terça-feira, 7 de agosto de 2012

O Judeu Favorito de Hitler

Meu Paciente, Hitler

Lembranças do Médico Judeu de Hitler

Dr. Eduard Bloch


"Meu paciente, Hitler" pelo Dr. Eduard Bloch "como relatado a J. D. Ratcliff," apareceu originalmente em duas partes no semanário Collier nas edições de 15 e 22 de março de 1941. Naqueles dias pré-televisão, a revista Collier era um dos mais influentes e lidos periódicos dos Estados Unidos. Lembrado por historiadores sérios como uma fonte histórica primária importante sobre a juventude de Hitler, este ensaio é citado, por exemplo, na bibliografia e notas de referência da biografia aclamada de John Toland, Adolf Hitler (Francisco Alves, 2 vol., 1978). É também citada como fonte no estudo de Robert Payne, A Vida e Morte de Adolf Hitler (Praeger, 1973) e na Enciclopédia do Terceiro Reich de Louis Snyder (McGraw Hill, 1976). Mesmo descrevendo francamente o impacto devastador das medidas antisemitas de Hitler em sua própria vida e carreira, o Dr. Bloch também escreve sobre o adolescente Hitler com uma honestidade e sensibilidade que seria quase impensável em uma revista americana de grande circulação hoje. O texto completo do ensaio de duas partes original, incluindo os subtítulos, é reimpresso aqui, com somente comentários adicionais pequenos entre parênteses.

O Editor


Parte I

Estávamos há três dias em direção de Lisboa seguindo a oeste para Nova York. A tempestade no sábado foi ruim, mas no domingo o mar havia se acalmado. Um pouco antes das onze horas da noite nosso navio, a pequena embarcação espanhola Marques de Comillas, obteve ordens para parar. Os oficiais de controle britânicos à borda de um navio queriam examinar os passageiros. A ordem foi que todos ficassem alinhados no salão principal.

Quatro oficiais britânicos, vestindo coletes salva-vidas, entraram. Sem nenhuma palavra eles percorreram a linha, verificando os passaportes. Havia uma certa tensão no ar. Muitos daqueles que estavam à bordo estavam fugindo; eles achavam que haviam conseguido escapar da Europa uma vez que a âncora foi içada em Lisboa. Agora? Ninguém estava certo. Talvez alguns de nós fossem retirados do navio.

Finalmente chegou minha vez. O oficial em comando pegou meu passaporte, deu uma olhada e levantou a cabeça, sorrindo. "Você foi médico de Hitler, não foi?" ele perguntou. Isto era correto. Também teria sido correto para ele acrescentar que sou judeu.

Conheci Adolf Hitler na infância e adolescência. Tratei-o muitas vezes e era intimamente familiar com a vizinhança humilde na qual ele cresceu até atingir a maturidade. Cuidei, em sua agonia final, a pessoa mais próxima e querida para ele - sua mãe.

A maioria dos biógrafos - tanto simpáticos quanto críticos - têm evitado a juventude de Adolf Hitler. Os críticos têm feito disso uma necessidade. Eles poderiam se deter somente nos fatos mais desagradáveis. As biografias oficiais do partido têm passado batido por este período em virtude do desejo do ditador. Por que toda esta sensibilidade anormal em torno de sua juventude? Não sei. Não há nenhum episódio escandaloso o qual Hitler desejaria esconder, a menos que alguém queira voltar a cerca de 100 anos durante o nascimento de seu pai. Alguns biógrafos dizem que Alois Hitler era um bastardo. Não posso falar com certeza sobre este fato.

E sobre aqueles anos iniciais em Linz, Áustria, onde Hitler passou seus anos de formação? Que tipo de garoto era ele? Que tipo de vida ele levava? São sobre estas coisas que falarei aqui agora.

Quando Adolf Hitler tinha Treze Anos

Primeiro, tenho que me apresentar. Nasci em Fraeunburg, uma pequena vila na Boêmia austral que, no curso da minha vida, esteve sob três bandeiras: austríaca, tcheca e alemã. Tenho 69 anos. Estudei medicina em Praga, então me alistei no exército austríaco como médico militar. Em 1899, fui transferido para Linz, capital da Áustria Alta, e a terceira maior cidade no país. Quando completei meu tempo no exército em 1901, decidi permanecer em Linz e praticar medicina.

Como centro urbano, Linz sempre foi sossegada e reservada assim como Viena era alegre e barulhenta. No período do qual estou falando - quando Hitler era um menino de 13 anos - Linz era uma cidade com 80.000 habitantes. Meu consultório e lar eram na mesma casa, uma construção barroca na Landstrasse, a principal rua da cidade.

A família Hitler se mudou para Linz em 1903, pois, acredito, havia boas escolas lá. A estrutura familiar é bem conhecida. Alois Schicklgruber Hitler era filho de uma garota camponesa pobre. Quando ele atingiu idade suficiente para trabalhar, ele conseguiu um emprego como aprendiz de sapateiro, trabalhou no serviço público e tornou-se um inspetor de alfândega em Braunau, uma pequena cidade fronteiriça entre a Bavária e a Áustria. Braunau está a 85 km de Linz. Aos 56 anos, Alois Hitler tornou-se candidato à pensão e aposentou-se. Orgulhoso de seu próprio sucesso, ele estava ansioso para seu filho entrar no serviço público. O jovem Hitler violentamente se opôs à idéia. Ele queria ser artista. Pai e filho brigaram por causa disso enquanto sua mãe, Klara Hitler, tentou manter a paz em casa.

Alois S. Hitler

Enquanto viveu, Alois Hitler tentou moldar o destino de seu filho segundo seus próprios desejos. Seu filho teria a educação que lhe teria sido negada; uma educação que lhe asseguraria um bom emprego no governo. Assim, pai Alois preparou-se para deixar o vilarejo de Braunau e ir para a cidade de Linz. Por causa de seu emprego público, ele não precisava pagar a mensalidade de seu filho na Realschule. Com tudo isto em mente, ele comprou um sítio em Leonding, um subúrbio de Linz.

A família era muito grande. Mais tarde, Adolf ultrapassou tanto os outros que eles são, na melhor das hipóteses, esquecidos. Havia o meio-irmão Alois, que eu nunca encontrei. Ele abandonou o lar muito cedo, conseguiu um emprego como garçom em Londres e mais tarde abriu seu próprio restaurante em Berlim. Ele nunca foi amigo de seu irmão mais novo.

Adolf Hitler recém-nascido

Então havia a Paula, a mais velha das meninas. Ela (na verdade Angela) mais tarde casou o Senhor Rubal (Raubal), um funcionário da Receita em Linz. Mais tarde, após a morte de seu marido (?) e a asensão de seu irmão ao poder, ela foi para Berchtesgaden para tornar-se governanta da casa de Hitler. A irmã Klara por algum tempo administrou um restaurante para estudantes judeus na Universidade de Viena; e a irmã Angela, a mais nova das garotas, (mais tarde) se casou com um professor Hamitsch (Hammitzsch) em Dresden, onde ela ainda vive.

Um Trabalho para a Senhora Hitler

A família mal havia se estabelecido em sua nova casa nos arredores de Linz quando Alois, o pai, morreu repentinamente de um ataque apopléctico (N.do T.: vulgo AVC) (em janeiro de 1903).

Na época, Frau Hitler estava com quarenta e poucos anos. Ela era uma mulher simples e educada. Ela era alta, tinha cabelo castanho, o qual ela mantinha esmeradamente plissado, e uma face longa e oval com olhos azuis-escuros lindamente expressivos. Ela estava desesperadamente preocupada sobre suas responsabilidades após a morte de seu marido. Alois, 23 anos mais velho, sempre cuidou da família. Agora, o trabalho era dela.

Era aparentemente claro que o filho Adolf era muito jovem (não havia completado 14 anos) e também muito frágil para se tornar um fazendeiro. Então, a melhor opção parecia ser vender o sítio e alugar um pequeno apartamento. Isto, ela fez, logo após a morte de seu marido. Com os rendimentos desta venda e a pequena pensão que ela ganhou por causa do emprego público de seu marido, ela conseguiu manter a família unida.

Em uma pequena na Áustria, a pobreza não resulta nas indignidades que ocorrem na cidade grande. Não há favelas e sobrepopulação. Não sei exatamente a renda da família Hitler, mas estando familiarizado com o valor das pensões governamentais, estimo em U$25 por mês. Esta pequena soma permitia-lhes viver reservada e decentemente - pessoas desconhecidas em uma cidade fora de mão.

O Dr. Bloch, que era judeu, tratou Hitler na infância e adolescência, junto com sua mãe e outros membros da família. A foto acima é de 1938, tirada por ordem de Hitler.


O apartamento da família consistia de três pequenos quartos em um sobrado na Bluetenstrasse 9, que atravessa o Danúbio da principal parte de Linz. Suas janelas davam uma excelente visão das montanhas.

Minha impressão predominante do apartamento simples era sua limpeza. Ele brilhava; nem um grão de pó nas cadeiras ou mesas, nem uma porção de lama no chão lustrado, nem uma mancha nas cortinas das janelas. Frau Hitler era uma dona de casa extraordinária.

Os Hitler tinham poucos amigos. Um estava acima dos outros; a viúva do carteiro que vivia no mesmo sobrado.

O orçamento limitado permitia nem mesmo a menor extravagância. ZTínhamos a usual ópera municipal em Linz; nem boa, nem má. Aqueles que escutavam as melhores iam para Viena. Assentos no salão de nosso teatro, o Schauspielhaus, vendidos de 10 a 15 centavos de dólar. Mesmo assim, ocupar um desses assentos para escutar uma trupe indiferente cantando Lohengrin era uma ocasião memorável que Hitler registrou no Mein Kampf!

A maior parte da diversão do garoto era limitada àquelas coisas que eram de graça: caminhadas nas montanhas, um banho no Danúbio, um concerto gratuito de banda. Ele lia extensivamente, e era particularmente fascinado pelas estórias sobre os índios americanos. Ele devorava livros de James Fenimore Cooper, e do escritor alemão Karl May - que nunca visitou a América e jamais viu um índio.

A dieta da família era, por necessidade, simples e austera. Comida era barata e em grande quantidade em Linz; e a família Hitler tinha quase a mesma dieta das outras pessoas vivendo em circunstâncias semelhantes. Carne seria servida talvez duas vezes por semana. A maioria das refeições consistia de sopa de batata ou repolho, pão, bolo e uma torta de pera e cidra de maçã.

Na vestimenta, eles usavam roupas de lã bruta que chamamos de Loden. Adolf, é claro, vestia o uniforme de todos os meninos: calções, suspensórios, um pequeno chapéu verde com uma pena na fita.

Um Amor Materno Extraordinário

Que tipo de menino era Adolf Hitler? Muitos biógrafos o descrevem como um agitador, desafiador, desarrumado; como um jovem grosseiro que personificava tudo o que é desagradável. Isto simplesmente não é verdade. Enquanto jovem, ele era quieto, educado e sobriamente vestido.

Ele registra que aos quinze anos ele se via como um revolucionário político. Possivelmente. Mas deixe-nos ver Adolf Hitler como ele impressionava as pessoas ao seu redor, não como ele impressionava a si próprio.

Ele era alto, pálido, velho para sua idade. Ele não era nem robusto nem doente. Talvez "aparência frágil" seria uma descrição mais apropriada. Seus olhos - idênticos ao de sua mãe - eram grandes, melancólicos e profundos. Sem exagerar, este menino vivia dentro de si. Quais sonhos ele sonhava eu não sei. Exteriormente, seu amor por sua mãe era sua qualidade mais aparente. Mesmo assim, ele não era um "menino da mamãe" no senso comum, nunca presenciei uma ligação mais íntima. Alguns insistem que este amor tendia a ser patológico. Como íntimo da família, não acredito que isso seja verdade.

Klara Poltz Hitler

Klara Hitler adorava seu filho, o caçula da família. Ela permitia-lhe seguir ser ele mesmo em todo lugar possível. Seu pai insistia que ele deveria tornar-se um funcionário público. Ele se rebelou e conquistou sua mãe ao seu lado. Ele logo cansou da escola, então sua mãe permitiu que ele abandonasse os estudos.

Todos os amigos da família sabem como Frau Hitler encorajou seus esforços em tornar-se um artista; a qual custo ninguém pode imaginar. Apesar de sua pobreza, ela permitiu-lhe rejeitar um emprego que lhe foi oferecido na agência de correio, de modo que ele pudesse continuar suas pinturas. Ela adorava suas aquarelas e seus desenhos paisagísticos. Se isto era uma admiração honesta ou simplesmente um esforço para encorajar seu talento eu não sei.

Ela fez o melhor para dar um bom crescimento ao menino. Ela percebeu que ele era puro, limpo e tão bem alimentado quanto sua renda permitia. Toda hora que ele ia ao meu consultório, este menino estranho sentar-se-ia entre os outros pacientes e aguardaria sua vez.

Nunca houve qualquer coisa seriamente errada. Possivelmente sua amígdalas estariam inflamadas. Ele permaneceu parado obediente e firme enquanto eu pressionava sua língua e lavava as manchas com problemas. Ou, possivelmente, ele estaria sofrendo por uma gripe. Eu o trataria e o enviaria de volta para casa. Como qualquer garoto polido de quatorze ou quinze anos ele me saudaria e agradeceria com cortesia.

Eu, é claro, sei da úlcera que o incomodaria mais tarde na vida, grandemente resultado de sua péssima dieta enquanto trabalhava em Viena. Não consigo entender as as muitas referências ao seu problema pulmonar na juventude. Eu fui o único médico a trata-lo durante este período no qual ele supostamente sofria disso. Meus registros não mostram nada deste tipo. Para estar certo, ele não tinha as bochechas rosadas e nem uma saúde forte como a de muitos jovens; mas ele também não era doente.

Na Realschule, o trabalho do jovem Adolf era tudo menos brilhante. Com autoridade nisto, tenho a palavra de seu antigo professor, o Dr. Karl Huemer, um velho amigo meu. Eu era o médico de Frau Huemer. No Mein Kampf, Hitler registra que ele era um estudante relapso na maioria dos assuntos, mas ele amava história. Isto concorda com as lembranças do professor Huemer.

Desejando adicional treinamento em pintura, Hitler decidiu ir a Viena para estudar na Academia. Isto foi um momento decisivo para um membro de uma família pobre. Sua mãe preocupou-se como ele se viraria. Entendo que ela mesmo sugeriu apertar o orçamento familiar para permitir-lhe enviar-lhe uma pequena quantia de dinheiro. Mesmo assim, ele recusou. Ele mesmo foi além: ele assinou sua desistência à herança em favor de suas irmãs. Ele tinha dezoito anos na época.

Não estou certo dos detalhes exatos do que aconteceu em sua viagem a Viena. Alguns dizem que ele não foi admitido na Academia por causa de seu trabalho insatisfatório. Outros aceitam a declaração de Hitler de que sua rejeição doi devido à sua falha em graduar-se na Realschule - o equivalente de uma escola de nível médio americana. De qualquer forma, ele estava de volta em casa após umas poucas semanas. Foi mais tarde neste ano - 1908 (na verdade, 1907) - que coube a mim dar a Hitler o que talvez tenha sido a notícia mais triste de sua vida.

Um dia, Frau Hitler veio me visitar durante a manhã. Ela reclamava de uma dor no peito. Ela conversou com uma voz calma e baixa; quase como um suspiro. A dor, ela disse, era grande; suficiente para acorda-la durante a noite inteira. Ela estava ocupada cuidando do lar e havia recusado procurar auxílio médico. Além disso, ela achava que a dor iria passar um dia. Quando um médico ouve tal estória ele quase imediatamente pensa em câncer. Um exame mostrou que Frau Hitler tinha um enorme tumor no seio. Não contei-lhe o diagnóstico.

A Família Decide

Reuni as crianças em meu consultório no dia seguinte e relatei o caso de forma franca. Sua mãe, eu lhes disse, era uma mulher gravemente doente. Um tumor maligno é sério hoje em dia, mas há trinta anos atrás era ainda mais sério. As técnicas cirúrgicas não eram tão avançadas e o conhecimento do câncer não era tão grande.

Sem cirurgia, expliquei, não havia qualquer esperança de recuperação. Mesmo com ela, havia uma pequena chance de que ela sobrevivesse. Na reunião familiar, eles devem decidir o que deve ser feito.

A reação de Adolf Hitler a esta notícia foi tocante. Sua longa e pálida face estava contorcida. Lágrimas fluíram de seus olhos. Sua mãe, ele perguntou, não tinha nenhuma chance? Somente então eu percebi a magnitude da ligação que existia entre mãe e filho. Expliquei que ela tinha uma chance; mas era pequena. Mesmo esta esperança vazia deu-lhe algum conforto.

As crianças levaram a mensagem para sua mãe. Ela aceitou o veredito como eu estava certo que aceitaria - com coragem. Profundamente religiosa, ela aceitou seu destino como um desejo de Deus. Nunca lhe passou pela cabeça reclamar. Ela submeter-se-ia à cirurgia tão logo eu fizesse os preparativos.

Expliquei o caso para o Dr. Karl Urban, o chefe do staff cirúrgico no Hospital das Irmãs da Misericórdia em Linz. Urban era um dos melhores cirurgiões na Áustria Alta. Ele era - e é - um homem generoso, um crédito em sua profissão. Ele concordou sinceramente em assumir a operação em qualquer base que eu sugerisse. Após um exame, ele concordou com a minha crença que Frau Hitler tinha poucas chances de sobrevivência, mas aquela cirurgia era a única esperança.

É interessante notar o que aconteceu a esse homem generoso quase três décadas mais tarde - após o Anschluss (união) com a Alemanha. Por causa de suas convicções políticas, ele foi forçado a abandonar sua posição no hospital. Seu filho, que foi um dos pioneiros em cirurgia cerebral, também teve o mesmo destino.

Frau Hitler chegou ao hospital em uma manhã no início do verão de 1908 (1907). Eu não lembro a data exata, já que os registros do caso foram transferidos para os arquivos do partido nazista em Munique. De qualquer forma, Frau Hitler passou a noite no hospital e foi operada na manhã seguinte. À pedido desta alma gentil, permaneci ao lado da mesa de operação enquanto o Dr. Urban e seu assistente realizavam a cirurgia. Duas horas depois, dirigi minha carruagem através do Danúbio para a pequena casa na Bluetenstrasse 9, na parte da cidade conhecida como Urfahr. Lá, as crianças me aguardavam.

As garotas receberam a palavra que eu trouxe com calma e reserva. A face do menino estava mergulhada em lágrimas, e seus olhos cansados e vermelhos. Ele escutou até que eu terminei de falar. Mas ele tinha apenas uma pergunta. Em uma voz entrecortada ele perguntou: "Minha mãe sofreu?"

O Pior Momento de Hitler

À medida que as semanas e meses passaram após a operação, a força de Frau Hitler começou visivelmente a cair. No máximo, ela poderia ficar fora da cama por uma ou duas horas por dia. Durante este período, Adolf passou a maior parte deste tempo visitando a casa, para a qual sua mãe havia retornado.

Ele dormia num quarto contíguo ao de sua mãe, de modo que ele podia cuidar dela a qualquer hora durante a noite. Durante o dia, ele pairava em torno da cama larga na qual ela descansava. Na doença que Frau Hitler sofria, há geralmente muita dor. Ela carregou seu fardo bem; resoluta e sem reclamar. Mas para ser uma tortura para seu filho. Um semblante angustiado caía sobre ele quando ele via a dor aparecer no rosto de sua mãe. Havia pouco que poderia ser feito. Uma injeção de morfina de vez em quando daria alívio temporário; mas nada dura para sempre. Mesmo assim, Adolf parecia enormemente feliz mesmo por estes curtos períodos de alívio.

Jamais esquecerei Klara Hitler naqueles dias. Ela tinha 48 anos (47) na época; alta, magra e muito simpática, mesmo acabada pela doença. Ela falava calmamente, paciente; mais preocupada com o que acontecia com sua família do que com a aproximação da morte. Ela não escondeu essas preocupações; ou sobre o fato de que a maioria de seus pensamentos eram para seu filho. "Adolf é ainda muito jovem," ela dizia repetidamente.

No dia 20 de dezembro de 1908 (1907), fiz duas ligações. O fim estava se aproximando e queria que esta boa mulher se sentisse tão confortável quanto eu poderia fazer para ela. Eu não sabia se ela viveria outra semana, outro mês; ou se a morte viria numa questão de horas.

Então, a palavra que Angela Hitler me trouxe na manhã seguinte veio sem surpresa. Sua mãe havia morrido calmamente durante a noite. As crianças decidiram não incomodar-me, sabendo que sua mãe estava além da ajuda médica. Mas, ela perguntou, "você pode vir agora?" Alguém em uma posição oficial teria que assinar a certidão de óbito. Coloquei meu casaco e me dirigi com ela ao lar em sofrimento.

A viúva do carteiro, a amiga mais próxima da família, estava com as crianças, tendo mais ou menos assumido a responsabilidade das coisas. Adolf, sua face mostrando o cansaço de uma noite não dormida, sentou-se ao lado de sua mãe. Para preservar um último momento, ele a desenhou como ela se encontrava em seu leito de morte.

Sentei com a família por um instante, tentando acalmar seu sofrimento. Expliquei que neste caso a morte havia sido uma benção. Eles compreenderam.

Não fui ao funeral de Klara Hitler, que aconteceu na véspera de Natal. O corpo foi levado de Urfahr para Leonding, apenas uns poucos quilômetros distante. Klara Hitler foi enterrada ao lado de seu marido no cemitério católico, atrás da igreja pequena e amarela estuque. Após os outros - as garotas, a viúva do carteiro - deixarem o local, Adolf permaneceu lá; incapaz de se separar do túmulo recém ocupado.

E assim este jovem magro e empalidecido permaneceu sozinho no frio. Sozinho com seus pensamentos na véspera de Natal enquanto o resto do mundo estava alegre e exultante.

Poucos dias após o funeral, a família veio ao meu consultório. Eles desejavam agradecer-me pela ajuda que eu havia lhes dado. Lá estavam Paula, justa e forte; Angela, magra, bonita mas muito anêmica; Klara e Adolf. As garotas falaram o que sentiam enquanto Adolf permaneceu em silêncio. Lembro-me particularmente desta cena de modo tão vivido como se tivesse ocorrido na última semana.

Adolf vestiu um paletó preto e uma gravata mal amarrada. Então, como agora, uma franja de cabelo caiu sobre sua testa. Seus olhos estavam fixados no chão enquanto suas irmãs falavam. Então, chegou sua vez. Ele caminhou para frente e segurou em minha mão. Olhando nos meus olhos, ele disse "Serei eternamente grato ao senhor." Isto foi tudo. Então ele me saudou. Fico pensando se hoje ele lembra desta cena. Estou certo de que ele lembra, pois num certo sentido Adolf manteve sua promessa de gratidão. Favores foram-me garantidos que nenhum outro judeu na Alemanha ou Áustria conseguiu.


Parte II

Quase imediatamente após o funeral de sua mãe, Hitler foi embora para Viena, no sentido de mais uma vez iniciar uma carreira como artista. Seu crescimento para a maturidade foi uma experiência dolorosa já que ele era um garoto introvertido. Mas dias de angústia estavam para vir. Pobre como a família era, ele teve garantida comida e abrigo enquanto vivia em sua casa. Isto não pode ser dito nos dias de Viena. Hitler estava inteiramente envolvido com o objetivo de manter corpo e alma unidos.

Todos nós sabemos de sua vida lá - como ele trabalhou como servente de pedreiro em trabalhos de construção até que peões o ameaçaram empurrá-lo de um andaime. E sabemos que ele escavava neve e pegou vários outros trabalhos que podia encontrar (N. do T.: isto contrasta com a descrição de artista boêmio e vagabundo que William Shirer e outros fizeram a respeito de Hitler em Viena). Durante este período, por três anos na verdade, Hitler viveu em um albergue para homens, o equivalente a um pequeno hotel em qualquer cidade americana. Foi aqui que ele começou a sonhar com o mundo refeito segundo sua própria estética.

Enquanto viveu no albergue, cercado pela ralé da grande cidade, Hitler disse, "Tornei-me insatisfeito comigo mesmo pela primeira vez na vida." A insatisfação consigo mesmo foi seguida da insatisfação com tudo ao seu redor - e o desejo de mudar as coisas de acordo com o seu gosto.

A causticidade do ódio começou a tomar conta do seu corpo. As realidades repugnantes da vida que ele vivia encorajaram-no a odiar o governo, os sindicatos, as pessoas com as quais convivia. Mas ele ainda não tinha começado a odiar os judeus.

Durante este período, ele arrumou tempo para me enviar um cartão postal. No verso, havia a mensagem: "De Viena envio-lhe meus cumprimentos. O seu, sempre fiel, Adolf Hitler." Era uma pequena coisa, mesmo assim eu apreciei. Passei uma grande parte do tempo tratando a família de Hitler, e foi bom saber que este esforço de minha parte não havia sido esquecido.

Publicações oficiais nazistas também registram que eu recebi uma das aquarelas de Hitler - uma pequena paisagem. Se eu recebi, não me lembro. Mas é totalmente possível que ele tenha me enviado uma e que eu tenha esquecido o assunto. Na Áustria, pacientes frequentemente enviam pinturas ou outros presentes para seus médicos particulares como forma de gratidão. Mesmo agora tenho meia dúzia destes óleos e aquarelas que eu salvei; mas nenhum pintado por Hitler entre eles.

Eu preservei, contudo, uma peça do trabalho de arte de Hitler. Esta chegou durante o período em Viena quando ele estava pintando para cartões postais, posters, etc, ganhando dinheiro suficiente para manter-se. Este era uma época em sua vida em que Hitler era capaz de fazer sucesso com seu talento.






Aquarelas de Hitler


Ele pintava estes cartões postais e os secava em frente da lareira, dando a eles uma aparência agradável de antiguidade. Então os outros moradores do albergue os espalhariam pela cidade. Hoje na Alemanha uns poucos exemplares remanescentes destes trabalhos são altamente valorizados e vendidos mais caros do que trabalhos de Picasso, Gauguin e Cézanne!

Hitler enviou-me um destes cartões. Ele mostrava um frade capuchinho segurando uma taça de champagne borbulhante. Abaixo da figura estava a frase: "Prosit Neujahr" - Um brinde para o Ano Novo. No lado reverso, ele havia escrito a mensagem: "A família Hitler envia-lhe os melhores votos de um Feliz Ano Novo. Em gratidão eterna, Adolf Hitler."

Por que eu guardei estes cartões para serem salvos, eu não sei. Possivelmente foi por causa da impressão que me causaram por aquele garoto infeliz. Mesmo hoje, penso nele em termos de sua tristeza e não pelo que ele fez ao mundo.

Aqueles cartões postais têm uma história curiosa. Eles indicavam a extensão com a qual Hitler capturou a imaginação de algumas pessoas. um rico industrial vienense - eu não sei o seu nome pois o negócio foi feito por um intermediário - mais tarde fez uma oferta extraordinária. Ele queria comprar aqueles dois cartões e estava disposto a pagar 20.000 marcos por eles! Rejeitei a oferta na hora, pois não poderia eticamente realizar tal venda.

Há, ainda, outra estória envolvendo estes dois cartões. Dezessete dias após o colapso do governo Schuschnigg e da ocupação da Áustria pelas tropas alemãs (março de 1938), um agente da Gestapo veio até minha casa. Na época, estaca atendendo um paciente, mas minha esposa o recebeu.

Retidos por Segurança

"Estou informado," ele disse, "que vocês possuem algumas recordações do Führer. Gostaria de dar uma olhada nelas." Agindo discretamente, minha esposa não fez nenhum protesto. Ela não queria ter sua casa revirada como alguns lares judeus haviam sido invadidos. Ela encontrou os dois cartões e entregou-lhes. O agente rabiscou um recibo que estava escrito: "Certificado para Proteção de dois Cartões Postais (um deles pintado à mão por Adolf Hitler) confiscados na casa do Dr. Eduard Bloch." Ele foi assinado pelo agente, chamado Grömer, que era um desconhecido pra nós. Ele disse que eu deveria ir à sede da Gestapo na manhã seguinte.

Quase tão logo os nazistas entraram na cidade, a Gestapo se instalou em um pequeno hotel na Gesellenhausstrasse, formalmente patrocinado por clérigos viajantes. Fui até o local e recebido quase imediatamente. Fui cumprimentado gentilmente pelo Dr. Rasch, chefe do escritório local. Perguntei-lhe por que aqueles cartões foram apreendidos.

Aqueles eram dias agitados para a Gestapo. havia muitas coisas para serem investigadas em uma cidade de 120.000 pessoas. O fato desenrolou-se porque o Dr. Rasch não estava familiarizado com o meu caso. Ele me perguntou se eu estava sob suspeita por alguma atividade política desfavorável aos nazistas. Respondi que não estava; que era um profissional sem conexões políticas.

Aparentemente, como se não tivesse pensado nisso antes, ele me perguntou se eu não era ariano. Respondi sem receio: Sou 100% judeu." A mudança que ocorreu nele foi quase instantânea. Previamente, ele agia como se estivesse fazendo um negócio, porém de forma cortês. Agora, ele tornou-se distante.

Os cartões, ele disse, seriam retidos por segurança. Então ele me dispensou, nem erguendo a mão e nem cumprimentando como ele fez quando entrei. Até onde sei, os cartões ainda estão de posse da Gestapo. Eu nunca mais os vi.

Quando foi para Viena, Adolf Hitler estava destinado a desaparecer de nossas vidas por muitos anos. Ele não tinha amigos em Linz por quem pudesse retornar para uma visita e poucos com os quais pudesse trocar correspondência. Logo, foi muito mais tarde que soubemos de sua pobreza miserável naqueles dias, e de sua subseqüente mudança para Munique em 1912 (na verdade, em maio de 1913).

Nenhuma notícia tivemos do modo como ele ficou de joelhos e agradeceu a Deus quando a guerra foi declarada em 1914; e nenhuma notícia de sua participação na guerra como cabo do 16º. Regimento de Infantaria. Não soubemos nada dele ser ferido e envenenado por gás. Não até ele começar sua carreira política em 1920, quando então recebemos notícias deste menino reservado e educado que cresceu ao nosso lado.

Isto era Adolf?

Ocasionalmente, jornais locais publicariam notícias a respeito do grupo de simpatizantes políticos que Hitler estava reunindo em torno de si em \Munique; estórias de seu ódio aos judeus, ao Tratado de Versalhes, e a quase todo o resto. Mas nenhuma importância particular foi relacionada a essas atividades. Não até vinte pessoas morrerem no putsch da cervejaria de 8 de novembro de 1923, Hitler conseguiu notoriedade. Era possível, perguntei-me, que o homem por trás destes atos ser o garoto reservado que havia conhecido - o filho da gentil Klara Hitler?

Eventualmente, mesmo a menção do nome de Hitler na imprensa austríaca foi proibida; mesmo assim, continuamos a receber informações passadas de boca em boca de nosso antigo co-cidadão: estórias de perseguição que ele havia começado; do rearmamento alemão; da guerra por vir. Estes boatos alcançaram ouvidos responsivos. Um partido nazista local reagiu.

Teoricamente, tal partido não deveria existir; ele havia sido banido pelo governo. Na prática, as autoridades deram-lhe sua benção. Proibidos de usar uniforme, os nazistas locais adotaram métodos de identificar-se para todos. Eles usavam meias brancas. Nos seus casacos eles usavam uma pequena flor silvestre, muito parecida com a margarida americana, e no Natal eles queimavam velas azuis em suas casas.

Sabíamos todas estas coisas, mas nada foi feito. De tempos em tempos, autoridades locais encontravam uma bandeira nazista ni túmulo de Klara Hitler em Leonding, e a removeriam sem qualquer cerimônia. Mesmo assim, a tempestade na Alemanha parecia distante. Foi após um tempo que recebi uma notícia de Adolf Hitler. Então, em 1937, um número de nazistas locais se deslocou para a reunião do partido em Nuremberg. Após a reunião, Hitler convidou muitas dessas pessoas para ir com ele à sua casa na montanha em Berchtesgaden. O Führer perguntou por notícias de Linz. Como estava a cidade? As pessoas o apoiavam? Ele perguntou informações sobre mim. Eu ainda estava vivo, ainda praticando medicina? Então, ele fez uma afirmação que irritou os nazistas locais: "O Dr. Bloch," disse Hitler, "é um Edeljude - um judeu nobre. Se todos os judeus fossem como ele, não haveria a questão judaica." Foi estranho, e num certo sentido um elogio, que Adolf Hitler pudesse ver o bem em pelo menos um membro de minha raça.

É curioso agora olhar para trás em relação ao sentimento de segurança que tínhamos pela virtude de vivermos no lado certo de uma linha imaginária, a fronteira internacional. Certamente, a Alemanha não ousaria invadir a Áustria. A França era amiga. A ocupação da Áustria seria contrária aos interesses da Itália. Oh, mas éramos cegos naqueles dias! Então, fomos arrastados para uma série de eventos importantes. Foi com esperança que lemos da viagem de Schuschnigg (chanceler austríaco) a Berchtesgaden; seu plebiscito; sua inclusão de Seyss-inquart em seu gabinete. Possivelmente, passaríamos por essa crise incólumes. Mas a esperança foi morta em apenas algumas horas. Tão logo Seyss-Inquart foi colocado no governo, broches apareceram em todas as lapelas de paletó: "Um Povo, Um Reich, Um Líder."

Quando a Áustria morreu

Em 11 de março de 1938, uma sexta-feira, a rádio Viena esta transmitindo um programa de música. Eram 19:45. De repente, o locutor interrompeu o programa. O Chanceler iria falar. Schuschnigg entrou no ar e disse que a população deveria evitar um banho de sangue, que ele estava capitulando para atender as exigências de Hitler. As fronteiras seriam abertas, e ele terminou sua transmissão com as palavras: "Gott schiitze Österreich" - Deus proteja a Áustria. Hitler estava voltando para Linz.

Nos dias sem dormir que se seguiram, sintonizamos nossos rádios. Tropas estavam atravessando a fronteira em Passau, Kufstein, Mittenwalde e todos os outros lugares. O próprio Hitler estava cruzando o rio Inn em Braunau, o lugar onde nasceu. Quase sem respiração, o locutor nos contou a estória da marcha. O próprio Führer descansaria em Linz. A cidade foi à loucura de tanta alegria. O leitor não deve ter dúvidas sobre a popularidade do Anschluss com a Alemanha. As pessoas o apoiaram. Elas saudavam a invasão das tropas alemãs com flores, gritos e canções. Os sinos da Igreja tocaram. As tropas austríacas e a polícia confraternizaram com os invasores e havia alegria geral.

A praça pública em Linz, a um quarteirão da minha casa, era um tumulto. Toda tarde era tocada a canção Horst Wessel e o Deutschland über Alles. Aviões rasgavam os céus e unidades avançadas do exército alemão eram recebidas com aclamações. Finalmente, a rádio anunciou que Hitler estava em Linz. Instruções avançadas foram dadas à população. Todas as janelas ao longo da rota de procissão deveriam ser fechadas. Todas elas deveriam ser iluminadas. Fiquei na janela de minha casa olhando para a Landstrasse. Hitler passaria diante de mim.

O Herói Retorna

Logo a procissão chegou - o grande e negro carro Mercedez, seis rodas, flanqueado por motocicletas. O menino frágil que tratei tanto, e quem eu não via trinta anos - estava no carro. Eu tinha dado a ele somente bondade, o que ele estava agora fazendo com as pessoas que eu amava? Olhei por cima das cabeças da multidão em Adolf Hitler.

Foi um momento de excitação tensa. Por anos Hitler foi proibido de visitar o país natal. Agora, o país pertencia a ele. A elação que ele sentiu ficou escrita em suas vitórias. Ele sorriu, acenou, deu a saudação nazista às pessoas que infestavam a rua. Então, por um momento, ele acenou em direção da minha janela. Não sei se ele me viu, mas ele deve ter tido aquele momento de reflexão. Aqui estava a casa do Edeljude, que havia diagnosticado o câncer fatal de sua mãe; aqui estava o consultório do homem que havia tratado suas irmãs; aqui estava o lugar que ele havia ido quando garoto para ter suas dores curadas.

Foi um momento breve. Então, a procissão foi embora. Ela moveu-se vagarosamente para a praça da cidade - a Franz Josef Platz, a ser reinaugurada como Adolf Hitler Platz. Ele falou de uma varanda na prefeitura. Eu ouvi pelo rádio. Palavras históricas: a Alemanha e a Áustria eram agora uma única nação.

Hitler ficou no Hotel Weinzinger, particularmente requisitando um apartamento com visão para a montanha Pöstling. Esta vista era a que ele tinha das janelas do seu modesto apartamento onde ele passou sua infância.

No dia seguinte, ele convidou alguns velhos amigos: Oberhummer, um funcionário do partido local; Kubitschek (August Kubizek), o músico; Liedel, o relojoeiro; Dr. Hümer, seu antigo professor de história. Era compreensível que ele não pudesse me convidar, um judeu, para tal encontro, ainda que ele tenha perguntado sobre mim. Por um instante, pensei em pedir por uma audiência, mas decidi que não seria muito inteligente.

Hitler chegou na tarde de sábado. No domingo, ele visitou o túmulo de sua mãe, e avaliou os nazistas locais enquanto eles marchavam diante dele. Sem uniformes, eles vestiam os trajes tradicionais locais. Na segunda, Hitler partiu para Viena.

Em breve, fomos trazidos à dura realidade de quão diferentes as coisas estavam. Havia 700 judeus em Linz. Lojas, casas e escritórios de todas estas pessoas foram marcadas com cartazes amarelos agora visíveis por toda a Alemanha, JUDE - Judeu.

O primeiro sinal de que estava recebendo tratamento especial veio um dia quando a Gestapo local me telefonou. Eu deveria remover os sinais amarelos de meu escritório e casa. Então, uma segunda coisa aconteceu: meu propetário, um ariano, foi até a sede da Gestapo para perguntar se eu deveria continuar no meu apartamento. "Não devemos nos meter neste assunto," foi-lhe dito. "Será tratado por Berlim." Hitler, aparentemente havia lembrado. Então, algo aconteceu que me fez duvidar.

Sem nenhuma razão aparente, meu genro, um jovem médico, foi preso. Nenhuma visita foi permitida a ele, e não recebemos nenhuma notícia sua. Minha filha foi até a Gestapo. "Será que o Führer gostaria de saber que o genro de seu antigo médico foi enviado para a prisão?", ela perguntou. Ela foi tratada de maneira rude e de forma brusca para o seu temor. Os sinais não haviam sido removidos da casa de seu pai? Não era o suficiente? Mesmo assim, sua visita deve ter tido algum efeito. Em três dias seu marido estava livre.

Minha profissão, acredito era uma das mais requisitadas em Linz, começou a definhar cerca de um ano antes da visita de Hitler. Nisto, eu deveria ter percebido um presságio do que estava por vir. Antigos clientes confiáveis foram francos em suas explicações. O ódio propagado pelos nazistas estava tomando conta dos jovens. Eles não patrocinariam mais um judeu.

Por decreto, minhas atividades estavam limitadas a pacientes judeus. Isto era uma outra forma de dizer que eu deveria parar de trabalhar. Planos estavam sendo feitos para livrar a cidade dos judeus. Em 10 de novembro de 1938, uma lei foi estabelecida de que todos os judeus deveriam deixar Linz dentro de 48 horas. Eles deveriam ir para Viena. O choque que esta lei provocou pode ser imaginado. Pessoas que haviam vivido todas as suas vidas em Linz tiveram que vender suas propriedades, colocar suas coisas em malas e partir no espaço de dois dias.

Fui até a Gestapo. Eu deveria partir? Fui informado que uma exceção foi feita no meu caso. Eu poderia ficar. Minha filha e seu marido? Já que eles já haviam declarado sua intenção de emigrar para a América, eles também poderiam ficar. Mas eles teriam que deixar sua casa. Se houvesse um quarto no meu apartamento que eles pudessem ficar, seria permitido a eles se mudar para lá.

Sem mais Favores

Após 37 anos de trabalho ativo, minha profissão havia chegado ao fim. Fui permitido tratar somente de judeus. Após a ordem de evacuação, havia apenas sete membros desta raça vivendo em Linz. Todas tinham mais de oitenta anos de idade.

É compreensível que minha filha e seu marido desejassem levar suas coisas com eles quando emigrassem para a América. Então, viria a minha vez para partir. Conseguir alguma ajuda local em tal assunto estava fora de cogitação. Sabia que não poderia ver Adolf Hitler. Mesmo assim, senti que se pudesse enviar-lhe uma mensagem, ele poderia talvez nos dar alguma ajuda.

Se o próprio Hitler estivesse inacessível, talvez uma de suas irmãs poderia nos ajudar. Klara era a mais próxima, ela vivia em Viena. Seu marido era falecido e ela vivia sozinha em um apartamento modesto em um distrito residencial tranqüilo. Planos foram feitos para minha filha, Gertrude, para viajar até Viena para vê-la. Ela foi até o apartamento, bateu à porta, mas não obteve resposta. Entretanto, ela estava certa de que havia alguém em casa.


Ela procurou a ajuda de uma vizinha. Frau Wolf - Klara Hitler - não recebia ninguém, a vizinha informou, exceto uns poucos amigos íntimos. Mas esta mulher gentil concordou em levar uma mensagem e pedir uma resposta de Frau Wolf. Minha filha esperou. Logo, a resposta chegou. Frau Wolf enviou saudações e faria tudo o que fosse possível. Por sorte, Hitler estava em Viena aquela noite para uma de suas freqüentes, mas não divulgadas, visitas à ópera. Frau Wolf o viu e, estou certo, lhe deu a mensagem. Mas nenhuma exceção foi feita em nosso caso. Quando chegou nossa vez, fomos forçados a partir com os bolsos vazios, como milhares de outros.

Como Hitler tratou um velho amigo - alguém que cuidou de sua família com paciência, consideração e caridade? Vamos resumir os favores:

Não acredito que outro judeu em toda a Áustria tenha sido permitido a manter seu passaporte. Nenhum "J" estava marcado no meu cartão de ração, quando a comida tornou-se escassa. Isto era muito útil porque os judeus hoje (1940 - 1941) têm permissão somente durante horas restritas que são freqüentemente inconvenientes. Sem o "J" no meu cartão, poderia comprar a qualquer hora. Eu inclusive recebi um cartão de ração para roupas - algo geralmente negado a judeus.

Se minhas relações com a Gestapo não fossem precisamente cordiais, eu sofreria nas suas mãos assim como aconteceu com muitos outros. Eu estava sob proteção, e posso realmente acreditar nisso, já que o escritório em Linz recebeu instruções especiais da Chancelaria em Berlim para eu ser atendido para qualquer favor razoável.

É possível, mas improvável, que meu registro de guerra tenha sido particularmente responsável por estas pequenas considerações. Durante a guerra, tive sob minha responsabilidade 1.000 leitos hospitalares, e minha esposa supervisionou o trabalho de recuperação dos doentes. Fui duas vezes condecorado por este serviço.

Hitler Reconstrói sua Cidade Natal

Hitler ainda lembra de Linz como seu lar verdadeiro, e as mudanças que ele trouxe são extraordinárias. A cidade que já foi sossegada e quieta foi transformada por seu "padrinho" - um título honorário particularmente querido para Hitler. Blocos inteiros de velhas casas foram retirados para abrir caminho a modernos prédios de apartamentos; causando, assim, aguda, porém temporária, falta de disponibilidade de casas. Um teatro novo surgiu e uma nova ponte foi construída sobre o Danúbio. A ponte, de acordo com a lenda local, foi projetada pelo próprio Hitler e os planos foram imediatamente completados à época do Anschluss. A vasta Siderúrgica Hermann Göring, estabelecida nos últimos dois anos, está começando suas operações. Para conduzir este programa de reconstrução, vagões repletos de trabalhadores foram importados: tchecos, poloneses e belgas.

Hitler visitou a cidade duas vezes desde o Anschluss, uma na época da eleição, que foi para aprovar a união com a Alemanha; a segunda vez secretamente para ver como a reconstrução da cidade estava progredindo. Toda vez ele ficava no Hotel Weinzinger.   
Na segunda visita, o proprietário do hotel foi informado de que a presença de Hitler na cidade não deveria ser anunciada; que ele faria sua rotina de inspeção pela manhã. Feliz por ter tal personalidade importante em seu estabelecimento, o proprietário não resistiu à tentação de divulgar a notícia. Ele telefonou para vários amigos para dar-lhes a informação. Por esta quebra de disciplina ele pagou caro. Seu hotel foi confiscado.

Muitas vezes, fui procurado por biógrafos de Hitler para informações sobre sua juventude. Na maioria dos casos, me recusei a falar. Mas conversei com um destes homens. Ele era um cavalheiro agradável de meia-idade de Viena, que foi enviado pelo departamento governamental liderado por Rudolf hess, do círculo interno nazista. Ele estava escrevendo uma biografia oficial. Dei-lhe alguns detalhes que pude lembrar, e meus registros médicos que ele enviou em seguida para a sede do partido nazista em Munique. Ele permaneceu em Linz e Braunau por muitas semanas; então, o projeto terminou abruptamente. Foi me dito que ele foi enviado para um campo de concentração. Por que, eu não sei.

Quando finalmente chegou minha vez para deixar Linz rumo a América, soube que seria impossível para mim levar minhas economias comigo. Mas a gestapo tinha mais um favor para mim. Fui permitido levar 16 marcos do país, ao invés dos costumeiros 10!

A organização nazista de médicos concedeu-me uma carta de recomendação, cujo valor não conheço, que diz que eu era "digno de recomendação." Ela continuou dizendo que, por causa do meu "caráter, conhecimento médico e prontidão para ajudar os doentes," eu tinha conquistado "a confiança e estima dos meus companheiros de profissão." Um funcionário do partido sugeriu que eu deveria mostrar alguma gratidão por todos esses favores. Talvez uma carta para o Führer? Antes de eu deixar Linz em uma manhã enevoada e fria de novembro. Eu a escrevi. Eu fico imaginando se ela foi realmente recebida. Ela dizia:

Sua Excelência:

Antes de atravessar a fronteira, gostaria de expressar meus agradecimentos pela proteção que recebi. Na pobreza material que estou agora deixando a cidade onde vivi por 41 anos; mas a deixo cônscio de ter vivido todas as minhas obrigações. Aos 69 anos de idade, recomeçarei minha vida em um país estranho onde minha filha está trabalhando duro para apoiar sua família.

Fielmente seu,

Eduard Bloch


Publicado em Journal of Historical Review, Maio-Junho 1994 (Vol. 14, No. 3), páginas 27-35.

Leitura Recomendada:

August Kubizek, The Young Hitler I Knew (Greenhill, 2006)

Werner Maser, Hitler: Legend, Myth and Reality (HarperCollins, 1975)

John Toland, Adolf Hitler (Francisco Alves, 1978)

Tópico Relacionado:

Qual o motivo do ódio de Hitler aos judeus?

http://epaubel.blogspot.com.br/2012/05/qual-o-motivo-do-odio-de-hitler-aos.html

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Churchill Desmascarado

Adam Young
(N.do T.: este texto é uma continuação do tópico "O Churchill Verdadeiro")




Churchill e a Primeira Guerra Mundial

A Grande Guerra destruiu a cultura européia e o compromisso com a verdade. Em seu lugar, gerações abraçaram o relativismo, niilismo e o socialismo, e das cinzas surgiram Lênin, Stalin e Hitler e suas doutrinas diabólicas que infectaram a cultura moderna. Nas palavras do historiador britânico, Niall Ferguson, a Primeira Guerra Mundial “não foi menos do que o maior erro na história moderna.”

Em 1911, Churchill tornou-se Primeiro Lorde do Almirantado e, durante as crises que se seguiram, usou toda oportunidade que lhe aparecia para espalhar as chamas da guerra. Quando a crise finalmente apareceu, em 1914, Churchill era só sorrisos e foi o único membro do gabinete que apoiou a guerra desde o início. Asquith, seu próprio Primeiro Ministro, escreveu: “Winston (é) muito belicoso e exige mobilização imediata... conseguiu a guerra que queria.”

Churchill foi fundamental em estabelecer o bloqueio ilegal de alimentos à Alemanha. O bloqueio dependia da disseminação de minas marítimas e classificar como contrabando o transporte de comida para os civis. Mas, ao longo de sua carreira, a lei internacional e as convenções criadas para limitar os horrores da guerra não significavam nada para Churchill. Uma das conseqüências do bloqueio de alimentos foi que, enquanto ele matou 750.000 civis alemães pela fome e má nutrição, a juventude que sobreviveu tornou-se nazistas fanáticos.

O Lusitânia

Se Churchill de fato concebeu o afundamento do Lusitânia em 7 de maio de 1915 não está provado ainda, mas é claro que ele fez o possível para garantir que americanos inocentes fossem mortos por alemães na tentativa de romper o bloqueio de alimentos.

Uma semana antes do desastre, Churchill escreveu para Walter Runciman, presidente do Comitê de Comércio que era “muito importante atrair navios neutros para nossas águas, na esperança de envolver os Estados Unidos contra a Alemanha.”

O Lusitânia era um navio de passageiros civil carregado de munições. Um pouco antes, Churchill havia ordenado que os capitães dos navios mercantes, incluindo transatlânticos, para se chocar contra submarinos alemães, e os alemães estavam cientes disso. O governo alemão mesmo anunciou em jornais nova-iorquinos alertando os americanos para não embarcarem nesses navios.

Churchill, ao maquinar a entrada dos Estados Unidos na Grande Guerra, transformou a guerra em uma Jihad Democrática. O Wilsonianismo levou à eventual destruição do Império Austríaco, e a criação de um enorme vácuo de poder na fronteira sul da Alemanha que daria boas oportunidades e aliados para o esforço de Hitler para desobedecer o Tratado de Versalhes.

Mas Churchill não era um estrategista. Tudo o que ele se importava, como ele disse a um visitante após o desastre de Gallipoli, era “a condução da guerra, a derrota dos alemães.”

Churchill entre as Guerras

Churchill, que havia sido apontado Secretário Colonial, inventou dois reinos fantoches, Transjordânia e Iraque, ambos estados artificiais e instáveis. O objetivo de Churchill não era a liberdade de povos oprimidos, como seus admiradores gostam de alardear, mas o domínio da Grã-Bretanha no Oriente Médio para garantir que os poços de petróleo do Iraque e do Golfo Pérsico estivessem garantidos nas mãos britânicas.

A Crise de 1929

Em 1924, Churchill retornou ao Partido Conservador e foi nomeado Chanceler do Exchequer, onde ele colocou a Grã-Bretanha de volta ao padrão ouro, mas não levou em consideração a inflação da guerra do governo britânico, o que prejudicou consequentemente as exportações e arruinou o bom nome do ouro. Mas, é claro, Churchill não dava a mínima para as idéias econômicas. O que lhe interessava era somente que a libra fosse tão forte quanto nos dias da rainha Vitória, que mais uma vez a libra “pudesse olhar o dólar nos olhos.” As conseqüências desta decisão tiveram um impacto longo e desastroso para a civilização ocidental e o conseqüente apelo do socialismo, nazismo e comunismo: a crise de 1929.

Foi a mudança irreal de câmbio de Churchill que fez com que o Banco da Inglaterra e o Federal Reserve (Banco Central) dos EUA conspirassem para apoiar a libra inflacionando o dólar americano, o qual por sua vez alimentou a bolha especulativa durante os anos 1920, que colapsou quando a inflação baixou.

A fama de Curchill – e sua mitologia – origina-se durante o período dos anos 1930. Entretantoos ataques de Churchill a Hitler eram pouco diferentes de seus ataques à Alemanha Imperial do pré-guerra ou mesmo à Alemanha de Weimar do entre-guerras. Era o modo de Churchill ver a Alemanha em todas as épocas e de todos os modos como uma ameaça constante ao império britânico. Uma ameaça que tinha de ser destruída e ser mantida para sempre na coleira. Por exemplo, Churchill denunciou todos os apelos para o desarmamento aliado, mesmo antes de Hitler chegar ao poder. Churchill, como Clemenceau, Wilson e outros líderes aliados, manteve a crença irreal de que a Alemanha derrotada submeter-se-ia para sempre às algemas de Versalhes.

E o que os apologistas de Churchill se esquecem é que o Primeiro Ministro Stanley Baldwin reconheceu na Casa dos Comuns que, tivessem eles dito a verdade para o povo, os conservadores jamais teriam ganho a eleição de 1936. “Supondo que eu tivesse percorrido o país e dito que a Alemanha estava se rearmando e que nós deveríamos estar preparados, alguém acha que nossa democracia pacífica teria ridicularizado este clamor? Foi Neville Chamberlain que começou o rearmamento da Grã-Bretanha após a Crise de Munique, os armamentos que Churchill ridicularizou enquanto esteve na oposição nos anos 1930, incluindo a primeira instalação de radar.

Além disso, o estilo Cassandra* de Churchill durante os anos 1930, espalhou-se generalizadamente porque Churchill saiu de uma ameaça iminente para outra: a Rússia Bolchevista, a greve geral de 1926, os perigos da independência da Índia, a crise da abdicação em 1936. Durante os anos 1930, Churchill era o Menino que Alertava contra o Lobo**.  

* Cassandra é uma personagem da mitologia grega, filha do rei Príamo e da rainha Hécuba de Tróia. Cassandra tornou-se uma jovem de magnífica beleza, devota servidora de Apolo. Cassandra tornou-se uma profetisa, mas quando se negou a dormir com Apolo, ele, por vingança, lançou-lhe a maldição de que ninguém jamais viesse a acreditar nas suas profecias ou previsões. Cassandra passa a ser considerada como louca ao tentar comunicar à população troiana as suas inúmeras previsões de catástrofe e desgraça.

** The Boy Who Cried Wolf é uma fábula popular que conta a estória de um menino pastor que repetidamente brinca com os aldeões levando-os a pensar que um lobo está atacando seu rebanho. Quando um lobo ataca realmente, os aldeões não acreditam no pedido do menino por ajuda e o rebanho é destruído. A moral no final da estória mostra que este é o destino dos mentirosos: mesmo se eles disserem a verdade, ninguém acreditará neles.

Mas, como em todas as outras coisas, mesmo em relação a isso Churchill contradisse a si próprio. No outono de 1937, ele afirmou:

“Três ou quatro anos atrás eu era um alarmista ruidoso... Apesar dos riscos que estavam na forma de profecia, declaro minha crença que uma guerra de proporções enormes não é iminente, e ainda acredito que existe uma chance de nenhuma guerra principal acontecer enquanto vivermos... Não busco isto, se tivesse que escolher entre comunismo e nazismo, escolheria o comunismo.”

E em seu livro “Passo a Passo”, escrito em 1937, Churchill disse isso a respeito de seu inimigo mortal: “... alguém pode não gostar do sistema de Hitler e mesmo assim admirar sua conquista patriótica. Se nosso país for derrotado, espero encontrar um campeão tão indomável para resgatar nossa coragem e nos liderar de volta a nosso lugar entre as nações.” Podemos apenas imaginar se Churchill estava se refrindo a si próprio neste exemplo hipotético.

A mitologia comum é até aqui da verdade histórica que, mesmo sendo um ardente simpatizante de Churchill, Gordon Craig sentiu-se obrigado a escrever: “É razoavelmente bem conhecido hoje que Churchill era frequentemente mal informado, que suas afirmações sobre o poder alemão eram exagerados e suas ordens impraticáveis, que sua ênfase no poder aéreo foi mal colocada.

Além disso, como um historiador britânico notou: “Para registro, é importante lembrar que nos anos 1930, Churchill não se opôs ao apaziguamento da Itália e do Japão.”

Churchill e a Segunda Guerra Mundial

Após Munique, Chamberlain estava determinado que Hitler não teria mais vitórias fáceis, e quando a Alemanha invadiu a Polônia em setembro de 1939, a Inglaterra declarou guerra à Alemanha e Churchill foi convocado para ocupar seu antigo cargo de Primeiro Lorde do Almirantado. Um fato extraordinário então aconteceu: o presidente dos Estados Unidos pulou os tradicionais canais diplomáticos e iniciou uma correspondência pessoal, não com o Primeiro Ministro, mas com Churchill. Estas mensagens eram cercadas por um segredo nervoso, e culminou na prisão de Tyler Kent, o decifrador de mensagens na embaixada americana em Londres. Algumas dessas mensagens continham alusões ao acordo de FDR antes da guerra a uma aliança com a Grã-Bretanha, contrariando seu discurso público e a lei americana.

Três meses antes da Guerra, Roosevelt disse ao rei George VI que ele pretendia estabelecer uma zona no Atlântico patrulhada pela Marinha americana e, de acordo com as notas pessoais do rei, o presidente disse que “se ele visse um submarino alemão, ele o afundaria na hora e aguardaria as conseqüências.” O biógrafo de George VI, John Wheeler-Bennett, considerou que estas conversações “continham a semente do futuro acordo Bases por Destróieres, e também o próprio Acordo Lend-Lease.”

Em 1940, Churchill finalmente tornou-se Primeiro Ministro, ironicamente quando o governo Chamberlain demitiu-se por causa do plano abortado de Churchill para invadir a Noruega de forma preventiva. Após as forças armadas da França serem destruídas pela Blitzkrieg e o exército britânico fugir pelo Canal, Churchill, o conservador, o “anti-socialista”, sujou a lei comum passando uma legislação totalitária colocando “todas as pessoas, seus serviços e suas propriedades à disposição da Coroa,” isto é, nas mãos do próprio Churchill.

Durante a Batalha da Inglaterra, Churchill fez talvez o seu discurso mais famoso, no qual ele plagiou o Premiê francês Georges Clemenceau e onde ele bradou sua famosa frase: “Se o Império Britânico e sua Comunidade durar mil anos, os homens dirão, ‘Esta foi sua melhor hora!’” Isto lembra a frase bombástica de outro homem sobre um Reich de mil anos. Churchill também aconselhou em seu plano para arrastar a América para a guerra: “...não devemos nos render nunca, e mesmo se... esta ilha... for subjugada... então nosso império ultra-marino, armado e guardado pela marinha britânica, continuaria a luta, até, na melhor época divina, o Novo Mundo, com seu poder e força, partir para o resgate e libertação do Velho.” Mas, como os revolucionários marxistas, cristãos milenaristas e outros excêntricos, Churchill não estava interessado “na melhor época divina” ou outra suposta programação sobrenatural, e ele trabalhou noite e dia para conspirar com Roosevelt a entrada da América na guerra.

Como PM, Churchill continuou sua política de se recusar a negociar qualquer paz. Mesmo após a queda da França, Churchill rejeitou as propostas de paz de Hitler. Isto, contudo, mais do que qualquer outra coisa, é suposta ser a base de sua grandeza. Mesmo assim, quais oportunidades foram perdidas para livrar a França, a Inglaterra e os Países baixos do rearmamento antes de 1940 e negociar estratégias militares de defesa? E sobre o tempo perdido que poderia ter sido usado para estudar o método de guerra da Blitzkrieg antes dele ser lançado sobre a França? O historiador britânico John Charmley mostrou o ponto crucial que a recusa inflexível de Churchill mesmo em escutar as propostas de paz em 1940 prejudicou o que ele dizia ser a coisa mais preciosa para ele: o Império e uma Grã-Bretanha não-socialista e independente em assuntos estrangeiros. Alguém poderia acrescentar ainda que ao permitir que a Alemanha dominasse seus vizinhos mais fracos quando a paz era possível possivelmente condenou a judiaria européia. Quantos milhões de judeus a mais e outros europeus foram mortos por causa da estupidez de Churchill? Mas isso é politicamente incorreto, e mesmo possivelmente um crime de ódio sugerir que melhores alternativas àquelas feitas pelos Aliados estivessem disponíveis durante a Segunda Guerra. Só porque algo seguiu um caminho, isto não significa que ele era o único ou mesmo o melhor. De qualquer forma, é controverso dizer isto.            

A proposta de paz percebeu algo que escapou a Churchill, o romântico imperial: mesmo o Império Britânico e seus vastos recursos, sozinho, não poderiam derrotar o poder concentrado que a Alemanha possuía na Europa. E mesmo após a Queda da frança, o objetivo da guerra de Churchill de vitória total só poderia ser alcançado pela inclusão dos Estados Unidos em outra guerra mundial.

Como qualquer francófobo pensaria, os simpatizantes de Churchill esquecem que se o exército americano tivesse topado com a Wehrmacht em 1940 ele teria se saído consideravelmente pior do que o Exército francês.

Envolver a América foi a política de Churchill na Segunda Guerra, assim como foi sua política na Primeira Guerra e seria novamente sua política na Guerra Fria. Churchill colocou seu coração e alma ao garantir que Roosevelt viria em sua ajuda.   

Em 1940, Churchill enviou um agente britânico “intrépido” aos Estados Unidos, onde ele estabeleceu um quartel-general no Rockfeller Center e, com total conhecimento e cooperação de Roosevelt e a colaboração de agências federais, “intrépido” e seus 300 agentes “interceptarm correio, grampearam linhas telefônicas, seqüestraram, ameaçaram” e incessantemente aterrorizaram os seus alvos favoritos, os “isolacionistas” (isto é, jeffersonianos) como se fossem nazistas ou fascistas.

Em junho de 1941, Churchill, buscando uma chance de trazer a América para a guerra, escreveu lembrando o navio de guerra alemão, Prinz Eugen: “Seria melhor, por exemplo, que ele fosse localizado por um navio americano já que ele se sentiria tentado a abrir fogo contra esta embarcação, assim nos dando o incidente através do qual o governo americano seria tão agradecido.”

Churchill também instruiu o embaixador britânico em Tóquio, Sir Robert Craigie, que “a entrada dos Estados Unidos na guerra tanto contra a Alemanha e Itália ou contra o Japão é totalmente compatível com os interesses britânicos. Nada na esfera militar pode comparar-se à importância do Império britânico e dos Estados Unidos trabalhando juntos.”

Em agosto de 1941, Roosevelt e Churchill se encontraram na conferência do Atlântico. Churchill disse a seu gabinete “O presidente disse que ele se envolveria na guerra, mas não a declararia e que ele tornar-se-ia mais e mais provocador. Se os alemães não gostassem, eles poderiam atacar as forças americanas... tudo seria feito para forçar um incidente.”

Após os EUA entrarem oficialmente na guerra, em 15 de fevereiro de 1942, na Casa dos Comuns, Churchill declarou sobre a entrada da América na guerra: “isto é o que sempre sonhei, lutei, trabalhei e agora finalmente aconteceu.”

Esta aliança enganadora ilustra outra falha de Churchill. Sua subordinação dos objetivos políticos ao planejamento militar. Churchill fez a guerra pelo objetivo de criar guerra, com pouca consciência dos resultados políticos de tal ação. Ele uma vez disse a Asquith que sua ambição na vida era “comandar grandes exércitos vitoriosos em batalha.” E a Segunda Guerra foi sua oportunidade. Churchill e Roosevelt estavam ambos ansiosos para fazer qualquer coisa para destruir a ameaça da Alemanha Nazista, numa época quando Hitler havia matado talvez muitas centenas de milhares, e para fazer isso eles se aliariam ao antigo aliado de Hitler na invasão da Polônia, Josef Stalin (a União Soviética foi mesmo convidada a se juntar ao Eixo em 1940***), que já havia matado dezenas de milhões. Mas por que é sabedoria convencional que o compromisso com um ditador em um período vital teria sido imoral, enquanto colaboração com um ditador ainda maior com genuínas ambições globais era marca de grandeza?

***http://en.wikipedia.org/wiki/German%E2%80%93Soviet_Axis_talks

A verdade é que Churchill não se importava com nada exceto a Grã-Bretanha. As vidas, os lares e culturas de não-britânicos ele tomou e destruiu sem o menor remorso ou pensando duas vezes. Que tipo de “conservadorismo” exige o assassinato de milhões de inocentes indefesos? Winston Churchill foi um homem que, junto com Roosevelt, Hitler e Stalin, provaram como a Civilização Ocidental poderia cair em apenas seis anos. 

Churchill deu apoio ao líder guerrilheiro comunista Tito. Que a vitória de Tito significava não era segredo para Churchill. Quando um funcionário apontou que Tito pretendia transformar a Iugoslávia em uma ditadura comunista do tipo estalinista, Churchill respondeu: “Você pretende viver lá?” Que humanista.

É claro, em Stalin, Churchill e Roosevelt foram confrontados com um homem que tinha como objetivo político a guerra. Stalin sabia o que ele queria alcançar com a destruição da Alemanha. Para Churchill, seu único objetivo era derrotar Hitler, e a partir de então ele começaria a pensar no futuro da Grã-Bretanha e da Europa. Churchill disse isso em muitas palavras: “Era para ser a derrota, ruína e castigo de Hitler, para a exclusão de todos os outros propósitos, lealdades e objetivos.”

O objetivo de Churchill era em suas palavras, “a prevenção definitiva de sua (dos alemães) ascensão como Potência Militar.” Não é de surpreender, portanto, que ao invés de fazer esforço para encorajar e ajudar os grupos de resistência anti-nazistas na Alemanha, Churchill respondeu aos enviados da resistência alemã com silêncio, assim ajudando a prolongar a guerra e a morte. Muito mais chocante, Churchill não fez nada a não ser desdenhar os militares heróis após sua tentativa fracassada de assassinato de Hitler em julho de 1944, mesmo com Hitler apreciando suas execuções filmadas.

No lugar de ajuda, Churchill somente ofereceu aos alemães a alternativa da rendição incondicional, que somente prolongou a guerra. E ao invés de promover a queda de Hitler por alemães anti-nazistas, a política de Churchill era apoio total para Stalin. Retornando de Yalta, Churchill disse à Casa dos Comuns em 27 de fevereiro de 1945 que ele não conhecia qualquer governo que mantivesse suas obrigações de maneira tão confiável como fazia a União Soviética, mesmo para sua desvantagem.

Os Crimes de Guerra

Que Churchill cometeu crimes de guerra – planejou-os, ajudou-os, foi cúmplice neles e os defendeu – é além de qualquer dúvida. Churchill subverteu ao longo de duas guerras as regras que evoluíram no Ocidente por séculos.

Na conferência de Quebec, Roosevelt e Churchill adotaram o Plano Morgenthau+, o qual se implementado teria matado dezenas de milhões de alemães, dando aos alemães a terrível imagem do que “rendição incondicional” significava na prática. Churchill estava convencido dos benefícios do plano, como ele “salvaria a Grã-Bretanha da falência ao eliminar um competidor perigoso.” O Plano Morgenthau era análogo aos planos de Hitler para a Rússia ocidental e a Ucrânia estava perdida para Churchill, que, de acordo com Morgenthal, esboçou em palavras o esquema.

+ Henry Morgenthau Jr. nasceu em uma proeminente família de judeus na cidade de Nova York. Ele foi o Secretário do Tesouro durante a administração de Franklin D. Roosevelt e teve um papel principal em planejar e financiar o New Deal. Após 1937, enquanto secretário do Tesouro, ele se envolveu crescentemente em política externa, especialmente em políticas de apoio à China, ajuda a refugiados judeus e na prevenção que a Alemanha voltasse a ser uma potência militar após a vitória aliada em 1945.

Churchill mesmo pensou em despejar dezenas de milhares de “super bombas” de antrax sobre a população civil da Alemanha, e ordenou o planejamento detalhado para um ataque químico em seis cidades principais, estimando que milhões morreriam imediatamente “por inalação”, com milhões a mais sucumbindo mais tarde.

Mas os maiores crimes de guerra de Churchill envolveram o bombardeamento tenebroso das cidades alemãs, que mataram 600.000 civis e deixaram mais de 800.000 feridos. Arthur Harris (“Bombardeiro Harris”), o chefe do Comando de Bombardeiros, afirmou “No Comando de Bombardeiros, temos sempre trabalhado com a suposição de que bombardear qualquer coisa na Alemanha é melhor do que não bombardear nada.”

Churchill mentiu vergonhosamente na Casa dos Comuns e para o público, dizendo que somente alvos militares e instalações industriais foram atingidas. De fato, o objetivo era matar tantos civis quanto possível. Portanto, a aplicação do bombardeio “rasteiro” na tentativa de aterrorizar os alemães em sua rendição.

O professor Raico descreveu o efeito da política churchulliana: “A campanha de assassinato pelo ar reduziu ao chão a Alemanha. Uma cultura urbana milenar foi aniquilada, como grandes cidades, famosas nos anais da ciência e arte, foram reduzidas a amontoados de entulhos...” Ao saber disso, o intelectual europeu Joseph Schumpeter, em Harvard, foi obrigado a declarar que “qualquer um ouviria que Churchill e Roosevelt estavam destruindo mais do que Gengis Khan.”

De acordo com a história official da Força Aérea Real: “A destruição da Alemanha foi feita em uma escala que pode ter se igualado a Átila ou Gengis Khan.” Dresden ficou lotada de refugiados abandonados fugindo para salvar suas vidas com o avanço do Exército Vermelho. A guerra praticamente estava acabada, mas por três dias e noites, de 13 a 15 de fevereiro de 1945, bombas britânicas arrasaram Dresden, matando mais de 135.000 pessoas. Após o massacre, Churchill tentou esquivar-se da responsabilidade; mesmo dizendo “Pensei que tinham sido os americanos.”

O bombardeamento tenebroso da Alemanha e a matança de civis continuaram até meados de abril de 1945. Somente parou, como notou Bombardeiro Harris, porque não havia mais alvos em pé para serem derrubados na Alemanha.

No sentido de matar o máximo número de alemães, Winston Churchill dispensou a política como uma “consideração secundária”, e em pelo menos duas ocasiões disse que não havia “extensão de violência que não pudesse atingir” no sentido de alcançar seu objetivo. De fato, ele disse esta propaganda em um discurso dado em 31 de setembro de 1943, e novamente na Casa dos Comuns em 27 de fevereiro de 1945, quando inacreditáveis extensões de violência já haviam acontecido. Se Hitler tivesse dito esta frase, estaríamos citando-a como prova de seu barbarismo. Mesmo assim, quando Churchill a cita, seus simpatizantes a aplaudem com a resolução requerida de um grande estadista, mais do que descrever como uma conclamação ao extermínio em massa indiscriminado.

É claro, Churchill apoiou o bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki, que resultou na morte de outros 200.000 civis. Quando Truman fabricou o mito de que “500.000 vidas americanas salvas” para justificar seu assassinato em massa, Churchill sentiu a necessidade de aumentar sua mentira: os bombardeios atômicos salvaram 1.200.000 vidas, incluindo 1.000.000 de americanos. Foi apenas outra das fantasias de Churchill.

Mesmo assim, após toda essa carnificina, Churchill escreveria: “O objetivo da Segunda Guerra Mundial era reviver o status de homem.”

Churchill, o Racista

Uma grande parte da culpa pelos crimes de guerra de Churchill foi o seu racismo. Churchill era um chauvinista inglês, um racista britânico e, como Wilson, desdenhava os chamados “brancos sujos”, os franceses, italianos e outros latinos, e os eslavos como os sérvios, poloneses, russos, etc... Churchill defendia o Darwinismo e, particularmente, não gostava da Igreja Católica e as missões cristãs. Ele tornou-se, em suas próprias palavras, “um materialista até a ponta dos meus dedos,” e fervorosamente defendeu que a vida humana é uma luta pela existência, com o mais forte sobrevivendo.

Em 1919, como Secretário Colonial, Churchill defendeu o uso de armas químicas nos “árabes revoltosos” no Estado fantoche do Iraque. “Não entendo o escrúpulo a respeito do uso de gás,” ele declarou. “Sou fortemente a favor de usar gás venenoso contra tribos não-civilizadas.” Alguns anos depois, o gaseamento de seres humanos até a morte tornariam outros homens assassinos.

Um exemplo das visões racistas de Churchill são seus comentários feitos em 1937: “Não admito que um grande erro tenha sido feito aos Índios Vermelhos da América ou aos negros aborígenes da Austrália. Não admito que um erro tenha sido feito a estas pessoas pelo fato de uma raça mais forte, uma raça superior, uma raça mais sábia tenha vindo e tomado seus lugares.”


Churchill e a Guerra Fria

Entre os muitos crimes de guerra de Churchill, há também aqueles crimes e atrocidades pelos quais ele é culpado após a guerra.

Estes incluem a repatriação forçada de cerca de dois milhões de pessoas idosas, mulheres e crianças para a União Soviética em direção de seu matadouro. Então, houve massacres conduzidos pelo protegido de Churchill, Tito: dezenas de milhares de croatas, eslovenos e outros “inimigos de classe” e anti-comunistas foram mortos.

Como resultado dos exércitos do amigo e aliado de Churchill, as deportações começaram. Mas Churchill estava imóvel. Em janeiro de 1945, ele disse: “Por que estamos criando caso a respeito das deportações russas de saxões (alemães) e outros na Romênia?... Não consigo ver o erro os russos agindo de forma errada ao fazer 100 ou 150 mil dessas pessoas trabalharem... Eu mesmo não posso considerar que é errado os russos pegarem os romenos de qualquer origem e fazê-los trabalhar nos campos de carvão.” Aqui, Churchill, o grande amigo da liberdade, como George W. Bush o descreveu, aprova a escravidão. Cerca de 500.000 civis alemães foram escravizados para trabalhar na União Soviética, de acordo com o acordo de Yalta onde Churchill e Roosevelt concordaram que o trabalho escravo constituía uma forma apropriada de “reparações.”

Então, houve a grande atrocidade da expulsão de 15 milhões de alemães de suas terras ancestrais na Prússia Oriental e Ocidental, Silésia, Pomerânia e nos Sudetos, seguindo o plano macabro de Churchill de deslocar a população polonesa inteira e mover a Polônia para o oeste, que ele demonstrou com alguns palitos de fósforo, e a aceitação de Churchill do plano do líder tcheco Eduard Bene para uma limpeza étnica da Boêmia e Morávia. Cerca de dois milhões de civis alemães morreram nesse processo. Uma cultura antiga inteira foi destruída.

Nas décadas de longa obsessão pela mentalidade simplista de Churchill tentando prevenir que uma potência hegemônica surgisse no continente europeu e que poderia ser uma ameaça ao Império Britânico, ele falhou em ver que sua aliança com Stalin produziu exatamente o que estava combatendo. “À medida que as vendas da guerra foram removidas,” escreveu John Charmley, “Churchill começou a perceber a magnitude do erro  que havia sido feito.” Diz-se que Churchill deixou escapar após perceber finalmente a escala de seu erro: “Sacrificamos o porco errado!”

Mas era tarde demais. Por décadas Churchill trabalhou pela destruição da Alemanha. Mesmo assim, somente após Stalin ter devorado metade da Europa este “grande estadista” percebeu que destruindo a capacidade da Alemanha para agir como um contrapeso à Rússia, deixou a Europa livre para a invasão e conquista por uma Rússia ressurgente.

Em 1946, Churchill estava indignado com a Cortina de Ferro de tirania que baixou sobre a Europa Oriental. Mas ele mesmo ajudou a fabricá-la.

Com o equilíbrio de forças na Europa destruído por suas próprias mãos, Churchill viu apenas um recurso: ligar a América à Europa permanentemente. Assim, Churchill retornou à sua estratégia original, envolvendo os Estados Unidos em outra guerra. Desta vez, uma “Guerra Fria” que criaria o complexo industrial militar e mudaria a América para sempre.

terça-feira, 31 de julho de 2012

[ARM] O Míssil Intercontinental de Hitler

Planos de Hitler encontrados; mísseis alados poderosos deveriam ser usados em 1946.

Popular Science, outubro de 1947


Quando a invasão aliada atrapalhou os planos nazistas, eles tinham um foguete supersônico, com 5.000 km de alcance, em operação. No estágio de desenvolvimento estava seu sucessor - um verdadeiro bombardeiro-foguete de velocidade e alcance idênticos. Os planos originais são mostrados na figura 2.

Os projetos de foguetes de Hitler eram os equivalentes ao Projeto Manhattan da América. Os planos da bomba atômica ainda estão mantidos em segredo, mas os planos detalhados nazistas para a guerra transoceânica por controle automático foram expostos publicamente. Eles são uma provas de desenvolvimentos que podem ser razoavelmente esperados se houver outra guerra.

Se a invasão da Europa tivesse sido adiada por seis meses, os mísseis autômatos alemães e bombardeiros-foguetes pilotados estariam cruzando o Atlântico. O bombardeio de Nova York estava programado para o início de 1946.

Em 1943, os principais cientistas da Alemanha estavam incumbidos de trabalhar na série A de foguetes guiados e pilotados. Os três primeiros destes foguetes foram projetados para pesquisa básica em aerodinâmica, estruturas aeronáuticas e propulsão. O primeiro modelo "comercial" foi o A-4, melhor conhecido como V-2, que fez uma estreia devastadora em solo britânico em 8 de setembro de 1944.

O A-4 foi um produto da série A muito avançado para provocar um grande número de mortes enquanto que os cientistas de Hitler desenvolveram mísseis mais mortais e de maior alcance. Em seguida, veio o A-5, que tinha metade do tamanho do A-4. Ele foi usado para experimentos em novos mecanismos de controle. Ele foi seguido pelo A-6, projetado para testes em velocidades supersônicas.

Mas alcance era o que os nazistas procuravam - alcance para alcançar os Estados Unidos. E asas teriam sido dadas a eles. Asas teriam permitido a um foguete, após atingidos a velocidade e altitude máximas, escorregar e pular o ar rarefeito da ionosfera e o ar pesado da atmosfera. O modelo experimental era o A-7, uma versão alada do pequeno A-5; então, o A-4 (V-2) estendia asas para tornar-se o A-8, seguido pelo A-9, que usava ácido ao invés de oxigênio como oxidante. As bombas de combustível do A-9 eram acionadas por uma turbina usando peróxido de hidrogênio e permanganato de cálcio.

Figura 1

Impulsionador para Altitude

O próximo problema foi conseguir levar o A-9 para a ionosfera no início de sua jornada balística através do Atlântico. Seu suprimento próprio de combustível era insuficiente. A resposta estava no A-10, um foguete do tipo booster de 8,6 toneladas, dos quais 6,3 toneladas seriam combustível. Este impulsionador era para carregar o A-9 para a ionosfera a 4.165 km/h. Quando o combustível terminasse, o impulsionador seria descartado e o motor-foguete do A-9 assumiria, aumentando a velocidade do míssil para 10.000 km/h.

Os cientistas de Hitler, com a típica precisão alemã, tentaram de tudo. Eles projetaram cerca de 138 mísseis de vários tipos. Para motores eles usaram modelos com exaustão a jato, turbinas a gás, turbojatos, ramjets e foguetes puros. Nos combustíveis, eles experimentaram ácido nítrico e misturas de compostos de xilidina (isômero do xileno, que é um derivado do benzeno) e aminas; outros incluíam oxigênio gasoso e carvão em pó.


Figura 2


Excesso de Sistemas de Controle

No campo dos controles, eles diversificaram dos métodos iniciais de controle direto por cabo de um avião "mãe" para o uso do rádio, radar, onda contínua, infravermelho, raios de luz e magnetismo. um míssil tinha uma televisão montada na ogiva. Ligada a cerca de 4,25 km do alvo, ela permitia que os controladores na base de lançamento direcionar o foguete visualmente a uma instalação predial específica, tal como um depósito de munição.

Um dispositivo de controle recusou-se a ser controlado. Neste caso, o míssil supostamente deveria seguir um raio de energia de um equipamento de radar, o qual apontava para um alvo inimigo. Em um vôo de teste, contudo, o míssil inverteu a direção de vôo e seguiu o raio para um impacto direto na estação de controle. Após este acidente, os cientistas nazistas favoreceram dispositivos embarcados sensíveis a calor ou som.

Os nazistas também tiveram outros problemas. Eles estavam atrasados em relação a nós em algumas pesquisas básicas, tal como energia nuclear para ogivas e ligas que pudessem resistir ao calor terrível gerado desenvolvido pelos motores a foguete. Os ácidos que eles usavam tinham a tendência a corroer vasos e tubulações; explosões no solo eram freqüentes e as fatalidades altas. Mas não resta dúvidas que os cientistas de Hitler estavam 10 anos à nossa frente na guerra automática.

Apesar de a combinação do A-9 mais o A-10 ser a última palavra na série de mísseis de longo alcance da série A, todos os estudos de projeto e cálculos foram feitos para o próximo passo - o verdadeiro bombardeiro-foguete. Equipado com trem de pouso e um compartimento de bomba, ele teria sido capaz de despejar suas bombas e incendiar-se após sua viagem transoceânica. Com um motor a propelente líquido pesando 1,2 toneladas e desenvolver um empuxo de 890 kN, ele teria atravessado o Atlântico, da Alemanha até Nova York, em 40 minutos.

Somente o tempo preveniu Hitler de vangloriar-se em 1944 após assistir as primeiras tentativas de disparo de suas "armas secretas": "... Eles não são o produto de sonhadores... e o mundo inteiro logo sentirá seu efeito."*


* Como muitas frases supostamente atribuídas a Hitler, o autor do texto não fornece nenhuma referência.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

[SGM] O Mais Longo dos Dias

Flávia Ribeiro e Fábio Varsano

Normandia, o local da invasão

O espanhol Juan Pujol García ganhou dos ingleses o codinome Garbo em homenagem a Greta Garbo, atriz que viveu, no cinema, a espiã da Primeira Guerra Mundial Mata Hari. Pujol, diziam os ingleses, era um baita ator. Tanto que enganou os alemães por anos e foi decisivo para o sucesso do Dia D. Agente duplo, trabalhava para os ingleses passando informações erradas à Alemanha. Durante os preparativos para o Dia D, o espião deu mais subsídios para que o exército de Hitler acreditasse que a invasão seria no departamento de Pas-de-Calais, e não em Calvados.

Garbo foi peça fundamental da Operação Fortitude, que visava justamente a confundir o inimigo com mensagens de rádio falsas e deslocamentos de exércitos que sequer existiam. No esquema de espionagem dos Aliados, havia ainda o sistema Ultra, desenvolvido pelo Serviço Secreto britânico, que permitiu a decodificação de mensagens militares alemãs e a descoberta de informações sigilosas inestimáveis.

Mas não precisava ser um espião experimentado para participar dos preparativos para a invasão. Pessoas comuns tiveram papel semelhante ao de Garbo em diversos momentos, especialmente na França ocupada. O historiador americano Stephen Ambrose conta o caso de um menino cego, de 9 anos, que forneceu aos Aliados as coordenadas exatas de bunkers alemães dotados de grandes canhões e construídos sobre um rochedo a oeste de Port-en-Bessin. O pai do garoto era o fazendeiro francês dono do terreno e mediu a distância de cada ponto das redondezas para cada fortificação, além da distância de uma para outra. Passou as informações ao menino, que, no início de 1944, pegou uma carona até a cidade de Bayeux e entrou em contato com André Heintz, membro da Resistência Francesa. Heintz, que tinha um radiotransmissor caseiro, enviou as coordenadas preciosas para a Inglaterra.

Resistência Francesa

Assim como o menino cego, outras pessoas acima de qualquer suspeita para os alemães repassaram dados fundamentais para os Aliados, geralmente por intermédio de membros da Resistência Francesa, que se desdobravam em serviços de espionagem e de sabotagem e estavam em comunicação direta com os ingleses. A organização colhia informações, por exemplo, diretamente de operários franceses obrigados a construir fortificações alemãs. E elas não eram poucas. O general Erwin Rommel mandou instalar minas, arames farpados e bunkers em cada pedaço de praia ocupado.

Além disso, a Resistência Francesa explodiu pontes, linhas ferroviárias e sistemas de telefonia e de telégrafo, como parte do Plan Vert (Plano Verde); resgatou pilotos aliados abatidos sobre a França; e, por estar atrás das linhas inimigas, foi capaz de uma série de ações para atrasar as tropas do Eixo, especialmente com táticas de guerrilha, como parte do Plan Tortue (Plano Tartaruga).

Na Inglaterra, a participação da população também foi intensa. O exemplo mais claro do engajamento dos cidadãos na guerra foi dado por uma campanha iniciada pela BBC. A rádio pediu que cada família que tivesse passado férias nas praias francesas antes de sua ocupação mandasse cartõe-postais com fotos dos locais visitados. Em alguns meses, mais de dez milhões de imagens foram armazenadas, formando, com as fotografias panorâmicas tiradas de aviões pelos militares, um grande e detalhado painel da topografia da costa ocupada.

Até estúdios cinematográficos entraram no esforço, construindo grandes galpões cenográficos para abrigar divisões armadas inexistentes. O 1º Grupo do Exército dos EUA chegou a ficar baseado em Dover, ameaçando Pas-de-Calais, comandado pelo já legendário general George Patton, o que dava credibilidade à farsa. Funcionou. Quando o Dia D chegou, os alemães não faziam a mais remota idéia de que os inimigos estavam prestes a desembarcar. E vinham em números impressionantes. Para tentar tomar um pedaço de 80 quilômetros de praias francesas, foram mobilizados cerca de 175 mil soldados americanos, britânicos, canadenses, franceses, noruegueses, poloneses e de outras nacionalidades, 50 mil veículos de diversos tipos, quase 11 mil aeronaves e 5 333 embarcações.

Já os Aliados tinham uma boa idéia do que esperar. Sabiam de cada obstáculo topográfico, cada bunker, cada canhão. Mas, no fim, nenhum dos dois lados estava preparado para a carnificina que aconteceu. Ou para os meses de ataques e contra-ataques que ainda viriam pela frente.

Dia D: os últimos preparativos

A última grande batalha travada no Ocidente nos tempos modernos começou, oficialmente, no dia 6 de junho de 1944, quando as tropas aliadas invadiram a Normandia para libertar a França da ocupação alemã, que já durava quatro anos. Mas o Dia D, como ficou conhecida a data em que a chamada Operação Overlord foi colocada em prática, já vinha sendo arquitetado havia três anos, desde que os Aliados iniciaram atividades de espionagem e contra-espionagem e passaram a traçar um meticuloso plano de desembarque.

O mar e o céu precisavam estar completamente dominados por americanos, canadenses e ingleses para haver condições de deflagrar a maior invasão anfíbia da História. Tudo precisava seguir um cronograma perfeito. Em jogo, afinal, estava a vitória sobre as forças de Hitler na frente ocidental da Segunda Guerra Mundial.

A costa de Pas-de-Calais era o lugar óbvio para o desembarque aliado na França, ideal sob todos os aspectos, especialmente dois: era o ponto mais próximo da Inglaterra e ficava numa posição estratégica no Canal da Mancha. O único problema é que era óbvio demais. Os alemães, sob o comando do general Erwin Rommel, já estavam fortificando a região.




A melhor opção passou a ser a costa de Calvados, na Normandia, onde havia um pequeno porto, Caen, que, se fosse capturado, cortaria acessos ferroviários e rodoviários de Paris a Cherbourg. Os ingleses deveriam invadir as praias de Sword e Gold, além de tomar Caen. Os canadenses desembarcariam em Juno. Os americanos entrariam nas praias de Omaha e Utah, já na Costa do Cotentin. Mas os alemães teriam de continuar acreditando que o destino aliado era Pas-de-Calais.

Como escreveu o historiador americano Stephen Ambrose em O Dia D, “o problema aliado era desembarcar, penetrar na muralha atlântica e assegurar posições numa área apropriada para viabilizar reforços e expansão. A conditio sine qua non da operação era conseguir o fator surpresa.”

Os aliados precisavam, a qualquer custo, fazer com que a Operação Overlord fosse um sucesso. Se falhassem, a guerra poderia se arrastar por muitos anos ainda, já que outra operação daquela magnitude não seria possível tão cedo. Nas palavras do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, a Overlord foi “a mais difícil e complicada operação de todos os tempos.”





Dia D: o desembarque na Normandia

“Havia navios de desembarque avançando pelo mar cinzento até onde os olhos podiam alcançar. O sol estava coberto e a fumaça soprava por todo o litoral.” Assim o escritor americano Ernest Hemingway, correspondente de guerra da revista Colliers, descreveu a chegada aliada em 6 de junho de 1944. Hemingway estava em uma balsa americana em direção a Fox Green, um setor da praia de Omaha, observando o impressionante ataque naval em direção à costa, ao nascer do sol: “‘Veja o que eles estão fazendo com aqueles alemães’, ouvi um recruta dizer, sob o rosnado do motor. ‘Acho que nenhum homem sairá vivo dali’, afirmou ele, contente”, conta Hemingway.

Ao amanhecer, os milhares de soldados embarcados, muitos enjoados pelo balanço do mar, receberam a ordem de avançar. Cada grupo tinha um setor da praia ao sul da Baía do Sena. De leste para oeste, esses setores ganharam os nomes de Sword, Juno, Gold, Omaha e Utah. O mar estava coalhado de navios e embarcações diversas, todos com o objetivo de despejar bombas ou soldados nas praias.

As britânicas Sword e Gold e a americana Utah foram tomadas com relativa facilidade – apesar de as metas das tropas que desembarcaram em Sword não terem sido alcançadas no primeiro dia. “O problema dos ingleses não foi dominar as praias, mas, sim, tomar Caen, que era considerado um alvo prioritário”, diz o historiador Márcio Scalercio, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e da Universidade Cândido Mendes.





Sob fogo cerrado

Com ou sem Caen, foram os canadenses em Juno e os americanos em Omaha que se envolveram em batalhas longas e sangrentas, com numerosas mortes tanto para o lado aliado quanto para o alemão. Em Juno, que ficava entre as duas praias dos ingleses, a divisão de infantaria e as brigadas armadas do Canadá começaram o dia tendo sérios problemas com a maré alta, os recifes naturais e os bancos de areia. Quando finalmente conseguiram desembarcar, enfrentaram fogo cerrado alemão. Havia numerosos ninhos de metralhadoras e canhões, e as equipes de assalto, as que desembarcaram primeiro, sofreram as maiores baixas. Dos 21,4 mil canadenses que foram lutar em Juno, 1,2 mil morreram ou ficaram gravemente feridos, quase todos nas primeiras horas.

Os canadenses precisavam transpor a muralha atlântica. Feito isso, chegariam a um campo livre, com pouca resistência. O problema era conseguir. Para tanto, usariam uma série de engenhocas britânicas, conhecidas como “Hobart‘s Funnies”, carros de combate modificados para flutuar na água, destruir minas e lançar chamas, por exemplo, inventados pelo major britânico Sir Percy Hobart – quase uma versão verdadeira do Q, o inventor das histórias de James Bond.

As baixas foram enormes, mas a infantaria canadense transpôs a muralha atlântica e entrou nas aldeias e cidades atrás dela promovendo uma feroz troca de tiros com os alemães escondidos dentro das casas. Juno, Sword e Gold tinham essa particularidade: diferentemente das praias atacadas pelos americanos, nelas ou em suas proximidades havia uma série de vilas, aldeias ou cidades. Muitas das lutas aconteceram no meio das ruas, entre casas de civis, algumas ocupadas pelos invasores.

Os combates de rua aconteceram ao longo de todo o dia, até que os canadenses tomaram as cidades de Bernières e de Saint-Aubin, já no início da noite. A partir daí, novas aldeias, pontes e encruzilhadas eram conquistadas. Não chegaram ao Aeroporto de Carpiquet – um dos objetivos –, mas avançaram bastante para o interior. Conseguiram cortar a estrada de Caen-Bayeux e se ligar à 50ª Divisão britânica em Gold. Mas não foram capazes de se unir à 3ª Divisão britânica na praia de Sword, deixando uma abertura pela qual a 12ª Divisão SS Panzer HitlerJugend, formada em grande parte por adolescentes da juventude hitlerista, contra-atacou.

No primeiro confronto entre os canadenses e a divisão blindada, 28 tanques aliados foram destruídos. Um dos comandantes alemães, Kurt Meyer, declarou que era hora de “jogar o peixinho de volta no mar”. Os peixinhos, no entanto, resistiram furiosamente. O combate se estendeu de 7 a 12 de junho, durante o qual os alemães perderam 60% de suas forças: 20% foram mortos e 40%, feridos. A poderosa divisão blindada de Hitler viu-se envolvida num dos mais longos e sangrentos confrontos da Overlord. Há relatos de atrocidades cometidas pelos dois lados do embate, e muitos membros da Divisão Panzer foram, mais tarde, julgados por crime de guerra.

Horror em Omaha

Na praia de Omaha, a ferocidade da batalha também impressionou. “Omaha foi um horror, porque lá os alemães estavam com uma divisão de infantaria de verdade”, ressalta Márcio Scalercio. Dos 34 mil homens que lá desembarcaram, cerca de mil morreram, a maioria na primeira hora. Ao longo do dia, os americanos perderam 2,4 mil soldados, entre mortos e feridos. Além disso, o forte vento afundou dezenas de tanques anfíbios.

“Fora um assalto mortal em plena luz do dia, contra uma praia minada, defendida por tudo o que a inventiva militar havia projetado. A praia fora defendida tenaz e inteligentemente, nenhuma tropa o faria melhor. Mas cada barco do Dix conseguiu desembarcar suas tropas e seu carregamento. Nenhum barco foi perdido por imperícia náutica. Todos os que se perderam o foram pela ação do inimigo. E tomáramos a praia”, escreveu Hemingway sobre o assalto a Fox Green. Lá, como em Easy Red, outro setor de Omaha, os soldados sofreram para superar a Muralha Atlântica de Hitler. O primeiro dia terminou em vantagem para os alemães.



“Praia de Omaha foi um pesadelo”, escreveu o general responsável pela invasão, Omar Bradley: “A 1ª Divisão ficou imobilizada praticamente no mar, enquanto o inimigo varria a praia com armas portáteis. A artilharia inimiga castigava impiedosamente as lanchas de desembarque que se aproximavam”. O comandante pensou até em recuar: “Cheguei a ter a impressão de que nossas forças tinham sofrido uma catástrofe irreversível, de que havia pouca esperança de que pudéssemos forçar nosso caminho para a praia. Particularmente, considerei a hipótese de evacuar a cabeça-de-praia”.

Mas, no dia seguinte, a situação começaria a se inverter. Os alemães gastaram a maior parte de sua munição durante o primeiro dia e não tinham como repô-la rapidamente. Já os americanos recebiam tropas e armamentos de reposição diretamente de um dos mulberries, portos artificiais erguidos pelos aliados nas proximidades. Lenta e laboriosamente, debaixo de saraivadas de tiros, conseguiram avançar para o interior.

Desembarque tranqüilo

Em Utah, graças ao trabalho da 82ª e da 101ª Divisões Aerotransportadas americanas, que protegeram todo o flanco ocidental da invasão, aconteceu o mais tranqüilo desembarque do Dia D. Para começar, 32 tanques anfíbios Sherman aportaram na praia, às 6h30. Os regimentos da 4ª Divisão de Infantaria americana vinham em sua esteira. Mas, por causa do bombardeio, do vento e da fumaça, muitos acabaram saltando longe dos lugares marcados. Ainda assim, foram ágeis na hora de se reunir.

Os homens sofreram mais com o mar, muito agitado, do que com os alemães. No fim, apenas 197 baixas entre 23 mil soldados americanos, que ao fim do dia já se moviam para sua nova missão: tomar Montebourg. A 101ª Aeroterrestre já havia aberto o caminho. Nos dias e nas semanas seguintes, a 4ª Divisão envolveu-se em embates bem mais violentos, mas tomou não só Montebourg, como também Cherbourg, além de participar da libertação de Paris.

Os ingleses não penaram tanto quanto os canadenses e os americanos de Omaha. Principalmente em Gold, onde, ao anoitecer, os britânicos já haviam entrado cerca de dez quilômetros para o interior e ligado-se aos canadenses em Creully, fechando uma passagem para os alemães. Houve somente 400 baixas entre 25 mil homens. Não tomaram Bayeux, na estrada para Caen, mas estavam em boa posição para fazê-lo nos dias que se seguiram.

Na turística Sword, cheia de casas de veraneio e lojas, os homens da 6ª Divisão Aeroterrestre deixaram o caminho livre para os soldados que desembarcaram em 6 de junho. Afinal, os alemães pretendiam defender sua posição na praia com as baterias de Merville, tomadas pelos pára-quedistas ingleses de madrugada. Ainda assim, o fogo alemão foi mais pesado lá do que em Gold ou Utah. Por isso, apesar de conseguirem dominar a praia, os britânicos não puderam se unir aos canadenses no flanco direito, que ficou desprotegido. Foi por ali que os alemães responderam violentamente.

Houve 630 baixas entre os 29 mil homens que invadiram Sword e que não conseguiram capturar Caen, o alvo principal. A cidade estava guardada pela 21ª Divisão Panzer, e o 22º Regimento dos blindados entrou em combate com os ingleses. Os Aliados ainda precisariam de vários dias até conseguir alcançar seu objetivo final. Mas o caminho estava bem pavimentado.

Dia D: o ataque pelos céus

Assim que o planador Horsa pousou ao lado do Canal de Caen, pouco depois da meia-noite do dia 6 de junho de 1944, o tenente Dan Brotheridge reuniu os 28 homens de seu pelotão de infantaria, membros da 6ª Divisão Aeroterrestre britânica, e correu para a ponte sobre o canal, defendida por cerca de 50 alemães – entre eles o soldado Helmut Rommer, de 17 anos. O jovem sentinela foi o primeiro a ver os pára-quedistas ingleses e logo correu para avisar aos outros, gritando e disparando tiros de sinalizador. Brotheridge, então, metralhou-o. Em seguida, já em meio à troca de tiros, jogou uma granada sobre um ninho de metralhadoras. No mesmo momento, foi atingido no pescoço. O tenente inglês que deu os primeiros tiros da Operação Overlord e matou o primeiro alemão foi também, como conta Stephen Ambrose, o primeiro soldado aliado a ser morto pelo fogo inimigo no Dia D.




A invasão estava marcada para o dia 5 de junho, mas o mau tempo fez com que fosse adiada. Os Aliados precisavam de boa visibilidade para o sucesso da operação. “Eles compensariam a menor capacidade de mobilização das tropas com uma absoluta supremacia aérea”, diz o historiador Márcio Scalercio. Os soldados tiveram de esperar 24 horas, ansiosos, irritados e enjoados pelo balanço dos barcos no mar. O dia 6 chegou, com o tempo ainda ruim, mas com menos nebulosidade. Logo nos primeiros minutos do ataque, enquanto os bombardeiros ingleses e americanos despejavam milhares de toneladas de explosivos por todos os lados, os pára-quedistas e integrantes das unidades aerotransportadas da 6ª Divisão Aeroterrestre britânica, entre eles Dan Brotheridge, puderam finalmente entrar em combate.

Foram eles os homens que começaram a ação no Dia D, na primeira e última grande invasão pára-quedista noturna de que se tem notícia. O pelotão de Brotheridge entrou em cena simultaneamente a centenas de pára-quedistas britânicos e americanos precursores, cuja missão inicial era marcar zonas de lançamento para os batalhões pára-quedistas que ainda viriam: os ingleses e canadenses da 6ª Divisão à leste, perto de Sword e de Caen; e os americanos da 82ª e da 101ª Divisões à oeste, próximos a Utah e a Cotentin. A missão dos três grupos, formados por 23,4 mil homens, não era fácil. Eles deveriam confundir os alemães para evitar um contra-ataque rápido nas praias que seriam invadidas pelas tropas transportadas por mar dali a algumas horas. Precisavam, ainda, proteger os flancos em Sword e Utah.

Muitos, levados pelo vento, acabaram perdidos, pendurados em árvores ou presos às imensas e numerosas cercas vivas da Normandia. Eles tornaram-se alvos fáceis dos inimigos. Boa parte caiu longe de seu local de aterrissagem, como o soldado Ryan, do filme de Steven Spielberg. Os que conseguiram atingir seus objetivos abriram caminho para as outras divisões que saltariam nas horas seguintes, enfrentando não só o vento e as cercas vivas, mas também o incessante fogo antiaéreo alemão.




Luta sangrenta

Do lado inglês e canadense, um dos objetivos era destruir uma bateria inimiga em Merville, composta por quatro casamatas e quatro canhões que poderiam atingir as tropas que desembarcassem em Sword. Foi uma luta sangrenta. Em torno das casamatas, havia cercas de arame farpado e muitas minas, além de trincheiras, dez ninhos de metralhadoras e quase 200 alemães. Para completar, dos cerca de 700 pára-quedistas ingleses destinados a Merville, somente 150 conseguiram se reunir para a ação.

Como não havia soldados suficientes para envolver a bateria nazista, optou-se por um ataque frontal, atravessando minas debaixo do fogo inimigo. Com enorme coragem, os que alcançaram as muralhas atiraram pelos buracos. O posto de artilharia foi conquistado em 20 minutos. Dos soldados aliados, 66 morreram e 30 ficaram feridos. Do outro lado, apenas 22 alemães ilesos conseguiram se render.

Além disso, ingleses e canadenses deveriam explodir as pontes sobre o rio Dives e capturar, intactas, as pontes sobre o rio Orne e sobre o Canal Orne. Conseguiram. Todas as metas foram alcançadas em apenas uma noite. A tomada da Ponte Pegasus, no rio Orne, por exemplo, foi realizada em impressionantes cinco minutos, pela Companhia D.

Já a 6ª Divisão teve de resistir a um forte contra-ataque alemão, mas antes do amanhecer havia tomado o lado esquerdo da praia de Sword. “As tropas aeroterrestres britânicas tinham conseguido um início estupendo”, disse Stephen Ambrose. E tornaram-se os heróis daquele começo de batalha, personagens da seguinte manchete do jornal Evening Standard, de Londres: “Homens alados pousam na Europa”.

A partir dali, a missão passou a ser resistir aos contra-ataques e defender as pontes para evitar a passagem dos blindados alemães que estavam perto de Calais. Os pára-quedistas ingleses não alcançaram o objetivo, certamente superestimado, de tomar Caen e Carpiquet ao fim do dia 6. Mas, graças a eles, o flanco esquerdo da invasão ficou seguro e pôde receber os jipes e canhões levados pelos planadores. Quando as tropas inglesas desembarcaram em Sword, a resistência alemã já havia sido neutralizada pelos “homens alados”. Do outro lado, a 82ª e a 101ª Divisões Aéreas americanas pousaram entre Ste. Mère Eglise – a primeira cidade na França a ser libertada – e Carentan. Um pequeno grupo de soldados da 82ª Divisão encurralou rapidamente a 91ª Divisão germânica, após matar seu comandante, garantindo o domínio da Costa do Cotentin. O flanco ocidental do desembarque estava, assim, em mãos aliadas.

As baixas foram muito severas, como entre os ingleses. Por causa da dispersão, as divisões contavam com menos da metade de seus efetivos dias depois do início da operação. Mas, mesmo sem querer, acertaram no alvo ao se dispersar. Ao verem pára-quedistas descendo por todos os lados, os alemães ficaram sem saber exatamente para que lado revidar. A resposta lenta funcionou a favor dos Aliados, compensando não só a perda de homens, mas também de armas.

A 82ª não conseguiu capturar as pontes sobre o rio Merderet, assim como a 101ª não foi capaz de destruir as pontes sobre o Canal de Carentan e sobre o Estuário do Vire, que estavam entre suas metas. Os sucessos, no entanto, foram maiores que os fracassos e fundamentais para a conquista daquele trecho. A 101ª Aeroterrestre, por exemplo, tomou a Eclusa de La Barquette, mesmo estando com apenas um sexto de seus homens reunidos. Nos meses seguintes, a Easy Company, como era conhecido o 506º Regimento da 101ª, destacou-se em numerosas batalhas, inclusive na conquista de Carentan. Seus membros são personagens do livro Band of Brothers, de Stephen Ambrose, que virou uma minissérie de mesmo nome, produzida por Tom Hanks e Steven Spielberg.

Curiosidades da Batalha

Pistas falsas para os alemães

Hitler mandou tropas para a distante Noruega

A Operação Fortitude concentrou esforços para fazer os alemães acreditarem que o desembarque seria no departamento de Pas-de-Calais. Para confundir ainda mais o inimigo, também apontou a Noruega como um segundo alvo, em mais uma série de transmissões de rádio falsas – todas com códigos mais fáceis de serem quebrados. Além disso, espiões alemães que passaram para o lado da Inglaterra, no que constituía o chamado Sistema Double Cross, mandavam mensagens para o serviço secreto nazista descrevendo uma falsa movimentação de tropas aliadas na Escócia. Com isso, fizeram com que Hitler e seus generais colocassem 13 divisões do Exército, 90 mil homens da Marinha e 60 mil da Luftwaffe na Noruega – longe do verdadeiro ponto de desembarque.

A muralha atlântica

Barreira montada por Rommel parecia inexpugnável

“Rommel defendeu a França como um colosso”, afirma o historiador Stephen Ambrose. Represou rios para inundar áreas estratégicas, expulsou franceses de suas residências, botou casas e edifícios abaixo, derrubou florestas inteiras para ter madeira suficiente para seus obstáculos costeiros. Depositou minas nos canais e nas praias, milhões delas. Ainda assim, não foi suficiente. “Eles usaram uma quantidade impressionante de minas, mas precisavam de muito mais, tamanho era o contingente em que desembarcou”, diz o historiador Márcio Scalercio, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e da Universidade Cândido Mendes.

Além das minas, arames farpados foram usados em profusão. Havia ainda grandes trincheiras de concreto e rampas minadas, paralelamente a outros obstáculos. Por todas as praias, casamatas com canhões e ninhos de metralhadoras estavam prontos para acertar cada soldado aliado que ousasse desembarcar. Era a chamada Muralha Atlântica de Hitler.

O problema não estava nas armas, mas nos homens. Grande parte das melhores tropas alemãs estava enfrentando os russos na Frente Oriental, restando para defender a França muitas Divisões Ost (Oriente) ¬– formadas por estrangeiros, a maioria deles prisioneiros de guerra, obrigados a lutar com os nazistas. Um oficial americano chegou a deter quatro coreanos no meio de uma divisão do Eixo na praia de Utah.Essas tropas eram constituídas por poloneses, russos, croatas, húngaros, romenos, lituanos, ucranianos e homens vindos das mais diversas repúblicas da União Soviética, além de franceses, italianos, indianos, soldados da África do Norte e de países muçulmanos. Muitos deles dispostos a se entregar aos Aliados na primeira oportunidade.

Entre as divisões alemãs, algumas formadas por soldados muito jovens, ou velhos demais, o que enfraquecia a defesa e reduzia as possibilidades de contra-ataque. Mas havia também grupamentos poderosos, como a divisão de infantaria que guardava a praia de Omaha. Além disso, três unidades Panzer, de blindados, com soldados de elite, espalhavam-se pelas praias francesas. Embora fossem poucas, impressionavam e eram difíceis de ser batidas. A 21ª Divisão Panzer acampou em Caen, dificultando o trabalho dos ingleses, que deveriam tomar o porto. As outras duas ficaram numa posição da qual poderiam chegar em algumas horas tanto a Calais quanto a Calvados. Já o céu era quase todo dos Aliados. A maior parte da Luftwaffe estava na própria Alemanha, para defendê-la de possíveis ataques. Com isso, as divisões terrestres precisavam se locomover principalmente à noite, sob pena de serem destruídas pelos bombardeios aéreos aliados.

A sagrada hora do chá

Britânicos e canadenses não abriam mão do ritual diário

Nas histórias em quadrinhos de Asterix, de Albert Uderzo e René Goscinny, os bretões têm a mania de fazer uma pausa nas batalhas para tomar o chá das cinco. A piada com o hábito inglês, por incrível que pareça, não é um exagero. Em pleno Dia D, soldados britânicos e canadenses sempre conseguiam um tempinho para tomar seu chá. “Eles improvisavam, tomavam chá em galões de gasolina”, diz o historiador Márcio Scalercio.

O livro O Dia D está recheado de histórias, contadas pelos próprios soldados. O major inglês Porteous, por exemplo, relata que no caminho para a Ponte Pegasus, no Canal do Orne, sua tropa deslocou-se para o interior e aproveitou para fazer chá. Quando um dos soldados preparava a bebida num fogareiro, segurando uma marmita e uma lata de chá, uma granada explodiu. O soldado não se feriu, mas a xícara e a marmita foram destruídas.

Por essas e outras, o voluntário americano Robert Rogge ironizou: “Os exércitos britânicos e canadenses não conseguem lutar três minutos e meio sem chá”. Os americanos não entendiam como os ingleses podiam fazer uma guerra sem café.

A guerra na frente oriental

Alemães sofriam pesadas baixas contra o exército vermelho

Enquanto ocorriam os confrontos na França, Hitler preocupava-se com a situação no outro lado da Europa, na chamada frente oriental. Desde janeiro de 1943, quando as tropas alemãs foram obrigadas a recuar pela primeira vez após o fracasso da tentativa de conquistar Stalingrado, na Rússia, os nazistas passaram a perder gradativamente terreno para o Exército Vermelho e a ter de enfrentar a resistência de movimentos guerrilheiros antes enfraquecidos.

Apesar das sucessivas derrotas – como a de Kursk, em julho de 1943 –, a ordem do ditador alemão era não se retirar jamais. Assim, mantinha cerca de 3 milhões de homens, 3 mil tanques e 3 mil aeronaves espalhados ao longo de 2,2 mil quilômetros. Hitler ainda obteve sucesso em alguns contra-ataques, mas a tônica eram as investidas soviéticas, cujo contingente girava em torno de 6,5 milhões de soldados e contava com 8 mil tanques e 13 mil aeronaves, graças ao apoio americano de suprimentos e equipamentos.

Entre junho e setembro de 1944, os comunistas conseguiram avançar mais de 600 quilômetros sobre territórios até então dominados pelos nazistas. Durante esse período, o exército de Josef Stálin e os partisans (guerrilheiros) venceram os inimigos em boa parte da Europa Oriental, conquistando Letônia, Lituânia, Ucrânia, Bielorússia, Romênia e parte da Polônia. Nesses conflitos, as perdas alemãs na frente oriental foram terríveis – cerca de 215 mil mortos e 625 mil desaparecidos –, a maioria capturada pelo Exército Vermelho.

Os jovens de Hitler

Uma divisão só de calouros

Uma poderosa divisão blindada criada em 1943, formada apenas por membros voluntários da Juventude Hitlerista, a grande maioria nascida em 1926. Assim era a 12ª SS Panzer Hitlerjugend: fortemente armada e com soldados altamente comprometidos com a causa nazista. A falta de experiência da divisão, que entrou em ação pela primeira vez exatamente no Dia D, era compensada pela visão dos oficiais, a maior parte veteranos com história em outras unidades blindadas. O primeiro confronto pesado dos jovens de Hitler foi contra os canadenses, entre 7 e 12 de junho. Lá, muitos soldados e armamentos foram perdidos, mas os nazistas continuaram lutando, dando muito trabalho aos Aliados para defender Caen, por exemplo. Acabaram encurralados em Falaise, no fim de agosto. Entre o Dia D e a queda em Falaise, a 12ª SS Panzer HitlerJugend perdeu mais de nove mil homens.

O resgate do soldado Niland

A história que inspirou o filme de Spielberg

O Resgate do Soldado Ryan, filme de Steven Spielberg, de 1998, conta a história, baseada em fatos reais, de uma unidade americana deslocada para resgatar um soldado cujos três irmãos já haviam morrido na Normandia. O chefe do Estado-Maior do Exército americano, general George C. Marshall, queria devolver ileso à senhora Ryan ao menos um de seus quatro filhos. O nome verdadeiro do soldado resgatado e mandado de volta para casa não era James Francis Ryan. Ele, na verdade, era um sargento. Frederick Niland estava no 501º Regimento da 101ª Divisão Aeroterrestre americana quando se soube que seus três irmãos haviam morrido na primeira semana da Batalha da Normandia: um em Ste. Mère Eglise, em 6 de junho; outro em Utah, também no Dia D; e o terceiro, na Birmânia. O sargento Niland foi retirado de combate e mandado para casa pouco depois de sua mãe ter recebido os três telegramas sobre as mortes dos filhos no mesmo dia.

A batalha por Ste. Mère Eglise

Os soldados da 82ª divisão americana tomaram a estratégica cidade francesa. Mas os alemães não desistiram facilmente

A grande conquista de uma Divisão Aeroterrestre americana no dia 6 de junho foi Ste. Mère Eglise, de grande importância estratégica. Perto do rio Merderet, muitos homens da 82ª acabaram atolados em pântanos criados pelas inundações ordenadas por Rommel – 36 deles chegaram a morrer afogados. Apesar das dificuldades, o 3º Batalhão do 505º regimento conseguiu reunir 180 de seus soldados e, às 4 horas, rumou para Ste. Mère Eglise. A cidade acabara de apagar um incêndio causado por bombardeiros. Os alemães foram surpreendidos pela chegada dos americanos. Em poucos minutos, a cidade foi conquistada, suas linhas de comunicação cortadas e a estrada que ligava Cherbourg a Carentan, ocupada.

Não foi tão fácil manter o território, e muitos americanos chegaram a pensar que sairiam derrotados de lá, como conta o sargento Otis Sampson, em relato registrado no livro O Dia D: “Muitas coisas passaram pela minha mente. Eu temia que a invasão tivesse sido um fracasso. Pensava no meu país e nas pessoas que estávamos tentando ajudar. Eu estava quase certo de que nunca veria a luz do dia novamente. Não posso dizer que sentia medo. Queria apenas uma oportunidade de levar tantos jerries [como os alemães eram chamados] comigo quantos fosse possível! Queria que viessem até onde eu estava para que eu pudesse vê-los. Queria era um monte deles na minha frente antes que me apanhassem. Teria sido muito mais fácil morrer daquele jeito”.

Os alemães contra-atacaram na principal batalha que uma divisão aeroterrestre americana enfrentou naquele dia. Durante oito horas, 42 soldados tentaram retomar Ste. Mère Eglise. Só 16 conseguiram fugir ilesos. Os homens da 82ª defenderam a cidade com fúria.

Um deles, o praça Fitzgerald, definiu bem o que foi estar naquela batalha: “O impacto das granadas levantava para o alto montes de terra e lama. O chão tremia e meus tímpanos pareciam arrebentar. A terra estava enchendo minha camisa e entrando nos meus olhos e na minha boca. Aqueles 88 mm [canhões com os quais os alemães atiravam do sul da aldeia] tornaram-se uma lenda. Disseram que houve mais soldados convertidos ao cristianismo pelos 88 mm do que por Pedro e Paulo juntos (…) Não pude segurar o barbeador com firmeza bastante para fazer a barba durante os dias que se seguiram”.

Enxurrada de bombas

Como foi a ofensiva da maior armada aérea de todos os tempos

Os pára-quedistas entraram em cena logo depois de os bombardeiros da Força Aérea Real (RAF), da Inglaterra, abrirem o Dia D à meia-noite em ponto, atacando as baterias de Caen. Em seguida, as aeronaves americanas também iniciaram o lançamento de uma enxurrada de bombas em Calvados e na praia de Utah. Foram mais de 14 mil ataques aéreos, deflagrados por 3 467 bombardeiros pesados, 1 645 bombardeiros médios e 5409 caças. “Foi a maior armada aérea que já se conseguiu reunir”, escreveu o historiador militar Stephen Ambrose.

Os aviões começaram os trabalhos dois dias antes, bombardeando Pas-de-Calais, ainda como parte do Plano Fortitude. Nos meses anteriores, já haviam se mostrado fundamentais para a destruição de linhas de trem e para impedir que tropas alemãs se locomovessem durante o dia, além de forçar a Luftwaffe a recuar para defender os céus germânicos.

No próprio Dia D, no entanto, a maior parte dos objetivos não foi alcançada por causa do mau tempo e da pouca visibilidade. Muitas das bombas acabaram nos campos normandos, deixando quase incólume a muralha atlântica erguida pelos alemães. Foi assim nos alvos ingleses (Sword e Gold), canadense (Juno) e em um dos alvos americanos (Omaha). Em Caen, também não foram efetivos. Em Utah, no entanto, o sucesso foi tão grande que justificou a operação. Os bombardeiros conseguiram, ao menos em uma praia, destruir a maioria das defesas inimigas.

Linha do tempo

Os momentos decisivos da Batalha da Normandia

6 de dezembro de 1943

O general Dwight D. Eisenhower é nomeado chefe supremo da Força Expedicionária Aliada para a Operação Overlord.

6 de junho de 1944

Dia D: começa a Batalha da Normandia, com bombardeios aéreos e navais, e o desembarque das forças aliadas nas praias de Sword, Juno, Gold, Omaha e Utah. Ao fim do dia, os ingleses conseguem proteger o flanco leste do desembarque e conquistar uma série de cabeças- de-ponte na região do rio Orne, mas não tomam Caen. Os americanos protegem o flanco oeste da invasão e conquistam Ste. Mère-Eglise, mas não tomam Carentan.

12 de junho de 1944

O 1° Exército americano conquista Carentan, após sangrenta batalha.

18 de julho de 1944

O 1° e o 8° Corpos britânicos e o 2° Corpo canadense tomam Caen, durante a Operação Goodwood, após seis semanas de batalhas.

19 de julho de 1944

O 1° Exército americano conquista Saint-Lo.

10 a 22 de agosto de 1944

Americanos, canadenses, ingleses, franceses e poloneses encurralam 150 mil alemães no Bolsão de Falaise. Os alemães sobreviventes são capturados ou recebem autorização para fugir.

25 de agosto de 1944

Paris é libertada. Termina a Batalha da Normandia.

Fontes

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/normandia-local-invasao-435855.shtml

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/dia-d-ultimos-preparativos-435854.shtml

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/dia-d-ataque-pelos-ceus-435856.shtml

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/dia-d-desembarque-normandia-435857.shtml

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Comemorações do Programa Apollo em 2012

Tragédia com o Apollo 1 completa 45 anos

Terra, 27 de janeiro de 2012


A Nasa deu início na quinta-feira às homeganes para marcar as maiores tragédias espaciais de sua história. O dia de hoje marca os 75 anos do primeiro acidente, que causou a morte de três astronautas americanos.

Os tripulantes do Apollo 1, Gus Grissom, Ed White e Roger Chaffee morreram no dia 27 de janeiro de 1967 em um incêndio no módulo de comando durante um teste do dispositivo. Apesar do desastre, o programa continuou para levar à Lua, em 16 de julho de 1969, na nave Apollo 11, os astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins.

Como em todos os anos, na última semana de janeiro, a agência espacial quer "homenagear suas vidas e lembranças", disse o diretor da Nasa, Charles Bolden, durante uma cerimônia ontem. Bolden espera que estes sacrifícios sirvam de inspiração para as próximas gerações e pediu aos funcionários da Nasa para que façam ouvir sua opinião e se dirijam a seus superiores para que "a segurança seja sempre prioridade".

Além do Apollo 1, outras duas grandes tragédias marcaram a conquista espacial americana. A nave Challenger se desintegrou em 28 de janeiro de 1986, pouco mais de um minuto após seu lançamento no Centro Espacial Kennedy. Entre os sete tripulantes que morreram estava Christa McAuliffe, uma professora que fazia parte de um projeto da Nasa para levar a ciência aos estudantes.

A tragédia causou um grande impacto na sociedade americana, o que levou a Nasa a realizar uma revisão em todos os seus sistemas e procedimentos centrada na segurança. No entanto, em fevereiro de 2003, os Estados Unidos enfrentaram outra tragédia espacial, quando os sete tripulantes da nave Columbia morreram no momento de entraram na atmosfera terrestre.


Da esquerda para a direita: Virgil Grissom, Edward White e Roger Chaffe


Interior do Módulo de Comando após o incêndio


Apollo 13: há 42 anos, explosão no espaço interrompia missão

Terra, 13 de abril de 2012
 

Há 42 anos, uma explosão no tanque de oxigênio número 2 da Apollo 13 interrompia os planos dos Estados Unidos de realizarem a terceira missão a pousar na Lua. Lançada da Flórida no dia 11 de abril de 1970 com o comandante James Lovell, o piloto John Swigert e o piloto do módulo lunar Fred W. Haise, a nave foi resgatada no dia 17, no Pacífico. A história virou filme em 1995, com Tom Hanks, Kevin Bacon e Bill Paxton interpretando os respectivos astronautas.

Apesar de o objetivo final não ter sido atingido, a missão é considerada pela Nasa, a agência espacial americana, como uma "falha bem sucedida", já que foi possível aprimorar o conhecimento para casos de emergência e resgate.

Investigações apontaram depois que a explosão foi causada devido a modificações no sistema de oxigênio, que aumentaram a voltagem nos tanques de 28 para 65 volts. Contudo, os interruptores termostáticos não foram adaptados para a mudança e não resistiram ao superaquecimento.

Nasa impede leilão de objetos da Apollo 13

Em janeiro deste ano, a Nasa impediu que a caderneta usada pelo comandante James Lovell para refazer os cálculos e possibilitar o retorno da Apollo 13 à Terra fosse leiloado. A agência quer que artefatos utilizados em viagens espaciais não sejam comercializados.

Segundo a Heritage Auctions, empresa que leiloaria a caderneta de Lovell, as anotações no objeto foram feitas logo após o contato dos astronautas com a base, momento em que foi dita a célebre frase "Houston, we have a problem!" (Houston, temos um problema!). A expectativa era de que a peça, um manual de ativação do módulo lunar, atingisse um valor em torno de US$ 25 mil.


Da esquerda para a direita: James Lovell, John Swigert e Fred Haise


Há 41 anos, Apollo 15 levava o primeiro carro a chegar à Lua

Terra, 26 de julho de 2012


Na manhã de 26 de julho de 1971, um foguete Saturn V (o mais poderoso já feito pelo homem) era lançado com os astronautas e o equipamento da missão Apollo 15. Na bagagem, a maior quantidade de equipamentos de pesquisa científica já levados pelas missões tripuladas à Lua. Curiosamente, no "porta-malas" do Saturn V ainda ia o primeiro carro a chegar ao nosso satélite natural.

O lunar roving era movido a eletricidade e servia para levar a tripulação e o equipamento pela superfície lunar. Ele chegava a no máximo 16 km/h e enfrentava inclinações de até 25 graus. Ao invés de um volante, um controle - parecido com aquele de aviões de caça - ficava entre os dois bancos e permitia que ele fosse dirigido tanto pela esquerda, quanto pela direita. Ele suportava até 696 kg (sendo que o próprio veículo pesava 206 kg), tinha 3 m de comprimento, 2,1 m de largura e 114 cm de altura.

Os astronautas pousaram no início da noite (no Brasil) de 30 de julho. Lá eles permaneceram até 3 de agosto - um deles permaneceu em órbita no módulo de comando. Outra curiosidade é que, na saída, eles deixaram um satélite para analisar a massa da Lua, mudanças gravitacionais e a interação com o campo magnético da Terra. A chegada ao planeta ocorreu em 7 de agosto.

O lunar roving era movido a eletricidade e chegava a no máximo 16 km/h