sábado, 22 de setembro de 2012

Contestado também teve fornos de extermínio

Gazeta do Povo, 22/09/2012

 
Foi com grimpa de araucária e nó-de-pinho que o fogo dos crematórios da Guerra do Contestado esteve aceso a todo vapor. A partir das extremidades de um buraco feito no chão de terra era erguido um muro de taipa e de pedra de mais ou menos um metro que funcionava como forno para queimar corpos humanos. Ali eram jogadas não apenas as maiores vítimas da batalha que completa 100 anos em 2012, os caboclos, mas também os militares que morreram na chamada Guerra Santa (1912-1916). Esses fornos logicamente não chegaram a queimar em igual quantidade aos usados pelo Holocausto, mas tinham também a missão de mascarar a matança e evitar a putrefação dos corpos nos campos da região.

Quem descobriu esses cre­matórios foi o geógrafo e professor da Universidade Estadual de Londrina Nilson César Fraga, em 2000, durante uma expedição exploratória, com seus alunos, na região dos antigos enfrentamentos entre a população cabocla e as forças militares do poder estadual e federal brasileiro, travados em áreas disputadas pelos estados do Paraná e de Santa Catarina. “Não sabíamos dessas coisas tão violentas naquele território”, afirma.

Os crematórios, pelo menos 12, ainda existem nas terras do Contestado, segundo o geógrafo, e estão em propriedades privadas sem a devida conservação e manutenção. É impossível quantificar os cremados nesses fornos, até porque o número de mortes na batalha não é algo pacificado entre pesquisadores: dizem que foram de 10 a 20 mil, mas o número poderia chegar a 30 mil. Fraga explica que a maior parte dos crematórios se encontra na cidade de Lebon Régis (SC), numa localidade chamada Perdizinha, para onde a população cabocla avançava nos meses finais do conflito. Mas há outros também perto de Porto União (SC) e União da Vitória (PR).

Centenário

No dia 22 de outubro deste ano se recorda o centenário do início da guerra do Contestado: foi nessa data que o coronel João Gualberto e o monge José Maria foram mortos na Batalha de Irani. O início da guerra, porém, assim como vários fatores que envolvem o conflito, não são questões bem definidas. O historiador Everton Carlos Crema, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Paraná (Fafi), explica que já havia conflitos de terra na região antes de 1912. Há ainda outros historiadores que definem o início da guerra apenas com a formação do ajuntamento dos devotos do monge, em Taquaruçu, em 1913.

Turmeiros

É justamente no clima de 100 anos da guerra que diversos historiadores têm se debruçado sobre o assunto para desvendar questões pontuais. Por causa dos relatórios deixados pelo coronel Setembrino de Carvalho, nomeado pelo governo federal, acreditava-se que quem havia construído a estrada de ferro na região seria bandido e que esses “bandidos”, como descreve Setembrino, eram responsáveis por encabeçar o movimento dos caboclos.

“Colocava-se ainda que esses turmeiros teriam vindo do centro do Brasil. Na minha pesquisa de doutorado, pude perceber que não era bem isso”, afirma Márcia Janete Espig, autora do livro Personagens do Contestado: os turmeiros da estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande. Márcia conseguiu documentos que comprovam que quase todos os turmeiros (quase 10 mil) deixaram a região antes mesmo de a guerra começar, conforme terminavam os trabalhos.

Quem perdeu foi o PR, não os donos de terra

O Paraná saiu perdedor na Guerra do Contestado porque teve de abrir mão de uma grande área de terras para Santa Catarina (todo o oeste catarinense). O acordo da delimitação territorial foi assinado no fim do conflito, em 1916, a pedido do presidente Venceslau Brás. A nova delimitação dividiu ao meio alguns territórios, dando origem a cidades diferentes, como União da Vitória (PR) x Porto União (SC) e Rio Negro (PR) x Mafra (SC).

Entretanto, apesar de o Paraná ter sido derrotado no acordo, os fazendeiros paranaenses não perderam nenhum pedaço de terra. No acordo do limite, uma cláusula dizia que, mesmo nos territórios que estivessem sob nova jurisdição (a catarinense), se houvesse dúvidas sobre a propriedade da terra, valeria o título que estivesse em cartório paranaense, explica o historiador Paulo Pinheiro Machado, autor de livros sobre a guerra, entre eles Lideranças do Contestado: a formação das chefias caboclas.

Já os caboclos foram certamente os mais prejudicados, porque, além de terem perdido a guerra física (no final estavam esgotados e morrendo de fome por causa do cerco feito pela Guarda Nacional), foram escorraçados de suas terras e tiveram ou de ir para regiões mais distantes (montanhas e lugares de terras inférteis) ou voltaram para as fazendas, mas sob a condição de peões. Poucos conseguiram voltar para seus próprios sítios.

Lei

Vale lembrar que o Brasil tinha uma lei de terras de 1850, mas ela beneficiava o acesso à propriedade apenas por compra, herança ou doação, o que quer dizer que os incentivos que existiam no Brasil (de que quem cultivasse a terra seria o proprietário dela) não valiam no papel, porque os caboclos, por exemplo, tomaram posse das terras do Contestado e as cultivaram, mas não conseguiram ter a titularidade das propriedades.

“É óbvio que as terras tinham donos. Eram dos caboclos, dos grupos miscigenados que viviam na região. Mas como eles teriam condições de pagar um agrimensor para fazer a legitimização da terra? Além disso, eram os coronéis da região que determinavam quem seria o pároco, o delegado e o cartorário. Ou seja, o cartorário não iria beneficiar os caboclos”, explica o historiador Everton Crema.



Guerra do Contestado

A Guerra do Contestado foi um conflito armado entre camponeses e militares dos poderes estadual e federal brasileiro, que ocorreu no início do século XX, mais precisamente no ano de 1912 se estendendo até 1916. Essa guerra ocorreu no Sul do Brasil, numa disputa entre os estados do Paraná e Santa Catarina, que tinha como objetivo a posse da região rica em erva-mate e madeira.

A guerra recebeu esse nome devido ao fato de ter ocorrido em uma região de disputas de limites entre dois estados brasileiros. Tudo começou quando estava sendo construída uma estrada de ferro entre São Paulo e Rio Grande do Sul, por uma empresa norte-americana (Southern Brazil Lumber & Colonization Company), com o auxílio dos coronéis, que na época eram os grandes proprietários rurais e tinham força política, e também com o apoio do governo.

Mas a construção dessa estrada de ferro acabou prejudicando os camponeses, fazendo com que eles perdessem suas terras e ainda fossem expulsos das mesmas, devido também a compra de uma grande área da região por um grupo de pessoas ligadas à construtora, com o objetivo de montar uma grande empresa madeireira para a exportação de madeira brasileira para outros países.

Esses fatos acabaram resultando muito desemprego entre os camponeses da região que ficaram sem terras para trabalhar, assim causando grande revolta por parte deles. A situação ficou ainda pior com o fim da construção da estrada de ferro, pois os trabalhadores que foram trazidos de diversas partes do Brasil para trabalhar nela ficaram sem emprego com o fim da obra. E ainda a empresa norte-americana não ofereceu qualquer apoio a eles nem mesmo o próprio governo.

Nessa época, sem esperança e com sede de justiça, os camponeses deixavam se levar por líderes religiosos que pregavam a chegada de um messias para ajudar na causa de um povo oprimido. Foi assim que diante dessa crise o beato José Maria que pregava a criação de um novo mundo, regido pelas leis de Deus, um lugar onde haveria paz, justiça, prosperidade e terras para trabalhar, conseguiu reunir milhares de seguidores, entre eles em sua maioria os camponeses que perderam suas terras.

Assim preocupados com a liderança de José Maria os coronéis da região e o governo resolveram agir enviando policiais e soldados do exército para o local para acabar com o movimento. Assim houve sangrentas batalhas entre os militares e os camponeses que armados com espingardas de caça, facões e enxadas resistiram, enfrentando as forças oficiais, que se encontravam bem armadas.

Mas o conflito de nada adiantou, pois como os camponeses não estavam preparados para enfrentar a guerra e acabaram morrendo milhares de revoltosos, enquanto as baixas do lado das tropas foram bem menores.

Mesmo assim a guerra durou por quase quatro anos, chegando ao fim em 1916, quando as tropas oficiais conseguiram prender Adeodato, um dos chefes do último reduto dos camponeses, sendo condenado a 30 anos de prisão.

Esse conflito mostrou como o governo tratava as questões sociais no início da República, levando em conta os interesses financeiros de grandes empresas e proprietários rurais, enquanto a população mais pobre sofria com essas injustiças, sem dar espaço para negociações.
 
 
 
 
Potiguara e seu Estado-Maior
 
Treinamento do Exército em Três Barras
 
 
Aviões empregados pela primeira vez pelo Exército
 



Causas

O professor Paulo Pinheiro Machado explica resumidamente quais foram os fatores principais que culminaram na Guerra do Contestado:

Terras

A disputa pela terra é certamente a causa principal da guerra, em decorrência da tentativa de expropriação de posseiros e ervateiros caboclos, que aconteceu em três processos diferentes. No primeiro deles, houve a gradativa concentração fundiária promovida por pecuaristas, que transformavam em agregados os posseiros e sitiantes que viviam independentes, nos limites das fazendas. Posteriormente houve a concessão de até 15 km de cada lado do leito da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande para a empresa norte-americana Brazil Railway Company. E também a grilagem de coronéis da Guarda Nacional do Paraná sobre os territórios contestados por Santa Catarina.

Coronelismo

Há uma forte crise política nos anos 1911 a 1918, com a quebra de laços clientelísticos, principalmente nos municípios de Curitibanos (SC) e Canoinhas (SC). 

Militarização

Muitas autoridades municipais mantinham grupos de vaqueanos armados disponíveis para a ação nas regiões contestadas.

Campanha federalista

A herança política e militar da Guerra Federalista (1893-95), de recrutar agricultores e peões para os dois lados da contenda, trouxe à população do planalto uma tradição de luta e o conhecimento de práticas de combate.

Religiosidade

A trajetória do monge ou dos diferentes indivíduos que assumiram a identidade de João Maria criou um espaço de autonomia e organização da população sertaneja, independente do Estado e do Clero.

Consequências

Consolidou-se a concentração fundiária, reforçaram-se os poderes dos coronéis, diminuíram a autonomia e a independência de pequenos posseiros e sitiantes.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

[SGM] Memorandos mostram que EUA encobriram crime Soviético

Randy Herschaft e Vanessa Gera | Associated Press – 10/09/2012


Varsóvia, Polônia (AP) – Prisioneiros de guerra americanos enviaram mensagens secretas codificadas para Washington com relatos de uma atrocidade soviética: em 1943, eles viram colunas de corpos em estado avançado de decomposição na floresta de Katyn, na fronteira ocidental da Rússia, prova de que os assassinos não poderiam ter sido os nazistas, já que eles haviam ocupado a área recentemente.

O testemunho do infame massacre de oficiais poloneses poderia ter diminuído o destino trágico que caiu sobre a Polônia sob o domínio soviético, acreditam alguns estudiosos. Ao invés disso, ele misteriosamente desapareceu no coração do poder americano. A suspeita é que o presidente Franklin Delano Roosevelt não queria enfurecer Josef Stalin, um aliado que os americanos contavam para derrotar a Alemanha e o Japão durante a Segunda Guerra Mundial.


Documentos liberados na segunda-feira e vistos antecipadamente pela Associated Press deram peso à crença de que altos níveis do governo americano ajudaram a acobertar a culpa soviética no assassinato de cerca de 22.000 oficiais poloneses e outros prisioneiros na floresta de Katyn e outros locais em 1940.


A evidência está entre as 1.000 páginas de novos documentos desclassificados que os Arquivos Nacionais dos Estados Unidos liberados e disponibilizados na internet. O deputado republicano de Ohio, Marcy Kaptur, que ajudou a liderar um movimento recente para liberação dos documentos, chamou o sucesso do esforço de segunda-feira de uma “ocasião ímpar” na tentativa de “fazer história completa”.


Historiadores que viram o material alguns dias antes da liberação oficial descreveram-no como importante e compartilharam alguns detalhes com a AP. A revelação mais dramática até aqui é a evidência de códigos secretos enviados por dois prisioneiros de guerra americanos – algo que os historiadores eram ignorantes e que acrescenta evidência de que a administração Roosevelt sabia da atrocidade soviética relativamente cedo.


Os documentos desclassificados também mostram que os Estados Unidos mantendo essa informação em segredo não poderiam conclusivamente determinar a culpa até a admissão russa em 1990 – uma afirmação que parece improvável dado o enorme corpo de evidência da culpa soviética que já havia sido descoberta décadas antes. Os historiadores dizem que o novo material ajuda a esclarecer o que os EUA sabiam e a época.


A polícia secreta soviética matou os 22.000 poloneses com tiros na nuca. Seu objetivo era eliminar uma elite militar e intelectual que poderia se opor ao controle soviético. Os homens estavam entre os mais influentes da Polônia – oficiais e reservistas que em suas vidas civis trabalhavam como médicos, advogados, professores ou outros profissionais. Sua perda provou ser uma ferida profunda na nação polonesa.


Nos primeiros anos seguintes à guerra, o ultraje de alguns funcionários americanos diante do encobrimento inspirou a criação de um comitê especial no Congresso americano para investigar Katyn.


Em um relatório final liberado em 1952, o comitê declarou que não havia dúvidas da culpa soviética e denominou o massacre como “um dos mais bárbaros crimes internacionais na história mundial.” Ele afirmou que a administração Roosevelt suprimiu o crime do conhecimento público, mas disse que isto estava além da necessidade militar. Ele também recomendou que o governo conduzisse acusações contra os soviéticos em um tribunal internacional – algo nunca colocado em prática.


Apesar das conclusões firmes, a Casa Branca manteve seu silêncio sobre Katyn durante décadas, mostrando uma má vontade em focar num assunto que teria sido acrescentado às tensões políticas com os soviéticos durante a Guerra Fria.


Foi em maio de 1943 na floresta de Katyn, uma parte da Rússia que os alemães tomaram dos soviéticos em 1941. Um grupo de prisioneiros americanos e britânicos foram levados à força por seus captores alemães para testemunhar uma cena horrível em uma clareira cercada por pinheiros: covas coletivas abarrotadas com milhares de corpos parcialmente mumificados em uniformes elegantes de oficiais poloneses.


Os americanos – capitão Donald B. Stewart e o Tenente-Coronel John H. Van Vliet Jr. – odiavam os nazistas e não queriam acreditar nos alemães. Eles tinham visto a crueldade alemã de perto, e, além disso, os soviéticos eram seus aliados. Os alemães esperavam usar os prisioneiros para propaganda e romper a aliança entre a União Soviética e seus aliados ocidentais.


Mas, ao retornar aos seus campos, os americanos convenceram-se de que eles presenciaram prova contundente da culpa soviética. O estado avançado de decomposição dos corpos lhes mostrou que os assassinatos aconteceram na etapa inicial da guerra, quando os soviéticos ainda controlavam a área. Eles também viram cartas, diários, placas de identificação, recortes de jornal e outros objetos – nenhum datado mais tarde do que a primavera de 1940 – retirados das covas. A evidência que mais os convenceu era o bom estado das botas e das roupas: isto lhes disse que os homens não viveram muito tempo após terem sido capturados.


Stewart testemunhou diante do comitê parlamentar de 1951 sobre o que ele viu, e Van Vliet escreveu relatórios sobre Katyn em 1945 e 1950, o primeiro dos quais desapareceu misteriosamente. Mas os novos documentos desclassificados mostram que ambos enviaram mensagens codificadas enquanto ainda estavam em cativeiro para a inteligência do Exército com sua própria opinião sobre a culpa soviética. É uma revelação importante porque mostra que a administração Roosevelt estava conseguindo informação desde o começo de fontes confiáveis americanas da culpa soviética – mesmo assim as ignorou para manter a aliança com Stalin. 


Um documento mostra que o chefe da Inteligência do Exército, o General Clayton Bissell, confirmando que alguns meses após a visita de 1943 a Katyn por oficiais americanos, um pedido codificado pelo MIS-X, uma unidade de inteligência militar, foi enviado para Van Vliet pedindo-lhe “para confirmar sua opinião sobre Katyn.” A nota de Bissell disse que “é também entendido que o Coronel Van Vliet e o Capitão Stewart responderam.”


O MIS-X era responsável na ajuda para a fuga dos prisioneiros de guerra atrás das linhas alemãs; ele também usava prisioneiros para coletar inteligência.


Uma declaração de Stewart datada de 1950 confirma que ele recebeu e enviou mensagens codificadas para Washington durante a Guerra, incluindo uma sobre Katyn: “O conteúdo do meu relatório foi aprx (aproximadamente): as afirmações alemãs sobre Katyn substancialmente corretas na opinião de Van Vliet e minha própria.”


Os novos documentos tornados públicos também mostram que Stewart recebeu ordens em 1950 – logo antes do comitê congressional começar seu trabalho – de nunca falar a respeito da mensagem secreta de Katyn.

 

Krystyna Piorkowska, autora do livro recentemente publicado “Testemunhas Anglo-Saxãs de Katyn: Pesquisa Recente,” descobriu os documentos relacionados às mensagens codificadas mais de uma semana atrás. Ela foi um dos muitos pesquisadores que viram o material muito antes da liberação pública.


Ela já tinha determinado em sua pesquisa que Van Vliet e Stewart eram “usuários codificados” que coletavam mensagens sobre todos os assuntos. Mas esta é a primeira descoberta deles falando sobre Katyn, ela disse.


Um outro especialista em Katyn ciente dos documentos, Allen Paul, autor de “Katyn: O Massacre de Stalin e o Triunfo da Verdade,” disse à AP que a descoberta é “potencialmente explosiva.” Ele disse que o material não aparece no registro das audiências parlamentares em 1951-52, e parece ter sido suprimido.


Ele argumenta que a cobertura dos EUA atrasou uma compreensão completa nos Estados Unidos da verdadeira natureza do Stalinismo – uma compreensão que veio somente depois, após os soviéticos explodirem uma bomba atômica em 1949 e após a Polônia e o resto da Europa Oriental estarem sob a Cortina de Ferro.

 

“Os poloneses sabiam muito antes de a guerra terminar quais eram as reais intenções de Stalin,” disse Paul. “A recusa do Ocidente em escutá-los sobre Katyn foi uma catástrofe que tornou seu destino pior.”


O registro histórico apresenta outra evidência que Roosevelt sabia em 1943 da culpa soviética. Uma das mensagens mais importantes que caíram na escrivaninha de FDR foi um relatório extenso e detalhado que o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill o enviou. Escrito pelo embaixador britânico para o governo-em-exílio polonês em Londres, Owen O´Malley, ele aponta a culpa soviética em Katyn.


“Temos agora disponível uma porção de evidência negativa,” escreveu O´Malley, “de que há sérias dúvidas sobre as afirmações russas da responsabilidade pelo massacre.”


Não foi somente após o fim da hegemonia soviética sobre a Europa Oriental que o líder reformista Mikhail Gorbachev admitiu publicamente a culpa soviética em Katyn, um passo-chave na reconciliação russo-polonesa.


O silêncio do governo americano tem sido uma fonte de profunda frustração para muitos americanos de origem polonesa. Um deles é Franciszek Herzog, 81 anos, um homem de Connecticut cujo pai e tio morreram no massacre. Após a admissão de Gorbachev em 1990, ele esperava por maior franqueza dos EUA r fez três tentativas de obter uma desculpa pública do então presidente George H.W. Bush.


“Isto não ressuscitará os homens,” ele escreveu a Bush. “Mas dará satisfação moral às viúvas e órfãos das vítimas.”


Uma resposta que ele obteve em 1992 do Departamento de Estado não o satisfez. Sua correspondência com o governo está também entre os documentos liberados recentemente e foi obtida mais cedo pela AP da Biblioteca presidencial George Bush.


A carta, datada de 12 de agosto de 1992, e assinada por Thomas Gerth, então vice-diretor do Escritório de Assuntos Europeus Orientais, mostra o governo admitindo que não possuía evidência irrefutável até a admissão de Gorbachev:


“O governo americano nunca aceitou a afirmação soviética de que não era responsável pelo massacre. Entretanto, na época das audiências congressionais em 1951-1952, os EUA não possuíam os fatos que pudessem claramente refutar as alegações soviéticas que estes crimes foram cometidos pelo Terceiro Reich. Estes fatos, como o senhor sabe, não foram revelados até 1990, quando os russos oficialmente se desculparam à Polônia.”


Herzog expressou frustração na resposta.


“Há uma enorme diferença entre não saber e não querer saber,” Herzog disse. “Acredito que o governo americano não quis saber porque era inconveniente para ele.” 


Página dos Arquivos Nacionais sobre o tema:


http://www.archives.gov/research/foreign-policy/katyn-massacre/


Fonte:




Novos Documentos mostram: Roosevelt conspirou com Stalin
 
Santiago Alvarez, 20/09/2012


Por que os EUA foram coniventes com a União Soviética em acobertar o massacre? Durante a guerra, tudo estava relacionado com a necessidade de manter uma frente unida contra a Alemanha e o Japão. Mas depois, durante a Guerra Fria, por que os EUA ainda acompanhavam o "Império do Mal"?

Bem, a resposta não é fácil. A Rússia era um regime totalitário desde os anos 1920. Portanto, na época em que o partido nacional socialista de Hitler foi estabelecido na Alemanha, os soviéticos já haviam matado centenas de milhares. Eles mataram milhões quando Hitler chegou ao poder em 1933.

Como a administração Roosevelt reagiu a isto quando ela chegou ao poder em 1933? Eles restabeleceram relações diplomáticas com a Rússia Soviética e subseqüentemente mantiveram uma relação muito cordial, aprobativa com o regime de Stalin. Mesmo assim, a relação com a Alemanha deteriorou rapidamente naqueles anos devido à hostilidade amarga de Roosevelt em relação ao regime de Hitler.

Quando a guerra eclodiu entre a Polônia de um lado e a Alemanha e União Soviética do outro (em setembro de 1939), os soviéticos tinham matado dezenas de milhões, e a administração americana conhecia esta catástrofe humana. Na época, cerca de mil indivíduos haviam sido mortos pelo regime de Hitler (durante o chamado Putsch Röhm em 1934 e o pogrom antijudeu de novembro de 1938). Adivinhem qual relação diplomática deteriorou após setembro de 1939? Somente aquela entre EUA e Alemanha, e não aquela entre EUA e Rússia Soviética. 

Então, por que a administração Roosevelt se uniu ao "Império do Mal", com o país mais criminoso do mundo? E por que todas as administrações americanas subseqüentes até hoje tentaram encobrir aspectos deste fato?

O poder corrompe. E gente corrupta tomando más decisões com repercussões catastróficas sempre tentam encontrar caminhos para justificar suas ações e esconder seus enganos. Os EUA dependem do mito da Segunda Guerra ter sido uma luta entre "bem" e "mal", onde os EUA levaram liberdade e democracia para o mundo - exceto para Katyn e para os zilhões de outros lugares de extermínio em massa, escravidão e opressão comunista (e Aliado). portanto, a auto-percepção dos EUA de si próprios é baseada em uma mentira profunda. É a mesma mentira que leva os EUA para a guerra uma após a outra: Somos os bonzinhos, e todos que se opõe a nós merecem ser bombardeados até o inferno.

A notícia da cobertura de Roosevelt do crime soviético tem ainda outra repercussão: aparentemente, os EUA possuíam uma rede de operações de estações de transmissão de rádio na Europa ocupada pelos alemães que podia ser usada pelos americanos. Espiões e soldados mantidos em cativeiro alemão enviavam mensagens secretas. Será interessante encontrar transmissões de rádio que informavam sobre as atrocidades ALEMÃS, por exemplo aquelas relacionadas ao Holocausto. Tanto quanto este autor sabe, nenhuma mensagem de rádio foi liberada até agora. É difícil conceber como a administração americana não teria sido informada sobre o "crime do século" enquanto ele ainda estava ocorrendo. Talvez Roosevelt tenha acobertado este crime também porque Hitler era seu aliado secreto...


Novas fotos coloridas descobertas do interior da casa de Hitler

Erich Pfeiffer, Yahoo News – 27/01/2012


Várias fotografias jamais vistas foram divulgadas pelo fotógrafo pessoal de Adolf Hitler, dando uma noção do apartamento de Hitler em Berlim e da propriedade bávara.

O Mirror relata que o fotógrafo Hugo Jäger foi um dos poucos fotógrafos trabalhando com fotografia colorida na época e foi-lhe concedido acesso aos aposentos sociais e de estudo de Hitler, mostrando objetos de arte e mobília estimadas em milhões mesmo em dólares pré-ajustados. As imagens foram feitas dois anos antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Os aposentos de Hitler em seu apartamento em Berlim, sobre a “Nova Chancelaria” reflete seu gosto barroco, freqüentemente sentimental. Por outro lado, o interior da propriedade Berghof, o lar dito ser o mais próximo do seu coração, refletia sua concepção de como o “estilo alemão” deveria ser.

Corre o boato que Jäger tirou umas 2.000 fotos de Hitler e de seus bens. Entretanto, em 1945, acredita-se que Jäger as escondeu em uma mala. Como a revista Life relatou:

Em 1945, quando os Aliados estavam fazendo seu último avanço em direção de Munique, Jäger topou com seis soldados americanos em uma pequena cidade a oeste da capital bávara. Durante uma busca na casa onde Jäger estava vivendo, os americanos encontraram uma mala de couro na qual Jäger havia escondido milhares de negativos de fotos coloridas. Ele sabia que seria preso (ou pior) se os americanos descobrissem seu filme e sua conexão íntima com Hitler. Ele não sabia o que poderia acontecer em seguida.

Jäger então enterrou algumas das fotografias em doze jarras de vidro nos arredores de Munique, recuperando-as em 1955.

http://news.yahoo.com/blogs/sideshow/newly-discovered-color-photos-inside-hitler-private-home-163857939.html


















terça-feira, 18 de setembro de 2012

Fragmento de texto do século II fala em "mulher de Jesus"

Terra, 18 de setembro de 2012

Um papiro é a primeira evidência de que os cristãos já acreditaram que Jesus foi casado, segundo um estudo da Harvard Divinity School. A descoberta foi anunciada em um congresso no Institutum Patristicum Augustinianum (do Vaticano) em Roma.

"A tradição cristã afirma que Jesus não foi casado, apesar de não haver nenhuma evidência histórica confiável para suportar essa afirmação", diz Karen King, de Harvard. "Este novo texto não prova que Jesus foi casado, mas nos conta que a questão como um todo apenas veio de um vociferador debate sobre sexualidade e casamento. Os cristãos discordavam sobre se era melhor ou não casar, mas isso foi um século depois da morte de Jesus, depois eles apelaram para o estado conjugal de Jesus para suportar suas posições."

Roger Bagnall, diretor do Instituto de Estudo do Mundo Antigo, em Nova York, acredita que o fragmento seja autêntico, baseado em exames do papiro e da caligrafia. Outros especialistas também acreditam na autenticidade baseados em outros dados, como linguagem e gramática, segundo nota de Harvard desta terça-feira. O objeto ainda vai passar por mais testes, especialmente da composição química da tinta.

Um dos lados do fragmento tem oito linhas incompletas de texto, enquanto o outro está muito danificado e apenas três palavras e algumas letras podem ser vistas - inclusive com infravermelho e processamento da imagem em computador. Karen afirma que o pequeno texto fala sobre assuntos como família, disciplina e casamento dos antigos cristãos.

A pesquisadora e a colega AnneMarie Luijendijk, professora de religião em Princeton, acreditam que o fragmento faça parte de um evangelho desconhecido. Um artigo com resultados do estudo do objeto será publicado em janeiro de 2013 no jornal Harvard Theological Review.



O fragmento faz parte de uma coleção particular cujo dono procurou a pesquisadora para que ela traduzisse o texto. Ele deu a Karen uma carta dos anos 80 do professor Gerhard Fecht, da Universidade Livre de Berlim, na qual ele afirmava acreditar que era uma evidência de um possível casamento de Jesus.

A professora de Harvard disse não acreditar em um primeiro momento (em 2010) que fosse autêntico e disse ao dono que não tinha interesse na análise. Contudo, ele persistiu no contato e, em dezembro de 2011, ela o convidou a levar o objeto a Harvard. Em 2012, ela e Luijendijk levaram o papiro a Bagnall que analisou e disse ser possivelmente autêntico.

Pouco se sabe de sua origem, mas acredita-se ser do Egito, já que está escrito em copta - usado pelos cristãos egípcios durante o império romano. Como há texto dos dois lados, os pesquisadores acreditam que faça parte de um livro, ou códex.

Para motivos de referência, o evangelho do qual supostamente faria parte foi chamado de "Evangelho da Mulher de Jesus". A pesquisadora acredita que ele seja da segunda metade do século II, já que outros evangelhos descobertos recentemente são dessa época. A origem, como dos outros, certamente está atribuída a alguém próximo a Jesus, mas o verdadeiro autor deve ser desconhecido. Eles acreditam ainda que foi escrito originalmente em grego e depois traduzido.

No texto, os cristãos falam de si como uma família, com Deus como pai, seu filho Jesus e membros como irmãos e irmãs. Duas vezes no fragmento, Jesus fala de sua mãe e de sua mulher - sendo que uma das duas ele chama de Maria. Os discípulos discutem se Maria é digna, e Jesus diz que "ela pode ser minha discípula".

Segundo Karen, somente por volta do ano 200 é que foi afirmado, em texto registrado por Clemente de Alexandria, que Jesus não se casou. Na época havia uma discussão se os cristãos deveriam se casar ou viver no celibato. Segundo Clemente, cristãos da época afirmavam que o casamento fora instituído pelo demônio. A pesquisadora afirma que Tertuliano de Cartago, uma ou duas décadas depois, foi quem declarou que Jesus não havia se casado. Ele, contudo, não condenava o casamento - desde que ocorresse apenas uma vez, mesmo em caso de morte de um dos cônjuges.

No final, afirma Karen, a visão dominadora foi a de que o celibato é a mais alta forma de virtude sexual do cristianismo, enquanto permite o casamento, mas apenas para a reprodução. "A descoberta desse novo evangelho oferece uma ocasião para repensar o que achávamos saber ao questionar qual foi o papel que o status conjugal de Jesus teve historicamente nas controvérsias dos cristãos antigos sobre casamento, celibato e família. A tradição preservou apenas aquelas vozes que clamavam que Jesus nunca se casou. O 'Evangelho da Mulher de Jesus' agora mostra que alguns cristãos pensavam de outra forma."

http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI6163867-EI8147,00-Fragmento+de+texto+do+seculo+II+fala+em+mulher+de+Jesus.html


Especialistas estão céticos após texto sobre "mulher de Jesus"

Terra, 19 de setembro de 2012

O papiro revelado por uma professora americana e que menciona a existência de uma suposta mulher de Jesus causou polêmica. Contudo, a teoria de que Cristo teria sido casado foi vista com ceticismo tanto por especialistas do Vaticano quanto de fora.

A professora Karen King, da Escola de Teologia de Harvard, revelou a existência de um papiro cristão copta escrito entre os séculos 2 e 4 e que contém a frase "Jesus disse a ele, minha esposa...".
Durante o congresso sobre estudos coptas, a especialista falou da teoria que os antigos cristãos acreditavam que Jesus era casado. Ela enfatizou que o papiro em questão não prova que Jesus tenha sido casado de fato, mas levanta a questão desse suposto casamento, muito embora a tradição cristã faça questão de negar essa possibilidade.

"No princípio, os cristãos discordavam sobre se era ou não casado, mas somente depois de um século da morte de Jesus é que começaram a usar condição conjugal de Jesus para apoiar suas posições", acrescentou King.

Apesar de vários especialistas acreditarem na autenticidade do papiro, "a sentença final sobre o fragmento depende de novas análises por parte de colegas e da realização de mais testes, principalmente sobre a composição química da tinta", explicou ainda.

Procurado pela AFP, o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, afirmou que "não se sabe direito de onde vem esse pedaço de pergaminho". "Mas isso não muda em absoluto a posição da Igreja, que se baseia em uma longa tradição muito clara e unânime. Não muda em nada a visão sobre Cristo e os Evangelhos. Este acontecimento não tem influência alguma sobre a doutrina católica", enfatizou.
Por sua parte, o professor da Faculdade Protestante de Paris Jacques-Noel Peres destacou que se trata de um texto tardio: "Nunca li textos de épocas anteriores que testemunhassem a veracidade de um casamento de Jesus", afirmou. "Nos idiomas semíticos daquela época, mulher não significa necessariamente esposa".

Peres afirma que este termo pode ser oriundo da famosa frase em que Jesus se dirige a sua mãe no episódio conhecido com Bodas de Caná: "Que tenho eu contigo, mulher?". Para alguns historiadores, o pergaminho pode se originar de círculos gnósticos muito alternativos.

O diretor do jornal do Vaticano L'Osservatore Romano, Giovanni Maria Vian, que também é historiador especializado em Igreja antiga, duvida da autenticidade do documento. "Há um comércio de documentos falsos no Oriente Médio", comentou, criticando o fato de que nos Estados Unidos houve "uma tentativa de fazer barulho em torno deste assunto".

Segundo ele, a letra de quem escreveu o papiro é "muito pessoal", quando os documentos deste tipo eram escritos com uma letra codificada "muito rígida", que se parecia com um texto impresso. "Na tradição da Igreja, não se conhece nenhuma menção a uma esposa de Jesus. Segundo todos os índices históricos, Jesus era solteiro. É dito claramente que Pedro era casado. Por que se teria ocultado no caso de Jesus?", questiona.

Para ele, pode-se tratar de um fragmento de evangelho apócrifo de inspiração gnóstica.

Durante os primeiros séculos do Cristianismo, houve inúmeros evangelhos que posteriormente foram descartados da Bíblia pela Igreja de acordo com seus interesses. Esses evangelhos teriam sido escritos por pessoas que realmente conheceram Jesus e apresentavam um quadro mais completo de sua vida, principalmente de sua infância.

http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI6166226-EI8147,00-Especialistas+estao+ceticos+apos+texto+sobre+mulher+de+Jesus.html

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

As Mentiras sobre a Guerra de 1967 ainda são mais poderosas do que a Verdade

Alan Hart


Em retrospecto, pode ser visto que a guerra de 1967, a Guerra dos Seis Dias, foi o ponto de inflexão na relação entre o Estado Sionista de Israel e os judeus do mundo (a maioria dos judeus que preferem viver como cidadãos em outras nações ao invés de Israel).

Até a guerra de 1967, e com a exceção de uma minoria que era politicamente ativa, a maioria dos judeus não-israelenses não tinha – como posso colocar? – uma grande empatia pela cria do Sionismo. Israel estava lá e, no subconsciente, um refúgio de último recurso; mas o nacionalismo judaico que ele representava não tinha gerado evidentemente o apoio entusiástico dos judeus do mundo. Os judeus de Israel estavam em seu lugar escolhido e os judeus do mundo estavam em seus lugares escolhidos. Não havia, por assim dizer, um grande sentimento de união. Em um momento, David Ben-Gurion, o pai fundador de Israel e o seu primeiro Primeiro-Ministro, estava tão desiludido pela indiferença da judiaria internacional que ele veio a público com sua crítica – os judeus não estavam vindo morar em Israel.

Então, como e por que a guerra de 1967 transformou a relação entre os judeus do mundo e Israel?

Parte da resposta é uma palavra simples – orgulho. Da perspectiva judaica, havia de fato muito orgulho nisso. O pequeno Israel com seu pequena porém altamente profissional força de defesa e seu exército cidadão aniquilaram as máquinas de guerra dos estados árabes fronteiriços em seis dias. O David judeu matou o Golias árabe. As forças israelenses estavam em ocupação de todo o Sinai e da Faixa de Gaza (território egípcio). E não era segredo que os israelenses pudessem ter avançado e capturado Cairo, Amãn e Damasco. Não havia nada para pará-los, exceto a impossibilidade de manter a ocupação das três capitais árabes.

Mas a intensidade do orgulho que a maioria dos judeus mundiais experimentaram com a vitória militar de Israel foi em grande parte um produto da intensidade do medo que veio antes dele. Nas três semanas que antecederam à guerra, os judeus mundiais realmente acreditavam, porque (como os judeus israelenses) eles estavam condicionados pelo Sionismo a acreditar que os árabes estavam posicionados para atacar e que a existência de Israel estava correndo risco e colocada em dúvida.

Os judeus mundiais (e os judeus israelenses) não podiam ser acusados por acreditarem naquilo, mas ela era uma enorme mentira propagandística. Apesar do presidente do Egito, o presidente Nasser, ter pedido para as forças da UNEF retrocederem, fechado o estreito do Tiran para o transporte israelense e reforçado seu exército no SINAI, nem o seu Egito ou qualquer outro estado da fronteira árabe tinha qualquer intenção de atacar Israel. E os líderes de Israel, e a administração Johnson, sabiam disto.

Resumindo, como eu detalhei e documentei em meu livro Sionismo: o Verdadeiro Inimigo dos Judeus, a ofensiva que Israel lançou às 0750 horas (tempo local) na segunda-feira, 5 de junho, não foi um ataque preventivo ou mesmo um ato de auto-defesa. Foi uma guerra de agressão.

A verdade completa desta guerra é esta.

Ajudado pela restauração do nacionalismo palestino, que tornou-se a espinha dorsal que sacudiu o cão árabe apesar dos esforços brutais dos serviços de inteligência dos estados árabes da linha de frente para prevenir que isso acontecesse, os falcões militares e políticos de Israel armaram uma armadilha para Nasser; e ele foi em direção dela, com os olhos semi-abertos, na esperança que a comunidade internacional liderada pela administração Johnson, iria conter Israel e exigiria que ele e o Egito resolvessem o problema do momento por diplomacia. Da perspectiva de Nasser, isto não era uma expectativa absurda por causa do comprometimento dado pelo presidente Eisenhower de que na eventualidade de fechamento do Estreito do Tiran pelo Egito para o transporte israelense, os EUA trabalhariam com a “sociedade das nações” para obrigar o Egito a restaurar o direito à passagem de Israel, e ao agir assim, prevenir a guerra.

Uma grande parte da razão por que hoje o debate racional sobre fazer paz é impossível com a vasta maioria dos judeus em todos os lugares é que eles ainda acreditam que o Egito e os estados árabes fronteiriços tentaram aniquilar Israel em 1967, e somente foram prevenidos de fazê-lo graças ao ataque preventivo de Israel.

Se a afirmação de que os árabes não pretendiam atacar Israel e que a existência do Estado Sionista não estava em perigo tivesse sido feita por um goy (um não-judeu, como eu), ela teria sido descartada pelos apoiadores de Israel como uma suposição antisemita. De fato, a verdade que a afirmação representa foi admitida por alguns dos principais líderes israelenses – após a guerra, é claro.

Neste 45º. Aniversário do início da Guerra dos Seis Dias, apresentamos o que eles disseram.

Em uma entrevista publicada no Le Monde de 28 de fevereiro de 1968, o Chefe de Staff israelense Rabin disse isto: “Não acredito que Nasser queria a guerra. As duas divisões que ele enviou ao Sinai em 14 de maio não teriam sido suficientes para lançar uma ofensiva contra Israel. Ele sabia disso e nós também sabíamos.”

Em 14 de abril de 1971, um relatório no jornal israelense Al-Hamishmar continha a seguinte declaração de Mordecai Bentov, um membro do governo nacional de guerra. “A estória completa do perigo de extermínio foi inventada em todos os detalhes e exagerada a posteriori para justificar a anexação de novo território árabe.”

Em 4 de abril de 1972, o general Haim Bar-Lev, o predecessor de Rabin como Chefe de Staff, foi citado no Ma´ariv dizendo isto: “Nunca fomos ameaçados por genocídio na véspera da Guerra dos Seis Dias, e nunca pensamos em tal possibilidade.”

No mesmo jornal israelense no mesmo dia, o general Ezer Weizmann, Chefe de Operações durante a guerra e sobrinho de Chaim Weizmann, foi citado dizendo: “Nunca houve perigo de aniquilação. Esta hipótese nunca foi considerada em qualquer encontro sério.”

Na primavera de 1972, o general Matetiyahu Peled, Chefe do Comando Logístico durante a guerra e um dos doze membros do Staff Geral de Israel, palestrou em um clube literário em Tel-Aviv. Ele disse: “A tese de acordo com a qual o perigo de genocídio caía sobre nós em junho de 1967, e de acordo com a qual Israel estava lutando pela sobrevivência física, não era mais do que um blefe que nasceu e difundiu-se após a guerra.”

Em um debate radiofônico Peled também disse: “Israel jamais esteve em perigo real e nunca houve evidência de que o Egito tinha qualquer intenção de atacar Israel.” Ele acrescentou que “a inteligência de Israel sabia que o Egito não estava preparado para a guerra.”

No mesmo programa, o general Chaim Herzog (antigo Diretor de Inteligência Militar, e futuro Embaixador israelense junto às Nações Unidas e presidente de seu Estado) disse: “Não havia perigo de aniquilação. Nem o quartel-general israelense nem o Pentágono – como as memórias do presidente Johnson provaram – acreditava neste perigo.”

Em 3 de junho de 1972, Peled foi muito mais explícito em um artigo escrito por ele mesmo para o Le Monde. Ele escreveu: “Todas aquelas estórias de perigo eminente que estávamos enfrentando por causa de nosso pequeno tamanho territorial, um argumento exposto depois que a guerra terminou, nunca foi levada em consideração em nossos cálculos. Enquanto prosseguíamos em direção de uma mobilização total de nossas forças, nenhuma pessoa em seu juízo completo poderia acreditar que toda aquela força foi necessária para nossa ‘defesa’ contra a ameaça egípcia. Esta força foi estabelecida para acabar de uma vez por todas com o poderio militar egípcio e com o poderio de seus mestres soviéticos. Achar que as forças egípcias concentradas em nossas fronteiras eram capazes de ameaçar a existência de Israel não é somente um insulto à inteligência de qualquer pessoa capaz de analisar este tipo de situação, mas é primeiramente um insulto ao exército israelense.”

A preferência de alguns generais por dizer a verdade após a guerra provou um debate em Israel, mas foi de pouca duração. Se dependesse de alguns jornalistas israelenses, os generais teriam se mantido calados. Weizmann foi um daqueles que foram pressionados com a sugestão de que ele e outros que queriam falar “não deveriam exercer seu direito inalienável à liberdade de expressão a fim de prejudicar a opinião mundial e a diáspora judaica contra Israel.”

Não é surpreendente que o debate em Israel foi encerrado antes que ele levasse a uma busca séria sobre a natureza do Estado e se ele deveria continuar a existir através da mentira assim como pela espada; mas é muito mais notável, eu acho, que a opinião pública ocidental continue a preferir a conveniência do mito sionista ao invés da realidade do que aconteceu em 1967 e porquê. Quando jornalistas e comentaristas precisam fazer referência à Guerra dos Seis Dias, quase todos eles ainda falam como os sionistas em 1967, ao invés de contar o que realmente aconteceu. Obviamente, ainda há limites de quão longe a mídia está preparada para desafiar a versão sionista da história, mas pode ser também o caso de jornalismo preguiçoso.

Para aqueles jornalistas, preguiçosos ou não, que possam ter ainda dúvidas quem começou a Guerra dos Seis Dias, eis a citação do Primeiro Ministro Begin em uma aparição pública em 1982. “Em 1967, tínhamos uma opção. As concentrações do exército egípcio no Sinai não provavam que Nasser estava prestes a nos atacar. Temos que ser honestos consigo mesmos. Decidimos atacá-lo.”

http://www.alanhart.net/the-lies-about-the-1967-war-are-still-more-powerful-than-the-truth-2/


A Guerra dos Seis Dias

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


A Guerra dos Seis Dias foi um conflito armado que opôs Israel a uma frente de países árabes - Egito, Jordânia e Síria, apoiados pelo Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão.

O plano traçado pelo Estado-Maior de Israel, chefiado pelo general Moshe Dayan (1915-1981), começou a ser posto em prática às 7h e 10min da manhã do dia 5 de junho de 1967, quando caças israelenses atacaram nove aeroportos militares, aniquilando a força aérea egípcia antes que esta saísse do chão e causando danos às pistas de aterragem, inclusive com bombas de efeito retardado para dificultar as reparações. Ao mesmo tempo, forças blindadas de Israel investiam contra a Faixa de Gaza, o sul da Síria, as Colinas de Golã e o norte do Sinai. A Jordânia abriu fogo em Jerusalém, e a Síria interveio no conflito depois de ser atacada.

No terceiro dia de luta, todo o Sinai já estava sob o controle de Israel. Nas 72 horas seguintes, Israel impôs sua superioridade militar, ocupando também a Cisjordânia, o sector oriental de Jerusalém e as Colinas de Golã, na Síria.

Como resultado da guerra, aumentou o número de refugiados palestinos na Jordânia e no Egito. Síria e Egito estreitaram ainda mais as relações com a URSS, aproveitando também para renovarem seu arsenal de blindados e aviões, além de conseguirem a instalação de novos mísseis, mais perto do Canal de Suez.


A Conquista do Sinai pelas tropas israelenses

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

[SGM] Centenas de brasileiros lutaram ao lado dos nazistas

Euler de França Belém, 07/06/2009


O mestre em ciência política e doutor em ciências sociais Dennison de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná, escreveu um livro muito bom, mas ainda exploratório, sobre brasileiros, filhos de alemães, que lutaram na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) ao lado dos nazistas de Adolf Hitler. “Os Soldados Brasileiros de Hitler” (Juruá, 122 páginas) não contém aquelas pesquisas exaustivas típicas de scholars europeus e norte-americanos. Leitores exigentes, e não apenas os do meio acadêmico, certamente estranharão o fato de que os personagens do livro, todos reais, não aparecem com seus nomes verdadeiros. Os nazistas teuto-brasileiros só falaram com o historiador com a garantia de que suas identidades seriam preservadas. Como se sabe, os caçadores de nazistas não se aposentaram e, de repente, aqueles que lutaram apenas como soldados, sem comprometimento algum com o Holocausto e os outros crimes bárbaros, podem ter suas vidas expostas e, em consequência, execradas. Para provar que os depoimentos são verdadeiros, que não há invenção literária, Dennison divulga fotografias e dados precisos sobre os militares nazistas. Um escarafunchador de arquivos e entrevistador implacável como o repórter Fernando Morais faria miséria com a história dos soldados patropis de Hitler




Pela legislação nazista, filhos de alemães eram considerados alemães e, em tempo de guerra, eram obrigados a prestar serviço militar na Wehrmacht (forças armadas alemãs). “Presumo que algumas centenas de brasileiros lutaram na Segunda Guerra Mundial sob a bandeira da Alemanha nazista”, escreve Dennison. O termo “presumo” significa que o assunto está à espera de uma pesquisa rigorosa, que, quem sabe, poderá ser feita pelo próprio historiador, que apurou (bem) as primeiras pistas.
Um dos primeiros entrevistados de Dennison era conhecido por seus colegas soldados como “Der Amerikaner” (o Americano), por ter nascido no Brasil. Como seu apelido era Gingo (ou Güingo, a pronúncia), o historiador usa as iniciais G. S.

Gingo (está vivo) nasceu em São Paulo, em 1925, filho de alemães que vieram para o Brasil em 1923. Em agosto de 1939, Gingo é levado para a Alemanha, para se “tratar” de febre amarela. Aos 14 anos, teve se filiar na Jungvolk, “organização juvenil controlada pelo regime nazista”. A doutrinação ideológica, segundo o entrevistado, não era fanática nem excessiva. Em 1942, aos 18 anos, foi convocado para o serviço militar. Alegou que era brasileiro e recebeu como resposta: “Se você tivesse nascido na África isso faria de você um negro?”

Enviado para a Tchecoslováquia, Gingo se tornou sargento-canhoneiro. O comando nazista decidiu enviá-lo para lutar na Itália. “Não me nego a ir ao front, mas não contra meus patrícios brasileiros”, disse ao capitão de sua unidade. Por se recusar a lutar, deveria ser fuzilado. “O sargento G. S. suava de escorrer suor pelas costas e nádegas”, mas resistiu. Um major decidiu protegê-lo, alegando que estava gravemente doente. Mais tarde, transferido para a infantaria, lutou contra o Exército Vermelho, na atual Eslováquia. Em Budapeste, “no posto de 3º sargento da infantaria, ele foi colocado no comando de um grupo de combate de sete homens, equipados com fuzis e uma única metralhadora de origem tcheca capturada aos partisans. As restrições no que se refere ao remuniciamento também eram pesadas: ele lembra de só ter disponíveis uns vinte tiros para cada arma, o que explica as limitações impostas: máximo de um ou dois disparos por arma; acima disso podia-se atirar somente com ordem superior”.

Intensamente bombardeado pelos soviéticos, o grupo de Gingo praticamente não dormia. Ele diz que às vezes dormia andando. Na região do lago Valence, G. S. se destacou nos combates e recebeu a Cruz de Ferro de Segunda Classe por bravura e foi promovido a 1º sargento. O militar conta que os húngaros temiam mais os soviéticos do que os alemães. O soviéticos estupravam meninas, mulheres adultas e idosas.

Preso pelos soviéticos, Gingo teve o relógio, presente de um padrinho brasileiro, roubado por um comissário esquerdista. Percebendo que teria um fim trágico nas mãos dos comunistas, Gingo escapou, junto com outros militares, e encontrou uma garota (os soviéticos “pregaram o avô dela com um prego pela língua” numa mesa, bateram em sua irmã, criança, e estupraram a avô e a mãe). Depois, o sargento caiu nas mãos dos americanos. “Para os soldados alemães era um alívio, um mal menor, ser prisioneiro dos americanos e não dos russos. O alemão não tinha medo, mas sim pavor do russo”, conta Gingo.

Num campo de prisioneiros, Gingo passou a fazer trabalhos braçais para os americanos. “A obra a qual foi destinado foi o desenterramento do cabo terrestre de comunicação Berlim-Roma, enterrado a três metros de profundidade, cujos condutores os americanos ambicionavam para si.” Relata o sargento G. S.: “Os soldados retornados às suas cidades recebiam as cartelas de racionamento de alimentos pelo prazo de três semanas. Mas tinham que obrigatoriamente assistir ao filme ‘Moinho do Diabo’ sobre atrocidades cometidas pelos alemães contra seus prisioneiros. De repente esse filme foi tirado de circulação, pois muitos soldados se reconheceram nesse filme como sendo eles os prisioneiros, e os Aliados, os carrascos”, conta Gingo. (Leia mais no site www.jornalopcao.com.br, na coluna Imprensa).

O sargento Gingo, deslocado para trabalhar numa pedreira, disse que era brasileiro e, por isso, perdeu o cartão de racionamento. Acusado de ser líder proeminente da Juventude Hitlerista, foi enviado para Hammelburg, um campo de concentração. Ficou três dias sem se alimentar e foi obrigado a trabalhar. “Com o tempo ele se convenceu de que havia o propósito da administração do campo em exterminar os detentos através da fome induzida. Para complementar a dieta ele teve de comer capim e cascas de árvores e lixo da cozinha”. Muitos prisioneiros morreram. Certa vez, a Cruz Vermelha enviou pacotes de alimentos e os guardas pró-americanos, supostamente filhos de judeus alemães, “colocaram os prisioneiros em forma e jogaram gasolina em cima de tudo e colocaram fogo”.

As pressões só cessaram quando o general americano George Patton visitou o campo. “Patton considerava o soldado alemão um soldado exemplar, que deveria ser respeitado”, anota o historiador. “Der Amerikaner atribui a essa visita do general americano o fato de sua vida e a de seus companheiros terem sido poupadas.”

Gingo ficou oito meses em Hammelburg e três meses em Darmstadt, “um grande campo para estrangeiros que serviram ao III Reich”. Em fevereiro de 1948, com o aval da Junta de Desnazificação e do subchefe da Missão Militar Brasileira, tenente-coronel Aurélio de Lyra Tavares, o Americano voltou ao Brasil, no navio Santarém.

A história de Fritz (pseudônimo) e seus irmãos é uma das mais interessantes do livro de Dennison. Fritz nasceu em São Paulo, em 1928. Os pais, que chegaram ao Brasil em 1923, tiveram cinco filhos, Renate, Karl e Martin, nascidos na Alemanha, e Peter e Fritz, nascidos no Brasil. Peter lutou como nazista, na frente russa, e sobreviveu, radicando-se em São Paulo.

Martin contou a Dennison a história dos irmãos Gerd Emil Brunckhorst e Paul Heinrich. O primeiro lutou na Itália, ao lado dos brasileiros. O segundo morreu no front russo, lutando como nazista.

No início da década de 1940, com 14 anos, Fritz filiou-se à Jungvolk. Em 1942, a família foi informada da morte de Karl, do Afrika Korps, na África do Norte. Lutou sob o comando do marechal Erwin Rommel. “Entre 1943 e 1944”, Fritz “entrou para a Marine-Hitlerjugend, a Juventude Hitlerista Naval.” Em 1944, foi convocado para “prestar serviço como” auxiliar “da defesa antiaérea”. Em Berlim, presenciou os ataques diurnos dos aviões Aliados. “Nunca tinha visto tantos aviões juntos de uma só vez.” Os incêndios pareciam tomar conta de toda a Berlim. Viu pessoas queimadas, desfiguradas e mortas. Na cidade de Wetzlar, no Estado de Hessen, Fritz foi “incorporado ao serviço ativo no exército alemão”. Foi enviado para lutar contra os americanos. “Seu grupo foi dizimado. Ele e mais dois colegas conseguiram ir de carona, sem terem recebido ordens para isso, num caminhão carregado de munição até a Turíngia.” Os americanos o aprisionaram em março de 1945. Passou fome durante o transporte para um campo de prisioneiros de Bad Kreuznach.

O relato de Dennison a partir dos apontamentos do ex-soldado: “Fritz lembra que ele e seu grupo foram os primeiros a entrar no campo que consistia de um descampado plano, cercado de arame farpado. Inexistiam alojamentos ou instalações sanitárias, o que obrigava os reclusos a dormirem ao relento, sob um clima úmido e extremamente frio, sempre dispondo de pouca comida. Nesse momento a fala de Fritz se torna mais contida, ao recordar o elenco de misérias e brutalidades a que foram submetidos os prisioneiros alemães. (...) Ele conta que as pessoas defecavam e urinavam em grandes fossas a céu aberto. Os mais enfraquecidos pela fome e pela doença caíam dentro dessas fossas e, sem forças para se safar, morriam afogados da maneira mais abjeta em excrementos humanos. No desespero de obterem pelo menos algum conforto, os prisioneiros chegavam a trocar suas alianças de ouro por alguns cigarros com seus guardas norte-americanos”. A história contada por Fritz raramente aparece nos livros, porque, teoricamente, muitos acreditam que, como fizeram sofrer, os alemães também deveriam sofrer. A história da internação dos alemães, no fim da guerra, é um capítulo que merece resgate mais amplo. A versão dos americanos como captores benevolentes talvez precise ser refeita, embora não fossem, é claro, tão bárbaros quanto os soviéticos.

No campo, relata Fritz, “um grupo significativo de alemães morria” todo dia. “Se você perguntar a qualquer alemão o que foi um campo de extermínio, certamente ele irá te mencionar algum desses, de prisioneiros de guerra que os americanos improvisaram”. Fritz pegou tifo no campo e passou muito mal.

Em 1945, doente, Fritz conseguiu voltar para a casa dos pais. Recebeu informações sobre os irmãos. Martin havia sido aprisionado pelos russos, na Romênia. Peter estava na zona de ocupação inglesa. Renate estava em Portugal, na Embaixada Alemã. Recuperado, Fritz trabalhou na zona de ocupação russa e, mais tarde, fugiu para o lado americano, escapando para a Holanda. Em 1947, ele e Peter voltam para o Brasil, “no navio Santarém, primeiro navio brasileiro a fazer a rota até a Alemanha, saindo de Hamburgo com escala em Lisboa”.

Como saíra jovem do Brasil, Fritz descobriu que não sabia mais falar português e teve de ser amparado pelo irmão Peter, que não havia esquecido a língua. Fritz trabalhou na fábrica de fogões Wallig, em São Paulo, e na empresa MacMillan. Foi funcionário e sócio da Jarosch & Cia, representante da fábrica de armarinhos Ipu, de Nova Friburgo.

Ao contrário de nazistas que esqueceram o nazismo, Fritz contou a Dennison que era “entusiasta do regime”. “Ele se recorda de que, ao contrário do que hoje se imagina, as preleções políticas e doutrinárias aos jovens não tinham nada de exagerado. A despeito da inexistência de qualquer esforço para ‘fanatizar’ os jovens, ele próprio manteve até o fim a fé na vitória da Alemanha sobre os seus inimigos, mesmo quando já se encontrava em um campo de prisioneiros norte-americano em março de 1945. Ele lembra que os mais velhos — cita a sua própria mãe como exemplo — eram consideravelmente mais céticos com relação ao futuro do país sob regime nacional-socialista”.

Fritz foi entrevistado por Dennison em São Paulo, em 2002, e faleceu em 2006. Estava muito doente quando conversou com o historiador.

Cruz de ferro — Martin, irmão de Fritz, foi entrevistado por Dennisson em 2002, em São Paulo. Convocado em 1941, foi enviado para Posen, “no antigo corredor polonês”. Lutou contra partisans, na Lituânia, e contra tropas soviéticas. Foi condecorado (com a cruz de ferro) pelas batalhas contra as tropas comunistas. Ferido em combate, foi levado para a França. Recuperado, voltou para a mortal frente soviética, na Ucrânia, “sem armas. Toda divisão seria reequipada e armada lá mesmo na frente russa, na região de Poltava, tendo seguido depois para as margens do Rio Dnieper ao sul de Kharkhov”. Contraiu malária e foi retirado do front. Retornou à luta em abril de 1944, na artilharia, na Romênia. Tornou-se comandante de uma bateria. “O dia mais marcante no front, segundo suas lembranças, foi 22 de agosto de 1944. Naquele dia, intenso fogo de artilharia russa engolfou as posições alemãs de norte a sul, em apoio de um grande ataque das tropas soviéticas.” Sob pressão dos soviéticos, as tropas alemãs recuaram e entupiram as estradas, em fuga. Foi ferido outra vez, pelos soviéticos.

Capturado pelos soviéticos, Martin foi roubado. “Apesar de estar precariamente vestido, os seus captores fizeram questão de tirar-lhe os pertences pessoais, as botas, e parte das calças, estas últimas tiradas a faca pelos” soviéticos, “como resposta a sua alegação de que esta não sairia facilmente de seu corpo.” No trajeto para um campo de prisioneiros, foi novamente roubado pelos soviéticos, “que desta vez levaram-lhe as meias, que ele recorda estarem já empapadas de sangue coagulado. Quando finalmente chegou ao campo, estava descalço e seminu”.

Martin passou cinco anos em campos de prisioneiros para militares alemães. Passou fome e foi intensamente pressionado pelos soviéticos. “Em 1950 ele foi devolvido pela URSS à recém-fundada República Federal da Alemanha.” De lá, voltou ao Brasil. Mora em São Paulo e planeja escrever um livro sobre sua história.

Banzo brasileiro — Hans (pseudônimo), brasileiro que lutou como nazista, foi entrevistado por Dennison em 2002. Nasceu em São Paulo, em 1926. Os pais, austríacos, voltaram para a Europa em 1938. Na Alemanha, filiou-se à Jungvolk e, depois, à Juventude Hitlerista. Lembra-se de Hamburgo bombardeada pelos Aliados. “A fúria dos ataques aliados promovera incêndios tão extensos (e prolongados — foi em Hamburgo que se empregou pela primeira vez a tática de revezamento ininterrupto de bombardeios diurnos norte-americanos com noturnos britânicos — naquilo que era conhecido como o ‘round-o-clock bombing’) que o asfalto das ruas se derretia e neles as pessoas em fuga acabavam presas.”

Em 1944, o garoto Hans foi convocado “para prestar o serviço militar no exército”. No fim desse ano, foi enviado para a Tchecoslováquia. Em busca de alimentos, encontrou grãos de café e sentiu saudade do Brasil. Em 1945, ainda na Tchecoslováquia, quase perdeu os pés, por conta do frio. “Os médicos decidiram pela amputação de parte das extremidades dos dedos dos seus dois pés, irremediavelmente comprometidos pela gangrena. Apesar de anestesiado, no período pós-operatório delirou intensamente, xingando e praguejando o tempo todo em português, para assombro do pessoal médico que o assistia.”

Hans diz ter ficado sabendo do relacionamento entre Hitler e Eva Braun apenas em 1945, quando, prisioneiro dos americanos, leu uma reportagem num jornal do exército dos Estados Unidos. A imprensa alemã não divulgava a história.

Repatriado, Hans chegou ao Brasil em 1947 e seus pais, em 1948. “Ele lembra que foram os primeiros brasileiros a serem repatriados.” Ele vive em São Paulo.

Selvageria soviética — Filho de alemães, Max nasceu no Brasil, em Santa Leopoldina, em 1928. Quando tinha 7 anos, em 1935, os pais voltaram para a Alemanha. Aos 10 anos, em 1938, entrou para a Jungvolk. Em 1942, aos 14 anos, ingressou na MarinerHitlerJugend, o ramo da juventude hitlerista administrado pela Marinha. O irmão Hans (que não é o Hans citado anteriormente) foi morto na frente soviética.

Entre 1944 e 1945, Max “ofereceu-se como voluntário para o trabalho de cavar trincheiras antitanques perto de Bratislava, na Tchecoslováquia. (...) No início de 1945 voltou a Berlim para se alistar seguindo logo depois para Viena na Áustria. Não chegou a se envolver em operações de combate”.

Max diz que o bombardeio de Berlim foi impressionante. “Numa única noite de bombardeio todo seu bairro foi inteiramente arrasado.” No fim da guerra, ele estava em Berlim. Sua família entrou em contato com o major Rubens, do Exército brasileiro com o objetivo de voltar para o Brasil. “Nessa ocasião [Max] presenciou diversas cenas de atrocidades por parte das tropas” soviéticas “de ocupação. Ele se recorda de que o comportamento e o nível de instrução das tropas sob comando” soviético “era extremamente rude e primitivo. Ele se lembra de ter visto soldados” soviéticos “arrancarem e levarem consigo as torneiras das paredes de banheiros e cozinhas, imaginando que assim poderiam ter água em qualquer lugar... Lembra também de vários casos de violência sexual perpetrada por russos contra mulheres alemãs de todas as idades que, até onde ele pôde perceber, eram tolerados senão encorajados pelos próprios escalões superiores da hierarquia militar soviética.”

Para livrar-se dos soviéticos, Max fugiu para a zona de ocupação francesa, onde viveu até 1947. Voltou para o Brasil nesse ano. Max vive em São Paulo.

Fome e porcos — Chicco (pseudônimo) foi o último entrevistado de Dennison. Nasceu em São Paulo, em 1927, e foi enviado pelos pais para a Áustria em 1939. Ele e um irmão se filiaram à Juventude Hitlerista. Em 1943, tornou-se auxiliar da Força Aérea Alemã. Participou de treinamentos na Alemanha, na Dinamarca e na Holanda. O soldado britânico que o capturou gritou: “... um brasileiro! Pegamos um brasileiro!” Depois de interrogado, foi jogado “por seus captores num chiqueiro onde havia alguns porcos grandes e famintos. Ali ele passou o seu primeiro dia como ‘prisioneiro de guerra’”.

Como falava inglês fluentemente, Chicco trabalhou para os ingleses. Na Holanda, contou o soldado, “se passava muito frio e se sofria muita fome”. Ele relata que “presenciou vários linchamentos de soldados alemães pelos civis locais”. Em maio de 1945, quando a guerra acabou, Chicco estava na cidade de Neuburg, próximo ao Rio Reno.

Chicco “convenceu seus captores a libertá-lo, o que possibilitou viajar até Antuérpia, na Bélgica. Lá ele finalmente conseguiu ser recebido pelo vice-cônsul brasileiro que, na sua lembrança, se chamava Júlio Diogo. Ele é que providenciou seu retorno ao Brasil de navio”. O pesquisador optou por não verificar quem é Júlio Diogo. Chicco trabalhou na Volkswagen e morreu em São Paulo em 2008.

Depois da guerra, cerca de 5 mil pessoas foram “repatriadas”. O coronel Lyra Tavares contabilizou “o envio para o Brasil de 2.445 brasileiros e 2.752 estrangeiros”.