quinta-feira, 26 de julho de 2012

[SGM] Quem estava planejando atacar quem em junho de 1941, Hitler ou Stalin?

Viktor Suvorov

The Journal of the Royal United Services Institute for Defence Studies, Londres, Grã-Bretanha Junho 1985


Na sexta-feira, 13 de junho de 1941, a Rádio Moscou fez um anúncio incomum da TASS que dizia: “os rumores das intenções da Alemanha de romper o Pacto e promover um ataque contra a União Soviética não tem qualquer fundamento,” e que tais boatos “eram propaganda enganosa de forças hostis à URSS e à Alemanha e interessadas na extensão da guerra.” No dia seguinte, os jornais soviéticos publicaram este anúncio e, uma semana depois, a Alemanha lançou um ataque repentino e traiçoeiro contra a União Soviética.(1) Era totalmente óbvio que o próprio Stalin havia escrito o relatório da TASS. Seu estilo característico era familiar a todos: os generais nas equipes de comando(2), os prisioneiros no GULAG (3), e analistas estrangeiros (4). Muitos historiadores, tanto na União Soviética quanto no Ocidente, consideram este relatório da TASS ter demonstrado, no mínimo, uma falha completa em compreender a natureza dos eventos em andamento e, no máximo, um exemplo notável de negligência criminosa (5). À parte a questão de Stalin fazer uma declaração que foi rapidamente demonstrada ser inteiramente falsa, existe um ponto mais fundamental do porquê ele achou necessário fazer uma declaração como aquela. Ele não era, de todos os tiranos, o mais silencioso? Muitos historiadores notaram a habilidade vacilante de Stalin em manter-se calado em épocas de crise e nas principais questões políticas, e de fato alguns críticos consideram seu silêncio como sendo sua maior arma (6). Além disso, muitos comandantes sêniores soviéticos foram testemunhas de que suas crenças verdadeiras eram totalmente o inverso do que o anúncio da TASS sugeria, e que na realidade ele considerava a guerra contra a Alemanha ser inevitável (7). Se Stalin tivesse repentinamente revisado seu julgamento sobre a probabilidade de guerra, sua opção mais provável teria sido discutir o problema com seus conselheiros mais próximos ou simplesmente tê-lo guardado para si. Por que, então, a visão das intenções pacíficas da Alemanha de Stalin em relação à União Soviética tornadas embaraçosamente públicas?

Além disto, a tendência do relatório da TASS também parecia fora de sintonia com a ideologia comunista em voga. A propaganda comunista (e esta era especialmente verdadeira no caso da Rússia de Stalin) envolvia a constante repetição de uma idéia simples: estamos cercados de inimigos. Isto era um expediente conveniente; ele racionalizava então, como ele faz hoje, por que as fronteiras do Estado eram fechadas, por que a oposição tinha que ser destruída, por que não há eleições livres, por que não há imprensa livre e por que era necessário produzir canhões ao invés de manteiga. Esta noção de uma ameaça sempre presente permite uma explicação de tudo o que for necessário. Gerações inteiras de cidadãos soviéticos têm sido enganadas por esta crença básica apresentada por jornais, cinemas, livros, transmissões de rádio e mesmo livros escolares. E, mesmo assim, nesta ocasião única, a rádio nacional anunciou pomposamente para o país e para o mundo: a ameaça de agressão não existia!

Entretanto, seria um erro simplesmente considerar a declaração de Stalin para a TASS como mal julgada: incompreensível e inexplicável seriam expressões intercaladas mais apropriadas, necessitando uma investigação detalhada das mentiras por trás das palavras.

Uma Data Importante na História Soviética

13 de junho de 1941, a data do anúncio da TASS, é uma das datas mais importantes em toda a história soviética, infinitamente mais importante do que 22 de junho de 1941, o dia da invasão alemã. Muitos marechais e generais soviéticos escrevem sobre o 13 de junho com maior precisão e detalhe do que eles fazem em relação ao dia 22. O que segue é um exemplo típico do relato do General N.I. Biryukov, então comandando a 186ª. Divisão de Infantaria estacionada no Distrito Militar do Ural:

“Em 13 de junho de 1941, recebemos uma diretiva de importância especial do Staff Distrital de acordo com o qual a divisão deveria mover-se para ‘um novo campo’. O local do novo quartel-general não foi comunicado mesmo para mim, o comandante da divisão. Somente quando passei por Moscou fiquei sabendo que nossa divisão deveria concentrar-se nas florestas a oeste de Idritsa.” (8) Todas as divisões no Distrito Militar do Ural receberam ordens semelhantes sinalizando um deslocamento para a fronteira ocidental. O registro oficial do distrito fixa esta data com precisão: “A 112ª. Divisão de Infantaria foi a primeira a começar a transferência. Na manhã de 13 de junho, o primeiro escalão* moveu-se de uma pequena estação ferroviária... então começou a despachar as divisões de infantaria 98ª., 153ª. e a 186ª. O movimento das tropas foi conduzida em segredo.” (9)

A Criação de Novos Exércitos

Staffs de Corpos** foram criados para coordenar a organização operacional das divisões do Ural que estavam secretamente se concentrando nas florestas da Bielo-Rússia e o 22º. Exército assumiu o comando dos Corpos. O General de Brigada*** F. A. Ershakov, o comandante do Distrito Militar do Ural, assumiu o comando deste novo exército e o Chefe de Gabinete do Distrito, o General de Brigada** G. F. Zakharov assumiu a responsabilidade pelo Staff do Exército. Assim, todo o Distrito Militar do Ural, incluindo o comandante, seu staff e todas as formações subordinadas, secretamente começaram a mover-se para oeste. Extraordinariamente, o Vice-Comandante do distrito, o General de Brigada M. F. Lukin**, cuja função habitual teria sido permanecer na retaguarda como comandande do distrito, havia sido ordenado, um tempo antes, a se apresentar no Distrito Militar de Transbaikal onde ele estabeleceu e assumiu o comando do 16º. Exército, no momento em que a TASS estava transmitindo seu comunicado insólito, estava secretamente se dirigindo para o oeste no comando do exército. (10)

* Escalão: grupo de exércitos com mais de 700.000 homens. Ataque em escalão é uma unidade militar posicionada para ataque em linhas paralelas.

** Corpo de Exército: ver tópico “Nomenclatura Militar”.

*** Original em inglês: Ershakov - Major-General, Zakharov – Lieutenant-General, Lukin – Lieutenant-General. No Exército Brasileiro, não existe equivalência para estes postos. Como o Mj.Gen. e o Ltn.Gen. estão acima do General de Brigada, mas abaixo do General de Divisão, optei por traduzir como o primeiro.

Movimentações semelhantes estavam acontecendo simultaneamente em todos os distritos militares internos (11) da União Soviética. Os Comandantes de Distrito, os Generais de Brigada A. K. Smirnov, I. S. Konev, F. M. Remezov, V. F. Gerasimenko, S. A. Kalinin e V. Y. Kachalov (respectivamente comandando os distritos de Kharkov, Cáucaso do Norte, Orel Volga, Sibéria e Archangel), transformaram os conselhos de distrito em staffs dos 18º., 19º., 20º., 21º., 24º. e 28º. Exércitos. Lembrando dos 16º. e 22º. Exércitos mencionados antes, um total de oito exércitos completos de repente surgiu nos distritos internos do país. O 18º. era para ser colocado para reforçar o 1º. Escalão Estratégico do Exército Vermelho, os sete restantes (ao todo, 69 divisões blindadas, motorizadas e de infantaria) constituíram o 2º. Escalão Estratégico. Dos oito exércitos, cinco foram deslocados imediata e secretamente para a Ucrânia e Bielo-Rússia. Todas as fontes soviéticas enfatizaram o segredo de todas estas movimentações: “Antes do início efetivo da guerra, as forças reservas começaram a se organizar nos distritos de fronteira sob condições de total segredo.” (13) “Os outros três exércitos foram colocados sob ordens para movimentação.” (14)

Problemas de Transporte

Somente falta de transporte preveniu os oito exércitos de se deslocarem simultaneamente. Antes, em abril e maio, movimentos de tropas em vasta escala haviam sido executadas do interior até a fronteira alemã. Toda a capacidade reserva do sistema ferroviário nacional inteiro foi utilizada para esta operação principal e secreta. Ela foi completada em tempo mas o material circulante tinha então uma viagem de retorno de milhares de quilômetros. Pensando nestes movimentos iniciais das tropas, o antigo vice-ministro da Superintendência Nacional, I. V. Koyalev, relata o seguinte: “No período de maio até o começo de junho, o sistema de transporte da URSS teve que garantir o transporte de cerca de 800.000 reservistas... isto teve que ser feito secretamente.” (15) Esta preparação não esteve restrita às tropas ordinárias terrestres, como o Coronel-General I. Lyudnikov registrou: “Estando em maio de 1941 no staff do 36º. Corpo de Infantaria, fiquei sabendo que as tropas aerotransportadas estavam concentradas na área de Zhitomir e nas florestas do sudoeste dela. (16)

O Marechal da União Soviética, I. K. Bagramyan, era coronel nesta época e mantinha o posto de Chefe do Departamento Operacional do staff do Distrito Militar Especial de Kiev. Entre outras formações para as quais o distrito deveria assumir responsabilidade, ele nota que durante a última parte de maio de 1941, ele assumiu o comando do 31º. Corpo de Infantaria recém-chegado do extremo oriente após uma jornada de mais de 10.000 km, e então, no final do mês, absorveu o 34º. Corpo do Distrito Militar do Cáucaso do Norte. Este último Corpo tinha sozinho 48.000 homens em suas quatro divisões de infantaria e tinha uma divisão montanhista adicional,”... tínhamos que fornecer alojamentos para quase todo um exército em curto espaço de tempo. No final de maio, escalão após escalão começaram a chegar.” (17) Foi deste modo que o 1º. Escalão Estratégico do Exército Soviético foi secretamente reforçado.

Posicionamento Secreto

Na metade de junho, quando a TASS estava transmitindo seu estranho comunicado e a imprensa soviético estava levando essa informação pra o grande público, o Conselho Militar do Distrito Militar de Odessa recebeu instruções para crier uma administração de exército em Tiraspol, próximo da fronteira romena (18) para o 9º. Exército, o mais móvel e poderoso de todos. Mas a atividade na zona fronteiriça não estava restrita à acomodação de tais formações grandes reforçadas; começou também um reagrupamento secreto de unidades dentro das fronteiras dos distritos. “Sob o pretexto de mudar os campo de verão, as formações se aproximaram da fronteira… A maioria dos movimentos aconteceu à noite.” (19) As publicações oficiais soviéticas estão cheias de relatórios do tipo: “Em 14 de junho, a 78º. Divisão de Infantaria sob o General de Brigada F. F. Alyabushev, sob o pretexto de exercícios de treinamento, foi deslocado em direção da fronteira do Estado.” (20) e “Antes da guerra real, algumas formações do Distrito Militar Especial Ocidental começou a se deslocar em direção da fronteira do Estado em conformidade com as instruções do GS.” (21) e “em 14 de junho, o Conselho Militar do Distrito Militar do Báltico confirmou o plano para o reposicionamento de um número e de regimentos individuais para a zona fronteiriça.” (22) Estes relatos testemunhais são também notáveis por sua ênfase no segredo destes movimentos no cinturão da fronteira, os esforços feitos para despistar e a prontidão das unidades relativa às operações ativas. Os relatos de três oficiais que mais tarde atingiram altos postos no Exército Soviético confirmaram este ponto. O Marechal da União Soviética, R. Ya. Malinowski, na época General de Brigada no comando do 48º. Corpo de Infantaria no Distrito Militar de Odessa, escreve: “Tão cedo quanto 7 de junho, os Corpos deixaram a area de Kirovogrado para Bel´tsy e, em 14 de junho, estava in situ. Este movimento aconteceu sob o disfarce de exercícios de treinamento em larga escala.” (23) O Coronel Bagramyan, que foi mencionado anteriormente, estava ocupado preparando o deslocamento de cinco corpos de infantaria e quarto mecanizados em direção da zona fronteiriça. (24) Em 15 de junho ele foi instruído a começar a mover todos os cinco corpos de infantaria para a fronteira e nota, “eles levaram consigo todo o necessário para operações ativas.” (25) O Marechal, M. V. Zakharov, na época General de Brigada e Chefe de Gabinete do 9º. Exército no Distrito Militar de Odessa, nota que: “Em 15 de junho, as 30ª. e 74ª. Divisões de Infantaria posicionaram-se na floresta a leste de Bel´tsy sob o pretexto de exercícios de treinamento.” (26)

Havia, de fato, 170 divisões no 1º. Escalão Estratégico. Destas, 56 já estavam posicionadas diretamente na fronteira. (27) 114 estavam posicionadas logo atrás na zona fronteiriça, mas: “Entre 12 e 15 de junho a ordem foi dada para os distritos militares ocidentais: todas as divisões estacionadas no interior (daqueles distritos militares) devem ser deslocadas próximo da fronteira do país.” (28) O 1º. Escalão Estratégico agora começava sua concentração diretamente no cinturão da fronteira. Para estes 114 devem ser adicionadas as 69 divisões do 2º. Escalão Estratégico que haviam também se deslocado ou estavam se preparando para tal. Assim, no dia do famoso comunicado da TASS o movimento de 138 divisões estava em andamento: o maior deslocamento de tropas por um único Estado em toda a história da Civilização; um movimento direto para a fronteira e conduzido com o máximo segredo e encobrimento.

Reações ao Comunicado

Retornando ao comunicado da TASS de 13 de junho, ele não fala apenas das intenções alemãs, mas também das ações soviéticas: “Rumores de que a URSS está se preparando para a Guerra contra a Alemanha são falsos e provocativos... os posicionamentos das reservas do Exército Vermelho no verão e as manobras em andamento não têm outro objetivo senão o treinamento de reservistas e verificação do funcionamento do sistema de transporte. É bem conhecido que este é um evento anual, portanto ao descrever estas medidas como hostis à Alemanha é absolutamente absurdo...” Ao comparar a explicação do anúncio da TASS com o que realmente aconteceu em campo, notamos uma certa discrepância, não atípica no caso de Stalin, entre teoria e prática. Por um lado o comunicado tranquilizador, por outro concentração massiva ultra-secreta de tropas na fronteira.

O comunicado da TASS diz que os movimentos estavam relacionados à “verificação do aparato da rede ferroviária.” Entretanto, a concentração de tropas começou em março, atingiu uma vasta escala em maio, e em junho assumiu simplesmente proporções gigantescas. Em outras palavras, o transporte por trilhos (o sistema de transporte nacional mais importante) ficou paralisado por quatro meses completos, e isto na época da colheita quando qualquer vagão tem o seu peso valendo ouro; dificilmente um exercício rotineiro como “verificar o aparato da rede ferroviária”. A explicação de que as movimentações eram “treinamento normal”, é igualmente falsa. Treinamento era realizado no outono quando a colheita havia sido reunida e os campos eram limpos e, além disso, quando a ajuda do Exército com a colheita estava completa. Mas “esta regra foi quebrada em 1941.” (29) Não é de se surpreender que o General de Brigada S. Iovlev, comandando a 64ª. Divisão de Infantaria do 44º. Corpo de Infantaria do Distrito Militar Ocidental Especial, comentou que “a excepcionalidade das movimentações colocavam as pessoas em apreensão.” (30) Por isso a frase repetida “sob o pretexto de treinamento” nos relatórios dos marechais e generais soviéticos relatando estas movimentações.

Outra possibilidade é que os movimentos de tropas tenham sido concebidos como uma demonstração de força. Mas para serem efetivas, as demonstrações precisavam ser vistas; estes movimentos foram realizados de forma tão secreta quanto possível.

As Ações de Stalin

Uma explicação alternativa para os movimentos massivos de tropas é que Stalin, não importando suas declarações no comunicado da TASS, de fato esperava ser atacado pela Alemanha, e estava secretamente aglomerando seus exércitos para criar defesas ao longo da fronteira. Mas esta explicação não é sustentada pelos fatos. Tropas preparando-se para defesa estabelecem trincheiras, canais anti-tanque, barricadas camufladas e cercadas por arame farpado. Basicamente, isto é feito no trajeto do avanço do inimigo, através de estradas e na retaguarda de linhas de rios. Mas o Exército Vermelho não fez nada desse tipo. Como foi relatado anteriormente, divisões foram escondidas nas florestas próximas da fronteira de modo idêntico como as divisões alemãs realizaram seu ataque surpresa. “As tropas de infantaria poderiam ter ocupado e completado instalações defensivas, mas isto não foi feito.” (31)

Esta falha em estabelecer trabalhos defensivos é curiosa já que, com a assinatura do Tratado de Não-Agressão Teuto-Soviético e a subsequente “divisão” da Polônia entre os dois Estados, as forças soviéticas e alemãs agora confrontavam-se ao longo de uma fronteira comum sem nenhum “estado intermediário” entre eles. Além disso, enquanto que a prudência comum poderia ter ditado o fortalecimento, ou pelo menos a retenção da fortificação da Linha Stalin ao longo da fronteira antiga, o oposto estava acontecendo. Este sistema de proteção poderoso foi desmontado e, em muitos lugares, explodido ou enterrado; minas eram retiradas e por uma distância de milhares de quilômetros, “o arame farpado era retirado.” (32) Os destacamentos Partisans, que haviam sido criados no caso dessas terras serem ocupadas pelo inimigo, foram dispensados; (33) cargas explosivas foram removidas de milhares de pontes, estações ferroviárias e complexos industriais, que haviam sido preparados para serem destruídos no caso de uma invasão. Resumindo, esforços colossais foram feitos para destruir tudo conectado à defesa. (34) Ao mesmo tempo, enquanto que antes da assinatura do tratado somente divisões e corpos existiam nos distritos fronteiriços soviéticos, exércitos completos agora começavam a ser montados na nova zona estendida da fronteira. Entre agosto de 1939 e abril de 1941, o número de exércitos na fronteira occidental soviética aumentou de zero para 11. Três adicionais juntaram-se a eles durante maio junto com cinco corpos aerotransportados. Se Hitler não tivesse atacado primeiro, Stalin teria tido 23 exércitos e mais de 20 corpos independents enfrentando-o. Isto aconteceu antes da mobilização geral.

Doutrina Militar Soviética

Nos anos 1930, a doutrina militar soviética considerava que um conflito maior futuro seria uma Guerra de exércitos e milhões de homens, mas aquilo não precisaria necessariamente aguardar o momento quando a mobilização destes milhões de homens estivesse completa antes de a ofensiva começar. Era considerado que nos distritos de fronteira, mesmo no período de paz, haveria tropas que atravessariam a fronteira e entrariam no território inimigo no primeiro dia de Guerra, assim interrompendo a mobilização inimiga e dando cobertura para a sua própria. O Marechal A. E. Egorov pensava que é essencial, mesmo na paz, ter “grupos de invasão” na fronteira. (35) O Marechal M. W. Tukhachevski considerava que isto abrandava o caso um pouco. Em sua visão, não deveria haver “grupos de invasão” mas sim “exércitos de invasão”. Na opinião de Tukhachevski, “a força e posicionamento do exército em avanço devem, basicamente, ser subordinadas à habilidade de cruzar a fronteira imediatamente após o anúncio da mobilização... é essencial para os corpos mecanizados serem posicionados próximos da fronteira... as formações mecanizadas devem ser posicionadas entre 50 e 60 quilômetros da fronteira... de modo a estar capaz de cruzá-la com efeito desde o primeiro dia de mobilização.” (36)

Os Marechais Egorov e Tukhachevski foram mais tarde executados durante o expurgo de Stalin (ambos os oficiais tinham altas posições no Exército Vermelho e subsequentemente no governo) mas suas idéias foram estendidas e desenvolvidas pelo homem que subiu à posição de Chefe do Gabinete Geral e rapidamente tornou-se o praticante mais notável do Exército, o mestre das ofensivas de surpresa, o General de Exército (mais tarde Marechal) G. K. Zhukov. Sob a direção de Zhukov o princípio foi estabelecido que “a responsabilidade pela performance das tarefas do exército de invasão deve ser dada integralmente ao 1º. Escalão estratégico.” (37)

O 1º. Escalão Estratégico que foi formado na fronteira soviética em junho de 1941 foi, em virtude de sua estrutura organizacional, posicionamento e preparação military, claramente ofensivo por natureza. Logo, foi o 2º. Escalão Estratégico que começou seus movimentos secretos em direção da fronteira alemã em 13 de junho de 1941. Muitos marechais e generais soviéticos não sabiam destes fatos diretamente e, é claro, ambos os escalões foram surpreendidos pelo ataque surpresa alemão e teve que atuar de forma defensiva. Entretanto, eles não haviam planejado isso, de modo que o General de Exército M. Kazakov, falando dos exércitos do 2º. Escalão Estratégico, notou: “após o início da guerra, os planos para o seu uso tiveram que sofrer mudanças drásticas.” (38) O General de Brigada V. Zemskov expressou sua proposta estratégica de forma mais precisa, “fomos forçados a usar estas reservas, não para ação ofensiva, de acordo com os planos, mas para defesa.” (39) O General de Brigada M. P. Lukin, que participou nestes eventos como comandante do 16º. Exército, o qual fez parte do 2º. Escalão estratégico, explicou o assunto de forma simples e direta: “fomos criados para lutar em território inimigo.” (40) Enquanto que outro especialista em ataques-surpresa em território inimigo, o Marechal A. M. Vasilevski, corrobora a opinião do General Lukin: “em suas palavras há uma dura verdade.” (41)

Parece certo que a concentração soviética na fronteira estava para ser completada por volta de 10 de julho. (42) Assim, o ataque alemão que ocorreu 19 dias mais cedo encontrou o Exército Vermelho em uma situação totalmente vulnerável – em vagões de trem. Numerosos relatórios soviéticos descreviam mais ou menos o seguinte: “quando a guerra começou, o 63º. Corpo de Infantaria estava a caminho,” (43) “no início da Guerra, a 200ª. Divisão de Infantaria estava a caminho,” (44) e “na erupção da guerra, a 48ª. Divisão de Infantaria estava a caminho.” (45) muitas linhas de tanques, ainda viajando em suas plataformas ferroviárias, ficaram paradas indefesas em campos abertos. E não foram somente tanques, mas canhões, suprimentos e veículos. Uma autoridade notou que: “ao final de junho de 1941, 1.320 plataformas de caminhões estavam estacionadas nas linhas do cinturão frontal.” (46) A imensa escala desta operação ferroviária torna óbvio que alguém havia a organizado antes da eclosão da Guerra, carregada com tanques e caminhões sobre vagões, transportando-os sobre enormes distâncias, e então sido incapaz de descarregá-los.

Houve outras vítimas desta sincronização infeliz do ataque alemão, como o Coronel-General de Artilharia I. Volkotrubenko explica: “Em 1941, a frente ocidental perdeu 4.216 vagões de munição.” (48) Uma baixa mais estranha foi uma coleção de mapas, como o General de Brigada M. Kudryavestev notou: “Havia cerca de 200 vagões com mapas topográficos dos Distritos Militares do Báltico Ocidental e de Kiev. Tivemos que destruir grande parte deste material.” (49) A perda destes mapas merece um exame mais cuidadoso. Por que eles estavam nos vagões? Onde pretendiam ser enviados? Que tipos de mapas eram eles? Se eles eram mapas de regiões interioranas da URSS, eles deveriam estar nas regiões interiores, não havia necessidade de enviá-los para lá.

As Razões para as Ações de Stalin

Quanto mais se estuda as ações de Stalin durante este período crítico, mais aparente se torna que elas não eram uma reação aos movimentos de Hitler. (50) Stalin agiu de acordo com seus próprios planos e estes anteviam uma concentração de tropas soviéticas na fronteira por 10 de julho. Ao determinar o que estes planos pretendiam, é importante considerar o que teria acontecido se Hitler não tivesse atacado antes da data e Stalin tivesse tido a oportunidade de completar sua concentração de tropas na fronteira alemã de forma pacífica e secreta.

Certas conclusões são incontrovertíveis. Primeira, as divisões móveis não poderiam retornar aos distritos distantes de onde vieram. Tal movimento teria absorvido todos os recursos da rede ferroviária por muitos meses e teriam resultado em catástrofe econômica. Segunda, estas forças gigantes não poderiam ser deixadas ao relento onde estavam escondidas durante o inverno. Tantas novas divisões haviam sido criadas e montadas no cinturão frontal que muitas delas já tinham gasto o inverno de 1940-41 em abrigos. Tão cedo quanto 1940, haviam insuficientes centros de treinamento e alcances de artilharia e fuzis na nova fronteira ocidental adquirida, mesmo para as divisões existentes. (52) As tropas que não podem treinar rapidamente perdem sua capacidade de luta.

Em todo empreendimento complexo humano existe um momento crítico no qua los eventos atingem um ponto sem volta. Este momento para a União Soviética veio em 13 de junho de 1941. Após este dia, massas de tropas soviéticas foram secreta, mas inexoravelmente, movidas em direção da fronteira alemã. Depois de 13 de junho, a liderança soviética não podia mais retornar essas tropas ou mesmo Pará-las, por razões militares e econômicas. A guerra tornou-se inevitável para a União Soviética, independentemente de como Hitler poderia ter agido. Finalmente, a composição e disposição das forças na zona fronteiriça não indicavam que elas foram concebidas para permanecer lá. Tais acontecimentos, como o corpo aerotransportado na primeira camada das “defesas”, unidades de artilharia nos locais avançados, o desmantelamento da Linha Stalin e a ausência de qualquer defesa em profundidade ou esforço para construir uma, não ponta a intenção de manter qualquer posição defensiva ao longo da fronteira. Se tudo isto é visto no contexto da doutrina de Zhukov esboçada antes, então torna-se claro que a única intenção militar crível que Stalin poderia ter tido era começar a guerra no verão de 1941.

Os historiadores que aceitaram sem críticas a tese de que Stalin foi vítima de uma agressão não provocada no verão de 1941, devem agora reviser, ou pelo menos modificar, seus pontos de vista.

Referências

1. Muitos historiadores datam este famoso comunicado da TASS em 14 de junho, mas é significativo que ele foi transmitido pela URSS em 13 de junho.

2. Maior-Gcneral P. Grigorenko, V podpolie mogno vstretit tolo krys (Detinetz, New York, 1981). p. 249.

3. G. Oserov. Tupalevska sharaga (Powev-Verlag, Frankfurt/Main, 1971), p. 108.

4. B. H. Liddell Hart, History of the Second World War (Pan, London, 1978). p. 161.

5. For example, R. A. Medvedev, Let History Judge (Alfred Knopf, New York, 1974), p. 900, Worth, A., loc. cit.

6. R. Conquest, The Great Terror: Stalin's Purge of the Thirties (Mac-millan, London, 1968).

7. Marshal K. A. Meretskov, Na Sluzhbe narodu (Pol. Lit., Moscow, 1968), p. 202.

8. Lieutenant-General Birykov, Voenno-istoricheskii Zhurnal (VIZ, 1962, 4), p. 60.

9. Krasnoznamernii Uralsky: History of Ural Military District, (Voenizdat, Moscow, 1983), p. 104.

10. Soviet Military Encyclopaedia (Voenizdat, Moscow, 1978), Vol. 5, p. 34 (Hereafter cited as SVE).

11. Os escritores soviéticos usualmente diferenciam entre distritos de fronteira, que possuem um limite comum com outro estado, e distritos internos, os quais não possuem.

12. Escalões Estratégicos são posicionamentos operacionais de exércitos soviéticos: eles são criados somente quando ação militar é iminente.

13. Army General S. M. Shtemenko, Generalnii shtab v gody voiny (Voenizdat, Moscow, 1968), p. 26.

14. Army General S. P. Ivanov, Nachalnii period voiny (Voenizdat, Moscow, 1974), p. 211.

15. I. V. Kovaliov, Transport v. Velikoi Otechestvennoi voine (Nauka, Moscow, 1981), p. 41.

16. Colonel-General I. Ludnikov, "Pervie dny voiny," VIZ 9 (1966).

17. Marshal I. Kh. Bagramyan, "Zapisky nachalnika operativnogo otdela," VIZ I (1967), p. 61.

18. A Khorcov, "Meroprijtia po povisheniu boevoi gotovnoti," VIZ 4 (1978), p. 86.

19. Ivanov, op. cit., p. 211.

20. Kievsky krasnoznamionny: History of Kiev Military District (Voenizdat, Moscow, 1974), p. 162.

21. Krasnoznamenny Byelorussky Voennii okrug: History of Byelorussian Military District (Voenizdat, Moscow, 1963), p. 18.

22. SVE,Vol. 6, p. 517.

23. Marshal R. J. Malinovski, "Dvadzatiletie nachala VOV," VIZ 6 (1961), p. 6.

24. Marshal I. Kh. Bagramyan, tak nachinalas voina (Voenizdat, Moscow, 1971),p.64.

25.ibid, p. 77.

26. Marshal M. V. Zahkarov, "Stranitsy istorri Vooruzhennykh sil nakanune Velikoi voiny," Voprosy Istorii, 5 (1970), p. 451.

27. Istoriya Vtoroi Mirovoi voiny (1939-1973), Vol. 4, p. 25 and Vol. 3, p. 441.

28. V, Khovostov, Major-General A. Grilev, "Nakanune Velicoi Otechestvennoi voini," Kommunist 12 (1968), p. 68.

29. Ludnikov, op. cit., p. 66.

30. Major-General S. Iovlev, "V boiykh pod Minscom," VIZ 9 (1960), p. 56.

31. V, A. Anfilov, Nachalo Velicoi Otechestvennoi Voiny (Voenizdat, Moscow, 1962), p. 44.

32. Iolev, op. cit., p. 57. 33.VIZ 8 (1981), p. 89.

34. I.T. Starinov, Mini jdut svoego chase (Voenizdat, Moscow, 1964), p. 186.

35. Marshal A. I. Egorov, "Doklad nachalnica shtaba RKKA RVS SSSR," VIZ 10 (1963), p. 31.

36. M. N. Tukhachevski, Izbrannye proizvedeniya (Voenizdat, Moscow, 1964), II, p, 219.

37. VIZ 10 (1963), p. 31.

38. Army General M. Kazakov, "Sozdanie i ipsolzovanie strategicheskikh rezervov," VIZ 12 (1972), p. 46.

39. Major-General V. Zemskov, "Nekotorie voprosy sozdanij i ipsolzovanij strategicheskikh reservov," VIZ 10 (1971), p. 13.

40. Lieutenant-General M. F. Lukin. "V Smolenskom sragenii," VIZ 7 (1979), p. 43.

41. Marshal A.M. Vasilevsky, VIZ 7 (1979), p, 43.

42. Ivanov, op. cit., p. 211.

43. G. P. Kuleschov, "Na Dneprovscom rubege," VIZ 6 (1966), p. 17.

44. Ludnikov, op, cit, p. 68.7 45.VIZ 7 (1974), p. 77. 46.VIZ 1 (1975),p.81.

47. Uma vez começada a guerra, o Distrito Militar Ocidental Especial (um dos cinco criados na fronteira ocidental soviética) foi renomeado para Frente Ocidental. Podemos supor, portanto, que outros quatro distritos fronteiriços tenham reportado baixas, apesar de a escala precisa destas não ser confirmada.

48. Artillery Colonel-General I. Volkotrubienko, "Artillerieskoe snabgenie v pervom periode voiny," VIZ 5 (1980), p. 71.

49. Lieutenant-General M. Kudriavzev, "Topograficheskoe obespechenie voisk v Vilikoi otechestvennoi voine," VIZ 2 (1970), p. 22.

50. M. Mackintosh, Juggernaut (Seeker & Warburg, London, 1967), p. 136.

51. Colonel-General L. M. Sandalov, Peregitoe (Voenizdat, Moscow, 1966), p. 48.

52. Marshal K. S. Moskalenko, Na Igo-Sapadnom Napravlenii (Nauka, Moscow, 1969), pp. 18-20.

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terça-feira, 24 de julho de 2012

Césares russos

Eduardo Szklarz , 10/09/2009

De uma pequena fração de terra ao maior país do mundo, os czares fizeram a Rússia. Opulentos, autoritários e vingativos, eles criaram uma unidade nacional e governaram por mais de mil anos

Eram 2 da manhã quando Nicolau II foi despertado naquele 17 de julho de 1918. O último "imperador de todas as Rússias" agora era prisioneiro dos revolucionários bolcheviques numa casa de Ecaterimburgo, oeste do país. Nicolau foi conduzido com a mulher, o filho, as quatro filhas, o médico e os empregados para um quartinho dos fundos, onde 12 homens os esperavam com armas na mão. Depois do fuzilamento, o pelotão se assustou ao ver que as filhas continuavam vivas - as balas ricochetearam nas jóias costuradas em seus vestidos. O jeito foi terminar o "serviço" com golpes de baioneta.


Nicolau II

Era o fim dos 300 anos da dinastia Romanov. Era também o fim de quatro séculos de domínio dos czares - déspotas com autoridade ilimitada sobre cada um de seus súditos. Ao longo da História, líderes eslavos, sérvios e tártaros também receberam o título de czar (derivado dos "césares" de Roma), mas na Rússia ele adquiriu caráter especial. Usando uma mescla de terror e nacionalismo religioso, os czares russos transformaram um reino minúsculo numa potência mundial e expandiram seu território até ter o dobro do tamanho do Brasil.

Para alguns historiadores, porém, o czarismo não morreu com Nicolau II. Seus métodos autoritários prosseguiram na era soviética e ainda fazem a cabeça dos líderes do Kremlin.

Moscóvia

A semente do czarismo foi plantada no século 9, quando o chefe viking Riurík fundou uma dinastia em Nov-gorod, no noroeste da atual Rússia. Seus descendentes ampliaram o reino até Kiev (Ucrânia), converteram-se à fé ortodoxa - ramo do cristianismo que rompeu com o catolicismo romano no século 11 e se espalhou nos domínios do Império Bizantino. Os descendentes de Riurík usaram o termo "Rus" para descrever seu povo e sua terra. No fim do século 12, o reino se fragmentou em principados rivais e as disputas favoreceram a invasão de Rus pelos tártaros - um povo turco muçulmano que pertencia ao império mongol.

"Os tártaros queimaram cidades e mataram milhares. Naquela época de intensa devoção, os russos pensaram que era um castigo divino", diz o historiador Ronald Hingley, da Universidade de Oxford. Os invasores pouparam o principado de Novgorod, com a condição de que seu príncipe, Alexandre Nevsky, lhes pagasse altos tributos. Foi quando tudo começou. Daniel, filho de Alexandre, tornou-se príncipe de um vilarejo chamado Moscou - e começou a anexar terras. As conquistas tiveram sinal verde dos tártaros, mais preocupados em incentivar as brigas entre os principados fortes. Em troca, os moscovitas obedeciam e pagavam impostos. Resultado: em sete décadas, o reino de Moscóvia cresceu oito vezes. Em 1326, desbancou Kiev como sede da Igreja Ortodoxa. Seus líderes adotaram o título de vseya Rusi ("de toda a Rus"), traduzido em geral como "de todas as Rússias". A essa altura, Moscou já fugia ao controle dos tártaros e criou um regime autoritário cujo príncipe, chamado de czar desde meados do século 15, governava com o apoio de uma facção aristocrática.

"A política de Moscóvia se parecia com a de Al Capone: para vencer os outros reinos, seus líderes tinham de ficar unidos e reconhecer o poder absoluto do príncipe. A crueldade e a unidade eram recompensadas, e os principais clãs se beneficiavam da expansão", diz Dominic Lieven, professor de História Russa na London School of Economics. "Sobre essa política de estilo gângster, a Igreja Ortodoxa carimbou um selo de aprovação." O czar contava com autoridade ilimitada pois seu poder emanava de Deus. A igreja se beneficiava do aumento do poderio russo, pois crescia dentro do cristianismo.

Nos 600 anos seguintes, o principado de Moscou cresceria até ocupar um sexto do planeta. E seus habitantes veriam na monarquia absoluta a única forma de evitar o caos.

A saga dos Ivãs

Talvez o czar moscovita mais eficiente tenha sido Ivã III. Em 43 anos de governo, ele explorou as rivalidades dos tártaros do mesmo jeito que eles tinham feito com os russos. Insuflou o nacionalismo entre o povo e quadruplicou o tamanho do reino. Depois festejou a glória ampliando a construção do Kremlin, a fortaleza que até hoje abriga o governo russo. Não foi à toa que ele ficou conhecido pela alcunha de Ivã, o Grande.

Com a conquista de Constantinopla (Bizâncio) pelos turcos, em 1453, Moscou se proclamou centro da cristandade e herdeira do Império Romano do Ocidente (Bizantino). "Moscou, a terceira Roma!", ouvia-se agora no Kremlin. Ivã III também inaugurou a prática de deportações em massa, que seriam usadas pela União Soviética. Sua crueldade seria mantida por seu filho Vassily III e passaria dos limites com seu neto Ivã IV - chamado também de "o Terrível."

"Ivã IV integra o grupo de superlíderes russos ao lado de Pedro, o Grande, Catarina, a Grande, Lênin e Stálin", diz Hingley. "Todos aplicaram o terror em defesa de si e do regime. Mas enquanto Pedro, Catarina e Lênin se limitaram a objetivos políticos, Ivã IV e Stálin praticaram uma matança extravagante que desafia qualquer compreensão."

Ivan IV, o Terrível

O terrível rebento tinha só 3 anos ao ser escolhido czar, e por isso sua mãe assumiu o trono. Com a morte dela (supostamente envenenada), o país virou palco de lutas entre os boiardos, nobres proprietários de terras. Eles supervisionaram a criação de Ivã, maltratando-o a ponto de fazê-lo passar fome, o que não explica completamente a brutalidade do futuro príncipe. Para muitos pesquisadores, ele sofria surtos de paranoia.

Certo é que Ivã IV se casou com a princesa Anastácia em 1547, ano em que foi coroado oficialmente com o título de "Czar de Toda a Rússia" e ficou conhecido como "o primeiro czar". Seu reinado começou bem: ele derrotou os tártaros e expandiu seus domínios no leste até o mar Cáspio e a Sibéria, transformando Moscóvia num estado multiétnico. Após matar boa parte dos boiardos, vingando os maus-tratos que sofrera na infância, ele deu espaço político a pessoas comuns, como artesãos, professores e profissionais liberais, ao criar o Zemsky Sobor (Assembleia da Nação), que também reunia membros do clero e da nobreza. Mas a morte de Anastácia, também supostamente envenenada, em 1560, provocou um piripaque na cabeça do monarca. Ele prendeu seus conselheiros e abriu fogo contra o povo. O terror ficou a cargo da Oprichnina, um esquadrão de cavaleiros vestidos de preto e com carta-branca para matar quem quisessem. Ao contrário dos outros czares, Ivã IV presenciava as execuções e maquinava formas de morte. Em 1570, uma plateia em Moscou viu como ele e seus homens desmembravam e ferviam vítimas suspeitas de traição.

Ivã IV casou com outras seis mulheres sem se firmar com nenhuma, e ainda se meteu numa guerra suicida contra suecos, poloneses e lituanos. Queria obter acesso ao mar Báltico, mas acabou derrotado. Tanto deslize favoreceu outra invasão de Moscou pelos tártaros. Desavenças na família também causaram uma tragédia pessoal: num de seus ataques de fúria, o czar golpeou seu filho Ivã Ivanovich na cabeça com uma bengala de ferro, matando-o. Amargaria essa dor por toda a vida. O maior mistério em torno de Ivã IV foi sua enorme popularidade. Embora tenha matado mais camponeses que boiardos, ele seria lembrado na URSS como caçador de nobres. Não é à toa que Stálin gostava de comparar a Oprichnina com a polícia secreta soviética, a NKVD (depois KGB).

A era Romanov

Passado o furacão Ivã, os boiardos voltaram a brigar pelo poder, provocando uma época de devastação e pilhagens conhecida como "Tempo dos Problemas". A dureza só terminou em 1613, quando a Assembleia da Nação escolheu o novo czar: Mikhail Romanov - o primeiro de uma dinastia que duraria 300 anos.

Nenhuma dinastia dura tanto tempo sem intrigas. Foi assim com Pedro I e sua irmã Sofia. Como ele tinha só 9 anos ao ser coroado, em 1682, ela virou regente. Aos 17, Pedro viu que a irmã queria tirá-lo da jogada e, com o apoio da nobreza, confinou-a num convento. Assumiu com um grande objetivo: transformar a Rússia num Estado europeu moderno.

Assim, Pedro I organizou o Exército e a Marinha, estabeleceu relações com outros países e traduziu livros para o russo. Também derrotou os suecos em 1709 na batalha de Poltova. Ela marcou a conquista da supremacia russa no nordeste da Europa e a entrada do país no clube das grandes potências. Mais: Pedro I conquistou parte da Estônia e chegou à sonhada costa do Báltico - no extremo mais próximo ao restante da Europa. Lá fundou São Petersburgo e fez dela a capital da Rússia, deixando claro que o reino de Moscóvia era coisa do passado. Assim levava adiante seu projeto de aproximação da cultura europeia, que se refletiu na arquitetura da cidade. Ele acreditava que a formação da Rússia moderna deveria se guiar no modelo das nações europeias, o que causou uma grande cisão cultural no país. De um lado estavam os "ocidentalistas", que apoiavam Pedro; de outro, os "eslavófilos", que rejeitavam as reformas liberais e queriam resgatar o passado idílico, rural e autóctone russo. Além disso, a mudança da capital para São Petersburgo mergulhou a aristocracia em excessos palacianos nos moldes de Versalhes. Tudo isso contribuiu para o enfraquecimento da corte na Revolução de 1917.


Pedro, o Grande

Ao botar uma pá de cal em Moscóvia, Pedro proclamou o Império Russo e assim ganhou três títulos: imperador de toda a Rússia, grande pai da terra e Pedro, o Grande. Por trás de toda essa pompa, estava o aparato brutal de sua guarda militar, a Preobrazhensky. "A longa história da Rússia como uma burocracia terrorista começou de fato com o imperador", diz Hingley.

Ao contrário de Ivã IV, Pedro I era frio, racional. Foi assim que lidou com o rebelde mais famoso do reino: seu filho Alexis, que não aguentou as cobranças do pai e fugiu da Rússia, mas foi caçado. "Seu pai o matou a sangue-frio, ao contrário do surto que levou Ivã a matar o filho dele", afirma Hingley.

No fim das contas, o grande "modernizador" não se importou com os camponeses. Ao contrário: manteve-os na servidão, como meros objetos pertencentes ao Estado e aos nobres. Enquanto a elite russa se parecia cada vez mais com a europeia, a massa ainda vivia na Idade Média.

Catarina, a Grande

Frederica Sofia era uma princesinha sem grandes chances de subir na vida. Seu pai era um dos tantos nobres decadentes da Prússia do século 18. Mas, aos 15 anos, a czarina Isabel a convidou para conhecer seu sobrinho, o príncipe herdeiro Pedro III, neto de Pedro, o Grande. Isabel achava que ela seria mais dócil que uma nobre de alta linhagem para se casar com o futuro czar. Ledo engano!

Para realizar a boda, Sofia se converteu à fé ortodoxa e passou a se chamar Catarina. Mas o casamento logo azedou. Além de obcecado pela disciplina prussiana, Pedro era imaturo e impotente. Ou estéril, como diziam os fofoqueiros da corte. Seja como for, os dois não se bicavam - e ela decidiu disputar o trono sozinha. "Catarina sabia que só seria aceita se parecesse russa. Passava noites aprendendo o novo idioma", diz Henri Troyat na biografia Catarina, a Grande.


Catarina, a Grande

Quando Pedro III assumiu o trono, Catarina sentiu o perigo: o marido a deixaria para se casar com outra. Mandou então seu amante Grigori Orlov, membro da guarda imperial, dar cabo do czar. O clero e a nobreza apoiaram o golpe e aclamaram a nova imperadora: Catarina II. Ela estabilizou o reino e conquistou prestígio entre os europeus. Também abocanhou terras da Turquia, coisa que nem Pedro, o Grande, havia feito.

Mas ai de quem criticasse seu governo. O escritor Alexandre Radishchev foi exilado na Sibéria. Já Yemelyan Pugachov, líder de uma rebelião dos cossacos, terminou esquartejado. E, quanto mais poderosa Catarina ficava, mais amantes ela tinha (leia quadro na pág. 30). "Em 1796, seu filho Paulo I a sucedeu disposto a reverter tudo o que a mãe havia feito. Os dois se odiavam", diz Troyat. De fato, Paulo anistiou Radishchev, prestou homenagens ao pai (Pedro III) e baixou regras prussianas. Por exemplo, proibiu o uso de chapéus redondos e ternos à francesa. Até hoje ninguém sabe quem mandou matá-lo, ou quem foi seu pai biológico. Só se sabe que seu filho Alexandre I, o neto querido e protegido da czarina Catarina, não perseguiu seus assassinos ao assumir o trono.

Gigante de papel

A Rússia entrou no século 19 cheia de contradições. Seus canhões causavam medo, mas seus 14 milhões de habitantes continuavam na miséria. Somariam 60 milhões em 1835, graças à anexação de terras - 95% deles viviam no campo. Era preciso modernizar o país, mas isso ameaçava o poder dos czares. Como dar liberdade ao povo sem perder o controle da nação?

Esses foram os dilemas de Alexandre I, o czar que botou para correr as tropas do general francês Napoleão Bonaparte e desfilou triunfante em Paris. A vitória aumentou a autoestima russa, mas colocou as tropas em contato com as ideias da Revolução Francesa. Os oficiais voltaram para casa querendo um sistema constitucional. E os soldados, emancipação. Alexandre I até falou em reformas liberais, mas era tudo fachada. Sua maior preocupação foi consolidar a Rússia como peça-chave do Congresso de Viena - o pacto celebrado pelas potências europeias em 1815 para restaurar a monarquia após a derrota de Napoleão. Ao lado da Prússia e da Áustria, ele fundou a Santa Aliança para reprimir as revoluções no continente em nome da fé cristã.

A tarefa continuou com seu irmão Nicolau I, outro czar que sonhava transformar a Rússia em cão de guarda da Europa. Mas ficou só no sonho: várias revoluções surgiram em 1848 e puseram fim à Santa Aliança. Nicolau I foi derrotado por ingleses, franceses e turcos na Guerra da Crimeia - prova da fraqueza russa. Faltava tudo, de locomotivas a munição. E faltava acabar com a servidão. Foi o que fez Alexandre II, filho de Nicolau I. "Ele libertou mais escravos que o presidente americano Abraham Lincoln, e sem guerra civil no meio", diz Hingley. Mas as mudanças só jogaram mais água no caldeirão revolucionário. Os socialistas diziam que os libertos viraram escravos da burguesia. Alexandre II escapou de vários atentados até que, em 1881, foi dilacerado por uma granada caseira.

O fim

Não era fácil ser czar no século 20. Alexandre III sabia que não repetiria as façanhas de seus antepassados. Ele bem que tentou reviver a trilogia "autocracia, ortodoxia e nacionalismo", mas em vão. Pouca gente ainda aceitava que a vontade do czar era a vontade de Deus. E outra: insuflar o nacionalismo num império multiétnico, onde apenas 46% dos habitantes eram russos, apenas acionou uma bomba-relógio. Enquanto o movimento revolucionário crescia, os monarcas culpavam os judeus pela crise e matavam milhares nos pogroms, massacres em pequenos vilarejos de israelitas. Entre 1880 e 1920, cerca de 2 milhões de judeus russos emigraram para as Américas fugindo dessas perseguições.


Império Russo - 1912

A hora da implosão estava perto. Em 1904, a Rússia cambaleou numa guerra contra o Japão. Em 1905, centenas de manifestantes morreram ao exigir liberdade em São Petersburgo - num dia lembrado como Domingo Sangrento. Em 1917 não teve jeito: Nicolau II abdicou. Foi fuzilado por ordem de Vladimir Lênin, líder dos bolcheviques. Era a vez deles de derramar sangue. A URSS impôs uma nova ideologia, mas manteve a velha lógica: quanto mais inocentes matasse, menores as deserções e maior a certeza de que todos marchariam rumo à vitória final. Durou 70 anos. Hoje, especialistas veem ares de czar no ex-KGB, ex-presidente e atual primeiro-ministro russo Vladimir Putin. "A Rússia abraçou outra vez o czarismo por várias razões. O país tem longa tradição de um poder indivisível e quase sagrado. A democracia é um conceito negativo no imaginário popular, sinônimo de um pode-tudo onde só os ladrões prosperam. Além disso, a maioria das pessoas associa estabilidade com um líder forte", diz Dmitri Trenin, ex-oficial do Exército russo e diretor do Centro Carnegie de Moscou.

O Kremlin exerce controle cada vez maior sobre as TVs e o Parlamento, enquanto jornais estão sendo comprados por empresários amigos do governo. Coisas de czar...

Os amantes de Catarina

A czarina era ninfomaníaca e não podia viver nem uma hora sem amor

Ter amantes era uma prática comum na corte imperial russa. Mas Catarina II foi insuperável. Aos 23 anos, depois de oito sem dividir a cama com o marido, Pedro III, ela conheceu os prazeres da carne com o jovem Sergei Saltikov. "Ele era lindo como o dia", escreveu Catarina em suas memórias, dando a entender que o mancebo era o pai de seu filho, Paulo I. Saltikov se cansou da imperadora, mas muitos outros viriam. "Minha desgraça é que meu coração não pode se contentar nem uma hora se não tem amor", ela confessou em seu diário. Sorte de Estanislao Poniatowski, um virgem de 23 anos enviado pelo embaixador inglês. Foi o brinquedinho de Catarina, que passou a gastar fortunas com seus amantes. De todos, o mais poderoso foi o tenente Grigori Potiomkin. Ele influía nas decisões da czarina, e talvez tenha sido o único que ela amou. "Potiomkin vivia no palácio. Só precisava dar dois passos, subir uma escada e já estava no aposento real. Chegava desnudo por baixo da bata", diz o biógrafo russo Henri Troyat. Quando o sexo esfriou, Potiomkin passou a selecionar os novos "favoritos".

Ser "favorito", aliás, era uma profissão. O sujeito recebia salário, e quando deixava de agradar era indenizado com terras, rublos e escravos. "Em seguida, abandonava discretamente seus aposentos, enquanto Potiomkin escolhia o substituto", diz Troyat. "O novo candidato era examinado por um médico e depois submetido a uma prova íntima com uma condessa, que passava um relatório a Catarina. Só então ela tomava a decisão."

Revolta dezembrista

Mal-entendido provocou levante popular com consequências trágicas

O império russo viveu uma bela trapalhada em 1825, e tudo por causa de um mal-entendido. Naquele ano, o czar Alexandre I morreu sem deixar herdeiro direto. Quem devia então assumir o trono era seu irmão Constantino I, vice-rei da Polônia. Mas Constantino não queria saber de ser rei. Havia firmado um manifesto no qual transferia esse direito ao irmão mais novo, o belicoso Nicolau I. O problema é que ninguém sabia do documento, cujas cópias ficaram mantidas em segredo no Senado e no Santo Sínodo (cúpula ortodoxa). "Nicolau ignorava o manifesto e jurou fidelidade a Constantino. Só uma renúncia oficial do irmão poderia fazê-lo assumir", diz o biógrafo russo Henri Troyat. Assim, enquanto Constantino demorava para se pronunciar, Nicolau ficava sem ação, sabendo que era mais impopular que o irmão. Quando Nicolau finalmente assumiu, as tropas do Exército já tinham jurado lealdade a Constantino.

Foi no meio dessa sinuca que eclodiu uma revolta em São Petersburgo. Os líderes eram oficiais que queriam instaurar uma monarquia constitucional nos moldes europeus, e achavam que era seu dever defender Constantino contra o irmão. Em 14 de dezembro, milhares de revoltosos se uniram ao levante e invadiram a praça do Senado. Com armas na mão e vodca na cabeça, eles gritavam a favor de Constantino e da Constituição. "Alguns achavam que a Constituição era mulher de Constantino", afirma Troyat. Mal liderados, os rebeldes não avançaram para tomar o poder. Tampouco obedeceram as ordens de Nicolau de cair fora da praça. O czar ordenou que se abrisse fogo contra a multidão, resultando em dezenas de mortos (talvez mais), 3 mil presos, cinco enforcamentos e centenas de exilados na Sibéria. Tudo por culpa de um mal-entendido.

Ovos Fabergé

Joia personalizada era ofertada na Páscoa no lugar do ovo tradicional

Entre os objetos que simbolizam a opulência dos czares russos, nenhum é tão rico em detalhes e surpresas quanto os ovos de Fabergé. Fabricados pelo ourives que deu nome às peças, eram verdadeiras joias em formato ovalado. A história começa quando o czar Alexandre III quis surpreender sua esposa, a czarina Maria Feodorovna, na Páscoa de 1885. Um dos rituais dos seguidores da Igreja Ortodoxa era trocar ovos na celebração da reencarnação de Cristo, como se faz em todo o mundo católico, nos dias de hoje. Mas antigamente os ovos eram de galinha mesmo, e não de chocolate. O detalhe era adorná-los com pinturas. Quando o czar encomendou um ovo de ouro, a Páscoa da dinastia Romanov nunca mais foi a mesma. A cada ano, Fabergé fabricava um ovo mais caprichado, elaborado com esmalte, metais e pedras preciosas. Os ovos sempre continham surpresas em seu interior, que às vezes recontavam episódios da história russa e conquistas do exército ou reproduziam grandes obras arquitônicas. Em 2007, um exemplar foi leiloado por 18,7 milhões de dólares.

Saiba mais

LIVROS

Russia, a Concise History, Ronald Hingley, Thames and Hudson, 1972

O professor de Oxford relaciona o czarismo com outros períodos da história russa.

Catalina, la Grande, Henri Troyat, Ediciones B, 2005

Biografia com detalhes sobre a vida pública e privada da imperadora.

Nicolás II, Dominic Lieven, El Ateneo, 2006

Um livro sobre o último czar que acaba sendo uma bela análise de toda a era czarista.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Como Funcionam os Foguetes

O Princípio da Retropropulsão

O movimento de um foguete é outra aplicação interessante da terceira lei de Newton e do princípio do momento linear. O foguete expele um jato de gases quentes de sua cauda; esta é a força de ação. O jato de gases exerce, por sua vez, uma força sobre o foguete, impelindo-o para frente; é a força de reação. Neste caso, o processo é chamado tecnicamente de retropropulsão, o qual é obtido nos foguetes atuais através da conversão de uma forma de energia em outra num processo químico chamado combustão.

Os motores dos foguetes trabalham utilizando uma mistura de compostos, ou reagentes, químicos. Um propelente é um material cujo consumo pode envolver ou não uma reação química. Ele pode ser um gás, líquido, plasma ou, antes de ocorrer a reação química, um sólido. O termo propelente de foguete é também usado pelo fato de que muitos foguetes também incorporam um oxidante ao seu sistema de combustível. Um motor de foguete pode usar propelente sólido, líquido ou uma mistura de ambos.

Substâncias que possuem a habilidade de “oxidar” outras substâncias são conhecidas como oxidantes, ou agentes de oxidação. Em outras palavras, o oxidante remove elétrons da substância.

Substâncias que têm a habilidade de “reduzir” outras substâncias são chamadas redutores, ou agentes de redução. Ou seja, o redutor transfere elétrons para a substância.

Reações de Redox (oxi-redução) incluem todos os processos químicos nos quais átomos têm seu número de oxidação alterado, como, por exemplo, a combustão do carbono para formar o dióxido de carbono. A palavra redox vem dos conceitos de redução e oxidação. Estes dois termos aparecem juntos, pois numa reação química, qualquer um dos dois não pode ocorrer sem a presença do outro; elétrons perdidos por um composto devem ser ganhos por um outro.

A combustão de propelentes num foguete é um exemplo de reação de redox. Ela é iniciada entre o combustível e o oxidante na câmara de combustão, gerando energia no processo e produzindo um gás aquecido. Este gás sofre expansão, pressionando de forma desigual as paredes da câmara, provocando uma força de reação sobre o foguete. Esta força recebe o nome de empuxo, T, que é definido como:


onde o momento linear do gás, q, é dado por q = m v, sendo m a massa do gás e v a sua velocidade de exaustão. A razão m/t, com t sendo o tempo de combustão dos propelentes é a razão de variação de massa,

Assim, o empuxo é o resultado do desequilíbrio das forças de pressão atuando dentro do motor. Essas forças estão em equilibro radialmente à direção do vetor empuxo, mas não axialmente; a componente do empuxo devida ao momento linear do gás tem origem na força que age sobre a parte superior da câmara de combustão, porém ela não é balanceada por uma força oposta na outra extremidade do motor. Os gases produzidos na reação de combustão são acelerados a velocidades supersônicas por meio de uma tubeira, ou bocal, do tipo convergente-divergente (De Laval), localizada na cauda do foguete. Ao passar pela tubeira, o gás assume a forma de um jato em alta velocidade, mas com pressão e temperatura menores, já que a energia térmica é convertida em energia cinética. A figura 1 apresenta um diagrama esquemático do processo descrito acima.

Figura 1

Uma outra fonte de empuxo é gerada pelo desequilíbrio das forças de pressão normais à seção divergente da tubeira. Na figura 1 vemos a pressão externa (patm) distribuída sobre uma típica câmara de empuxo, também chamada de envelope-motor. Quando essas forças de pressão são somadas, todas elas se anulam, exceto aquelas que atuam diretamente sobre a saída da tubeira, chamada divergente. Combinando os empuxos devidos ao momento linear e à pressão obtemos a equação de empuxo do foguete:


onde ve é a velocidade de exaustão (ejeção) dos gases pela tubeira, po é a pressão no divergente e Ao é a área do divergente.

Velocidade de Propulsão do Foguete

Um foguete pode obter um grande empuxo de duas maneiras: (1) consumindo uma grande quantidade de propelente lentamente ou (2) consumindo uma pequena quantidade de propelente rapidamente. O impulso específico, Isp, é o parâmetro do motor que indica o empuxo obtido pelo consumo de uma determinada quantidade de propelente. Analogamente, podemos dizer que o impulso específico de um sistema de propulsão é o impulso (variação no momento linear) por unidade propelente. Matematicamente:


Dimensionalmente, o impulso específico é dado na unidade de tempo. O significado disto é o seguinte: se um propelente tem um impulso específico de, digamos, 300 segundos, então a combustão de 1kg de propelente produzirá um empuxo de (a) 3kN em 1 segundo de combustão ou (b) 9,81N em 300 segundos de combustão.

Podemos definir a velocidade de propulsão do foguete, V, como sendo:


onde mi é a massa inicial do foguete e mf a massa final do foguete e loge é o logarítimo natural. As massas inicial e final de um foguete estão relacionadas às massas de seus componentes individuais da seguinte maneira:


onde onde mst é a massa do veículo em kg excluindo o propelente e a carga útil, isto é sua massa estrutural, mpr é a massa de propelente necessária em kg e mul é a massa da carga útil, definida como qualquer equipamento, sistema ou ser vivo que desejamos transportar até o espaço para realizar uma missão específica. A razão mi/mf recebe o nome de razão de massa do foguete.

A velocidade de propulsão é determinada no momento do lançamento, quando os reservatórios de propelente do foguete estão cheios. Se a ação da gravidade não tivesse efeito sobre o veículo, e este não consumisse seus reservatórios, aquela seria a velocidade de vôo. Entretanto, à medida que os propelentes são queimados, o peso do foguete torna-se menor, significando que o peso que o motor deve impulsionar é cada vez menor. Como resultado, temos que a aceleração do veículo aumenta gradativamente a partir do lançamento. Neste caso, se também pudéssemos eliminar a massa estrutural, poderíamos atingir uma grande velocidade final de propulsão. De fato, esta eliminação de peso pode ser conseguida durante o vôo, através de uma técnica denominada separação de estágios (staging).

Um foguete multiestágios consiste, geralmente, em um certo número de foguetes acoplados uns sobre os outros que são descartados seqüencialmente à medida que seus propelentes são consumidos. Assim, cada estágio inicia seu movimento com uma velocidade inicial igual à velocidade final do estágio anteriormente descartado. Exemplos de foguetes multiestágios são mostrados na figura 2.

Figura 2

Os satélites artificiais são colocados em órbita da Terra com a ajuda de foguetes multiestágios. O lançamento de um satélite ou espaçonave consiste em uma fase propulsiva (powered flight), na qual a carga é elevada acima da atmosfera e acelerada à velocidade orbital pelo foguete lançador. Esta fase é encerrada com o acionamento, ou ignição (burnout), do último estágio do veículo e separação da coifa, ou cone, principal quando tem início, então, o vôo inercial (free flight). Nesta fase do vôo, o satélite e seu conjunto de motores estão submetidos, numa primeira aproximação, à força gravitacional da Terra apenas. À medida que ele se afasta da superfície, contudo, sua trajetória é afetada pela atração de outros corpos celestes, como o Sol e a Lua. Uma representação esquemática do lançamento de um satélite por um foguete de dois estágios é mostrada na figura 3.

Figura 3


O foguete é impulsionado durante as fases de lançamento e de propulsão. Entretanto, é nesta última fase, com duração de apenas alguns minutos, que a orientação do vetor empuxo deve ser controlada por seu sistema de guiamento. O objetivo principal de um sistema de controle em um foguete é estabelecer ações de controles sobre ele, através da determinação de seus parâmetros de vôo, de modo que ele possa se deslocar segundo uma certa trajetória, consumindo um mínimo de energia de seu sistema de propulsão e permitindo a colocação de sua carga útil em órbita. A atitude, ou direção de vôo, do veículo é controlada em relação a três eixos principais: vertical, lateral e longitudinal, todos perpendiculares entre si e mostrados na figura 4. O vertical é chamado de eixo de guinada, o lateral de eixo de arfagem e o longitudinal de eixo de balanço, ou rolamento. Se o foguete tiver de permanecer estabilizado segundo uma certa trajetória, dispositivos em seu interior devem ser capazes de detectar, medir e corrigir erros de guinada e arfagem no sentido de manter o nariz do foguete sempre apontado para a direção da trajetória.



Figura 4

Tipos de Motores

Um motor de foguete a propelente líquido é geralmente concebido para fornecer um empuxo constante e, portanto, operar com pressão na câmara de combustão fixa. Os foguetes que utilizam sistemas de propulsão a propelentes líquidos são formados pelos seguintes componentes: (i) uma ou mais câmaras de empuxo, (ii) sistema de alimentação de propelentes e (iii) sistema de controle. O objetivo do sistema de alimentação, ou escoamento, é a transferência dos propelentes de seus reservatórios para a câmara de combustão. Basicamente, há dois modos principais de realizar tal tarefa, mostrados nas figuras 5(a) e 5(b).


Figura 5a


Figura 5b


No sistema alimentado por pressão (a), os propelentes são empurrados em direção da câmara por um gás inerte (p. ex., hélio) sob alta pressão. O empuxo obtido por um tal sistema é determinado pelo nível de escoamento de propelente controlado pelo dispositivo regulador de pressão do gás. Para empuxos pequenos (4,5-4.500 N) e de curta duração (10ms), como acontece nos foguetes de manobra, este sistema é o mais recomendado. No sistema alimentado por turbobombas (b), os propelentes são direcionados para a câmara através de bombas, cuja função é aumentar a pressão dos propelentes. Gases aquecidos são produzidos pelo redirecionamento de uma parte dos propelentes até um gerador em separado, que consiste em uma pequena câmara, onde sofrem combustão. Em geral, a bomba e a turbina são montadas juntas formando um conjunto chamado turbobomba. Este sistema é recomendado para empuxos grandes e de longa duração.

O foguete a propelente sólido, conhecido como SRM (Solid Rocket Motor), constitui um sistema relativamente simples, como se vê pela figura 6.

Figura 6


Um SRM típico consiste dos seguintes elementos:

1. Ignitor

• Dispositivo responsável pelo fornecimento de energia suficiente para o início da combustão do propelente sólido.

2. Envelope-Motor

• Vazo de pressão que contém o propelente sólido e retém a pressão de combustão.

• É fabricado de titânio, ligas de alta resistência ou fibra de vidro bobinada.

3. Saia de Empuxo

• Conecta o envelope-motor à estrutura do foguete.

• Transfere a carga de empuxo para o veículo.

4. Grão

• Contém combustível e oxidante granulados presos a uma matriz aglutinante de borracha.

• Combustíveis típicos: metais pulverizados.

• Oxidantes típicos: perclorato de amônia e nitrato de amônia

• Aglutinante típico: polibutadieno

5. Câmara de Combustão

• É um orifício de escape para os gases provenientes da queima do propelente.

• O propelente, quando ignitado, queima de maneira homogênea, contínua e controlada.

• Fornece a área superficial para a combustão do propelente; quanto maior a área, maior a pressão da câmara e o nível de empuxo.

• O formato da câmara (estrela, cilíndrico, etc.) determina a área de queima durante o tempo de combustão.

6. Tubeira

• Controla a expansão dos gases provenientes da câmara.

• É fabricada de materiais resistentes ao calor e à corrosão, como carbono/carbono e carbono fenólico.

• Os principais parâmetros são: razão de expansão e meio-ângulo de cone.

7. Isolante Interno

• Protege o envelope-motor das altas temperaturas de combustão.

• Possui baixa condutividade térmica para reduzir transferência de calor para a estrutura do veículo.

• É formado por material ablativo, o qual dissipa o calor.

O conceito de foguete a propelente híbrido, ou seja, aquele que utiliza uma combinação dos propelentes sólido e líquido, surgiu na década de 1930 na Alemanha. Este tipo de motor trabalha com oxidantes líquidos e combustíveis sólidos. O arranjo do grão é similar ao de um foguete a propelente sólido; entretanto, nenhuma combustão acontece diretamente sobre a superfície daquele em virtude da falta do oxidante. Ao invés disso, o combustível é aquecido, decomposto e vaporizado, de modo que é o vapor liberado que reage com o oxidante líquido, porém longe da superfície do grão. O flúor líquido, o peróxido de hidrogênio, o trifluoreto de cloro e o tetraóxido de nitrogênio podem ser utilizados como oxidantes, enquanto que os combustíveis mais recomendados são os hidrocarbonetos sólidos, o alumínio em pó e o metal híbrido do berílio.

Unidades de Medida:
  • Força: newton (N)
  • Velocidade: metros por segundo (m/s)
  • Massa: quilograma (kg)
  • Tempo: segundo (s)

Fonte:

Propulsão e Controle de Veículos Aeroespaciais, Emerson F. C. Paubel, EDUFSC, 2002.

domingo, 22 de julho de 2012

O Império do Petróleo de Obama

Michael T. Klare, 21/06/2012


À medida que a guerra global de sua administração contra os terroristas, insurgentes e ditadores hostis torna-se mais popularmente conhecida - uma guerra que envolve uma mistura de ataques de aviões-robôs, operações camufladas e assassinatos selecionados pelo presidente - o presidente Obama está sendo comparado ao presidente George W. Bush em seu apetite por ação militar. "Como mostrado pela sua campanha gradativamente crescente dos aviões-robôs," escreveu Aaron Miller, um conselheiro de seis secretários de Estado, para o Foreing Policy, "Barack Obama tornou-se um George W. Bush com anabolizante."

Quando o assunto é política energética internacional, contudo, não é Bush, mas seu vice-presidente, Dick Cheney, que tem fornecido o modelo para o presidente. Como os atuais eventos têm demonstrado, as políticas energéticas de Obama a nível mundial ostentam uma semelhança estranha com as de Cheney, especialmente no modo como ele tem se engajado na geopolítica do petróleo como parte de uma luta global americana pelo domínio futuro entre as principais potências.

Mais do que outros altos funcionários da administração Bush - muitos dos quais com experiência na indústria petrolífera - Cheney focou no papel da energia na política de poder global. De 1995 a 2000, ele trabalhou como presidente do conselho e executivo-chefe da Halliburton, uma grande fornecedora de serviços para a indústria petrolífera. Logo após assumir como vice-presidente, ele foi convidado por Bush para esboçar uma nova estratégia nacional que tem governado a política americana desde então.

Desde cedo, Cheney concluiu que o fornecimento global de energia nãoestava crescendo o suficiente para satisfazer a demanda mundial crescente, e que o controle de segurança sobre as reservas de gás natural e petróleo remanescente seria portanto uma tarefa essencial de qualquer Estado buscando adquirir ou reter uma posição de destaque globalmente. Ele igualmente compreendeu que a elevação de uma nação na predominância seria frustrada ao lhe ser negada fontes de energia essenciais. Assim como o carvão foi o arquiteto do Império Britânico, o petróleo foi, para Cheney, uma fonte crítica pela qual seria algumas vezes necessário ir à guerra.

Mais do que qualquer um de seus pares, Cheney articulou tais visões sobre a importância da energia para a riqueza nacional e poder. "O petróleo é único e estratégico por natureza," ele disse a uma plateia em uma conferência da indústria em Londres em 1999. "Não estamos falando de sabão em pó ou roupas da moda aqui. Energia é verdadeiramente fundamental para a economia mundial. A Guerra do Golfo foi uma reflexão daquela realidade."

A referência de Cheney à Guerra do Golfo de 1990-1991 é particularmente reveladora. Durante aquele conflito, ele era o secretário da defesa e portanto supervisionou o esforço de guerra americano. Mas enquanto seu chefe, o presidente George H.W. Bush, descartou o papel do petróleo na luta contra o Iraque, Cheney não fez segredos de sua crença que a geopolítica energética estava no coração do assunto. "Uma vez que (o autocrata iraquiano Saddam Hussein) conquistou o Kwait e deslocou um exército tão grande quanto o que ele possui," disse Cheney ao Comitê das Forças Armadas do Senado quando perguntado sobre a justificativa da decisão da administração para intervir, "ele claramente estava em posição de ditar o futuro da política energética mundial, e aquilo deu-lhe um estrangulamento em nossa economia."

Esta seria exatamente a mensagem que ele deu em 2002, como o segundo presidente Bush justificou a invasão do Iraque. Se Saddam Hussein seria bem sucedido em adquirir armas de destruição em massa, Cheney disse a um grupo de veteranos naquele 25 de agosto, "(ele) poderia então buscar o domínio de todo o Oriente Médio (e) tomar o controle de uma grande parte das reservas de energia mundiais."

Para Cheney, a geopolítica do petróleo reside no coração das relações internacionais, grandemente determinando o surgimento e a queda das nações. Disto, seguiu-se que quaisquer passos, inclusive guerra e devastação ambiental, estariam justificadas já que elas aumentariam o poder da América às custas de seus adversários.

O Mundo de Cheney

Através de seus discursos, testemunho no Congresso e ações em serviço, é possível reconstruir o plano geopolítico que Cheney perseguiu em sua carreira como estrategista senior da Casa Branca - um plano que o presidente Obama, estranhamente, parece estar implementando, apesar dos muitos riscos envolvidos.

O plano consiste de quatro pontos principais:

1. Promover a produção doméstica de petróleo e gás a qualquer custo para reduzir a dependência da América de fornecedores estrangeiros duvidosos, assim aumentando a liberdade de ação de Washington.

2. Manter o controle do fluxo de petróleo do Golfo Pérsico (mesmo se os EUA diminuírem sua participação de suas fontes de petróleo próprias da região) no sentido de reter um "estrangulamento econômico" sobre a maioria dos importadores de petróleo.

3. Dominar as rotas marítimas da Ásia, de modo a controlar o fluxo de petróleo e outras matérias-primas para os adversários econômicos potenciais da América, China e Japão.

4. Promover a "diversificação" energética na Europa, especialmente através da dependência crescente das reservas de petróleo e gás das antigas repúblicas soviéticas do Mar Cáspio, para reduzir a alta dependência da Europa do petróleo e gás russos, além da influência política de Moscou que isto acarreta.

O primeiro objetivo, aumentar a dependência no gás e petróleo domésticos, foi detalhada na Política de Energia Nacional, a estratégia de Cheney para a energia entregue para o presidente em maio de 2001, em consulta íntima com os representantes das gigantes do petróleo. Apesar de ser muito conhecido por sua defesa da exploração em terras federais, incluindo o Refúgio de Vida Selvagem Nacional do Ártico, o Relatório Cheney (como ele acabou se tornando conhecido) focou grandemente na ameaça do crescimento da dependência dos EUA em fornecedores estrangeiros de petróleo e a necessidade de alcançar maior "segurança de energia" através de um programa acelerado de exploração das fontes de energia domésticas.

"Um objetivo primário da Política de Energia Nacional é adicionar fornecimento de diversas fontes," o relatório declarou. "Isto significa petróleo, gás e carvão domésticos. Ela também significa poder hidroelétrico e nuclear." O plano clamava por um aumento da dependência dos EUA em fontes amigas de energia no hemisfério ocidental, especialmente o Brasil, Canadá e México.

O segundo objetivo, o controle sobre o fluxo de petróleo no Golfo Pérsico, foi, para Cheney, a principal razão tanto para a Primeira Guerra do Golfo quanto para a invasão do Iraque em 2003. Apesar de antes da invasão o presidente e outros altos funcionários focarem nas supostas armas de destruição em massa de Saddam Hussein, seus registros de violação dos direitos humanos e a necessidade de levar a democracia para o Iraque, Cheney nunca escondeu sua crença que o objetivo básico era garantir que Washington controlasse a jugular de petróleo do Oriente Médio.

Após a queda de Saddam e a ocupação do Iraque começar, Cheney estava especialmente sendo sincero em sua insistência que o Irã deveria ser prevenido, pela força das armas se necessário, de desafiar a proeminência americana no Golfo. “Manteremos as rotas marítimas abertas,” ele declarou do deque de um porta-aviões durante manobras próximas à costa do Irã em maio de 2007. “Ficaremos ao lado de outros para prevenir que o Irã consiga armas nucleares e domine a região.”

Cheney também se deteve em outra forma de garantir o controle sobre as rotas marítimas a partir do Estreito de Hormuz, na boca do Golfo Pérsico (a partir do qual 35% do petróleo refinado do mundo circula diariamente) ao longo do Oceano Índico, pelo Estreito de Malacca e em direção dos mares do sul e leste da China. Até agora, estes corredores marítimos permanecem essenciais para a sobrevivência econômica da China, Japão, Coréia do Sul e Taiwan, transportando petróleo e outras matérias primas para suas indústrias e levando bens fabricados nesses países para o mercado mundial. Mantendo o controle dos EUA sobre estas passagens vitais, Cheney acreditava garantir a lealdade dos aliados-chaves asiáticos contra a ascensão da China. Ao perseguir estes objetivos geopolíticos clássicos, ele forçou uma presença naval americana na região Ásia-Pacífico e o estabelecimento de uma rede de alianças militares unindo Japão, Austrália e Índia, tudo objetivando deter a China.

Finalmente, Cheney acreditava poder colocar as rédeas em outra grande potência rival da América, a Rússia. Enquanto seu chefe, George W. Bush, falava do potencial para cooperação com Moscou, Cheney, ainda um velho combatente da Guerra Fria, via a Rússia como um competidor geopolítico e perseguia toda oportunidade para diminuir seu poder e influência. Ele particularmente temia que a crescente dependência da Europa do gás natural russo poderia minar sua resolução de resistir às agressivas investidas russas na Europa Oriental e no Cáucaso.

Para contrabalançar esta tendência, Cheney tentou convencer os europeus para obter mais de sua energia das reservas do Mar Cáspio construindo novas redes de tubulações para aquela região via Georgia e Turquia. A ideia era pular a Rússia, alcançando o Azerbaijão, Kazaquistão e o Turquemenistão para exportar seu gás através dessas linhas, nenhuma delas pertencentes à Gazprom, o monopólio estatal russo. Quando a Georgia ficou sob ataque das forças russas em agosto de 2008, após as tropas georgianas protegerem o enclave pró-Moscou da Ossétia do Sul, Cheney foi o primeiro alto funcionário americano a visitar Tibilisi, levando a promessa de uma assistência de U$ 1 bilhão para assistência à reconstrução, assim como uma oferta de entrada rápida na OTAN. A França e a Alemanha bloquearam a iniciativa, temendo que Moscou pudesse responder com ações que poderiam desestabilizar a Europa.

Obama como Cheney

Este plano de quatro partes, implacavelmente perseguido por Cheney enquanto era vice-presidente, está agora sendo implantado em todo aspecto pelo presidente Obama.

Quando entra em questão a independência energética, Obama abraça a orientação ultra-nacionalista do relatório de 2001 de Cheney, com seu apelo para a dependência no petróleo e gás natural do hemisfério ocidental, não importando os perigos de explorar áreas marítimas frágeis em termos ambientais ou o uso de técnicas perigosas como a fratura hidráulica (N.do T.: técnica de extração de petróleo injetando fluido pressurizado criando fraturas nas formações de rochas). Em discursos recentes, ele afirmou os esforços de sua administração para facilitar a perfuração crescente de petróleo e gás no país e prometeu acelerar a extração em novos locais, incluindo a costa do Alasca e o Golfo do México.

“Nos últimos três anos,” ele afirmou em seu discurso do Estado da União em janeiro, “abrimos milhões de novos acres para exploração de petróleo e gás, e hoje à noite, estou ordenando que minha administração abra mais de 75% de nossos recursos marítimos potenciais de petróleo e gás. Exatamente agora – agora – a produção de petróleo americana é a mais alta do que foi há oito anos atrás... Não somente isto, ano passado dependemos menos de petróleo estrangeiro em relação aos últimos 16 anos.” Ele falou com particular entusiasmo sobre a extração de gás natural por meio da fratura de depósitos de xisto: “Temos uma fonte de gás natural que pode durar cerca de 100 anos. E minha administração fará todo o possível para desenvolver esta energia.”

Obama também tem tornado público seu desejo de aumentar a dependência americana da energia no hemisfério ocidental, diminuindo assim a dependência de fornecedores não confiáveis e não simpáticos no Oriente Médio e África. Em março de 2011, com a Primavera Árabe ganhando força, ele viajou ao Brasil por cinco dias para assuntos de negócios, um pivô energético geopolítico notado na época. Aos olhos de muitos observadores, o foco de Obama no Brasil estava inexoravelmente ligado à ascensão do país como principal produtor de petróleo, graças às novas descobertas nos campos do pré-sal próximos da costa, nas profundezas do oceano atlântico, descobertas que poderiam ajudar os EUA a ficar menos dependentes do petróleo árabe, mas em compensação criar pesadelos na poluição ambiental. Apesar dos ambientalistas terem alertado dos riscos de perfurar nos campos do pré-sal, onde o risco de algo como a Deepwater Horizon está sempre presente (N. do T.: plataforma de petróleo no Golfo do México que explodiu em 2010, provocando um dos maiores desastres ecológicos da história), Obama não fez segredos de suas prioridades geopolíticas. “Pelas estimativas, o petróleo que vocês descobriram recentemente na costa brasileira poderia somar o dobro das reservas que temos nos EUA,” ele disse a líderes empresariais brasileiros na capital do país. “Quando vocês estiverem preparados para iniciar a venda, queremos ser um dos melhores compradores. Numa época quando somos lembrados de como a instabilidade em outras partes do mundo podem afetar o preço do petróleo, os Estados Unidos não poderiam estar mais felizes com o potencial de uma nova e estável fonte de energia.”

Simultaneamente, Obama deixou claro que os EUA manterão seu papel de guardião das rotas marítimas do Golfo Pérsico. Mesmo alardeando a retirada das forças militares americanas do Iraque, ele insistiu que os Estados Unidos encorajarão suas forças de operação aéreas, navais e especiais na região do Golfo, de modo a manter o poder militar total lá. “De Volta para o Futuro,” é como o General de Divisão Karl R. Horst, chefe de staff do Comando Central dos EUA descreveu a nova postura, referindo-se à época antes da Guerra do Iraque, quando os EUA praticavam o domínio na região principalmente por sua superioridade naval e aérea.

Apesar de menos evidente do que “botas no chão”, a presença aérea e naval expandida será mantida forte o suficiente para superar qualquer adversário concebível. “Teremos uma presença contínua robusta nesta região,” declarou a Secretária de Estado Hillary Clinton em outubro último. Tal crescimento tem sido, de fato, acentuado, na preparação igualmente plausível de um ataque contra as instalações nucleares iranianas tanto no caso de Obama concluir que as negociações para dissuadir as atividades de enriquecimento iranianas atingiram um ponto de estagnação, ou para liberar o Estreito de Hormuz, se os iranianos ameaçarem bloquear o transporte de petróleo em retaliação pelas duras sansões econômicas a serem impostas a partir de 1º. de julho.

Como Cheney, Obama também procura garantir o controle americano sobre as rotas marítimas vitais estendendo-se do Estreito de Hormuz até o mar do sul da China. Isto é, de fato, o coração da política “pivô” muito alardeada de Obama para a Ásia e sua nova doutrina militar, primeiro revelada em um discurso para o Parlamento australiano em 17 de novembro. “Como planejamos e preparamos para o futuro,” ele declarou, “alocaremos os recursos necessários para manter nossa presença militar forte nesta região.” Uma prioridade principal deste esforço, ele indicou, seria melhorar a “segurança marítima”, especialmente no mar do sul da China.

Central para o plano de Obama – como aquele avançado por Dick Cheney em 2007 – é a construção de uma rede de bases e alianças cercando a China, a potência emergente global, em um arco desenhado do Japão e Coréia do Sul, passando pelo norte da Austrália, Vietnã e Filipinas no sudeste e fechando na Índia no sudoeste. Ao descrever seu esforço em Canberra, Obama revelou que ele havia acabado de concluir um acordo com o governo australiano para estabelecer uma nova base militar americana em Darwin, na costa norte do país, próximo ao mar do sul da China. Ele também falou do objetivo último da geopolítica americana: uma coalizão regional de estados anti-chineses que incluiria a Índia. “Vemos o aumento da presença americana ao longo da Ásia meridional,” ambos em laços fortes com as potências locais como a Austrália e “em nossa recepção da Índia já que ela ‘parece oriental’ e tem um papel importante como potência asiática.”

Como qualquer um que segue os assuntos asiáticos está ciente, uma estratégia de encurralar a China – especialmente uma que pretende incorporar a Índia à aliança asiática da América – certamente produzirá alarme e resposta de Pequim. “Não acho que eles ficarão contentes,” disse Mark Valencia, um pesquisador sênior no Escritório Nacional de Pesquisa Asiática, falando da reação da China. “Não estou otimista em relação como as coisas estão caminhando.”

Finalmente, Obama seguiu os passos de Cheney em seus esforços para reduzir a influência da Rússia na Europa e na Ásia Central ao promover a construção de uma nova rede de tubulações do Cáspio via Georgia e Turquia para a Europa. Em 5 de junho, na Conferência de Gás e Petróleo Caspiano em Baku, o presidente Ilham Aliyev do Azerbaijão leu uma mensagem de Obama prometendo o apoio de Washington para a linha de gás trans-Anatólia proposta, uma passagem projetada para transportar gás natural do Azerbaijão através da Georgia e Turquia para a Europa – dando a volta pela Rússia, naturalmente. Simultaneamente, a Secretária de Estado Clinton viajou para a Georgia, como Cheney fez, para reafirmar o apoio dos EUA e oferecer aumento da ajuda militar. Como durante a era Bush-Cheney, estes movimentos estão sendo feitos para serem vistos por Moscou como parte de um plano calculado de diminuir a influência da Rússia na região – e estão certos de obter uma resposta hostil.

Em virtualmente qualquer aspecto, então, quando entra em jogo a geopolítica energética, a administração Obama continua a executar o plano estratégico estabelecido por Dick Cheney durante as duas administrações Bush. O que explica este comportamento surpreendente? Assumindo que ele não representa um esforço literal para reproduzir o pensamento de Cheney – e não há nenhuma evidência disso – ele representa claramente o triunfo da geopolítica imperial (e do pensamento mesquinho) sobre a ideologia, princípio, ou mesmo aceitação simples de novas ideias.

Quando você tem duas figuras diferentes como Obama e Cheney perseguindo os mesmos objetivos no mundo – e a primeira vez foi tudo menos sucesso – é um sinal de quão fechado e sufocado o mundo de Washington tornou-se. Numa época em que a maioria dos americanos estão cansados das grandes cruzadas ideológicas, a perseguição do que parece ser simples interesse nacional – na forma de fontes de energia garantidas – pode parecer muito mais atraente como uma forma de razão para o envolvimento militar e político no estrangeiro.

Além disso, Obama e seus conselheiros sem dúvida alguma estão influenciados pela conversa de uma nova “era de ouro” do gás e petróleo norte-americanos, tornada possível pela exploração de depósitos de xisto e outras fontes não convencionais – e geralmente poluidoras -de energia. De acordo com projeções do Departamento de Energia, a dependência americana em energia importada está declinando para os próximos anos (apesar de haver um preço interno a ser pago por tal “independência”), enquanto a da China somente crescerá – uma vantagem geopolítica aparente para os EUA que Obama parece celebrar.

É muito fácil agarrar o apelo de tal geopolítica energética para os estrategistas da Casa Branca, especialmente dado o estado lastimável da economia americana e da utilidade declinante de outros instrumentos de poder nacional. E se você está preparado para fazer vista grossa aos riscos ambientais crescentes da dependência do petróleo marítimo, gás de xisto e outras formas de energia não convencionais, aumentar o estoque de energia dos EUA possui certas vantagens geopolíticas. Mas como a história sugere, engajar-se em confrontos geopolíticos globais com outros concorrentes bem armados geralmente leva a crises de atrito, guerra e desastre.

Neste caso, as manobras geopolíticas de Cheney nos levou a duas guerras custosas no Oriente Médio e aumentou as tensões com a Rússia e a China. O presidente Obama tagarela que ele busca construir um mundo mais pacífico, mas ao copiar o plano energético de Cheney está para produzir justamente o oposto.

http://www.theamericanconservative.com/articles/obamas-empire-of-oil/

Tópico Relacionado:

Por que os EUA invadiram o Iraque?

http://epaubel.blogspot.com.br/2012/06/por-que-os-eua-invadiram-o-iraque.html


sábado, 21 de julho de 2012

[HOL] O Relato do Holocausto de um Historiador Polonês divide seus Compatriotas

Marc Parry

The Chronicle, 25 de junho de 2012

 
Na área do antigo campo de extermínio de Treblinka, membros da milícia polonesa junto com populares vasculham uma cova em busca de pertences de judeus mortos.
 
 
A maioria dos historiadores acadêmicos trabalha na obscuridade. Mas na Polônia ano passado, um pequeno volume de um professor de Princeton sobre a história do Holocausto tornou-se um Best seller controvertido. A editora, Znak, viu sua caixa de correio eletrônico bombardeada, seus negócios ameaçados por boicote e a área de seu escritório pichada. Em uma coletiva de imprensa, a diretora executiva da editora se opôs ao livro e pediu desculpas aos leitores ofendidos.

Tal é a personalidade magnética de Jan T. Gross, de quem um crítico polonês chamou de “um vampiro da historiografia.” O último livro do Sr. Gross, publicado em inglês pela Oxford University Press, investiga um assunto sensível: como os poloneses participaram da pilhagem e assassinato dos judeus “na periferia do Holocausto.”

Seu título, Colheita de Ouro (Golden Harvest, em tradução livre), parte de uma fotografia de capa supostamente mostrando camponeses poloneses escavando uma cova contendo os restos de vítimas mortas em Treblinka, onde 800.000 judeus foram gaseados e cremados, procurando por ouro ou outros objetos de valor desprezados pelos nazistas.

De lá, o sr. Gross narra eventos além do arame farpado dos campos de extermínio nazistas. Ele descreve os poloneses caçando judeus, extorquindo dinheiro deles, massacrando-os e lucrando ao roubar-lhes seus empregos e propriedade. Cerca de 3,3 milhões de judeus viviam na Polônia antes da guerra começar, e cerca de 90% deles pereceram ao seu final.

“Havia um sentimento de satisfação que era muito disseminado que eles estavam sendo eliminados da economia e vida social polonesa,” diz o Sr. Gross em uma entrevista por telefone da Cracóvia, onde ele está dando um curso de férias para estudantes de Princeton. “Quando aparecia uma oportunidade, um grande número de poloneses participava da vitimização de judeus.”

A Colheita de Ouro, escrito com Irena Grudzinka Gross, a ex-esposa do autor, aborda um tema familiar. O livro de 2001 do Sr. Gross, Vizinhos (Neighbors, Princeton University Press), obrigou os poloneses a reconhecer sua história pela reconstrução de um massacre em 1941 na pequena cidade de Jedwabne. Quase todos os seus judeus foram mortos em apenas um dia – cerca de 1.600 pessoas esfaqueadas, surradas e queimadas vivas em um celeiro. O Sr. Gross descobriu que foram poloneses que cometeram este crime contra seus vizinhos e não os nazistas, que foram responsabilizados na história oficial polonesa.

A controvérsia tornou “Jedwabne” em uma palavra comum na Polônia. Lech Walesa, ícone anti-soviético e mais tarde presidente da Polônia, disseminou que o Sr. Gross era “um escritor medíocre... um judeu que tenta ganhar dinheiro.”

Notoriedade em Casa

O sr. Gross nasceu na Polônia, em 1947, de mãe cristã e pai judeu. Como estudante universitário em 1968, ele protestou contra os comunistas e acabou na prisão. Ele conseguiu fugir da Polônia, conseguindo seu Ph.D. em sociologia na Universidade de Yale e mais tarde transferiu-se para os departamentos de ciência política e história.

O escritor nova-iorquino de cabelos grisalhos, 64, aproveita um nível de notoriedade em seu país natal que nenhum historiador americano possui. Quando boatos saem que ele está escrevendo um novo livro, ansiedade espalha-se sobre qual lavação de roupa suja ele fará desta vez. Seus escritos são discutidos na TV.

O Sr. Gross “polariza a opinião pública provavelmente mais do que qualquer outra pessoa fora do mundo político,” diz Jan Grabowski, um historiador do Holocausto que divide seu tempo entre a Universidade de Ottawa e a Polônia.

Seus livros causam alvoroço porque questionam a narrativa nacional de que a Polônia é exclusivamente uma vítima da história, e não participante dos crimes.

O presidente Obama recentemente experimentou a sensibilidade deste tópico em primeira mão quando sua referência a “um campo de extermínio polonês” causou uma confusão diplomática, com os irados poloneses protestando de que foram os nazistas que ergueram os campos em suas terras.

O povo polonês experimentou a Segunda Guerra Mundial como uma tragédia ao trazer os horrores das ocupações nazista e soviética. Em 1940, a polícia secreta soviética executou pelo menos 25.000 poloneses e os enterrou em covas coletivas nas florestas próximas a Katyn e arredores. Enquanto isso, pelo menos 1,9 milhões de civis poloneses não-judeus morreram nas mãos alemãs durante a Segunda Guerra Mundial . Os nazistas invasores aterrorizaram as esferas intelectual e política polonesas, matando aquelas elites e enviando-as para os campos de concentração. Quando rebeldes se revoltaram no Levante de Varsóvia de 1944, as forças alemãs transformaram em pó a capital polonesa.

“E de repente, eis que surge Gross, que diz... não caminhamos na água,” explica o sr. Grabowski (N.do.T: referência a Jesus) . “E havia três milhões de nossos cocidadãos que foram mortos em nosso solo – e vamos ver quais as reações polonesas. Qual foi a participação, ou o papel, de nossos pais, mães e avós? Isto é algo que atinge no coração a crença nacional na inocência... Ele foi o único que liberou esta bagunça fedorenta no ar.”

Depois que Vizinhos apareceu, uma investigação governamental de dois anos praticamente confirmou o relato do Sr. Gross. Mas ele continuou enfiando seu dedo nos olhos poloneses. Em 2006, ele publicou Medo: Anti-Semitismo na Polônia após Auschwitz (Fear: Anti-Semitism in Poland After Auschwitz ). O livro acusa os poloneses de perseguir os judeus que sobreviveram ao Holocausto, focando em um pogrom de 1946 em Kielce que foi realizado após o desaparecimento de um menino de 8 anos.

Em resposta, o arcebispo da Cracóvia culpou a editora do Sr. Gross de acordar “os demônios do anti-polonismo e do anti-semitismo,” de acordo com o The Washington Post. Promotores poloneses anunciaram que eles estavam considerando acusações contra o Sr. Gross por “castigar a nação polonesa,” uma ofensa que acarreta na sentença de prisão máxima por três anos. Eles jamais levaram o caso adiante, mas durante este período, o Sr. Gross teve que se disfarçar na rua para esconder sua identidade.

Estória em uma Fotografia

A fotografia que inspirou o novo livro do Sr. Gross foi um resultado acidental daquela controvérsia. Após ele lembrar da prática de escavar por objetos valiosos nos restos em Treblinka, jornalistas poloneses viajaram para a área entrevistar os locais na vizinhança do campo. Em 2008, a Gazeta Wyborcza, o maior jornal da Polônia, publicou um artigo sobre a escavação, ilustrado por uma foto incrível adquirida de um habitante que costumava administrar o museu de Treblinka.

“Fiquei absolutamente atordoado com esta foto,” diz Sr. Gross. “Ela exemplifica uma combinação de assassinatos e pilhagem que caracteriza a atitude das sociedades europeias em relação aos judeus durante a época da guerra.”

(N. do T.: o escritor Elie Wiesel comentou sobre a pilhagem dos pertences dos judeus húngaros em seu livro A Noite: “A cidade parecia deserta. Mas, por detrás de suas persianas, nossos amigos de ontem esperavam, sem dúvida, o momento de pilhar nossas casas.” (pág. 29, Ediouro, 2001)

A fotografia fora de foco, aparentemente tirada na metade dos anos 1940, evoca uma clássica cena: “um grupo de camponeses na época da colheita após o trabalho, descansando contentes com suas ferramentas diante de uma pilha de corpos,” citando a abertura de Colheita de Ouro. Um olhar mais próximo revela o que repousa diante deles: “crânios e ossos.” Significa que eles estavam escavando por objetos valiosos entre os restos das vítimas do Holocausto.

Isto, de qualquer forma, é como o Sr. Gross interpreta. Outros levantam dúvidas. Konstanty Gebert, um colunista da Gazeta Wyborcza, chama a imagem de controversa. “A foto representa escavadores ou pessoas que estavam coletando restos humanos para arranjo futuro,” ele disse para o The Jewish Daily Forward ano passado. Martyna Rusiniak-Karwat, uma historiadora da Universidade de Varsóvia, disse ao jornal, “Jan Gross usou a foto como evidência primária. Sabemos pouco sobre sua origem.”

(N. do T.: de fato, não se pode tirar conclusões definitivas a partir de uma foto.)

O Sr. Gross tem consciência de que muito é desconhecido sobre a fotografia. Mas ele descreve que tais escavações no pós-guerra eram comuns, e amplamente documentadas. Em Colheita de Ouro, ele cita um escritor que visitou Treblinka em 1945 com uma delegação organizada para investigar os crimes nazistas. Ela descreve saqueadores carregando pás em todos os lugares e se refere à “Corrida ao Ouro de Treblinka.”

A afirmação de que as pessoas da foto estariam simplesmente limpando a área não tem fundamento, para o sr. Gross. Por anos ninguém tentou preservar Treblinka, uma atitude que foi parte de um abandono generalizado no pós-guerra deste sítios, o que faz o Sr. Gross chamá-lo de “escandaloso”. Não foi somente no final dos anos 1950 e 1960 que esforços foram feitos para preservar os antigos campos de concentração, ele diz.

De qualquer forma, o conto do Sr. Gross espalha mais terra ao invés de escavar.

Ele descreve como as vilas próximas dos campos de concentração lucravam com negócios com os guardas do campo, que estavam com os bolsos cheios de dinheiro e objetos valiosos.

Ele fala como judeus tentando escapar da deportação das cidades foram saqueados por schmaltzowniks onipresentes, chantagistas que extorquiam dinheiro deles em troca do silêncio sobre seus esconderijos.

Ele escreve como os judeus escondendo-se no interior foram denunciados e assassinados porque cidadãos locais queriam saquear suas coisas. Ele compara esses assassinatos – feitos abertamente, com a participação das elites locais – a linchamentos.

Colheita de Ouro vai muito além de Vizinhos, relatando que crimes como o massacre de Jedwabne ocorreram em cerca de duas dezenas de vilas e cidades de apenas uma região. No total, talvez “muitas centenas de milhares” de judeus tenham sido mortos por seus compatriotas no território da Polônia, de acordo com o livro.

Como seus predecessores, Colheita de Ouro provocou a ira das principais figuras públicas na Polônia. Os críticos dizem que ele apresenta um quadro incompleto e exagerado. E quanto ao perigo que os poloneses enfrentaram ao ajudar judeus? E sobre o heroísmo de 6.000 poloneses honrados por salvar judeus? Como pode o Sr. Gross – educado como sociólogo, não historiador – justificar tais declarações radicais?

“Gross apresenta comportamento extremo de algumas pessoas desmoralizadas como comportamento de toda uma comunidade,” argumenta Tomasz Nalecz, um historiador e conselheiro do presidente da Polônia, Bronislaw Komorowski, na revista Time. “Hienas existem em todos os lugares. Mas a sociedade polonesa passou muito bem pelo teste, que foi a guerra. Não tenho vergonha dos poloneses.”

Uma diferença distingue o debate sobre Colheita de Ouro dos primeiros tempos do Sr. Gross sob o holofote. Agora, ele não está sozinho.

Após Vizinhos, outros historiadores investigaram as relações judaico-polonesas. Umas puçás semanas antes de Colheita de Ouro aparecer, o Sr. Grabowski publicou Judenjagd: Caçando os Judeus, 1942 – 1945, que corrobora largamente as descobertas do Sr. Gross. O livro, fora da Polônia e agora sob contrato da Indiana University Press, foca em um condado onde muitas centenas de judeus foram para o subterrâneo após as deportações de 1942. Ele conclui que, na vasta maioria dos casos, os judeus foram presos ou denunciados por habitantes locais. A ajuda, se oferecida, “era baseada frequentemente em pagamento polpudo.”

O trabalho trouxe ao Sr. Grabowski uma honra duvidosa. Ele também encontrou seu nome em uma lista de e-mail concorrida. Poloneses ultrajados entupiram sua conta na universidade, ele diz, com “arquivos enormes me dizendo o quão filho da puta sou.”

http://chronicle.com/article/A-Polish-Historians/132499/


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