sábado, 25 de agosto de 2012

As dúvidas sobre o pouso do homem na Lua

Estadão, 9/07/2009


1 – Por que não veem estrelas nas fotos tiradas na Lua?

Tanto o solo lunar quanto o traje dos astronautas são brancos e brilhantes, e estavam iluminados pelo Sol, o que forçou o astronauta que fazia fotos a usar um tempo de exposição muito curto – do contrário, as fotos ficariam borradas com o brilho excessivo. Em comparação, as estrelas têm uma luz muito fraca, abaixo da sensibilidade para a qual a câmera tenha sido ajustada.

2 – Por que os foguetes do módulo lunar não abriram uma cratera no solo? O chão abaixo do módulo Águia parece plano!

Os foguetes do módulo vinham desacelerando a descida desde a órbita lunar, e quando o Águia tocou o solo, ele já viajava bem devagar, de forma que só um pequeno empuxo foi usado imediatamente antes do contato com a superfície. Além disso, no vácuo não existe pressão do ar para constringir o jato, de forma que os gases produzidos pelo foguete dispersam-se rapidamente após deixar a tubeira (bocal).

3 – Como é possível ainda haver poeira nos arredores do módulo, depois do pouso? O foguete assoprou toda a poeira para longe!

No vácuo, não existem correntes de ar para carregar a poeira para longe. As únicas partículas levantadas pelo foguete são as que são tocadas diretamente pelos gases do jato, ou as que colidem com partículas tocadas por esses gases.

4 – Como é que pode haver sombras que não são totalmente pretas? Todas as coisas que estão fora da iluminação direta do Sol deveriam ficar num breu total!

A superfície da Lua é branca e brilhante. Mesmo sem ter luz própria, as partículas refletem a luz solar.  As sombras são atenuadas pelo brilho refletido das partículas ao redor.

5 – As sombras nas fotos não são paralelas! Isso significa que holofotes, e não o Sol, são a fonte de luz. Certo?

Errado. As sombras não parecem paralelas, embora de fato sejam, por causa da perspectiva. Lembre-se, as fotos são imagens bidimensionais de eventos tridimensionais.

6 – Em algumas imagens, aparece o mesmo cenário, com e sem o módulo lunar. Como isso é possível?

O astronauta que fez as fotos se deslocou entre uma e outra, tirando o módulo do quadro. Lembre-se, na Lua não existe ar para ajudar a avaliar distâncias visualmente.

7 – Como é possível que a bandeira americana fique estendida e tremule, se na Lua não há vento?

A bandeira fica estendida porque existe um suporte horizontal por dentro do tecido, na parte de cima, mantendo-a assim. Na Apollo 11, os astronautas não conseguiram esticar o suporte horizontal até o fim, o que deixou a bandeira um pouco amarrotada. É esse amarrotado que, na foto, dá a ilusão de que o tecido tremula ao “vento”. Nas missões seguintes, esse efeito amarrotado foi preservado de propósito... porque o pessoal da NASA gostou da simulação de movimento.

8 – Quando o módulo decola da Lua, não há chamas visíveis! Como um foguete pode disparar sem produzir labaredas de fogo?

Simples: o combustível usado não gera uma chama visível. O módulo lunar usou uma mistura de hidrazina (combustível) e tetróxido de dinitrogênio (oxidante). Essas duas substâncias explodem ao entrar em contato, mas o produto da reação é transparente.

9 – Como os astronautas sobreviveram aos cinturões de radiação de Van Allen?

Os chamados cinturões de Van Allen são uma região do espaço onde o campo magnético da Terra aprisiona partículas do vento solar. Embora a radiação presente ali realmente possa ser perigosa para um ser humano, uma pessoa, para ser afetada, precisaria estar desprotegida e ficar exposta por muito tempo. As naves do programa Apollo cruzaram o cinturão rapidamente, em cerca de uma hora, e o casco da nave bloqueou boa parte da radiação.

10 – Quais as evidências, além das fotos, de que o homem foi à Lua?

Há várias evidências materiais. Alguns exemplos são as rochas lunares, que têm características diferentes das terrestres; espelhos que os astronautas deixaram na Lua e que ainda hoje são usados por cientistas de vários países, refletindo raios laser emitidos a partir da Terra; e dados de rastreamento por radar das naves que foram e voltaram da Lua.
 
http://www.estadao.com.br/especiais/as-duvidas-sobre-o-pouso-do-homem-na-lua,64244.htm

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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O assassinato de Júlio César

Reinaldo José Lopes, 22/06/2010

Ele foi o homem mais poderoso do mundo romano e adotou medidas populistas que desagradaram a aristocracia. Para proteger a república, os senadores o mataram, sem saber que aniquilariam sua classe política


Três escravos se esgueiraram para dentro do Senado vazio e correram em direção ao corpo ensanguentado, caído perto da estátua de Pompeu. Mais tarde, os ferimentos seriam contados: 23 golpes de adaga. Os assassinos de Caio Júlio César não estavam mais ali. Planejaram transformar a morte num grande ato de propaganda política, mas não contavam com o medo e a revolta do povo comum de Roma, quase todo formado por adeptos do ditador. Os responsáveis pelo atentado, portanto, tiveram de se esconder, entrincheirados na colina do Capitólio. Matar César tinha sido ridiculamente fácil; assassinar o que ele significava para Roma era bem mais complicado. A morte do homem mais poderoso do Império Romano teve pouco a ver com as cenas criadas por poetas como William Shakespeare, mas tem todos os elementos de uma grande tragédia, com cenas de intriga, maquiavelismo, traição e, a julgar pelo que dizem os escritores da Antiguidade, até avisos proféticos que foram ignorados. O famigerado Bruto pode não ter sido filho de César, como reza a lenda, mas ele e seus comparsas tinham em comum a decisão de eliminar o homem que tinha sido seu benfeitor. E os efeitos colaterais do plano foram ainda piores: anos de guerra civil, um império que quase se esfacelou e o fim das ambições políticas para a classe representada pelos assassinos. Se a personalidade e os instintos políticos de César fossem ligeiramente diferentes, ele jamais teria tombado no Senado. Afinal, a tradição das longas guerras civis que tinham assolado Roma ao longo dos séculos 2 a.C. e 1 a.C. era clara: se quiser governar tranquilo, não deixe seus inimigos vivos. Essa foi a regra durante as décadas de conflito entre Optimates, a facção que defendia a supremacia dos aristocratas romanos, e Populares, os quais, como o nome diz, queriam fazer concessões ao povo romano (embora seus líderes fossem homens da nobreza). César era um expoente dos Populares, o que levou o aristocrático Senado a tentar eliminá-lo logo depois que ele retornou da Gália (atual França), depois de oito anos de batalhas, como general vitorioso no ano 49 a.C. Não deu muito certo, para dizer o mínimo. As forças senatoriais, lideradas por Pompeu Magno, ex-aliado de César, foram esmagadas em batalhas na Espanha e na Grécia. Com as legiões de todo o Império sob seu comando, César podia fazer o que quisesse, mas preferiu deixar de lado as guerras civis e perdoar a todos que se rendessem sem luta. "A chamada clementia [ancestral de “clemência” em português] se tornou a marca política de César, e uma grande arma de propaganda", afirma o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Em muitos casos, a clementia de César envolvia até a promoção de antigos inimigos. Dois dos mais mimados pelo novo senhor de Roma foram os líderes da conspiração que acabaria por matá-lo: Caio Cássio Longino e Marcos Júnio Bruto, sendo que ambos haviam recebido cargos e honrarias.

Oficialmente, Roma era uma república, mas na prática o poder absoluto estava nas mãos de César. Em épocas de crise, Roma tinha sido governada pelos chamados ditadores, que ganhavam poderes amplos durante um período de no máximo seis meses; em 45 a.C., o Senado deu ao general o título de senador vitalício, um ano depois de conferir o cargo a ele por dez anos - dois fenômenos sem precedentes na história republicana. Com essas manobras, sem falar de outras honras dadas a ele pelo Senado, como o título de Pater Patriae (Pai da Pátria), parecia que César tinha amansado de vez os Optimates e trazido os antigos inimigos para o seu lado. Mas a situação real era bem mais complicada.

O ovo da serpente

A propaganda política dos conspiradores tentou pintar o atentado contra César não como homicídio, mas como tiranicídio - um ato destinado a restaurar as "antigas liberdades" da Roma republicana destronando um déspota. Outros historiadores, como o americano Michael Parenti, em seu livro O Assassinato de Júlio César, argumentam que a decisão de eliminar o general foi só mais um round na velha briga entre Optimates e Populares. Afinal, César tomou medidas que desagradaram a antiga aristocracia, como a distribuição de terras para veteranos de guerra e a concessão de cidadania romana a povos das províncias do Império. Ele ainda aumentou o número de membros do Senado de 600 para 900, incluindo até alguns moradores da Gália na conta, o que certamente ameaçava a supremacia dos nobres romanos. No entanto, para Isabelle Pafford, doutora em História Antiga e Arqueologia do Mediterrâneo pela Universidade da Califórnia em Berkeley, a motivação dos conspirados pode ter sido bem mais simples. "Creio que as razões da conspiração eram mais pessoais que políticas, porque os responsáveis nem chegaram a ter um plano sobre o que fazer depois. Eles estavam pensando na sua própria carreira, não na “república” ou na estabilidade política dela", diz Isabelle. Trocando em miúdos: Bruto, Cássio e companhia perceberam que estavam destinados a ser, no máximo, joguetes bem pagos de César - e não gostaram nem um pouco da ideia.


Júlio César, Museu do Louvre (1696)


Segundo o historiador italiano Luciano Canfora, pesquisador da Universidade de Bari e autor de Júlio César - O Ditador Democrático, a ideia de eliminar o ditador já estava circulando desde 45 a.C. - no início entre antigos oficiais do próprio César, descontentes com o fato de não terem sido promovidos como desejavam. Membro do círculo de César havia tempo, apesar do seu passado entre os Optimates, Cássio conseguiu se aproximar dessa facção descontente e começou a articular um plano que, no fim das contas, agregaria cerca de 60 senadores, todos membros da velha elite. "Uma estratégia que examinaram foi aguardar as eleições consulares, durante as quais César ficaria em pé na ponte de madeira usada pelos eleitores a caminho da votação", escreve Michael Parenti. "Alguns conspiradores o empurrariam sobre o parapeito, enquanto outros estariam esperando embaixo, com as adagas desembainhadas." O plano não foi adiante por ser considerado muito arriscado, e os conspiradores decidiram que o melhor caminho era atacar durante uma cerimônia mais reservada. Antes disso, porém, Cássio queria conseguir o apoio de uma figura considerada chave: seu cunhado, Marcos Bruto. Eles andavam brigados - numa crise de ciumeira, o primeiro tentou impedir que o segundo assumisse um cargo cobiçado pouco tempo antes -, "mas Cássio sabia exatamente como convencer Bruto a agir", diz Luciano Canfora. Acontece que um dos ancestrais do senador, Lúcio Júnio Bruto, era famoso nas lendas romanas por ter expulsado da cidade seu último rei, Tarquínio, em 509 a.C.

O significado simbólico era óbvio: o descendente do homem que acabou com a monarquia em Roma estava "destinado" a eliminar o "tirano" e "rei ilegítimo" Júlio César. Em segredo, Cássio espalhou grafites e panfletos pela cidade, com frases como "Bruto, estás dormindo?" ou "Tu não és realmente Bruto", na tentativa de mexer com os brios do cunhado e envolvê-lo nessa mística. "Dos outros pretores [cargo ocupado por Bruto] esperam-se privilégios, espetáculos, mas de ti a abolição da tirania", disse Cássio, segundo o historiador grego Plutarco. E Bruto mordeu a isca.

Embora tivesse lutado ao lado de Pompeu e contra César, Bruto foi perdoado e recebeu do vencedor o governo da Gália Cisalpina (atual norte da Itália) e uma importante posição entre os sacerdotes de Roma. A generosidade exuberante do ditador talvez se deva a uma mãozinha de Servília, mãe de Bruto, amante de César e, segundo alguns escritores antigos, grande amor da vida do general. Mas daí a propor que Bruto era, na verdade, o filho bastardo de César vai uma distância considerável. "Isso é improvável, de acordo com a maioria dos especialistas, por causa da data de nascimento de Bruto", diz Isabelle. Quando seu futuro assassino veio ao mundo, César tinha apenas 15 anos. "A relação entre os dois era próxima, mas nada anormal dentro da sociedade romana", afirma ela.

Sinais e sangue

A data marcada para o ataque dos conspiradores era a dos Idos de Março de 44 a.C. (título dado ao dia 15 desse mês). O combinado era aproveitar a presença de César no Senado para a cartada decisiva. Segundo os autores que abordaram o caso na Antiguidade, não faltaram avisos e sinais dos deuses para o ditador. Primeiro foi um jantar na casa de um amigo na noite anterior ao atentado. Após a comida, a conversa acabou se voltando para qual seria a melhor maneira de morrer ("inesperada e rápida", teria dito César). Depois foi o pesadelo de Calpúrnia, mulher do general, que sonhou que o marido era assassinado em seus braços e implorou para que ele não fosse ao Senado. César também sonhou que voava e apertava a mão do deus Júpiter. César quase cedeu a Calpúrnia, mas um dos traidores, Décimo Bruto (parente distante do outro Bruto), conseguiu convencer o ditador a ir até o Senado mesmo assim. De acordo com Plutarco, o erudito grego Artemidoro de Cnido, que frequentava a casa de Bruto, teria tentado alertar César da conspiração por meio de um bilhete, já bem perto do Senado, mas César deixou para ler a mensagem depois da audiência. Os historiadores antigos concordam a respeito dos detalhes essenciais do ataque. Os assassinos esperaram que César se aproximasse de sua cadeira e o rodearam, supostamente para apoiar uma petição feita por Tílio Cimbro, que queria trazer seu irmão de volta do exílio. César pediu que ele esperasse um pouco e Cimbro puxou a barra da toga do ditador - o sinal para o ataque. César teria dito "Ora, isso é uma violência", enquanto outro senador, Casca, dava o primeiro golpe de adaga. César reagiu pela primeira e única vez, gritando "Casca, seu canalha, o que está fazendo?" e acertando o atacante com um pedaço de metal pontudo, usado para escrever. A essa altura os golpes se multiplicavam. De acordo com o historiador romano Suetônio, "quando, porém, percebeu que de todos os lados lhe vinham em cima com punhais em riste, envolveu a cabeça com a toga e com a mão esquerda puxou a extremidade dela até os pés para tombar decorosamente [sem mostrar os genitais]".

Até tu, Brutus?

Resta ainda um enigma, que deixava até alguns historiadores antigos céticos: a suposta frase "Tu também, meu filho?", dita quando César viu Bruto entre os assassinos. Primeiro, ela teria sido pronunciada em grego, língua na qual ela é ambígua. Kai su, têknon também pode querer dizer "você também, menino/moleque". "Minha impressão é que, ao colocar a frase em grego, os escritores antigos querem dar a impressão de que César está citando alguma tragédia. Ou seja, estão colocando palavras na boca dele, num contexto literário. Ia ser muito difícil ouvi-lo no meio daquela confusão toda", afirma Isabella, que se diz cética a respeito de todos os detalhes do episódio. Reza a lenda que, depois da morte do ditador, Bruto tentou fazer um discurso para os Liberatores (como os assassinos se denominavam), mas eles e os demais senadores acabaram fugindo da cena do crime. Com a fria reação popular ao fim de César, os Liberatores se viram num dilema e acabaram se sentando à mesa de negociação com Antônio. Afinal, se César tinha mesmo sido um tirano, nenhuma de suas decisões era válida - inclusive as nomeações de vários dos assassinos para cargos importantes e rentáveis. As conversas acabaram terminando no que parecia uma monumental pizza: César não seria oficialmente declarado tirano, e portanto poderia receber funerais dignos, e os Liberatores não seriam declarados assassinos, mantendo assim o cargo e a posição social. Plano digno de outro Senado que todos conhecemos, sem dúvida, se não fosse pela malandragem e pelo poder oratório de Antônio. Nos funerais, ele exibiu uma imagem de cera, em que se viam os ferimentos sofridos por César, e fez um elogio fúnebre com tamanha paixão que o povo de Roma, revoltado, jurou vingança contra os Liberatores. Mesmo anistiados, Cássio e Bruto decidiram fugir para as províncias romanas do Oriente. Lá, a dupla de conspiradores reuniu soldados para tentar conquistar todo o Império Romano, mas era mais fácil matar César que imitá-lo. Uma aliança entre Marco Antônio, Marco Emílio Lépido (outro general de César) e o herdeiro e sobrinho-neto do ditador, Otaviano, esmagou as forças de Bruto e Cássio em Filipos, na Macedônia. A dupla cometeu suicídio (ou, para ser mais exato, Bruto se matou e Cássio mandou que um de seus ex-escravos o matasse). Ainda não era o fim das grandes guerras civis romanas - nas décadas seguintes, Otaviano derrotaria Antônio e viraria Augusto, o primeiro imperador. Mas, sem dúvida alguma, era o fim das chances de poder para sujeitos como Cássio, Bruto, Casca e os demais senadores, que se diziam Liberatores.

 O Assassinato de César - Karl Piloty (1865)


E se César tivesse escapado?

O tirano teria se tornado imperador ou morrido em batalhas

Imagine uma realidade alternativa na qual César, um pouquinho mais preocupado com a própria segurança, só faz suas poucas e imponentes aparições públicas rodeado por uma guarda de gauleses brutamontes, muito bem pagos e leais apenas ao ditador. À primeira vista, o resultado dessa política mais cautelosa parece óbvio: Roma teria seu primeiro imperador uns 20 anos antes do que realmente acabou acontecendo (com a subida ao poder de Augusto, sobrinho-neto e herdeiro de César). De resto, tudo teria caminhado mais ou menos do mesmo jeito que no nosso mundo. Ou não? "A ascensão do Principado [o governo absoluto de Augusto] certamente parece inevitável a partir da nossa perspectiva, mas deveríamos ser mais humildes ao tentar prever o que aconteceria. Para começar, se a tentativa de assassinato não tivesse acontecido, César teria partido para outra campanha militar", diz Isabelle Pafford, referindo-se ao plano do ditador de atacar o Império da Pártia, que então dominava vastas regiões na Mesopotâmia e na Pérsia. Acontece que as legiões romanas já tinham levado sovas consideráveis na Pártia, o que significa que César podia muito bem acabar morrendo em batalha. "Nesse caso, o Império Romano teria se fraturado, com a própria Roma entrando em declínio", diz ela. "Com Júlio César vivo, os rumos do Império aparentemente seriam muito diversos do que foram. Ele teria tudo para antecipar as tendências centralizadoras e para implantar um culto imperial [no qual o governante era adorado como deus] ainda mais robusto. O Senado teria menos poder simbólico do que teve com Augusto", afirma Pedro Paulo Funari. Pode até ser que Marco Antônio fosse nomeado como sucessor. Assim, diz o historiador, Roma ficaria cada vez mais voltada para o Oriente, onde esses modelos de governo eram mais conhecidos e bem aceitos. "Haveria movimentos messiânicos na Palestina, como o de Jesus? Haveria a destruição de Jerusalém em 70 d.C.? Não se sabe", diz Funari, levando em conta que a relação de César com a população judaica da Palestina e do resto do Império era bastante pacífica.

Política na faca

Assassinatos políticos já eram praxe séculos antes de César tombar no Senado

Israel, 840 a.C.

Jeú, general do exército, conspirou contra o rei Jorão, matou-o com uma flechada no coração e aproveitou para liquidar a rainha-mãe Jezebel, junto com outros 70 membros da família real. Jeú tornou-se rei.

Grécia, século 6 a.C.

Dois jovens amantes atenienses, Harmôdio e Aristogeiton, tentaram despachar os irmãos Hípias e Hiparco, que mandavam em Atenas, ocupando a posição de tiranos. Hiparco morreu, Hípias escapou e os conspiradores foram mortos.

Pérsia, século 6 a.C.

Parente distante dos reis da Pérsia e oficial do exército, Dario alegou que o soberano do momento na verdade era um impostor e, com ajuda de outros nobres do império, invadiu o palácio real e o matou com suas próprias mãos, tornando-se imperador.

Macedônia, 336 a.C.

Alexandre, o Grande, ganhou o trono graças à morte violenta de seu pai, Filipe II, atacado por um membro de sua guarda pessoal (e seu ex-amante). Acredita-se que o assassinato tenha sido orquestrado pela mãe de Alexandre.

Os suspeitos

Caio Cássio Longino

General com experiência nas guerras romanas no Oriente, estudou filosofia na Grécia e se aliou a Pompeu, líder da facção aristocrática inimiga de César, quando estourou o conflito civil em Roma. Quando Pompeu foi derrotado, Cássio recebeu o perdão oficial de César e o cargo de pretor, mas não ficou nem um pouco satisfeito.

Marcos Júnio Bruto

Descendia de um ancestral famoso e semilendário que, segundo a tradição, fora responsável por expulsar Tarquínio,o último rei de Roma. Sua mãe, Servília, era amante de César. Como Cássio, seu cunhado, ele acabou se aliando a Pompeu durante a guerra civil, sendo perdoado assim que se rendeu.

Décimo Júnio Bruto Albino

Parente distante do outro Bruto e do próprio César, era um almirante de mão cheia, que ajudou o ditador a vencer batalhas navais durante a conquista da Gália e na guerra civil. Com reputação acima de qualquer suspeita, os conspiradores trataram de recrutá-lo, junto com outros membros do círculo de César que andavam descontentes.

Públio Servílio Casca

Casca e seu irmão, Caio, eram senadores membros de uma família leal a César, mas tudo indica que a falta de perspectivas políticas para o Senado com o poder cada vez mais absoluto do ditador os levou a se juntar aos conspiradores. Públio Casca, segundo os autores antigos, foi o primeiro senador a ferir César com sua adaga.

Marco Túlio Cícero

Excelente orador, escritor e filósofo, foi o grande articulador do partido aristocrático, os Optimates, pouco antes da guerra civil e durante o conflito. Aceitou o domínio de César e fez os senadores jurarem defender a vida do ditador. Mas não deixava de queimar o filme de César. Não participou diretamente do atentado.

Saiba mais

LIVROS

Júlio César - O Ditador Democrático, Luciano Canfora, Estação Liberdade, 2002

Provavelmente a obra mais completa e erudita sobre a vida e morte de César em português, com uma análise minuciosa das fontes antigas sobre o ditador.

O Assassinato de Júlio César, Michael Parenti, Record, 2005

Parenti tenta entender o assassinato de César como um dos últimos rounds da luta entre políticos reformistas e conservadores na república romana. O livro é repleto de descrições e teorias sobre o que poderia ter sido diferente no destino do tirano mais famoso de Roma.

Rubicão, Tom Holland, Record, 2006

Introdução leve e clara à crise da república, da geração anterior a César à morte de Augusto, o sobrinho-neto herdeiro de Roma, que instaurou o império.

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/assassinato-julio-cesar-572266.shtml

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

[PGM] Como a Alemanha perdeu a Corrida Armamentista na PGM

Saul David, 16/02/2012


A História nos diz que um general pode deslocar e alimentar um exército tão eficientemente quanto ele queira, mas o fator limitante real é o campo de batalha. Toda a energia que ele gasta reunindo seus homens na linha de frente em forma e com saúde não conta nada se eles não têm o equipamento correto. O que eles precisam, acima de tudo, é munição suficiente - mesmo assim, houve momentos durante a guerra quando uma escassez de projéteis de artilharia significou o silêncio dos canhões. Dada a escala sem precedentes do conflito, era obrigatório tomar tempo da indústria armamentista em tempos de paz para ajustar-se. Cada um dos combatentes principais, além disso, tinha seus próprios limites para produção. A Alemanha tinha falta das necessárias matérias-primas para fabricar pólvora (o propelente essencial para cartuchos e projéteis) e explosivos. A Áustria-Hungria foi prejudicada pela falta de transporte e infra-estrutura ferroviária. A Grã-Bretanha tinha escassez de recursos humanos e pobreza de acetona, o componente-chave para fabricar pólvora. E a França, nos anos iniciais, teve que se ajustar devido à perda de muito de seu coração industrial pelo avanço alemão. Nenhum destes fatores foi particularmente urgente enquanto a guerra esteve nos passos iniciais. Mas tão logo ela se estabeleceu no final de 1914 como um atoleiro, com a linha de trincheira percorrendo 800 km, de Nieuport na Bélgica até a fronteira suíça, os projéteis de artilharia eram necessários em maior quantidade para forçar um progresso.




Em março de 1915, na Batalha de Neuve Chapelle, os britânicos dispararam mais projéteis em um bombardeio de 35 minutos do que eles fizeram durante toda Guerra Boer. A Grã-Bretanha tinha canhões suficientes, mas estava consumindo munição muito rápido e aqueles projéteis que estavam disponíveis freqüentemente falhavam em explodir ou queimavam prematuramente no cano do canhão. Por volta de maio deste anos, a "crise dos projéteis" estava tão séria que a maior parte dos canhões britânicos foi obrigada a disparar apenas quatro projéteis por dia, e parecia que a guerra seria perdida, não nas trincheiras da França, mas nas fábricas da Grã-Bretanha. O escândalo resultou na queda do governo liberal de Asquith e sua substituição por uma coalizão, apesar de Asquith ter permanecido como Primeiro-Ministro.

Lloyd George tornou-se o chefe de um novo Ministério das Munições, responsável pelo aumento da oferta de projéteis de artilharia para a Força Expedicionária Britânica. O novo ministério começou a construir fábricas de munições através do país e transformar a economia civil em uma de guerra. Ele também encarregou o químico de Manchester, Chaim Weizmann, de produzir grandes quantidades de acetona a partir das matérias-primas. Ela era obtida previamente da destilação seca da madeira; portanto, a maior parte da acetona era importante de países com grandes florestas como os Estados Unidos.

Em maio de 1915, após Weizmann ter demonstrado ao Almirantado que ele poderia usar um processo de fermentação anaeróbico para converter 100 toneladas de grão para 12 toneladas de acetona, o governo liberou a compra de equipamento de destilação e mistura, e construir fábricas para utilizar o novo processo em Holton Heath em Dorset e em King´s Lynn em Norfolk.

Juntos, eles produziram mais de 90.000 galões de acetona por ano, suficiente para alimentar a demanda insaciável da guerra por pólvora. Como resultado, a produção de projéteis cresceu de 500.000 nos primeiros cinco meses da guerra para 16,4 milhões em 1915.

Por volta de 1917, graças às novas fábricas de munições e às mulheres que trabalhavam nelas, o Império Britânico estava fornecendo mais de 50 milhões de cartuchos por ano. No final da guerra, o exército britânico havia disparado 170 milhões de projéteis.

A transformação da França de sua produção armamentista foi ainda mais bem sucedida. Ao importar carvão da Grã-Bretanha e aço dos Estados Unidos, liberando 350.000 soldados das indústrias militares, e acrescentando mais de 470.000 mulheres nelas, ela foi capaz de aumentar sua produção diária de cápsulas de 75 mm de 4.000 em outubro de 1914 para 151.000 em junho de 1916, e de cartuchos de 155 mm de 235 para 17.000. Em 1917, ela produziu mais cartuchos e peças de artilharia por dia do que a Grã-Bretanha.

A Alemanha havia iniciado com vantagem industrial em relação à Grã-Bretanha e à França – principalmente por causa de sua liderança na produção de aço e em muitos ramos da engenharia química – e sua produção de projéteis em 1914 foi de 1,36 milhões de cartuchos. Mas escassez de matérias primas vitais - particularmente o algodão, cânfora, pirita e salitre – significou que ela não poderia aumentar sua produção à mesma taxa, e somente 8,9 milhões de cartuchos foram fabricados em 1915.

O ano seguinte viu um melhoramento robusto, graças aos esforços do departamento de matérias primas da guerra, KRA, que comandava armazenamento, distribuição e, o mais importante, inspecionar a produção da indústria química de substitutos sintéticos.

Em 1916, conseqüentemente, a produção alemã de projéteis quadruplicou para 36 milhões. Mas no longo prazo, as Potências Centrais – Alemanha, Áustria-Hungria, Turquia e Bulgária – não poderiam ter esperança de competir com o poder fianceiro e industrial dos Aliados.

O orçamento das Potências Centrais de U$ 61.5 bilhões era menos da metade dos U$ 147 bilhões dos Aliados. No verão de 1916, a Alemanha instituiu o fracassado Programa Hindenburg – chamado em homenagem ao comandante do exército, o Marechal Paul Von Hindenburg – em uma tentativa de alavancar sua produção de armas. Ao invés disso, ele drenou uma força de um milhão de homens do exército, trouxe uma crise no transporte e intensificou a escassez de carvão.



No início de 1917, a Alemanha tentou proteger suas forças espalhadas e mal equipadas da Frente Ocidental abandonando a fortificada Linha Hindenburg, e lançando uma irrestrita guerra submarina.

Esta última provocou a entrada dos EUA na guerra, assim deslocando o equilíbrio da produção de munições para o lado dos Aliados. Ela foi, basicamente, uma guerra de atrito que as más abastecidas Potências Centrais não tinham esperança de vencer.

Desde a Primeira Guerra Mundial, força superior não é mais medida em termos de homens e cavalos, mas por meio de destruição executada.

Na Segunda Guerra Mundial, os Aliados despejaram 3,4 milhões de toneladas em bombas na Europa e na Ásia. No Vietnã, um número incrível de 7 milhões foi lançado sobre a Indochina.

O custo também aumentou. Na Segunda Guerra do Golfo, os EUA lançaram uma onda de choque e pavor contra o Iraque ao disparar 800 mísseis de cruzeiro Tomahawk em um período de apenas 48 horas. Cada um deles custa U$ 500 mil. Hoje, um simples Typhoon da Eurofighter custa 50 milhões de libras e o Caça Joint Strike proposto deve alcançar 100 milhões de libras a unidade. Para campanhas inteiras, a escala de custos é incrível.

É estimado que a Guerra no Afeganistão tenha já custado 18 bilhões de libras para o contribuinte britânico. E ainda que toda a sofisticação de seu equipamento militar, a vitória da OTAN sobre um inimigo armado com um pouco mais de Kalashnikovs e bombas caseiras está longe de ser certa.

Ter as melhores armas é geralmente decisivo, mas nem sempre.

http://www.bbc.co.uk/news/magazine-17011607

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sucateado, Exército não teria como responder a guerra, dizem generais

Globo, 13/08/2012


Assinada em 2008, a Estratégia Nacional de Defesa (END) prevê o reaparelhamento das Forças Armadas do país em busca de desenvolvimento e projeção internacional, mirando a conquista de um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto, poucas medidas previstas no decreto tiveram avanços desde então.

O Exército, que possui o maior efetivo entre as três Forças (são 203,4 mil militares), está em situação de sucateamento. Segundo relato de generais, há munição disponível para cerca de uma hora de guerra.

O G1 publica, ao longo da semana, uma série de reportagens sobre a situação do Exército brasileiro quatro anos após o decreto da END, assinado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foram ouvidos oficiais e praças das mais diversas patentes - da ativa e da reserva -, além de historiadores, professores e especialistas em segurança e defesa. O balanço mostra o que está previsto e o que já foi feito em relação a fronteiras, defesa cibernética, artilharia antiaérea, proteção da Amazônia, defesa de estruturas estratégicas, ações de segurança pública, desenvolvimento de mísseis, atuação em missões de paz, ações antiterrorismo, entre outros pontos considerados fundamentais pelos militares.

O Exército usa o mesmo fuzil, o FAL, fabricado pela empresa brasileira Imbel, há mais de 45 anos. Por motivos estratégicos, os militares não divulgam o total de fuzis que possuem em seu estoque, mas mais de 120 mil unidades teriam mais de 30 anos de uso.

Carros, barcos e helicópteros são escassos nas bases militares. O índice de obsolescência dos meios de comunicações ultrapassa 92% - sendo que mais de 87% dos equipamentos nem pode mais ser usado, segundo documento do Exército ao qual o G1 teve acesso. Até o início de 2012, as fardas dos soldados recrutas eram importadas da China e desbotavam após poucas lavadas.


A Estratégia Nacional de Defesa elencou entre os pontos-chave a proteção da Amazônia, o controle das fronteiras e o reaparelhamento da tropa, com o objetivo de obter mobilidade e rapidez na resposta a qualquer risco. Defesa cibernética e recuperação da artilharia antiaérea também estão entre os fatores de preocupação.

Um centro de defesa contra ataques virtuais começou a ser instalado pelo Exército em 2010, em Brasília, mas ainda é enxuto e não conseguiu impedir ataques a uma série de páginas do governo durante a Rio+20, em junho deste ano.

O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), iniciativa que busca vigiar mais de 17 mil quilômetros de divisas com 10 países, começará a ser implantado ainda em 2012, com um teste na fronteira do Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia.

Segundo o general Walmir Almada Schneider Filho, do Estado-Maior do Exército, a Força criou 245 projetos para tentar atingir os objetivos da Estratégia Nacional de Defesa. Ele afirma que os recursos, porém, chegam aos poucos.

Nos últimos 10 anos, a percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) investido em defesa gira em torno de 1,5%, segundo números do Ministério da Defesa - em 2011, o valor foi de R$ 61,787 bilhões. Durante a crise econômica, entre 2003 e 2004, o índice chegou a 1,43%. O maior percentual foi registrado em 2009, quando 1,62% do PIB foram destinados para o setor.

Em 2012, o Exército receberá cerca de R$ 28,018 bilhões, mas 90% serão destinados ao pagamento de pessoal. Desde 2004, varia entre 9% e 10% o montante disponível para custos operacionais e investimentos.

A ideia do ministro da Defesa, Celso Amorim, é elevar gradativamente os gastos com defesa para a média dos demais países dos Brics (Rússia, Índia e China), que é de 2,4%. Segundo afirmou em audiência no Senado, o objetivo é fazer o Brasil ter maior peso no cenário internacional.

“Nós perdemos nossa capacidade operacional, sabemos dessa defasagem. A obsolescência é grande. Por isso, um dos nossos projetos busca a recuperação da capacidade operacional. Até 2015, devemos receber R$ 10 bilhões só para isso”, afirma o general Schneider Filho, responsável pelos estudos da END no Estado-Maior do Exército.

Falta munição

Dois generais da alta cúpula, que passaram para a reserva recentemente, afirmaram ao G1 que o Brasil não tem condições de reagir a uma guerra. “Posso lhe afirmar que possuímos munição para menos de uma hora de combate”, diz o general Maynard Marques de Santa Rosa, ex-secretário de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa.

“A quantidade de munição que temos sempre foi a mínima. Ela quase não existe, principalmente para pistolas e fuzis. Nossa artilharia, carros de combate e grande parte do armamento foram comprados nas décadas de 70, 80. Existe uma ideia errada de que não há ameaça. Mas se ela surgir, não vai dar tempo de atingir a capacidade para reagir”, alerta o general Carlos Alberto Pinto Silva, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres (Coter), que coordena todas as tropas do país.

“Nos últimos anos, o Exército só tem conseguido adquirir o mínimo de munição para a instrução. Os sistemas de guerra eletrônica (rádio, internet e celular), a artilharia e os blindados são de geração tecnológica superada. Mais de 120 mil fuzis têm mais de 30 anos de uso. Não há recursos de custeio suficientes”, diz Santa Rosa. Ele deixou o Exército em fevereiro de 2010, demitido por Lula após chamar a Comissão da Verdade, que investiga casos de desaparecidos políticos na Ditadura, de “comissão da calúnia”.

Segundo o Livro Branco, documento que reúne dados sobre a defesa nacional, o Exército possui 71.791 veículos blindados, a maioria deles comprados há mais de 30 anos. Apenas um é do modelo novo, o Guarani, entregue em 2012 e que ainda está em avaliação. Um contrato inicial de R$ 41 milhões foi fechado para a aquisição dos primeiros 16 novos carros de combate. No último dia 7, um novo contrato foi assinado para a aquisição de outras 86 viaturas Guarani, ao custo de R$ 240 milhões.

"Nenhuma nação pode abrir mão de ter um Exército forte, que se prepara intensivamente para algo que espera que nunca ocorra. A população tem que entender que é preciso ter essa capacidade ociosa, sempre, para estar pronto para dar uma resposta se um dia for necessário", defende o general Fernando Vasconcellos Pereira, diretor do Departamento de Educação e Cultura do Exército.

Riscos e ameaças

Para saber quais equipamentos, tecnologias e armas precisam ser compradas e que outras mudanças são necessárias, o Exército criou o Grupo Lins, que reúne uma equipe para prever cenários de conflitos ou crises - internos ou externos - em que a sociedade e os políticos possam exigir a atuação dos militares até 2030.
O objetivo é antever problemas, sejam econômicos, sociais, de segurança pública ou de calamidade, e saber quais treinamentos devem ser dados aos soldados até lá.
Nesses cenários, a Amazônia e as fronteiras estão entre as maiores preocupações. O texto revisado da Estratégia Nacional de Defesa, entregue pelo governo ao Congresso Nacional em 17 de julho, destaca "a ameaça de forças militares muito superiores na região amazônica”.

Para impedir qualquer ataque, o Exército prepara o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), que, através de um conjunto de sensores, radares e câmeras, permitirá a visualização de tudo o que ocorre nas fronteiras em tempo real. Os equipamentos facilitarão a repressão ao tráfico de drogas e armas, ao contrabando e aos crimes ambientais. A previsão é de que o sistema esteja totalmente operando em 2024.

O alto valor que o governo pretende passar para o Sisfron - R$ 12 bilhões até 2030 – movimentou o mercado nacional e fez com que empresas se unissem buscando soluções para vencer a licitação em andamento. Entre as interessadas estão Odebrecht, Andrade Gutierrez e Embraer, que fizeram parcerias com grandes indústrias do setor.

Para o historiador e criador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Geraldo Cavanhari, o Exército está em transformação e precisa se adequar para os inimigos do futuro. “O inimigo, seja interno ou externo, agora está extremamente bem armado. Por enquanto, não temos ameaças explícitas, mas temos que cuidar da nossa casa e estar preparados para responder, caso seja necessário”.

O general da reserva Carlos Alberto Pinto Silva diz que o problema continua sendo o orçamento. "Um coronel argentino me disse que eles aprenderam na guerra nas Malvinas que, se não existe a capacidade mínima de responder, não dá tempo para adquirir. Não adianta chorar depois”, afirma.

Mudança de percepção

Estudioso da área, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ronaldo Fiani entende que a abertura democrática e a criação do Mercosul provocaram mudanças na forma da população conceber a proteção do país, Consequentemente, foram feitos cortes nos investimentos militares. “O fim da ditadura e a união dos países latinos fez com que houvesse enfoque em integração, com diminuição do investimento na área militar", explica.

Burocracia, crises financeiras e déficit fiscal também são entraves para maior disponibilidade de recursos. “A única forma dos militares receberem mais investimentos é se integrando à pesquisa acadêmica e às empresas, como ocorre nos países desenvolvidos", diz Fiani.


O general Walmir Almada Schneider Filho concorda com o professor. “No primeiro mundo, o povo tem a mentalidade de que defesa e desenvolvimento caminham juntos e complementam-se. Um impulsiona o outro. Nós não queremos chegar neste patamar [de país voltado para a guerra], mas criar uma mentalidade de defesa, para que o povo discuta o assunto", diz.

“Eu acho que a redução dos investimentos tem relação com o período militar e a própria mentalidade da população, que vê como melhor alternativa aplicar os recursos em outro setor fundamental, como saúde, educação, etc", acrescenta Schneider Filho.

"Não há um palmo sobre o território brasileiro que não esteja sob a responsabilidade de uma tropa do Exército. Somos a organização mais presente em todo o território e que tem meios de chegar o quanto antes em qualquer situação. Por isso, assumimos cada vez mais responsabilidades e temos que ter capacidade para atuar em situações de emergência”, diz o general José Fernando Yasbech, também do Estado-Maior do Exército.


Yasbech se refere aos múltiplos empregos do Exército em ações civis dentro do país, como as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), como a Constituição determina o emprego militar em casos graves de segurança pública. Além disso, o militares são convocados para o apoio em caso de enchentes, abertura de estradas, construção de pontes, distribuição de ajuda humanitária, apoio em eleições, combate à dengue e à aftosa, entre outros.

Proteger

Em 2012, mais uma linha de atuação está sendo aberta: os militares serão responsáveis pela defesa e proteção de infraestruturas estratégicas do país, como hidrelétricas, usinas nucleares, indústrias essenciais e centros financeiros e de telecomunicações a partir da criação do projeto Proteger. O programa terá recursos na casa dos R$ 9,6 bilhões e reunirá órgãos públicos dos estados e informações necessárias para prevenir, conter ou reprimir ataques ou acidentes nesses locais.


São mais de seis mil infraestruturas estratégicas existentes no país, sendo que 364 estão entre as mais críticas, conforme levantamento do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.

"O trabalho será tanto no sentido de prevenir acidentes nessas estruturas como também de identificar riscos e, eventualmente, contê-los", diz o general José Fernando Yasbech, que responde pelo projeto.

O trabalho começará no Paraná, com a implementação de um centro de ação conjunta com polícia, Bombeiros e Defesa Civil para defender a Usina de Itaipu.

“O reaparelhamento das Forças Armadas vai além de apenas dizer que um país pacifista está tomando uma atitude de se tornar mais bélico. O emprego dos militares tem sido bem diferente nos últimos anos, seja em ações de defesa civil, de segurança pública, de apoio aos órgãos estaduais. E isso demanda alterações estruturais profundas na política, na mentalidade da população e em investimentos”, diz Iberê Pinheiro Filho, mestre em Relações Internacionais e estudioso da Estratégia Nacional de Defesa.

Procurado para comentar a atual situação do Exército, o ex-ministro de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger, que escreveu o texto da Estratégia Nacional de Defesa, disse que se considerava "moralmente impedido de falar" devido à "relação íntima e especial com as ações e tarefas de que tratará a reportagem".


"Direi apenas o que escrevi na dedicatória de um livro que dei à biblioteca do Exército, por mãos do general que a comanda: o Exército brasileiro é a mais importante instituição do Brasil", afirmou Mangabeira Unger ao G1.

Já o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim, que também assinou a END em 2008, disse que não iria comentar a situação, pois não ocupa mais o cargo.



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

[SGM] Paris, 1942: La vie en rose

The Independent, 09 de abril de 2008


Uma nova exibição de imagens coloridas descrevendo o dia-a-dia na capital francesa sob a ocupação nazista foi atacada como camuflagem histórica.

É um lindo dia ensolarado no Place de la Concorde em Paris. A cúpula de ouro do Les Invalides cintila à distância. Uma mulher bem vestida, usando um chapéu de palha espera para atravessar a rua.

A imagem poderia ter sido tirada ontem, exceto por dois ou três detalhes. A moda e a ausência de carros. E, oh sim, há um membro das hordas de ocupação nazista à paisana, que também, pacientemente, espera sua vez para atravessar a rua.

Este é, de fato, o verão de 1942, próximo do metade da ocupação nazista da capital francesa. São quase 270 fotografias - parte de uma coleção única de imagens coloridas deste tipo - tiradas em Paris durante a guerra por um fotógrafo colaboracionista francês. As imagens, a maior parte nunca vista antes em público, estão à mostra na Biblioteca histórica da Prefeitura de Paris até 1º. de julho.

As fotografias mostram, a maior parte, uma cidade incrivelmente familiar, calma, chique, feliz e amante da moda. A exibição acabou gerando descontentamento e preocupação em Paris, precisamente porque ela mostra os parisienses sendo parisienses, e levando a vida normalmente, sob o jugo nazista. Eles se sentam à mesas em cafeterias ensolaradas no Champs Elysées. Eles usam auto-confiantes óculos escuros da moda com armações brancas. Eles pescam no rio Sena. Eles vão às compras.

A Prefeitura deu um passo incomum esta semana ao editar um alerta histórico em cada bilhete de entrada para a exposição. O panfleto esclarece que o fotógrafo, André Zucca, trabalhava durante a guerra para a revista pró-nazista Signal. O panfleto diz que este trabalho "escolhe mostrar nada, ou pouco, da realidade da Ocupação e de suas terríveis conseqüências."

Há duas imagens de judeus ostentando estrelas amarelas que uma lei francesa determinou que eles as usassem em público. Há uma fotografia misteriosa da linda curva de colunata da Rue de Rivoli, parecendo como hoje, exceto pelas orgulhosas bandeiras nazistas tremulantes ao vento.

Mas, no conjunto, a exibição torna Paris sob a ocupação nazista um lugar suficientemente agradável para viver. Há poucos carros. Posters de propaganda nazista, suásticas e oficiais exibidos em uniformes alemães ocasionalmente intrometendo-se. De outra forma, as pessoas aprecem conversando alegremente nas cafeterias; crianças em patins e animais domésticos aparecem; amantes apreciam o Sena.

O assistente do prefeito de Paris para assuntos culturais, Christopher Girard, disse ontem que ele achou a exibição "embaraçosa, ambígua... e pessimamente explicada", e isto porque foi a prefeitura que imprimiu os panfletos no último momento, explicando que as fotografias de Zucca - apesar de serem um importante registro histórico - dão uma imagem deliberadamente distorcida de Paris sob a ocupação nazista.

A exibição foi mal conduzida? É tão chocante assim a maior parte dos parisiense, com relativamente poucos judeus e poucos membros ativos da Resistência, simplesmente sendo parisienses entre junho de 1940 e agosto de 1944? A noção de que a capital francesa sofreu terrivelmente sob o jugo nazista foi primeiro alardeada pelo General Charles de Gaulle em 25 de agosto de 1944, o dia que a cidade foi libertada pelos tanques americanos e franceses. Em um discurso improvisado em frente à prefeitura, com atiradores alemães e colaboracionistas ainda em atividade nos telhados, ele homenageou "Paris outragée! Paris brisée! Paris martyrisée!" (Paris violentada! Paris saqueada! Paris torturada!) Na verdade, como o historiador Jean-Pierre Azéema esclarece no livro que acompanha a exibição, Paris foi deliberadamente bem tratada com luvas de pelica pela máquina de propaganda nazista.

Em 1940, Adolf Hitler pretendeu colocar no chão a cidade, mas mudou de ideia. Seu chefe de propaganda, Joseph Goebbels, ordenou ainda em julho daquele ano que a capital francesa conquistada deveria ser encorajada a ser "animada e alegre", de modo que a vida sob os nazistas pareceria atraente para os americanos e outros povos neutros.

O filósofo Jean-Paul Sartre, em um ensaio em 1945, comentou com seus companheiros parisienses que já estavam retratando a ocupação nazista como uma miséria prolongada. "Vamos deixar de lado estas imagens simplistas," ele escreveu. "Não, é claro, os alemães não estavam vigiando as ruas a todo instante com armas em mãos..." O maior problema para a maioria dos parisienses durante a guerra, Sartre disse, foi a sensação de "má consciência" que eles não estavam fazendo nada para resistir aos invasores.

Há também um relato no livro de exibição, escrito por seu curador, do cineasta Jean Baronnet. lembrando suas próprias experiências como menino na Paris da guerra, Baronnet lembra ter visto o líder dos colaboracionistas, o regime de Vichy, Marechal Philippe Petáin, se deslocando por Paris em um Renault conversível. "Eu percebi o quão rosa era sua face e quão branco era seu bigode. Nas janelas e nas ruas, as pessoas aplaudiam e gritavam "Vive le Maréchal".

Isto aconteceu em maio de 1944, um mês antes do Dia D, e três meses antes de Paris ser libertada em cenas de imensa alegria. Tudo muito francês ou tudo muito parisiense? Não, tudo muito humano. O General de Gaulle fomentou o mito após a guerra de que todos os franceses eram ou colaboracionistas ou opositores. Na verdade, 90 por cento não era uma coisa e nem outra.

Zucca foi capaz de usar o filme colorido alemão Agfa, e tirar fotos livremente nas ruas, porque ele era um colaboracionista. Ele não era necessariamente um simpatizante nazista. Ele é descrito por sua família como um liberal de direita. Ele havia sido fotógrafo internacional para a revista Paris Match antes da guerra.

Após a libertação, uma tentativa foi feita para processá-lo, mas as acusações foram retiradas. Ele caiu no anonimato vendendo câmeras fotográficas em sua loja nas províncias.

Seus negativos coloridos, apagados e riscados pelo passar dos anos, foram maravilhosamente restaurados e limpos para a exibição. Eles foram convertidos para a forma digital, com 5.000 por 3.300 pixels, usando uma técnica desenvolvida (por ironia do destino) por uma empresa alemã. As cores foram ressaltadas e ajustadas para o que acredita-se ser próximo dos seus valores originais. Zucca parece ter tirado as fotografias por seu próprio interesse e divertimento. Elas não foram solicitadas, ou plicadas, por seus empregadores nazistas.

O panfleto publicado pela prefeitura sugere que Zucca, como colaborador, deliberadamente ignorou o lado duro da vida em Paris durante a guerra. Entretanto, é mais provável que ele tenha apenas fotografado o que realmente viu.

Os mitos franceses, e a "má consciência", em relação à guerra ainda resiste. Por isso, a polêmica em torno de uma exibição que sugere que parisienses comuns levavam uma vida relativamente banal sob o domínio nazista.

Assim, a exibição deveria ser saudada por retratar um despertar, mas importante, da verdade histórica. Há uma espécie de coragem mesmo nas fotografias banais e alegres da exibição. A determinação dos parisienses em serem eles próprios, continuar suas vidas era, por si só, uma forma de resistir ao nazismo.

http://www.independent.co.uk/news/world/europe/paris-1942-la-vie-en-rose-806331.html

Fotos selecionadas da Exposição





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O Judeu Favorito de Hitler

Meu Paciente, Hitler

Lembranças do Médico Judeu de Hitler

Dr. Eduard Bloch


"Meu paciente, Hitler" pelo Dr. Eduard Bloch "como relatado a J. D. Ratcliff," apareceu originalmente em duas partes no semanário Collier nas edições de 15 e 22 de março de 1941. Naqueles dias pré-televisão, a revista Collier era um dos mais influentes e lidos periódicos dos Estados Unidos. Lembrado por historiadores sérios como uma fonte histórica primária importante sobre a juventude de Hitler, este ensaio é citado, por exemplo, na bibliografia e notas de referência da biografia aclamada de John Toland, Adolf Hitler (Francisco Alves, 2 vol., 1978). É também citada como fonte no estudo de Robert Payne, A Vida e Morte de Adolf Hitler (Praeger, 1973) e na Enciclopédia do Terceiro Reich de Louis Snyder (McGraw Hill, 1976). Mesmo descrevendo francamente o impacto devastador das medidas antisemitas de Hitler em sua própria vida e carreira, o Dr. Bloch também escreve sobre o adolescente Hitler com uma honestidade e sensibilidade que seria quase impensável em uma revista americana de grande circulação hoje. O texto completo do ensaio de duas partes original, incluindo os subtítulos, é reimpresso aqui, com somente comentários adicionais pequenos entre parênteses.

O Editor


Parte I

Estávamos há três dias em direção de Lisboa seguindo a oeste para Nova York. A tempestade no sábado foi ruim, mas no domingo o mar havia se acalmado. Um pouco antes das onze horas da noite nosso navio, a pequena embarcação espanhola Marques de Comillas, obteve ordens para parar. Os oficiais de controle britânicos à borda de um navio queriam examinar os passageiros. A ordem foi que todos ficassem alinhados no salão principal.

Quatro oficiais britânicos, vestindo coletes salva-vidas, entraram. Sem nenhuma palavra eles percorreram a linha, verificando os passaportes. Havia uma certa tensão no ar. Muitos daqueles que estavam à bordo estavam fugindo; eles achavam que haviam conseguido escapar da Europa uma vez que a âncora foi içada em Lisboa. Agora? Ninguém estava certo. Talvez alguns de nós fossem retirados do navio.

Finalmente chegou minha vez. O oficial em comando pegou meu passaporte, deu uma olhada e levantou a cabeça, sorrindo. "Você foi médico de Hitler, não foi?" ele perguntou. Isto era correto. Também teria sido correto para ele acrescentar que sou judeu.

Conheci Adolf Hitler na infância e adolescência. Tratei-o muitas vezes e era intimamente familiar com a vizinhança humilde na qual ele cresceu até atingir a maturidade. Cuidei, em sua agonia final, a pessoa mais próxima e querida para ele - sua mãe.

A maioria dos biógrafos - tanto simpáticos quanto críticos - têm evitado a juventude de Adolf Hitler. Os críticos têm feito disso uma necessidade. Eles poderiam se deter somente nos fatos mais desagradáveis. As biografias oficiais do partido têm passado batido por este período em virtude do desejo do ditador. Por que toda esta sensibilidade anormal em torno de sua juventude? Não sei. Não há nenhum episódio escandaloso o qual Hitler desejaria esconder, a menos que alguém queira voltar a cerca de 100 anos durante o nascimento de seu pai. Alguns biógrafos dizem que Alois Hitler era um bastardo. Não posso falar com certeza sobre este fato.

E sobre aqueles anos iniciais em Linz, Áustria, onde Hitler passou seus anos de formação? Que tipo de garoto era ele? Que tipo de vida ele levava? São sobre estas coisas que falarei aqui agora.

Quando Adolf Hitler tinha Treze Anos

Primeiro, tenho que me apresentar. Nasci em Fraeunburg, uma pequena vila na Boêmia austral que, no curso da minha vida, esteve sob três bandeiras: austríaca, tcheca e alemã. Tenho 69 anos. Estudei medicina em Praga, então me alistei no exército austríaco como médico militar. Em 1899, fui transferido para Linz, capital da Áustria Alta, e a terceira maior cidade no país. Quando completei meu tempo no exército em 1901, decidi permanecer em Linz e praticar medicina.

Como centro urbano, Linz sempre foi sossegada e reservada assim como Viena era alegre e barulhenta. No período do qual estou falando - quando Hitler era um menino de 13 anos - Linz era uma cidade com 80.000 habitantes. Meu consultório e lar eram na mesma casa, uma construção barroca na Landstrasse, a principal rua da cidade.

A família Hitler se mudou para Linz em 1903, pois, acredito, havia boas escolas lá. A estrutura familiar é bem conhecida. Alois Schicklgruber Hitler era filho de uma garota camponesa pobre. Quando ele atingiu idade suficiente para trabalhar, ele conseguiu um emprego como aprendiz de sapateiro, trabalhou no serviço público e tornou-se um inspetor de alfândega em Braunau, uma pequena cidade fronteiriça entre a Bavária e a Áustria. Braunau está a 85 km de Linz. Aos 56 anos, Alois Hitler tornou-se candidato à pensão e aposentou-se. Orgulhoso de seu próprio sucesso, ele estava ansioso para seu filho entrar no serviço público. O jovem Hitler violentamente se opôs à idéia. Ele queria ser artista. Pai e filho brigaram por causa disso enquanto sua mãe, Klara Hitler, tentou manter a paz em casa.

Alois S. Hitler

Enquanto viveu, Alois Hitler tentou moldar o destino de seu filho segundo seus próprios desejos. Seu filho teria a educação que lhe teria sido negada; uma educação que lhe asseguraria um bom emprego no governo. Assim, pai Alois preparou-se para deixar o vilarejo de Braunau e ir para a cidade de Linz. Por causa de seu emprego público, ele não precisava pagar a mensalidade de seu filho na Realschule. Com tudo isto em mente, ele comprou um sítio em Leonding, um subúrbio de Linz.

A família era muito grande. Mais tarde, Adolf ultrapassou tanto os outros que eles são, na melhor das hipóteses, esquecidos. Havia o meio-irmão Alois, que eu nunca encontrei. Ele abandonou o lar muito cedo, conseguiu um emprego como garçom em Londres e mais tarde abriu seu próprio restaurante em Berlim. Ele nunca foi amigo de seu irmão mais novo.

Adolf Hitler recém-nascido

Então havia a Paula, a mais velha das meninas. Ela (na verdade Angela) mais tarde casou o Senhor Rubal (Raubal), um funcionário da Receita em Linz. Mais tarde, após a morte de seu marido (?) e a asensão de seu irmão ao poder, ela foi para Berchtesgaden para tornar-se governanta da casa de Hitler. A irmã Klara por algum tempo administrou um restaurante para estudantes judeus na Universidade de Viena; e a irmã Angela, a mais nova das garotas, (mais tarde) se casou com um professor Hamitsch (Hammitzsch) em Dresden, onde ela ainda vive.

Um Trabalho para a Senhora Hitler

A família mal havia se estabelecido em sua nova casa nos arredores de Linz quando Alois, o pai, morreu repentinamente de um ataque apopléctico (N.do T.: vulgo AVC) (em janeiro de 1903).

Na época, Frau Hitler estava com quarenta e poucos anos. Ela era uma mulher simples e educada. Ela era alta, tinha cabelo castanho, o qual ela mantinha esmeradamente plissado, e uma face longa e oval com olhos azuis-escuros lindamente expressivos. Ela estava desesperadamente preocupada sobre suas responsabilidades após a morte de seu marido. Alois, 23 anos mais velho, sempre cuidou da família. Agora, o trabalho era dela.

Era aparentemente claro que o filho Adolf era muito jovem (não havia completado 14 anos) e também muito frágil para se tornar um fazendeiro. Então, a melhor opção parecia ser vender o sítio e alugar um pequeno apartamento. Isto, ela fez, logo após a morte de seu marido. Com os rendimentos desta venda e a pequena pensão que ela ganhou por causa do emprego público de seu marido, ela conseguiu manter a família unida.

Em uma pequena na Áustria, a pobreza não resulta nas indignidades que ocorrem na cidade grande. Não há favelas e sobrepopulação. Não sei exatamente a renda da família Hitler, mas estando familiarizado com o valor das pensões governamentais, estimo em U$25 por mês. Esta pequena soma permitia-lhes viver reservada e decentemente - pessoas desconhecidas em uma cidade fora de mão.

O Dr. Bloch, que era judeu, tratou Hitler na infância e adolescência, junto com sua mãe e outros membros da família. A foto acima é de 1938, tirada por ordem de Hitler.


O apartamento da família consistia de três pequenos quartos em um sobrado na Bluetenstrasse 9, que atravessa o Danúbio da principal parte de Linz. Suas janelas davam uma excelente visão das montanhas.

Minha impressão predominante do apartamento simples era sua limpeza. Ele brilhava; nem um grão de pó nas cadeiras ou mesas, nem uma porção de lama no chão lustrado, nem uma mancha nas cortinas das janelas. Frau Hitler era uma dona de casa extraordinária.

Os Hitler tinham poucos amigos. Um estava acima dos outros; a viúva do carteiro que vivia no mesmo sobrado.

O orçamento limitado permitia nem mesmo a menor extravagância. ZTínhamos a usual ópera municipal em Linz; nem boa, nem má. Aqueles que escutavam as melhores iam para Viena. Assentos no salão de nosso teatro, o Schauspielhaus, vendidos de 10 a 15 centavos de dólar. Mesmo assim, ocupar um desses assentos para escutar uma trupe indiferente cantando Lohengrin era uma ocasião memorável que Hitler registrou no Mein Kampf!

A maior parte da diversão do garoto era limitada àquelas coisas que eram de graça: caminhadas nas montanhas, um banho no Danúbio, um concerto gratuito de banda. Ele lia extensivamente, e era particularmente fascinado pelas estórias sobre os índios americanos. Ele devorava livros de James Fenimore Cooper, e do escritor alemão Karl May - que nunca visitou a América e jamais viu um índio.

A dieta da família era, por necessidade, simples e austera. Comida era barata e em grande quantidade em Linz; e a família Hitler tinha quase a mesma dieta das outras pessoas vivendo em circunstâncias semelhantes. Carne seria servida talvez duas vezes por semana. A maioria das refeições consistia de sopa de batata ou repolho, pão, bolo e uma torta de pera e cidra de maçã.

Na vestimenta, eles usavam roupas de lã bruta que chamamos de Loden. Adolf, é claro, vestia o uniforme de todos os meninos: calções, suspensórios, um pequeno chapéu verde com uma pena na fita.

Um Amor Materno Extraordinário

Que tipo de menino era Adolf Hitler? Muitos biógrafos o descrevem como um agitador, desafiador, desarrumado; como um jovem grosseiro que personificava tudo o que é desagradável. Isto simplesmente não é verdade. Enquanto jovem, ele era quieto, educado e sobriamente vestido.

Ele registra que aos quinze anos ele se via como um revolucionário político. Possivelmente. Mas deixe-nos ver Adolf Hitler como ele impressionava as pessoas ao seu redor, não como ele impressionava a si próprio.

Ele era alto, pálido, velho para sua idade. Ele não era nem robusto nem doente. Talvez "aparência frágil" seria uma descrição mais apropriada. Seus olhos - idênticos ao de sua mãe - eram grandes, melancólicos e profundos. Sem exagerar, este menino vivia dentro de si. Quais sonhos ele sonhava eu não sei. Exteriormente, seu amor por sua mãe era sua qualidade mais aparente. Mesmo assim, ele não era um "menino da mamãe" no senso comum, nunca presenciei uma ligação mais íntima. Alguns insistem que este amor tendia a ser patológico. Como íntimo da família, não acredito que isso seja verdade.

Klara Poltz Hitler

Klara Hitler adorava seu filho, o caçula da família. Ela permitia-lhe seguir ser ele mesmo em todo lugar possível. Seu pai insistia que ele deveria tornar-se um funcionário público. Ele se rebelou e conquistou sua mãe ao seu lado. Ele logo cansou da escola, então sua mãe permitiu que ele abandonasse os estudos.

Todos os amigos da família sabem como Frau Hitler encorajou seus esforços em tornar-se um artista; a qual custo ninguém pode imaginar. Apesar de sua pobreza, ela permitiu-lhe rejeitar um emprego que lhe foi oferecido na agência de correio, de modo que ele pudesse continuar suas pinturas. Ela adorava suas aquarelas e seus desenhos paisagísticos. Se isto era uma admiração honesta ou simplesmente um esforço para encorajar seu talento eu não sei.

Ela fez o melhor para dar um bom crescimento ao menino. Ela percebeu que ele era puro, limpo e tão bem alimentado quanto sua renda permitia. Toda hora que ele ia ao meu consultório, este menino estranho sentar-se-ia entre os outros pacientes e aguardaria sua vez.

Nunca houve qualquer coisa seriamente errada. Possivelmente sua amígdalas estariam inflamadas. Ele permaneceu parado obediente e firme enquanto eu pressionava sua língua e lavava as manchas com problemas. Ou, possivelmente, ele estaria sofrendo por uma gripe. Eu o trataria e o enviaria de volta para casa. Como qualquer garoto polido de quatorze ou quinze anos ele me saudaria e agradeceria com cortesia.

Eu, é claro, sei da úlcera que o incomodaria mais tarde na vida, grandemente resultado de sua péssima dieta enquanto trabalhava em Viena. Não consigo entender as as muitas referências ao seu problema pulmonar na juventude. Eu fui o único médico a trata-lo durante este período no qual ele supostamente sofria disso. Meus registros não mostram nada deste tipo. Para estar certo, ele não tinha as bochechas rosadas e nem uma saúde forte como a de muitos jovens; mas ele também não era doente.

Na Realschule, o trabalho do jovem Adolf era tudo menos brilhante. Com autoridade nisto, tenho a palavra de seu antigo professor, o Dr. Karl Huemer, um velho amigo meu. Eu era o médico de Frau Huemer. No Mein Kampf, Hitler registra que ele era um estudante relapso na maioria dos assuntos, mas ele amava história. Isto concorda com as lembranças do professor Huemer.

Desejando adicional treinamento em pintura, Hitler decidiu ir a Viena para estudar na Academia. Isto foi um momento decisivo para um membro de uma família pobre. Sua mãe preocupou-se como ele se viraria. Entendo que ela mesmo sugeriu apertar o orçamento familiar para permitir-lhe enviar-lhe uma pequena quantia de dinheiro. Mesmo assim, ele recusou. Ele mesmo foi além: ele assinou sua desistência à herança em favor de suas irmãs. Ele tinha dezoito anos na época.

Não estou certo dos detalhes exatos do que aconteceu em sua viagem a Viena. Alguns dizem que ele não foi admitido na Academia por causa de seu trabalho insatisfatório. Outros aceitam a declaração de Hitler de que sua rejeição doi devido à sua falha em graduar-se na Realschule - o equivalente de uma escola de nível médio americana. De qualquer forma, ele estava de volta em casa após umas poucas semanas. Foi mais tarde neste ano - 1908 (na verdade, 1907) - que coube a mim dar a Hitler o que talvez tenha sido a notícia mais triste de sua vida.

Um dia, Frau Hitler veio me visitar durante a manhã. Ela reclamava de uma dor no peito. Ela conversou com uma voz calma e baixa; quase como um suspiro. A dor, ela disse, era grande; suficiente para acorda-la durante a noite inteira. Ela estava ocupada cuidando do lar e havia recusado procurar auxílio médico. Além disso, ela achava que a dor iria passar um dia. Quando um médico ouve tal estória ele quase imediatamente pensa em câncer. Um exame mostrou que Frau Hitler tinha um enorme tumor no seio. Não contei-lhe o diagnóstico.

A Família Decide

Reuni as crianças em meu consultório no dia seguinte e relatei o caso de forma franca. Sua mãe, eu lhes disse, era uma mulher gravemente doente. Um tumor maligno é sério hoje em dia, mas há trinta anos atrás era ainda mais sério. As técnicas cirúrgicas não eram tão avançadas e o conhecimento do câncer não era tão grande.

Sem cirurgia, expliquei, não havia qualquer esperança de recuperação. Mesmo com ela, havia uma pequena chance de que ela sobrevivesse. Na reunião familiar, eles devem decidir o que deve ser feito.

A reação de Adolf Hitler a esta notícia foi tocante. Sua longa e pálida face estava contorcida. Lágrimas fluíram de seus olhos. Sua mãe, ele perguntou, não tinha nenhuma chance? Somente então eu percebi a magnitude da ligação que existia entre mãe e filho. Expliquei que ela tinha uma chance; mas era pequena. Mesmo esta esperança vazia deu-lhe algum conforto.

As crianças levaram a mensagem para sua mãe. Ela aceitou o veredito como eu estava certo que aceitaria - com coragem. Profundamente religiosa, ela aceitou seu destino como um desejo de Deus. Nunca lhe passou pela cabeça reclamar. Ela submeter-se-ia à cirurgia tão logo eu fizesse os preparativos.

Expliquei o caso para o Dr. Karl Urban, o chefe do staff cirúrgico no Hospital das Irmãs da Misericórdia em Linz. Urban era um dos melhores cirurgiões na Áustria Alta. Ele era - e é - um homem generoso, um crédito em sua profissão. Ele concordou sinceramente em assumir a operação em qualquer base que eu sugerisse. Após um exame, ele concordou com a minha crença que Frau Hitler tinha poucas chances de sobrevivência, mas aquela cirurgia era a única esperança.

É interessante notar o que aconteceu a esse homem generoso quase três décadas mais tarde - após o Anschluss (união) com a Alemanha. Por causa de suas convicções políticas, ele foi forçado a abandonar sua posição no hospital. Seu filho, que foi um dos pioneiros em cirurgia cerebral, também teve o mesmo destino.

Frau Hitler chegou ao hospital em uma manhã no início do verão de 1908 (1907). Eu não lembro a data exata, já que os registros do caso foram transferidos para os arquivos do partido nazista em Munique. De qualquer forma, Frau Hitler passou a noite no hospital e foi operada na manhã seguinte. À pedido desta alma gentil, permaneci ao lado da mesa de operação enquanto o Dr. Urban e seu assistente realizavam a cirurgia. Duas horas depois, dirigi minha carruagem através do Danúbio para a pequena casa na Bluetenstrasse 9, na parte da cidade conhecida como Urfahr. Lá, as crianças me aguardavam.

As garotas receberam a palavra que eu trouxe com calma e reserva. A face do menino estava mergulhada em lágrimas, e seus olhos cansados e vermelhos. Ele escutou até que eu terminei de falar. Mas ele tinha apenas uma pergunta. Em uma voz entrecortada ele perguntou: "Minha mãe sofreu?"

O Pior Momento de Hitler

À medida que as semanas e meses passaram após a operação, a força de Frau Hitler começou visivelmente a cair. No máximo, ela poderia ficar fora da cama por uma ou duas horas por dia. Durante este período, Adolf passou a maior parte deste tempo visitando a casa, para a qual sua mãe havia retornado.

Ele dormia num quarto contíguo ao de sua mãe, de modo que ele podia cuidar dela a qualquer hora durante a noite. Durante o dia, ele pairava em torno da cama larga na qual ela descansava. Na doença que Frau Hitler sofria, há geralmente muita dor. Ela carregou seu fardo bem; resoluta e sem reclamar. Mas para ser uma tortura para seu filho. Um semblante angustiado caía sobre ele quando ele via a dor aparecer no rosto de sua mãe. Havia pouco que poderia ser feito. Uma injeção de morfina de vez em quando daria alívio temporário; mas nada dura para sempre. Mesmo assim, Adolf parecia enormemente feliz mesmo por estes curtos períodos de alívio.

Jamais esquecerei Klara Hitler naqueles dias. Ela tinha 48 anos (47) na época; alta, magra e muito simpática, mesmo acabada pela doença. Ela falava calmamente, paciente; mais preocupada com o que acontecia com sua família do que com a aproximação da morte. Ela não escondeu essas preocupações; ou sobre o fato de que a maioria de seus pensamentos eram para seu filho. "Adolf é ainda muito jovem," ela dizia repetidamente.

No dia 20 de dezembro de 1908 (1907), fiz duas ligações. O fim estava se aproximando e queria que esta boa mulher se sentisse tão confortável quanto eu poderia fazer para ela. Eu não sabia se ela viveria outra semana, outro mês; ou se a morte viria numa questão de horas.

Então, a palavra que Angela Hitler me trouxe na manhã seguinte veio sem surpresa. Sua mãe havia morrido calmamente durante a noite. As crianças decidiram não incomodar-me, sabendo que sua mãe estava além da ajuda médica. Mas, ela perguntou, "você pode vir agora?" Alguém em uma posição oficial teria que assinar a certidão de óbito. Coloquei meu casaco e me dirigi com ela ao lar em sofrimento.

A viúva do carteiro, a amiga mais próxima da família, estava com as crianças, tendo mais ou menos assumido a responsabilidade das coisas. Adolf, sua face mostrando o cansaço de uma noite não dormida, sentou-se ao lado de sua mãe. Para preservar um último momento, ele a desenhou como ela se encontrava em seu leito de morte.

Sentei com a família por um instante, tentando acalmar seu sofrimento. Expliquei que neste caso a morte havia sido uma benção. Eles compreenderam.

Não fui ao funeral de Klara Hitler, que aconteceu na véspera de Natal. O corpo foi levado de Urfahr para Leonding, apenas uns poucos quilômetros distante. Klara Hitler foi enterrada ao lado de seu marido no cemitério católico, atrás da igreja pequena e amarela estuque. Após os outros - as garotas, a viúva do carteiro - deixarem o local, Adolf permaneceu lá; incapaz de se separar do túmulo recém ocupado.

E assim este jovem magro e empalidecido permaneceu sozinho no frio. Sozinho com seus pensamentos na véspera de Natal enquanto o resto do mundo estava alegre e exultante.

Poucos dias após o funeral, a família veio ao meu consultório. Eles desejavam agradecer-me pela ajuda que eu havia lhes dado. Lá estavam Paula, justa e forte; Angela, magra, bonita mas muito anêmica; Klara e Adolf. As garotas falaram o que sentiam enquanto Adolf permaneceu em silêncio. Lembro-me particularmente desta cena de modo tão vivido como se tivesse ocorrido na última semana.

Adolf vestiu um paletó preto e uma gravata mal amarrada. Então, como agora, uma franja de cabelo caiu sobre sua testa. Seus olhos estavam fixados no chão enquanto suas irmãs falavam. Então, chegou sua vez. Ele caminhou para frente e segurou em minha mão. Olhando nos meus olhos, ele disse "Serei eternamente grato ao senhor." Isto foi tudo. Então ele me saudou. Fico pensando se hoje ele lembra desta cena. Estou certo de que ele lembra, pois num certo sentido Adolf manteve sua promessa de gratidão. Favores foram-me garantidos que nenhum outro judeu na Alemanha ou Áustria conseguiu.


Parte II

Quase imediatamente após o funeral de sua mãe, Hitler foi embora para Viena, no sentido de mais uma vez iniciar uma carreira como artista. Seu crescimento para a maturidade foi uma experiência dolorosa já que ele era um garoto introvertido. Mas dias de angústia estavam para vir. Pobre como a família era, ele teve garantida comida e abrigo enquanto vivia em sua casa. Isto não pode ser dito nos dias de Viena. Hitler estava inteiramente envolvido com o objetivo de manter corpo e alma unidos.

Todos nós sabemos de sua vida lá - como ele trabalhou como servente de pedreiro em trabalhos de construção até que peões o ameaçaram empurrá-lo de um andaime. E sabemos que ele escavava neve e pegou vários outros trabalhos que podia encontrar (N. do T.: isto contrasta com a descrição de artista boêmio e vagabundo que William Shirer e outros fizeram a respeito de Hitler em Viena). Durante este período, por três anos na verdade, Hitler viveu em um albergue para homens, o equivalente a um pequeno hotel em qualquer cidade americana. Foi aqui que ele começou a sonhar com o mundo refeito segundo sua própria estética.

Enquanto viveu no albergue, cercado pela ralé da grande cidade, Hitler disse, "Tornei-me insatisfeito comigo mesmo pela primeira vez na vida." A insatisfação consigo mesmo foi seguida da insatisfação com tudo ao seu redor - e o desejo de mudar as coisas de acordo com o seu gosto.

A causticidade do ódio começou a tomar conta do seu corpo. As realidades repugnantes da vida que ele vivia encorajaram-no a odiar o governo, os sindicatos, as pessoas com as quais convivia. Mas ele ainda não tinha começado a odiar os judeus.

Durante este período, ele arrumou tempo para me enviar um cartão postal. No verso, havia a mensagem: "De Viena envio-lhe meus cumprimentos. O seu, sempre fiel, Adolf Hitler." Era uma pequena coisa, mesmo assim eu apreciei. Passei uma grande parte do tempo tratando a família de Hitler, e foi bom saber que este esforço de minha parte não havia sido esquecido.

Publicações oficiais nazistas também registram que eu recebi uma das aquarelas de Hitler - uma pequena paisagem. Se eu recebi, não me lembro. Mas é totalmente possível que ele tenha me enviado uma e que eu tenha esquecido o assunto. Na Áustria, pacientes frequentemente enviam pinturas ou outros presentes para seus médicos particulares como forma de gratidão. Mesmo agora tenho meia dúzia destes óleos e aquarelas que eu salvei; mas nenhum pintado por Hitler entre eles.

Eu preservei, contudo, uma peça do trabalho de arte de Hitler. Esta chegou durante o período em Viena quando ele estava pintando para cartões postais, posters, etc, ganhando dinheiro suficiente para manter-se. Este era uma época em sua vida em que Hitler era capaz de fazer sucesso com seu talento.






Aquarelas de Hitler


Ele pintava estes cartões postais e os secava em frente da lareira, dando a eles uma aparência agradável de antiguidade. Então os outros moradores do albergue os espalhariam pela cidade. Hoje na Alemanha uns poucos exemplares remanescentes destes trabalhos são altamente valorizados e vendidos mais caros do que trabalhos de Picasso, Gauguin e Cézanne!

Hitler enviou-me um destes cartões. Ele mostrava um frade capuchinho segurando uma taça de champagne borbulhante. Abaixo da figura estava a frase: "Prosit Neujahr" - Um brinde para o Ano Novo. No lado reverso, ele havia escrito a mensagem: "A família Hitler envia-lhe os melhores votos de um Feliz Ano Novo. Em gratidão eterna, Adolf Hitler."

Por que eu guardei estes cartões para serem salvos, eu não sei. Possivelmente foi por causa da impressão que me causaram por aquele garoto infeliz. Mesmo hoje, penso nele em termos de sua tristeza e não pelo que ele fez ao mundo.

Aqueles cartões postais têm uma história curiosa. Eles indicavam a extensão com a qual Hitler capturou a imaginação de algumas pessoas. um rico industrial vienense - eu não sei o seu nome pois o negócio foi feito por um intermediário - mais tarde fez uma oferta extraordinária. Ele queria comprar aqueles dois cartões e estava disposto a pagar 20.000 marcos por eles! Rejeitei a oferta na hora, pois não poderia eticamente realizar tal venda.

Há, ainda, outra estória envolvendo estes dois cartões. Dezessete dias após o colapso do governo Schuschnigg e da ocupação da Áustria pelas tropas alemãs (março de 1938), um agente da Gestapo veio até minha casa. Na época, estaca atendendo um paciente, mas minha esposa o recebeu.

Retidos por Segurança

"Estou informado," ele disse, "que vocês possuem algumas recordações do Führer. Gostaria de dar uma olhada nelas." Agindo discretamente, minha esposa não fez nenhum protesto. Ela não queria ter sua casa revirada como alguns lares judeus haviam sido invadidos. Ela encontrou os dois cartões e entregou-lhes. O agente rabiscou um recibo que estava escrito: "Certificado para Proteção de dois Cartões Postais (um deles pintado à mão por Adolf Hitler) confiscados na casa do Dr. Eduard Bloch." Ele foi assinado pelo agente, chamado Grömer, que era um desconhecido pra nós. Ele disse que eu deveria ir à sede da Gestapo na manhã seguinte.

Quase tão logo os nazistas entraram na cidade, a Gestapo se instalou em um pequeno hotel na Gesellenhausstrasse, formalmente patrocinado por clérigos viajantes. Fui até o local e recebido quase imediatamente. Fui cumprimentado gentilmente pelo Dr. Rasch, chefe do escritório local. Perguntei-lhe por que aqueles cartões foram apreendidos.

Aqueles eram dias agitados para a Gestapo. havia muitas coisas para serem investigadas em uma cidade de 120.000 pessoas. O fato desenrolou-se porque o Dr. Rasch não estava familiarizado com o meu caso. Ele me perguntou se eu estava sob suspeita por alguma atividade política desfavorável aos nazistas. Respondi que não estava; que era um profissional sem conexões políticas.

Aparentemente, como se não tivesse pensado nisso antes, ele me perguntou se eu não era ariano. Respondi sem receio: Sou 100% judeu." A mudança que ocorreu nele foi quase instantânea. Previamente, ele agia como se estivesse fazendo um negócio, porém de forma cortês. Agora, ele tornou-se distante.

Os cartões, ele disse, seriam retidos por segurança. Então ele me dispensou, nem erguendo a mão e nem cumprimentando como ele fez quando entrei. Até onde sei, os cartões ainda estão de posse da Gestapo. Eu nunca mais os vi.

Quando foi para Viena, Adolf Hitler estava destinado a desaparecer de nossas vidas por muitos anos. Ele não tinha amigos em Linz por quem pudesse retornar para uma visita e poucos com os quais pudesse trocar correspondência. Logo, foi muito mais tarde que soubemos de sua pobreza miserável naqueles dias, e de sua subseqüente mudança para Munique em 1912 (na verdade, em maio de 1913).

Nenhuma notícia tivemos do modo como ele ficou de joelhos e agradeceu a Deus quando a guerra foi declarada em 1914; e nenhuma notícia de sua participação na guerra como cabo do 16º. Regimento de Infantaria. Não soubemos nada dele ser ferido e envenenado por gás. Não até ele começar sua carreira política em 1920, quando então recebemos notícias deste menino reservado e educado que cresceu ao nosso lado.

Isto era Adolf?

Ocasionalmente, jornais locais publicariam notícias a respeito do grupo de simpatizantes políticos que Hitler estava reunindo em torno de si em \Munique; estórias de seu ódio aos judeus, ao Tratado de Versalhes, e a quase todo o resto. Mas nenhuma importância particular foi relacionada a essas atividades. Não até vinte pessoas morrerem no putsch da cervejaria de 8 de novembro de 1923, Hitler conseguiu notoriedade. Era possível, perguntei-me, que o homem por trás destes atos ser o garoto reservado que havia conhecido - o filho da gentil Klara Hitler?

Eventualmente, mesmo a menção do nome de Hitler na imprensa austríaca foi proibida; mesmo assim, continuamos a receber informações passadas de boca em boca de nosso antigo co-cidadão: estórias de perseguição que ele havia começado; do rearmamento alemão; da guerra por vir. Estes boatos alcançaram ouvidos responsivos. Um partido nazista local reagiu.

Teoricamente, tal partido não deveria existir; ele havia sido banido pelo governo. Na prática, as autoridades deram-lhe sua benção. Proibidos de usar uniforme, os nazistas locais adotaram métodos de identificar-se para todos. Eles usavam meias brancas. Nos seus casacos eles usavam uma pequena flor silvestre, muito parecida com a margarida americana, e no Natal eles queimavam velas azuis em suas casas.

Sabíamos todas estas coisas, mas nada foi feito. De tempos em tempos, autoridades locais encontravam uma bandeira nazista ni túmulo de Klara Hitler em Leonding, e a removeriam sem qualquer cerimônia. Mesmo assim, a tempestade na Alemanha parecia distante. Foi após um tempo que recebi uma notícia de Adolf Hitler. Então, em 1937, um número de nazistas locais se deslocou para a reunião do partido em Nuremberg. Após a reunião, Hitler convidou muitas dessas pessoas para ir com ele à sua casa na montanha em Berchtesgaden. O Führer perguntou por notícias de Linz. Como estava a cidade? As pessoas o apoiavam? Ele perguntou informações sobre mim. Eu ainda estava vivo, ainda praticando medicina? Então, ele fez uma afirmação que irritou os nazistas locais: "O Dr. Bloch," disse Hitler, "é um Edeljude - um judeu nobre. Se todos os judeus fossem como ele, não haveria a questão judaica." Foi estranho, e num certo sentido um elogio, que Adolf Hitler pudesse ver o bem em pelo menos um membro de minha raça.

É curioso agora olhar para trás em relação ao sentimento de segurança que tínhamos pela virtude de vivermos no lado certo de uma linha imaginária, a fronteira internacional. Certamente, a Alemanha não ousaria invadir a Áustria. A França era amiga. A ocupação da Áustria seria contrária aos interesses da Itália. Oh, mas éramos cegos naqueles dias! Então, fomos arrastados para uma série de eventos importantes. Foi com esperança que lemos da viagem de Schuschnigg (chanceler austríaco) a Berchtesgaden; seu plebiscito; sua inclusão de Seyss-inquart em seu gabinete. Possivelmente, passaríamos por essa crise incólumes. Mas a esperança foi morta em apenas algumas horas. Tão logo Seyss-Inquart foi colocado no governo, broches apareceram em todas as lapelas de paletó: "Um Povo, Um Reich, Um Líder."

Quando a Áustria morreu

Em 11 de março de 1938, uma sexta-feira, a rádio Viena esta transmitindo um programa de música. Eram 19:45. De repente, o locutor interrompeu o programa. O Chanceler iria falar. Schuschnigg entrou no ar e disse que a população deveria evitar um banho de sangue, que ele estava capitulando para atender as exigências de Hitler. As fronteiras seriam abertas, e ele terminou sua transmissão com as palavras: "Gott schiitze Österreich" - Deus proteja a Áustria. Hitler estava voltando para Linz.

Nos dias sem dormir que se seguiram, sintonizamos nossos rádios. Tropas estavam atravessando a fronteira em Passau, Kufstein, Mittenwalde e todos os outros lugares. O próprio Hitler estava cruzando o rio Inn em Braunau, o lugar onde nasceu. Quase sem respiração, o locutor nos contou a estória da marcha. O próprio Führer descansaria em Linz. A cidade foi à loucura de tanta alegria. O leitor não deve ter dúvidas sobre a popularidade do Anschluss com a Alemanha. As pessoas o apoiaram. Elas saudavam a invasão das tropas alemãs com flores, gritos e canções. Os sinos da Igreja tocaram. As tropas austríacas e a polícia confraternizaram com os invasores e havia alegria geral.

A praça pública em Linz, a um quarteirão da minha casa, era um tumulto. Toda tarde era tocada a canção Horst Wessel e o Deutschland über Alles. Aviões rasgavam os céus e unidades avançadas do exército alemão eram recebidas com aclamações. Finalmente, a rádio anunciou que Hitler estava em Linz. Instruções avançadas foram dadas à população. Todas as janelas ao longo da rota de procissão deveriam ser fechadas. Todas elas deveriam ser iluminadas. Fiquei na janela de minha casa olhando para a Landstrasse. Hitler passaria diante de mim.

O Herói Retorna

Logo a procissão chegou - o grande e negro carro Mercedez, seis rodas, flanqueado por motocicletas. O menino frágil que tratei tanto, e quem eu não via trinta anos - estava no carro. Eu tinha dado a ele somente bondade, o que ele estava agora fazendo com as pessoas que eu amava? Olhei por cima das cabeças da multidão em Adolf Hitler.

Foi um momento de excitação tensa. Por anos Hitler foi proibido de visitar o país natal. Agora, o país pertencia a ele. A elação que ele sentiu ficou escrita em suas vitórias. Ele sorriu, acenou, deu a saudação nazista às pessoas que infestavam a rua. Então, por um momento, ele acenou em direção da minha janela. Não sei se ele me viu, mas ele deve ter tido aquele momento de reflexão. Aqui estava a casa do Edeljude, que havia diagnosticado o câncer fatal de sua mãe; aqui estava o consultório do homem que havia tratado suas irmãs; aqui estava o lugar que ele havia ido quando garoto para ter suas dores curadas.

Foi um momento breve. Então, a procissão foi embora. Ela moveu-se vagarosamente para a praça da cidade - a Franz Josef Platz, a ser reinaugurada como Adolf Hitler Platz. Ele falou de uma varanda na prefeitura. Eu ouvi pelo rádio. Palavras históricas: a Alemanha e a Áustria eram agora uma única nação.

Hitler ficou no Hotel Weinzinger, particularmente requisitando um apartamento com visão para a montanha Pöstling. Esta vista era a que ele tinha das janelas do seu modesto apartamento onde ele passou sua infância.

No dia seguinte, ele convidou alguns velhos amigos: Oberhummer, um funcionário do partido local; Kubitschek (August Kubizek), o músico; Liedel, o relojoeiro; Dr. Hümer, seu antigo professor de história. Era compreensível que ele não pudesse me convidar, um judeu, para tal encontro, ainda que ele tenha perguntado sobre mim. Por um instante, pensei em pedir por uma audiência, mas decidi que não seria muito inteligente.

Hitler chegou na tarde de sábado. No domingo, ele visitou o túmulo de sua mãe, e avaliou os nazistas locais enquanto eles marchavam diante dele. Sem uniformes, eles vestiam os trajes tradicionais locais. Na segunda, Hitler partiu para Viena.

Em breve, fomos trazidos à dura realidade de quão diferentes as coisas estavam. Havia 700 judeus em Linz. Lojas, casas e escritórios de todas estas pessoas foram marcadas com cartazes amarelos agora visíveis por toda a Alemanha, JUDE - Judeu.

O primeiro sinal de que estava recebendo tratamento especial veio um dia quando a Gestapo local me telefonou. Eu deveria remover os sinais amarelos de meu escritório e casa. Então, uma segunda coisa aconteceu: meu propetário, um ariano, foi até a sede da Gestapo para perguntar se eu deveria continuar no meu apartamento. "Não devemos nos meter neste assunto," foi-lhe dito. "Será tratado por Berlim." Hitler, aparentemente havia lembrado. Então, algo aconteceu que me fez duvidar.

Sem nenhuma razão aparente, meu genro, um jovem médico, foi preso. Nenhuma visita foi permitida a ele, e não recebemos nenhuma notícia sua. Minha filha foi até a Gestapo. "Será que o Führer gostaria de saber que o genro de seu antigo médico foi enviado para a prisão?", ela perguntou. Ela foi tratada de maneira rude e de forma brusca para o seu temor. Os sinais não haviam sido removidos da casa de seu pai? Não era o suficiente? Mesmo assim, sua visita deve ter tido algum efeito. Em três dias seu marido estava livre.

Minha profissão, acredito era uma das mais requisitadas em Linz, começou a definhar cerca de um ano antes da visita de Hitler. Nisto, eu deveria ter percebido um presságio do que estava por vir. Antigos clientes confiáveis foram francos em suas explicações. O ódio propagado pelos nazistas estava tomando conta dos jovens. Eles não patrocinariam mais um judeu.

Por decreto, minhas atividades estavam limitadas a pacientes judeus. Isto era uma outra forma de dizer que eu deveria parar de trabalhar. Planos estavam sendo feitos para livrar a cidade dos judeus. Em 10 de novembro de 1938, uma lei foi estabelecida de que todos os judeus deveriam deixar Linz dentro de 48 horas. Eles deveriam ir para Viena. O choque que esta lei provocou pode ser imaginado. Pessoas que haviam vivido todas as suas vidas em Linz tiveram que vender suas propriedades, colocar suas coisas em malas e partir no espaço de dois dias.

Fui até a Gestapo. Eu deveria partir? Fui informado que uma exceção foi feita no meu caso. Eu poderia ficar. Minha filha e seu marido? Já que eles já haviam declarado sua intenção de emigrar para a América, eles também poderiam ficar. Mas eles teriam que deixar sua casa. Se houvesse um quarto no meu apartamento que eles pudessem ficar, seria permitido a eles se mudar para lá.

Sem mais Favores

Após 37 anos de trabalho ativo, minha profissão havia chegado ao fim. Fui permitido tratar somente de judeus. Após a ordem de evacuação, havia apenas sete membros desta raça vivendo em Linz. Todas tinham mais de oitenta anos de idade.

É compreensível que minha filha e seu marido desejassem levar suas coisas com eles quando emigrassem para a América. Então, viria a minha vez para partir. Conseguir alguma ajuda local em tal assunto estava fora de cogitação. Sabia que não poderia ver Adolf Hitler. Mesmo assim, senti que se pudesse enviar-lhe uma mensagem, ele poderia talvez nos dar alguma ajuda.

Se o próprio Hitler estivesse inacessível, talvez uma de suas irmãs poderia nos ajudar. Klara era a mais próxima, ela vivia em Viena. Seu marido era falecido e ela vivia sozinha em um apartamento modesto em um distrito residencial tranqüilo. Planos foram feitos para minha filha, Gertrude, para viajar até Viena para vê-la. Ela foi até o apartamento, bateu à porta, mas não obteve resposta. Entretanto, ela estava certa de que havia alguém em casa.


Ela procurou a ajuda de uma vizinha. Frau Wolf - Klara Hitler - não recebia ninguém, a vizinha informou, exceto uns poucos amigos íntimos. Mas esta mulher gentil concordou em levar uma mensagem e pedir uma resposta de Frau Wolf. Minha filha esperou. Logo, a resposta chegou. Frau Wolf enviou saudações e faria tudo o que fosse possível. Por sorte, Hitler estava em Viena aquela noite para uma de suas freqüentes, mas não divulgadas, visitas à ópera. Frau Wolf o viu e, estou certo, lhe deu a mensagem. Mas nenhuma exceção foi feita em nosso caso. Quando chegou nossa vez, fomos forçados a partir com os bolsos vazios, como milhares de outros.

Como Hitler tratou um velho amigo - alguém que cuidou de sua família com paciência, consideração e caridade? Vamos resumir os favores:

Não acredito que outro judeu em toda a Áustria tenha sido permitido a manter seu passaporte. Nenhum "J" estava marcado no meu cartão de ração, quando a comida tornou-se escassa. Isto era muito útil porque os judeus hoje (1940 - 1941) têm permissão somente durante horas restritas que são freqüentemente inconvenientes. Sem o "J" no meu cartão, poderia comprar a qualquer hora. Eu inclusive recebi um cartão de ração para roupas - algo geralmente negado a judeus.

Se minhas relações com a Gestapo não fossem precisamente cordiais, eu sofreria nas suas mãos assim como aconteceu com muitos outros. Eu estava sob proteção, e posso realmente acreditar nisso, já que o escritório em Linz recebeu instruções especiais da Chancelaria em Berlim para eu ser atendido para qualquer favor razoável.

É possível, mas improvável, que meu registro de guerra tenha sido particularmente responsável por estas pequenas considerações. Durante a guerra, tive sob minha responsabilidade 1.000 leitos hospitalares, e minha esposa supervisionou o trabalho de recuperação dos doentes. Fui duas vezes condecorado por este serviço.

Hitler Reconstrói sua Cidade Natal

Hitler ainda lembra de Linz como seu lar verdadeiro, e as mudanças que ele trouxe são extraordinárias. A cidade que já foi sossegada e quieta foi transformada por seu "padrinho" - um título honorário particularmente querido para Hitler. Blocos inteiros de velhas casas foram retirados para abrir caminho a modernos prédios de apartamentos; causando, assim, aguda, porém temporária, falta de disponibilidade de casas. Um teatro novo surgiu e uma nova ponte foi construída sobre o Danúbio. A ponte, de acordo com a lenda local, foi projetada pelo próprio Hitler e os planos foram imediatamente completados à época do Anschluss. A vasta Siderúrgica Hermann Göring, estabelecida nos últimos dois anos, está começando suas operações. Para conduzir este programa de reconstrução, vagões repletos de trabalhadores foram importados: tchecos, poloneses e belgas.

Hitler visitou a cidade duas vezes desde o Anschluss, uma na época da eleição, que foi para aprovar a união com a Alemanha; a segunda vez secretamente para ver como a reconstrução da cidade estava progredindo. Toda vez ele ficava no Hotel Weinzinger.   
Na segunda visita, o proprietário do hotel foi informado de que a presença de Hitler na cidade não deveria ser anunciada; que ele faria sua rotina de inspeção pela manhã. Feliz por ter tal personalidade importante em seu estabelecimento, o proprietário não resistiu à tentação de divulgar a notícia. Ele telefonou para vários amigos para dar-lhes a informação. Por esta quebra de disciplina ele pagou caro. Seu hotel foi confiscado.

Muitas vezes, fui procurado por biógrafos de Hitler para informações sobre sua juventude. Na maioria dos casos, me recusei a falar. Mas conversei com um destes homens. Ele era um cavalheiro agradável de meia-idade de Viena, que foi enviado pelo departamento governamental liderado por Rudolf hess, do círculo interno nazista. Ele estava escrevendo uma biografia oficial. Dei-lhe alguns detalhes que pude lembrar, e meus registros médicos que ele enviou em seguida para a sede do partido nazista em Munique. Ele permaneceu em Linz e Braunau por muitas semanas; então, o projeto terminou abruptamente. Foi me dito que ele foi enviado para um campo de concentração. Por que, eu não sei.

Quando finalmente chegou minha vez para deixar Linz rumo a América, soube que seria impossível para mim levar minhas economias comigo. Mas a gestapo tinha mais um favor para mim. Fui permitido levar 16 marcos do país, ao invés dos costumeiros 10!

A organização nazista de médicos concedeu-me uma carta de recomendação, cujo valor não conheço, que diz que eu era "digno de recomendação." Ela continuou dizendo que, por causa do meu "caráter, conhecimento médico e prontidão para ajudar os doentes," eu tinha conquistado "a confiança e estima dos meus companheiros de profissão." Um funcionário do partido sugeriu que eu deveria mostrar alguma gratidão por todos esses favores. Talvez uma carta para o Führer? Antes de eu deixar Linz em uma manhã enevoada e fria de novembro. Eu a escrevi. Eu fico imaginando se ela foi realmente recebida. Ela dizia:

Sua Excelência:

Antes de atravessar a fronteira, gostaria de expressar meus agradecimentos pela proteção que recebi. Na pobreza material que estou agora deixando a cidade onde vivi por 41 anos; mas a deixo cônscio de ter vivido todas as minhas obrigações. Aos 69 anos de idade, recomeçarei minha vida em um país estranho onde minha filha está trabalhando duro para apoiar sua família.

Fielmente seu,

Eduard Bloch


Publicado em Journal of Historical Review, Maio-Junho 1994 (Vol. 14, No. 3), páginas 27-35.

Leitura Recomendada:

August Kubizek, The Young Hitler I Knew (Greenhill, 2006)

Werner Maser, Hitler: Legend, Myth and Reality (HarperCollins, 1975)

John Toland, Adolf Hitler (Francisco Alves, 1978)

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Qual o motivo do ódio de Hitler aos judeus?

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