quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Revendo as Conseqüências da “Boa Guerra”: A Verdade Emergindo em um Oceano de Mito

Dwight D. Murphey

 
After the Reich: The Brutal History of the Allied Occupation

Giles MacDonogh

Basic Books, 2007
 



 
Aqueles que narram honestamente os acontecimentos humanos, atuais e passados, são pessoas raras e honradas. Deveríamos certamente honrá-los no panteão de nossos deuses terrestres. Ao fazermos isso, incluiremos, indubitavelmente, aqueles que, sem qualquer espécie de preconceito contra o Ocidente ou os EUA ou seu povo, mas apenas pelo desejo da verdade, são levados a lançar uma luz sobre os eventos que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial (assim como as atrocidades que foram cometidas como resultado do modo pelo qual a guerra foi travada contra as populações civis, apesar deste não o objetivo do texto). A guerra tem sido conhecida pelos americanos como “a boa guerra” e aqueles que a lutaram como “a grande geração”. Mas agora, gradualmente, somos atingidos pelas realidades tão comuns a uma existência humana complexa: houve muito que não foi bom e, junto com o auto-sacrifício e as melhores intenções, houve muita coisa venenosa e brutal. Estas realidades estão sendo reveladas porque há alguns acadêmicos, pelo menos, que são conscientes que um oceano de propaganda de guerra ainda espalha um mito que se prolonga por muitas décadas e que têm um comprometimento com a verdade que sobrepuja a persuasão para se conformar com o mito.

Este artigo começa com uma simples resenha do livro de Giles MacDonogh, que está identificado acima.  Seu livro é largamente do tipo demolidor de mito que eu aprecio. Entretanto, pelo fato de haver material valioso adicional que sou contrário deixar não mencionado, expandi-o para incluir outras informações e autores, deixando-o mesmo assim como uma resenha de After de Reich (“Após o Reich”, em tradução livre).

O livro de MacDonogh é desconcertante, tanto corajoso quanto covarde, a maior parte (mas não inteiramente) digna de altos elogios que devemos fazer a estudiosos incorruptíveis. Como mencionamos, o público americano tem pensado no esforço aliado na Segunda Guerra mundial como uma “grande cruzada” que contrapôs bondade e decência contra a maldade nazista. Mesmo após todos estes anos, a última coisa que o público deseja aprender são os vastos e inexplicáveis erros que foram cometidos pelos Aliados Ocidentais e União Soviética durante a guerra e suas conseqüências. Cabe a MacDonogh bater na face de nossa relutância para contar “a história brutal” em grande estilo.

Esta disposição é recomendável por sua bravura intelectual. Em face disso, é intrigante que, mesmo que ele faça isso, ele coloca um brilho a mais na história, na verdade continuando em parte um encobrimento de proporções históricas, o qual foi fixado pelo excesso de propaganda de guerra por quase dois terços de século. O grande valor deste livro não pode, assim, ser encontrado em sua integridade ou sinceridade explícita, mas, ao invés disso, agindo como uma ponte – apesar de sua grande extensão – que pode iniciar os leitores conscientes a seguir um estudo adicional de um assunto extremamente importante. 

Para este artigo, será valioso começar resumindo a história que MacDonogh relata (e acrescentar alguma coisa a ela). É somente após fazer isso que discutiremos o que McDonogh obscurece. Tudo isto levará, então, a reflexões conclusivas.

Em seu Prefácio, MacDonogh diz que seu objetivo é “expor os aliados vitoriosos em seu tratamento do inimigo em tempo de paz, na maioria dos casos não foram os criminosos que foram estuprados, levados à fome, torturados ou surrados, mas mulheres, crianças e pessoas idosas.” Apesar disto sugerir que a tônica do livro será de ultraje, a narrativa é mais informativa do que polêmica. As fontes de pesquisa de MacDonogh incluem muitos livros de história alemã e francesa e biografias (assim como quatro livros sobre vinhos).

As expulsões (hoje chamadas “limpeza étnica”). Ao final da guerra, MacDonogh nos diz, “tanto quanto 16.5 milhões de alemães foram expulsos de seus lares.” 9,3 milhões foram expulsos da porção oriental da Alemanha, que foi entregue à Polônia. (Tanto as fronteiras ocidental quanto a oriental da Polônia foram drasticamente afetadas por acordo dos Aliados, com a Polônia tomando uma parte importante da Alemanha e a União Soviética tomando a Polônia Oriental.) Os outros 7,2 milhões foram forçados a deixar seus lares centenários na Europa Central, onde eles haviam vivido por gerações.

Esta expulsão em massa foi estabelecida no Acordo de Postdam em meados de 1945, apesar do acordo tornar explícito que a limpeza étnica aconteceria “na maneira mais humana possível.” Churchill estava entre aqueles que apoiaram-na como necessária “para uma paz duradoura.”        

De fato, o processo foi tão desumano que tornou-se uma das maiores atrocidades da história. MacDonogh relata que “cerca de dois milhões e um quarto morreriam durante as expulsões.” Esta é uma das estimativas mais baixas, que variam entre 2,1 a 6 milhões, se levarmos somente os expulsos em conta. Konrad Adenauer, um grande amigo do Ocidente, sentiu-se capaz de afirmar que entre os expulsos “seis milhões de alemães estão mortos, desapareceram.” Veremos no relato de MacDonogh a fome e a exposição a frio extremo às quais a população da Alemanha foi submetida, e é importante mencionar neste ponto (apesar de ir além das expulsões) que o historiador James Bacque que “a comparação dos censos mostram-nos que cerca de 5,7 milhões de pessoas desapareceram no interior da Alemanha entre outubro de 1946 (um ano e meio após a guerra ter encerrado) e setembro de 1950...”
 
 

O que MacDonogh chama “a maior tragédia maritime de todos os tempos” ocorreu quando o navio Wilhelm Gustloff, transportando alemães de Danzig em janeiro de 1945, foi afundado com “cerca de 9.000 pessoas, ... muitos deles crianças.” Em meados de 1946, “fotografias mostram que cerca de 586.000 alemães boêmios colocados em caminhões como sardinhas.” Em outro ponto, McDonogh nos diz como “os refugiados eram freqüentemente transportados de forma tão apertada que eles não podiam mover-se para defecar e saíam dos veículos cobertos de excremento. Muitos estavam mortos na chegada.” (Isto lembra as cenas descritas tão vividamente no Volume I do livro “O Arquipelago Gulag” de Solzhenitsyn). Na Silésia, “correntes de civis foram forçados para fora de seus lares sob a mira de fuzis.” Um padre estimou que um quarto da população alemã de uma cidade da Baixa Silésia suicidou-se, já que famílias inteiras cometeram suicídio juntas.

A condição da população alemã – fome e frio extremo. Os alemães se referem a 1947 como Hungerjahr, o “ano da fome”, mas MacDonogh diz que “mesmo no inverno de 1948 a situação não havia sido remediada.” As pessoas se alimentavam de cães, gatos, sapos, caracóis, urtiga, bolotas (fruto do carvalho), raiz de erva e cogumelos num esforço desesperado para sobreviver. Em 1946, as calorias fornecidas na zona americana da Alemanha caíram para 1.313 em março das 1.550 fornecidas anteriormente. Victor Gollancz, um escritor britânico judeu, afirmou “estamos matando os alemães de fome.” Isto é semelhante à afirmação feita pelo senador Homer Capehart de Indiana em um discurso no Senado americano de 5 de fevereiro de 1946: “Por nove meses esta administração está conduzindo uma política deliberada de fome em massa...” MacDonogh nos diz que a Cruz Vermelha, os Quakers, Menonitas e outros queriam levar comida, mas “no inverno de 1945 as doações eram retornadas com a recomendação de que elas seriam usadas em outras partes afetadas pela guerra na Europa.” Na zona americana de Berlim, “era política americana que nada fosse dado ou jogado fora. Logo, aquelas mulheres alemãs que trabalhavam para os americanos eram fantasticamente bem alimentadas, mas não poderiam levar nada para suas famílias ou crianças.” Bacque diz “as agências estrangeiras de alívio foram prevenidas de enviar alimentos de fora; os trens de alimentos da Cruz Vermelha eram enviados de volta à Suíça; todos os governos estrangeiros eram proibidos de enviar comida aos civis alemães; a produção de fertilizantes foi drasticamente reduzida... a frota de pesca foi mantida nos portos enquanto as pessoas morriam de fome.”
 
 
 

Sob a ocupação russa da Prússia Oriental, MacDonogh vê “semelhanças gritantes” à “fome deliberada dos kulaks ucranianos no início dos anos 1930” promovida por Stalin. Como na Ucrânia, “casos de canibalismo foram relatados, com pessoas se alimentando de carne de suas crianças mortas.”

O sofrimento do frio extreme misturado à fome criaram miséria e uma alta taxa de mortandade. Apesar do inverno de 1945-46 ser normal, “a falta terrível de carvão e alimento foi sensivelmente sentida.” Invernos anormalmente frios aconteceram em 1946-47 (“possivelmente o mais frio na memória”) e 1948-49. Somente em Berlim, acredita-se que 60.000 pessoas morreram nos primeiros dez meses após o fim da guerra, e “o inverno seguinte matou mais 12.000.” As pessoas viviam em buracos entre as ruínas, e “alguns alemães – particularmente os refugiados do leste – estavam virtualmente nus. 

No seu livro Gruesome Harvest: The Allies’ Postwar War Against The German People (“A Resposta Terrível: A guerra do pós-guerra dos Aliados contra o povo alemão”, em tradução livre), Ralph Franklin Keeling cita o relato de um “pastor alemão famoso”: “Milhares de corpos estão pendurados nas árvores das florestas ao redor de Berlim e ninguém se importa em retirá-los de lá. Milhares de corpos estão sendo levados para o mar pelos rios Oder e Elba – ninguém mais se importa. Milhares e milhares estão morrendo de fome nas rodovias... as crianças vagam pelas estradas sozinhas...”

No seu livro The German Expellees: Victims in War and Peace (“Os expulsos alemães: vítimas na Guerra e na paz”, em tradução livre), Alfred-Maurice de Zayas disse como o Marechal Tito da Iugoslávia usou campos como centros de extermínio para matar de fome alemães.

Estupros em massa – para o qual alguém deve acrescentar o “sexo voluntário” obtido com mulheres passando fome. A onde de estupros pelas forças invasoras russas é, certamente, infame. Na zona russa da Áustria, “o estupro era parte da vida diária ente 1947 e muitas mulheres foram infectadas com doenças venéreas e não tinham meios de tratá-las.” MacDonogh nos diz que “estimativas conservadoras colocam o número de mulheres estupradas em Berlim em 20.000.” Quando os britânicos chegaram a Berlim, “oficiais lembram do choque de ver os lagos no oeste próspero cheios de corpos mulheres que cometeram suicídio após terem sido estupradas.” A idade das vítimas faz pouca diferença, variando dos 12 aos 75 anos. Enfermeiras e freiras estavam entre as vítimas (algumas cerca de cinqüenta vezes). “Os russos eram particularmente cruéis com os ricos, colocando fogo nas mansões e estuprando ou matando seus moradores.” Apesar “da maioria das crianças russas serem abortadas,” diz MacDonogh “é estimado que entre 150.000 e 200.000 bebês russos sobreviveram.” Os russos estupravam onde quer que fossem, de modo que não foram só as mulheres alemãs que foram estupradas, mas também mulheres da Hungria, Bulgária, Ucrânia e Iugoslávia, mesmo este último país sendo aliado soviético.
 
 
 

Havia uma política oficial contra o estupro, mas era tão comumente ignorada que “foi somente em 1949 que soldados russos foram ameaçados realmente.” Até então, “eles eram estimulados por (Ilya) Ehrenburg e outros propagandistas soviéticos que viam o estupro como uma expressão de ódio.”

Embora houvesse “incidência difundida de estupro por soldados americanos,” havia uma polícia militar de segurança contra ele, com “um número de soldados americanos executados” por isso. As acusações criminais feitas por estupro “cresceram constantemente” durante os meses finais da guerra, mas caíram rapidamente depois. O que continuou depois foi decididamente quase tão ruim: a exploração sexual de mulheres passando fome que “voluntariamente” vendiam serviços sexuais por comida. Em Gruesome Harvest, Keeling cita um artigo no Christian Century de 5 de dezembro de 1945: “O chefe de segurança americano... disse que o estupro não representa problema para a polícia militar porque ‘um pouco de comida, uma barra de chocolate ou um sabonete parece tornar o estupro desnecessário.” A extensão disto é mostrada pelo número que MacDonogh fornece de um “estimado 94.000 Besatzungskinder ou ‘crianças da ocupação’ (que) nasceram na zona americana.” Ele diz que em 1945-6 “muitas meninas caíram na prostituição para sobreviver. Meninos, também, prestavam serviços a soldados aliados.”

Keeling, escrevendo para a publicação de 1947 de seu livro (que explica seu uso do verbo no presente), disse que havia “um aumento nas doenças venéreas que atingiu proporções epidêmicas,” e continuou dizendo que “uma grande proporção de contaminação originou-se de soldados negros que estacionaram em grande número na Alemanha e entre eles a taxa de infecção venérea é muitas vezes maior do que entre as tropas brancas.” Em julho de 1946, ele diz, a taxa anual de infecção em soldados brancos era de 19%, enquanto que para as tropas negras 77,1%. Ele reiterou o ponto que estamos fazendo aqui quando ele apontou “a conexão íntima entre a taxa de doenças venéreas e disponibilidade comida.”

Se MacDonogh menciona o estupro por soldados britânicos, isso me escapou. Ele fala, entretanto, de estupro por poloneses, franceses, guerrilheiros de Tito e pessoas sem teto. Em Danzig, “os poloneses comportavam-se tão ruim quanto os russos... foram os poloneses que libertaram a cidade de Teschen no norte (da Tchecoslováquia) em 10 de maio. Por cinco dias eles estupraram, roubaram, queimaram e mataram.” Ele escreve do “comportamento de soldados franceses em Stuttgart, onde cerca de 3.000 mulheres e 8 homens foram estuprados,” diz “mais 500 mulheres (foram) estupradas em Vaihingen,” e relata “três dias de assassinatos, roubos, incêndios criminosos e estupro” em Freundenstadt. Das pessoas sem teto, ele diz que “havia cerca de dois milhões de prisioneiros de guerra (PdG) e trabalhadores forçados da Rússia que formaram gangues, roubaram e estupraram por toda Europa Central.”

Tratamento de PdG. Ao todo, havia aproximadamente 11 milhões de prisioneiros de guerra alemães. Um milhão e meio destes jamais retornaram para casa. MacDonogh expressa um ultraje apropriado aqui: “Para tratá-los com tal desleixo com um milhão e meio de mortos foi escandaloso.”

A Cruz Vermelha não tinha responsabilidade sobre aqueles mantidos pelos russos, já que a União Soviética não assinou a Convenção de Genebra. MacDonogh diz que os russos não faziam distinção entre civis alemães e PdG, apesar de sabermos que um relatório da KGB os classificavam para execução e outros objetivos. Ao final da guerra, eles mantinham aproximadamente 4 ou 5 milhões dentro da Rússia (e aqui, novamente, os arquivos da KGB são uma importante fonte de consulta, como o historiador James Bacque fez; eles mostram um número de 2.389.560). Grandes números foram mantidos em cativeiro por mais de dez anos, tendo sido enviados de volta à Alemanha somente após a visita de Konrad Adenauer a Moscou em 1956. Mesmo assim, em 1979 – 34 anos depois do fim da guerra! – “acreditava-se haver ainda 72.000 prisioneiros vivos sob custódia russa.” Cerca de 90.000 soldados alemães foram capturados em Stalingrado, mas somente 5.000 voltaram para casa.
 
 
 

Os americanos fizeram uma distinção entre os 4,2 milhões de soldados capturados durante a guerra, que estavam sujeitos a proteção e subsistência pelas convenções de Haia e Genebra, e os 3,4 milhões capturados no ocidente ao seu final. McDonogh diz que o último grupo foi classificado como “Inimigos Rendidos” (Surrendered Enemy Persons, SEP) ou como “Inimigos Desarmados” (Disarmed Enemy Persons, DEP) e não contavam com a proteção destas convenções. Ele não dá um número total que morreu sob a custódia americana, dizendo “não está claro quantos soldados alemães morreram por fome.” Ele fala, entretanto, de muitas situações: “Os campos de PdG americanos mais conhecidos eram chamados de Rheinwiesenlager.” Aqui, os americanos permitiram que “cerca de 40.000 soldados alemães morressem por inanição e negligência nos pântanos do Reno.” Ele diz “qualquer tentativa de alimentar os prisioneiros pela população civil alemã era punida com morte.” Apesar da Cruz Vermelha ser responsável pela inspeção, “o entorno com arame farpado para os SEPs e DEPs era impenetrável.”  Em outros lugares, "no Quartel dos Engenheiros em Worms ... havia 30.000-40.000 prisioneiros sentados no pátio, disputando espaço. Sem proteção contra a chuva, eles congelaram.” Os prisioneiros foram deixados passar fome em Langwasser, e em um “campo conhecido” em Zuffenhausen “por meses o almoço era sopa rala, com metade de uma batata na janta por dia.”

Seria um engano pensar que em um mundo com escassez de alimentos tornaram os EUA incapazes de alimentar seus prisioneiros. Bacque escreve que “o capitão Lee Berwick da 42ª. Divisão de Infantaria, que comandou as torres de vigilância no Campo Bretzenheim,… me contou, ‘alimentos foram empilhados em torno do muro do campo. Os prisioneiros viam de lá caixotes empilhados tão altos quanto bangalôs.’”

O que MacDonogh nos conta sobre o tratamento dos PdG alemães da Grã-Bretanha parece conflitante. Ela tinha 391.880 prisioneiros trabalhando na Grã-Bretanha em 1946, e um total de 600 campos lá em 1948. Ele diz “o regime não era tão duro, e em termos de porcentagem de mortos sob custódia britânica é visivelmente baixa comparado aos outros aliados.” Em todos os lugares, entretanto, ele fala como “os britânicos podiam burlar (as recomendações da Convenção de Genebra)... que eles fornecem 2.000 a 3.000 calorias por dia,” de modo que “pela maior parte do tempo os níveis caíram para baixo de 1.500 calorias.” Lá, “as condições para os 130.000 prisioneiros foram relatadas como sendo ‘não muito melhores do que Belsen’ (N. do T.: campo de concentração nazista Bergen-Belsen.)... Quando o campo foi inspecionado em abril de 1947, foram encontradas apenas quatro lâmpadas funcionando... não havia combustível, colchões de palha e nenhuma comida, exceto sopa rala.”    

Uma reportagem da Reuters em dezembro de 2005 acrescenta uma dimensão importante: “A Grã-Bretanha administrou uma prisão secreta na Alemanha por dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, onde os prisioneiros, incluindo membros do partido nazista, foram torturados e deixados passar fome, diz o jornal Guardian. Citando arquivos do Departamento Estrangeiro que foram abertos após um pedido com o Ato de Liberdade de Informação, o jornal diz que a Grã-Bretanha havia mantido homens e mulheres na prisão em Bad Nenndorf até julho de 1947... “Ameaças de execução de prisioneiros, ou prisão, tortura e assassinato de suas esposas e filhos foram considerados ‘meios apropriados’ já que tais ameaças jamais seriam levadas a cabo,” relata o jornal.

Os franceses queriam que trabalhadores alemães ajudassem a reconstruir o país, e para este objetivo, os britânicos e americanos transferiram cerca de um milhão de soldados alemães para eles. MacDonogh diz “seu tratamento foi particularmente brutal.” Não muito após a guerra, de acordo com a Cruz Vermelha, 200.000 dos prisioneiros estavam passando fome. Sabemos de um campo “no Sarthe (onde) os prisioneiros tinham que sobreviver com 900 calorias por dia.”

A destruição da economia alemã. Os líderes aliados discordavam entre si sobre o Plano Morgenthau de retirar a natureza industrial da Alemanha e transformá-la em um país agrícola. A oposição de alguns e a hesitação de outros não preveniram, entretanto, uma implantação real do plano. Na época que o confisco terminou, a Alemanha estava grandemente despojada de sua infra-estrutura produtiva.

MacDonogh diz que sob os russos “Berlim perdeu cerca de 85% de sua capacidade industrial.” Todas as máquinas foram levadas de Viena. Os navios foram tomados do Danúbio, e “uma prioridade soviética era a apreensão de todos os trabalhos importantes de arte encontrados na capital (Viena). Isto foi uma operação totalmente planejada.” Mas “pior do que a remoção em escala total da base industrial da terra era a abdução de homens e mulheres para desenvolver a indústria na União Soviética.”
 
 
 

Sob os americanos, o desmantelamento dos sítios industriais continuou até o General Lucius Clay interrompê-lo um ano após o fim da guerra. Até Clay agir, a Cláusula 6 da Ordem dos Chefes de Staff 1067 fundamentavam o Plano Morgenthau. MacDonogh diz que onde “a roubalheira oficial americana foi conduzida em uma escala maciça” foi “na apreensão de equipamento científico e seqüestro de cientistas”.

Os britânicos tomaram muito para si e repassaram outras propriedades industriais para “estados clientes” como Grécia e Iugoslávia. A família real britânica recebeu o iate de Göring, e a zona britânica da Alemanha foi destituída de “plantas (industriais) que mais tarde poderiam competir com as industrias britânicas.” MacDonogh diz “os britânicos... tinham seu próprio departamento de roubo organizado na (assim chamada) Força-T, que consistia em reunir toda inventividade industrial...”

De sua parte, os franceses garantiram “o direito de pilhagem.” “Os franceses... não escondiam a rapinagem no negócio do cloro em Rheinfelden, da celulose em Rottweil, as minas da Preussag AG ou os grupos químicos da Rhodia,” ... e muito mais.

Se o plano tivesse sido totalmente implantado em um longo período de tempo, os efeitos teriam sido calamitosos. Keeling, em Gruesome Harvest, diz que ao buscar “a destruição permanente do coração industrial da Alemanha” teria tido uma “conseqüência inevitável... a morte por fome e doenças de milhões e dezenas de milhões de alemães.”

A repatriação forçada de russos para Stalin. O livro de MacDonogh se limita à ocupação aliada, mas há, é claro, muitos outros aspectos da guerra que merecem menção, apesar de que aqui nos limitaremos a apenas um deles. É a repatriação aliada de russos capturados para a União Soviética. Em “A Traição Secreta” (The Secret Betrayal, em tradução livre), Nicolai Tolstoy nos diz como entre 1943 e 1947, um total de 2.272.000 russos foram devolvidos. Os russos capturaram mais 2.946.000 de partes da Europa tomadas pelo Exército vermelho. Aqueles enviados à Soviética pelas democracias ocidentais incluíam milhares de pessoas que eram emigrantes czaristas e nunca viveram sob o regime soviético. Tolstoy diz que apesar de muitos quererem retornar à Rússia (enquanto muitos outros desesperadamente não queriam, e foram mandados de volta esperneando e gritando), eles foram uniformemente brutalizados, executados, estuprados ou feitos escravos. Alguns dos repatriados eram russos que voluntariamente lutaram pela Alemanha contra a União Soviética e que foram liderados pelo General Vlasov. Alguns eram Cossacos, muitos deles sequer era, cidadãos soviéticos. As repatriações violentas começaram em agosto de 1945. Tolstoy reconta como o engano, porretes, baionetas e mesmo ameaças com tanques de lança-chamas foram empregados para forçar a remoção.

A Justiça dos vencedores. Quando a Guerra terminou, havia um consenso entre os líderes aliados de que os nazistas do alto escalão deveriam ser executados. Alguns queriam execução imediata, outros uma “corte marcial estrondosa”. Havia uma virtude curiosa na insistência pelos britânicos em seguir as “formas legais”, que é o que foi decidido. (N. do T.: este artigo foi escrito antes da descoberta dos diários do chefe do MI5 dizendo que Churchill e demais membros do governo queriam o fuzilamento ao invés de julgamento). O resultado foi uma série de julgamentos com a pompa dos procedimentos jurídicos normais, mas que eram na verdade uma enganação do ponto de vista da “regra da lei”, faltando tanto o espírito quanto as particularidades do “devido processo” . Em dois capítulos, MacDonogh dá um relato do julgamento principal de Nuremberg e da série de julgamentos que continuaram pelos anos subsequentes. Entre eles, os americanos conduziram muitos julgamentos em Nuremberg após o principal; milhares de casos foram trazidos diante das “cortes de denazificação”; as cortes alemãs, após voltarem à normalidade, continuaram o processo; e, é claro, sabemos do julgamento e execução de Eichmann em Israel.

Há muitas razões para chamá-la “justiça dos vencedores”. Para não ser verdade, um tribunal verdadeiramente internacional teria que ter sido convocado em algum lugardo mundo (se tal coisa pudesse ter sido possível após uma guerra mundial), e os crimes de guerra de ambos os lados julgados. Mas, é claro, sabemos que tal justiça imparcial não estava em estudo. No indiciamento de Nuremberg, os nazistas foram acusados de extermínio em massa de oficiais poloneses na floresta de Katyn, uma acusação que foi discretamente (e com grande desonestidade intelectual e “jurídica”) retirada no julgamento final porque tornou-se claro que a União Soviética era a responsável pelo crime. Outro dos muitos exemplos possíveis seriam as deportações em massa que os nazistas foram acusados tanto como crime de guerra quanto como crime contra a humanidade em Nuremberg. Em compensação, ninguém foi levado à justiça pela expulsão de milhões de alemães de seus lares ancestrais na Europa Central pelos aliados.

http://www.dwightmurphey-collectedwritings.info/A99-MacDonogh-BRArt.htm


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sábado, 10 de novembro de 2012

[SGM] Grã-Bretanha queria execução ao invés de Nuremberg para os líderes nazistas

The Guardian, 26/10/2012

 
O governo britânico se opôs ao estabelecimento dos tribunais de crimes de Guerra de Nuremberg no final da Segunda Guerra Mundial, pois ela queria que os líderes nazistas fossem sumariamente executados e os outros presos sem julgamento, de acordo com um relatório tornado público na sexta-feira.

Winston Churchill fez a proposta na Conferência dos “Três Grandes” em Yalta em fevereiro de 1945, de acordo com o relatório, mas foi derrotado por Franklin D. Roosevelt, que acreditava que o público americano exigiria um julgamento adequado, e Joseph Stalin, que argumentou que os julgamentos públicos têm enorme valor de propaganda.

Os britânicos concordaram com os julgamentos de crimes de guerra apesar da opinião contrária de alguns funcionários importantes do governo, que acreditavam que processar a liderança nazista sobrevivente por conduzir uma guerra de agressão poderia gerar um precedente perigoso. Eles também temiam que os julgamentos estariam no mesmo nível que os julgamentos-espetáculos na Rússia de Stalin.

O pensamento britânico na época que os líderes aliados estavam tentando alcançar um acordo dobre o formato político da Alemanha do pós-guerra está em um diário que Guy Liddell, chefe de contra-espionagem no MI5, manteve durante os anos 1940 e 50. Codificado como Wallflowers e supostamente mantido em segurança no escritório dos diretores-gerais do MI5, os volumes da guerra do diário foram desclassificados, e cópias redigidas dos volumes do pós-guerra estão disponíveis no Arquivo Nacional.

Liddell apoiou um plano esboçado pelo diretor de ações públicas, Sir Theobald Mathew, para a eliminação de nazistas selecionados, ao invés da colocação deles em julgamento, após uma comissão de inquérito “chegar à conclusão” que esta era a opção preferida.

Em 21 de junho de 1945, Liddell ditou uma entrada no diário ao seu secretário sobre uma visita ao seu escritório por um funcionário do Departamento de Crimes de Guerra Britânico, e representantes do MI6 e do Departamento de Operações Especiais, procurando por evidência para apoiar a ação contra crimes de guerra.

“Pessoalmente, acho que o procedimento completo é totalmente terrível. O DPP recomendou que um comitê da verdade deveria chegar à conclusão de que certas pessoas deveriam ser eliminadas e que outras deveriam receber vários termos de prisão, que isto deveria ser colocado no Parlamento e que a autoridade deveria ser dada a qualquer corpo militar para encontrar esses indivíduos em sua área para prisão e infligir-lhes qualquer punição que seja decidida. Esta era uma proposição muito clara e não levaria a lei a ser desacreditada.”

“Winston  colocou isso em Yalta, mas Roosevelt sentiu que os americanos queriam um julgamento. Joe apoiou Roosevelt dizendo francamente que os russos gostavam de julgamentos públicos para objetivos de propaganda. Parece para mim que fomos levados ao nível da paródia legal que aconteceu na URSS nos últimos 20 anos.”

Em julho de 1946, Liddell voou para Nuremberg com o vice-chefe do MI5, Oswald Harker, para assistir ao julgamento de 21 líderes nazistas, incluindo Herrmann Göring (“consideravelmente mais magro”) e Albert Speer (“provavelmente um dos mais hábeis no grupo”).

Lá, ele sentiu que sua apreensão de que os tribunais seriam um pouco melhores do que os julgamentos-espetáculos foi confirmada. “Ninguém pode fugir ao sentimento de que a maioria das coisas que os 21 são acusados de terem feito em um período de 14 anos, os russos as fizeram por 28 anos. Isto aumenta consideravelmente a atmosfera embusteira de todos os procedimentos e leva-me ao ponto que me preocupa muito, qual seja, que a corte é a dos vitoriosos, que estabeleceram suas regras, seus próprios procedimentos e suas próprias regras de evidência no sentido de lidar com os derrotados.”

Enquanto os tribunais de Nuremberg são agora vistos como um momento ímpar na justiça internacional, fornecendo a base na qual criminosos de guerra poderiam ser levados ao julgamento, Liddell pensava que não era inteligente processar os nazistas por terem conduzido uma guerra de agressão. “Ninguém tem idéia... de quão perigoso precedente está sendo criado,” ele disse.    

Os Réus

O tribunal de Nuremberg foi estabelecido em 1945. Dois anos depois, a URSS, a Grã-Bretanha e os EUA publicaram sua Declaração das Atrocidades Alemã na Europa Ocupada, que dizia que, quando os nazistas foram derrotados, os aliados os “perseguiriam até os confins da terra... para que a justiça possa ser feita.”

Vinte e quatro réus foram acusados em quatro acusações: crime contra a paz, planejamento e condução de guerras de agressão, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Eles não incluíam Adolf Hitler, Heinrich Himmler, chefe da SS, e Joseph Goebbels, chefe da propaganda, que suicidaram-se. Martin Bormann, o secretário do partido nazista, foi julgado em ausência – seus restos foram encontrados muitos anos depois em Berlim.

Robert Ley, chefe do movimento “Fortalecimento pela Alegria”, enforcou-se antes do julgamento iniciar. Hermann Göring, o sucessor de Hitler, matou-se com uma pílula de cianeto na noite anterior da execução.

Rudolf Hess, antigo vice de Hitler, que viajou à Inglaterra em 1941 para o que ele chamou um plano de paz, foi condenado à prisão perpétua. Ele suicidou-se na prisão de Spandau, Berlim, em 1987.

Albert Speer, o arquiteto de Hitler que foi responsável pela exploração em massa de trabalhadores estrangeiros, foi aprisionado por 20 anos. O homem que fornecia a mão-de-obra escrava, Fritz Sauckel, foi sentenciado à morte, junto com 12 outros.

O tribunal de Nuremberg deu seu nome à defesa do “estava apenas obedecendo ordens.” Ele também resultou em uma série de convenções internacionais sobre leis de guerra, genocídio, e direitos humanos, e o estabelecimento de uma corte internacional permanente em Haia.

http://www.guardian.co.uk/world/2012/oct/26/britain-execution-nuremberg-nazi-leaders

 
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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

[HOL] “Meus passeios pelos Campos de Extermínio não são desatino”

Daily Mail, 23/09/2010


O controvertido historiador David Irving rechaçou as declarações de que suas visitas turísticas aos campos de extermínio nazistas na Polônia ocupada pela Alemanha sejam “desatino”.

Afirmando que são as autoridades polonesas os “desatinados” por sua promoção de Auschwitz como um parque de diversões ao “estilo Disney”, o Sr. Irving defendeu sua viagem, a qual é totalmente reservada para turistas britânicos e americanos.

Os críticos rebateram a viagem que o Sr. Irving está organizando ao quartel-general de Hitler e ao conhecido campo de extermínio de Treblinka, referindo-se a ela como “Excursão Nazista”.

Entretanto, o historiador, que foi preso por negação do Holocausto na Áustria em 2006, disse que seus críticos claramente não leram seus livros sobre a Segunda Guerra Mundial.

“Se eles tivessem visto minha página na internet, ele saberiam que já visitei muitos dos campos de extermínio duas ou três vezes,” disse ele ao TravelMail.

“É inquestionável que os nazistas mataram milhões de pessoas nestes campos. Quando as pessoas me chamam de negador do Holocausto eu fico totalmente indignado.”




O controvertido historiador está sob fogo cerrado após detalhes tornarem-se público de um pacote turístico de uma semana de £1.500 que ele está tentando organizar ao conhecido campo de extermínio de Treblinka, administrado pela SS – apesar de ter sido preso anteriormente por negação do Holocausto por um tribunal austríaco.

Entretanto, o Sr. Irving defendeu sua visita ao “solo sagrado” de Treblinka, aproveitando para criticar as autoridades polonesas pela “máquina caça-níqueis” que é Auschwitz.

Acusando as autoridades de construir torres de vigilâncias falsas em Auschwitz e criar uma atmosfera “Disney” lá, ele disse que muitos dos campos de extermínio onde as piores atrocidades aconteceram foram esquecidos porque eles não são tão “comerciais” e “não possuem resorts no meio do caminho”.

“Sou historiador há 40 anos, conheço uma falsificação quando vejo, quando você olha para fotos antigas de Auschwitz, aquelas torres não estão nas imagens,” disse ele.

Na viagem, o Sr. Irving levará os turistas estrangeiros ao quartel-general de Hitler, conhecido como “A Toca do Lobo”, onde a expansão dos campos de extermínio foi planejada, e a base onde o chefe da SS, Heinrich Himmler, passava o tempo.

“Nós não estaremos somente indo ao lugar muitos foram mortos, mas ao lugar onde as ordens foram dadas,” disse ele.

No material promocional para a excursão, a viagem é vendida como uma “jornada inesquecível” para “fanáticos por história real”.

Ela inclui a exibição especial do filme “A Queda”, que retrata os dez dias finais da vida de Hitler, com a narração do Sr. Irving e uma palestra sobre Treblinka pelo historiador assim como um outro por um “especialista neutro”.

Afirmando que seus livros sobre Hitler têm vendido “muito bem” na Polônia – “uma ironia considerando que eles raramente chegam na vizinha Alemanha” – o historiador disse que havia uma “fascinação mórbida” pela Solução Final Nazista e que muitos estavam interessados em “pisar no mesmo chão que os monstros pisaram”.

A viagem foi tão popular que ele teve que recusar pedidos e está planejando repetir a excursão a cada dois anos.

Entretanto, veteranos de guerra poloneses criticaram o historiador controvertido por ter mesmo contemplado a excursão.

“Isso é doentio. Nosso povo sofreu muito sob os nazistas e este homem jamais deveria ser permitido entrar no país,” disse um.

“Mas ele negou que o Holocausto ocorreu. Ele deveria pegar sua Excursão Nazista e ir embora.”

O Sr. Irving escreveu vários livros sobre a Segunda Guerra Mundial, mas caiu em desgraça por questionar o envolvimento de Hitler no Holocausto e afirmar que os judeus se aproveitaram do genocídio para ganhar o Estado de Israel.

Ele foi preso na Áustria em 2006 por Negação do Holocausto devido a uma palestra que ele deu na Áustria em 1989 no qual ele disse que não houve câmaras de gás em Auschwitz.

Ele foi então levado à falência após perder uma ação judicial que ele iniciou na Grã-Bretanha após ser acusado de negar os campos de extermínio e manipular a história para apresentar Hitler sob uma perspectiva bondosa.

Entretanto, como não há mandato atual para sua prisão na União Européia, o historiador está liberado para viajar desimpedido.

Um porta-voz da embaixada polonesa disse que a viagem poderia ser monitorada de perto pelas autoridades.

“O serviço secreto na Polônia e no Reino Unido estão alertas à visita e que ele visitou previamente Treblinka,” ele disse.

“A visita no final de setembro estará sob observação estrita das autoridades polonesas.”

Entretanto, o Sr. Irving disse: “Não pretendo quebrar as leis, obedeço o estado de Direito. Mas como você provavelmente pode adivinhar, cidadãos corretos geralmente terminam na prisão.”

http://www.dailymail.co.uk/travel/article-1310819/My-death-camp-tours-arent-sick-Holocaust-denier-David-Irving-defends-plans-Nazi-Travel-tourist-trail.html


“Hitler foi um grande homem e a Gestapo uma polícia extraordinária”

Daily Mail, 28/09/2010

 
O controvertido historiador britânico David Irving elogiou Hitler como um “grande homem” e sua Gestapo como “força policial fabulosa” em sua excursão chocante aos campos de extermínio na Polônia.

Irving disse que Hitler não era “imoral” mas foi conduzido por pessoas menos qualificadas no regime nazista, de acordo com um relatório secreto pelo jornal italiano Corriere della Sera.

“Hitler podia ser muito cruel, mas ele não era imoral. Ele estava cercado por “pessoas desprezíveis,” disse Irving à sua plateia, que pagou £1.500 por cabeça pela excursão, segundo o jornal.

Irving, que foi uma vez preso na Áustria por negar o Holocausto, também disse aos turistas que o ditador alemão deveria ser comparado a Aníbal, o líder de Cartago que lutou contra Roma e quase a derrotou.

O historiador disse: “Ele foi como Aníbal. Ele segurou as forças militares do resto do mundo por seis anos. Exatamente como Aníbal, mas ninguém jamais negou a grandiosidade de Aníbal.”
 
 
 

“Hitler foi um grande homem, um dos maiores europeus por séculos.”

Ele acrescentou: “A Gestapo era uma força policial fabulosa. Eles enviaram 300.000 para Auschwitz e 800.000 para Treblinka.”

Seus comentários serão avaliados de perto pelas autoridades polonesas e devem certamente enfurecer sobreviventes do Holocausto.

Irving conduziu 11 pessoas da Inglaterra, América, Alemanha e Austrália pelo quartel-general de Hitler na Polônia, a “Toca do Lobo”, onde ele comparou o oficial alemão Claus Von Stauffenberg, que tentou assassinar o Führer, a um traidor.    

E o comportamento dos convidados de Irving na excursão ergueu as sobrancelhas da população local, segundo a equipe italiana disfarçada.

Durante um jantar privado após uma visita aos campos de extermínio, um convidado brindou sob risos: “Que cheiro terrível. É como uma câmara de gás.”

Críticas contundentes à excursão pelo quartel-general de Hitler e pelo conhecido campo de extermínio de Treblinka referiram-se ao evento como “Excursão Nazista”.

 
http://www.dailymail.co.uk/news/article-1315591/David-Irving-claims-Hitler-great-man-leads-Nazi-death-camp-tours.html


David Irving no campo de Extermínio de Treblinka



David Irving segundo os Historiadores

Fonte: Wikipédia

Irving, uma vez lembrado com respeito por seu conhecimento dos arquivos militares alemães, é uma figura controvertida desde o início. Suas interpretações da guerra eram geralmente lembradas como desnecessariamente favoráveis ao lado alemão. No início, isto foi visto como uma opinião pessoa, impopular mas consistente com respeitabilidade completa como historiador. Em 1988, entretanto, Irving começou a rejeitar o status do Holocausto como um genocídio sistemático e deliberado; e ele logo tornou-se protagonista da Negação do Holocausto. Isto, somado à sua associação com círculos de extrema direita, interrompeu sua fama de historiador. Uma mudança drástica na reputação de Irving pode ser vista nas pesquisas da historiografia do Terceiro Reich produzida por Ian Kershaw. Na primeira edição do seu livro A Ditadura Nazista em 1985, Irving foi chamado de um historiador “dissidente” trabalhando fora da profissão histórica. Na época da quarta edição de A Ditadura Nazista em 2000, Irving foi descrito somente como um escritor histórico que tinha se engajado nos anos 1970 em “provocações” cuja intenção de fornecer uma “desculpa pelo papel de Hitler na Solução Final”. Outras respostas críticas ao seu trabalho tendem a seguir esse padrão cronológico.

domingo, 4 de novembro de 2012

[SGM] Um Novo Olhar na Batalha mais Sangrenta da Segunda Guerra Mundial

Der Spiegel, 11/02/2012

 
Um historiador alemão publicou uma coletânea de entrevistas sinceras pouco comuns com membros do Exército Vermelho que fornece o primeiro relato preciso da Batalha de Stalingrado da perspectiva de simples soldados . Eles mostram que este capítulo da História merece uma reavaliação.

 
No amanhecer de 31 de janeiro de 1943, a batalha mais sangrenta da Segunda Guerra Mundial chegou ao fim para o comandante alemão em Stalingrado. Os soldados russos permaneceram no piso da loja de departamentos Univermag na qual os altos oficiais alemães, incluindo o comandante supremo Friedrich Paulus, haviam tomado como refúgio. Um dia antes, Adolf Hitler havia promovido o líder das tropas alemãs em Stalingrado ao posto de Marechal de Campo – não tanto como um sinal de reconhecimento, mas como uma ordem implícita de que ele deveria dar um fim à sua vida para não ser capturado.

O tenente coronel Leonid Vinokur foi o primeiro a avistar Paulus: “Ele estava deitado na cama quando entrei. Ele estava lá com seu casaco, com o seu quepe sobre ele. Ele tinha uma barba por fazer de duas semanas e parecia ter perdido toda sua coragem.” O último esconderijo do comandante do 6º. Exército alemão parecia uma latrina. “ A imundice e excremento humano e quem sabe mais o que estava empilhado até a altura da cintura,” continuou o major Anatoly Zoldatov em registro, acrescentando: “Era além da realidade. Havia dois banheiros e sinais acima deles que diziam: ‘Nenhum russo permitido.’”

Foi somente após um tempo que os alemães foram obrigados a largar suas armas. “Eles poderiam facilmente ter se suicidado, “ disse o General de Brigada Ivan Burnakov. Mas Paulus e sua equipe escolheram não fazer isso. “Eles não tinham nenhuma intenção de morrer – eles eram estes covardes. Eles não tinham coragem de morrer,” disse a testemunha Burnakov.

A Virada

A Batalha de Stalingrado marcou uma virada psicológica na guerra da Alemanha Nazista de conquista e aniquilação. “As notícias de Stalingrado tiveram um efeito de choque no povo alemão,” admitiu o Ministro da Propaganda do Reich, Joseph Goebbels, em 4 de fevereiro de 1943. Como o historiador britânico Erich Hobsbawm resumiu a situação: “A partir de Stalingrado, todos sabiam que a derrota da Alemanha era uma questão de tempo.”

Centenas de milhares de pessoas perderam suas vidas no duelo por prestígio entre os dois ditadores, Hitler e Stalin. Cerca de 60.000 soldados alemães morreram no cerco. Dos 110.000 prisioneiros alemães capturados em Stalingrado, somente 5.000 retornaram para casa. No lado soviético, entre 500.000 e 1 milhão de soldados do Exército Vermelho morreram.
 
 

Agora, quase 70 anos depois, é possível compreender com clareza como os vitoriosos vivenciaram esta batalha fatídica no Rio Volga. Esta nova compreensão foi originalmente trabalho do historiador de Moscou Isaak Izrailevich Mints. Em 1941, ele criou uma Comissão sobre a História da Guerra patriótica. A ideia era para que todos nas forças armadas, dos soldados comuns até os oficiais mais graduados, a expressar seus pensamentos, sentimentos e experiências como modelo para os outros – mas sem embelezamentos.

Em 1943, três historiadores entrevistaram mais de 20 soldados soviéticos que estiveram no local quando Paulus e seus homens foram capturados. Este é o primeiro relato preciso deste evento da perspectiva de soldados comuns.

Os pesquisadores conduziram entrevistas com um total de 215 combatentes em Stalingrado – alguns durante a batalha e alguns um pouco tempo depois. Algumas das declarações refletem o caráter oficial da situação da entrevista, mas os soldados também falaram de seus medos e covardia, e mesmo criticaram decisões de seus superiores.

Os relatos foram tão sinceros que os comunistas mais tarde publicaram somente uma pequena parte deles. Após 1945, a liderança soviética não estava interessada em impressões de batalhas sangrentas, mas ao invés disso em épicos heroicos gloriosos no qual Stalin tinha um papel central. Os cerca de 5.000 protocolos compilados pela comissão de historiadores desapareceram nos arquivos do departamento de história da Academia Soviética de Ciências. Em 2001, o historiador alemão Jochen Hellbeck, que ensina na Universidade Rutgers em Nova Jersey, soube deste tesouro. Sete anos depois, ele foi capaz de garantir mais de 10.000 páginas em Moscou.

Uma Nova Versão dos Eventos

Hellbeck publicou agora “Os Protocolos de Stalingrado”, que consiste de entrevistas, incluindo em alguns casos fotografias dos soldados entrevistados, junto com informação adicional sobre as entrevistas. À luz destes documentos, a história da Batalha de Stalingrado pode não ser reescrita, mas precisa de correção em alguns pontos. Estas últimas descobertas destroem completamente o argumento – colocado originalmente pelos nazistas e repetido no Ocidente durante a Guerra Fria – que os soldados do Exército Vermelho só lutaram bravamente porque eles seriam fuzilados pelos membros da polícia secreta.

Não há dúvida de que havia execuções na frente de batalha. O General de Brigada Vasily Chuikov, comandante supremo do 62º. Exército, disse pessoalmente aos historiadores como eles lidava com “covardes”: em 14 de setembro, fuzilei o comandante e comissário de um regimento, e logo em seguida fuzilei dois comandantes de comissários de brigada. Eles ficaram todos perplexos.”

Mas a extensão das execuções foram aparentemente sobreestimadas. Por exemplo, o historiador britânico Antony Beevor cita mais de 13.000 soldados do Exército Vermelho executados somente em Stalingrado. Por outro lado, os documentos descobertos nos arquivos russos mostram que houve menos de 300 execuções em meados de outubro de 1942.
 

 General Chuikov

 
Os “Protocolos de Stalingrado” revelam que a disposição dos soldados soviéticos em fazer sacrifícios não poderia somente ser atribuída a tais medidas repressivas. Um papel-chave foi realizado pelos chamados “oficiais políticos”, que repetidamente garantiam aos recrutas que eles estavam arriscando suas vidas pela liberdade do povo. Eles se esforçavam em motivar os soldados e esclarecer suas preocupações no sentido de elevar sua moral de combate.

As entrevistas também mostram que comunistas devotos sentiam que eles tinham que exercer um papel importante em qualquer lugar. O Comissário Vasilyev disse: “Era visto como uma desgraça se um comunista não fosse o primeiro a liderar os soldados na batalha.” Na frente de Stalingrado, o número de membros associados do partido cresceu entre agosto e outubro de 1942, de 28.500 a 53.500. Os oficiais políticos distribuíam folhetos na zona de batalha retratando o “herói do dia”, incluindo fotos grandes de soldados condecorados. Eles enviavam retratos dos heróis para os pais orgulhosos.

O conceito era que esta era uma guerra do povo. “O Exército Vermelho era um exército político,” diz o historiador Hellbeck.

Acreditando em um Motivo Nobre

Além de ensinar os soldados sobre a situação de guerra, os oficiais políticos se empenhavam em conversas pessoais. “À noite,” disse o tenente coronel Yakov Dubrovsky, “os combatentes estavam mais inclinados a falar abertamente, e alguém pode ir direto para suas almas.” O comissário de batalhão Pyotr Molchanov acrescentou: “Um soldado fica preso nas trincheiras por um mês inteiro. Ele não vê ninguém mais além de seu camarada, e de repente o comissário se aproxima dele, lhe diz algo, diz uma palavra amiga, o cumprimenta. Isto é de enorme importância.”

Em momentos críticos, os oficiais políticos ocasionalmente também distribuíam  chocolate e brindes para os camaradas desmoralizados. Um deles, Izer Ayzenberg, da 38ª. Divisão de Infantaria, costumava visitar as trincheiras com sua “mala de agitação”. Além de revistas e livros, ela continha jogos como damas e dominós.

O objetivo não era afastar os soldados do medo, mas ao invés disso usar sua consciência política para superar sua angústia. Consequentemente, os comunistas a encaravam como um sinal de fraqueza quando soldados alemães capturados descreviam-se como apolíticos. Em sua opinião, o desejo real de vencer somente poderia se desenvolver naqueles que acreditavam que eles serviam a um objetivo nobre. Os comunistas viam o Exército Vermelho como mais firme política e moralmente que a Wehrmacht.

N.do T.: o que não era o caso da Waffen-SS, que possuía um perfil mais político e, por esse motivo, teve grande número de baixas pelo fato de lutar por uma causa, ao invés do recruta do Exército, que possuía uma formação essencialmente técnica.

Mas, afora aagitação e propaganda, era basicamente o ódio dos soldados soviéticos contra os invasores que alimentou sua moral para lutar contra o inicialmente superior 6º. Exército Alemão. Mais ainda, os alemães alimentaram este ódio graças à sua ocupação brutal. Já no caminho para o Volga, o 6º. Exército deu sua contribuição para o Holocausto. Os civis ficaram aterrorizados.

“Alguém vê garotas, crianças penduradas nas árvores no parque,” disse o franco-atirador Vasily Zaytsev, acrescentando que “isto teve um impacto tremendo.”

O major Pyotr Zayonchovsky falou de uma posição que os alemães tinham abandonado. Quando ele chegou lá, descobriu o corpo de um camarada morto “cuja pele e unhas de sua mão direita haviam sido completamente arrancados. Os olhos haviam sido queimados e ele tinha uma ferida na têmpora esquerda feita por um pedaço de ferro quente. A parte direita de sua face havia sido coberta com líquido inflamável e queimada.”
 

 

Inferno nos Dois Lados

Antes da guerra, muitos russos admiravam os alemães como uma nação de cultura – e os respeitavam por sua engenhosidade tecnológica. Alguns dos entrevistados disseram que eles ficaram chocados com os alemães que eles cruzaram durante a guerra.

O major Zayonchovsky descreveu a natureza dos alemães da seguinte forma: “a mentalidade do ladrão tornou-se a segunda natureza para eles de modo que eles tinham que roubar – mesmo se usassem ou não.”

Um oficial na agência de inteligência, que interrogou prisioneiros alemães, expressou surpresa que os ataques contra civis e os roubos “tenham se tornado uma parte integral da vida diária dos soldados alemães de tal modo que prisioneiros de guerra ocasionalmente nos disseram sobre isso sem qualquer tipo de remorso.”

De acordo com o capitão Nikolay Aksyonov, alguém podia sentir “como todo soldado e todo comandante estava disposto a matar tantos alemães quanto possível.”

O franco-atirador Anatoly Checov lembrou em sua entrevista como ele atirou em seu primeiro alemão. “Me senti terrível. Tinha matado um ser humano. Mas então pensei em nosso povo – e comecei a atirar sem piedade neles. Tornei-me um bárbaro, eu os mato. Eu os odeio.” Quando ele foi entrevistado, ele já havia matado 40 alemães – a maioria deles com um tiro na cabeça.

É de conhecimento geral que Stalingrado foi o inferno para os soldados em ambos os lados. Mas graças a estes testemunhos, agora temos um quadro claro de precisamente como era o combate sem fim casa-a-casa pelo qual os soldados não haviam sido treinados. Quanto pó, poeira e fumaça lhes tiraram toda orientação. Como explosões individuais eram abafadas pelo estrondo contínuo da batalha. Como eles lutaram por dias para tomar prédios, onde em alguns casos os soviéticos haviam tomado posição em um andar, enquanto os alemães estavam entrincheirados em outro.

“Nesta luta urbana, granadas de mão, metralhadoras, baionetas, facas e pás eram usadas,” disse o General de Brigada Chuikov. “Eles encaravam uns aos outros e caíam sobre o outro. Os alemães não aguentam isso.” Mesmo assim, a Wehrmacht conseguiu a princípio tomar a cidade, com exceção de um trecho fino ao longo do Volga.

Então, o Exército Vermelho cercou os alemães, que estavam somente capazes de receber suprimentos do ar. Os soldados alemães sofreram de fome e não tinham uniformes quentes para se proteger do inverno terrivelmente gelado. O comandante Paulus exortou suas tropas a não desistir: “Segurem firme, o Führer nos tirará daqui,” era o lema do dia. A Operação Tempestade de Inverno, que deveria romper o cerco, terminou em fiasco. Em 6 de janeiro, o General soviético Konstantin Rokossovsky ofereceu a Paulus uma rendição honrosa. Sob as ordens de Hitler, o comandante alemão rejeitou a oferta.

Quatro dias depois, o Exército Vermelho começou a avançar e apertar o anel em torno da cidade. Após 10 dias, os alemães mal possuíam alimentação e munição. Quando Paulus e sua equipe permitiram-se tomar como prisioneiros no final de janeiro, ao invés de cometer suicídio ou lutar até a morte, Hitler ficou enfurecido.

“A Terra Respirava Fogo”

O preço também foi alto para os vencedores da batalha. Vasily Zaytsev, por exemplo – sem dúvida o melhor atirador do Exército Vermelho em Stalingrado – afirmou ter acertado 242 alemães, mas fez o seguinte comentário sério: “Você frequentemente tem que lembrar, e a memória tem um impacto poderoso,” ele disse um ano após a batalha. “Agora, meus nervos estão à flor da pele e estou constantemente tremendo.”

Seu camarada Aksyonov acrescentou: “Estes cinco meses experimentados em Stalingrado foram equivalentes a cinco anos em nossas vidas posteriores.” Pareceu a ele que “a terra em Stalingrado respirava fogo naqueles dias.”

Estas são coisas que os comunistas simplesmente não queriam ouvir após a guerra. Um “livro histórico, informativo escrito pelos próprios participantes da batalha,” como foi exaltado pelo historiador Mints, nunca foi publicado. Durante os expurgos antisemitas de Stalin, Mints foi privado de sua docência, alegadamente por ser um “cosmopolista sem raiz.” Foi somente após a morte do ditador que ele foi reabilitado. Ele escondeu os protocolos de entrevistas.

Hellbeck, que os encontrou junto com seus colegas russos, já está planejando lançar o próximo volume de entrevistas, desta vez focando na ocupação militar alemã da União Soviética. A edição russa dos “Protocolos de Stalingrado” está programado para ser publicada ano que vem.  

http://www.spiegel.de/fotostrecke/taking-a-new-look-at-the-battle-of-stalingrad-fotostrecke-88907-4.html

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Falta de profissionais ameaça o Programa Espacial Brasileiro

Defesanet, 05 de Abril, 2012

A recomposição do quadro de profissionais para o programa espacial brasileiro é uma promessa antiga do governo, mas a falta de uma ação mais efetiva tem provocado uma perda sistemática de recursos humanos no setor, situação que vem piorando com a elevação da faixa etária dos pesquisadores.

"Se não houver uma decisão neste ano, as nossas projeções indicam que em 2020 o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) estará próximo de uma situação de colapso, reduzido a 26% do efetivo que possuía em 1994", diz o diretor do órgão, brigadeiro Ailton dos Santos Pohlmann. Segundo ele, a média de idade dos pesquisadores do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), responsável pelos principais projetos espaciais do país na área de foguetes, é superior a 50 anos.
 
A perda de cérebros no programa espacial é crescente e com a demora em abrir um novo concurso a situação só tende a piorar. "A grande dificuldade daqui para a frente será treinar o pessoal novo, pois os que detêm o conhecimento, adquirido em mais de 20 anos de trabalho e estudos, já terão saído", alerta o presidente da Associação Aeroespacial Brasileira (AAB), Paulo Moraes Jr.
 
O último concurso público autorizado pelo governo para o DCTA foi feito em 2010, mas apenas 93 funcionários foram contratados para atender a todo o órgão, que inclui 11 institutos de ensino e pesquisa e dois centros de lançamento de foguetes. O déficit de pessoal hoje, de acordo com o brigadeiro Pohlmann, é de mais de mil funcionários. Em 2011, mais de 70 servidores deixaram o DCTA.
 
O lançamento do Veículo Lançador de Satélite (VLS) mais uma vez será afetado pela falta de recursos humanos especializados. "Desde 2003, quando aconteceu o acidente com o foguete na base espacial de Alcântara e se perderam 21 especialistas, não houve reposição desse pessoal", ressalta o brigadeiro.
 
O problema já foi relatado por diversas vezes ao governo e mais recentemente, em fevereiro, a direção do DCTA enviou um relatório ao Ministério da Defesa sinalizando que a situação ficará ainda mais crítica com o projeto de duplicação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), projeto que conta com o apoio pessoal da presidente Dilma Rousseff.
 
A ampliação do ITA deverá ocorre ao longo dos próximos cinco anos, mas já em 2013 a escola vai oferecer o dobro das vagas atuais, ou seja, 240. Atualmente, o ITA recebe 120 alunos por ano, mas de acordo com o reitor, Carlos Américo Pacheco, cerca de 500 estudantes que prestam o vestibular para o instituto, têm nota mínima para entrar. Este ano o ITA recebeu um total de 9.400 inscrições, o que representou um aumento de 20% em relação a 2011.
 
Para ampliar o número de vagas, o ITA também precisará contratar 150 professores no período de cinco a seis anos e cobrir cerca de 50 aposentadorias que deverão acontecer nesse período. A expansão do instituto terá um custo de R$ 300 milhões e as obras estão previstas para começar este ano.
 
"Não é possível duplicar o ITA se não houver a reposição dos quadros. A ampliação da escola exigirá também um aumento significativo na capacidade do DCTA de apoiar essa expansão, na parte de pessoal (contratação de mais professores), infraestrutura de alojamento, alimentação, laboratórios de pesquisa e segurança, entre outros", diz o brigadeiro Pohlmann.
 
No Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) a situação é mais grave na área de gestão, que em dez anos deve perder 70% do pessoal que trabalha no apoio às atividades finais do instituto, devido às aposentadorias. O plano diretor do Inpe para os anos de 2011 a 2015 mostra que em 1989 a instituição tinha 1,6 mil servidores, sendo apenas 50 com mais de 20 anos de serviço. Passados 20 anos, o número de funcionários é de 1.131, dos quais só 300 têm menos de 20 anos de casa. Atualmente, 72% dos engenheiros e tecnologistas do Inpe trabalham há mais de 20 anos na instituição.
 
A área de engenharia de satélites, que recebe os principais recursos do orçamento do instituto também preocupa bastante a direção do Inpe. Segundo o coordenador de Gestão Tecnológica do instituto, Marco Antônio Chamon, em cinco anos o número de funcionários desse setor deverá cair de 132 para 89. "Em dez anos estimamos que esse número esteja reduzido a 33 pessoas", afirma.
 
São essas mesmas pessoas que trabalham hoje no ambicioso programa de satélites do Inpe, que prevê lançar até 2014 três satélites. Entre 2015 e 2020, estão previstos mais dois satélites em parceria com a China, um em parceria com a Argentina, um satélite com a Agência Espacial Americana (Nasa) e três satélites nacionais.
 
"Não temos hoje condições de fazer dois satélites ao mesmo tempo", afirma Chamon. O satélite CBERS-3, feito com a China, segundo ele, será lançado no fim deste ano e desde fevereiro uma equipe de 30 a 50 técnicos e engenheiros do Inpe está no país para trabalhar na integração e testes finais do satélite. "Eles ficarão por lá até o lançamento do satélite e isso certamente reduziu o ritmo de trabalho de outros projetos, pois não há substituto para esse tipo de especialista."
 
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) liberou a abertura de concurso público para a contratação de 107 servidores para o Inpe em 2012, mas a instituição precisa de um mínimo de 400 contratações para repor especialistas em setores considerados estratégicos, como meteorologia, controle de satélites, ciência espacial e engenharia de satélites.
 
"Assim como nas universidades, precisamos de mecanismos que nos permitam repor nossos quadros de maneira sistemática, pois assim é possível preservar o conhecimento e transferi-lo aos poucos", explica.
"Há oito anos que o sindicato vem insistentemente cobrando as autoridades do governo federal sobre a contratação urgente de servidores para o Inpe e o DCTA. As poucas contratações que aconteceram foram temporárias, o que na área de ciência e tecnologia chega a ser uma estupidez," protesta o vice-presidente do Sindicato Nacional dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial (SindiCT), Fernando Morais Santos.
 
O Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe (CPTEC), responsável pela produção de informações meteorológicas diárias e climáticas, possui hoje um total de 148 funcionários. Desses, cerca de 80 são contratados em regime temporário. "São atividades que não podem parar e esse pessoal temporário só tem mais dois anos para ficar no CPTEC", ressalta.
 
Entre os funcionários temporários do CPTEC, segundo Chamon, existe um grupo de 15 programadores, responsáveis por manter o supercomputador do centro em funcionamento, que encerram o contrato com a instituição no segundo semestre deste ano. "Sem esse pessoal não tem como fazer a previsão do tempo, pois são eles que colocam as informações que rodam no supercomputador", afirma Chamon.
 
Recursos escassos ameaçam projetos
 
A modernização da base de lançamento de foguetes em Alcântara, no Maranhão e o desenvolvimento de veículos lançadores e de satélites estão entre as prioridades do governo federal na área espacial. Esses projetos já têm, inclusive, recursos garantidos da ordem de R$ 2,2 bilhões até 2015, conforme previsto no plano plurianual 2012-2015.
 
Embora estejam na lista de prioridades de investimentos, alguns projetos ainda sofrem com a insuficiência de recursos. Somados à falta de especialistas em diversas áreas, os planos do governo nessa área poderão ser afetados. O lançamento do foguete VLS (Veículo Lançador de Satélite), por exemplo, que estava previsto para o início de 2013, deverá ser adiado. "Para cumprir a meta de lançamento no ano que vem precisamos de R$ 55 milhões e para este ano só temos disponível um pouco mais de R$ 16 milhões", revela o diretor do DCTA, brigadeiro Ailton dos Santos Pohlmann.
 
Os projetos que não estão na indústria, como os foguetes, são os mais afetados pelos constantes contingenciamentos de recursos e a falta de pessoal. "O setor de aerodinâmica de foguetes do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) já teve 18 especialistas. Hoje tem apenas quatro", comenta o presidente da AAB, Paulo Moraes. O pesquisador, que trabalha no IAE, ressalta que não está sendo formado um número suficiente de engenheiros no Brasil para atender às novas iniciativas do governo, das empresas de tecnologia e também a uma indústria de defesa em fase de crescimento.
 
Com 11 institutos e dois centros de lançamento de foguetes, em Alcântara, no Maranhão, e em Natal (RN), o DCTA é o órgão da Aeronáutica que executa e coordena os principais projetos do governo na área de defesa. O programa de lançadores VLS e o Cruzeiro do Sul, que seria uma nova geração de foguetes, são os mais conhecidos.
 
A lista de responsabilidades do DCTA, no entanto, inclui ainda outros programas de vulto, como o da aeronave de transporte militar KC-390, que está sendo desenvolvida pela Embraer, o processo de seleção das novas aeronaves de combate F-X2 e de todos os mísseis utilizados pela Força Aérea Brasileira (FAB), que hoje estão sendo produzidos pelas empresas Mectron, controlada pelo grupo Odebrecht, e Avibras.
 
O DCTA também coordena a compra de outras aeronaves, como os 56 helicópteros que estão sendo adquiridos da Helibras para as Forças Armadas, os Super Tucano produzidos pela Embraer, a modernização da frota de aeronaves F-5 e AMX e o desenvolvimento de veículos aéreos não tripulados.
 
Fuga de pesquisadores ameaça projetos da Agência Espacial
 
Defesanet, 23 de Maio, 2012
 
A Agência Espacial Brasileira (AEB) é uma autarquia do governo brasileiro de natureza civil, que está vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Criada em 10 de fevereiro de 1994, pela lei nº 8.854, tem por finalidade promover o desenvolvimento das atividades espaciais brasileiras de forma descentralizada.
 
Para nortear estas ações e definir diretrizes, a AEB atua na coordenação central do Sistema Nacional de Desenvolvimento das Atividades Espaciais (SINDAE) e tem a responsabilidade de formular a Política Nacional de Desenvolvimento das Atividades Espaciais (PNDAE) e de formular e implementar o Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), cujas atividades são executadas por outras instituições governamentais que compõem o sistema.
 
Atualmente a AEB está sob controle civil, anteriormente estava sob controle militar. Alguns atribuem a pressões dos Estados Unidos por esta mudança. Outros acreditam que foi decorrente da mudança de foco do programa espacial, decorrente da chegada de civis à Presidência da República.

O novo presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), José Raimundo Braga Coelho, que toma posse oficialmente hoje em Brasília, pretende seguir adiante com o programa de lançadores, aumentar a participação das empresas e universidades brasileiras nos projetos, assim como lançar no prazo estabelecido pela presidente Dilma o primeiro satélite geoestacionário brasileiro, com base num empreendimento público-privado entre Telebras e Embraer.


José Raimundo Braga Coelho já trabalhou como chefe de cooperação internacional e de gabinete de Raupp no tempo em que ele era diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais(Inpe), entre 1985 e 1989. Foi no Inpe também que Coelho coordenou a área de engenharia e tecnologia e o programa de satélites feito com a China (CBERS), do qual participou desde o início.
 
Valor: Qual o orçamento da AEB para este ano?
 
Coelho: A nossa marca era da ordem de R$ 350 milhões, mas como todos sabem, o setor público brasileiro sofreu cortes. De forma que nós temos um número menor, mas ainda não tenho o valor preciso, pois estamos discutindo outras possibilidades. Estamos chorando junto ao governo para atender algumas necessidades que são prioritárias no nosso programa. E tem também um valor contingenciado, que estamos batalhando para que seja reincorporado ao orçamento da Agência.
 
Valor: Os cortes do orçamento vão afetar quais projetos?
 
Coelho: Com exceção do projeto CBERS-3, que será lançado até novembro, todos os grandes projetos terão de ser analisados. O caso do satélite CBERS é diferente porque, tecnicamente, todas as questões estão resolvidas e as previsões orçamentárias para o custeio estavam viabilizadas.
 
Valor: Como a AEB pretende tratar a questão do esvaziamento de pesquisadores no Inpe e no DCTA, um problema que vem se agravando com o aumento das aposentadorias de profissionais?
 
Coelho: Nós sabemos da dificuldade grande de reposição dos quadros nos nossos institutos, mas eu acho que deveria haver uma análise crítica e precisa da situação dos recursos humanos. Todas as pessoas que foram contratadas para o desenvolvimento de satélites estão realmente trabalhando nisso? Precisamos reavaliar se o que está sendo feito hoje pelos institutos está de acordo com a demanda das políticas públicas. A partir daí faríamos uma proposta mais convincente de reposição dos nossos recursos humanos para o governo.
 
Valor: O DCTA e o Inpe já estão prevendo um colapso no andamento dos projetos, caso não haja uma solução a curto prazo.
 
Coelho: Nós temos alertado o governo da importância de se manter essa massa crítica de conhecimento dos institutos, mas no caso de projetos pontuais, onde existe uma necessidade urgente de se contratar pessoas, não vejo problema em realizar contratos temporários. Alguns projetos também poderiam ser feitos na indústria, depois de passar por um processo de qualificação dentro dos Institutos.
 
Valor: O modelo de gestão do Satélite Geoestacionário Brasileiro, com Embraer e Telebras, vai servir de referência para outros projetos?
 
Coelho: A iniciativa de se constituir uma empresa integradora na área espacial no Brasil pode gerar muitos "spin offs" (criação de uma empresa a partir de uma tecnologia ou de outra empresa) daqui por diante. Que poderão ser úteis para vários segmentos das atividades espaciais.
 
Valor: Mas o satélite será comprado no exterior. Quais seriam as possibilidades de transferência de tecnologia neste caso?
 
Coelho: Através de cláusulas de "offset" ou acordos de contrapartida na área comercial, industrial e tecnológica. Essa empresa tem compromisso de trazer o satélite brasileiro, não quer dizer necessariamente que ele vai ser totalmente fabricado no país. Não será no Brasil em função de um cronograma muito apertado. (VS)