segunda-feira, 23 de julho de 2012

Como Funcionam os Foguetes

O Princípio da Retropropulsão

O movimento de um foguete é outra aplicação interessante da terceira lei de Newton e do princípio do momento linear. O foguete expele um jato de gases quentes de sua cauda; esta é a força de ação. O jato de gases exerce, por sua vez, uma força sobre o foguete, impelindo-o para frente; é a força de reação. Neste caso, o processo é chamado tecnicamente de retropropulsão, o qual é obtido nos foguetes atuais através da conversão de uma forma de energia em outra num processo químico chamado combustão.

Os motores dos foguetes trabalham utilizando uma mistura de compostos, ou reagentes, químicos. Um propelente é um material cujo consumo pode envolver ou não uma reação química. Ele pode ser um gás, líquido, plasma ou, antes de ocorrer a reação química, um sólido. O termo propelente de foguete é também usado pelo fato de que muitos foguetes também incorporam um oxidante ao seu sistema de combustível. Um motor de foguete pode usar propelente sólido, líquido ou uma mistura de ambos.

Substâncias que possuem a habilidade de “oxidar” outras substâncias são conhecidas como oxidantes, ou agentes de oxidação. Em outras palavras, o oxidante remove elétrons da substância.

Substâncias que têm a habilidade de “reduzir” outras substâncias são chamadas redutores, ou agentes de redução. Ou seja, o redutor transfere elétrons para a substância.

Reações de Redox (oxi-redução) incluem todos os processos químicos nos quais átomos têm seu número de oxidação alterado, como, por exemplo, a combustão do carbono para formar o dióxido de carbono. A palavra redox vem dos conceitos de redução e oxidação. Estes dois termos aparecem juntos, pois numa reação química, qualquer um dos dois não pode ocorrer sem a presença do outro; elétrons perdidos por um composto devem ser ganhos por um outro.

A combustão de propelentes num foguete é um exemplo de reação de redox. Ela é iniciada entre o combustível e o oxidante na câmara de combustão, gerando energia no processo e produzindo um gás aquecido. Este gás sofre expansão, pressionando de forma desigual as paredes da câmara, provocando uma força de reação sobre o foguete. Esta força recebe o nome de empuxo, T, que é definido como:


onde o momento linear do gás, q, é dado por q = m v, sendo m a massa do gás e v a sua velocidade de exaustão. A razão m/t, com t sendo o tempo de combustão dos propelentes é a razão de variação de massa,

Assim, o empuxo é o resultado do desequilíbrio das forças de pressão atuando dentro do motor. Essas forças estão em equilibro radialmente à direção do vetor empuxo, mas não axialmente; a componente do empuxo devida ao momento linear do gás tem origem na força que age sobre a parte superior da câmara de combustão, porém ela não é balanceada por uma força oposta na outra extremidade do motor. Os gases produzidos na reação de combustão são acelerados a velocidades supersônicas por meio de uma tubeira, ou bocal, do tipo convergente-divergente (De Laval), localizada na cauda do foguete. Ao passar pela tubeira, o gás assume a forma de um jato em alta velocidade, mas com pressão e temperatura menores, já que a energia térmica é convertida em energia cinética. A figura 1 apresenta um diagrama esquemático do processo descrito acima.

Figura 1

Uma outra fonte de empuxo é gerada pelo desequilíbrio das forças de pressão normais à seção divergente da tubeira. Na figura 1 vemos a pressão externa (patm) distribuída sobre uma típica câmara de empuxo, também chamada de envelope-motor. Quando essas forças de pressão são somadas, todas elas se anulam, exceto aquelas que atuam diretamente sobre a saída da tubeira, chamada divergente. Combinando os empuxos devidos ao momento linear e à pressão obtemos a equação de empuxo do foguete:


onde ve é a velocidade de exaustão (ejeção) dos gases pela tubeira, po é a pressão no divergente e Ao é a área do divergente.

Velocidade de Propulsão do Foguete

Um foguete pode obter um grande empuxo de duas maneiras: (1) consumindo uma grande quantidade de propelente lentamente ou (2) consumindo uma pequena quantidade de propelente rapidamente. O impulso específico, Isp, é o parâmetro do motor que indica o empuxo obtido pelo consumo de uma determinada quantidade de propelente. Analogamente, podemos dizer que o impulso específico de um sistema de propulsão é o impulso (variação no momento linear) por unidade propelente. Matematicamente:


Dimensionalmente, o impulso específico é dado na unidade de tempo. O significado disto é o seguinte: se um propelente tem um impulso específico de, digamos, 300 segundos, então a combustão de 1kg de propelente produzirá um empuxo de (a) 3kN em 1 segundo de combustão ou (b) 9,81N em 300 segundos de combustão.

Podemos definir a velocidade de propulsão do foguete, V, como sendo:


onde mi é a massa inicial do foguete e mf a massa final do foguete e loge é o logarítimo natural. As massas inicial e final de um foguete estão relacionadas às massas de seus componentes individuais da seguinte maneira:


onde onde mst é a massa do veículo em kg excluindo o propelente e a carga útil, isto é sua massa estrutural, mpr é a massa de propelente necessária em kg e mul é a massa da carga útil, definida como qualquer equipamento, sistema ou ser vivo que desejamos transportar até o espaço para realizar uma missão específica. A razão mi/mf recebe o nome de razão de massa do foguete.

A velocidade de propulsão é determinada no momento do lançamento, quando os reservatórios de propelente do foguete estão cheios. Se a ação da gravidade não tivesse efeito sobre o veículo, e este não consumisse seus reservatórios, aquela seria a velocidade de vôo. Entretanto, à medida que os propelentes são queimados, o peso do foguete torna-se menor, significando que o peso que o motor deve impulsionar é cada vez menor. Como resultado, temos que a aceleração do veículo aumenta gradativamente a partir do lançamento. Neste caso, se também pudéssemos eliminar a massa estrutural, poderíamos atingir uma grande velocidade final de propulsão. De fato, esta eliminação de peso pode ser conseguida durante o vôo, através de uma técnica denominada separação de estágios (staging).

Um foguete multiestágios consiste, geralmente, em um certo número de foguetes acoplados uns sobre os outros que são descartados seqüencialmente à medida que seus propelentes são consumidos. Assim, cada estágio inicia seu movimento com uma velocidade inicial igual à velocidade final do estágio anteriormente descartado. Exemplos de foguetes multiestágios são mostrados na figura 2.

Figura 2

Os satélites artificiais são colocados em órbita da Terra com a ajuda de foguetes multiestágios. O lançamento de um satélite ou espaçonave consiste em uma fase propulsiva (powered flight), na qual a carga é elevada acima da atmosfera e acelerada à velocidade orbital pelo foguete lançador. Esta fase é encerrada com o acionamento, ou ignição (burnout), do último estágio do veículo e separação da coifa, ou cone, principal quando tem início, então, o vôo inercial (free flight). Nesta fase do vôo, o satélite e seu conjunto de motores estão submetidos, numa primeira aproximação, à força gravitacional da Terra apenas. À medida que ele se afasta da superfície, contudo, sua trajetória é afetada pela atração de outros corpos celestes, como o Sol e a Lua. Uma representação esquemática do lançamento de um satélite por um foguete de dois estágios é mostrada na figura 3.

Figura 3


O foguete é impulsionado durante as fases de lançamento e de propulsão. Entretanto, é nesta última fase, com duração de apenas alguns minutos, que a orientação do vetor empuxo deve ser controlada por seu sistema de guiamento. O objetivo principal de um sistema de controle em um foguete é estabelecer ações de controles sobre ele, através da determinação de seus parâmetros de vôo, de modo que ele possa se deslocar segundo uma certa trajetória, consumindo um mínimo de energia de seu sistema de propulsão e permitindo a colocação de sua carga útil em órbita. A atitude, ou direção de vôo, do veículo é controlada em relação a três eixos principais: vertical, lateral e longitudinal, todos perpendiculares entre si e mostrados na figura 4. O vertical é chamado de eixo de guinada, o lateral de eixo de arfagem e o longitudinal de eixo de balanço, ou rolamento. Se o foguete tiver de permanecer estabilizado segundo uma certa trajetória, dispositivos em seu interior devem ser capazes de detectar, medir e corrigir erros de guinada e arfagem no sentido de manter o nariz do foguete sempre apontado para a direção da trajetória.



Figura 4

Tipos de Motores

Um motor de foguete a propelente líquido é geralmente concebido para fornecer um empuxo constante e, portanto, operar com pressão na câmara de combustão fixa. Os foguetes que utilizam sistemas de propulsão a propelentes líquidos são formados pelos seguintes componentes: (i) uma ou mais câmaras de empuxo, (ii) sistema de alimentação de propelentes e (iii) sistema de controle. O objetivo do sistema de alimentação, ou escoamento, é a transferência dos propelentes de seus reservatórios para a câmara de combustão. Basicamente, há dois modos principais de realizar tal tarefa, mostrados nas figuras 5(a) e 5(b).


Figura 5a


Figura 5b


No sistema alimentado por pressão (a), os propelentes são empurrados em direção da câmara por um gás inerte (p. ex., hélio) sob alta pressão. O empuxo obtido por um tal sistema é determinado pelo nível de escoamento de propelente controlado pelo dispositivo regulador de pressão do gás. Para empuxos pequenos (4,5-4.500 N) e de curta duração (10ms), como acontece nos foguetes de manobra, este sistema é o mais recomendado. No sistema alimentado por turbobombas (b), os propelentes são direcionados para a câmara através de bombas, cuja função é aumentar a pressão dos propelentes. Gases aquecidos são produzidos pelo redirecionamento de uma parte dos propelentes até um gerador em separado, que consiste em uma pequena câmara, onde sofrem combustão. Em geral, a bomba e a turbina são montadas juntas formando um conjunto chamado turbobomba. Este sistema é recomendado para empuxos grandes e de longa duração.

O foguete a propelente sólido, conhecido como SRM (Solid Rocket Motor), constitui um sistema relativamente simples, como se vê pela figura 6.

Figura 6


Um SRM típico consiste dos seguintes elementos:

1. Ignitor

• Dispositivo responsável pelo fornecimento de energia suficiente para o início da combustão do propelente sólido.

2. Envelope-Motor

• Vazo de pressão que contém o propelente sólido e retém a pressão de combustão.

• É fabricado de titânio, ligas de alta resistência ou fibra de vidro bobinada.

3. Saia de Empuxo

• Conecta o envelope-motor à estrutura do foguete.

• Transfere a carga de empuxo para o veículo.

4. Grão

• Contém combustível e oxidante granulados presos a uma matriz aglutinante de borracha.

• Combustíveis típicos: metais pulverizados.

• Oxidantes típicos: perclorato de amônia e nitrato de amônia

• Aglutinante típico: polibutadieno

5. Câmara de Combustão

• É um orifício de escape para os gases provenientes da queima do propelente.

• O propelente, quando ignitado, queima de maneira homogênea, contínua e controlada.

• Fornece a área superficial para a combustão do propelente; quanto maior a área, maior a pressão da câmara e o nível de empuxo.

• O formato da câmara (estrela, cilíndrico, etc.) determina a área de queima durante o tempo de combustão.

6. Tubeira

• Controla a expansão dos gases provenientes da câmara.

• É fabricada de materiais resistentes ao calor e à corrosão, como carbono/carbono e carbono fenólico.

• Os principais parâmetros são: razão de expansão e meio-ângulo de cone.

7. Isolante Interno

• Protege o envelope-motor das altas temperaturas de combustão.

• Possui baixa condutividade térmica para reduzir transferência de calor para a estrutura do veículo.

• É formado por material ablativo, o qual dissipa o calor.

O conceito de foguete a propelente híbrido, ou seja, aquele que utiliza uma combinação dos propelentes sólido e líquido, surgiu na década de 1930 na Alemanha. Este tipo de motor trabalha com oxidantes líquidos e combustíveis sólidos. O arranjo do grão é similar ao de um foguete a propelente sólido; entretanto, nenhuma combustão acontece diretamente sobre a superfície daquele em virtude da falta do oxidante. Ao invés disso, o combustível é aquecido, decomposto e vaporizado, de modo que é o vapor liberado que reage com o oxidante líquido, porém longe da superfície do grão. O flúor líquido, o peróxido de hidrogênio, o trifluoreto de cloro e o tetraóxido de nitrogênio podem ser utilizados como oxidantes, enquanto que os combustíveis mais recomendados são os hidrocarbonetos sólidos, o alumínio em pó e o metal híbrido do berílio.

Unidades de Medida:
  • Força: newton (N)
  • Velocidade: metros por segundo (m/s)
  • Massa: quilograma (kg)
  • Tempo: segundo (s)

Fonte:

Propulsão e Controle de Veículos Aeroespaciais, Emerson F. C. Paubel, EDUFSC, 2002.

domingo, 22 de julho de 2012

O Império do Petróleo de Obama

Michael T. Klare, 21/06/2012


À medida que a guerra global de sua administração contra os terroristas, insurgentes e ditadores hostis torna-se mais popularmente conhecida - uma guerra que envolve uma mistura de ataques de aviões-robôs, operações camufladas e assassinatos selecionados pelo presidente - o presidente Obama está sendo comparado ao presidente George W. Bush em seu apetite por ação militar. "Como mostrado pela sua campanha gradativamente crescente dos aviões-robôs," escreveu Aaron Miller, um conselheiro de seis secretários de Estado, para o Foreing Policy, "Barack Obama tornou-se um George W. Bush com anabolizante."

Quando o assunto é política energética internacional, contudo, não é Bush, mas seu vice-presidente, Dick Cheney, que tem fornecido o modelo para o presidente. Como os atuais eventos têm demonstrado, as políticas energéticas de Obama a nível mundial ostentam uma semelhança estranha com as de Cheney, especialmente no modo como ele tem se engajado na geopolítica do petróleo como parte de uma luta global americana pelo domínio futuro entre as principais potências.

Mais do que outros altos funcionários da administração Bush - muitos dos quais com experiência na indústria petrolífera - Cheney focou no papel da energia na política de poder global. De 1995 a 2000, ele trabalhou como presidente do conselho e executivo-chefe da Halliburton, uma grande fornecedora de serviços para a indústria petrolífera. Logo após assumir como vice-presidente, ele foi convidado por Bush para esboçar uma nova estratégia nacional que tem governado a política americana desde então.

Desde cedo, Cheney concluiu que o fornecimento global de energia nãoestava crescendo o suficiente para satisfazer a demanda mundial crescente, e que o controle de segurança sobre as reservas de gás natural e petróleo remanescente seria portanto uma tarefa essencial de qualquer Estado buscando adquirir ou reter uma posição de destaque globalmente. Ele igualmente compreendeu que a elevação de uma nação na predominância seria frustrada ao lhe ser negada fontes de energia essenciais. Assim como o carvão foi o arquiteto do Império Britânico, o petróleo foi, para Cheney, uma fonte crítica pela qual seria algumas vezes necessário ir à guerra.

Mais do que qualquer um de seus pares, Cheney articulou tais visões sobre a importância da energia para a riqueza nacional e poder. "O petróleo é único e estratégico por natureza," ele disse a uma plateia em uma conferência da indústria em Londres em 1999. "Não estamos falando de sabão em pó ou roupas da moda aqui. Energia é verdadeiramente fundamental para a economia mundial. A Guerra do Golfo foi uma reflexão daquela realidade."

A referência de Cheney à Guerra do Golfo de 1990-1991 é particularmente reveladora. Durante aquele conflito, ele era o secretário da defesa e portanto supervisionou o esforço de guerra americano. Mas enquanto seu chefe, o presidente George H.W. Bush, descartou o papel do petróleo na luta contra o Iraque, Cheney não fez segredos de sua crença que a geopolítica energética estava no coração do assunto. "Uma vez que (o autocrata iraquiano Saddam Hussein) conquistou o Kwait e deslocou um exército tão grande quanto o que ele possui," disse Cheney ao Comitê das Forças Armadas do Senado quando perguntado sobre a justificativa da decisão da administração para intervir, "ele claramente estava em posição de ditar o futuro da política energética mundial, e aquilo deu-lhe um estrangulamento em nossa economia."

Esta seria exatamente a mensagem que ele deu em 2002, como o segundo presidente Bush justificou a invasão do Iraque. Se Saddam Hussein seria bem sucedido em adquirir armas de destruição em massa, Cheney disse a um grupo de veteranos naquele 25 de agosto, "(ele) poderia então buscar o domínio de todo o Oriente Médio (e) tomar o controle de uma grande parte das reservas de energia mundiais."

Para Cheney, a geopolítica do petróleo reside no coração das relações internacionais, grandemente determinando o surgimento e a queda das nações. Disto, seguiu-se que quaisquer passos, inclusive guerra e devastação ambiental, estariam justificadas já que elas aumentariam o poder da América às custas de seus adversários.

O Mundo de Cheney

Através de seus discursos, testemunho no Congresso e ações em serviço, é possível reconstruir o plano geopolítico que Cheney perseguiu em sua carreira como estrategista senior da Casa Branca - um plano que o presidente Obama, estranhamente, parece estar implementando, apesar dos muitos riscos envolvidos.

O plano consiste de quatro pontos principais:

1. Promover a produção doméstica de petróleo e gás a qualquer custo para reduzir a dependência da América de fornecedores estrangeiros duvidosos, assim aumentando a liberdade de ação de Washington.

2. Manter o controle do fluxo de petróleo do Golfo Pérsico (mesmo se os EUA diminuírem sua participação de suas fontes de petróleo próprias da região) no sentido de reter um "estrangulamento econômico" sobre a maioria dos importadores de petróleo.

3. Dominar as rotas marítimas da Ásia, de modo a controlar o fluxo de petróleo e outras matérias-primas para os adversários econômicos potenciais da América, China e Japão.

4. Promover a "diversificação" energética na Europa, especialmente através da dependência crescente das reservas de petróleo e gás das antigas repúblicas soviéticas do Mar Cáspio, para reduzir a alta dependência da Europa do petróleo e gás russos, além da influência política de Moscou que isto acarreta.

O primeiro objetivo, aumentar a dependência no gás e petróleo domésticos, foi detalhada na Política de Energia Nacional, a estratégia de Cheney para a energia entregue para o presidente em maio de 2001, em consulta íntima com os representantes das gigantes do petróleo. Apesar de ser muito conhecido por sua defesa da exploração em terras federais, incluindo o Refúgio de Vida Selvagem Nacional do Ártico, o Relatório Cheney (como ele acabou se tornando conhecido) focou grandemente na ameaça do crescimento da dependência dos EUA em fornecedores estrangeiros de petróleo e a necessidade de alcançar maior "segurança de energia" através de um programa acelerado de exploração das fontes de energia domésticas.

"Um objetivo primário da Política de Energia Nacional é adicionar fornecimento de diversas fontes," o relatório declarou. "Isto significa petróleo, gás e carvão domésticos. Ela também significa poder hidroelétrico e nuclear." O plano clamava por um aumento da dependência dos EUA em fontes amigas de energia no hemisfério ocidental, especialmente o Brasil, Canadá e México.

O segundo objetivo, o controle sobre o fluxo de petróleo no Golfo Pérsico, foi, para Cheney, a principal razão tanto para a Primeira Guerra do Golfo quanto para a invasão do Iraque em 2003. Apesar de antes da invasão o presidente e outros altos funcionários focarem nas supostas armas de destruição em massa de Saddam Hussein, seus registros de violação dos direitos humanos e a necessidade de levar a democracia para o Iraque, Cheney nunca escondeu sua crença que o objetivo básico era garantir que Washington controlasse a jugular de petróleo do Oriente Médio.

Após a queda de Saddam e a ocupação do Iraque começar, Cheney estava especialmente sendo sincero em sua insistência que o Irã deveria ser prevenido, pela força das armas se necessário, de desafiar a proeminência americana no Golfo. “Manteremos as rotas marítimas abertas,” ele declarou do deque de um porta-aviões durante manobras próximas à costa do Irã em maio de 2007. “Ficaremos ao lado de outros para prevenir que o Irã consiga armas nucleares e domine a região.”

Cheney também se deteve em outra forma de garantir o controle sobre as rotas marítimas a partir do Estreito de Hormuz, na boca do Golfo Pérsico (a partir do qual 35% do petróleo refinado do mundo circula diariamente) ao longo do Oceano Índico, pelo Estreito de Malacca e em direção dos mares do sul e leste da China. Até agora, estes corredores marítimos permanecem essenciais para a sobrevivência econômica da China, Japão, Coréia do Sul e Taiwan, transportando petróleo e outras matérias primas para suas indústrias e levando bens fabricados nesses países para o mercado mundial. Mantendo o controle dos EUA sobre estas passagens vitais, Cheney acreditava garantir a lealdade dos aliados-chaves asiáticos contra a ascensão da China. Ao perseguir estes objetivos geopolíticos clássicos, ele forçou uma presença naval americana na região Ásia-Pacífico e o estabelecimento de uma rede de alianças militares unindo Japão, Austrália e Índia, tudo objetivando deter a China.

Finalmente, Cheney acreditava poder colocar as rédeas em outra grande potência rival da América, a Rússia. Enquanto seu chefe, George W. Bush, falava do potencial para cooperação com Moscou, Cheney, ainda um velho combatente da Guerra Fria, via a Rússia como um competidor geopolítico e perseguia toda oportunidade para diminuir seu poder e influência. Ele particularmente temia que a crescente dependência da Europa do gás natural russo poderia minar sua resolução de resistir às agressivas investidas russas na Europa Oriental e no Cáucaso.

Para contrabalançar esta tendência, Cheney tentou convencer os europeus para obter mais de sua energia das reservas do Mar Cáspio construindo novas redes de tubulações para aquela região via Georgia e Turquia. A ideia era pular a Rússia, alcançando o Azerbaijão, Kazaquistão e o Turquemenistão para exportar seu gás através dessas linhas, nenhuma delas pertencentes à Gazprom, o monopólio estatal russo. Quando a Georgia ficou sob ataque das forças russas em agosto de 2008, após as tropas georgianas protegerem o enclave pró-Moscou da Ossétia do Sul, Cheney foi o primeiro alto funcionário americano a visitar Tibilisi, levando a promessa de uma assistência de U$ 1 bilhão para assistência à reconstrução, assim como uma oferta de entrada rápida na OTAN. A França e a Alemanha bloquearam a iniciativa, temendo que Moscou pudesse responder com ações que poderiam desestabilizar a Europa.

Obama como Cheney

Este plano de quatro partes, implacavelmente perseguido por Cheney enquanto era vice-presidente, está agora sendo implantado em todo aspecto pelo presidente Obama.

Quando entra em questão a independência energética, Obama abraça a orientação ultra-nacionalista do relatório de 2001 de Cheney, com seu apelo para a dependência no petróleo e gás natural do hemisfério ocidental, não importando os perigos de explorar áreas marítimas frágeis em termos ambientais ou o uso de técnicas perigosas como a fratura hidráulica (N.do T.: técnica de extração de petróleo injetando fluido pressurizado criando fraturas nas formações de rochas). Em discursos recentes, ele afirmou os esforços de sua administração para facilitar a perfuração crescente de petróleo e gás no país e prometeu acelerar a extração em novos locais, incluindo a costa do Alasca e o Golfo do México.

“Nos últimos três anos,” ele afirmou em seu discurso do Estado da União em janeiro, “abrimos milhões de novos acres para exploração de petróleo e gás, e hoje à noite, estou ordenando que minha administração abra mais de 75% de nossos recursos marítimos potenciais de petróleo e gás. Exatamente agora – agora – a produção de petróleo americana é a mais alta do que foi há oito anos atrás... Não somente isto, ano passado dependemos menos de petróleo estrangeiro em relação aos últimos 16 anos.” Ele falou com particular entusiasmo sobre a extração de gás natural por meio da fratura de depósitos de xisto: “Temos uma fonte de gás natural que pode durar cerca de 100 anos. E minha administração fará todo o possível para desenvolver esta energia.”

Obama também tem tornado público seu desejo de aumentar a dependência americana da energia no hemisfério ocidental, diminuindo assim a dependência de fornecedores não confiáveis e não simpáticos no Oriente Médio e África. Em março de 2011, com a Primavera Árabe ganhando força, ele viajou ao Brasil por cinco dias para assuntos de negócios, um pivô energético geopolítico notado na época. Aos olhos de muitos observadores, o foco de Obama no Brasil estava inexoravelmente ligado à ascensão do país como principal produtor de petróleo, graças às novas descobertas nos campos do pré-sal próximos da costa, nas profundezas do oceano atlântico, descobertas que poderiam ajudar os EUA a ficar menos dependentes do petróleo árabe, mas em compensação criar pesadelos na poluição ambiental. Apesar dos ambientalistas terem alertado dos riscos de perfurar nos campos do pré-sal, onde o risco de algo como a Deepwater Horizon está sempre presente (N. do T.: plataforma de petróleo no Golfo do México que explodiu em 2010, provocando um dos maiores desastres ecológicos da história), Obama não fez segredos de suas prioridades geopolíticas. “Pelas estimativas, o petróleo que vocês descobriram recentemente na costa brasileira poderia somar o dobro das reservas que temos nos EUA,” ele disse a líderes empresariais brasileiros na capital do país. “Quando vocês estiverem preparados para iniciar a venda, queremos ser um dos melhores compradores. Numa época quando somos lembrados de como a instabilidade em outras partes do mundo podem afetar o preço do petróleo, os Estados Unidos não poderiam estar mais felizes com o potencial de uma nova e estável fonte de energia.”

Simultaneamente, Obama deixou claro que os EUA manterão seu papel de guardião das rotas marítimas do Golfo Pérsico. Mesmo alardeando a retirada das forças militares americanas do Iraque, ele insistiu que os Estados Unidos encorajarão suas forças de operação aéreas, navais e especiais na região do Golfo, de modo a manter o poder militar total lá. “De Volta para o Futuro,” é como o General de Divisão Karl R. Horst, chefe de staff do Comando Central dos EUA descreveu a nova postura, referindo-se à época antes da Guerra do Iraque, quando os EUA praticavam o domínio na região principalmente por sua superioridade naval e aérea.

Apesar de menos evidente do que “botas no chão”, a presença aérea e naval expandida será mantida forte o suficiente para superar qualquer adversário concebível. “Teremos uma presença contínua robusta nesta região,” declarou a Secretária de Estado Hillary Clinton em outubro último. Tal crescimento tem sido, de fato, acentuado, na preparação igualmente plausível de um ataque contra as instalações nucleares iranianas tanto no caso de Obama concluir que as negociações para dissuadir as atividades de enriquecimento iranianas atingiram um ponto de estagnação, ou para liberar o Estreito de Hormuz, se os iranianos ameaçarem bloquear o transporte de petróleo em retaliação pelas duras sansões econômicas a serem impostas a partir de 1º. de julho.

Como Cheney, Obama também procura garantir o controle americano sobre as rotas marítimas vitais estendendo-se do Estreito de Hormuz até o mar do sul da China. Isto é, de fato, o coração da política “pivô” muito alardeada de Obama para a Ásia e sua nova doutrina militar, primeiro revelada em um discurso para o Parlamento australiano em 17 de novembro. “Como planejamos e preparamos para o futuro,” ele declarou, “alocaremos os recursos necessários para manter nossa presença militar forte nesta região.” Uma prioridade principal deste esforço, ele indicou, seria melhorar a “segurança marítima”, especialmente no mar do sul da China.

Central para o plano de Obama – como aquele avançado por Dick Cheney em 2007 – é a construção de uma rede de bases e alianças cercando a China, a potência emergente global, em um arco desenhado do Japão e Coréia do Sul, passando pelo norte da Austrália, Vietnã e Filipinas no sudeste e fechando na Índia no sudoeste. Ao descrever seu esforço em Canberra, Obama revelou que ele havia acabado de concluir um acordo com o governo australiano para estabelecer uma nova base militar americana em Darwin, na costa norte do país, próximo ao mar do sul da China. Ele também falou do objetivo último da geopolítica americana: uma coalizão regional de estados anti-chineses que incluiria a Índia. “Vemos o aumento da presença americana ao longo da Ásia meridional,” ambos em laços fortes com as potências locais como a Austrália e “em nossa recepção da Índia já que ela ‘parece oriental’ e tem um papel importante como potência asiática.”

Como qualquer um que segue os assuntos asiáticos está ciente, uma estratégia de encurralar a China – especialmente uma que pretende incorporar a Índia à aliança asiática da América – certamente produzirá alarme e resposta de Pequim. “Não acho que eles ficarão contentes,” disse Mark Valencia, um pesquisador sênior no Escritório Nacional de Pesquisa Asiática, falando da reação da China. “Não estou otimista em relação como as coisas estão caminhando.”

Finalmente, Obama seguiu os passos de Cheney em seus esforços para reduzir a influência da Rússia na Europa e na Ásia Central ao promover a construção de uma nova rede de tubulações do Cáspio via Georgia e Turquia para a Europa. Em 5 de junho, na Conferência de Gás e Petróleo Caspiano em Baku, o presidente Ilham Aliyev do Azerbaijão leu uma mensagem de Obama prometendo o apoio de Washington para a linha de gás trans-Anatólia proposta, uma passagem projetada para transportar gás natural do Azerbaijão através da Georgia e Turquia para a Europa – dando a volta pela Rússia, naturalmente. Simultaneamente, a Secretária de Estado Clinton viajou para a Georgia, como Cheney fez, para reafirmar o apoio dos EUA e oferecer aumento da ajuda militar. Como durante a era Bush-Cheney, estes movimentos estão sendo feitos para serem vistos por Moscou como parte de um plano calculado de diminuir a influência da Rússia na região – e estão certos de obter uma resposta hostil.

Em virtualmente qualquer aspecto, então, quando entra em jogo a geopolítica energética, a administração Obama continua a executar o plano estratégico estabelecido por Dick Cheney durante as duas administrações Bush. O que explica este comportamento surpreendente? Assumindo que ele não representa um esforço literal para reproduzir o pensamento de Cheney – e não há nenhuma evidência disso – ele representa claramente o triunfo da geopolítica imperial (e do pensamento mesquinho) sobre a ideologia, princípio, ou mesmo aceitação simples de novas ideias.

Quando você tem duas figuras diferentes como Obama e Cheney perseguindo os mesmos objetivos no mundo – e a primeira vez foi tudo menos sucesso – é um sinal de quão fechado e sufocado o mundo de Washington tornou-se. Numa época em que a maioria dos americanos estão cansados das grandes cruzadas ideológicas, a perseguição do que parece ser simples interesse nacional – na forma de fontes de energia garantidas – pode parecer muito mais atraente como uma forma de razão para o envolvimento militar e político no estrangeiro.

Além disso, Obama e seus conselheiros sem dúvida alguma estão influenciados pela conversa de uma nova “era de ouro” do gás e petróleo norte-americanos, tornada possível pela exploração de depósitos de xisto e outras fontes não convencionais – e geralmente poluidoras -de energia. De acordo com projeções do Departamento de Energia, a dependência americana em energia importada está declinando para os próximos anos (apesar de haver um preço interno a ser pago por tal “independência”), enquanto a da China somente crescerá – uma vantagem geopolítica aparente para os EUA que Obama parece celebrar.

É muito fácil agarrar o apelo de tal geopolítica energética para os estrategistas da Casa Branca, especialmente dado o estado lastimável da economia americana e da utilidade declinante de outros instrumentos de poder nacional. E se você está preparado para fazer vista grossa aos riscos ambientais crescentes da dependência do petróleo marítimo, gás de xisto e outras formas de energia não convencionais, aumentar o estoque de energia dos EUA possui certas vantagens geopolíticas. Mas como a história sugere, engajar-se em confrontos geopolíticos globais com outros concorrentes bem armados geralmente leva a crises de atrito, guerra e desastre.

Neste caso, as manobras geopolíticas de Cheney nos levou a duas guerras custosas no Oriente Médio e aumentou as tensões com a Rússia e a China. O presidente Obama tagarela que ele busca construir um mundo mais pacífico, mas ao copiar o plano energético de Cheney está para produzir justamente o oposto.

http://www.theamericanconservative.com/articles/obamas-empire-of-oil/

Tópico Relacionado:

Por que os EUA invadiram o Iraque?

http://epaubel.blogspot.com.br/2012/06/por-que-os-eua-invadiram-o-iraque.html


sábado, 21 de julho de 2012

[HOL] O Relato do Holocausto de um Historiador Polonês divide seus Compatriotas

Marc Parry

The Chronicle, 25 de junho de 2012

 
Na área do antigo campo de extermínio de Treblinka, membros da milícia polonesa junto com populares vasculham uma cova em busca de pertences de judeus mortos.
 
 
A maioria dos historiadores acadêmicos trabalha na obscuridade. Mas na Polônia ano passado, um pequeno volume de um professor de Princeton sobre a história do Holocausto tornou-se um Best seller controvertido. A editora, Znak, viu sua caixa de correio eletrônico bombardeada, seus negócios ameaçados por boicote e a área de seu escritório pichada. Em uma coletiva de imprensa, a diretora executiva da editora se opôs ao livro e pediu desculpas aos leitores ofendidos.

Tal é a personalidade magnética de Jan T. Gross, de quem um crítico polonês chamou de “um vampiro da historiografia.” O último livro do Sr. Gross, publicado em inglês pela Oxford University Press, investiga um assunto sensível: como os poloneses participaram da pilhagem e assassinato dos judeus “na periferia do Holocausto.”

Seu título, Colheita de Ouro (Golden Harvest, em tradução livre), parte de uma fotografia de capa supostamente mostrando camponeses poloneses escavando uma cova contendo os restos de vítimas mortas em Treblinka, onde 800.000 judeus foram gaseados e cremados, procurando por ouro ou outros objetos de valor desprezados pelos nazistas.

De lá, o sr. Gross narra eventos além do arame farpado dos campos de extermínio nazistas. Ele descreve os poloneses caçando judeus, extorquindo dinheiro deles, massacrando-os e lucrando ao roubar-lhes seus empregos e propriedade. Cerca de 3,3 milhões de judeus viviam na Polônia antes da guerra começar, e cerca de 90% deles pereceram ao seu final.

“Havia um sentimento de satisfação que era muito disseminado que eles estavam sendo eliminados da economia e vida social polonesa,” diz o Sr. Gross em uma entrevista por telefone da Cracóvia, onde ele está dando um curso de férias para estudantes de Princeton. “Quando aparecia uma oportunidade, um grande número de poloneses participava da vitimização de judeus.”

A Colheita de Ouro, escrito com Irena Grudzinka Gross, a ex-esposa do autor, aborda um tema familiar. O livro de 2001 do Sr. Gross, Vizinhos (Neighbors, Princeton University Press), obrigou os poloneses a reconhecer sua história pela reconstrução de um massacre em 1941 na pequena cidade de Jedwabne. Quase todos os seus judeus foram mortos em apenas um dia – cerca de 1.600 pessoas esfaqueadas, surradas e queimadas vivas em um celeiro. O Sr. Gross descobriu que foram poloneses que cometeram este crime contra seus vizinhos e não os nazistas, que foram responsabilizados na história oficial polonesa.

A controvérsia tornou “Jedwabne” em uma palavra comum na Polônia. Lech Walesa, ícone anti-soviético e mais tarde presidente da Polônia, disseminou que o Sr. Gross era “um escritor medíocre... um judeu que tenta ganhar dinheiro.”

Notoriedade em Casa

O sr. Gross nasceu na Polônia, em 1947, de mãe cristã e pai judeu. Como estudante universitário em 1968, ele protestou contra os comunistas e acabou na prisão. Ele conseguiu fugir da Polônia, conseguindo seu Ph.D. em sociologia na Universidade de Yale e mais tarde transferiu-se para os departamentos de ciência política e história.

O escritor nova-iorquino de cabelos grisalhos, 64, aproveita um nível de notoriedade em seu país natal que nenhum historiador americano possui. Quando boatos saem que ele está escrevendo um novo livro, ansiedade espalha-se sobre qual lavação de roupa suja ele fará desta vez. Seus escritos são discutidos na TV.

O Sr. Gross “polariza a opinião pública provavelmente mais do que qualquer outra pessoa fora do mundo político,” diz Jan Grabowski, um historiador do Holocausto que divide seu tempo entre a Universidade de Ottawa e a Polônia.

Seus livros causam alvoroço porque questionam a narrativa nacional de que a Polônia é exclusivamente uma vítima da história, e não participante dos crimes.

O presidente Obama recentemente experimentou a sensibilidade deste tópico em primeira mão quando sua referência a “um campo de extermínio polonês” causou uma confusão diplomática, com os irados poloneses protestando de que foram os nazistas que ergueram os campos em suas terras.

O povo polonês experimentou a Segunda Guerra Mundial como uma tragédia ao trazer os horrores das ocupações nazista e soviética. Em 1940, a polícia secreta soviética executou pelo menos 25.000 poloneses e os enterrou em covas coletivas nas florestas próximas a Katyn e arredores. Enquanto isso, pelo menos 1,9 milhões de civis poloneses não-judeus morreram nas mãos alemãs durante a Segunda Guerra Mundial . Os nazistas invasores aterrorizaram as esferas intelectual e política polonesas, matando aquelas elites e enviando-as para os campos de concentração. Quando rebeldes se revoltaram no Levante de Varsóvia de 1944, as forças alemãs transformaram em pó a capital polonesa.

“E de repente, eis que surge Gross, que diz... não caminhamos na água,” explica o sr. Grabowski (N.do.T: referência a Jesus) . “E havia três milhões de nossos cocidadãos que foram mortos em nosso solo – e vamos ver quais as reações polonesas. Qual foi a participação, ou o papel, de nossos pais, mães e avós? Isto é algo que atinge no coração a crença nacional na inocência... Ele foi o único que liberou esta bagunça fedorenta no ar.”

Depois que Vizinhos apareceu, uma investigação governamental de dois anos praticamente confirmou o relato do Sr. Gross. Mas ele continuou enfiando seu dedo nos olhos poloneses. Em 2006, ele publicou Medo: Anti-Semitismo na Polônia após Auschwitz (Fear: Anti-Semitism in Poland After Auschwitz ). O livro acusa os poloneses de perseguir os judeus que sobreviveram ao Holocausto, focando em um pogrom de 1946 em Kielce que foi realizado após o desaparecimento de um menino de 8 anos.

Em resposta, o arcebispo da Cracóvia culpou a editora do Sr. Gross de acordar “os demônios do anti-polonismo e do anti-semitismo,” de acordo com o The Washington Post. Promotores poloneses anunciaram que eles estavam considerando acusações contra o Sr. Gross por “castigar a nação polonesa,” uma ofensa que acarreta na sentença de prisão máxima por três anos. Eles jamais levaram o caso adiante, mas durante este período, o Sr. Gross teve que se disfarçar na rua para esconder sua identidade.

Estória em uma Fotografia

A fotografia que inspirou o novo livro do Sr. Gross foi um resultado acidental daquela controvérsia. Após ele lembrar da prática de escavar por objetos valiosos nos restos em Treblinka, jornalistas poloneses viajaram para a área entrevistar os locais na vizinhança do campo. Em 2008, a Gazeta Wyborcza, o maior jornal da Polônia, publicou um artigo sobre a escavação, ilustrado por uma foto incrível adquirida de um habitante que costumava administrar o museu de Treblinka.

“Fiquei absolutamente atordoado com esta foto,” diz Sr. Gross. “Ela exemplifica uma combinação de assassinatos e pilhagem que caracteriza a atitude das sociedades europeias em relação aos judeus durante a época da guerra.”

(N. do T.: o escritor Elie Wiesel comentou sobre a pilhagem dos pertences dos judeus húngaros em seu livro A Noite: “A cidade parecia deserta. Mas, por detrás de suas persianas, nossos amigos de ontem esperavam, sem dúvida, o momento de pilhar nossas casas.” (pág. 29, Ediouro, 2001)

A fotografia fora de foco, aparentemente tirada na metade dos anos 1940, evoca uma clássica cena: “um grupo de camponeses na época da colheita após o trabalho, descansando contentes com suas ferramentas diante de uma pilha de corpos,” citando a abertura de Colheita de Ouro. Um olhar mais próximo revela o que repousa diante deles: “crânios e ossos.” Significa que eles estavam escavando por objetos valiosos entre os restos das vítimas do Holocausto.

Isto, de qualquer forma, é como o Sr. Gross interpreta. Outros levantam dúvidas. Konstanty Gebert, um colunista da Gazeta Wyborcza, chama a imagem de controversa. “A foto representa escavadores ou pessoas que estavam coletando restos humanos para arranjo futuro,” ele disse para o The Jewish Daily Forward ano passado. Martyna Rusiniak-Karwat, uma historiadora da Universidade de Varsóvia, disse ao jornal, “Jan Gross usou a foto como evidência primária. Sabemos pouco sobre sua origem.”

(N. do T.: de fato, não se pode tirar conclusões definitivas a partir de uma foto.)

O Sr. Gross tem consciência de que muito é desconhecido sobre a fotografia. Mas ele descreve que tais escavações no pós-guerra eram comuns, e amplamente documentadas. Em Colheita de Ouro, ele cita um escritor que visitou Treblinka em 1945 com uma delegação organizada para investigar os crimes nazistas. Ela descreve saqueadores carregando pás em todos os lugares e se refere à “Corrida ao Ouro de Treblinka.”

A afirmação de que as pessoas da foto estariam simplesmente limpando a área não tem fundamento, para o sr. Gross. Por anos ninguém tentou preservar Treblinka, uma atitude que foi parte de um abandono generalizado no pós-guerra deste sítios, o que faz o Sr. Gross chamá-lo de “escandaloso”. Não foi somente no final dos anos 1950 e 1960 que esforços foram feitos para preservar os antigos campos de concentração, ele diz.

De qualquer forma, o conto do Sr. Gross espalha mais terra ao invés de escavar.

Ele descreve como as vilas próximas dos campos de concentração lucravam com negócios com os guardas do campo, que estavam com os bolsos cheios de dinheiro e objetos valiosos.

Ele fala como judeus tentando escapar da deportação das cidades foram saqueados por schmaltzowniks onipresentes, chantagistas que extorquiam dinheiro deles em troca do silêncio sobre seus esconderijos.

Ele escreve como os judeus escondendo-se no interior foram denunciados e assassinados porque cidadãos locais queriam saquear suas coisas. Ele compara esses assassinatos – feitos abertamente, com a participação das elites locais – a linchamentos.

Colheita de Ouro vai muito além de Vizinhos, relatando que crimes como o massacre de Jedwabne ocorreram em cerca de duas dezenas de vilas e cidades de apenas uma região. No total, talvez “muitas centenas de milhares” de judeus tenham sido mortos por seus compatriotas no território da Polônia, de acordo com o livro.

Como seus predecessores, Colheita de Ouro provocou a ira das principais figuras públicas na Polônia. Os críticos dizem que ele apresenta um quadro incompleto e exagerado. E quanto ao perigo que os poloneses enfrentaram ao ajudar judeus? E sobre o heroísmo de 6.000 poloneses honrados por salvar judeus? Como pode o Sr. Gross – educado como sociólogo, não historiador – justificar tais declarações radicais?

“Gross apresenta comportamento extremo de algumas pessoas desmoralizadas como comportamento de toda uma comunidade,” argumenta Tomasz Nalecz, um historiador e conselheiro do presidente da Polônia, Bronislaw Komorowski, na revista Time. “Hienas existem em todos os lugares. Mas a sociedade polonesa passou muito bem pelo teste, que foi a guerra. Não tenho vergonha dos poloneses.”

Uma diferença distingue o debate sobre Colheita de Ouro dos primeiros tempos do Sr. Gross sob o holofote. Agora, ele não está sozinho.

Após Vizinhos, outros historiadores investigaram as relações judaico-polonesas. Umas puçás semanas antes de Colheita de Ouro aparecer, o Sr. Grabowski publicou Judenjagd: Caçando os Judeus, 1942 – 1945, que corrobora largamente as descobertas do Sr. Gross. O livro, fora da Polônia e agora sob contrato da Indiana University Press, foca em um condado onde muitas centenas de judeus foram para o subterrâneo após as deportações de 1942. Ele conclui que, na vasta maioria dos casos, os judeus foram presos ou denunciados por habitantes locais. A ajuda, se oferecida, “era baseada frequentemente em pagamento polpudo.”

O trabalho trouxe ao Sr. Grabowski uma honra duvidosa. Ele também encontrou seu nome em uma lista de e-mail concorrida. Poloneses ultrajados entupiram sua conta na universidade, ele diz, com “arquivos enormes me dizendo o quão filho da puta sou.”

http://chronicle.com/article/A-Polish-Historians/132499/


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quinta-feira, 19 de julho de 2012

[SGM] Batalha de Kursk: todos ao ataque

Depois da vitória em Moscou, Zhukov recebeu de Stálin uma nova missão: lançar uma grande contra-ofensiva, que culminaria na batalha mais violenta da Segunda Guerra


Beto Gomes, 01/08/2008

Durante uma reunião com os membros da Stavka, Stálin argumentou: “Os alemães estão agora envolvidos em extrema confusão, em virtude da derrota sofrida em Moscou. Além disso, não estão preparados para enfrentar os rigores do inverno. É esta, portanto, a ocasião mais vantajosa para o início de uma ofensiva geral”. Suas palavras, como sempre, soaram como uma ordem. Mas Zhukov ponderou. Para ele, o Exército não tinha recursos para iniciar um ataque de tal amplitude. Faltavam armas, munições e as tropas estavam exaustas. Colocação feita – e ignorada –, o general concluiu que Stálin não estava ali para discutir com seus líderes militares, mas para “brincar de soldadinho”, como dizia.

Assim, a contra-ofensiva soviética começou naquele mesmo janeiro de 1942 e não durou três meses. Serviu para os russos avançarem suas frentes entre 60 e 90 quilômetros, variando de acordo com o setor, mas logo as previsões de Zhukov confirmaram-se. Dos 316 vagões de munições que deveriam ser entregues às unidades em fevereiro, nenhum havia chegado até o décimo dia do mês. “Tivemos de estabelecer limites de um ou dois tiros diários por canhão, e isso durante uma ofensiva. É difícil de acreditar”, lembraria mais tarde o comandante. Do outro lado, os alemães reagrupavam-se e reforçavam suas unidades. Começavam a infligir grandes castigos aos russos em diferentes partes do front.

Zhukov, que agora acumulava o cargo de comandante-em-chefe do Comando do Ocidente, lamentou a impossibilidade de capitalizar o sucesso da vitória em Moscou, quando poderia ter concentrado mais forças na região e garantido um ataque bem-sucedido. A sangrenta batalha pela capital fez as tropas de Guderian recuarem cerca de 250 quilômetros, mas a intempestividade de Stálin jogou água nos planos do general. Zhukov, por sua vez, acreditava que o principal motivo para o fracasso da contra-ofensiva soviética havia sido a falta de blindados. “Somente com tanques poderosos e formações mecanizadas é possível flanquear o inimigo com rapidez, penetrar em sua retaguarda e, depois, cercar e dizimar suas tropas”, escreveria em suas memórias. Ele saía vitorioso das campanhas de 1941 e do início de 1942, mas novas crises já apareciam no horizonte. E Stálin, mais uma vez, acabaria chamando-o, às pressas, para tentar resolvê-las.

Por uma vitória moral

Stalingrado foi um exemplo. Em meados de julho, as tropas de Hitler já haviam tomado Kharkov e davam início a uma grande ofensiva para o leste. No mapa, apareciam Rostov e, depois, a cidade que levava o nome do ditador soviético – o que certamente influenciou Hitler a investir naquele sentido, já que a conquista de Stalingrado representaria, também, uma vitória moral. Naquela ocasião, as forças do Eixo, que incluíam combatentes italianos e romenos, somavam cerca de 30 divisões. A principal frente estava nas mãos do 6º Exército alemão, comandado pelo general Friedrich von Paulus, que avançava rapidamente em direção ao rio Volga. No lado soviético, a movimentação também era intensa. Duas grandes unidades deslocaram-se para a região e, junto com divisões blindadas e aéreas, formaram a Frente de Stalingrado, com o marechal Semion Konstantinovich Timoshenko no comando.

A batalha que se seguiria nos meses seguintes pode ser dividida em duas fases: a defesa da cidade e a contra-ofensiva soviética. A primeira foi marcada por um dos embates mais violentos de toda a guerra. A exemplo do que acontecia em Leningrado, o cerco promovido pelos alemães cortou praticamente todos os canais de abastecimento de Stalingrado, e a população não teve outra saída senão se entregar à luta e contribuir com os soldados soviéticos da forma que podiam. Mulheres e crianças, mais uma vez, seriam destinadas à construção de barricadas e trincheiras para dificultar o acesso inevitável dos inimigos. Mas a fome e o cansaço fustigavam os civis com a mesma força das bombas despejadas pela Luftwaffe. Quando os alemães entraram, pelo sul e pelo norte da cidade, as batalhas ganharam as ruas e prédios em ruínas, que se transformaram em perigosas zonas de combate. Muitos foram morar em pequenos abrigos antibomba cavados no chão. Era o lugar mais seguro de uma cidade onde a morte rondava as esquinas.

De julho a novembro de 1942, foi esse o cotidiano de Stalingrado. Em apenas um dia, os aviões da Luftwaffe chegaram a fazer 3 mil incursões sobre a cidade. As baixas decorrentes dos ataques aéreos eram imensas. O cerco à fábrica de tratores Dzerzhinsky, por exemplo, deixou 3 mil mortos ao redor do prédio. Alguns batalhões do Exército Vermelho foram atacados com tanta violência que, a 15 de outubro, duas divisões comandadas pelo general-tenente Vassili Chuikov já haviam perdido mais de 75% de seu efetivo. Mas os russos deram mais uma impressionante demonstração de resistência. Defendiam ferozmente e, com incrível rapidez, organizaram companhias de combatentes formadas por alfaiates, carpinteiros, mecânicos e outros residentes. Com isso, conseguiram frear o ímpeto inicial das tropas de Hitler. Por volta de 20 de outubro, o exausto exército de Von Paulus já não agüentava atacar em larga escala. Era a hora do contragolpe.

O plano do contra-ataque

Nesse período, Zhukov foi para Stalingrado várias vezes e acompanhou de perto toda a operação que se desenrolava na região. Mas seu papel seria mesmo fundamental na segunda fase do conflito, quando os russos deram início ao contra-ataque que expulsaria os invasores da cidade. O general foi chamado por Stálin para elaborar os planos de uma grande ofensiva, que teria início em novembro. A ação foi planejada minuciosamente. De acordo com os planos, a contra-ofensiva iria se desenvolver ao longo de uma frente de cerca de 300 quilômetros, e o movimento de pinças para envolver o inimigo deveria cobrir um raio de 90 quilômetros. Depois que as defesas do Eixo fossem rompidas, as forças russas avançariam em duas linhas convergentes. Dessa forma, as comunicações inimigas seriam cortadas, e os alemães ficariam isolados de suas reservas e bases de suprimento. A investida principal, por sua vez, seria contra os romenos, mais vulneráveis e despreparados.

Em quatro dias, 330 mil soviéticos fecharam o anel em torno da 4ª Divisão Panzer e do 6º Exército de Von Paulus. A vitória em Stalingrado estava tão certa que, naqueles dias, o marechal alemão Von Manstein declarou que os russos poderiam ter destruído as tropas do 6º Exército. Mas seu comandante optou por se render. Feito prisioneiro, Von Paulus foi levado diante do general Konstantin Rokossovsky para interrogatório. A guerra, para ele, havia acabado. Mais de 90 mil homens tiveram o mesmo fim, incluindo um marechal-de-campo e 24 generais alemães.

Em 18 de janeiro de 1943, Zhukov foi nomeado marechal da União Soviética, tornando-se o primeiro dos grandes comandantes soviéticos da Segunda Guerra a ascender ao posto. Porém, depois que foi afastado por Stálin, anos mais tarde, seu papel na batalha de Stalingrado seria minimizado. A literatura russa deixou de lado o principal cérebro da operação.

A Batalha de Kursk

As dificuldades das tropas de Hitler aumentavam na mesma velocidade que os tanques soviéticos ganhavam as estepes da Rússia. Encarregado agora de coordenar um ataque fulminante contra os invasores, Zhukov concentrou forças e reuniu o máximo de blindados em suas guarnições. Quando as frentes alemãs do centro e do sul se estabilizaram, a vanguarda soviética estava solidamente estabelecida num bolsão na área de Kursk. Os estrategistas do Führer recomendaram a retirada ao norte e ao sul, para que pudessem recompor a frente e enfrentar os russos em melhores condições, mas Hitler estava obcecado pela idéia de não recuar um passo sequer.

Assim, criaram-se as condições perfeitas para o início da maior batalha de blindados que o mundo já conheceu. O conflito começou em 4 de julho de 1943, e no mesmo dia os alemães logo descobririam que os russos eram mais fortes do que imaginavam. A luta na área de Kursk foi dura e sem interrupções. Depois de uma semana de combates, as perdas de blindados alemães eram impressionantes. Seus novos modelos de tanques, os Panthers, eram difíceis de manobrar e seus condutores, extremamente inexperientes. A saída era abrir caminho pelo ar. Os ataques da Luftwaffe mostraram-se impiedosos, mas o fogo defensivo russo não perdia a intensidade. As tropas do Exército Vermelho pareciam invulneráveis.


Bolsão de Kursk

Hitler enviou reforços aéreos e terrestres de várias partes da Europa para Kursk, incluindo suas novas armas (como o próprio Panther, entre outras) que pretendia lançar contra os russos. A batalha foi sangrenta. E as perdas alemãs, assustadoras. Em apenas um dia de combate nas imediações de Prokhorovka, as perdas do Reich somaram 350 tanques e mais de 10 mil combatentes. Em outras frentes de batalha, não foi muito diferente. O conflito iria se arrastar por mais alguns dias e, em 16 de julho, quase duas semanas depois de lutas, os alemães iniciaram a retirada.

Imediatamente, Zhukov, comandante-geral da frente, ordenou um rápido contragolpe, com ataques continuados às tropas que batiam em retirada. Três dias depois, os soviéticos haviam recuperado todas as posições no setor. Moscou estava em festa. Os conflitos de Stalingrado e Kursk representavam a virada de jogo dos russos, e agora a chance de vencer a guerra aumentara consideravelmente. Ou, nas palavras de Stálin: “Se a batalha de Stalingrado assinalou o declínio do Exército alemão, a de Kursk colocou-o diante do desastre”.


Tanque Tiger - Alemanha


O tanque T-34 russo em Kursk


A derrota que ninguém viu

Soviéticos passaram borracha no grande fiasco da região de Rzhev

A Operação Marte foi a melhor prova de que nem só de glórias vive um general. A primeira e grande derrota de Zhukov na Segunda Guerra Mundial é um episódio esquecido pela literatura russa e censurado pelo Partido Comunista. Pouco conhecida, a operação foi uma tentativa dos soviéticos de tomar o saliente de Rzhev, logo após a vitória em Stalingrado. Esse local estratégico para as pretensões das duas forças representava uma ameaça a mais para os russos, em função de sua proximidade com Moscou.

Os planos do comandante previam ataques simultâneos em todos os setores, com a ajuda de unidades blindadas e divisões de cavalaria. Em maior número e com armamentos mais poderosos, os soviéticos iniciaram o ataque em 25 de novembro de 1942. Mas as defesas alemãs souberam usar muito bem o terreno acidentado da região a seu favor. Os obstáculos que construíram ao longo das estradas foram fundamentais para conter o avanço soviético, e garantiram um tempo precioso para as tropas do Reich receberem reforços. Em 15 de dezembro, uma contra-ofensiva abriu as linhas do Exército Vermelho e obrigou-o a recuar. O conflito terminou de forma desastrosa para os russos. Estima-se que eles tenham perdido 350 mil homens, entre mortos, feridos e desaparecidos, e 1,6 mil tanques.

Amor e ódio

O general colecionou legião de admiradores e desafetos

Como a maioria das pessoas que atinge altos cargos na hierarquia política ou militar, Zhukov colecionou uma legião de admiradores e desafetos. No primeiro grupo, a Batalha de Stalingrado serviu para o general estabelecer uma relação muito próxima com Nikita Kruschev, então comissário-chefe do Partido Comunista de todo o teatro de operações, que via no militar um aliado imprescindível para suas pretensões de chegar ao poder.

Do outro lado, estavam figuras como o general-tenente Vassili Chuikov, que, muitos anos depois do conflito, contestaria a importância de seu comandante em Stalingrado. Inteligente, mordaz e intempestivo, Chuikov foi o líder de uma das divisões mais aguerridas que combateram na cidade. Por causa de seu temperamento, no entanto, ele chegou ao fim da guerra ocupando o mesmo posto – e foi duramente criticado por não reconhecer o valor estratégico de Zhukov. O desafeto mais célebre, no entanto, era Ivan Stepanovich Konev, também um dos militares russos mais notáveis da Segunda Guerra. Konev participou de diversas batalhas, incluindo Stalingrado, e comandou a Frente Ucraniana na batalha decisiva de Berlim. Foi quando ele e Zhukov travaram sua disputa mais acirrada: a corrida para ver quem tomaria primeiro a capital do Reich.


Stalin criou o Primeiro Estado Judeu em 1934

Marine Dumeurger

História Viva, Ano VIII, nº 92


Birobidjan é um exemplo perfeito de um absurdo histórico, uma aposta insensata relegada ao esquecimento. Situada no extremo leste da Rússia, para lá da Sibéria, a mais de 8 mil km de Moscou, a Região Autonôma Judaica foi instaurada em 1934 por Stalin. Naquela época, o território (que cobria uma superfície igual à da Bélgica) era pouco povoado. Não tinha mais do que algumas dezenas de milhares de imigrantes chegados no século XIX, em sua maioria russos, cossacos, coreanos e ucranianos.

A Região Autônoma Judaica (RAJ), ou Birobidjan, nome da sua capital, destinava-se a reunir os adeptos dessa religião que viviam na União Soviética.

Os judeus frequentemente eram pobres, e a taxa de desemprego entre eles era elevada. Sem poder praticar algumas profissões e privados do direito de comprar terras até 1917, eles viviam confinados em zonas de residência, no oeste do Império Russo. A maioria era comerciante.

Concretamente, tratava-se de atrair os mais pobres para o Extremo Oriente e incentivar sua inserção, por meio da prática da agricultura. Assim, o governo esperava brecar o êxodo rumo ao oeste da URSS (Ucrânia, Bielo-Rússia, Criméia) e contribuir para o povoamento do extremo leste, que abrigava importantes e inexplorados recursos naturais e era um território estrangeiro, próximo da China e do Japão.

Para atrair os judeus, ogoverno forneceu ajuda material, como transporte gratuito, crédito vantajoso, isenções fiscais e subvenção alimentar. Em paralelo, captava dinheiro organizando sorteios e fazendo publicidade disso.

O poder central socialista previa instalar 100 mil famílias judias nas colônias agrícolas, com a intenção de construir uma nova comunidade, ao mesmo tempo socialista e laica, na qual prevalecesse o dialeto iídiche.

Mas a realidade era menos sedutora. Birobidjan ficava muito longe. Aí, as condições de vida eram hostis: verões quentes e chuvosos; invernos secos e gelados; pântanos cobrindo boa parte do território. As doenças e epidemias estavam presentes o ano todo. Os recém-chegados não encontravam muita coisa, pois tudo faltava: moradias, infraestrutura e trabalho.

Alguns anos após sua criação, a exemplo do resto do extremo leste russo, a RAJ tornou-se um centro de produção de cimento, estanho, tijolos, pasta de papel e roupas. Em 1939, só 25% da população judia do território morava no campo. Muitos não judeus nela se instalaram. Em 1939, 18 mil dos 190 mil habitantes eram judeus.

Ao longo de todo o período soviético, Birobidjan teve altos e baixos. Após a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, a população judia abandonou os territórios devastados do oeste e, entre 1946 e 1948, cerca de 10 mil pioneiros se instalaram na RAJ. Foi o apogeu da história judaica de Birobidjan, que reunia na época 30 mil colonos, um recorde. Mas os problemas de organização continuaram e muitos dos moradores foram embora.

Grandes ondas de repressão do regime se abateram sobre todo o país, e com a RAJ não foi diferente. De 1936 a 1938, o extermínio promovido por Stalin fez milhares de vítimas. Em Birobidjan, os dirigentes políticos tornaram-se suspeitos, em virtude de seu engajamento nas causas judias, e não soviéticas. O chefe do governo local, Iosif Liberberg, foi condenado à morte. O líder do partido, Matvei Khakin, seria mandado ao Gulag em 1956.

Em 1970, os judeus representavam menos de 7% da população. Nikita Krushev reconheceu formalmente em 1960 que o projeto havia fracassado. Muitas razões ajudam a explicar seu insucesso. Grandes cidades como Kiev, Minsk ou Leningrado ofereciam oportunidades de vida mais interessantes.

Tentou-se em vão relançar a colonização, com incentivos financeiros. Associações voltaram a aparecer. A sinagoga foi reaberta em 1984. Mas os recursos nunca foram suficientes, e muitos judeus aderiram ao movimento de emigração para Israel.

[SGM] O Acordo do Ocidente com o Diabo

Eric Margolis, 07/11/2007



Este parece ser o mês da culpa histórica. A Alemanha inaugurou um novo memorial para as vítimas judias da perseguição nazista. Os Armênios exigem da Turquia que os massacres da era otomana sejam considerados genocídio. O Japão está sendo escrachado por negar as atrocidades da guerra. A Espanha está novamente atormentada pelas memórias dos crimes cometidos durante sua Guerra Civil sanguinária.

Mesmo assim, o maior crime da história moderna, e o genocídio mais sanguinário, quase desapareceu de nossa memória coletiva. Semana passada marcou o 70º aniversário do Grande Terror na União Soviética, no qual dezenas de milhões foram assassinados ou encarcerados.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, pelo menos comemorou pela primeira vez o que ele definiu como crimes soviéticos "colossais" ao participar de uma homenagem semana passada à suas vítimas. O local era uma cova ao sul de Moscou onde a polícia secreta fuzilou 20.000 pessoas.

Foi interessante assistir Putin, antigo membro do serviço de segurança FSB, denunciando crimes de seus predecessores diretos, a KGB e o NKVD. O mesmo Putin que recentemente chamou o colapso da União Soviética uma "tragédia". Mesmo assim, aplaudimos seu reconhecimento tardio dos crimes da era Comunista. Putin pelo menos quebrou o silêncio oficial vergonhoso da Rússia.

O terror soviético começou nos anos 1920, quando Lênin ordenou o extermínio dos Cossacos e dos oponentes dos Bolchevistas. Em seguida, vieram os católicos da Rússia Branca, e os resistentes ao comunismo nos estados bálticos e na Moldóvia. Stalin ordenou, então, a aniquilação de 2 milhões de pequenos fazendeiros, conhecidos como kulaks.

Entre 1932 e 1933, Stalin produziu um genocídio contra os fazendeiros independentes da Ucrânia. Entre seis e sete milhões de ucranianos foram fuzilados ou propositalmente deixados para morrer de fome. Esse evento inclusive levou alguns ucranianos ao canibalismo. O homem que dirigiu este genocídio, Lazar Kaganovitch*, o EIchmann soviético - foi tornado herói da União Soviética e morreu tranquilamente em Moscou em 1991.

Quando os burocratas do Partido Comunista atrasaram os planos de Stalin para transformar a União Soviética de uma sociedade rural em uma potência industrial, "Koba", como ele era chamado, ordenou a morte de 700.000 membros do partido. Depois disso, suas ordens foram prontamente obedecidas. Quase toda hierarquia partidária e militar foi executada durante os Grandes Expurgos de 1937 - 38, que culminaram nos Julgamentos-espetáculos de Moscou, que receberam atenção mundial.

De 1934 a 1941, cerca de 7 milhões de vítimas foram enviadas para o sistema de campos de concentração conhecido como "gulag", incluindo um milhão de poloneses, centenas de milhares de lituanos, letões e estonianos, e metade dos povos mulçumanos da Chechênia. Os alemães do Volga, Tártaros da Criméia, Bashkirs e Kalmyks também tiveram o mesmo destino. O gulag de Stalin não precisava de câmaras de gás: o frio, as doenças e o trabalho sobrehumano matavam 30% dos internos anualmente.

Até hoje, os historiadores russos e estrangeiros não estão certos do número total das vítimas de Lênin e Stalin. As estimativas vão de 20 a 40 milhões de 1922 a 1953 - e este número não inclui as mortes da Segunda Guerra Mundial.

Stalin cometeu seus piores crimes bem antes das atrocidades de Hitler serem iniciadas. Seus campos de concentração foram abertos e preenchidos com prisioneiros no início dos anos 1930.

Esquecemos que a Alemanha não iniciou sozinha a Segunda Guerra Mundial, como a maior parte das pessoas acredita. A Alemanha e a URSS invadiram juntas a Polônia em 1939; Stalin então atacou a neutra Finlândia. Dois anos depois, a Inglaterra e a URSS invadiram o neutro Irã, uma agressão tão ilegal e descarada quanto a invasão teuto-soviética da Polônia. A História continua, de fato, sendo a propaganda dos vitoriosos.

Se continuarmos obrigando a Alemanha e o Japão a admitir a culpa pelos eventos dos anos 1940, não será hora de os EUA, a Grã-Bretanha e o Canadá a admitir sua própria culpabilidade em se aliar a Stalin, um monstro que matou mais de quatro vezes as vítimas de Hitler?

Acima de tudo, os campos de concentração de Stalin estavam funcionando uma década antes dos da Alemanha. O assassinato de milhões de ucranianos e russos brancos aconteceu diante dos olhos do mundo, 6 ou 7 anos antes da Segunda Guerra Mundial.

O ingênuo Roosevelt, que saudou Stalin como "Tio Joe", e o cauteloso Churchill ambos sabiam que eles estavam se aliando ao maior exterminador de povos desde Gengis Khan. Eles usaram um demônio grande para lutar contra um menor, menos perigoso - então pagaram seu preço ao dar metade da Europa para Moscou. Lembre-se disso quando os idólatras da guerra fizerem poesia sobre as glórias da Segunda Guerra Mundial - e prepararem terreno para a Terceira.

As potências ocidentais deveriam praticar o que elas devotamente dizem para a Alemanha, Japão e Itália e, mais recentemente, para a Turquia, por pelo menos desculpar-se pelo seu acordo sórdido com Stalin. O que seria tão imoral quanto um acordo com Hitler, como Stalin temia que elas fariam para destruir a União Soviética.

http://www.lewrockwell.com/margolis/margolis91.html

* Sobre Lazar Kaganovitch, o capataz de Stalin no extermíno em massa sob o Comunismo.

"Lazar nasceu em 1893 de pais judeus na Vila de Kabany no Império Russo (atual Ucrânia). Começou sua carreira política em 1915, como organizador do partido comunista em uma fábrica de sapatos onde trabalhava."

http://en.wikipedia.org/wiki/Lazar_Kaganovich


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domingo, 15 de julho de 2012

O Exército Prussiano

O exército da Prússia cresceu como força armada durante o reinado do Eleitor* Frederico William de Brandenburgo (1640 – 1688), um dos Estados que formavam o antigo Sacro Império Romano (Primeiro Reich). A Prússia-Brandenburgo Hohenzollern tinha usado primeiramente de modo ineficiente os mercenários de Landsknecht durante a Guerra dos Trinta Anos, na qual Brandenburgo foi devastado. Após subir ao trono eleitoral, Frederico William começou a montar um exército de prontidão para defender melhor seu Estado na primavera (hemisfério norte) de 1644.

* “Eleitor” é aquele que tem voto numa determinada eleição. Os príncipes-eleitores (“Kurfürsten”) do Sacro Império Romano foram o maior colégio eleitoral no parlamento imperial. Eles escolhiam o Imperador Sacro-Romano. Um “Eleitorado” é o domínio de um Eleitor no interior do Império.

Entre 1643 e 44, o exército em formação era composto somente de 5.500 soldados, incluindo 500 mosqueteiros da guarda pessoal de Frederico. O confidente do Eleitor, Johann von Norprath recrutou forças no Ducado de Cleves e organizou um exército de 3.000 soldados holandeses e alemães na Renânia por volta de 1646. Tropas foram vagarosamente aumentadas em Brandenburgo e no Ducado da Prússia (1525 – 1701). Frederico William procurou assistência da França, o rival tradicional da Áustria dos Habsburgo, e começou a receber subsídios deste país. Ele baseou suas reformas nas de Louvois, o Ministro da Guerra do Rei Louis XIV. O crescimento do exército permitiu a Frederico alcançar aquisições territoriais consideráveis no Tratado da Westphalia em 1648, mesmo com o pouco sucesso de Brandenburgo durante a guerra. Uma vez conseguida a força necessária, porém, Frederico William e seu exército trataram de suprimir os Estados de Cleves, Mark e a Prússia.

Frederico William tentou profissionalizar seus soldados numa época de mercenários. Além de criar regimentos individuais e apontar oficiais, o Eleitor impôs punição exemplar para má conduta, como enforcamentos e pilhagem. Atos de violência por oficiais contra civis resultavam no descomissionamento por um ano. Ele desenvolveu uma instituição para formação de cadetes para a nobreza; apesar das classes mais altas serem resistentes à idéia a curto prazo, a integração da nobreza no corpo de oficiais permitiu uma grande vida à monarquia Hohenzollern. Em 1655, Frederico começou a unificação de vários destacamentos pela colocação deles sob um comando geral. Esta medida diminuiu significativamente a autoridade dos coronéis mercenários, que foi tão proeminente durante a Guerra dos Trinta Anos.

O novo exército de Brandenburgo-Prússia sobreviveu ao teste de batismo com a Batalha de Varsóvia em 1656, durante as Guerras Nórdicas. Observadores ficaram impressionados com a disciplina das tropas brandenburgenses, assim como com seu tratamento aos civis, que foi consideravelmente mais humano que o de seus aliados, o exército sueco. O sucesso dos Hohenzollern permitiu a Frederico assumir a soberania sobre o Ducado da Prússia no Tratado de Wehlau de 1657, pelo qual o Brandenburgo-Prússia se aliava à Comunidade de Estados Polaco-Lituano.

Frederico William construiu o exército Hohenzollern com até 7.000 soldados em tempos de paz e com 15 a 30 mil soldados em tempos de guerra. Seus sucessos em batalha contra a Suécia e Polônia aumentaram o prestígio de Brandenburgo-Prússia, enquanto também permitiu ao Grande Eleitor perseguir políticas absolutistas contra Estados e Cidades. Em seu testamento político de 1667, o Eleitor escreveu: “Alianças, para ser sincero, são boas, mas ter suas próprias forças é melhor. Com estas, qualquer um tem mais segurança, e um soberano não possui consideração se ele não tem seus próprios meios e tropas."




O poder crescente dos Hohenzollern em Berlim levou ao sucessor e filho de Frederico William, Eleitor Frederico III (1688 – 1713) a proclamar-se como Rei Frederico I do Reino da Prússia (1701 – 1918) em 1701. Apesar de ter enfatizado a opulência e arte barroca através da imitação da arquitetura do Palácio de Versalhes, o novo rei reconheceu a importância do exército e continuou sua expansão de 40 mil homens.

Frederico I foi sucedido por seu filho, Frederico William I (1713 – 1740), o “Rei-Soldado”, obcecado pelo exército e que conseguiu a auto-suficiência militar de seu país. O novo rei dispensou a maioria dos artesãos da corte de seu pai e garantiu precedência para oficiais militares sobre oficiais da corte. Jovens ambiciosos e inteligentes começaram a entrar na carreira militar ao invés de escolher as carreiras ligadas a Direito e Administração.

Frederico William I começou suas inovações militares no seu regimento “Kronprinz” durante a Guerra da Secessão Espanhola. Seu amigo, Leopoldo I, príncipe de Anhalt-Dessau, serviu como sargento real de treinamento para o exército prussiano. Leopoldo introduziu a espingarda de cano de ferro, aumentando o poder de fogo das tropas, e a marcha lenta, ou passo-de-ganso. O novo rei treinou e exercitou o exército implacavelmente, focando na velocidade de tiro de seus mosquetes com fecharia de pederneira e a manobrabilidade de formação. As mudanças deram ao exército flexibilidade, precisão e uma taxa de tiro inigualável na época. Através do exercício e da espingarda, de cada soldado era esperado atirar seis vezes num minuto, três vezes mais rápido que a maioria dos exércitos.

Frederico William I reduziu o tamanho da guarda real de pompa de Frederico I para um regimento simples, uma tropa de soldados mais altos conhecida como os “Gigantes de Postdam”. A cavalaria foi reorganizada em 55 esquadrões de 150 cavalos; a infantaria foi convertida em 50 batalhões (25 regimentos) e a artilharia consistia de dois batalhões. Estas mudanças permitiram-lhe aumentar o exército de 39 mil para 45 mil soldados; pelo final de seu reinado, o exército tinha dobrado de tamanho (60 mil soldados), tornando-se o quarto maior da Europa e consumindo quase ¾ do orçamento do Estado.

Frederico William I foi sucedido por seu filho, Frederico II (“O Grande”) (1740 – 1786). Frederico começou as Guerras Silesianas logo após de assumir o trono. Apesar do inexperiente rei ter batido em retirada na batalha, o exército prussiano alcançou a vitória sobre a Áustria na Batalha de Mollwitz (1741) sob a liderança do Marechal-de-campo Schwerin. A cavalaria prussiana, sob o comando de Schulenburg, não foi muito eficaz em Mollwitz; os couraceiros, originalmente treinados em cavalos pesados, foram subseqüentemente retreinados, desta vez em cavalos leves. Os hussardos e dragões (soldados que lutavam tanto a pé quanto a cavalo) do General Zieten também sofreram expansão. Estas mudanças levaram a uma vitória prussiana em Chotusitz (1742) e a Áustria acabou cedendo a Silésia para Frederico através da Paz de Breslau.

Frederico, o Grande

Em setembro de 1743, Frederico executou a primeira manobra de outono (“Herbstübung”), na qual diferentes ramos do exército testaram novas formações e táticas; as manobras de outono tornaram-se então tradições anuais do exército prussiano. A Áustria tentou reclamar a Silésia na Segunda Guerra Silesiana. Apesar de bem sucedida em termos de manobra em 1744, os austríacos foram derrotados na Batalha de Hohenfriedberg (1745). A Áustria então se aliou ao seu inimigo tradicional, a França, na Revolução Diplomática (1756); Áustria, França e Rússia ficaram todos alinhados contra a Prússia, começando a Guerra dos Sete Anos.

A primeira guarnição em Berlim começou a ser construída em 1764. Enquanto Frederico William I queria ter um exército formado em sua maioria de cidadãos prussianos, Frederico II desejava formar uma legião estrangeira, preferindo ter cidadãos prussianos como contribuintes e produtores. O exército prussiano consistia de 187 mil soldados em 1776, 90 mil dos quais eram nativos da Prússia central ou oriental. O remanescente era formado de voluntários e alistados estrangeiros (tanto alemães quanto não-alemães). Frederico estabeleceu a “Garde du Corps” como a guarda real. Pelo final do reinado de Frederico, o exército tinha se tornado parte integral da sociedade prussiana e contava com 193 mil membros. As classes sociais eram esperadas servir ao Estado e ao exército – a nobreza liderava o exército, a classe média supria o exército e os camponeses compunham o exército. O Ministro Friedrich von Schrötter chegou a declarar: “A Prússia não é um país com um exército, mas um exército com um país.”

O sucessor de Frederico o Grande, seu sobrinho Frederico William II (1786 – 1797), relaxou as condições na Prússia e teve pouco interesse na guerra. Ele delegou responsabilidade para o senil Charles W. Ferdinand, Duque de Brunswick, e o exército começou a cair em qualidade. Liderados por veteranos das Guerras Silesianas, o exército prussiano estava mal equipado para resistir à França Revoluncionária. Os oficiais retiveram o mesmo treinamento, tática e armamento usado por Frederico o Grande quase quarenta anos antes. Em comparação, o exército revolucionário da França, especialmente sob Napoleão Bonaparte, estava desenvolvendo novos métodos de organização, suprimento, mobilidade e comando.

A Prússia retirou-se da Primeira Coalizão na Paz de Basel (1795), cedendo territórios na Renânia para a França. Quando da morte de Frederico William II em 1797, o Estado estava quebrado e o exército obsoleto. Ele foi sucedido pelo seu filho, Frederico William III (1797 – 1840), que envolveu a Prússia na desastrada Quarta Coalizão.

O exército prussiano foi derrotado de forma decisiva nas batalhas de Saalfeld, Jena e Auerstedt em 1806. A famosa disciplina prussiana colapsou e a infantaria, cavalaria e guarnições se renderam em massa. A Prússia se submeteu a perdas territoriais, um limite no efetivo de seu exército (somente 42 mil homens) e uma aliança com a França no Tratado de Tilsit (1807).

A derrota do desorganizado exército chocou as autoridades prussianas, as quais se sentiam invencíveis após as vitórias frederiquianas. Enquanto que Stein e Hardenberg iniciaram a modernização do Estado prussiano, Scharnhorst começou a reforma militar, sendo ajudado por Clausewitz. Desanimados pela indiferença da população diante das derrotas de 1806, os reformadores quiseram cultivar o patriotismo no país. As reformas de Stein aboliram a servidão em 1807 e iniciaram os governos municipais em 1808.

O oficialato do exército foi completamente revisado – dos 143 generais em 1806, somente Blücher e Tauentzien permaneceram pela Sexta Coalizão; a muitos foi permitido o resgate de suas reputações na guerra de 1813. O corpo de oficiais foi reaberto para a classe média em 1808, enquanto que o avanço para altas patentes ficou condicionado à educação. O rei Frederico William III criou o Ministério da Guerra em 1809 e Scharnhorst fundou uma escola de treinamento de oficiais, mais tarde chamada Academia de Guerra Prussiana, em Berlim em 1810.

Scharnhorst advogava a adoção da “levée em masse”, ou seja, o alistamento militar obrigatório usado na França. Ele criou o “Krümpersystem”, através do qual companhias substituíam de 3 a 5 homens por mês, permitindo até 60 homens extras para serem treinados anualmente por companhia. Este sistema garantiu ao exército uma grande reserva de 30 mil a 150 mil soldados extras. O Krümpersystem também foi o início do serviço obrigatório de curto prazo na Prússia, em oposição ao alistamento de longo prazo previamente utilizado.

Pelo fato da ocupação francesa proibir os prussianos de formar divisões, o exército foi dividido em seis brigadas, cada uma consistindo de sete a oito batalhões de infantaria e doze esquadrões de cavalaria. As brigadas combinadas eram acrescidas de três brigadas de artilharia.

Os reformadores e boa parcela da opinião pública conclamou Frederico William III a se aliar ao Império Austríaco em sua campanha de 1809 contra a França. O tratado franco-prussiano de 1812 forçou a Prússia a fornecer 20 mil soldados ao “Grand Armee” de Napoleão, primeiro sob a liderança de Grawert e depois sob Yorck. A ocupação francesa foi reafirmada e 300 oficiais prussianos desmoralizados pediram demissão de seus cargos em forma de protesto.

Durante a retirada de Napoleão da Rússia em 1812, Yorck independentemente assinou a Convenção de Tauroggen com a Rússia, quebrando a aliança franco-prussiana. Stein chegou na Prússia oriental e liderou a criação de uma “Landwehr”, ou milícia para defender a província. Com a junção da Prússia na Sexta Coalizão fora de suas mãos, Frederico William III começou rapidamente a mobilizar o exército, e o landwehr da Prússia Oriental foi duplicado no resto do país. Em comparação a 1806, a população do país, especialmente a classe média, apoiou entusiasticamente a guerra, e milhares de voluntários se alistaram no exército. As tropas prussianas sob a liderança de Blücher e Gneisenau provaram ser vitais nas Batalhas de Leipzig (1813) e Waterloo (1815). A Cruz de Ferro foi introduzida como uma condecoração militar pelo Rei Frederico William III em 1813.

Durante a crise constitucional de 1819, Frederico William III reconheceu a fidelidade da Prússia aos Decretos Carlsbad anti-revolucionários (restrições sociais feitas pela Confederação Alemã na cidade Karlsbad, na Boêmia, que fazia parte do Império Austríaco). As forças conservadoras dentro da Prússia permaneceram opostas ao alistamento obrigatório e a um landwehr mais democrático. Frederico William III reduziu o tamanho da milícia e a colocou sob controle do exército regular em 1819, levando à demissão dos generais Boyen e Grolman e o fim do movimento reformista. O ideal de Boyen de um soldado-cidadão instruído foi substituído pelo de um profissional militar separado ou alienado da sociedade civil.

Por meados do século XIX, a Prússia era vista por muitos liberais alemães como o país melhor preparado para unificar os vários Estados Alemães, mas o governo conservador usou o exército para reprimir as tendências liberais e democráticas durante os anos 1830 e 40. Os liberais se ressentiram do uso do exército em ações essencialmente policiais. O Rei Frederico William IV (1840 – 1861) inicialmente pareceu ser um líder liberal, mas ele era contra a realização de uma constituição escrita pelos reformadores. Quando barricadas foram erguidas em Berlim durante a Revolução de 1848, o rei relutantemente concordou na criação de uma força de defesa civil (Bürgerwehr) na sua capital.

No final de 1848, Frederico William finalmente realizou a “Constituição do Reino da Prússia”. A oposição liberal assegurou a criação de um parlamento, mas a carta magna era um documento muito conservador que apenas reafirmava a predominância do monarca. O exército era uma guarda pretoriana colocado fora da constituição, sujeito apenas às ordens do rei. O Ministro da Guerra prussiano era o único soldado que era exigido um juramento de obediência à constituição. O orçamento do exército tinha que ser aprovado pela Câmara dos Comuns do Parlamento.

Após Frederico William IV sofrer um ataque do coração, seu irmão William I tornou-se regente (1857) e rei (1861 – 1888). O rei queria expandir o exército – enquanto a população cresceu de 10 milhões para 18 milhões desde 1820, os recrutas anuais do exército permaneceram em 40 mil. Moltker “o Velho”, Chefe do Alto Comando Geral (1857 – 1888), modernizou o exército prussiano durante sua administração. Ele expandiu o Alto Comando, criando subdivisões em tempo de paz como as seções de Mobilização, Geografia-Estatística e História Militar. Em 1869, ele editou um manual de guerra ao nível operacional, escrevendo: “A moderna conduta de guerra é marcada pelo esforço em busca de uma decisão grande e rápida.”

Moltke era um advogado forte do treinamento em jogos de guerra para oficiais e introduziu o uso do fuzil de pino com carregamento pela culatra, que permitiu às tropas dispararem de forma mais rápida que seus adversários. Moltke tomou vantagem da ferrovia, liderando a construção de estradas de ferro dentro da Prússia em pontos estratégicos. Pelo fato dos exércitos modernos se tornarem muito grandes e desconhecidos para um único comandante controlar, Moltke apoiou a idéia de pequenos e independentes exércitos em operações concêntricas. Uma vez que um dos exércitos encontrava o inimigo e o imobilizava, um segundo exército chegaria e atacaria o flanco ou retaguarda do inimigo. Ele defendia a “Kesselschlacht”, ou batalha de cerco.

O exército prussiano derrotou as forças dinamarquesas na Batalha de Dybbol, durante a Segunda Guerra de Schleswig (1864), permitindo que Prússia e Áustria reclamassem o Schleswig e Holstein, respectivamente. Disputas orquestradas pelo Primeiro-Ministro prussiano, Otto von Bismarck, levou à Guerra Austro-Prussiana (1866). Os fuzis de pino da infantaria prussiana foram extremamente bem sucedidos contra os austríacos, que foram derrotados em Königgrätz. Sob a liderança de Moltke, o exército prussiano conseguiu a vitória sobre a França na Guerra Franco-Prussiana (1870).

O patriotismo na Prússia com as vitórias militares começou a erodir a resistência liberal ao absolutismo e permitiu a unificação da Alemanha em 1871, através do coroamento do Rei William I da Prússia como “William I, Imperador Alemão”. O exército prussiano formou o núcleo do “Reichsheer”, o exército do Império Alemão.



 
Fonte: Wikipedia