sexta-feira, 13 de julho de 2012

Nero incendiou Roma?

Catherine Salles

História Viva, Ano VII / No. 77

Buscando inspiração para compor um poema sobre a tomada de Troia, Nero teria provocado o grande incêndio de Roma em 64 d.C. Por muito tempo se difundiu a imagem desse imperador no papel de incendiário, contemplando as chamas com um olhar demente - e satisfeito. Hoje, porém, historiadores inocentam o grande césar dessas acusações.




O incêndio de Roma foi um dos maiores sinistros conhecidos da história, por sua amplitude, duração e, ainda, conseqüências, pois a ele se seguiu a primeira perseguição aos cristãos.

Na noite de 18 de julho de 64, o fogo surgiu nos arredores dos entrepostos do Tibre, onde se estocava material inflamável, como óleo, madeira e lã. Madrugada adentro, impulsionadas pelo forte vento, as chamas se alastraram.

Apavorados, os romanos correram para as ruas. Foram pisoteados, e os que conseguiram fugir só encontraram mais fogo pela frente. A cidade ardia. A multidão, a fumaça e a escuridão impediam a ação dos bombeiros. Além do mais, a água era matéria escassa naquele verão.

Nero, porém, não estava em Roma naquela noite. Encontrava-se em sua residência de Antium (ou Âncio), a cerca de 50 km da cidade. Alertado pelos mensageiros, tomou o caminho da capital. Chegou na madrugada do dia seguinte e decretou medidas de emergência.

O fogo fez estragos por dez dias. Ao menos três das 14 regiões de Roma foram arrasadas, e sete outras, muito danificadas. Cerca de 200 mil romanos perderam suas casas. Diversas obras de arte e monumentos foram destruídos. Nunca se chegou a um número exato de mortos e feridos, que foram muitos.

Os rumores de que o incêndio teria sido obra de Nero correram desde o início do flagelo. Alguns juravam ter visto os escravos imperiais lançando estopas em chamas pelos bairros da cidade. Outros afiançavam que Nero, do alto de uma torre nos jardins de Mecenas, entoava uma passagem de seu poema, Tomada de Troia, acompanhado por sua lira, enquanto a cidade ardia.

O imperador, temeroso das consequências dos boatos, buscou incriminar os responsáveis por difundí-los. A comunidade cristã serviu-lhe então de bode expiatório. Entre 200 e 300 cristãos foram julgados e condenados à morte. Nero transformou a execução em espetáculo.

Mas qual foi, afinal, seu papel no incêndio? Os historiadores da Antiguidade apresentaram-no como o responsável, salvo Tácito, que também considerou a possibilidade de um triste acaso. Mas a tese de um imperador piromaníaco não é verossímil, sobretudo porque ele estava longe da cidade. Além do mais, Nero perdeu no fogo suas moradas imperiais do Palatino e sua nova residência, a Domus Transitória. Não bastasse, nada restou das suas valiosas coleções de obras de arte de que dispunha. Difícil imaginar o esteta que foi Nero sacrificando seus tesouros.

Ao que tudo indica, foi a nobreza romana que propagou os rumores maledicentes. No ano seguinte, ela organizaria uma grande conspiração para matar o imperador.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Os bastidores da primeira viagem do homem ao espaço

Fernando Brito

04/07/2012

Na manhã de 12 de Abril de 1961, Alan Shepard foi acordado na Flórida com uma péssima notícia. Ele não seria mais o primeiro homem no espaço. Foi por pouco. Havia dois meses, em vez de um astronauta, a Nasa decidiu lançar do Cabo Canaveral outro macaco, o terceiro desde o início dos testes. Sobre a cabeça dos americanos, a cerca de 250 km de altura e algumas horas antes, a Vostok-1 deixava claro, mais uma vez, quem liderava a corrida do século. A bordo da pequena cápsula, um filho de camponeses de 27 anos testemunhou que "a Terra é azul. Enquanto Shepard escovava os dentes, Yuri Alexeyevich Gagarin já colhia as glórias de seus 108 minutos em órbita.

O dedicado membro do Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas não poderia exigir mais de si mesmo. Na última noite antes do lançamento, sensores pregados em seu corpo indicaram um sono tranquilo. Às 5:30 da manhã (hora de Moscou), Gagarin foi acordado. Diante de dados "normais demais" para quem estava prestes a enfrentar viagem tão espetacular quanto desconhecida, os médicos perguntaram como foi possível para ele dormir tão bem. O rapaz foi enfático: "Seria correto decolar se eu não estivesse descansado? Dormir era meu dever, então eu dormi."

Não foi bem assim. Mais tarde, diante da desconfiança de todos, ele revelaria a verdade: sem pregar os olhos, procurou ficar imóvel o máximo possível para não parecer inseguro. Na plataforma de lançamento de Baikonur, no Cazaquistão, porém, não houve tempo para descanso. Dezenas de técnicos vararam a noite preparando o Vostok-K, enchendo os tanques de combustível e realizando testes. Pela primeira vez, aquele foguete decolaria com um ser humano a bordo. Não havia margem para erros.

"Poyekhali!"*

Após um "saboroso" café da manhã com tubos de pasta sabor carne, batata e chocolate, Gagarin começou a vestir seu traje espacial. Às 9h06, os 20 motores do primeiro estágio se acenderam. Segundos depois, as quatro garras de metal que seguravam o foguete se retraíram, liberando os 20 milhões de cavalos de potência do Vostok-K. "Lá vamos nós!"*, gritou o cosmonauta, iniciando o voo mais importante de sua vida.


Yuri Gagarin

Quatro anos antes, ele tornara-se piloto de caças. Em plena Guerra Fria, isso não era pouco. No começo de 1959, o governo russo iniciou a seleção do primeiro grupo de cadetes do espaço. Mais de 3 mil candidatos se apresentaram. Entre os critérios de avaliação, era essencial ter menos de 30 anos, medir menos de 1,70 m e pesar menos de 70 kg. Mas não bastava caber na diminuta nave espacial, ainda em fase de projetos. A máquina de propaganda soviética também precisava de um espécime russo perfeito. Demonstrar um firme comprometimento com o partido e ter uma biografia impecável eram tão ou mais importantes que as qualificações técnicas. A maioria dos inscritos ficou pelo caminho. Somente 400

passaram para a segunda fase e pouco mais de 100 chegaram ao fim. Em 25 de fevereiro de 1960, os 20 aprovados foram anunciados. Dois homens sobressaíram logo nos treinamentos: Yuri Gagarin e Gherman Titov. Ainda eram bonitos e tinham boas ligações políticas. Em uma votação entre os colegas, Gagarin recebeu 60% dos votos e Titov ficou em segundo lugar. Ainda assim, a quatro dias do lançamento, a decisão sobre quem seria o pioneiro em órbita não estava tomada. Em 8 de abril, o comandante do destacamento dos cosmonautas, Nicolai Kamanin,anotou em seu diário: "É difícil decidir qual deles deve ser enviado à morte e é igualmente difícil decidir qual desses dois grandes homens deve ser tornar mundialmente famoso". A escolha foi tomada com base em um detalhe prático. O primeiro voo espacial seria rápido e exigiria pouco do cosmonauta. O segundo, já programado, duraria quase um dia inteiro. Titov, por ser mais novo e mais forte, acabou escolhido para o voo mais longo. A Gagarin, "sobrou" a honra de ser o primeiro no espaço. Perguntado anos depois sobre o que lhe passou pela cabeça ao saber da decisão, respondeu: "Pensei em Titov. Por que eu? Por que não ele? Teria sido melhor fazermos a viagem juntos".

Preparação

Se os Estados Unidos tinham na Nasa o engenheiro Wernher von Braun, a URSS tinha Serguei Korolev. O sucesso da exploração espacial soviética se deve quase totalmente aos foguetes que ele ajudou a construir. Sua insistência em usá-los não só para lançar armas nucleares mas também como o transporte que levaria satélites e homens ao espaço se provaria acertada. Sem a luta de Korolev para que a nação saísse na frente dos americanos, a corrida ao espaço teria sido bem diferente. "A demonstração cabal do avanço russo foi o voo do primeiro cosmonauta humano", afirma Gildo Magalhães, pesquisador da faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Das obras de Korolev, a mais genial foi o R-7, o primeiro míssil balístico intercontinental. Sua capacidade e suas dimensões foram exageradas desde a encomenda pelo Exército soviético, em 1950. As bombas de hidrogênio podiam pesar até 10 toneladas. Se a URSS queria uma forma eficaz de destruir os EUA, era preciso ter um foguete capaz de transportá-las.

A família de foguetes R-7 é a mais antiga e confiável da história da exploração espacial. Ela colocou em órbita o Sputnik, o primeiro satélite artificial da Terra, e ainda hoje lança todas as naves Soyuz russas. O R-7 havia sido testado 46 vezes, com diversas configurações. Era, portanto, uma escolha natural para a mais pretensiosa das missões até então. Sua versão adaptada, com a adição de mais um estágio, foi batizada com o mesmo nome da nave que carregaria: Vostok (que, aliás, significa "leste", em russo), mais a letra K. O local de lançamento, no Cazaquistão, foi escolhido por ter uma grande área de planície, o que permitiria manter a comunicação com as naves por mais tempo. Embora a base se chamasse Baikonur, esse era o nome de uma cidade a centenas de quilômetros dali.


Foguete R-7 com a configuração da cápsula Vostok e Voskhod/Soyuz

Ignição

Ninguém percebeu de imediato, mas o lançamento teve um problema potencialmente sério. A Vostok-1 deveria atingir a altitude máxima de 230 km e levava suprimentos de oxigênio, água e comida para dez dias. A ideia era garantir que Gagarin sobrevivesse na nave caso os retrofoguetes (responsáveis pelo retorno ao solo) falhassem. Àquela altitude, a nave perderia velocidade e cairia de volta à Terra em menos de dez dias. Mas uma falha no segundo estágio fez os motores do foguete desligarem segundos depois do previsto. Assim, a Vostok-1 alcançou até 327 km de altitude. Sem retrofoguetes para reduzir a velocidade da cápsula e a essa distância do solo, ela levaria 15 dias para cair, muito além do limite de suprimentos.


Cápsula Vostok


Enquanto esteve em órbita, Gagarin executou algumas experiências para avaliar seu estado físico e mental. Até então, ninguém sabia ao certo como o corpo humano se comportaria no espaço. (Teorias iam desde olhos saltando das órbitas até a morte.) Ele leu textos em voz alta para analisar a visão, ingeriu comida e água para verificar se era possível se alimentar em gravidade zero e fez testes de coordenação motora. Todos com resultados satisfatórios.

A atenção com a segurança era tanta que os controles da nave ficaram travados durante todo o voo. Temia-se que o espaço "enlouquecesse" as pessoas. Se isso acontecesse a Gagarin, era melhor protegê-lo de si mesmo. Os códigos de liberação dos controles foram guardados em um envelope selado e só poderiam ser usados em uma emergência que demandasse intervenção humana. No fim das contas, o cosmonauta não passou de um passageiro. Para compensar, seus comandantes lhe prepararam uma surpresa: às 9h57 o primeiro tenente Yuri Gagarin foi promovido a major.

A incerteza sobre o sucesso fez com que as autoridades soviéticas só anunciassem ao mundo a missão quando ele já se preparava para voltar à Terra. Às 10h25, os retrofoguetes da Vostok-1 dispararam automaticamente por 42 segundos. Dez segundos depois, a cápsula de reentrada deveria se separar do módulo de serviço, mas isso não aconteceu. Cabos ligando os dois módulos não se partiram como o programado e, unidos, começaram a girar sem controle, enquanto queimavam devido ao atrito com o ar. Só dez minutos mais tarde os cabos se romperam e a cápsula estabilizou. O cosmonauta sofria, então, com outro problema: a rápida desaceleração, que produziu uma força G até dez vezes maior que a gravidade terrestre.

Nada impediu, porém, que ele fosse ejetado e caísse de paraquedas nos arredores de Saratov. A visão daquele ser assustou duas meninas e um homem que dirigia um trator. "Quando me viram de traje espacial laranja, começaram a se afastar com medo. Aí eu disse: ‘Não tenham medo! Sou soviético como vocês! Eu venho do espaço e preciso de um telefone para ligar para Moscou!’", contou Gagarin. A sorte estava mais uma vez ao seu lado. Poucos dias antes do voo, técnicos notaram que o traje não tinha insígnias ou outros sinais que mostrassem o seu país de origem - o que poderia dar a impressão de que se tratava de um espião estrangeiro. Só então grafaram CCCP (URSS no alfabeto cirílico) em letras garrafais na testa do cosmonauta.

De acordo com as regras da Federação Internacional de Astronáutica, um voo tripulado ao espaço só seria considerado válido se o piloto pousasse com sua nave. Embora a Vostok-1 possuísse seus próprios paraquedas, ela não tinha um sistema de pouso suave. Se os cosmonautas não ejetassem, poderiam não morrer, mas quebrariam alguns ossos. Por dez anos o governo e o próprio Gagarin negaram o pouso de paraquedas. Sem saber da artimanha, a federação validou o feito soviético.

Logo após seu voo histórico, o cosmonauta partiu para uma turnê mundial. No Brasil, foi condecorado pelo presidente Jânio Quadros no Rio de Janeiro e visitou a Baixada Santista, onde foi recebido por uma multidão. "As pessoas não entendiam bem o que aquele homem havia feito, mas sabiam que era algo importante e queriam se aproximar dele", conta Francisco Rodrigues, policial que fez a escolta de Gagarin durante o desfile em carro aberto pelas ruas de Santos e São Vicente.


Yuri Gagarin no Brasil

Nos EUA, a reação não foi tão animada. O Congresso cobrava uma resposta à altura. Em 25 de maio de 1961, pouco mais de um mês depois da Vostok e após 20 dias do primeiro voo espacial americano (quando Alan Shepard finalmente chegou lá), o presidente John Kennedy lançou um desafio: "Esta nação deve se comprometer a conquistar o objetivo de, antes de esta década terminar, pousar um homem na Lua e trazê-lo de volta em segurança". Começava uma nova etapa da corrida espacial. Para Shozo Motoyama, livre-docente em História da Ciência na USP, "o voo de Gagarin foi o início da aventura cósmica, e o Cabo Canaveral, o promontório de Sagres das grandes navegações. A Terra ficou pequena para a ambição humana".

Yuri Gagarin não viveu para ver o homem na Lua. A fama e as chances mínimas de voltar ao espaço (a URSS não arriscaria perder seu herói) o fizeram se interessar mais por mulheres e álcool do que pelo trabalho. Num ostracismo forçado, decidiu retomar a carreira de piloto. Em 27 de março de 1968, o caça Mig-15 em que treinava caiu. Embora os russos ainda tivessem o foguete mais seguro do mundo, "descendente" do R-7 e do Vostok-K, eles jamais voltaram a liderar a disputa pelo espaço. O Leste que assombrou o mundo em 1961 morreu com seu piloto.


[SGM] A Estranha Morte de Heinrich Himmler

John C. Schwarzwalder, janeiro de 1947.


Tem ocorrido muitos relatos conflitantes a respeito da morte de Heinrich Himmler, alguns dos quais não passam de pura especulação. Aqui está estória autêntica e testemunhada contada por um membro da divisão de inteligência das Forças do Serviço do Exército. O major John C. Schwarzwalder viajou para o exterior com a força tarefa ocidental de Patton e tornou-se o oficial de inteligência na cidade costeira de Casablanca. Na invasão do Sudeste da França, ele comandou as atividades de inteligência em Marselha e Toulon, e depois em Bijon, Liege e as Ardenas. O major Schwarzwalder esteve no local onde Himmler morreu.

Os Editores


Entre os grupos que estávamos mais ansiosos de capturar após a ocupação da Alemanha estava os corpos dos homens conhecidos como a Geheime Feldpolizei, ou Polícia Secreta de Campo, composta de agentes que, enquanto ligados ao Exército Alemão, eram especialistas em capturar espiões aliados.

A inteligência alemã tinha mais grupos espetaculares, mas nenhum outro mais capaz. A prova de sua eficiência é o fato de que apesar de haver milhares de russos, poloneses, tchecos, eslovacos e homens de outras nacionalidades lutando no Exército Alemão, nunca houve um motim sério. Outra evidência da eficiência é o fato de que muitos poucos foram capturados antes da ocupação da Alemanha ou, se capturados, identificados como GFP (Geheime Feldpolizei). Nós na Contra Inteligência americana sua coragem, mas tínhamos grande respeito profissional por eles.

Era natural que quiséssemos agarrar os homens da GFP quase tanto quanto os homens da Gestapo, e os britânicos sentiram a mesma coisa sobre isso. Para a grande surpresa, portanto, da polícia militar britânica que haviam estabelecido um bloqueio na estrada próximo do Rio Velho, um grupo de 12 não-combatentes alemães idosos em um final de tarde de maio apresentando-se como membros dispensados do GFP, desejando passagem para o sul em direção de suas casas. O que surpreendeu a polícia não foi a aparência do grupo ou mesmo o fato de que aqueles homens pertenciam ao GFP.

Os policiais imediatamente entregaram o grupo para a mais próxima unidade da inteligência britânica, que, por sua vez, enviou-os para o Centro de Interrogatório Preliminar próximo a Bremen. O jovem oficial britânico encarregado lá decidiu algo que não estava no protocolo, mas ele estava lotado de serviço, como todo homem de inteligência estava na época, de modo que ele os levou ao centro de Interrogação Detalhada, 45 km longe.

O major britânico encarregado lá era um homem capaz, mas ele também estava literalmente trabalhando até a morte. Ele chamou o tenente no centro Preliminar e quis saber por que o tenente esta lotando seu campo com não-combatentes do GFP. O tenente explicou que, apesar de ele não ter tido tempo para um interrogatório completo, os documentos estavam um pouco perfeitos. O major era muito experiente para não respeitar a intuição de um agente treinado, de modo que ele decidiu dar uma olhada.

O centro levou os 12 prisioneiros para interrogatório. Eles foram todos despidos e examinados, a busca envolvendo não somente suas roupas – sapatos e revestimento dos sapatos, as costuras das calças e dos casacos – mas também seus pertences pessoais. Isto não foi somente prudente mas rotineiro. Não melhor meio de interrogar um homem do que ele estar nu diante de você e você está confortavelmente sentado fumando um cigarro.

Todos os alemães foram revistados, mas nada foi encontrado. Então, quando o interrogatório começou, um dos alemães deu um passo adiante. “Eu sou ajudante de Heinrich Himmler,” ele anunciou.

Os queixos dos interrogadores caíram. Eles olharam entre si, pensando o que isto significava. Um segundo alemão deu um passo adiante.

“Eu sou Heinrich Himmler,” ele disse. Ele usava um tapa-olho e era muito mais magro do que aparecia em suas fotos. Os interrogadores olharam para ele de modo incrédulo. Ele removeu o tapa-olho, seu olho sendo o mesmo azul claro que não era só de Himmler, mas de outros milhões de alemães. Ele permaneceu parado diante dos oficiais britânicos e olhou-os diretamente.

“Eu sou Heinrich Himmler,” ele repetiu em alemão, “e eu exijo ver o Marechal Montgomery para discutir um assunto de conseqüências enormes.”

Neste momento, os oficiais britânicos haviam acrescentado mentalmente 9 kg de peso e um bigode para sua imagem e rosto, e quase estavam convencidos de que ele era Himmler. Eles fizeram-lhe poucas perguntas, e ele as respondeu rápida e corretamente, ao mesmo tempo exigindo a presença de Montgomery. Os britânicos perguntaram-lhe por quê.

“Tenho uma informação definitiva,” ele disse, “que os russos pretendiam cruzar o Elba talvez hoje ou amanhã e atacar o Segundo Exército Britânico. Também procuro pelo Marechal Montgomery para oferecer-lhe muitas divisões da SS alemã para ajudar-lhe a defender seu exército.”

O oficial encarregado disse para o resto dos prisioneiros voltarem para suas celas. Ele deu ao nu Himmler um par de cuecas e um cobertor do exército para cobrir-se. Ele chamou seu superior imediato e contou-lhe as novidades, então sentou-se para interogar o homem que era chefe da Gestapo, da organização de inteligência do partido nazista e da inteligência do Exército Alemão.

A princípio, Himmler se recusou a conversar com qualquer um que não fosse Montgomery, mas ele mudou de idéia quando o oficial disse-lhe que o marechal não estava imediatamente disponível. Ele respondeu perguntas rapidamente, mas de forma completa. Ele disse que não tinha tempo para questões menores, que ele estava extremamente ansioso para continuar com o assunto da resistência aos russos. Ele parecia convencido de que, agora que Hitler estava morto, os britânicos e os americanos poderiam lutar contra os russos em questão de dias. Sua última e melhor missão na vida, ele disse, era levar o apoio do que sobrou da Alemanha para ajudar a Inglaterra e a América na luta contra “as hordas do Leste”. Ele parecia mais sincero em relação a isso do que qualquer outro prisioneiro importante capturado até então.

No meio do interrogatório, o coronel Blimp chegou. Vocês sabem o tipo de homem que quero dizer. Assim que ele entrou, todos os britânicos levantaram-se e Himmler também, esperando talvez ver Montgomery.

Coronel Blimp olhou-o cuidadosamente e disse, “Então, você é Himmler, você é, por Deus?” Himmler começou a dizer alguma coisa e o coronel Blimp gritou “Cale-se seu porco!” Himmler provavelmente não compreendia muito inglês, mas ele entendeu aquilo, tudo certo. Ele calou-se como uma porta e não falou mais uma palavra enquanto viveu.

O coronel Blimp então ordenou que Himmler fosse novamente revistado. O oficial explicou-lhe que Himmler já havia sido revistado. O coronel Blimp olhou fixamente para seu subordinado e ordenou que Himmler fosse novamente revistado. O prisioneiro recusou obstinadamente, mas sua luta silenciosa não melhorou a situação. Ele foi novamente revistado, da cabeça aos pés.

Ao final da revista, um médico do exército pediu a Himmler para abrir sua boca. O prisioneiro assim o fez, mas quando o médico colocou seu dedo dentro, Himmler o mordeu. O médico tirou seu dedo rapidamente. Himmler então prensou seus dentes e engoliu algo. Alguns dizem que ele sorriu raivosamente. No segundo seguinte ele estava no chão gemendo de agonia.

Os britânicos cercaram-lhe por um momento. Himmler estava esticado, sua cabeça voltada para trás. Sua garganta estava corada, vômito induzido foi provocado. Tudo o que foi possível foi feito para mantê-lo vivo, mas em vão. Em apenas 12 minutos, Himmler estava morto.




O frasco de cianeto de potássio que o matou estava inteligentemente fixado em torno de um buraco entre os dentes. Tudo o que Himmler precisava fazer em qualquer momento era deslocar sua mandíbula e morder. Os esforços do médico britânico em mantê-lo vivo prolongou sua agonia mas não poderia salvá-lo de um enforcamento mais tarde.

Os oficiais da Inteligência Britânica ficaram aborrecidos com o coronel Blimp. Ele violou um princípio fundamental do interrogatório: “Quando um prisioneiro está falando, deixe-o falar. Conduza sua conversa, trazendo-o para aquilo que você quer saber, mas não faça nada que o faça parar de falar.”

Eu não posso dizer o quanto os britânicos e nós perderam pelo abrupto fim do interrogatório de Himmler. Não sei quanta informação ele poderia ter nos dado, por exemplo, sobre a misteriosa morte de Hitler ou a probabilidade de Goebbels estar vivo. Sei que ele poderia nos ter dado um tesouro inimaginável de informação sobre suas organizações, como ele conseguiu o controle da inteligência do Exército Alemão, sobre seus métodos para manter a Wehrmacht na linha, sobre o destino de muitos de nossos agentes que desapareceram, sobre os da organização Wehrwolf e a conexão desta organização com a Juventude Hitlerista.

Ele poderia ter nos dito que homens que trabalhavam para nós na Alemanha eram seus próprios agentes, enviados para nos enganar. Ele poderia nos ter dito como aviadores aliados abatidos foram traídos por pessoal da Gestapo que haviam se infiltrado nas organizações de resistência. Havia centenas de coisas que poderia ter nos dito.

Pessoalmente, gostaria de saber exatamente porque Himmler, possuidor de recursos fabulosos para se disfarçar e escapar, escolheu passar como sargento da Polícia Secreta de Campo. Queria saber porque ele não obteve documentos para provar que ele era um reles sargento ou um não-combatente na artilharia ou qualquer um de uma centena de outras identidades que poderiam ter reduzido suas chances de ser capturado. Queria saber se a razão verdadeira por ele ter carregado documentos da GFP era de modo que ele não pudesse ser parado por tropas alemãs comuns enquanto fugia. Queria saber por que ele estava se dirigindo a Munique, como ele disse para a polícia militar. Quem ele estava esperando encontrar lá?

Acho que o mundo inteiro que saber por que ele manteve os campos de terror em Dachau e Buchenwald e Belsen. Queria saber como um homem razoável e bem apessoado (como ele era) pôde ser o perpetrador de tais atividades. Onde e de quem ele teve a idéia que ele estava abaixo de Hitler e que Hitler estava abaixo de Deus? O que causava a tal homem agir deste modo? Como as coisas funcionavam?

Bem, graças ao coronel Blimp, jamais descobriremos as respostas. Mesmo que muitos de nós tenhamos cometido enganos na guerra para não culpar muito o coronel. Acima de tudo, aqueles que fizeram a primeira revista que não encontraram o cianeto.

O resto da estória é curto. Os russos enviaram três oficiais para olhar os restos e determinar se eles eram de Himmler. Ele foram embora satisfeitos. No dia seguinte, uma equipe de oficiais britânicos e soldados transportaram o corpo para um ponto desconhecido nas florestas do norte da Alemanha. Lá, eles o enterraram. Eles juraram nunca revelar o local da cova, e eles manterão o juramento.

Não havia ninguém para orar, nenhuma lágrima. O maior assassino de todos os tempos havia retornado à terra – e parece duvidoso que mesmo Deus tenha piedade de sua alma.

http://www.oldmagazinearticles.com/DEATH_OF_HEINRICH_HIMMLER_Information_pdf

Controvérsia

Em 2003, o historiador Martin Allen, consultando os Arquivos Nacionais em Londres, teria encontrado provas de que Brendan Bracken, ministro da informação de Churchill, teria emitido documentos em que o Primeiro-Ministro britânico exigia que Himmler fosse assassinado assim que fosse capturado. O argumento de Allen era que Himmler havia feito inúmeras tentativas de negociar uma paz com a Inglaterra durante a guerra, mas as propostas foram peremptoriamente recusadas por Churchill. Quando a guerra terminou, este ficou preocupado que este fato viesse a público e sua imagem ficasse prejudicada.




Em 2005, o jornalista Ben Fenton do Daily Telegraph, suspeitando do conteúdo dos três documentos mencionados, até porque tal ordem jamais seria registrada em papel, pediu uma investigação sobre a autenticidade deles. Fenton convenceu o Daily Telegraph a bancar uma investigação forense. Ao todo, foram descobertos 29 documentos forjados, alguns dos quais impressos em impressora laser. Allen argüiu que os documentos que ele consultou eram verdadeiros e talvez tenham sido substituídos por falsos após a publicação do livro para esconder uma revelação comprometedora e prejudicar sua biografia. Em um adendo à edição de 2005 de seu livro, Allen escreveu sobre a confusão e disse que aceitava as conclusões da análise forense, porém ele perguntava como documentos falsos permaneceram durante tanto tempo nos Arquivos Nacionais, dotado de uma equipe qualificada de historiadores, sem serem notados. Além disso, não é procedimento normal do Arquivo Nacional liberar documentos oficiais para análise externa, mas neste caso, os documentos foram liberados rapidamente.

Em 2005, o Serviço de Promotoria do Reino Unido resolveu arquivar o caso, argumentando que o estado de saúde de Allen era precário.

Argumentos de Allen:

http://books.google.com.br/books?id=D0esWBqTYkMC&pg=PA289&lpg=PA289&dq=himmler%C2%B4s+secret+war+martin+allen+controversy&source=bl&ots=sDke393X_J&sig=uUA85zoAsOgK1KquyrrnPtpvRuo&hl=pt-BR&sa=X&ei=JnD0T4CYJYL69QSJ7aTiBg&ved=0CGQQ6AEwBA#v=onepage&q=himmler%C2%B4s%20secret%20war%20martin%20allen%20controversy&f=false

Argumentos de Fenton:

http://www.ft.com/intl/cms/s/0/f3a43fbc-18ab-11dd-8c92-0000779fd2ac.html#axzz1zfpqSGYT

terça-feira, 3 de julho de 2012

NASA apresenta a cápsula espacial Orion

Terra, 02 de julho de 2012



A Orion, cápsula espacial da Nasa, chegou ao Centro Espacial John F. Kennedy, na Flórida, informou a Nasa nesta segunda-feira. A nave está sendo desenvolvida para levar astronautas para asteroides, para a lua e, eventualmente, para Marte, substituindo os ônibus espaciais.

A cápsula, construída pela Lockheed-Martin, tem lançamento previsto para 2014, a bordo de um foguete Delta 4 não tripulado - apesar de a nave ter sido projetada para levar uma tripulação de até quatro integrantes. "Não é um gráfico do Powerpoint, é uma nave espacial de verdade", brincou Bob Cabana durante a cerimônia para marcar a chegada da nave ao Centro.

O lançamento de 2014 vai testar a blindagem de calor, os paraquedas e outros sistemas da nave. Espera-se chegar a aproximadamente 5,5 mil km acima da Terra - para se ter uma ideia, a Estação Espacial Internacional (ISS) orbita a cerca de 380 km do planeta. Em seguida, a Orion deverá voltar com 84% da força que uma nave espacial voltando da lua teria. Humanos não voam a tantos milhares de quilômetros acima da Terra desde 1972, quando a Missão Apollo para a Lua chegou ao fim.

Um segundo teste será realizado em 2017 usando o sistema de lançamento espacial da Nasa, que pretende colocar a cápsula em torno da lua, novamente sem tripulação. O terceiro teste, previsto para 2021, deverá incluir astronautas. Em 2025, a Nasa quer enviar astronautas para explorar um asteroide próximo a Terra, e em 2030 o objetivo será ir a Marte.

Com a aposentadoria dos ônibus espaciais, a Nasa depende da Rússia para enviar tripulações à ISS. Para quebrar o monopólio do País, a agência espacial fez parceria com quatro companhias interessadas em desenvolver naves espaciais para transportar astronautas do governo, bem como pesquisadores privados e turistas à estação e a outras órbitas próximas a Terra. O administrador da Nasa Charlie Bolden afirmou hoje que novas parcerias devem ser anunciadas neste mês.

Com informações da Reuters

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Orion: A Espaçonave da Nova Geração da América

A Orion pode lembrar seus predecessores da era Apollo, mas sua tecnologia e capacidade estão anos-luz de distância. A Orion possui dezenas de avanços tecnológicos e inovações que foram incorporadas aos subsistemas da espaçonave e os projeto dos componentes.

Construída a partir das melhores práticas de projeto das eras da Apollo e do Space Shuttle, a espaçonave Orion inclui tanto o módulo de tripulação quanto o de serviço, um adaptador da espaçonave e um revolucionário sistema de aborto de lançamento que aumentará significativamente a segurança da tripulação.

O módulo da tripulação da Orion é muito maior do que o da Apollo e pode suportar maior tripulação para missões espaciais de curta e longa durações. O módulo de serviço é a estação de força que carrega o combustível e o sistema de propulsão da espaçonave assim como armazena o sistema de suporte de vida e o abastecimento de água para a tripulação durante as viagens espaciais. A estrutura do módulo de serviço também fornecerá locais para a montagem de experimentos científicos e para a carga.

Em junho de 2010, a equipe da Orion completou de forma bem sucedida a Revisão de Segurança da Fase 1, obedecendo as Exigências de Avaliação Humana para exploração do espaço em baixa órbita terrestre e além da NASA. O processo de revisão de segurança é uma análise rigorosa e compreensiva nos conceitos de projeto e operacionais para garantir que todas as exigências de segurança tenham sido obedecidas. As exigências do sistema de segurança englobam falhas potencialmente catastróficas que possam resultar na perda da tripulação ou perda da missão durante o lançamento, ascensão à órbita, operações no espaço, reentrada, pouso e operações de resgate.

Estrutura da Espaçonave

A figura 1 apresenta os principais componentes da espaçonave Orion.

Figura 1

O sistema de aborto de lançamento, posicionado em uma torre no topo do módulo da tripulação, é ativado em milisegundos para impulsionar o módulo da tripulação para uma condição de segurança no caso de uma emergência durante o lançamento ou no trajeto para a órbita final. O sistema também protege o módulo da tripulação das perigosas cargas atmosféricas e do aquecimento. Ele é ejetado assim que a Orion alcança a fase inicial da missão de ascensão à órbita.

O módulo da tripulação é a cápsula de transporte que fornece um local seguro para a tripulação, armazenamento de consumíveis e instrumentos de pesquisa e serve como estação de ancoração para transferência da tripulação. O módulo da tripulação é a única parte da Orion que retorna à Terra após cada missão.

O módulo de serviço recebe o módulo da tripulação desde o lançamento até a separação antes da reentrada. Ele fornece capacidade de propulsão no espaço para transferência orbital, controle de atitude e aborto de ascensão em alta altitude. Quando unido ao módulo de tripulação, ele fornece água, oxigênio e nitrogênio necessários para um meio ambiente habitável, gera e armazena energia elétrica enquanto em órbita e mantém a temperatura dos sistemas do veículo e componentes. Este módulo pode também transportar carga despressurizada e carga científica.

O adaptador da espaçonave conecta o Veículo de Exploração Tripulada Orion aos veículo de lançamento e protege os componentes do módulo de serviço.



Componentes

Aviônica

Frequentemente descrito como o “cérebro” de uma espaçonave, o sistema de aviônica consiste de uma extensa variedade de eletrônica complexa e padrão montada em vários sistemas independentes – cada um responsável por executar funções críticas específicas. A unidade de potência e dados, rádios de rastreamento e comunicação, unidade de processamento de vídeo, rede de dados a bordo e unidades de visualização (ou interface homem-máquina, IHM) são apenas alguns exemplos dos controles, computadores e sensores que constituem o sistema de aviônica da Orion. Antenas de fase orientáveis estado-da-arte e técnicas de codificação de dados estão sendo usados para transmitir altas taxas de dados enquanto usam menos energia e peso em relação a outras espaçonaves.

Transmitindo dados a uma taxa de 1.000 vezes mais rápido do que os atuais sistemas no Space Shuttle e na Estação Espacial Internacional, a rede Ethernet Gigabit de Tempo Acionado da Orion é uma tecnologia de software inovadora construída sobre um barramento de dados comercial confiável que tem sido testado para ser resistente a radiação espacial. Este sistema garante a confiabilidade dos dispositivos de controle críticos de vôo de segurança da Orion.

Os paletes incluem um sistema computadorizado de gerenciamento do veículo baseado em tecnologia aviônica modular integrada desenvolvida para o Boeing-787, um GPS integrado e uma unidade de interface remota que trabalha entre os computadores do veículo e todas as partes analógicas do sistema.



Navegação

Fornecendo um processo de atracação e rendezvous (encontro orbital) para a tripulação da espaçonave futura, o Objetivo de Teste de Desenvolvimento do Teste de Sensor para a Redução Relativa do Risco de Navegação da Orion (STORRM) traz inovação para a tecnologia de navegação e guiamento de missão crítica.

Este novo protótipo do sistema de navegação de atracação consiste de um Sensor de Navegação de Visão, ou VNS, e uma câmera de atracação de alta definição, assim como aviõnica e software de vôo. A câmera de atracação STORRM fornece uma resolução 16 vezes maior do que a câmera de atracação do Space Shuttle. Este sistema de nova geração também fornece dados vindos de tão longe quanto 4,5 km – três vezes o alcance do sensor de navegação do Shuttle.

Células Solares

Fornecendo energia elétrica para a espaçonave da nova geração, as células solares UltraFlex da Orion atenderão todas as necessidades de energia elétrica para suporte de vida, propulsão e sistemas de comunicação, e outros sistemas elétricos tanto para translado em órbita da Terra quanto missões em espaço profundo. Baterias recarregáveis de lítio armazenarão esta energia para uso quando o veículo estiver longe da luz do Sol.

Utilizando um projeto inovador e materiais de alta resistência, as células solares UltraFlex configuradas para o Orion terá mais de 25 vezes a resistência e 10 a rigidez de um painel rígido convencional de célula solar, e menos de ¼ do peso. As células também são microfinas e permanecem dobradas como um acordeão até serem estendidas em órbita. Estas qualidades ajudam as células a se ajustarem dentro de um pequeno volume na Orion, e também ajudam muito a reduzir a massa de lançamento da espaçonave.
 
Cada uma das duas células solares circulares possuem desdobradas aproximadamente 5 metros de diâmetro e fornece mais de 6kW de potência – potência suficiente para três casas de três quartos. As células solares individuais UltraFlex são muito eficientes – elas também são capazes de converter aproximadamente 30% da energia solar em eletricidade.
 
Sistema de Proteção Térmica

Durante o retorno de uma missão em espaço profundo, a espaçonave Orion experimentará temperaturas extremas à medida que ela atravessa a atmosfera da Terra a uma velocidade incrível de 36.800 km/h – mais de 10.000 km/h rápido do que a velocidade de reentrada do space shuttle.

Para proteger a espaçonave e a tripulação destas altas temperaturas – capazes de fundir ferro, aço ou cromo – a equipe do sistema de proteção térmica da Orion desenvolveu, fabricou materiais necessários para otimizar a segurança da tripulação durante o vôo espacial e reentrada.

A equipe criou a maior estrutura de proteção térmica do mundo para ser utilizada no sistema de proteção térmica de reentrada da Orion. O escudo de proteção de cinco metros, localizado na base da espaçonave, foi projetado para resistir ao calor extremo afastando-o do módulo da tripulação. A estrutura transportadora interna do escudo de proteção é fabricado de um material compósito desenvolvido pela Lockheed Martin em parceria com a TenCate Advanced Composites, economizando massa e custo sobre estruturas metálicas convencionais.

Esta superfície externa de proteção sera coberta com Avcoat, um material ablative aplicado pela Textron Defense Systems, que também foi usado na espaçonave Apollo. À medida que a Orion se desloca pela atmosfera da terra, ela pode gerar temperaturas superficiais tão altas quanto 3.300ºC. Entretanto, a proteção Avcoat gradualmente sofre erosão mantendo a temperatura superficial em no máximo em 1650ºC.  

Fornecendo adicional proteção para o módulo da tripulação, o escudo é também feito de um novo sistema de materiais compósitos de alta temperatura e é coberto com pastilhas AETB-8 que são a última geração em termos de pastilhas para o space shuttle. As pastilhas AETB-8 dão proteção para o calor excessivo da reentrada assim como resíduos orbitais microscópicos, como micrometeoritos, que poderiam atingir a Orion em baixa órbita terrestre. Estas novas pastilhas AETB-8 foram criadas usando os melhores materiais e os melhores processos de fabricação adaptados do Programa Space Shuttle.

Testes de Qualificação de Vôo

Durante o desenvolvimento inicial do Orion, uma série de testes de sistemas integrados foram conduzidos para verificar o desenho do veículo, confiabilidade e performance. Os testes deram aos engenheiros uma oportunidade única para ganhar uma compreensão profunda da performance do sistema preliminar, identificando quaisquer inconsistências e modificações no projeto.

Os testes de vôo e em terra garantem o teste vigoroso do hardware em condições simuladas antes do vôo e exposto às duras condições ambientais do espaço. Mais recentemente, um número de testes bem sucedido foram conduzidos e continuarão ao longo do desenvolvimento do veículo. Mais tarde no desenvolvimento do veículo, uma série de testes ambientais serão conduzidos no veículo Orion para completar, ou qualificar, a avaliação do fator humano dos sistemas antes do primeiro vôo tripulado.

A Câmara de Simulação do Meio Ambiente Espacial é a maior câmara de teste de vácuo térmico do mundo e acomodará o desenvolvimento e a qualificação de sistemas de vôo em escala natural no vácuo e no ambiente térmico indo desde a baixa órbita terrestre até o espaço profundo e até as condições de superfície planetária.

As facilidades vibroacústicas simulam as condições experimentadas durante o lançamento e a ascensão, incluindo relâmpagos, choques e vibrações. A câmara acústica reverberante é a maior e a mais potente disponível. A câmara de aço reforçado com concreto acomoda teste acústico de alta potência de veículos espaciais de grandes dimensões e é um dos maiores e mais potentes no mundo, alcançando um nível total de pressão sonora de 163 dB na câmara vazia. O teste demonstra a habilidade do veículo em obedecer as exigências durante e após a exposição ao ambiente acústico em vôo. Para simular a aceleração extrema do veículo pela atmosfera da Terra, a potência sonora será fornecida para a câmara – sete vezes mais forte que um motor a jato ou um carro de corrida de Fórmula 1. A facilidade também abriga a plataforma de teste de vibração mecânica de alta capacidade para acomodar o espectro completo de ambientes de vibração.

Os testes de efeitos eletromagnéticos ambientais garantem que o sistema elétrico da espaçonave opera apropriadamente quando exposto aos níveis esperados de interferência eletromagnética ao longo de todo o ciclo da missão, incluindo as operações de pré-lançamento, ascensão, deslocamento orbital e recuperação.

Uma vez que a Orion passar por todo teste de qualificação de vôo espacial na Instalação de Energia Espacial, a espaçonave será enviada para o Centro Espacial Kennedy para montagem final e integração antes do vôo.

Fonte: Orion - America’s Next Generation Spacecraft, NASA, 2010

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Reichswehr - O Exército na República de Weimar

Origens

Depois da derrota de Napoleão na batalha de Waterloo o reino da Prussia teve anos de sucessos militares nos séculos XIX e XX. Cada homem entre 17 e 45 anos, era obrigado a prestar serviço militar. Havia 4 classes de serviço; Ativo (Aktiv), Reserva, Landwehr e Landsturm. O Landwehr e o Landsturm eram chamados apenas em iminência de guerra. A unidade básica do exército neste tempo era o Regiment. O regimento dava suporte a uma cidade ou região específica. Cada regimento era estacionado perto de sua cidade natal. O regimento da reserva era composto em sua maioria por membros vindos do regimento local. As unidades de Landwehr e Landsturm foram organizadas também da mesma maneira. Um indivíduo poderia gastar todos os 22 anos de serviço militar cercados por seus amigos e família. Este sistema criou fortes laços nos regimentos, entretanto havia o perigo de todos os homens de uma cidade serem mortos em batalha de uma só vez.

O exército alemão que lutou na Primeira Guerra Mundial não era de fato um exército unificado. Os quatro reinos germânicos que existiam antes da Unificação Alemã em janeiro de 1871, a saber, Baviera, Prússia, Saxônia e Württemberg, cada qual tinha seu próprio exército antes da unificação. A Prússia teve o maior dos quatro exércitos. Após o unificação e a formação do Império Alemão, o exército Prussiano transformou-se no núcleo do exército alemão imperial (Kaiserliches Heer ou Deutsches Reichsheer). Em 1914 o exército alemão possuía 50 divisões ativas e em 1918 250 divisões. O termo "exército alemão" veio a ser usado somente após a assinatura do Tratado de Versalhes em 1919.

O Exército após 1918

Com o final da Primeira Guerra Mundial, também veio uma onda de revoluções e contra-revoluções através da maior parte da Europa Ocidental e Oriental. A Alemanha não ficou imune ao fervor da revolução e experimentou numerosas revoltas, tentativas de golpe, assaltos contra-revolucionários, batalhas de rua, e disputas de terras. Os soldados da linha de frente que desertaram e se dispersaram após o retorno à Alemanha lutaram em ambos os lados destas disputas revolucionárias.

Um grande número de ex-soldados da Primeira Guerra juntou-se para formar unidades de voluntários, coletivamente conhecidas como Freikorps. As unidades Freikorps poderiam consistir de pequenos grupos de menos de 100 homens espalhados ao longo de linhas quase-militares para defender áreas limitadas, enquanto outras eram de tamanho de divisões, consistindo de infantaria, artilharia, metralhadoras e unidades motorizadas, apoio logístico, engenharia e força aérea. Estimativas colocam o número de unidades do Freikorps formadas durante o período de 1918-1923 em cerca de 200-300. As unidades Freikorps serviram de base para combater a revolução comunista dentro da Alemanha, combates na região báltica e luta contra os poloneses através da fronteira oriental defendendo-se contra as várias incursões territoriais polonesas.

Desde que a maior parte do exército imperial germânico havia desaparecido logo após o final da Primeira Guerra Mundial, uma força militar formal foi necessária pela nova República de Weimar, além do independente e desregulado Freikorp. Em 6 de março de 1919, uma nova força armada alemã foi formada por meio de um decreto oficial conhecido como Vorläufige Reichswehr, ou Força de Defesa Provisória Alemã. Ela consistia do Vorläufige Reichsheer (Exército Provisório) e da Vorläufige Reichsmarine (Marinha Provisória). Muitas unidades Freikorps serviam parcial ou totalmente no Vorläufige Reichsheer, que possuía aproximadamente 400.000 homens agrupados em 50 unidades do tamanho de brigada.

Em 28 de junho de 1919, a Alemanha assinou formalmente o Tratado de Paz, selando o Armistício assinado em 11 de novembro de 1918. Em 30 de setembro de 1919, o Exército foi reorganizado como "Übergangsheer" (Exército de Transição) em 20 brigadas. Em maio de 1920, ele foi reduzido a 200.000 homens e reestruturado novamente, formando 3 divisões de Cavalaria e 7 divisões de infantaria. Em 1 de outubro de 1920, as brigadas foram substituídas por regimentos e o efetivo foi reduzido a apenas 100.000 soldados, como estipulado pelo Tratado de Versalhes. Isto durou até 1 de janeiro de 1921, quando a Reichswehr foi oficialmente estabelecida, obedecendo os limites impostos pelos Aliados.

Segundo as novas imposições dos vencedores, a Reichswehr deveria ser composta do:

(a) Reichsheer: um exército consistindo de dois comandos de grupos, 7 divisões de infantaria e 3 divisões de cavalaria. Tanques, artilharia pesada e aviões estavam proibidos.

(b) Reichsmarine: limitada a uma porção de encouraçados leves. Submarinos e aviões estavam proibidos.

Apesar das limitações de efetivo e equipamento, o planejamento para "tempos melhores" prosseguiu, através da análise da derrota na Primeira Guerra, pesquisa e desenvolvimento e exercícios militares na URSS com o apoio do Exército Vermelho. Além disso, apesar de estar proibido de possuir um Estado-Maior, o Exército continuou a conduzir suas funções típicas de Estado-Maior sob o nome camuflado de "Truppenamt", ou Escritório de Tropa. Nesta época, muitos dos futuros líderes da Wehrmacht (por exemplo, Heinz Guderian) formularam novas idéias táticas e estratégicas, as quais seriam utilizadas anos mais tarde.

A Reichswehr nunca foi uma amiga da democracia, sendo saudosista dos velhos tempos do militarismo imperial. Mesmo assim, ela permaneceu leal ao governo republicano e seu caráter apolítico foi enfatizado, dando à incipiente democracia alemã uma chance de sobrevivência nos conturbados anos 1920. A maior influência no desenvolvimento da Reichswehr foi Hans von Seeckt (1866-1936), que serviu de 1920 a 1926 como Chefe da Liderança do Exército ("Chef der Heeresleitung").

A figura 1 mostra a estrutura do Reichswehr. A figura 2 mostra a bandeira das forças armadas alemãs durante a República De Weimar. Note que as cores imperiais ainda estão presentes, além da Cruz de Ferro, símbolo do militarismo germânico.



Figura 1

Figura 2


Na verdade, a redução do efetivo das forças armadas, de 780.000 (1913) para 100.000 nos tempos de paz, ajudou a melhorar a qualidade da Reichswehr, já que somente os melhores entre os melhores poderiam permanecer no corpo de oficiais e subalternos. Apesar disso, a proibição do uso de veículos mecanizados e apoio aéreo tornava o Exército figura meramente decorativa.

Entre 1933 e 1934, após a ascensão de Adolf Hitler como Chanceler da Alemanha, a Reichswehr começou um programa secreto de expansão, que se tornou público com o anúncio da criação da Wehrmacht em 1935 e o abandono das cláusulas do Tratado de Versalhes.

Uniformes

Túnica

Quatro bolsos, tunica de serviço (Dienstrock), introduzida em maio de 1919, para o Reichsheer Transitório. Esta túnica era de cor cinza-esverdeado (feldgrau) tinha gola para insígnia da mesma cor, duas mangas com botões nas pontas e um suporte nas costas com botões para suporte do cinto. As insígnias eram de um padrão incomum, adotadas brevemente em 1919, e que representavam a ruptura com as tradições militares imperiais.

As novas especificações foram introduzidas em dezembro de 1920. A túnica de quatro bolsos, oito ou seis botões frontais (o último adotado em 1928) agora tinha mangas do tipo francesa e insígnias mais tradicionais (usadas mais tarde pela Wehrmacht). Outras especificações permaneceram as mesmas. As túnicas de campo M15 (modelo 1915) continuaram a ser usadas por praças em funções internas à guarnição e treinamento em campo. Nas figura 3, temos uma representação dos uniformes da Reichswehr.


Figura 3


Na figura 4, vemos uniformes de oficiais em épocas distintas. Na esquerda, o uniforme mais antigo apresenta a gola na mesma cor que a túnica; o quepe apresenta a grinalda em metal com a roseta no centro com as cores imperiais e tarja preta de couro sobre a banda lateral do boné. Na direita, temos um uniforme mais novo, de general, com a gola em verde escuro e no quepe a roseta foi substituída pelo escudo de armas da República de Weimar, uma águia negra prussiana com fundo amarelo (emblema que seria mais tarde adotado pela República Federal Alemã em 1949) e a tarja preta de couro sendo substituído pelo cordão duplo dourado (no caso de general).


Figura 4

 
Capacete
 
Os famosos capacetes alemães do tipo M18 (modelo 1918) possuíam emblemas na forma de escudo em ambos os lados com as cores da província na qual estavam servindo. Esse emblema, chamado Wappenschild, começou a ser usado em 26 de janeiro de 1924. A marinha, por sua vez, utilizava o escudo na cor branca ou dourada com uma âncora no centro no lado esquerdo. Em 14 de março de 1933, os emblemas com as cores das províncias foram abolidos e substituídos pelo escudo tricolor, com as cores do movimento nacional-socialista (branco, vermelho e preto) no lado esquerdo. Na figura 5, vemos os escudos de 4 províncias importantes e o escudo nacional de 1933.
 
 
 
Fontes de pesquisa:
 
Wikipedia
 
 
Die Uniformierung und Ausruestung des deutschen Reichsheers 1919-1932, Adolf Schlicht and Juergen Kraus, 1987.
 

domingo, 1 de julho de 2012

[SGM] A Cruz de Mérito da Guerra

Sebastián J. Bianchi


A Cruz do Mérito da Guerra, criada e instituída antes da guerra, formou uma parte integral da estrutura de condecorações do Terceiro Reich ao preencher lacunas que, de outra forma, existiria tanto na área civil quanto na militar.

Em épocas anteriores, a "tarja de não combatente" da Cruz de Ferro havia distinguido funcionários do Estado, civis e pessoal auxiliar das forças armadas que contribuíram com o esforço de guerra. Entretanto, tornou-se aparente das experiências na Primeira Guerra Mundial e na Guerra Civil Espanhola que esta condecoração simples não seria suficiente para reconhecer o vasto número de civis e forças auxiliares que eram necessários para conduzir uma guerra moderna e a tarja de não-combatente não foi renovada quando a Cruz de Ferro foi reintroduzida em setembro de 1939.

Esta nova era de guerra exigiria uma mobilização quase completa, uma perspectiva que foi mais tarde percebida e tornou-se famosa no decorrer com a sua descrição: Guerra Total. Para reconhecer tanto os milhões de alemães que estavam diretamente apoiando a Wehrmacht quanto aqueles empregados nas indústrias de armamentos, como estaleiros, depósitos de munições, fábricas de aviões e linhas de montagem, uma condecoração com mais profundidade era necessária.

Na área militar, a República de Weimar havia deixado uma lacuna após a Primeira Guerra Mundial quando ela aboliu as condecorações de Estado militares. Estas condecorações haviam tido um papel significativo ao premiar tanto bravura quanto atos relativamente comuns de mérito militar. No final, muitas novas condecorações foram criadas por Hitler, entre elas a Cruz de Mérito da Guerra (Das Kriegsverdienst Kreuz, ou KVK), que foi instituída em 18 de outubro de 1939.

Inicialmente, a Cruz consistia de somente duas classes, a Primeira e a Segunda, mas à medida que a necessidade crescia a Medalha de Mérito da Guerra e a Cruz de Cavaleiro para a Cruz de Mérito da Guerra foram introduzidas. Todas as graduações (exceto para a Medalha do Mérito da Guerra) eram constituídas de uma Cruz maltesa de oito pontas, com um par de espadas de estilo militar fixadas entre os braços da cruz distinguindo a categoria do combatente do não-combatente, a qual não tinha espadas mas no resto era idêntica.

A Cruz de Mérito da Guerra com Espadas reconhecia aqueles militares cujos atos de coragem estavam acima de suas obrigações normais, mas que ainda não encontrassem o critério da Cruz de Ferro. Estes atos poderiam ser tanto na forma de bravura não estando diretamente sob fogo inimigo ou a liderança/planejamento de operações de combate. Todos os membros das forças armadas eram elegíveis sem qualquer distinção de posto, e os aliados não-germânicos eram igualmente elegíveis.

A Cruz sem Espadas era concedida para ações de mérito geral. Pessoal militar que era qualificado para a Cruz de Mérito da Guerra em serviço administrativo, médico ou outro da linha de frente recebia esta condecoração, assim como civis cujas contribuições foram de importância significativa para o esforço de guerra. Civis eram premiados com a distinção sem critério de idade ou classe social, de Diplomatas a trabalhadores de chão de fábrica.

Era necessário ter a classe mais baixa para receber uma classe mais alta, apesar de alguns casos raros da Segunda e Primeira Classes serem concedidas simultaneamente. Se a Cruz de Mérito da Guerra com Espadas era concedida para um indivíduo que já possuía a classe sem Espadas, somente a Cruz com Espadas deveria ser usada. Foi decretado inicialmente que a Cruz de Mérito da Guerra não poderia ser premiada ou usada por recebedores da Cruz de Ferro, mas esta regulamentação foi revogada em 28 de setembro de 1941.

A Cruz de Mérito da Guerra foi eventualmente usada para reconhecer virtualmente qualquer serviço, e tornou-se a condecoração alemã mais usada durante a guerra.

Segunda Classe

A Cruz de Mérito da Guerra Segunda Classe era uma cruz maltesa em bronze que media 49 mm. Era construída de uma grande variedade de materiais, do zinco com banho a bronze a umas poucas e raras peças de bronze. À medida que a guerra progredia, a qualidade dos materiais caiu, e consequentemente as últimas cruzes de guerra perderam seu banho a bronze, adquirindo uma aparência cinzenta.

Os braços da cruz em ambos os lados tinham uma borda chata com um centro granulado. O disco do centro do lado frontal possía uma suástica inclinada cercada por um ramo de folhas de carvalho enquanto que no centro do lado reverso o ramo de folhas de carvalho cercava o ano de 1939. Uma orelha era soldada no braço superior da cruz através do qual um laço de fita, que tinha a marca do fabricante, era passada. A cruz era concedida com um pedaço de fita de 15 cm com tiras vermelho-branco-preto-branco-vermelho (As cores da fita da Cruz de Ferro invertidas). No caso da categoria de combatente um par de espadas militares era colocado entre os braços da cruz.


Cruz do Mérito da Guerra Segunda Classe sem Espadas


Cruz do Mérito da Guerra Segunda Classe com Espadas


Em ocasiões formais ou paradas militares a Cruz era usada suspensa pela fita ou como parte de um grupo. No serviço ativo, somente a fita era usada tanto no segundo botão da túnica quanto na barra de fitas (este assunto será detalhado em outro tópico). Se usado no botão, ela iria atrás da fita da Cruz de Ferro de Segunda Classe (ver tópico específico), mas tecnicamente antes da Medalha da Campanha de Inverno Oriental, apesar desta última ser vista frequentemente acima da Cruz de Mérito da Guerra devido ao seu alto prestígio entre as tropas combatentes.

A Cruz de Mérito da Guerra Segunda Classe sem espadas era concedida àqueles cujas ações eram julgadas ser no auxílio do esforço de guerra, mas não diretamente envolvidas em operações militares. Isto poderia significar civis, como professores e empresários, ou pessoal militar em função de responsabilidade ou guardas de campos de prisioneiros de guerra. A Cruz de Mérito da Guerra Segunda Classe com Espadas era concedida a militares por bravura não necessariamente em combate direto com o inimigo. Na verdade, havia uma área nebulosa na qual os indivíduos recebiam a Cruz com Espadas quando talvez a categoria não-combatente teria sido mais apropriada, e outros recebendo a Cruz de Ferro quando a Cruz de Mérito da Guerra com Espadas teria se encaixado melhor. O número de agraciados é o seguinte:



Primeira Classe

A Cruz de Mérito da Guerra Primeira Classe, como acontecia com uma condecoração mais alta, não era concedida de forma tão liberal e, portanto, era mais respeitada. A Cruz de Mérito da Guerra Primeira Classe era permanentemente usada no bolso esquerdo da túnica.

O lado frontal da Cruz era exatamente idêntico em desenho e proporções à de Segunda Classe, esta tendo no centro uma suástica inclinada com os braços apresentando pontas polidas afinadas e um centro granulado. O lado reverso era chato com somente um sistema de pino e gancho não diferente do da Cruz de Ferro de Primeira Classe, com a marca do fabricante, se existisse, geralmente marcada sobre o pino. Algumas cruzes vendidas de forma privada eram construídas com um sistema de encaixe parafusado que fornecia um grande nível de segurança. Neste caso, a marca era estampada na própria cruz. No caso da versão combatente, um par de espadas militares eram fixadas entre os braços da Cruz.


Ambas as divisões da condecoração eram prensadas e construídas em zinco com uma cobertura de prata, apesar de que podem ser encontradas peças raras de prata grau 800 (80% prata). Era feita de materiais de menor grau nos últimos anos da guerra e, consequentemente, a cobertura delas foi eventualmente eliminada dando uma aparência cinzenta. Como com todas as condecorações alemãs, manteve o alto padrão de detalhes até o final. Assim como com a Cruz de Ferro, os agraciados eram livres para comprar uma cópia oficial da LDO (Lista de Fabricantes Oficiais) do prêmio.


Cruz de Mérito da Guerra Primeira Classe sem Espadas
Cruz de Mérito da Guerra Primeira Classe com Espadas

A Cruz de Mérito da Guerra Primeira Classe sem Espadas era concedida para serviço meritório ou coragem em auxílio ao esforço de guerra. Era também concedida a diplomatas, guardas de campo e outras personalidades cujas ações eram vistas como tendo efeito significativo no esforço de guerra. A Cruz de Mérito da Guerra Primeira Classe com Espadas era concedida a militares por coragem e feitos heróicos (os quais não necessitariam ocorrer necessariamente diante do inimigo). O número de condecorações concedidas é o seguinte:


 

Cruz de Cavaleiro

A Cruz de Cavaleiro da Cruz de Mérito da Guerra (Ritterkreuz des Kriegsverdienstkeuzes) foi introduzida em 19 de agosto de 1940 simultaneamente à medalha do Mérito da Guerra. Sua posição na estrutura de condecorações alemã estava acima da Cruz Alemã em Prata e Ouro, mas abaixo da Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro. Foi concedida frugalmente ao longo dos anos de guerra, e em virtude de poucos serem agraciados, a Cruz era tida com muito respeito pela hierarquia nazista, dando-lhe uma aura de exclusividade que podia não ser totalmente merecida, já que era posicionada abaixo da Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro. Cerimônias pomposas geralmente eram feitas para os agraciados, com Hitler quase sempre entregando a condecoração ao lado de oficiais de altos postos e funcionários superiores do partido. No último ano de guerra, a Cruz de Cavaleiro em ouro foi introduzida como o nível mais alto da Cruz de Mérito da Guerra. Em grande parte devido à sua introdução tardia, este prêmio foi concedido somente umas poucas vezes.


Cruz de Cavaleiro da Cruz de Mérito da Guerra com Espadas


Ao todo, foram 211 agraciados com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Mérito da Guerra com Espadas e 48 sem Espadas.

 
Para aqueles interessados em adquirir reproduções de condecorações alemãs de excelente qualidade e a preços acessíveis, recomendo os seguintes sites:
 
 


Clausewitz e a Arte da Guerra

Carl von Clausewitz (1780 - 1831) entrou para a vida militar aos doze anos, tendo servido em um dos regimentos prussianos tão bem descritos por John Keegan em seu livro Uma História da Guerra. Ainda jovem, acompanhou os exércitos prussianos em sua invasão à França, quando teve o primeiro contato com o fervor em combate dos revolucionários. Aos 21 anos, entrou para a Kriegsakademie, a escola militar de Berlim, onde estudou Kant e foi pupilo do general Scharnhorst, futuro chefe de estado-maior do exército da Prússia.

Durante a desastrosa campanha que levou à derrota dupla de Jena-Auerstedt, Clausewitz foi feito prisioneiro dos franceses. Libertado, tomou parte na reconstrução da Prússia após a Guerra da Quarta Coalizão, mas quando Napoleão declarou guerra à Rússia - forçando uma Prússia submissa a fazer o mesmo -, Carl von Clausewitz se juntou à Legião Russo-Germânica, testemunhando a primeira grande derrota dos exércitos napoleônicos. Enquanto esteve sob o serviço do Czar, ajudou a negociar a formação de uma aliança entre Prússia, Reino Unido e Rússia; tal coalizão levou à derrota de Bonaparte e posterior exílio.

Depois das Guerras Napoleônicas, Clausewitz foi promovido a Major-General e nomeado diretor da Kriegsakademie, que chefiou até 1830; um de seus alunos nesse período foi Helmut von Moltke, lendário comandante responsável pela vitória na Guerra Franco-Prussiana. No período entre 1818 e 1830, começou suas reflexões sobre a guerra, interrompidas em 1831 por sua morte em meio a uma epidemia de cólera. Seu livro, Vom Kriege, foi publicado postumamente por sua esposa.


Carl von Clausewitz

Tal lançamento sem uma revisão final por parte do autor fez com que surgissem muitas interpretações diferentes do autor. Ao mesmo tempo, Jomini e seus muitos discípulos tentaram conciliar as teses de Clausewitz com seus próprios princípios e máximas, o que levou a uma interpretação superficial. Ao rotularem a obra de Clausewitz como uma “filosofia da guerra” enquanto os derivados jominianos seriam “teóricos”, garantiu-se que a obra do general prussiano só teria suas conseqüências plenamente apreciadas no meio do século XX, com o surgimento do conceito da MAD (Destruição Mútua Assegurada).

A diferença de termos, apesar de oriunda de uma tentativa de negar o valor prático da teoria clausewitziana, expressa o quão distantes são as abordagens. Jomini tentou, através de uma análise histórica, resumir os princípios militares então vigentes em uma série de máximas suficientemente vagas para não serem desmentidas por qualquer mudança mas ainda assim úteis. Clausewitz, um homem do Iluminismo inspirado por filósofos como Kant, adotou uma abordagem dialética para explicar o que é a guerra.

De um lado, ele define a guerra como uma ferramenta política, gerando a célebre frase “A guerra é uma continuação da política por outros meios” (que, no original, dizia “com a entremistura de outros meios”). A antítese dessa idéia é a visão de que a guerra é puramente um duelo entre duas vontades - uma “luta-livre”, para uma analogia mais apropriada. Ao analisar ambas as idéias, chega-se a síntese que constitui um dos principais pontos da abordagem de Clausewitz: a guerra nunca é ilimitada, sendo sempre restrita por objetivos políticos e outros; no entanto, o nível de comprometimento é fator que influencia na vitória ou derrota do conflito.

O objetivo em uma guerra seria desarmar o oponente, ou seja, destruir efetivamente a capacidade do oponente de guerrear. Aí é que entra o comprometimento em uma guerra. Quanto mais determinado o inimigo, mais difícil é de removê-lo do conflito. Isso fica visível na análise que Domício Proença Júnior et al. fizeram em seu Guia de Estudos Estratégicos sobre a guerrilha. Tomemos o exemplo da Guerra do Vietnã. É inegável que os Estados Unidos dispunham de maior capacidade militar que o NVA e o Vietcong, mesmo que tomemos apenas a fração dos recursos militares estadunidenses efetivamente comprometidos com a proxy war. No entanto, por estarem lutando apenas por razões políticas e influenciados pelas informações e listas de mortos transmitidas pela mídia, estavam dispostos a arriscar bem menos em um conflito do que seus inimigos, que, além de lutarem em seu próprio território, combatiam por um ideal.

Um dos principais pontos alegados sobre a suposta incompletude da obra de Clausewitz estaria no fato de que ela é permeada demais pelo modo ocidental de guerrear. Realmente, na cultura ocidental, a guerra subordina-se aos interesses políticos, assim como a religião também se curva perante estes. Mas isso não é sempre válido. Tomemos o exemplo do Japão, em que as formas culturais, muito mais do que as necessidades políticas, modelaram a forma de guerrear. O xogunato Tokugawa, logo após vencer as terríveis guerras civis no século XVI, conseguiu fazer com que o uso de armas de fogo no Japão fosse efetivamente eliminado até a chegada do Comodoro Perry, já na década de 1850. Ao fazê-lo, Tokugawa Ieyasu deu uma sobrevida de três séculos aos samurais e ao modo de vida já institucionalizado, coisa que não aconteceu na Europa.

Para outros, a teoria de Clausewitz se tornou ultrapassada com o início da Guerra Fria. As superpotências da segunda metade do século XX atingiram aquilo que é o objetivo supremo de um Estado clausewitziano: destruir uma imagem especular de si mesmo. Com o advento das armas nucleares, elevava-se o preço de uma guerra de tal modo que apenas formas limitadas de combate seriam possíveis sem a destruição do mundo. Isso não torna a teoria de todo descartável, uma vez que, como visto, ela ainda consegue explicar fenômenos como o terrorismo, mas mostra que Clausewitz não mais é suficiente para explicar a atual forma da guerra.

Eis alguns excertos Da Guerra:

"Os princípios da arte da guerra são extremamente simples em si e estão ao alcance do comum dos mortais. Embora exijam um conhecimento mais especializado na táctica do que na estratégia, a sua variedade e complexidade de forma alguma se comparam às de qualquer outra ciência. Não são necessários conhecimento e estudo aprofundados, nem tão pouco qualidades intelectuais excepcionais. Se quiséssemos salientar uma característica mental especial, para além da capacidade de julgar fundada na experiência, teríamos então de falar na astúcia e na perspicácia. Tem sido sustentado o contrário, quer por causa de uma falsa veneração por este assunto quer por causa da vaidade dos autores que têm escrito sobre ele. Uma reflexão sem preconceitos devia convencer-nos disto, e a experiência apenas cimenta esta nossa convicção. Ainda recentemente, na guerra revolucionária, alguns indivíduos que nunca tiveram acesso a qualquer educação militar específica provaram ser grandes líderes militares, muitas vezes de primeira grandeza. É duvidoso que Condé, Wallenstein, Suworow e muitos outros possuíssem tal formação militar.”

“A condução da guerra é, sem dúvida, muito difícil. Mas a dificuldade não reside na necessidade de se possuir erudição especial ou grande gênio para perceber os princípios básicos da sua condução. Estes princípios estão ao alcance de qualquer pessoa capaz de pensar, desprovida de preconceitos e não totalmente leiga na matéria. A própria aplicação destes princípios básicos nos mapas ou no papel não oferece nenhuma dificuldade e conceber um bom plano de operações não é nenhum bicho-de-sete-cabeças.”

“O livre arbítrio e a alma do chefe militar são então constantemente tolhidos e é necessária uma grande força moral e mental para vencer esta resistência. Muitas idéias válidas morrem à nascença por causa desta fricção. Muitas vezes vemo-nos na contingência de ter de executar, da forma mais simples e despretensiosa, aquilo que, combinado de maneira mais complexa, produziria melhores resultados. Pode ser impossível enumerar exaustivamente as causas desta fricção. De qualquer modo, aqui ficam as principais:

1. No momento em que elaboramos o plano de operações sabemos muito pouco sobre as medidas tomadas pelo inimigo e sobre a sua posição. No momento de executarmos uma decisão somos assaltados freqüentemente por milhares de dúvidas sobre os perigos inerentes a podermos ter cometido um erro quanto aos pressupostos do plano de operações. Apoderar-se-á de nós um sentimento de nervosismo, semelhante ao que invade aqueles que estão prestes a realizar algo de grandioso. Deste nervosismo facilmente podemos passar à indecisão e desta às medidas titubeantes vai um pequeno passo.

2. Não só nos debatemos com a incerteza sobre a força real do inimigo, como todos os rumores (ou seja, todas as notícias que nos chegam através dos postos avançados, de espiões ou casualmente) lhe aumentam a amplitude. A maior parte das pessoas é hesitante por natureza, e assim se explica por que razão elas constantemente exageram o perigo. Todas as influências se combinam então para dar ao chefe militar uma idéia errada da força do inimigo que tem pela frente e aqui reside uma nova fonte de indecisão.

Não devemos dar muita importância a esta indecisão e é preciso prepararmo-nos para ela desde o início.

Depois de termos pensado em tudo antecipadamente e esquematizado sem preconceitos o plano mais plausível, não devemos abandonar de imediato as idéias iniciais. Muito pelo contrário, devemos submeter as informações que nos chegam ao escrutínio da critica avisada, compará-las umas com as outras e tentar obter outras. Deste modo, as informações falsas são muitas vezes desmentidas imediatamente e os primeiros relatórios confirmados. Em ambos os casos, obtemos certezas e, na posse delas, poderemos tomar decisões. Se nos faltarem certezas poderemos dizer para nós próprios que na guerra nada se consegue sem ousadia; que a natureza da guerra não nos permite sempre ver para onde vamos; que o que é provável, será sempre provável, muito embora de momento não o pareça; e que, se tomamos as precauções devidas, não deitaremos tudo a perder por causa de um único erro.

3. A incerteza sobre o estado das coisas num determinado momento não se limita apenas ao conhecimento do inimigo, mas estende-se também ao nosso próprio exército. Só muito raramente é que este pode ser mantido unido, de maneira a que possamos ter uma visão conjunta de todas as suas partes. Se tivermos tendência para nos sentirmos receosos e para hesitar, seremos assaltados por novas dúvidas. Vamos querer esperar e o resultado será o atraso na execução de todo o plano.

Temos, pois, que acreditar que as medidas gerais tomadas produzirão os resultados esperados. O mais importante, neste particular, é a confiança nos subordinados diretos. Conseqüentemente, devemos escolher pessoas em quem possamos confiar e pôr de parte todas as outras considerações. Se tomamos medidas preparatórias adequadas, ter-nos-emos precavido para quaisquer ocorrências desfavoráveis. Se elas acontecerem durante a execução do plano de operações não estaremos desde logo derrotados, tendo apenas que continuar a avançar corajosamente através daquilo que sabemos ser um mar de incertezas.

4. Se quisermos conduzir a guerra com o máximo potencial das nossas forças, os comandantes e mesmo as tropas (especialmente se não estão familiarizadas com a guerra) deparar-se-ão com dificuldades que descreverão como inultrapassáveis. Acharão a marcha demasiado longa, o esforço demasiado grande e o aprovisionamento impossível. Se dermos ouvidos a estas "dificuldades", como Frederico II as designava, em breve sucumbiremos e, em vez de agirmos com determinação e energia, ficaremos reduzidos à fraqueza e à inatividade.

Para combater tudo isto é imperioso termos confiança na nossa inteligência e nas nossas convicções. Na altura poderá parecer teimosia mas, na realidade, trata-se daquela força da mente e do caráter a que devemos dar o nome de firmeza.

(…)

Estas dificuldades na execução das operações requerem auto-confiança e firmeza de convicções. (…) Um sentimento poderoso deve fortalecer o ânimo do líder militar. Seja a ambição de César, o ódio ao inimigo de Aníbal, ou o orgulho numa derrota gloriosa, como com Frederico o Grande."