terça-feira, 25 de setembro de 2012

[HOL] Nem vivos nem mortos

por NOEMI JAFFE

Em abril de 1945, a Cruz Vermelha chegou até as proximidades do campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, e libertou os prisioneiros que ainda se encontravam ali. Entre eles estava minha mãe, que já tinha passado por Auschwitz e outras localidades, então com 19 anos de idade. Ela fora capturada um ano antes, na cidadezinha de Szenta, onde morava, na fronteira entre a Hungria e a atual Sérvia. A Cruz Vermelha, após libertá-los, levou os prisioneiros para Malmö, na Suécia, onde eles permaneceram em quarentena. Lá, com suas três primas, que sobreviveram aos campos de concentração, principalmente por terem conseguido trabalhar na cozinha, ela escreveu um diário de guerra. Nele, procura reconstituir suas lembranças mais importantes, desde a captura até a libertação, narrando os acontecimentos como se estivesse registrando-os no momento, ou imediatamente depois de sua ocorrência. Daí algumas imprecisões cronológicas e factuais, que decidi manter para ser fiel à escrita original. Atualmente, o diário se encontra no Museu do Holocausto, em Jerusalém. Em fevereiro de 2009, eu e minha filha Leda fizemos uma viagem até a Alemanha e Polônia (Varsóvia, Cracóvia e Auschwitz), tentando reconstituir parte do trajeto de minha mãe durante a guerra. O resultado dessa viagem é o livro O que os Cegos Estão Sonhando?, a ser publicado em outubro, com a edição integral do diário de LIWIA JAFFE, atualmente com 85 anos, e um misto de memórias, reflexões e ficção escritas por mim, além de um depoimento final de Leda. Parte desse livro aparece pela primeira vez aqui.

SENTA,[1] 25 DE ABRIL DE 1944_Todos à minha volta, assim como eu, estamos tristes. Sabemos o que está acontecendo e também o que acontecerá. Meu pai está sentado no sofá, durante a manhã toda, calado, fitando o nada. Por vezes, olha-nos e fecha os olhos tristes. Minha mãe nos con-sola: não acredita no mal, porém está ar-rumando as malas, faz doces e suspira fundo, sem que ninguém possa ver.

Meu irmão e eu observávamos e, sendo duas crianças, saímos para chorar. Ninguém nos conta nada, mas sabemos o que está acontecendo. Sabía-mos que no dia seguinte, às 8 horas, os alemães viriam nos buscar e nos arrancar de nosso lar.

26 DE ABRIL_Levantamo-nos bem cedo. Tudo estava arrumado. Chegaram na hora certa! Eram sete.

Um deles sentou-se junto à mesa e começou a escrever. O segundo olhou as nossas coisas e deu uma ordem:

– Arrumem suas tralhas daqui a cinco minutos. São coisas para duas se-manas. Levem comida e saiam da casa!

Está chovendo. Estamos juntos. Nossa família junto com as outras famílias judias. Vão nos levar para a escola judaica. Duas mulheres alemãs nos revistam, um por um, à procura de joias. Estamos dormindo no chão.

27 DE ABRIL_Às quatro da manhã nos escorraçam de um modo pior do que animais são tratados. Chove sem parar. Lama até os joelhos. Mulheres velhas e crianças pequenas choram. Os alemães batem em todos e gritam:

– Judeus sujos!

Nossos pés se colam à lama. Chegamos ao trem de carga com muita dor. Somos 65 pessoas em cada cabine. Não sabemos para onde estão nos levando. Mamãe nos abraça e engole as lágrimas. Estamos viajando o dia todo e nem pensamos em comida. Dormimos sentados do jeito que estávamos.

SZEGED,[2] 28 DE ABRIL_Chegamos às 11 horas com nossas bagagens nas costas, cansados. Andamos 5 quilômetros dentro da cidade. Horrível! Velhos e crianças choram, pedem ajuda. Em vão. Quem não andava apanhava. Jogamos fora muitas coisas para o peso ficar mais leve. Chegamos, com muita dificuldade.

Colocaram-nos, 65, num só quarto e ordenaram:

– Vocês devem deixar o local limpo! Levantar às cinco e meia da manhã e dormir às dez da noite! Escolham alguém do grupo para ser responsável pela ordem.

Queriam escolher mamãe. Ela não aceitou. Ficamos ali durante um mês. Comendo pó. Tínhamos ainda comida que havíamos trazido de casa.

19 DE MAIO_Inesperadamente nos expulsam da escola à meia-noite. Está escuro, não enxergamos nada. Gritaria. Pedimos que acendessem as luzes. Por sorte, conseguimos. Fora, esperava-nos uma carroça para carregar as nossas malas. Na estação de trem, tivemos de ficar numa fila. Dividiram os pacotes. Novamente dentro de vagões. Viajamos a noite inteira.

BAJA,[3] 20 DE MAIO_Chegamos pela manhã. Enfiaram-nos numa fábrica de móveis próxima à estação. Como éramos muitos, nos dividiram em dois grupos. Metade ficou na fábrica. A outra metade, também nós, acabou conduzida a um simples chiqueiro. Nós mesmos tivemos de limpar o lugar. Forraram o chão gelado com areia limpa. Ali ficamos por nove dias. Papai ficou muito doente, febre alta. Minha velha mãe também se resfriou, ficou fraca. Mamãe mostra-se forte, mas percebemos tudo. Ela nos olha o tempo todo e se esforça para tornar as coisas mais leves para todos nós. Diz que não lhe dói nada, não sente dificuldade alguma. Ela e papai suportariam juntos o dobro das coisas para que não sofrêssemos.

28 DE MAIO_Tivemos de formar uma fila às 9 horas. Os alemães fizeram uma contagem das pessoas. E nos levaram. Na mesma noite deixamos ‘‘nosso” chiqueiro e fomos conduzidos à estação. Setenta dentro de um vagão, com os pacotes, que foram atirados para dentro depois de termos entrado. Papai e mais alguém procuravam pôr alguma ordem ali. Arrumaram os pacotes. Cada um pôde se sentar sobre as suas próprias coisas.

Viajamos durante seis dias. Sem água, sem comida. Papai tem febre o tempo todo. Mas se faz de forte. Mamãe nos consola, nos abraça. Minha velha mãe chora. Doem-lhe as costas. Nem consegue ficar sentada mais.

AUSCHWITZ, 4 DE JUNHO_Mandaram-nos sair dos vagões sem os pacotes. Separaram homens e mulheres. Papai com meu irmão. Nós quatro numa outra fileira. Mamãe, minha priminha de 4 anos, meu primo de 8 e eu. Fila longa. Ouvimos um alemão gritar de longe: direita, esquerda... Quando chegamos mais perto, mamãe escondeu-me debaixo do casaco dela, que ela ainda possuía, esperando evitar que nos separassem.

Chegamos até o primeiro alemão. Mandou ir para a esquerda. Um outro nos examinou e nos deixou passar. Mas o terceiro ordenou que eu fosse para o lado direito. Éramos muito jovens. Eu e minha amiga Kátitza Blaier chorávamos juntas. Ela chegou depois de mim e disse que mamãe lhe gritava de longe que tomasse conta de mim.

À meia-noite entramos no campo de concentração. Caminhamos muito até chegar a um banheiro. Entramos. Dentro, estava cheio de alemães e alemãs que tiraram de nós tudo o que tínhamos ainda. Em seguida, precisamos ficar nuas e entrar num outro lugar. Havia somente mulheres ali. Cortaram os nossos cabelos. Sentia muito por meu cabelo, mas, quando pensava em meus pais, não sentia nenhuma outra dor. Tomamos um banho com água quente. Levaram-nos, molhadas ainda, para um lugar seco, onde recebemos vestidos. Era algo terrível, mas ainda assim ríamos. Uma mulher de uns 30 anos recebeu um vestido infantil curto. Tentou devolver, mas não trocaram. Algumas só recebiam uma saia sem blusa, outras só blusas sem saias. Sentia frio, nua e molhada, parada em pé ali até que chegasse a minha vez. Ganhei um vestido preto longo. Disseram-me que tenho sorte. Puseram-nos novamente em fila diante do banheiro.

Estava escuro… Era uma da manhã. Pouco mais tarde, quando os olhos se acostumaram com a escuridão, percebi que havia homens ao nosso lado. Procurava por conhecidos e então vi papai e meu irmão, que me indagavam onde estava mamãe. No momento em que tenta-va responder, vieram uns alemães e me levaram dali. Não se enxergava nada em volta. Havia fogo, chamas, e dava a impressão de que cada vez mais nos aproximávamos do fogo. Tínhamos medo, mas não chorávamos. Havia entre nós quem chorasse e gritasse e esses eram levados para um outro lugar, sei lá para onde. Chegamos a uma construção de madeira que chamavam de “bloco”. Mil de nós fomos enfiados nesse “bloco”. Dentro também estava escuro e ouvia-se apenas uma voz rude que ordenava gritando:

– Sente-se onde estiver!

Senti um cimento úmido. Não me sentei, ajoelhei apenas. De madrugada nos mandaram sair. Mostraram como devíamos ficar paradas e leram as regras de como devíamos nos comportar. Levantar diariamente às três da madrugada, ir em fila até o banheiro, voltar em fila. Ficar em fila de cinco, que era chamada de Zeltappell.[4] Às cinco, viria um alemão que faria a contagem de quantos éramos. Às seis, seria distribuído um café e, quando ouvíssemos um sino, o Zeltappell estaria encerrado. Feita a revista, de volta ao pavilhão, em filas. Ao anoitecer, às seis da tarde, seria distribuí-do o jantar: 200 gramas de pão, sopa e uma colher de margarina.

Ficar em pé das três às seis era horrível. Quando percebíamos que não havia um alemão por perto, nos abraçávamos para não sentir tanto frio. Mal podíamos esperar por aquela água negra e quente – café aquilo não era. Uma tarde daquelas nem consegui morder o pão. Parecia um pedaço de tijolo. De fato, era feito de pó de madeira. No primeiro dia, não comi nada. Nem no segundo. Mas, depois, precisava. Eu tinha fome.

Num campo, éramos 30 mil – trinta blocos com mil pessoas cada. Campos iguais, um ao lado do outro – havia uns vinte e, mais longe, onde nem a vista chegava, havia mais. O campo tinha 1 quilômetro de comprimento. No final, havia uma guarita. O campo era cercado por arame eletrificado. Havia oito crematórios sempre acesos. Podiam-se ver as chamas.

4 DE JULHO_Ontem chegamos ao campo C. Como já não escrevo faz um mês, escreverei sobre o passado. No começo, eu passava fome e sofria muito. Nosso pavilhão era defeituoso. Quando chovia, ficávamos molhados como se estivéssemos fora, debaixo da chuva. As camas – se posso chamá-las assim – eram apenas estruturas de madeira, umas sobre as outras, três andares, com doze pessoas em cada estrutura. Frequentemente acontecia de desabarmos. Eu queria sempre ficar no andar mais alto; não havia pó e eu sentia que tinha um pouco mais de ar. Dormíamos como sardinhas em lata. Quando começava a nos doer o lado direito, sobre o qual estávamos deitadas, precisávamos deitar para o outro lado, juntas. Em casos como este é que caíamos. Aquelas sobre as quais desabávamos gritavam de dor, claro. No dia seguinte, a punição: não recebíamos comida alguma. E isso se repetia diariamente. Certo dia, Alice, minha prima, trouxe uma batata e um pedaço de repolho. Dividimos tudo em quatro pedaços e comemos como se fosse a refeição mais deliciosa.

6 DE JULHO_À tarde, depois da revista do pavilhão, apareceu um homem com uma faixa vermelha no braço. Ele era chamado de kapo. Era o inspetor da cozinha. Escolheram mulheres fortes para a cozinha. Minhas três primas foram escolhidas entre quarenta mulheres. Eu estava fora dali naquela tarde, porque fui ver a Kátia. Quando cheguei, me contaram; fiquei desesperada; não queria me separar delas.

As quarenta escolhidas tinham de ficar fora da fila.

Chovia forte. Eu tinha uma blusa fina de véu com saia preta. Devíamos ficar em pé. Não podíamos sequer erguer as mãos. Quando terminou a revista, queria me enxugar um pouco com as mãos e, assustada, vi que não havia mais blusa em mim: se desfez com a chuva. Como não podia ficar em pé ali, nua, apanhei o minúsculo cobertor que já tínhamos e fiquei parada assim.

Eu e minhas primas decidimos não comer nada naquele dia. Trocamos a comida por roupas e, com isso, arrumamos um vestido para mim.

Depois disso pensamos que eu poderia juntar-me a elas na fila. Na manhã seguinte, saímos para a revista. Havia muitas de nós com cobertores. Eu estava no fim da fila e, no momento em que ninguém viu, joguei o cobertor e fiquei junto de minhas primas. Consegui. Logo depois, vieram fazer a contagem.

– Havia quarenta aqui, que eu contei; agora deveria ter quarenta, mas tem 41!

A alemã berrava furiosa:

– Se aquela que não tinha sido escolhida não se apresentar, todas serão punidas.

Não me apresentei. Estava pronta para o pior.

A alemã furiosa começou a selecionar de novo. Chegou a nossa vez. Sem uma palavra, separou minhas primas e parou diante de mim. Todos me consideravam criança: era pequena e sem cabelos parecia ter uns 15 anos.

– Escolhi você ontem?

– Sim, senhora.

– Mas você é pequena ainda e não precisa cozinhar.

– Certo. Mas não sou pequena. Tenho três primas e gostaria de ficar com elas.

Era furiosa, mas comigo brincava. Chegou a gostar de mim. Deixou-me ficar e dispensou outras cinco.

Recebemos roupas. Deram-me um vestido bonito.

Não tinha mais medo. Sempre ficava agora à frente das demais.

2 DE AGOSTO_Passou-se quase um mês desde que estou na cozinha. Eu me acostumei ao fato de que tínhamos tanta comida quanto precisássemos. Mas isso não bastava. Tínhamos muitos conhecidos passando fome. Não podíamos ficar vendo-os inertes. Era muito perigoso roubar, ainda que de modo organizado. Coitado daquele que fosse apanhado por um alemão! Ainda assim, começamos. Uma vez que os nossos conhecidos não estavam em nosso campo, tínhamos deentregar tudo pela cerca eletrificada. Apenas eu tinha coragem. O primeiro alemão que visse atiraria imediatamente. Minha mão não podia tocar no arame eletrificado, porque isso também era a morte. Mas eu não temia, não tinha medo da morte. Encarava tudo com frieza. Era assim todos os dias.

Anteontem, Hajnal,[5] uma de minhas primas, trouxe de novo quase 1 quilo de margarina. Alice escondeu logo entre os repolhos, com a intenção de tirar de lá de noite, antes de voltarmos ao barracão. Então, uma das garotas pediu que Alice lhe desse um pouco de margarina, porque ela não tinha nada.

Alice lhe respondeu que prestasse atenção para que ninguém a percebesse enquanto retirava a margarina. Mas apareceu uma alemã e a viu.

– O que você está fazendo?

Alice, assustada, respondeu:

– Peguei um pouco de margarina.

– Como assim?

– Bem, somos quatro irmãs... como não estamos nos sentindo bem, juntamos as nossas porções...

Esbofeteou Alice.

– Mostre-me suas irmãs!

Eu não estava lá. Em meu lugar, uma de nossas amigas se apresentou.

– Ah! São vocês!? Ficarão de joelhos até a revista, que é às 13h30. Se até lá vocês não confessarem quem roubou a margarina, vou jogar as quatro no crematório!

Alice não disse que foi Hajnal. Nem as outras falaram. Enquanto elas estavam ali, de joelhos, retornei. Contaram-me o que havia acontecido. Corri direto para dizer à alemã que eu era a culpada. Por que quatro devem pagar, se eles ficariam satisfeitos com uma só? Eu não tinha medo da morte.

Bati à porta. Entrei. Dentro estava a alemã acompanhada de um alemão.

– Por que você veio? O que você quer?

Naquele instante, eu não conseguia responder. Chorava e, em meio às lágrimas, disse:

– Soltem minhas primas. Elas não são culpadas. Eu roubei a margarina.

Ela correu até mim e me esbofeteou.

– E então você confessa isso assim? De onde você pegou a margarina? E sabe como você vai pagar por isso?

– Sei! Perdão! Vi sobre a mesa e peguei. Não faço nunca mais.

– Agora vou mostrar o que você vai receber por causa disso. Você nunca mais vai ver a luz do sol. Isso eu garanto!

Tentei implorar clemência, mas ela nem queria ouvir.

O alemão perguntou:

– Quantos anos você tem?

Claro que eu disse um ano a menos.

– Dezesseis.

– Dezesseis anos e ainda não sabe que não pode fazer isso?

Olhou a alemã e sussurrou:

– Não seja tão rígida. Você está vendo que ela ainda é jovem.

A alemã, enfurecida:

– Por que você a defende? Irei até o chefe do campo. Ele dará um jeito nela.

E saiu. Enquanto isso, ele me conduziu para fora, até um monte de tijolos. Ordenou que me ajoelhasse e que segurasse um tijolo enorme sobre a cabe-ça. Apanhei o tijolo, mas logo precisei colocar de volta, porque não consegui erguê-lo.

O alemão olhava meu sofrimento. E disse:

– Olhe, se você não se esforçar, ela vai voltar. Sabe o que espera por você?

Levantei o tijolo, com um esforço enorme, mas não conseguia segurar. Caiu sobre a minha cabeça. Pensei que fosse desmaiar. Mas fui forte. Lágrimas caíam de meus olhos feito chuva, não porque eu estivesse arrependida, mas de dor mesmo. Fique ali, de joelhos, por duas horas. Apareceu o alemão e disse:

– Levante-se! Entre na cozinha e continue trabalhando!

Coloquei o tijolo no chão e tentei levantar. O lugar duro em que fiquei ajoelhada machucou tanto meus joelhos que caí. Ouvi novamente a voz do alemão. Quis levantar, mas não consegui. Fiquei sentada uns dez minutos. Depois voltei para a cozinha, onde desmaiei. Minhas primas choravam; puseram compressas frias em mim; me consolaram até eu melhorar.

1º DE SETEMBRO_Tive muitas dores na perna. Já era o segundo dia assim, sem conseguir trabalhar. Pensei que nunca mais seria capaz. Mas não podia fazer nada. Aqueles para quem eu levava coisas estavam famintos. E eu tinha comida à mão. Não suportava a impossibilidade de lhes levar.

* * *

5 DE ABRIL DE 1945_Não estamos nem vivos nem mortos. De 120, sobraram cinquenta. Estamos entre Bendorf e o campo de Bergen-Belsen. Estamos perto de Hamburgo, mas não há como viajar daqui para a frente. Os aviões nos sobrevoam o tempo todo; os homens nos consolam e dizem que a libertação está próxima. Mas não acreditamos. Já tenho dificuldade para falar. Pedimos ao alemão que não nos torture mais; não queremos viver mais, que nos mate. Ele também nos consola:

– Vocês e nós também, estamos todos passando fome. A libertação está próxima. Aguentem mais um pouco.

Estamos em (ilegível).Não sabemos se aguentaremos um dia mais sem comida. Faz seis dias que não comemos. Pedimos, chorando, que o alemão nos mate.

– Está bem, se a vontade de vocês é essa... Nem eu posso ficar vendo o sofrimento de vocês. À tarde, às 3 horas, posso atender ao pedido de vocês.

Agrupamo-nos em turmas de cinquenta. Aguardamos a morte por fuzilamento. São cinco horas em ponto. Os alemães estão prontos. Esperamos em pé o chefe do campo. Chegou às cinco e meia, com o rosto contente:

– Crianças, vocês estão salvas.

À noite chegarão dois caminhões de pão. Os alemães estão todos alegres e todos estão com fome. Retornamos ao vagão. Passou da meia-noite e nada de pão. Gememos em voz alta, mas as nossas vozes não podem ser ouvidas longe.

6 DE ABRIL_Todos os que não morreram estão dentro do vagão, e não estão bem conscientes. Eu também pareço embriagada; não enxergo; parece que tenho espuma na boca. Ao meio-dia chegaram os caminhões com pão. As alemãs mesmo estão cortando e distribuindo. Cada um de nós recebe meio pão com margarina. Trouxeram pão da Suécia. Novamente temos um pouco de forças. Comemos pouco, porque guardamos também para as outras mulheres. De noite, viajamos para mais longe.

Chove. Saímos do vagão. Chegamos às 6 horas. O campo não é longe da estação, mas ainda assim nos molhamos todas até chegarmos. Levaram os doentes (ilegível), nós fomos para o pavilhão. Estava quente, havia aquecimento. Ganhamos comida. Alice e Hajnal foram trabalhar na cozinha e, assim, tínhamos um pouco mais. Recebi remédio para a minha perna.

25 DE ABRIL_Depois da revista pela qual passamos, duas vezes, não retornamos ao bloco. Fomos para a estação. Não nos aguardavam vagões, mas um trem elétrico que nos levou em grupos de sessenta. Retornavam a cada hora. Pela primeira vez me senti semelhante a um ser humano. Dentro do trem, pudemos sentar em assentos forrados. Às cinco, chegamos a Hamburgo. O campo também é próximo à estação. Ali recebemos cada uma um prato de sopa de beterraba. Comemos tudo. No pavilhão, novamente, somos muitas numa cama. Tive sorte: éramos em oito.

HAMBURGO, 28 DE ABRIL_Chove muito há dois dias. Temos uma alemã que nos bate muito; temos medo. Ouvimos secretamente que estão perto de Hamburgo e que, em breve, sairemos daqui também. Pensamos de novo em vagões e fome.

29 DE ABRIL_Uma alemã chegou ao pavilhão e nos expulsou. Ainda chovia. Saímos do campo em filas. Vemos um soldado alemão diante dos portões com uma cruz vermelha. Estamos diante de vagões. Vagões solitários fechados. Palha dentro do vagão. Diante dos vagões, a Wehrmacht e os SS.[6] Não sabíamos o que aquilo poderia significar. Coisas boas não poderíamos suspeitar. Eu queria comer e minhas primas estavam com medo. Gizika dizia o tempo todo:

– Crianças, economizemos o pão, porque não sabemos durante quanto tempo não teremos mais.

PADBORG,[7] 10 DE MAIO_Atravessamos a fronteira alemã. Estamos na Dinamarca. O alemão saltou do trem e gritou:

– Hitler morreu! O trabalho está concluído.

Enfermeiras dinamarquesas, com uniformes brancos da Cruz Vermelha, vêm nos retirar dos vagões. Oferecem doces. Atiram-nos flores e nos levam de ônibus, cinquenta de cada vez. Chegamos a uma propriedade rural. Discursaram para nós. Que não nos aborreçamos por ter de dormir, esta noite, sobre palha. Que levemos em conta que estamos sujas. Ganhamos excelentes cobertores ingleses. Como já estava escuro, não ganhamos comida. Deitamo-nos.

2 DE MAIO[8]_Um trem nos esperava na estação. Viajamos de segunda classe. Assentos de couro, grande limpeza. Dentro, enfermeiras da Cruz Vermelha distribuíram um pacote para cada um. No pacote, dois pedaços de pão branco com manteiga e queijo; dois pedaços de pão escuro com ovos e presunto, com um copo de cacau e um tablete de chocolate.

Os dinamarqueses foram à estação. Enfeitaram o trem com flores. Atiravam dentro do trem balas, chocolate, doces, e o que cada um possuía.

Durante o caminho, eles nos gritam:

– Hurra! (Viva!)

Já estamos viajando há muito tempo. Ao nosso lado, passam vagões com alemães. A enfermeira nos conta que eles estão voltando da Suécia.

COPENHAGUE, 5 DE JUNHO_Chegamos às oito da manhã em Copenhague. O trem parou diante do porto. Já nos aguardava um navio enorme de três andares. Quando saímos do trem, cada pessoa recebeu um litro de iogurte, que bebemos imediatamente, e doces. Depois, para o refeitório. No navio, entravam cinquenta por vez. Sentamo-nos em quatro a cada mesa. Vieram garçons com o cardápio.

– O que desejam?

Não conseguíamos ter palavras. A enfermeira percebeu isso e fez o pedido por nós.

Café com leite quente, flocos de aveia, pão com manteiga e depois bolo.

O mar é lindo. Verde-escuro, transparente. As gaivotas esvoaçam e eu observo tudo, como num sonho. Liberdade maravilhosa. Não há mais cerca elétrica, ninguém nos vigia, comida quanto desejássemos.

Fico imóvel no convés do navio, vejo como as gaivotas brincam, como o mar balança em ondas. Sinto uma alegria até o fundo de minha alma, e as lágrimas escorrem feito chuva. Como minha querida mãe ficaria contente se estivesse comigo. Papai talvez esteja em casa com meu irmão, mas e mamãe? É possível que nunca mais a veja. Sinto a liberdade maravilhosa e sinto saudades de meus pais. Minhas primas me consolam.

Às oito da noite chegamos ao porto sueco de Malmö. Quando o navio aportou, começaram a estourar fogos de artifício festivos. Os habitantes de Malmö estavam quase todos ali. De repente, um profundo silêncio. O ministro do rei veio fazer um discurso em sueco e em alemão. Depois entoaram o hino, outro foguetório, e nos aplaudiram com muita alegria.

– Hurra! Viva! Viva!

Isso durou quase meia hora.

Nós que estávamos no navio derramávamos lágrimas de felicidade. Nos recebem assim, a nós, que há oito dias ainda estávamos sendo espancados, cuspidos, como os mais selvagens dos selvagens – não podia ser verdade. Chorávamos, tínhamos todos o mesmo sentimento. Os suecos perceberam e alguns choravam conosco. Consolavam-nos, não entendíamos o que diziam, mas sentíamos que eles nos consolavam.

Depois vieram cônsules de vários países e cantaram seus hinos conosco. Primeiro, o holandês, porque havia mais deles. A seguir, os tchecoslovacos, os húngaros, e, depois, nós, os iugoslavos. Ainda havia um cônsul do rei iugoslavo, e cantamos Боже правде,[9] nós que não tínhamos nada a ver com política.[10]

Descemos do navio em seguida. Um ônibus nos aguardava. Diante dele, nos deram chocolate quente, bolos, e então tivemos de subir.

A cidade de Malmö é muito bem iluminada, parece o interior de uma casa. Andamos bastante tempo até que o ônibus parou diante de um prédio. Descemos. Era uma casa de banhos.

Primeiro tomamos um banho. Desinfetaram-nos da cabeça aos pés. Em seguida, numa outra sala, um médico nos esperava. Aquelas que estavam doentes foram imediatamente encaminhadas ao hospital. Limparam a ferida na minha perna e nos deram roupas novas. Prontas, limpas, voltamos ao ônibus.

Não andamos muito. Descemos do ônibus, dois a dois, como bons estudantes. Ficamos olhando ao redor como se nunca na vida tivéssemos visto algo bonito. No 1º andar, apenas vinte de nós num quarto. Limpeza absoluta. Flores nas janelas. Camas brancas. Ficamos imóveis em pé. Olhamos uns para os outros; todos têm a mesma expressão. Um médico está parado ali adiante e uma de nós o inquire:

– Senhor, por favor, diga quantas de nós deveremos deitar numa cama?

Pergunta risível, mas ele não sorriu. Sabia o quanto havíamos sofrido até então. Em voz baixa, e em alemão corrente, respondeu:

– Queridas crianças. Vocês estão na Suécia, em que cada ser humano tem amor igual um pelo outro. Não temos arames à nossa volta, vocês estão livres. Vocês irão se alimentar e descansar, o quanto desejarem. Esse será o vosso quarto. Há vinte camas e vocês são vinte também. Entrem e durmam bem!

FOME

No começo a gente não conseguia comer o pão, porque parecia feito de serragem. Depois, quando já sentíamos muita fome, chegávamos a esconder o pão embaixo do travesseiro, para ninguém roubar. Nós éramos quatro e a Gisie dividia o pão em quatro partes, para comermos uma porção e deixarmos as outras duas para mais tarde, porque só tinha pão uma vez por dia. A Gisie era a mais velha, ela era como a chefe de nós quatro: Alice, Hajnal, Gisie e eu.

Parece que a necessidade de comer, para quem passa fome, é mais forte do que a própria necessidade de viver. Havia muito poucos casos de suicídio nos campos de concentração, um gesto que não seria tão difícil. Era só atirar-se contra o arame eletrificado. Mas quase ninguém fazia isso; havia o próximo pão.

Viver, assim, reduz-se praticamente a comer; ou melhor, comer é mais do que viver. Depois de terminada a guerra, quando Liwia estava indo para a Suécia, levada pela Cruz Vermelha, todos lhe ofereciam comida. Chocolates, pão, guloseimas, todos jogavam comida para dentro do trem, felizes de poder alimentar aqueles que tinham passado fome. Mesmo no campo, o assunto principal era a comida, e muitos, provavelmente, sobreviveram para lembrar da comida, para conversar sobre a comida, além de simplesmente para comer. Não se comia para viver; vivia-se para comer.

Saber se relacionar com a comida, dividindo-a em várias partes, guardando-a, barganhando com ela, fazendo do pão uma moeda cara, garantia de mais um dia, para então consagrar-se à próxima busca de pão. Essa manutenção ínfima do corpo e de algum resto de astúcia permitia aos prisioneiros, à noite, durante o trabalho ou em algum momento de conversa, falar sobre outras comidas, mais sofisticadas, gesticular sobre elas e fazer de conta que elas existiam. Parece que os sonhos também eram preenchidos com comida. O corpo e a alma – Que alma? O que é a alma de um prisioneiro faminto, de qualquer pessoa faminta? A fome faz pensar que a alma é simplesmente uma invenção do corpo, para aqueles que estão abastecidos e não precisam pensar em comida – de uma pessoa com fome são uma demanda permanente por comida. Como se os humanos se tornassem parasitas, vermes enlouquecidos, girando desnecessariamente num vácuo, desesperados atrás de migalhas, não para viver, mas simplesmente para comê-las. Comer para comer.

Esse processo de animalização reforçava a ideia que os nazistas tinham de que osprisioneiros eram mesmo como animais e isso os fazia sentir ainda mais ódio, como se a animalização justificasse a perseguição. Não seria muito mais digno se matar? Por que se humilhar tanto para conseguir um pedaço de pão duro e velho? As pessoas roubavam pão umas das outras, tiravam pão de cadáveres – por quê?

Muitos israelenses condenam os judeus dos campos de concentração por não terem resistido mais e melhor; por te-rem se submetido tão brandamente, animalescamente, por uma ração de sopa, por um pedaço de pão. Há uma inversão e uma perversão nessas ideias. Ninguém que não esteja passando ou tenha passado fome tem a mais remota noção do que ela seja e dos efeitos que ela provoca no comportamento humano, por mais ética que a pessoa seja. Ninguém sabe se a vida ou, mais absurdamente ainda, os valores de alguém são mais importantes do que comer, quando não se tem comida. Da parte dos nazistas, sua tática consistia em transformar os efeitos da carência de tudo – a fome, a sede, o frio, a sujeira – em causa; como se tudo estivesse acontecendo porque os judeus fossem originalmente como animais, e não o contrário. Essa é a formação básica do processo de alienação: trocar os efeitos pelas causas.

Nas páginas do diário de Liwia, como nas de vários outros sobreviventes, fala-se muito de comida. Um nabo, uma fatia de maçã, cascas de batata, metade de uma ração de sopa congelada e infectada, um resto de manteiga, tudo é motivo para viver mais um dia, e a vida, nessas condições, é um dia. Ela conta das batatas podres que comeu, dando muita risada. Comíamos batatas podres como se fosse ouro! Nunca comi nada tão gostoso. Sabe, quando a gente tem fome, tudo parece bom!

Talvez fosse por isso que ela transformava várias comidas, durante a nossa infância, em brincadeira. Tinha as salsichas cortadas em pedacinhos e montadas sobre bolinhas de pão preto, espetadas com um palito de dente: eram os soldadinhos. Tinha o frango cozido no centro do prato, cercado de arroz e o molho esbranquiçado nas bordas: era a ilha. Os bolinhos de massa de batata recheados de geleia e, com os restos da massa, umas tirinhas, que eram as cobrinhas. Os ovos com espinafre; a sopa de pêssego e claras de neve; o sorvete de café no canudinho. O goulash, o cholent, que ela ficava preparando durante toda a noite, acordando duas vezes para mexer na panela. Carne, ovos, batata e feijão branco, tudo misturado. Comida de quem não tem o que comer e, misturando tudo, inventa um prato que acaba sendo incorporado à culinária. O bife de contrafilé, passado só na manteiga, sem bater e frito na chapa. Os jantares de sexta-feira, quando vinham a avó e seu irmão, o tio Artur. Jantares caprichados, com entrada, prato principal e sobremesa. Ela nunca foi muito esmerada na cozinha, nem nunca soube fazer muitos pratos, mas dominava perfeitamente aqueles que fazia. E os bolos de Yom Kippur: rocambole de chocolate, com o chocolate respingando quente; rocambole de nozes. Macarrão com geleia no forno. Ela parece ter mais prazer em ver os outros comerem do que em comer propriamente. Come muito pouco e nunca gostou de restaurantes. Sempre quer dividir as porções e não se conforma com os pratos individuais.

Toda a estratégia nazista de liquidação, de extermínio radical, além do assassinato direto, consistia em produzir fome. A fome é a pior privação, a mais bestial de todas, e era ela que sustentava todo o processo paranoico e de extermínio da identidade humana e cultural dos prisioneiros. Não se tratava somente da dificuldade material e logística de enviar todos para as câmaras de gás; era uma etapa necessária do trabalho de diluição do homem no homem. Os campos de concentração são a fome; mais do que tudo é ela a determinante de todos os outros acontecimentos, belos ou horríveis.

PALAVRA

Mãe, se você precisar se lembrar de alguma palavra que diziam no campo, qual seria? Achtunge Zeltappell. Só me lembro dessas duas. Mas você não se lembra de mais nenhuma palavra? Não, não me lembro, não. Só isso que você quer saber?

A filha fica irritada. Como é possível ela não se lembrar de mais nenhuma palavra, se passou onze meses no campo? Nem palavras dos oficiais, nem dos outros prisioneiros, nem as que ela mesma deve ter pensado? Por que não se lembra de palavras, se não existe nada mais importante do que elas? E ela ainda pergunta se é só isso que a filha quer saber. Como se fosse pouco.

Liwia tem vergonha de que o diário que ela escreveu na Suécia seja publicado, porque acha que não tem estilo literário nenhum e sabe que o texto da filha vai ser carregado de estilo. Não há como comparar, a mãe pensa. Como aquele diário tão simples, tão sem palavras, poderá aparecer junto com as impressões da filha, que se preocupa tanto com a forma como as coisas são ditas? Ela não entende que é justamente isso o que a filha procura. Tem vergonha, eventualmente, das palavras de que se lembra. Não são palavras à altura dos pensamentos complexos da filha.

Como será para ela ter uma filha que se ocupa de palavras? Será que isso a faz se sentir mais envergonhada, orgulhosa, medrosa ou será que foram justamente as palavras e as não palavras dela que fizeram a filha escolhê-las para viver? Afinal, a filha está tentando dizer o que ela não quis, não pode dizer. A filha sabe e a mãe autoriza que essas palavras sejam ditas agora, da maneira que a filha quiser. Como ela poderá escolher as palavras das quais a mãe não se lembra? A filha fantasia: se tivesse estado lá, se lembraria de tantas coisas. Outra licença indevida, como tantas que acontecem nesse sequestro e apropriação das palavras da mãe. É preciso roubar um pouco da vida do pai, da mãe, para conseguir sustentar sua sobrevivência. Ter estado onde eles estiveram, em seu lugar, é uma fantasia ridícula, mas inevitável. É um capricho, uma veleidade, mas é também uma redenção. O desejo de salvar um pouco o sofrimento já vivido.

Achtung significa atenção. Zeltap-pell significa chamada. Atenção, ao menos em português, é um chamado para que alguém seja mais cuidadoso, olhe mais em redor, fique mais concentrado, mas também é o cuidado que se tem para com alguém, um olhar mais demorado, alguma forma de carinho. Mas em alemão, não. Achtung, em alemão e nessas condições, quer dizer: é proibido! Não faça isso! Uma falsa advertência. Um disfarce, como se dizendo: se você fizer isso, será punido. Mas que diferença isso faz, se, mesmo não fazendo aquilo, o prisioneiro também será punido? Para que prestar atenção? Para que advertir? Como é difícil entender a lógica do medo que se instala na linguagem, o porquê da linguagem recrudescer um medo que está além e aquém dela. Como se ela fosse um anteparo: se o soldado não disser Achtung, quem sabe o prisioneiro não poderá se sentir mais tranquilo? Mas, se ele disser, é melhor se precaver.

A filha não entende nada. Como ela reagiria diante de umAchtung que, na verdade, não quer dizer nada? A filha não aguenta palavras que não querem dizer nada. Fica escarafunchandoo significado de cada placa de trânsito; apoia-se na etimologia de cada coisa para entendê-la melhor, esmiuçá-la até transformá-la em alguma possibili-dade de poesia.

O Zeltappell era a chamada que os nazistas faziam várias vezes por dia, com o pretexto de verificar se todos os números batiam, se os prisioneiros da manhã eram os mesmos da noite, se ninguém havia sumido, fugido, adoecido, dormido, morrido.

Atenção e chamada foram as duas únicas palavras que sobraram na memória dela, de onze meses de terror. Como se o campo tivesse sido uma sala de aula. Atenção para a chamada.

Se a filha precisasse se lembrar de algumas palavras que simbolizam sua mãe, diria “que que fala quê?” – que é o que ela diz quando quer se lembrar de algum assunto que esqueceu. É sua maneira de dizer: “O que eu queria falar?” “Premiera”, que é o seu jeito de dizer “primeira”. “Volan”, que é “volante”. “Que tem novidade?”, no lugar de “Tem alguma novidade?”. No news, good news. “Não tem importância” e “Que que tem?”. Ela transforma várias palavras e perguntas do dia a dia em música. Se alguém diz que quer comer, ela canta: “Comer, comer, é o melhor para poder crescer!” Até hoje ela não aprendeu a falar o xingamento “Vai tomar banho”. Diz assim: “Vai tomando banho.” Sempre que alguém a fechava no trânsito, era isso o que ela dizia, enquanto ainda dirigia: “Vai tomando banho.” É o pior xingamento que ela consegue dirigir a alguém.

Nos últimos anos, ela tem, cada vez mais, ficado em silêncio. Nas reuniões familiares, o que ela mais faz é ficar olhando; um pouco para o vazio, um pouco para as pessoas. Às vezes ela solta um: “Tudo isso saiu de mim!”

No casamento da neta, era inevitável vê-la embaixo da chupá[11]e pensar: ela saiu da guerra e agora está ali, vendo a neta se casar no Brasil. Onde a história foi parar? Como os caminhos foram percorridos? Qual será a sensação de ter estado lá e agora estar aqui? Qual é o percurso estabelecido pela memória que passa por essas duas coisas? A impressão que dá, quando ela queda silenciosa, é que algo assim deve estar passando, mesmo que em silêncio, por sua cabeça. Olhos queveem, mais do que palavras que possam dizer este pequeno absurdo que é essa mudança de destino. Como é possível uma só vida encerrar duas possibilidades tão distintas? Que palavras poderiam dizer isso? Achtung e Zeltappell? Onde foram parar estas palavras, agora? Em que boca elas estão, por quem elas estão sendo ditas, que palavras podemos dizer nós, que palavras ela pode lembrar, tanto quanto aquelas que ela esqueceu?

Quais são as palavras que ela esqueceu?

Um dia, ao telefone, ela, que gosta de ficar imaginando situações, perguntou à filha: “Filha, o que os cegos estão sonhando?” De início, a filha não entendeu. Parecia tratar-se de cegos específicos em uma situação específica e que aqueles cegos estariam sonhando alguma coisa naquele instante. Ela acrescentou: “Sim! O que eles estão sonhando, se não enxergam? Como podem ver imagens nossonhos?” Então a filha entendeu e se lembrou de que a mãe confunde os usos do presente simples e do presente contínuo. “O que os cegos estão sonhando?”, na verdade, é “O que os cegos sonham?”. Mas, de uma forma inesperada e subitamente bela, aquela frase, em sua suspensão do tempo, em seu deslocamento gramatical e semântico e em seu significado autônomo, como que independente de qualquer lógica narrativa, sintetiza exa-tamente o estar no mundo da mãe. Como se ela estivesse fincada no presente contínuo, num eterno vir a ser, maravilhada com as possibilidades do mundo e da natureza. Houve a guerra, houve o exílio, o sofrimento, tudo. Mas esse passado, que houve e que não é negado, mas esquecido, se mistura, em sua memória, a uma disposição perene para o presente, sem o domínio perfeito da gramática, mas como uma apropriação deslocada, em que a percepção das coisas importa mais do que as coisas mesmo.







[1]Senta, cidade na província sérvia chamada Vojvodina (pronuncia-se “vóivodina”), às margens do rio Tisa.

[2]Szeged, a terceira maior cidade da Hungria, ao sul do país, próxima à fronteira com a Sérvia.

[3]Baja (pronuncia-se “báia”) é um vilarejo na Hungria, a 150 quilômetros ao sul de Budapeste. Fica ao norte da fronteira entre Hungria, Croácia e Sérvia.

[4]Revista de pavilhão.

[5]Hajnal (pronuncia-se “cainal”) é um nome húngaro.

[6]Nome das Forças Armadas da Alemanha nazista, entre 1935 e 1945. As Waffen-ss eram o braço do esquadrão de proteção do Partido Nazista, que reunia as polícias secreta e política.

[7]Pequena cidade da Dinamarca, na fronteira com a Alemanha.

[8]A data correta seria 2 de junho.

[9]Pronuncia-se “boje pravde” – são as primeiras palavras dos versos do hino nacional da Sérvia: Ó, Deus da justiça.

[10]Alusão ao fato de que o regime monárquico da dinastia dos Karad-jord-jevićfoi derrubado por Tito, que proclamou a República e instaurou um regime socialista unipartidário, com o fim da Segunda Guerra Mundial.

[11]Espécie de tenda sob a qual se realiza o casamento judaico.

sábado, 22 de setembro de 2012

Contestado também teve fornos de extermínio

Gazeta do Povo, 22/09/2012

 
Foi com grimpa de araucária e nó-de-pinho que o fogo dos crematórios da Guerra do Contestado esteve aceso a todo vapor. A partir das extremidades de um buraco feito no chão de terra era erguido um muro de taipa e de pedra de mais ou menos um metro que funcionava como forno para queimar corpos humanos. Ali eram jogadas não apenas as maiores vítimas da batalha que completa 100 anos em 2012, os caboclos, mas também os militares que morreram na chamada Guerra Santa (1912-1916). Esses fornos logicamente não chegaram a queimar em igual quantidade aos usados pelo Holocausto, mas tinham também a missão de mascarar a matança e evitar a putrefação dos corpos nos campos da região.

Quem descobriu esses cre­matórios foi o geógrafo e professor da Universidade Estadual de Londrina Nilson César Fraga, em 2000, durante uma expedição exploratória, com seus alunos, na região dos antigos enfrentamentos entre a população cabocla e as forças militares do poder estadual e federal brasileiro, travados em áreas disputadas pelos estados do Paraná e de Santa Catarina. “Não sabíamos dessas coisas tão violentas naquele território”, afirma.

Os crematórios, pelo menos 12, ainda existem nas terras do Contestado, segundo o geógrafo, e estão em propriedades privadas sem a devida conservação e manutenção. É impossível quantificar os cremados nesses fornos, até porque o número de mortes na batalha não é algo pacificado entre pesquisadores: dizem que foram de 10 a 20 mil, mas o número poderia chegar a 30 mil. Fraga explica que a maior parte dos crematórios se encontra na cidade de Lebon Régis (SC), numa localidade chamada Perdizinha, para onde a população cabocla avançava nos meses finais do conflito. Mas há outros também perto de Porto União (SC) e União da Vitória (PR).

Centenário

No dia 22 de outubro deste ano se recorda o centenário do início da guerra do Contestado: foi nessa data que o coronel João Gualberto e o monge José Maria foram mortos na Batalha de Irani. O início da guerra, porém, assim como vários fatores que envolvem o conflito, não são questões bem definidas. O historiador Everton Carlos Crema, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Paraná (Fafi), explica que já havia conflitos de terra na região antes de 1912. Há ainda outros historiadores que definem o início da guerra apenas com a formação do ajuntamento dos devotos do monge, em Taquaruçu, em 1913.

Turmeiros

É justamente no clima de 100 anos da guerra que diversos historiadores têm se debruçado sobre o assunto para desvendar questões pontuais. Por causa dos relatórios deixados pelo coronel Setembrino de Carvalho, nomeado pelo governo federal, acreditava-se que quem havia construído a estrada de ferro na região seria bandido e que esses “bandidos”, como descreve Setembrino, eram responsáveis por encabeçar o movimento dos caboclos.

“Colocava-se ainda que esses turmeiros teriam vindo do centro do Brasil. Na minha pesquisa de doutorado, pude perceber que não era bem isso”, afirma Márcia Janete Espig, autora do livro Personagens do Contestado: os turmeiros da estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande. Márcia conseguiu documentos que comprovam que quase todos os turmeiros (quase 10 mil) deixaram a região antes mesmo de a guerra começar, conforme terminavam os trabalhos.

Quem perdeu foi o PR, não os donos de terra

O Paraná saiu perdedor na Guerra do Contestado porque teve de abrir mão de uma grande área de terras para Santa Catarina (todo o oeste catarinense). O acordo da delimitação territorial foi assinado no fim do conflito, em 1916, a pedido do presidente Venceslau Brás. A nova delimitação dividiu ao meio alguns territórios, dando origem a cidades diferentes, como União da Vitória (PR) x Porto União (SC) e Rio Negro (PR) x Mafra (SC).

Entretanto, apesar de o Paraná ter sido derrotado no acordo, os fazendeiros paranaenses não perderam nenhum pedaço de terra. No acordo do limite, uma cláusula dizia que, mesmo nos territórios que estivessem sob nova jurisdição (a catarinense), se houvesse dúvidas sobre a propriedade da terra, valeria o título que estivesse em cartório paranaense, explica o historiador Paulo Pinheiro Machado, autor de livros sobre a guerra, entre eles Lideranças do Contestado: a formação das chefias caboclas.

Já os caboclos foram certamente os mais prejudicados, porque, além de terem perdido a guerra física (no final estavam esgotados e morrendo de fome por causa do cerco feito pela Guarda Nacional), foram escorraçados de suas terras e tiveram ou de ir para regiões mais distantes (montanhas e lugares de terras inférteis) ou voltaram para as fazendas, mas sob a condição de peões. Poucos conseguiram voltar para seus próprios sítios.

Lei

Vale lembrar que o Brasil tinha uma lei de terras de 1850, mas ela beneficiava o acesso à propriedade apenas por compra, herança ou doação, o que quer dizer que os incentivos que existiam no Brasil (de que quem cultivasse a terra seria o proprietário dela) não valiam no papel, porque os caboclos, por exemplo, tomaram posse das terras do Contestado e as cultivaram, mas não conseguiram ter a titularidade das propriedades.

“É óbvio que as terras tinham donos. Eram dos caboclos, dos grupos miscigenados que viviam na região. Mas como eles teriam condições de pagar um agrimensor para fazer a legitimização da terra? Além disso, eram os coronéis da região que determinavam quem seria o pároco, o delegado e o cartorário. Ou seja, o cartorário não iria beneficiar os caboclos”, explica o historiador Everton Crema.



Guerra do Contestado

A Guerra do Contestado foi um conflito armado entre camponeses e militares dos poderes estadual e federal brasileiro, que ocorreu no início do século XX, mais precisamente no ano de 1912 se estendendo até 1916. Essa guerra ocorreu no Sul do Brasil, numa disputa entre os estados do Paraná e Santa Catarina, que tinha como objetivo a posse da região rica em erva-mate e madeira.

A guerra recebeu esse nome devido ao fato de ter ocorrido em uma região de disputas de limites entre dois estados brasileiros. Tudo começou quando estava sendo construída uma estrada de ferro entre São Paulo e Rio Grande do Sul, por uma empresa norte-americana (Southern Brazil Lumber & Colonization Company), com o auxílio dos coronéis, que na época eram os grandes proprietários rurais e tinham força política, e também com o apoio do governo.

Mas a construção dessa estrada de ferro acabou prejudicando os camponeses, fazendo com que eles perdessem suas terras e ainda fossem expulsos das mesmas, devido também a compra de uma grande área da região por um grupo de pessoas ligadas à construtora, com o objetivo de montar uma grande empresa madeireira para a exportação de madeira brasileira para outros países.

Esses fatos acabaram resultando muito desemprego entre os camponeses da região que ficaram sem terras para trabalhar, assim causando grande revolta por parte deles. A situação ficou ainda pior com o fim da construção da estrada de ferro, pois os trabalhadores que foram trazidos de diversas partes do Brasil para trabalhar nela ficaram sem emprego com o fim da obra. E ainda a empresa norte-americana não ofereceu qualquer apoio a eles nem mesmo o próprio governo.

Nessa época, sem esperança e com sede de justiça, os camponeses deixavam se levar por líderes religiosos que pregavam a chegada de um messias para ajudar na causa de um povo oprimido. Foi assim que diante dessa crise o beato José Maria que pregava a criação de um novo mundo, regido pelas leis de Deus, um lugar onde haveria paz, justiça, prosperidade e terras para trabalhar, conseguiu reunir milhares de seguidores, entre eles em sua maioria os camponeses que perderam suas terras.

Assim preocupados com a liderança de José Maria os coronéis da região e o governo resolveram agir enviando policiais e soldados do exército para o local para acabar com o movimento. Assim houve sangrentas batalhas entre os militares e os camponeses que armados com espingardas de caça, facões e enxadas resistiram, enfrentando as forças oficiais, que se encontravam bem armadas.

Mas o conflito de nada adiantou, pois como os camponeses não estavam preparados para enfrentar a guerra e acabaram morrendo milhares de revoltosos, enquanto as baixas do lado das tropas foram bem menores.

Mesmo assim a guerra durou por quase quatro anos, chegando ao fim em 1916, quando as tropas oficiais conseguiram prender Adeodato, um dos chefes do último reduto dos camponeses, sendo condenado a 30 anos de prisão.

Esse conflito mostrou como o governo tratava as questões sociais no início da República, levando em conta os interesses financeiros de grandes empresas e proprietários rurais, enquanto a população mais pobre sofria com essas injustiças, sem dar espaço para negociações.
 
 
 
 
Potiguara e seu Estado-Maior
 
Treinamento do Exército em Três Barras
 
 
Aviões empregados pela primeira vez pelo Exército
 



Causas

O professor Paulo Pinheiro Machado explica resumidamente quais foram os fatores principais que culminaram na Guerra do Contestado:

Terras

A disputa pela terra é certamente a causa principal da guerra, em decorrência da tentativa de expropriação de posseiros e ervateiros caboclos, que aconteceu em três processos diferentes. No primeiro deles, houve a gradativa concentração fundiária promovida por pecuaristas, que transformavam em agregados os posseiros e sitiantes que viviam independentes, nos limites das fazendas. Posteriormente houve a concessão de até 15 km de cada lado do leito da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande para a empresa norte-americana Brazil Railway Company. E também a grilagem de coronéis da Guarda Nacional do Paraná sobre os territórios contestados por Santa Catarina.

Coronelismo

Há uma forte crise política nos anos 1911 a 1918, com a quebra de laços clientelísticos, principalmente nos municípios de Curitibanos (SC) e Canoinhas (SC). 

Militarização

Muitas autoridades municipais mantinham grupos de vaqueanos armados disponíveis para a ação nas regiões contestadas.

Campanha federalista

A herança política e militar da Guerra Federalista (1893-95), de recrutar agricultores e peões para os dois lados da contenda, trouxe à população do planalto uma tradição de luta e o conhecimento de práticas de combate.

Religiosidade

A trajetória do monge ou dos diferentes indivíduos que assumiram a identidade de João Maria criou um espaço de autonomia e organização da população sertaneja, independente do Estado e do Clero.

Consequências

Consolidou-se a concentração fundiária, reforçaram-se os poderes dos coronéis, diminuíram a autonomia e a independência de pequenos posseiros e sitiantes.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

[SGM] Memorandos mostram que EUA encobriram crime Soviético

Randy Herschaft e Vanessa Gera | Associated Press – 10/09/2012


Varsóvia, Polônia (AP) – Prisioneiros de guerra americanos enviaram mensagens secretas codificadas para Washington com relatos de uma atrocidade soviética: em 1943, eles viram colunas de corpos em estado avançado de decomposição na floresta de Katyn, na fronteira ocidental da Rússia, prova de que os assassinos não poderiam ter sido os nazistas, já que eles haviam ocupado a área recentemente.

O testemunho do infame massacre de oficiais poloneses poderia ter diminuído o destino trágico que caiu sobre a Polônia sob o domínio soviético, acreditam alguns estudiosos. Ao invés disso, ele misteriosamente desapareceu no coração do poder americano. A suspeita é que o presidente Franklin Delano Roosevelt não queria enfurecer Josef Stalin, um aliado que os americanos contavam para derrotar a Alemanha e o Japão durante a Segunda Guerra Mundial.


Documentos liberados na segunda-feira e vistos antecipadamente pela Associated Press deram peso à crença de que altos níveis do governo americano ajudaram a acobertar a culpa soviética no assassinato de cerca de 22.000 oficiais poloneses e outros prisioneiros na floresta de Katyn e outros locais em 1940.


A evidência está entre as 1.000 páginas de novos documentos desclassificados que os Arquivos Nacionais dos Estados Unidos liberados e disponibilizados na internet. O deputado republicano de Ohio, Marcy Kaptur, que ajudou a liderar um movimento recente para liberação dos documentos, chamou o sucesso do esforço de segunda-feira de uma “ocasião ímpar” na tentativa de “fazer história completa”.


Historiadores que viram o material alguns dias antes da liberação oficial descreveram-no como importante e compartilharam alguns detalhes com a AP. A revelação mais dramática até aqui é a evidência de códigos secretos enviados por dois prisioneiros de guerra americanos – algo que os historiadores eram ignorantes e que acrescenta evidência de que a administração Roosevelt sabia da atrocidade soviética relativamente cedo.


Os documentos desclassificados também mostram que os Estados Unidos mantendo essa informação em segredo não poderiam conclusivamente determinar a culpa até a admissão russa em 1990 – uma afirmação que parece improvável dado o enorme corpo de evidência da culpa soviética que já havia sido descoberta décadas antes. Os historiadores dizem que o novo material ajuda a esclarecer o que os EUA sabiam e a época.


A polícia secreta soviética matou os 22.000 poloneses com tiros na nuca. Seu objetivo era eliminar uma elite militar e intelectual que poderia se opor ao controle soviético. Os homens estavam entre os mais influentes da Polônia – oficiais e reservistas que em suas vidas civis trabalhavam como médicos, advogados, professores ou outros profissionais. Sua perda provou ser uma ferida profunda na nação polonesa.


Nos primeiros anos seguintes à guerra, o ultraje de alguns funcionários americanos diante do encobrimento inspirou a criação de um comitê especial no Congresso americano para investigar Katyn.


Em um relatório final liberado em 1952, o comitê declarou que não havia dúvidas da culpa soviética e denominou o massacre como “um dos mais bárbaros crimes internacionais na história mundial.” Ele afirmou que a administração Roosevelt suprimiu o crime do conhecimento público, mas disse que isto estava além da necessidade militar. Ele também recomendou que o governo conduzisse acusações contra os soviéticos em um tribunal internacional – algo nunca colocado em prática.


Apesar das conclusões firmes, a Casa Branca manteve seu silêncio sobre Katyn durante décadas, mostrando uma má vontade em focar num assunto que teria sido acrescentado às tensões políticas com os soviéticos durante a Guerra Fria.


Foi em maio de 1943 na floresta de Katyn, uma parte da Rússia que os alemães tomaram dos soviéticos em 1941. Um grupo de prisioneiros americanos e britânicos foram levados à força por seus captores alemães para testemunhar uma cena horrível em uma clareira cercada por pinheiros: covas coletivas abarrotadas com milhares de corpos parcialmente mumificados em uniformes elegantes de oficiais poloneses.


Os americanos – capitão Donald B. Stewart e o Tenente-Coronel John H. Van Vliet Jr. – odiavam os nazistas e não queriam acreditar nos alemães. Eles tinham visto a crueldade alemã de perto, e, além disso, os soviéticos eram seus aliados. Os alemães esperavam usar os prisioneiros para propaganda e romper a aliança entre a União Soviética e seus aliados ocidentais.


Mas, ao retornar aos seus campos, os americanos convenceram-se de que eles presenciaram prova contundente da culpa soviética. O estado avançado de decomposição dos corpos lhes mostrou que os assassinatos aconteceram na etapa inicial da guerra, quando os soviéticos ainda controlavam a área. Eles também viram cartas, diários, placas de identificação, recortes de jornal e outros objetos – nenhum datado mais tarde do que a primavera de 1940 – retirados das covas. A evidência que mais os convenceu era o bom estado das botas e das roupas: isto lhes disse que os homens não viveram muito tempo após terem sido capturados.


Stewart testemunhou diante do comitê parlamentar de 1951 sobre o que ele viu, e Van Vliet escreveu relatórios sobre Katyn em 1945 e 1950, o primeiro dos quais desapareceu misteriosamente. Mas os novos documentos desclassificados mostram que ambos enviaram mensagens codificadas enquanto ainda estavam em cativeiro para a inteligência do Exército com sua própria opinião sobre a culpa soviética. É uma revelação importante porque mostra que a administração Roosevelt estava conseguindo informação desde o começo de fontes confiáveis americanas da culpa soviética – mesmo assim as ignorou para manter a aliança com Stalin. 


Um documento mostra que o chefe da Inteligência do Exército, o General Clayton Bissell, confirmando que alguns meses após a visita de 1943 a Katyn por oficiais americanos, um pedido codificado pelo MIS-X, uma unidade de inteligência militar, foi enviado para Van Vliet pedindo-lhe “para confirmar sua opinião sobre Katyn.” A nota de Bissell disse que “é também entendido que o Coronel Van Vliet e o Capitão Stewart responderam.”


O MIS-X era responsável na ajuda para a fuga dos prisioneiros de guerra atrás das linhas alemãs; ele também usava prisioneiros para coletar inteligência.


Uma declaração de Stewart datada de 1950 confirma que ele recebeu e enviou mensagens codificadas para Washington durante a Guerra, incluindo uma sobre Katyn: “O conteúdo do meu relatório foi aprx (aproximadamente): as afirmações alemãs sobre Katyn substancialmente corretas na opinião de Van Vliet e minha própria.”


Os novos documentos tornados públicos também mostram que Stewart recebeu ordens em 1950 – logo antes do comitê congressional começar seu trabalho – de nunca falar a respeito da mensagem secreta de Katyn.

 

Krystyna Piorkowska, autora do livro recentemente publicado “Testemunhas Anglo-Saxãs de Katyn: Pesquisa Recente,” descobriu os documentos relacionados às mensagens codificadas mais de uma semana atrás. Ela foi um dos muitos pesquisadores que viram o material muito antes da liberação pública.


Ela já tinha determinado em sua pesquisa que Van Vliet e Stewart eram “usuários codificados” que coletavam mensagens sobre todos os assuntos. Mas esta é a primeira descoberta deles falando sobre Katyn, ela disse.


Um outro especialista em Katyn ciente dos documentos, Allen Paul, autor de “Katyn: O Massacre de Stalin e o Triunfo da Verdade,” disse à AP que a descoberta é “potencialmente explosiva.” Ele disse que o material não aparece no registro das audiências parlamentares em 1951-52, e parece ter sido suprimido.


Ele argumenta que a cobertura dos EUA atrasou uma compreensão completa nos Estados Unidos da verdadeira natureza do Stalinismo – uma compreensão que veio somente depois, após os soviéticos explodirem uma bomba atômica em 1949 e após a Polônia e o resto da Europa Oriental estarem sob a Cortina de Ferro.

 

“Os poloneses sabiam muito antes de a guerra terminar quais eram as reais intenções de Stalin,” disse Paul. “A recusa do Ocidente em escutá-los sobre Katyn foi uma catástrofe que tornou seu destino pior.”


O registro histórico apresenta outra evidência que Roosevelt sabia em 1943 da culpa soviética. Uma das mensagens mais importantes que caíram na escrivaninha de FDR foi um relatório extenso e detalhado que o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill o enviou. Escrito pelo embaixador britânico para o governo-em-exílio polonês em Londres, Owen O´Malley, ele aponta a culpa soviética em Katyn.


“Temos agora disponível uma porção de evidência negativa,” escreveu O´Malley, “de que há sérias dúvidas sobre as afirmações russas da responsabilidade pelo massacre.”


Não foi somente após o fim da hegemonia soviética sobre a Europa Oriental que o líder reformista Mikhail Gorbachev admitiu publicamente a culpa soviética em Katyn, um passo-chave na reconciliação russo-polonesa.


O silêncio do governo americano tem sido uma fonte de profunda frustração para muitos americanos de origem polonesa. Um deles é Franciszek Herzog, 81 anos, um homem de Connecticut cujo pai e tio morreram no massacre. Após a admissão de Gorbachev em 1990, ele esperava por maior franqueza dos EUA r fez três tentativas de obter uma desculpa pública do então presidente George H.W. Bush.


“Isto não ressuscitará os homens,” ele escreveu a Bush. “Mas dará satisfação moral às viúvas e órfãos das vítimas.”


Uma resposta que ele obteve em 1992 do Departamento de Estado não o satisfez. Sua correspondência com o governo está também entre os documentos liberados recentemente e foi obtida mais cedo pela AP da Biblioteca presidencial George Bush.


A carta, datada de 12 de agosto de 1992, e assinada por Thomas Gerth, então vice-diretor do Escritório de Assuntos Europeus Orientais, mostra o governo admitindo que não possuía evidência irrefutável até a admissão de Gorbachev:


“O governo americano nunca aceitou a afirmação soviética de que não era responsável pelo massacre. Entretanto, na época das audiências congressionais em 1951-1952, os EUA não possuíam os fatos que pudessem claramente refutar as alegações soviéticas que estes crimes foram cometidos pelo Terceiro Reich. Estes fatos, como o senhor sabe, não foram revelados até 1990, quando os russos oficialmente se desculparam à Polônia.”


Herzog expressou frustração na resposta.


“Há uma enorme diferença entre não saber e não querer saber,” Herzog disse. “Acredito que o governo americano não quis saber porque era inconveniente para ele.” 


Página dos Arquivos Nacionais sobre o tema:


http://www.archives.gov/research/foreign-policy/katyn-massacre/


Fonte:




Novos Documentos mostram: Roosevelt conspirou com Stalin
 
Santiago Alvarez, 20/09/2012


Por que os EUA foram coniventes com a União Soviética em acobertar o massacre? Durante a guerra, tudo estava relacionado com a necessidade de manter uma frente unida contra a Alemanha e o Japão. Mas depois, durante a Guerra Fria, por que os EUA ainda acompanhavam o "Império do Mal"?

Bem, a resposta não é fácil. A Rússia era um regime totalitário desde os anos 1920. Portanto, na época em que o partido nacional socialista de Hitler foi estabelecido na Alemanha, os soviéticos já haviam matado centenas de milhares. Eles mataram milhões quando Hitler chegou ao poder em 1933.

Como a administração Roosevelt reagiu a isto quando ela chegou ao poder em 1933? Eles restabeleceram relações diplomáticas com a Rússia Soviética e subseqüentemente mantiveram uma relação muito cordial, aprobativa com o regime de Stalin. Mesmo assim, a relação com a Alemanha deteriorou rapidamente naqueles anos devido à hostilidade amarga de Roosevelt em relação ao regime de Hitler.

Quando a guerra eclodiu entre a Polônia de um lado e a Alemanha e União Soviética do outro (em setembro de 1939), os soviéticos tinham matado dezenas de milhões, e a administração americana conhecia esta catástrofe humana. Na época, cerca de mil indivíduos haviam sido mortos pelo regime de Hitler (durante o chamado Putsch Röhm em 1934 e o pogrom antijudeu de novembro de 1938). Adivinhem qual relação diplomática deteriorou após setembro de 1939? Somente aquela entre EUA e Alemanha, e não aquela entre EUA e Rússia Soviética. 

Então, por que a administração Roosevelt se uniu ao "Império do Mal", com o país mais criminoso do mundo? E por que todas as administrações americanas subseqüentes até hoje tentaram encobrir aspectos deste fato?

O poder corrompe. E gente corrupta tomando más decisões com repercussões catastróficas sempre tentam encontrar caminhos para justificar suas ações e esconder seus enganos. Os EUA dependem do mito da Segunda Guerra ter sido uma luta entre "bem" e "mal", onde os EUA levaram liberdade e democracia para o mundo - exceto para Katyn e para os zilhões de outros lugares de extermínio em massa, escravidão e opressão comunista (e Aliado). portanto, a auto-percepção dos EUA de si próprios é baseada em uma mentira profunda. É a mesma mentira que leva os EUA para a guerra uma após a outra: Somos os bonzinhos, e todos que se opõe a nós merecem ser bombardeados até o inferno.

A notícia da cobertura de Roosevelt do crime soviético tem ainda outra repercussão: aparentemente, os EUA possuíam uma rede de operações de estações de transmissão de rádio na Europa ocupada pelos alemães que podia ser usada pelos americanos. Espiões e soldados mantidos em cativeiro alemão enviavam mensagens secretas. Será interessante encontrar transmissões de rádio que informavam sobre as atrocidades ALEMÃS, por exemplo aquelas relacionadas ao Holocausto. Tanto quanto este autor sabe, nenhuma mensagem de rádio foi liberada até agora. É difícil conceber como a administração americana não teria sido informada sobre o "crime do século" enquanto ele ainda estava ocorrendo. Talvez Roosevelt tenha acobertado este crime também porque Hitler era seu aliado secreto...


Novas fotos coloridas descobertas do interior da casa de Hitler

Erich Pfeiffer, Yahoo News – 27/01/2012


Várias fotografias jamais vistas foram divulgadas pelo fotógrafo pessoal de Adolf Hitler, dando uma noção do apartamento de Hitler em Berlim e da propriedade bávara.

O Mirror relata que o fotógrafo Hugo Jäger foi um dos poucos fotógrafos trabalhando com fotografia colorida na época e foi-lhe concedido acesso aos aposentos sociais e de estudo de Hitler, mostrando objetos de arte e mobília estimadas em milhões mesmo em dólares pré-ajustados. As imagens foram feitas dois anos antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Os aposentos de Hitler em seu apartamento em Berlim, sobre a “Nova Chancelaria” reflete seu gosto barroco, freqüentemente sentimental. Por outro lado, o interior da propriedade Berghof, o lar dito ser o mais próximo do seu coração, refletia sua concepção de como o “estilo alemão” deveria ser.

Corre o boato que Jäger tirou umas 2.000 fotos de Hitler e de seus bens. Entretanto, em 1945, acredita-se que Jäger as escondeu em uma mala. Como a revista Life relatou:

Em 1945, quando os Aliados estavam fazendo seu último avanço em direção de Munique, Jäger topou com seis soldados americanos em uma pequena cidade a oeste da capital bávara. Durante uma busca na casa onde Jäger estava vivendo, os americanos encontraram uma mala de couro na qual Jäger havia escondido milhares de negativos de fotos coloridas. Ele sabia que seria preso (ou pior) se os americanos descobrissem seu filme e sua conexão íntima com Hitler. Ele não sabia o que poderia acontecer em seguida.

Jäger então enterrou algumas das fotografias em doze jarras de vidro nos arredores de Munique, recuperando-as em 1955.

http://news.yahoo.com/blogs/sideshow/newly-discovered-color-photos-inside-hitler-private-home-163857939.html