem feito o suficiente para moderar o imenso stress vivido pelos soldados em combate, incluindo as várias implantações.

"Está claro para os militares que as coisas não estão sendo tratadas de maneira compreensiva", disse Bruce Parry, presidente da Coalizão de Organizações de Veteranos, um grupo com sede em Illinois. "Eles precisam entender de forma mais profunda o trauma que os soldados estão enfrentando."

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/2012-06-14/suicidios-de-soldados-americanos-superam-mortes-durante-combate.html


Tópico relacionado:

A Psicologia da Morte na Guerra
http://epaubel.blogspot.com.br/2008/04/psicologia-da-morte-na-guerra.html

quarta-feira, 13 de junho de 2012

[HOL] Perdoando Josef Mengele

Der Spiegel, 12/09/2005

Eva Kor

Eva Kor e sua irmã gêmea sobreviveram milagrosamente a Auschwitz e ao infame Doutor Josef mengele da SS. Mas, apesar de quase ser morta, Eva perdoou os nazistas. O documentário de sua vida agora foi mostrado pela primeira vez na Alemanha.

Uma rápida olhada nos relatórios médicos foi o suficiente. "Você tem apenas duas semanas para viver," o médico disse. Foi assim; ele então deixou o ambulatório - sem dar à sua paciente, a menina Eva de dez anos de idade, qualquer medicamento. Por que ele faria isso, já que ele queria que a garota romena morresse. O médico, Josef Mengele, injetou nela uma mistura LETAL de bactérias.

Era primavera de 1944 quando Eva Kor, junto com sua irmã gêmea Miriam e sua mãe chegaram no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Quando a família desceu do trem, um guarda da SS agitado aproximou-se delas gritando "gêmeas! gêmeas!" Uns poucos meses depois, Eva e Miriam foram afastadas de sua mãe. Elas nunca mais a viram.

Após mais de 60 anos, a jovem garota Eva é uma mulher idosa de 71. Ela tem um cabelo branco encrespado e está vestindo, nesta noite de terça-feira, uma roupa desportiva azul com mangas curtas e um xale de seda. Em seu antebraço esquerdo, sua tatuagem de Auschwitz é ainda facilmente visível: A-7063. O fato de Eva ainda estar viva pode ser muito incrível, mas é a sua presença em Hamburgo num convite da Fundação Körber esta semana - e a estréia alemã de um documentário sobre sua vida - que realmente tira o fôlego de qualquer um. O filme - feito pelo cineasta Bob Hercules e o historiador Cheri Pugh, ambos americanos - é chamado "Perdoando o Dr. Mengele." Pois foi exatamente isso o que Eva Mozes Kor fez.

Sua estória, apesar disso, chegou a um fim prematuramente - assim como muitas nos campos de extermínio da Segunda Guerra Mundial. Após ser selecionada entre os novatos, as irmãs foram levadas para o agora infame médico do campo Josef Mengele. mengele tinha uma ordem específica para as gêmeas; ele precisava delas para "experimentos médicos". A maior parte do tempo, ele injetava em uma das irmãs veneno ou uma bactéria ou vírus, e então documentava o desenvolvimento da doença e o início da morte. Tão logo o paciente morria, ele e seus assistentes então imediatamente matavam o irmão gêmeo - geralmente com uma injeção no coração - antes de realizar autópsias simultâneas. Cerca de 1.400 pares de gêmeos morreram vítimas das experiências bárbaras de Mengele.

Perdão e Cura

E foi exatamente isso o que ele pretendia fazer com as gêmeas Kor. "Mas ele tinha outra coisa em mente," diz Eva de forma desafiadora. Graças a uma vontade corajosa - e a um sistema imunológico forte - Eva sobreviveu à doença que Mengele injetou em suas veias. "Eu apenas continuei pensando, 'Se morrer, então Miriam será também morta.'"

Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Soviético libertou os sobreviventes de Auschwitz-Birkenau e trouxe o pesadelo deles para um fim. Não muito tempo depois, as gêmeas Kor emigraram para Israel. Eva então se mudou para os EUA, iniciou sua própria família e tornou-se uma corretora de imóveis. Mas o sofrimento permaneceu com ela. Miriam, também, aparentemente havia recebido uma injeção de Mengele, mas ninguém poderia imaginar o que ela estava sofrendo por isso. Seus rins, contudo, estavam falhando. Mais uma vez, Eva fez o que pode para salvar a vida de sua irmã e doou um de seus rins para ela. Mas a doença não pode ser parada e, em 1993, Miriam morreu em Israel.

Desde então, contudo, a estória de Eva tornou-se uma de perdão e cura pessoal. Ela também tornou-se uma de controvérsia. Depois de tudo, o filme, mostrado na Fundação Körber na terça-feira à noite, não é focado na aniquilação e culpa, como muitos dos filmes sobre o Holocausto fizeram antes dele. Mais do que isso, é sobre uma mulher que fez as pazes com aqueles que exterminaram sua família e tentaram exterminá-la.

O caminho de Kor para a paz começou com uma viagem de seu lar atual em Terre Haute, Indiana, até o país de seus quase-assassinos. Somente umas poucas semanas após a morte de sua irmã, Eva viajou para a Alemanha para se encontrar com um médico alemão. Hans Münch era seu nome, e ele havia trabalhado junto com o Dr. Mengele em Auschwitz. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o médico da SS enfrentou acusações de crimes de guerra, mas foi considerado inocente. Ao contrário de seus colegas, foi descoberto que Münch não havia realizado experiências em seus pacientes.

Um ex-nazista com um sorriso envergonhado

Ela estava incrivelmente nervosa quando ela finalmente ficou frente a frente com a porta de Münch, disse Kor. Mas então, um idoso educado com cabelo branco, barbeado e com um sorriso envergonhado abriu a porta. Sim, ele admitiu que ele estava lá durante o gaseamento. "E isto é problema meu," ele continuou. Ele ainda sofre de depressão e pesadelos como resultado. Kor foi procurando um monstro, mas encontrou um ser humano ao invés disso. "Eu então decidi que escreveria uma carta a Münch na qual eu o perdoava," disse Kor.

Mas a resoluta sobrevivente foi mais adiante do que aquilo. Quando, em janeiro de 1995, o 50º aniversário da libertação de Auschwitz , foi celebrado, Kor levou Münch junto com ela. No local coberto de neve do antigo campo de extermínio, ela leu uma confissão de culpa de Münch para a imprensa reunida. Ela viu isso como uma declaração importante de uma testemunha que poderia ser usada para contradizer aqueles que negavam o Holocausto. Mas então, ela disse, "Em meu nome, eu perdôo os nazistas."

Os outros antigos prisioneiros do campo de concentração ficaram horrorizados. "Não temos o direito de perdoar os causadores no nome das vítimas," era a idéia geralmente usada. A anistia particular de Kor era chocante, disse uma mulher que também havia sido uma vítima das experiências de Mengele com gêmeos. E desde a clemência pessoal de Kor, um número de sobreviventes de Auschwitz tem feito o possível para evitá-la. A dor e a raiva são muito grandes. Pode alguém realmente perdoar a maldade pura? Ao fazer isso, não exonera os assassinos e torturadores que comandavam os campos?

Hoje, a corretora de imóveis americana, contudo, está certa de que fez a coisa certa. "Eu senti que um incrível peso de angústia havia sido retirado," ela diz. "Eu nunca pensei que pudesse ser tão forte." Ela diz que pelo fato de ser capaz de perdoar seus piores inimigos, ela finalmente foi capaz de se ver livre de sua condição de vítima. Mas, ela rapidamente acrescenta que o perdão não significa esquecimento. "O que as vítimas fazem não muda o que aconteceu," ela diz. Mas toda vítima tem o direito de curar-se assim que puder. "E a melhor coisa sobre o remédio do perdão," ela diz, "é que não há efeitos colaterais. E todo mundo pode proporcionar isso."

http://www.spiegel.de/international/0,1518,389491,00.html

terça-feira, 12 de junho de 2012

Lincoln recomendou aos negros emancipados que fossem embora

CBS News, 4/03/2011


O Discurso de Gettysburg de Abraham Lincoln inspirou os americanos por gerações, mas considere suas afirmações chocantes em 1862 para uma platéia de negros emancipados na Casa Branca, recomendando-lhes que deixassem os Estados Unidos e se estabelecessem na América Central.

"Para o bem da sua raça, vocês deveriam sacrificar algo de seu conforto atual no sentido de ser tão grandes neste respeito como as pessoas brancas," disse Lincoln, promovendo sua idéia de colonização: reassentar os negros em países estrangeiros na crença de que brancos e negros não poderiam coexistir na mesma nação.

Lincoln continuou dizendo que os negros emancipados que desejavam uma vida permanente nos Estados Unidos eram "egoístas" e ele promoveu a América Central como um local ideal "especialmente por causa da semelhança de clima com a sua terra natal - assim sendo adaptada à sua condição física."

No momento em que a nação celebra o 150º aniversário do primeiro discurso de Lincoln na sexta-feira, um novo livro por um pesquisador da Universidade George Mason em Fairfax mostra que Lincoln estava muito mais comprometido com os negros colonizadores que previamente se sabia. O livro Colonização após Emancipação, é baseado em parte em novos documentos tornados públicos que os autores Philip Magness e Sebastian Page encontraram nos Arquivos Nacionais Britânicos em Londres e nos Arquivos Nacionais dos EUA.


Abraham Lincoln


Em uma entrevista, Magness diz que pensa que os documentos descobertos por ele revelam a complexidade de Lincoln.

"Eles tornam sua vida mais interessante, seu legado racial mais controverso," disse Magness, que é também professor adjunto na Universidade Americana.

As visões de Lincoln sobre a colonização são bem conhecidas entre os historiadores, mesmo se eles não colocam isso nos livros escolares. Lincoln mesmo se referiu à colonização na Proclamação da Emancipação preliminar, sua advertência de setembro de 1862 ao Sul (Estados Confederados) que ele libertaria todos os escravos no território sulista se a rebelião continuasse. Diferentemente de outros, Lincoln sempre promoveu uma colonização voluntária, ao invés de forçar os negros a irem embora.

Mas os historiadores discordam se Lincoln se afastou da colonização após ele declarar a Proclamação da Emancipação em 1º de janeiro de 1863, ou se ele continuou a apoiá-la.

O livro de Magness e Page oferece evidência de que Lincoln continuou a apoiar a colonização, se envolvendo em diplomacia secreta com a Inglaterra para estabelecer uma colônia nas Honduras Britânicas, hoje Belize.

Entre os registros encontrados nos arquivos britânicos está uma ordem de 1863 de Lincoln permitindo a um agente britânico permissão para recrutar voluntários para uma colônia em Belize.

"Ele não deixaria a colonização morrer. Ele tornou-se muito ativo na promoção na esfera privada, através de canais diplomáticos," disse Magness. Ele acredita que Lincoln se cansou da controvérsia que cercava os esforços de colonização, que se envolveram em um escândalo e foram criticados por muitos abolicionistas.

Tão tarde quanto 1864, Magness encontrou uma anotação em que Lincoln pediu ao advogado-geral da União se ele poderia continuar a receber conselhos de James Mitchell, seu comissário de colonização, mesmo após o Congresso ter eliminado os fundos para o departamento de Mitchell.

O historiador do Estado de Illinois, Tom Schwartz, que é também um diretor de pesquisa na Biblioteca Presidencial Abraham Lincoln em Springfield, disse que enquanto os historiadores discordam, existe ampla evidência de que as visões de Lincoln se distanciaram da colonização nos dois últimos anos da Guerra Civil.

Lincoln fez inúmeros discursos se referindo aos direitos que os negros conseguiram ao se alistar no Exército da União, por exemplo. E o secretário presidencial John Hay escreveu em 1864 que Lincoln havia "descartado" a colonização.

"A maior parte da evidência sugere a idéia de que Lincoln estava olhando para outros caminhos" para resolver a transição da escravidão através da colonização ao final de sua presidência, disse Schwartz.

Lincoln não é o único presidente cujas visões sobre relações raciais e escravidão eram mais complexas e menos idealistas que os livros escolares das crianças sugerem. George Washington e Thomas Jefferson eram ambos donos de escravos apesar dos mal entendidos. Washington libertou seus escravos quando morreu.

"Washington, porque ele queria manter a união, sabia que tinha que ignorar o problema da escravidão porque teria dilacerado o país," disse James Rees, diretor do Espólio Mount Vernon de Washington.

"É tentador desejar que ele tenha tentado. A nação tinha mais chance de lidar com a escravidão com Washington do que com qualquer outro," disse Rees, notando a estima com a qual Washington era tido tanto no Sul como no Norte.

Magness disse que as visões sobre Lincoln podem ser mantidas e ser frequentemente conflitantes. Ele notou que pessoas têm utilizado o legado de Lincoln para apoiar todas as agendas políticas desde o dia em que foi assassinado. E ninguém pode afirmar que possui conhecimento definitivo sobre as opiniões pessoais de Lincoln, especialmente em um tópico tão complexo quanto as relações raciais.

"Ele jamais teve a oportunidade de completar seus objetivos. As visões raciais de Lincoln evoluíram desde a época de sua morte," disse Magness.