segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

[HOL] O Anti-Semitismo Polonês e a Imprensa

William Schneider, 20/11/2012

 
Um novo filme que estreou na última semana ressuscitou questões morais que alguns poloneses esperavam estar enterradas há muito tempo atrás. A página frontal de 20 de novembro de 2012 do diário de Varsóvia Gazeta Wyborcza foi dominada pela controvérsia cercando o filme Poklosie (Consequência). O título diz “Poklosie sob ataque” – mas a reação de muitos poloneses é que eles estão sob o ataque de Poklosie.

O filme questiona a auto-identidade da Polônia como uma vítima inocente da agressão nazista. Enquanto não há dúvidas de que a Alemanha tentou destruir a nação polonesa, matando milhões, destruindo suas cidades e tentando erradicar sua cultura, o diretor cinematográfico Wladyslaw Pasikowski desafiou um dos pilares de sua identidade pós-guerra – a inocência do país em relação ao Holocausto.
 

 

Poklosie é um filme de guerra que dramatiza o massacre de 1942 de 340 judeus na vila de Jebwadne. Entretanto, estes judeus não foram mortos pelos nazistas, mas pelos seus vizinhos poloneses que prenderam idosos, mulheres e crianças em um celeiro e atearam fogo. Filmado na vila fictícia de Gorowka, o sítio de um massacre na época de guerra atribuído aos alemães, o filme acontece logo após a queda do regime comunista. O filme conta a estória de dois irmãos que, no desejo de preservar os túmulos judeus, despertam a ira dos moradores que temem que eles descubram os crimes do passado. Como se diz em Hollywood, este é um filme de mensagem, e a mensagem é que esconder os pecados do passado resulta em maldades modernas.

Entre os motivos para o massacre dos judeus por seus vizinhos poloneses no filme está que os judeus mataram Cristo. Os incidentes recontados em Poklosie são baseados em eventos reais. Em 2003, uma comissão governamental polonesa liberou um relatório dizendo que as afirmações de que os judeus poloneses de Jebwabne foram mortos pelos nazistas era falsa. Eles haviam sido mortos por seus vizinhos cristãos.

Não vi referência a esta estória na imprensa americana ou britânica até o momento – mas os artigos na semana passada na imprensa francesa me fizeram dar uma olhada no assunto. A estória do Le Figaro e do Le Nouvel Observateur, aproximam a estória do ponto de vista do entretenimento – um filme que força a Polônia a confrontar uma “página negra” em sua história – este tipo de coisa.

A imprensa polonesa tem tratado isto não como um filme, mas como uma questão existencial. “Quem somos? De onde veio nossa história? Compartilhamos os pecados de nossos ancestrais? Nossa fé como Católicos nos levou a isto?”

Ano passado, a Associated Press relatou que em 2001:

Os Bispos da Polônia pediram desculpas pelo massacre de Jedwabne e outros crimes contra os judeus durante a ocupação alemã, em uma cerimônia especial de fiéis em Varsóvia. Ela foi vista como um passo em direção da reconciliação com grupos judeus que frequentemente acusam a Igreja Católica de ser muito tolerante com o anti-semitismo.

Por outro lado, jornais conservadores e nacionalistas estão sendo muito críticos com o filme. Eles rejeitam a afirmação de que a Polônia divide a culpa coletiva dos nazistas pelo Holocausto e rejeitam a descrição do campesinato polonês como sendo “malvados anti-semitas” estimulados por seus padres a cometer assassinato contra os matadores de Cristo. No semanário conservador Uwazam Rze, Piotr Zychowicz escreve em um artigo chamado “Poloneses, Judeus, Colaboração, Holocausto”:

Nenhuma nação tem o monopólio em ser malvada e nenhuma nação tem o monopólio em ser boa. As nações são compostas por milhões de pessoas, e as pessoas, como acontece, são muito diferentes.

Em uma entrevista publicada no site de notícias e opiniões Niezalezna, Bogdan Musial argumenta que a narrativa histórica de Poklosie é uma falsa criação da mídia.

Muitos judeus americanos deixaram a Polônia e seus pais e avós tornaram-se vítimas do Holocausto. Uma grande parte da Diáspora judaica considera os Poloneses como sendo anti-semitas. Lembre-se que a indústria cinematográfica e a mídia têm uma enorme influência no ambiente intelectual e impõe suas crenças culturais no anti-semitismo polonês. Há também em alemão uma crença prejudicial e falsa no “nacionalismo polonês” enquanto existe também uma falta de consciência histórica na Polônia.

O prof. Musial continua, afirmando que não há dúvidas de que um crime foi cometido em Jebwabne, mas “as reações à acusação de anti-semitismo deveriam ser medidas.” Ele também sugere que “a discussão sobre o anti-semitismo é planejada para desviar a atenção dos problemas dos crimes da era comunista.”

Um crime foi cometido e isto é um fato. Mas o mesmo fato é que (o livro Vizinhos de Jan Gross de 2002 sobre o pogrom de Jedwabne) não é confiável e distorce a história. O problema é que as forças chamadas progressistas na Polônia consideram esta história distorcida ser um dogma. As pessoas que negam isto são chamadas (pelas tais forças progressistas na Polônia) de aberrações e nacionalistas... Através dos olhos de Gross, os poloneses são gananciosos, primitivos, assassinos que são coresponsáveis pelo Holocausto e tão anti-semitas quanto os nazistas. Não alemães, mas nazistas! ... filmes como Poklosie somente fortalecem esta imagem...

Entretanto, o liberal Gazeta Wyborcza, o diário de maior circulação da Polônia, apela aos críticos para parar de tentar impedir o “processo de limpeza” da alma nacional apelando à “ideologia nacionalista”. Citando o livro de Gross, ele cita que havia poloneses que mataram judeus simplesmente por lucro. Ele defende Poklosie dizendo:

...trabalho de valor, único no cinema polonês, reabrindo uma ferida que estava fechada apenas superficialmente na consciência polonesa.

Em meus posts recentes no GetReligion, tenho sido crítico do jornalismo atuante estilo europeu praticado pelo New York Times e tenho argumentado que suas estórias não são nem equilibradas nem justas ou completas. E o Times parece estar cego a este problema. No entanto, o jornalismo atuante pode produzir trabalhos excepcionalmente bons – como a página frontal de hoje do Gazeta Wyborcza – porque ele é escrito de uma perspectiva ideológica e moral que não está oculto por afirmações espúrias de ser objetivo. Apesar de achar os pontos de vista expressos no Niezalezna desagradáveis, considerando-se também o Gazeta Wyborcza, ambos produzem um melhor quadro do assunto do que uma única fonte.

Eu aplaudo a imprensa polonesa por trazer estes assuntos de identidade nacional, fanatismo religioso e memória histórica. Parabéns.           


 
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domingo, 6 de janeiro de 2013

Há 75 anos, o Dirigível Hindenburg ardia em Chamas

The Atlantic, 08 de maio de 2012



No dia 6 de maio de 2012, completou-se o 75º aniversário do desastre do dirigível Hindenburg, em 1937. A volumosa aeronave alemã pegou fogo enquanto tentava aterrissar próximo de Lakehurst, Nova Jersey (EUA), matando 35 pessoas à bordo, mais um membro da tripulação em terra. Dos 97 passageiros e tripulantes à bordo, 62 conseguiram sobreviver. O acidente horroroso foi registrado por repórters e fotógrafos e transmitido via rádio, em jornais e nos cinemas. Notícias do desastre levaram o público a perder confiança nas viagens por dirigíveis, encerrando uma era. O Hindenburg de 245 metros de comprimento usava hidrogênio inflamável para levantar vôo, que incinerou a aeronave em uma bola de fogo enorme, mas a causa verdadeira do fogo inicial permanece desconhecido. Reunidas aqui estão imagens do primeiro ano bem sucedido de viagem transatlântica e de seu trágico fim há 75 anos atrás.



O esqueleto de aço do "LZ 129", o novo dirigível alemão, em construção em Friedrichshafen. O dirigível mais tarde seria rebatizado em homenagem ao falecido Marechal de Campo Paul von Hindenburg, antigo presidente da Alemanha. (Deutsches Bundesarchiv)



Retoques finais são aplicados ao Hindenburg no grande hangar alemão de construção em
Friedrichshafen. Os trabalhadores, reduzidos a pequenas estaturas em comparação com
as largas superfícies dos estabilizadores de cauda, estão tratando quimicamente o tecido que cobre o casco
principal. (San Diego Air & Space Museum)  

 


O dirigível Zeppelin Hindenburg é mostrado a partir de sua popa, com o símbolo nazista em seu estabilizador vertical de cauda,  à medida que ele deixa o hangar na Estação Aérea da Marinha americana, em Lakehurst, Nova Jersey, em 9 de maio de 1936.
 


O Hindenburg rola para o hangar da Marinha dos EUA, seu nariz ligado à torre de atracação móvel, em Lakehurst, Nova Jersey, em 9 de maio de 1936. O dirigível rígido havia acabado de estabelecer um recorde em sua primeira travessia do Atlântico norte, a primeira etapa de 10 viagens de ida e volta programadas entre a Alemanha e a América. (Foto: AP)



O Hindenburg lança água ao solo para garantir um pouso suave em Lakehurst, Nova Jersey,
em 9 de maio de 1936. O dirigível realizou 17 viagens através do Oceano Atlântico em 1936,
transportando 2.600 passageiros com conforto a velocidades até 135 km/h. A Companhia
Zeppelin começou a construção do Hindenburg em 1931, dois anos antes da indicação de
Adolf Hitler como Chanceler alemão. Durante 14 meses, ele operou sob a bandeira do
partido nazista. (AP)
 
 

O Hindenburg, acima da equipe de solo na Estação Aérea da Marinha dos EUA em
Lakehurst, Nova Jersey.

 

Sala de jantar à bordo do Hindenburg (Deutsche Bundesarchive)



 
Passageiros na sala de jantar do Hindenburg em abril de 1936. (AFP)
 

 
O Hindenburg passa pela ilha de Manhattan a apenas algumas horas do desastre, em 6 de maio de 1937.
 
 

Outra imagem sobre Manhattan no mesmo dia



Às 19:25, hora local, o dirigível Zeppelin pega fogo quando se aproxima do ponto de pouso na Estação Aérea da Marinha dos EUA em Lakehurst, NJ.
 


O Hindenburg é logo consumido pelas chamas. Não passou de um minuto desde os primeiros sinais de problemas até a completa destruição. Nesta imagem, vêem-se a segunda e terceira explosões.



À medida que o hidrogênio queima pela popa do dirigível, o leme atinge primeiro o solo e as chamas atingem o nariz da proa. A equipe de solo corre para fugir do inferno.

 

Um sobrevivente escapa das chamas (parte inferior direita). Obs.: a imagem foi retocada no original.



Uma mulher não identificada é resgata do local.



Adolf Fisher, mecânico do Hindenburg, é transferido do Hospital Paul Kimbal, em Lakewood, para outro hospital em 7 de maio de 1937.



Membros da Comissão de Investigação da Marinha americana verificam os destroços do Hindenburg em 8 de maio de 1937.


 
Membros da tripulação sobreviventes do Hindenburg são fotografados na Estação Aérea Naval em Lakehurst, NJ, em 7 de maio de 1937. Rudolf Sauter, engenheiro-chefe, está no centro usando um quepe branco; atrás dele está Heinrich kubis, um garçom; Heinrich Bauer, oficial assistente, é o terceiro da direita, usando um quepe preto; e o garoto de 13 anos Werner Franz, camaroteiro, está na fila do centro. Muitos membros da tripulação usam uniformes de verão da Marinha americana fornecida a eles para substituir as roupas queimadas de seus corpos. (AP)
 


Funeral dos 27 alemães mortos no desastre em Nova York em 11 de maio de 1937 numa ponte de atracação. Cerca de 10.000 membros de organizações alemãs nos EUA visitaram o local.



Vista aérea dos restos do Hindenburg em 7 de maio de 1937.
 
 

sábado, 5 de janeiro de 2013

[SGM] Reviravolta na SGM: A Vitória do Exército Vermelho em Moscou

Jacques R. Pauwels, 06/12/2011

 


A Segunda Guerra Mundial começou, pelo menos no “teatro europeu”, com o rolo compressor do Exército alemão passando pela Polônia em setembro de 1939. Cerca de seis meses depois, vitórias mais espetaculares ainda seguiram-se, desta vez nos Países Baixos e na França. No verão de 1940, a Alemanha parecia invencível e predestinada a dominar o continente europeu indefinidamente. (A Grã-Bretanha recusou-se a jogar a toalha, mas não esperava ganhar a guerra sozinha, e tinha medo de que Hitler voltasse seus olhos para Gibraltar, Egito e/ou outras joias da coroa do Império Britânico.) Cinco anos depois, a Alemanha experimentava a dor e a humilhação da derrota total. Em 20 de abril de 1945, Hitler cometeu suicídio em Berlim à medida que o Exército Vermelho arrasava tudo em seu caminho para a cidade, reduzida a um monte de escombros, e em 8/9 de maio os alemães renderam-se incondicionalmente. É claro, então, que entre o final de 1940 e 1944 a maré havia mudado drasticamente. Mas quando e onde? Na Normandia em 1944, de acordo com alguns; em Stalingrado, durante o inverno de 1942-43, de acordo com outros. Na realidade, a maré mudou em dezembro de 1941 na União Soviética, mais especificamente, no terreno estéril a oeste de Moscou. Como um historiador alemão, especialista na guerra contra a União Soviética, colocou: “Aquela vitória do Exército Vermelho (em frente a Moscou) foi inquestionavelmente o maior evento de toda a guerra.”[1]

Que a União Soviética foi o local de combate que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial não é surpresa para ninguém. A guerra contra a União Soviética foi a guerra que Hitler queria desde o começo, como ele deixou claro nas páginas do Mein Kampf, escrito na metade dos anos 1920. (Mas uma Ostkrieg, uma guerra no leste, isto é, contra os soviéticos também era objeto de desejo dos generais alemães, dos líderes industriais alemães e de outros “pilares” da elite da Alemanha.) De fato, como um historiador alemão recentemente demonstrou [2], era uma guerra contra a União Soviética, e não contra a Polônia, França ou Grã-Bretanha, que Hitler queria lançar em 1939. Em 11 de agosto daquele ano, Hitler explicou a Carl J. Burckhardt, um funcionário da Liga das Nações, que “tudo o que ele dedicou-se era direcionado contra a Rússia,” e que “se o Ocidente (isto é, os franceses e britânicos) são tão estúpidos e cegos para compreender isto, ele seria forçado a estabelecer um entendimento com os russos, voltar-se contra e derrotar o Ocidente, e então voltar-se com todas as forças para golpear a União Soviética.” [3] Isto foi o que aconteceu de fato. O Ocidente acabou tornando-se “muito estúpido e cego”, como Hitler anteviu, dando-lhe uma “mãozinha” no leste, de modo que ele fez um acordo com Moscou – o infame “Pacto Hitler-Stalin” – e então lançou a guerra contra a Polônia, França e Grã-Bretanha. Mas seu objetivo continuava sendo o mesmo: atacar e destruir a União Soviética tão rápido quanto fosse possível.

Hitler e os generais alemães estavam convencidos de que eles haviam aprendido uma importante lição da Primeira Guerra Mundial. Sem as matérias primas necessárias para se ganhar uma guerra moderna, tais como petróleo e borracha, a Alemanha não poderia ganhar uma guerra longa e arrastada. Para ganhar a próxima guerra, a Alemanha teria que vencê-la de maneira rápida, muito rápida. Esta foi a origem do conceito da Guerra Relâmpago (Blitzkrieg), a ideia da guerra (Krieg) rápida como um relâmpago (Blitz). A Blitzkrieg significava guerra motorizada, logo, na preparação para tal guerra, a Alemanha durante os anos 1930 adquiriu quantidades enormes de tanques e aviões, assim como de caminhões para transporte de tropas. Além disso, quantidades gigantescas de petróleo e borracha foram importadas e armazenadas. Muito deste petróleo foi comprado de companhias americanas, algumas das quais também gentilmente disponibilizaram a “receita” para produzir combustível sintético a partir do carvão. [4] Em 1939 e 1940, este equipamento permitiu à Wehrmacht e Luftwaffe alemãs superar as defesas polonesas, holandesas, belgas e francesas com milhares de aviões e tanques em questão de semanas, a Blitzkriege foi inevitavelmente seguida pela Blitzsiege, ou Vitória Relâmpago.

Estas vitórias foram muito espetaculares, mas não forneceram à Alemanha pilhagem suficiente na forma importante de petróleo e borracha. Ao invés disso, a “guerra relâmpago” consumiu os estoques armazenados antes da guerra. Felizmente para Hitler, e m 1940 e 1941 a Alemanha era ainda capaz de importar petróleo do ainda neutro EUA – não diretamente, mas via outros países neutros (e amigáveis) como a Espanha de Franco. Além disso, sob os termos do Pacto Hitler-Stalin, a própria União Soviética abasteceu generosamente a Alemanha com petróleo! Entretanto, isso era perturbador para Hitler porque, em compensação a Alemanha tinha que fornecer à União Soviética produtos industriais de alta tecnologia e tecnologia militar estado-da-arte, que foi usada pelos soviéticos para modernizar seu exército e melhorar seu armamento. [5]

É compreensível que Hitler tenha ressuscitado seu plano original de guerra contra a União Soviética logo após a derrota da França, mais precisamente, no verão de 1940. Uma ordem formal para preparar planos para tal ataque, a ser chamada Operação Barbarossa (Unternehmen Barbarossa) foi dada poucos meses depois, em 18 de dezembro de 1940. [6] Ainda em 1939, Hitler estava ansioso para atacar a União Soviética e ele apenas se voltou contra o Ocidente, como um historiador alemão colocou, “para garantir segurança na retaguarda (Rückenfreiheit), quando ele estaria finalmente pronto para acertar contas com a União Soviética.” O mesmo historiador conclui que em 1940, nada havia mudado tanto quanto Hitler estava preocupado: “O inimigo verdadeiro era um só no leste.” [7] Hitler simplesmente não queria esperar muito antes de realizar a grande ambição de sua vida, isto é, antes de destruir o país que ele havia definido como seu arqui-inimigo no Mein Kampf. Além disso, ele sabia que os soviéticos estavam freneticamente preparando suas defesas para um ataque alemão que, como eles sabiam muito bem, viria cedo ou tarde. Desde que a União Soviética estava ficando mais forte a cada dia, o tempo não estava obviamente ao lado de Hitler. Quanto tempo mais ele poderia esperar antes que a “janela da oportunidade” fechasse?

Ademais, estabelecendo uma Blitzkrieg contra a União Soviética prometia fornecer à Alemanha os recursos virtualmente ilimitados daquele enorme país, incluindo o trigo ucraniano para alimentar a população da Alemanha em tempos de guerra; minerais como o carvão, a partir do qual borracha sintética e petróleo poderiam ser produzidos; e – o último, mas não menos importante! – os ricos campos de petróleo de Baku e Grozny, onde os beberrões Panzers e Stukas seriam capazes de abastecer seus tanques até o final a qualquer hora. Fortalecido com esses materiais, seria algo simples para Hitler acertar contas com a Grã-Bretanha, começando, por exemplo, com a captura de Gibraltar. A Alemanha finalmente seria uma verdadeira potência mundial, invulnerável dentro da “fortaleza” europeia, indo do Atlântico até os Urais, possuindo recursos ilimitados e, portanto, capaz de ganhar mesmo guerras longas e arrastadas contra qualquer antagonista – incluindo os EUA! – em uma futura “guerra de continentes”, imaginada pela mente fantasiosa de Hitler.

Hitler e seus generais estavam confiantes de que a Blitzkrieg que eles prepararam para lançar contra a União Soviética seria tão bem sucedida quanto sua anterior “guerra relâmpago” contra a Polônia e a França havia sido. Eles consideraram a União Soviética como “um gigante com pés de barro”, cujo exército, presumivelmente decapitado pelos expurgos de Stalin no final dos anos 1930, era “não mais do que uma piada”, como o próprio Hitler disse em uma ocasião. [8] Para lutar, e é claro ganhar, batalhas decisivas, eles estabeleceram uma campanha de quatro a seis semanas, possivelmente sendo seguidas por algumas operações de limpeza, durante as quais os remanescentes da horda soviética “seriam cassados através do país como um bando de Cossacos derrotados.” [9] Em qualquer evento, Hitler sentiu-se totalmente confiante, e na véspera do ataque, ele “imaginava-se estar à beira do maior triunfo de sua vida". [10]

(Em Washington e Londres, os especialistas militares também acreditavam que a União Soviética não seria capaz de impor resistência significativa ao juggernauta (N. do T.: em inglês coloquial, refere-se a uma força impiedosamente destrutiva e imparável), cujas conquistas militares de 1939-40 resultaram em uma reputação de invencibilidade. Os serviços secretos britânicos estavam convencidos de que a União Soviética seria “liquidada entre oito e dez semanas,” e o Marechal-de-Campo Sir John Dill, chefe do Staff Geral Imperial, declarou que a Wehrmacht avançaria sobre o Exército Vermelho “como uma faca quente através da manteiga,” que o Exército Vermelho seria cercado “como gado”. De acordo com um especialista em Washington, Hitler “esmagaria a Rússia como um ovo.”) [11]

O ataque alemão começou em 22 de junho de 1941, nas primeiras horas da manhã. Três milhões de soldados alemães e quase 700.000 aliados da Alemanha Nazista atravessaram a fronteira, e seu equipamento consistia de 600.000 veículos motorizados, 3.648 tanques, mais de 2.700 aviões e mais de 7.000 peças de artilharia. [12] No começo, tudo transcorreu de acordo com o plano. Buracos enormes foram abertos nas defesas soviéticas, ganhos territoriais impressionantes foram feitos rapidamente e centenas de milhares de soldados do Exército Vermelho foram mortos, feridos ou feitos prisioneiros em um número de espetaculares “batalhas de cerco” (Kesselschlachten). Após uma dessas batalhas, lutada nas vizinhanças de Smolensk no final de julho, a estrada para Moscou parecia estar livre.

Entretanto, logo tornou-se evidente que a Blitzkrieg no leste não seria a moleza que havia sido esperada. Enfrentando a maior máquina militar do mundo, o Exército Vermelho previsivelmente levou uma surra maior, mas, como o ministro da propaganda Joseph Goebbels confidenciou ao seu diário tão cedo quanto 02 de julho, também impos uma resistência forte em mais de uma ocasião. O general Franz Halder, em muito sentido o “padrinho” do plano de ataque da Operação Barbarossa, percebeu que a resistência soviética era mais forte do que qualquer coisa que os alemães enfrentaram na Europa Ocidental. Os relatórios da Wehrmacht citaram resistência “dura”, “valente” e mesmo “selvagem”, provocando altas perdas em homens e equipamentos no lado alemão. [13] Mais frequente do que o esperado, as forças soviéticas trabalharam para lançar contra-ataques que retardavam o avanço alemão. Algumas unidades soviéticas esconderam-se nos vastos pântanos Pripet e em outros locais, organizaram guerrilha mortal e ameaçaram as longas e vulneráveis linhas de comunicaçãoalemãs. [14] também revelou-se que o Exército Vermelho estava melhor equipado do que o esperado. Os generais alemães estavam “espantados”, escreve um historiador alemão, pela qualidade das armas soviéticas, tais como o lançador de foguetes Katyusha (apelidado “Orgão de Stalin”) e o tanque T-34. Hitler ficou furioso que seus serviços secretos não estivessem cientes da existência de tal armamento. [15]

A grande causa de preocupação, tanto quanto os alemães estavam preocupados, era o fato de que o grosso do Exército Vermelho conseguiu retirar-se de maneira relativamente ordeira e criaram a ilusão de uma grande Kesselschlacht, o tipo de repetição de Cannae ou Sedan que Hitler e seus generais haviam sonhado. Os soviéticos parecem ter observado e analisado cuidadosamente os sucessos da Blitzkrieg alemã de 1939 e 1940 e aprenderam lições úteis. Eles devem ter notado que em maio de 1940, os franceses concentraram suas tropas direto na fronteira assim como na Bélgica, assim tornando possível para a máquina de guerra alemã cercá-las em uma grande  Kesselschlacht. (As tropas britânicas também foram pegas num cerco, mas escaparam por Dunquerque.) Os soviéticos deixaram algumas tropas na fronteira, é claro, e estas tropas previsivelmente sofreram as maiores perdas da União Soviética durante os estágios iniciais da Operação Barbarossa. Mas – contrariamente do que é afirmado por historiadores como Richard Overy [16] – o grosso do Exército Vermelho foi mantido na retaguarda, evitando a armadilha. Foi esta “defesa em profundidade” que frustrou a ambição alemã de destruir totalmente o Exército Vermelho. Como o Marechal Zhukov escreveu em suas memórias, “a União Soviética teria rechassado se tivessemos organizado todas as nossas forças na fronteira.” [17]

Em meados de julho, como a guerra de Hitler no leste começou a perder suas qualidades de Blitz, alguns líderes alemães começaram a expressar grandes preocupações. O Almirante Wilhelm Canaris, chefe do Serviço Secreto da Wehrmacht, a Abwehr, por exemplo, confidenciou a um colega no front em 17 de julho, o general von Bock, que ele não via “nada exceto a escuridão.” No front doméstico, muitos civis alemães também expressaram o sentimento de que a guerra no leste não estava indo bem.Em Dresden, Victor Klemperer escreveu em seu diário em 13 de julho: “Sofremos perdas imensas, subestimamos os russos...” [18] Na mesma época, Hitler abandonou sua crença em uma vitória rápida e fácil e diminuiu suas expectativas; ele agora expressava a esperança de suas tropas atingissem o Volga por outubro e capturassem os campos de petróleo do Cáucaso um mês mais tarde. [19] No final de agosto, quando a Barbarossa deveria estar em suas etapas finais, um memorando do Alto Comando da Wehrmacht (Oberkommando der Wehrmacht, OKW) afirmava que não seria mais possível ganhar a guerra em 1941. [20]

Um grande problema era o fato de que, quando a Barbarossa começou em 22 de junho, os estoques disponíveis de combustível, pneus, peças de reposição, etc., eram bons o suficiente para cerca de dois meses. Isto era suposto suficiente, pois era esperado que dentro de dois meses, a União Soviética estaria de joelhos e seus recursos ilimitados – produtos industriais assim como matérias-primas – estariam disponíveis aos alemães. [21] Entretanto, no final de agosto, as pontas de lança alemãs estavam próximas daquelas regiões distantes da União Soviética onde o petróleo, o mais precioso de todos os commodities militares, onde ele deveria estar. Se os tanques conseguiram continuar rodando, embora cada vez mais lentamente, pelas extensões intermináveis dos territórios russo e ucraniano foi em grande parte graças ao petróleo e borracha importados, via Espanha e França ocupada, dos EUA. A parte americana das importações da Alemanha do importante óleo de lubrificação de motor (Motorenöl), por exemplo, cresceu rapidamente durante o verão de 1941, precisamente, de 44% em julho para não menos que 94% em setembro.

As chamas do otimismo voltaram a aparecer em setembro, quando as tropas alemãs capturaram Kiev, conseguindo 650.000 prisioneiros e, ao norte, fizeram progressos na direção de Moscou. Hitler acreditava, ou pelo menos parecia acreditar, que o fim agora estava próximo para os soviéticos. Em um discurso público no Palácio dos Esportes de Berlim em 3 de outubro, ele declarou que a guerra no leste estava praticamente encerrada. E foi ordenado à Wehrmacht dar o coup de grace (N. do T.: golpe de misericórdia) ao criar a Operação Tufão (Unternehmen Taifun), uma ofensiva projetada para tomar Moscou. Entretanto, as chances de sucesso pareciam gradativamente menores, pois os soviéticos estavam trazendo de volta unidades reservas do Oriente Distante. (Eles haviam sido informados pelo seu espião mestre em Tóquio, Richard Sorge, que os japoneses, cujo exército estava estacionado no norte da China, não estavam mais considerando atacar as fronteiras vulneráveis dos soviéticos na área de Vladivostok.) Para tornar as coisas ainda piores, os alemães não dispunham mais de superioridade aérea, particularmente sobre Moscou. Analogamente, suprimentos insuficientes de munição e alimentos poderiam ser trazidos da retaguarda do front, já que as longas linhas de suprimentos foram severamente danificadas pela atividade partisan. [23] Finalmente, estava ficando frio na União Soviética, apesar de não mais gelado do que o usual naquela época do ano. Mas o alto comando alemão, confiante que sua Blitzkrieg oriental estaria concluída pelo final do verão, falhou em fornecer às tropas o equipamento necessário para lutar na chuva, pântano, neve e temperaturas congelantes de um outono e inverno russos.

Tomar Moscou pareceu um objetivo extremamente importante nas mentes de Hitler e seus generais. Acreditava-se, erroneamente, que a queda de Moscou “decapitaria” a União Soviética e, assim, traria seu colapso. Parecia também importante evitar a repetição do cenário do verão de 1914, quando o avanço alemão aparentemente imparável foi segurado nos limites orientais de Paris, durante a Batalha do Marne. Este desastre – da perspectiva alemã – roubou da Alemanha a vitória certa nos estágios iniciais da “Grande Guerra” e forçou-a a uma luta longa e arrastada que, devido à falta de recursos provocada pelo bloqueio da Marinha Britânica, conduziu-a à derrota. Desta vez, em uma nova Grande Guerra, lutada contra um novo arqui-inimigo, a União Soviética, não deveria haver nenhum “Milagre do Marne”, isto é, nenhuma derrota próximo da capital, e a Alemanha não teria que lutar novamente, portanto, sem recursos e isolada economicamente, um conflito longo e arrastado, que estaria condenada a perder. Diferentemente de Paris, Moscou cairia, a história não se repetiria e a Alemanha seria vitoriosa. [24] Ou assim se pensava no quartel-general de Hitler.

A Wehrmacht continuou a avançar, apesar de lentamente, e por volta de meados de novembro algumas unidades chegaram a 30 km da capital. Mas as tropas estavam agora totalmente exaustas, e sem suprimentos. Seus comandantes sabiam que seria simplesmente impossível tomar Moscou, tentadoramente próximas da cidade e mesmo assim impossível de chegar à vitória. Em 3 de dezembro, um número de unidades abandonaram a ofensiva por sua própria iniciativa. Em poucos dias, contudo, todo o exército alemão em frente a Moscou foi simplesmente forçado à uma posição defensiva. De fato, em 5 de dezembro, às 03 horas da manhã, em condições de frio e nevasca, o Exército Vermelho de repente lançou um contra-ataque de grandes proporções e bem preparado. As linhas da Wehrmacht foram perfuradas em muitos lugares e os alemães foram recuados entre 100 e 280 km com pesadas perdas de homens e equipamentos. Foi somente com grande dificuldade que um cerco catastrófico (Einkesselung) foi evitado. Em 8 de dezembro, Hitler ordenou que seu exército abandonasse a ofensiva e se movesse para posições defensivas. Ele culpou este revés pela chegada supostamente precoce do inverno, mas recusou-se a recuar ainda mais, como alguns de seus generais sugeriram, e propôs atacar novamente na primavera. [25]

Isto terminou com a Blitzkrieg de Hitler contra a união Soviética, a guerra que, se tivesse sido vitoriosa, teria realizado a grande ambição de sua vida, a destruição da União Soviética. Mais importante, pelo menos de nossa perspectiva atual, tal vitória teria dado à Alemanha Nazista suficiente petróleo e outros recursos para torná-la virtualmente uma potência mundial invulnerável. Como tal, a Alemanha Nazista teria provavelmente sido capaz de derrotar os teimosos britânicos, mesmo se os EUA tivessem saído em socorro de seu primo anglo-saxão, que incidentalmente não estava ainda envolvido no conflito no começo de dezembro de 1941. A Blitzsieg, isto é, a rápida vitória contra a União Soviética, então, era suposta ter feito uma derrota alemã impossível, e a teria provavelmente conseguido. (É provavelmente correto afirmar que se a Alemanha Nazista tivesse derrotado a União Soviética em 1941, ela seria ainda hoje a potência hegemônica da Europa e, possivelmente, do Oriente Médio e do Norte da África também.) Entretanto, a derrota na Batalha de Moscou em dezembro de 1941 significou que a Blitzkrieg de Hitler não produziu a tão esperada Blitzsieg. Na nova “Batalha do Marne”, a oeste de Moscou, a Alemanha Nazista sofreu a derrota que tornou a vitória impossível, não somente a vitória contra a própria União Soviética, mas também contra a Grã-Bretanha, a vitória na guerra em geral.
 

[1] Gerd R. Ueberschär, „Das Scheitern des ‚Unternehmens Barbarossa‘“, in Gerd R. Ueberschär and Wolfram Wette (eds.), Der deutsche Überfall auf die Sowjetunion: “Unternehmen Barbarossa” 1941, Frankfurt am Main, 2011, p. 120.

[2] Rolf-Dieter Müller, Der Feind steht im Osten: Hitlers geheime Pläne für einen Krieg gegen die Sowjetunion im Jahr 1939, Berlin, 2011.

[3] Cited in Müller, op. cit., p. 152.

[4] Jacques R. Pauwels, The Myth of the Good War: America in the Second World War, James Lorimer, Toronto, 2002, pp. 33, 37.

[5] Lieven Soete, Het Sovjet-Duitse niet-aanvalspact van 23 augustus 1939: Politieke Zeden in het Interbellum, Berchem [Antwerp], Belgium, 1989, pp. 289-290, including footnote 1 on p. 289.

[6] See e.g. Gerd R. Ueberschär, “Hitlers Entschluß zum ‘Lebensraum’-Krieg im Osten: Programmatisches Ziel oder militärstrategisches Kalkül?,” in Gerd R. Ueberschär and Wolfram Wette (eds.), Der deutsche Überfall auf die Sowjetunion: “Unternehmen Barbarossa” 1941, Frankfurt am Main, 2011, p. 39.

[7] Müller, op. cit., p. 169.

[8] Ueberschär, “Das Scheitern...,” p. 95.

[9] Müller, op. cit., pp. 209, 225.

[10] Ueberschär, “Hitlers Entschluß...”, p. 15.

[11] Pauwels, op. cit., p. 62; Ueberschär, „Das Scheitern…,“ pp. 95-96; Domenico Losurdo, Stalin: Storia e critica di una leggenda nera, Rome, 2008, p. 29.

[12] Müller, op. cit., p. 243.

[13] Richard Overy, Russia’s War, London, 1997, p. 87.

[14] Ueberschär, “Das Scheitern...“, pp. 97-98.

[15] Ueberschär, “Das Scheitern...“, p. 97; Losurdo, op. cit., p. 31.

[16] Overy, op. cit., pp. 64-65.

[17] Grover Furr, Khrushchev Lied : The Evidence That Every ‘Revelation’ of Stalin’s (and Beria’s) ‘Crimes’ in Nikita Khrushchev’s Infamous ‘Secret Speech’ to the 20th Party Congress of the Communist Party of the Communist Party of the Soviet Union on February 25, 1956, is Provably False, Kettering/Ohio, 2010, p. 343: Losurdo, op. cit., p. 31; Soete, op. cit., p. 297.

[18] Losurdo, op. cit., pp. 31-32.

[19] Bernd Wegner, “Hitlers zweiter Feldzug gegen die Sowjetunion: Strategische Grundlagen und historische Bedeutung“, in Wolfgang Michalka (ed.), Der Zweite Weltkrieg: Analysen – Grundzüge – Forschungsbilanz, München and Zurich, 1989, p. 653.

[20] Ueberschär, “Das Scheitern...“, p. 100.

[21] Müller, op. cit., p. 233.

[22] Tobias Jersak, “Öl für den Führer,“ Frankfurter Allgemeine Zeitung, February 11, 1999. Jersak used a “top secret” document produced by the Wehrmacht Reichsstelle für Mineralöl, now in the military section of the Bundesarchiv (Federal Archives), file RW 19/2694.

[23] Ueberschär, “Das Scheitern...“, pp. 99-102, 106-107.

[24] Ueberschär, “Das Scheitern...“, p. 106.

[25] Ueberschär, “Das Scheitern...,” pp. 107-111; Geoffrey Roberts, Stalin`s Wars from World War to Cold War, 1939-1953, New Haven/CT and London, 2006, p. 111.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

CIA x KGB: A Espionagem a Serviço das Superpotências

O surgimento da CIA: Nas garras da águia

Criada no início da Guerra Fria, a CIA se especializou em sabotar e derrubar governos. Conheça sete casos em que a agência mudou os rumos da história - nem sempre do jeito que ela tinha planejado

Tiago Cordeiro | 01/02/2008

 
Quando a Segunda Guerra acabou, em 1945, os americanos tinham mostrado ao mundo o alcance de seu poderio militar, selando o destino da Alemanha nazista na Europa e tirando o Japão de combate no Pacífico. Por trás desse sucesso, entretanto, se escondia uma perigosa fraqueza. Enquanto os soldados dos Estados Unidos haviam vencido no campo de batalha, os espiões americanos tinham colecionado fracassos, mostrando-se muito inferiores aos agentes britânicos, russos e alemães. Para um país que pretendia conter a crescente influência da União Soviética, era preciso investir num recurso decisivo: informação.

Foi pensando nisso que o presidente americano Harry Truman criou a Agência Central de Inteligência, a CIA (sigla para Central Intelligence Agency), em 1947. Tudo o que ele queria era saber o que acontecia nos países do bloco socialista. A missão incluía, é claro, infiltrar agentes na União Soviética. Mas os diretores da agência logo perceberam que isso era quase impossível – há alguns anos, Richard Helms, diretor da CIA entre 1966 e 1973, chegou a declarar que, naquela época, colocar e manter um espião em Moscou era tão difícil quanto mandar um homem para Marte.


 
Incapaz de vigiar de perto os rivais da Guerra Fria, os diretores da CIA ampliaram o ramo de atuação da agência. Em vez de se concentrar apenas em investigações, ela passou a intervir diretamente na política de diversos países, sempre procurando destruir qualquer possibilidade de aproximação com Moscou. A primeira intervenção bem-sucedida foi o financiamento do partido Democrata Cristão nas eleições italianas de 1948, para bloquear a ascensão da esquerda na Itália. Em pouco tempo, a CIA estaria apoiando grupos rebeldes e desestabilizando governos por todos os cantos do mundo.

“A agência deveria ser a cura para uma fraqueza crônica: a capacidade de guardar segredo e usar disfarces nunca foi nosso forte”, afirma o jornalista americano Tim Weiner em Legacy of Ashes (“Legado de cinzas”, inédito no Brasil), livro que conta a trajetória da CIA lançado recentemente nos Estados Unidos. “Quando a compreensão falhou, os presidentes do país ordenaram que a CIA mudasse o curso da história à força, por meio de operações clandestinas.” E assim foi. A seguir, você vai conhecer melhor sete momentos em que a agência foi capaz de mudar o mundo. E perceber que as mudanças nem sempre aconteceram do jeito que o governo americano desejava.

A arte de criar inimigos

O alvo da primeira intervenção militar da CIA foi o primeiro-ministro do Irã, Mohammed Mossadegh. Depois de assumir o poder, em 1951, ele propôs a nacionalização das companhias petrolíferas. A proposta irritou profundamente os ocidentais que lucravam com o petróleo iraniano. Nos Estados Unidos, Dwight Eisenhower assumiu a presidência em 1953 e encomendou à CIA a Operação Ajax, cujo objetivo era a deposição de Mossadegh. A ação ficou a cargo de Kim Roosevelt, chefe da divisão da agência no Oriente Médio e neto do ex-presidente Franklin Roosevelt. Com 1 milhão de dólares, ele iniciou uma campanha contra o premiê.

Contratadas pelos americanos, multidões de pessoas, em especial jovens religiosos, foram às ruas pedir a queda de Mossadegh – a agência fornecia a elas dinheiro e infra-estrutura (como carros e escritórios). Ao mesmo tempo, outros grupos, compostos por pessoas humildes, foram contratados pela CIA para fazer manifestações que vinculassem a imagem do premiê a Moscou – com palavras de ordem como “Eu amo Mossadegh e o comunismo”. A um preço de 150 mil dólares, os jornais passaram a criticar o primeiro-ministro. O problema é que o líder dos golpistas, o general Fazlollah Zahedi, não reuniu o apoio necessário.

No dia do golpe, 7 de julho, tudo saiu errado: os dissidentes foram presos e Mossadegh se manteve no poder. Mas Kim Roosevelt não desistiu. Em 19 de agosto, ele e um grupo de religiosos, liderados pelos aiatolás Ahmed Kashani e Ruhollah Khomeini, levaram centenas de pessoas armadas às ruas. O ataque à guarda de Mossadegh custou 200 vidas. Dessa vez o premiê não resistiu. Em seu lugar, assumiu Zahedi. “Gerações de iranianos cresceram sabendo que o governo americano tinha interferido em sua soberania. No médio prazo, essa ação foi péssima para a imagem dos Estados Unidos no Oriente Médio”, afirma Tim Weiner em seu livro.

O golpe mais duro contra os americanos veio em 1979. Foi quando o aiatolá Khomeini liderou a revolução que transformou o Irã em uma república islâmica. No mesmo ano, Khomeini deteve 52 americanos na embaixada dos Estados Unidos em Teerã. Eles só foram libertados após 444 dias – durante os quais a CIA participou de diversas ações de resgate malsucedidas. Meio século após a intervenção planejada pela agência, o Irã é uma enorme pedra no sapato da política externa americana.

Um golpe exemplar

Jacobo Arbenz Guzmán assumiu a presidência da Guatemala em 1951 e, apesar de não ser um aliado declarado da União Soviética, iniciou um projeto de nacionalização de empresas. Foi o suficiente para que ele se transformasse em motivo de inquietação nos corredores da CIA. Com o sucesso do golpe contra o premiê do Irã, em 1953, Guzmán se tornou a bola da vez. “Na maior parte dos casos, as ações da agência foram e são motivadas diretamente pelo presidente. No Irã, por exemplo, a ordem de Eisenhower foi muito clara. No caso da Guatemala, entretanto, a iniciativa da CIA foi preponderante. Nada teria acontecido sem o interesse da agência”, diz o historiador especializado na CIA John Prados, autor do livro Safe for Democracy: The Secret Wars of the CIA (“Seguro para a democracia: as guerras secretas da CIA”, sem tradução no Brasil). Desde o primeiro momento, a agência já sabia quem gostaria de ver no poder no lugar de Guzmán: o coronel Carlos Castillo Armas.

Em dezembro de 1953, começou a Operação Sucesso, orçada em 3 milhões de dólares. O dinheiro bancou a construção de campos de treinamento para militantes pró-Castillo. Em 18 de junho de 1954, o general e umas poucas centenas de guerrilheiros, usando armamento de idade e qualidade variável (incluindo rifles com símbolos nazistas que haviam sido usados na Segunda Guerra), derrotaram os 5 mil homens do Exército do país. Em 8 de julho, Castillo assumiu o poder. Começavam ali quatro décadas de revoluções e ditaduras, que provocariam a morte de 200 mil civis.

Mais até do que a ação no Irã, a operação na Guatemala tornou-se o maior modelo de conduta da agência americana. “No Irã ainda aconteceram alguns erros de avaliação, e a CIA contou com alguma sorte. Na Guatemala, a estratégia foi aplicada de forma impecável”, diz John Prados. “A proposta de dar dinheiro, armas e treinamento para grupos de oposição, somada a uma campanha de formação de opinião pública contra o presidente a ser deposto, funcionou ali tão bem que se tornou referência para todas as vezes em que a agência quis interferir na política externa de algum país. O padrão seria seguido à risca, por exemplo, no Chile.”

Rei posto, rei morto

Foi sob as bênçãos americanas que Ngo Dinh Diêm, primeiro presidente do Vietnã do Sul, chegou ao poder em 1955. Afinal, ele deveria fazer frente ao governo comunista do Vietnã do Norte – o país estava dividido em dois desde que a Primeira Guerra da Indochina, no ano anterior, colocara fim a quase um século de ocupação francesa. O governo de Diêm, entretanto, foi uma catástrofe. Católico (em um país em que 90% da população era budista), perdulário e apoiado por uma polícia secreta adepta da tortura, ele provocou a ira de grupos religiosos budistas e de setores do Exército, que organizaram dois golpes de Estado contra ele, em 1960 e em 1962.

No ano seguinte, o governo americano decidiu apoiar um novo presidente. Diêm foi convidado a se afastar do cargo e procurar exílio em território americano, mas se recusou a deixar o poder e, de aliado, passou a ser alvo de Washington. Ainda em 1963, um golpe liderado pelo general Tran van Don com apoio da CIA levou um grupo rebelde a cercar Diêm dentro de seu palácio. Ele escapou, mas no dia seguinte, 2 de novembro, negociou a rendição. O presidente se entregou pacificamente, mas foi imediatamente executado.

A versão oficial de que Diêm havia cometido suicídio não convenceu, e a agência americana foi acusada de ter apertado o gatilho. “Não acredito que a CIA tenha sido diretamente responsável pelo assassinato do presidente. Mas ela deu suporte operacional, e o governo americano vinha sinalizando que daria apoio ao sucessor de Diêm. Essas duas atitudes pavimentaram o assassinato”, afirma Malcolm Byrne, diretor de pesquisa do National Security Archive, em Washington.

Mesmo com o apoio americano, nenhum outro governante do Vietnã do Sul conseguiria estabilidade política. Logo as duas metades do país mergulhariam num conflito que custaria a vida de cerca de 3 milhões de vietnamitas e tragaria também os Estados Unidos. Entre 1965 e 1973, a Guerra do Vietnã matou 58 mil americanos e feriu outros 300 mil. À CIA, restou monitorar a carnificina. “Durante a Guerra do Vietnã, a postura da agência foi impecável. Seus relatórios sobre o fracasso do esforço militar americano em atingir com seriedade o exército de Ho Chi Mihn [o líder do Vietnã do Norte] são alguns dos textos analíticos mais corajosos escritos sobre o assunto no período”, afirma Byrne.

Dez milhões contra um

“Não vejo por que devemos deixar um país se tornar marxista só porque seus cidadãos são irresponsáveis.” Em junho de 1970, foi assim que Henry Kissinger, então conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, justificou reservadamente a liberação de uma parcela de 165 mil dólares para que a CIA continuasse sustentando uma violenta campanha de difamação contra Salvador Allende. Candidato à presidência do Chile, o socialista contava com grande apoio popular, e os americanos temiam que sua vitória nas eleições fizesse com que o Chile se tornasse aliado da União Soviética.

Apesar de todos os esforços, a campanha não funcionou: Allende foi eleito em 4 de setembro de 1970. Dez dias depois, Kissinger liberou outros 250 mil dólares para ações contra o presidente. O chefe da CIA no Brasil, David Atlee Phillips, veterano do golpe de Estado orquestrado pela agência na Guatemala, foi convocado para coordenar a derrubada de Allende. Além de uma campanha de convencimento da imprensa e dos formadores de opinião chilenos, em 1972 começaram a acontecer atentados contra indústrias nacionalizadas pelo governo. Nessa época, militares com tendências políticas de direita já tinham recebido um bocado de armamento e treinamento dos americanos. Em 11 de setembro de 1973, Allende se viu cercado por uma parcela de seu Exército no palácio presidencial e se matou com um tiro de rifle (um AK-47 que ele supostamente teria ganhado de presente de Fidel Castro).

A queda de Allende custou 10 milhões de dólares – toda essa ajuda havia sido enviada por baixo do pano, já que, no início da década de 70, a CIA não precisava prestar contas sobre como usava seu dinheiro. Quem assumiu o poder foi Augusto Pinochet, que mantinha contato direto com o escritório da CIA em Washington. Depois do fim de seu governo, em 1990, soube-se que a atuação da agência não acabara com o golpe: vários agentes da CIA foram acusados de participação em episódios de tortura que provocaram a morte de 3200 pessoas no Chile. Por toda a América Latina, incluindo o Brasil, a agência se preocupava em manter a direita no poder – e a esquerda longe dele. O sucesso no Chile demonstrou de uma vez por todas a capacidade americana de moldar a situação política do continente à sua imagem e semelhança.

Da glória às trevas

Em 11 de fevereiro de 1979, Adolph Dubs, embaixador americano no Afeganistão, foi seqüestrado por um grupo de rebeldes muçulmanos. Ele acabou sendo morto três dias depois, durante a operação policial de resgate. O episódio ilustra bem o caos em que o país estava metido, no meio de uma revolução islâmica. Para completar o cenário – e aumentar a preocupação dos Estados Unidos –, a União Soviética se preparava para invadir o Afeganistão.

Enquanto 30 mil soldados de Moscou se aproximavam da fronteira, um relatório da CIA ao presidente Jimmy Carter afirmava: “Os soviéticos estão relutantes em empregar muitas forças de terra no Afeganistão”. Quando a invasão se tornou óbvia, a agência começou a mobilizar agentes de seus escritórios na Ásia para apoiar as tropas de resistência. Até 1988, quando os russos se retiraram do Afeganistão, nada menos que 250 milhões de dólares haviam saído das contas da CIA para as mãos dos rebeldes. “O apoio à resistência afegã foi um dos poucos momentos da história da agência em que ela se mostrou capaz de, indiretamente, minar o poder soviético”, afirma o historiador David Barrett, da universidade de Villanova, nos Estados Unidos. “O atoleiro do Afeganistão teve um grande peso no contexto da decadência da URSS.”

Embora aparentemente tenha contribuído para o fim da União Soviética, a atuação da CIA no Afeganistão teve um lado amargo para os americanos. Enquanto resistiam aos russos, os grupos islâmicos apoiados pela agência tiveram a participação de um milionário saudita chamado Osama bin Laden. Em sinal de gratidão, nos anos 90, ele ganhou abrigo no Afeganistão. A partir dali, planejou uma série de atentados contra os Estados Unidos – que culminaram na derrubada do World Trade Center, em Nova York, em 2001.

A CIA se empenhou em perseguir o ex-aliado a partir de 1996. “Tivemos Bin Laden na mira por duas vezes em 1997. Nós sabíamos onde ele estava e por onde ia passar”, afirma Michael Schauer, que na época dirigia a unidade da CIA que caçava o terrorista. “Mas o presidente Bill Clinton não nos autorizou a matá-lo. Ele achava que Bin Laden era uma referência muito importante para o mundo islâmico e não queria comprar essa briga.” Depois disso, a CIA nunca mais foi capaz de localizá-lo.

Relações perigosas

A família Somoza permaneceu 43 anos no comando da Nicarágua. Em julho de 1979, entretanto, a ditadura foi derrubada pelos rebeldes do Partido Sandinista. Um ano e meio depois, ao assumir a presidência dos Estados Unidos, Ronald Reagan declarou que o governo sandinista (que tinha como um dos líderes Daniel Ortega, o atual presidente da Nicarágua) estava se aproximando demais de Cuba e ajudando a financiar revoltas comunistas na América Latina. Autorizada por Reagan, a CIA deu apoio a um grupo de anti-sandinistas, que logo cresceu e ficou conhecido como Contras. Até 1989, o confronto entre eles e as forças do governo deixaria um saldo de cerca de 30 mil mortos.

Descrita assim, a ação na Nicarágua parece seguir o roteiro básico das intervenções da CIA. Mas, dessa vez, a agência estava contrariando o Congresso americano. Desde 1973, havia uma comissão parlamentar para monitorar atividades secretas realizadas a mando do poder Executivo. Em 1981, quando a autorização para agir na Nicarágua se tornou pública, o Congresso aprovou uma lei proibindo a CIA de financiar os Contras.

Enquanto isso, longe da América Latina, Irã e Iraque estavam em guerra. “O governo americano estava financiando abertamente o Iraque, mas também queria apoiar o Irã, na esperança de que os dois países se exaurissem”, diz o historiador David Barrett. Em 1982, o clima no Oriente Médio azedou de vez: apoiado pelos Estados Unidos, Israel invadiu o Líbano. Em represália, grupos libaneses seqüestraram 12 cidadãos americanos entre 1982 e 1985. Reagan tinha pressa em libertá-los.

Diante desse cenário, a CIA resolveu matar três coelhos com uma paulada só. Organizou um esquema de tráfico de armas para o Irã. Em troca, os iranianos deveriam convencer os libaneses a soltar os reféns. Do dinheiro obtido com a venda das armas, parte era depositada pela CIA em contas na Suíça. Lá, os recursos ficavam à disposição dos Contras da Nicarágua. Quando descoberto, em 1986, o esquema Irã-Contras provocou o maior escândalo da história da CIA. “A agência esteve perto de desaparecer”, afirma Barrett. Só oito reféns foram soltos – os outros foram assassinados, incluindo William Buckley, diretor do escritório da CIA no Líbano. O fim do conflito Irã-Iraque, em 1988, não trouxe benefícios para os Estados Unidos. Já os sandinistas continuaram no poder até 1990. “A partir do episódio Irã-Contras, a CIA teve muito mais dificuldade em derrubar presidentes”, diz o historiador. “Os países malvistos pelos americanos puderam respirar mais tranqüilos.”

Chute para fora

“O Iraque é o lugar mais perigoso do mundo.” A frase soa atual, mas está completando 50 anos. Foi com ela que Allen Dulles, então diretor da CIA, começou uma reunião em 1958. Estava assustado com o golpe de Estado de 14 de julho daquele ano, que havia derrubado a monarquia iraquiana, aliada dos Estados Unidos. O poder passou às mãos de Abdul Karim Qasim. Em 1963, veio o troco: a agência apoiou o golpe que colocou o general Abdul Salam Arif no governo. Ele morreu em 1966 e deu lugar a seu irmão, que, dois anos depois, foi deposto por Ahmed Hassan al-Bakr. Inicialmente apoiado pela CIA, ele acabou se aproximando da União Soviética.

No decorrer da década de 70, entretanto, Al-Bakr foi perdendo influência para seu vice-presidente, Saddam Hussein, que assumiu o poder em 1979. Saddam era visto pelos americanos como um aliado útil, embora não muito confiável. Entre 1980 e 1988, ele obteve polpudos empréstimos americanos para sustentar a guerra contra o Irã. Quando resolveu invadir o Kuwait, em 1990, Saddam já não contava com a simpatia dos americanos. A ação contra o vizinho e seus campos de petróleo foi uma provocação inaceitável. Uma coalizão liderada pelos Estados Unidos atacou o Iraque em janeiro de 1991 e derrotou as forças de Saddam antes do fim de fevereiro.

O presidente iraquiano, entretanto, seguiu no poder. Em janeiro de 2002, o diretor da CIA, George Tenet, recebeu a missão de provar que o ditador armazenava “armas de destruição em massa” no Iraque. O objetivo era torná-lo um alvo da Guerra Contra o Terror lançada pelo governo de George W. Bush. O país foi atacado em 2003, viveu momentos de guerra civil e segue ocupado pelos americanos. Saddam foi caçado, julgado e executado. E as tais armas nunca apareceram. “É verdade que Saddam alimentava a ilusão de que tinha as armas. Mas Tenet forçou a mão com base em informações que não tinha, torcendo para que depois o Exército encontrasse as armas”, escreve Tim Weiner. O erro custou a demissão de Tenet e uma nova quebra na relação de confiança entre a agência e a presidência. “Por causa do terrorismo, a agência nunca teve tanto dinheiro à disposição”, diz o historiador John Prados. “Mas dinheiro não é tudo. A CIA ainda precisa recuperar a fé da Casa Branca.”


 
KBG: Guerra fria e suja

Os bastidores de uma disputa que reúne espionagem, corrupção e assassinatos em 90 anos de história dos serviços secretos soviéticos e da temida KGB

Sérgio Miranda | 08/12/2009

 
Em 20 de agosto de 1940, o espanhol Ramón Mercader entrou em uma sala da casa de Leon Trotski, nos arredores da Cidade do México. Caminhou calmamente na direção do líder russo e acertou sua cabeça com uma picareta de alpinismo. Quando os guarda-costas partiram para cima de Mercader, ouviram o patrão gritar: "Não o matem! Esse homem tem uma história para contar". Trotski morreu no dia seguinte. Durante seu julgamento, o assassino testemunhou: "Pousei o casaco na mesa de forma a poder tirar a picareta que estava no bolso. Decidi não perder a grande oportunidade que surgiu. No momento em que Trotski começou a ler um artigo, deu-me a oportunidade: tirei a picareta do casaco, segurei-a firme na mão e, de olhos fechados, dei-lhe um golpe terrível na cabeça". Difícil acreditar que ele tenha dito isso nesses termos. Mas assim foi anotado pela Justiça mexicana e entrou para os anais da História. Embora tenha ocorrido no México e o assassino fosse nascido na Espanha, a ação tinha autoria clara: o NKVD, o serviço secreto da União Soviética. A entidade ainda não se chamava KGB, mas já dava mostras de sua capacidade de eliminar os inimigos do Estado soviético. Nas décadas seguintes, os espiões ampliariam o raio de ação: no lugar de resolver apenas questões internas, a KGB passaria a atuar em disputas diplomáticas, políticas, militares e econômicas de muitas outras nações, inimigas ou parceiras. O braço mais obscuro, eficiente e violento do regime comunista da URSS também mudaria os rumos do planeta durante a Guerra Fria.

O mais temido e famoso de todos os serviços secretos soviéticos começou a nascer ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Rapidamente, a celebração da vitória deu lugar a um racha entre os aliados. A Guerra Fria dividiu o mundo em dois blocos, liderados por americanos e soviéticos. Nesse novo ambiente, que de frio mesmo só levava o nome, a disputa era travada nos bastidores, na busca de informações sobre os inimigos, estivessem eles do outro lado do mundo ou atuando dentro de casa. As agências de espionagem, que sempre desempenharam papel importante nas estratégias de guerra e diplomacia, ganharam ainda mais destaque. Tudo o que faziam, e como faziam, servia para manter o outro lado sempre em dúvida sobre o próximo passo. Foi nesse ambiente tenso que emergiu para os ocidentais a figura emblemática do Comitê de Segurança do Estado (KGB, na sigla em russo, que aqui no Brasil costumamos flexionar no feminino: a KGB). Foi durante a Guerra Fria que as ações do serviço secreto se tornaram assunto recorrente no noticiário político ou nos filmes da Sessão da Tarde. O jogo de rato e rato entre as duas superpotências estimulou a modernização da agência, então chamada de Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKVD na sigla russa).


 


A interferência nas questões domésticas não era nova. Desde que chegaram ao poder, os comunistas sempre enfrentaram a ameaça e, às vezes, a tentativa direta de intervenção militar estrangeira. Britânicos e americanos patrocinaram os esforços de restauração do czar e as ações militares da revolta anticomunista detida por Lenin, em 1919, e armaram o Exército Branco, na guerra civil de 1921. O Estado soviético e o Partido Comunista se acostumaram, desde o nascimento, a reagir e atuar com o apoio de uma estrutura policial de segurança. Criado em 20 de dezembro de 1917 durante a revolução russa, a primeira dessas organizações foi o Comitê Contra Atos de Sabotagem e Contrarrevolução (Cheka), que existiu por quatro anos. Com a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1922, o serviço secreto passou a se chamar Administração Política do Estado e ganhou a nova missão de investir contra os "inimigos do povo russo", geralmente todo aquele cidadão que ainda fizesse oposição ao regime, de qualquer natureza.

Nos anos 30, sob as ordens diretas do novo diretor, Josef Stalin, a instituição trocou mais uma vez de sigla e virou NKVD. Com ele, além das funções policiais e de segurança do Estado, alguns dos departamentos cuidavam de questões como transportes, forças armadas e a guarda das fronteiras. Quanto mais concentravam esse poder, mais Stalin e o NKVD notabilizavam-se pela perseguição, tortura e execução de adversários, mesmo entre os membros do Partido Comunista. A rede de informações serviu para as estratégias soviéticas durante a Segunda Guerra, embora ele tenha condenado à morte alguns de seus estrategistas em 1938 e 1939.

Vizinhos sob controle

Com o fim da Segunda Guerra e o breve período de aliança com os países ocidentais, os soviéticos se deram conta de duas coisas, uma boa e outra ruim. A boa: os antigos inimigos dos russos tinham perdido muito poder. A França e a Inglaterra não eram os mesmos impérios e a Alemanha saíra derrotada. A má notícia: o inimigo que sobrou, os Estados Unidos, estava muito mais forte e determinado a combater o comunismo. Ainda assim, em um dos primeiros duelos da Guerra Fria, os espiões soviéticos levaram a melhor.

Os americanos trabalhavam em total sigilo no desenvolvimento da bomba atômica. Ou, pelo menos, pensavam assim. Quando o presidente Harry Truman aproveitou a conferência de Postdam, em julho de 1945, para mencionar a Stalin a montagem da bomba, o ditador não se surpreendeu. A KGB o municiava com informações vindas de uma rede de espiões - incluindo o físico Klaus Fuchs, um alemão naturalizado inglês que teve um importante papel dentro do Projeto Manhattan, de preparação da bomba em Nova York, e quatro espiões infiltrados na Inglaterra (veja o quadro na pág. 34). Ao explodir seu primeiro artefato, em agosto de 1949, a União Soviética antecipou as previsões dos especialistas estrangeiros em, no mínimo, dez anos.

Uma vantagem da KGB era a centralização de poder. Enquanto os americanos mantinham uma agência de inteligência para assuntos externos, a CIA, e um escritório para investigações internas, o FBI, os soviéticos concentravam tudo nas mãos de um único órgão. Com a morte de Stalin, em 1953, Laurenti Beria, chefe do NKVD, tentou assumir o posto máximo. Acabou executado pelo Partido Comunista, que ordenou também a reformulação do serviço secreto. "A reforma que criou a KGB visava desde conciliar a manutenção do controle interno até criar uma política mais efetiva nas ações estratégicas, principalmente no campo das informações e inteligência, fora do território soviético", afirma Dmitry Trofimov, professor do Centro de Relações Internacionais da Universidade de Moscou. Segundo ele, a polarização militar global ficou evidente em 1955, com a criação da Otan e, em seguida, do Pacto de Varsóvia. "Uma das primeiras atribuições da KGB foi atuar dentro dos aparelhos dos Estados satélites do bloco socialista, não só junto aos serviços secretos, mas também imprensa e organizações de trabalhadores", diz Trofimov.

A presença da KGB nos países do bloco virou rotina. Em 1956, em meio a denúncias de violação dos direitos humanos de presos políticos, agentes soviéticos estavam por trás dos relatórios que deram suporte à invasão da Hungria por tanques do Pacto de Varsóvia. No mesmo ano, envolveram-se na violenta repressão contra um movimento reformista na Polônia. Em 1961, o aval da KGB foi decisivo para a iniciativa do governo da Alemanha Oriental de erguer o Muro de Berlim. Mais tarde, em 1968, a atuação do serviço soviético sufocaria as transformações políticas, sociais e econômicas propostas por intelectuais da Tchecoslováquia, no episódio conhecido como Primavera de Praga.

Nem tudo acabava em perseguição e morte, mas tudo era guerra e o lançamento, em 31 de dezembro de 1968, do avião supersônico Tupolev TU-144 foi uma tremenda vitória anotada no caderninho da KGB. Dois meses antes, espiões soviéticos tiveram acesso aos planos do Concorde francês e colocaram o protótipo no ar antes que o modelo capitalista ficasse pronto. Assim, em 5 de junho de 1969, o Tupolev se tornava a primeira aeronave comercial a ultrapassar a barreira do som.

Nem todas as ações da KGB eram secretas. Em 1972, cerca de 100 consultores militares soviéticos foram enviados ao Afeganistão para treinar as forças armadas locais. Em 1978, os dois países já assinavam o acordo que permitia o envio de outros 400 militares. Em dezembro do mesmo ano, mais um papel que garantia a amizade e a cooperação mútua. Em 1979, o Exército Vermelho invadiu o país. "O presidente Hafizullah Amin, considerado incapaz de resistir aos rebeldes que lutavam contra o regime comunista local, foi morto durante a tomada do palácio presidencial pelas tropas treinadas pelo KGB", diz Roger McDermott, professor da Universidade de Aberdeen e autor de Russia’s Security Agenda in Central Asia ("Agenda de segurança da Rússia na Ásia Central", inédito no Brasil). Durante os três primeiros anos de invasão, dois terços do exército regular afegão desertaram, facilitando que os mujahidin rebeldes controlassem 80% do país. Sem o apoio local, a invasão foi um fiasco. Em 1986, a ajuda militar estrangeira já havia equipado os rebeldes com armamento pesado, inclusive os mísseis que tiraram dos soviéticos o controle sobre o espaço aéreo. A operação começou a ser questionada dentro da própria URSS pelo alto custo - cerca de 3 bilhões de dólares por ano - e pelo resultado negativo, tanto do ponto de vista político como da propaganda comunista. Mais de 110 mil soldados lutaram; 5 mil morreram.

A queda

O episódio expôs as falhas estratégicas do Exército e da coordenação da KGB. Mas a preocupação naquele momento já era outra: o império socialista estava ruindo. O país não suportava mais os investimentos em armas, corrida espacial ou serviços de espionagem em detrimento do parque industrial atrasado e dos baixos níveis de produção. Moradores de Moscou enfrentavam filas por alimentos e produtos de higiene, enquanto o fornecimento de energia e água entrava em colapso. Para McDermott, quando o líder soviético Mikhail Gorbachev surpreendeu o mundo declarando uma moratória nuclear unilateral e, em 15 de fevereiro de 1989, retirou o último tanque do Afeganistão, ele abriu o processo que deu fim à KGB, ao menos nos moldes a que estava acostumada. A Glasnost prometia liberdade de expressão para a imprensa e transparência nas ações do governo. Mesmo apregoando que não seria necessário erradicar o sistema socialista, mas provocar uma reformulação, Gorbachev sofreu uma tentativa de golpe em agosto de 1991 e foi afastado do partido por membros da burocracia conservadora e da KGB. A ação foi sufocada pelo presidente da Rússia, principal república soviética, Boris Ieltsin. Convocando uma greve geral, Ieltsin obteve apoio de milhares de pessoas que acamparam em frente ao Parlamento. Mas, com a nação em frangalhos, Gorbachev renunciou à presidência e extinguiu a URSS, em 31 de dezembro. Oficialmente, a data encerra a KGB. Afinal, um regime que deixa de existir não tem mais inimigos.

A queda da KGB, porém, não marca o fim de uma estrutura de inteligência. Desde a era Gorbachev, quando os membros do serviço secreto perderam prestígio, agentes passaram a buscar meios de tirar vantagem de seus postos. Muitos começaram a vender artefatos de espionagem no mercado negro, inclusive na Europa e nos EUA. Mas o que sobressaiu mesmo foram a estrutura e a experiência da KGB, que, em uma época de incerteza política pós-URSS, serviram como base para o desenvolvimento do crime organizado e daquilo que se costumou chamar de máfia russa. Estima-se que mais de 8 mil grupos criminosos controlem cerca 40% da riqueza do país. Grande parte dos grupos é liderada por ex-funcionários da KGB ou militares do extinto Exército Vermelho. Assim fica fácil entender as semelhanças entre a máfia e a polícia secreta soviética.

O herói russo

Richard Sorge nasceu em 1895 em Baku, hoje capital do Azerbaijão. Mudou-se com a família para a Alemanha e tornou-se jornalista. Com convicções socialistas desde cedo (seu tio havia sido secretário de Karl Marx ), entrou voluntariamente para um batalhão de artilharia na Primeira Guerra. Em 1925 foi para Moscou, filiou-se ao Partido Comunista e, em 1930, foi enviado à China pelo serviço de espionagem do Exército Vermelho. Com reputação de jornalista respeitado, viajou pela Ásia e se aproximou do Japão. Sorge transitava entre os líderes japoneses sem despertar suspeitas. Tanto que se recusou a obedecer uma ordem de Stalin para que retornasse à URSS em 1937. Entre as informações que passou aos soviéticos, uma teve importância fundamental para o andamento da Segunda Guerra: garantiu a Stalin que o Japão não atacaria a URSS, o que permitiu que as tropas soviéticas deixassem a fronteira com o país para se deslocarem para oeste, contendo o avanço dos alemães em Stalingrado. Sorge foi detido em 1941, depois que os japoneses prenderam o jornalista Ozaki Hozumi, seu colaborador. Foi enforcado em 1944 e, 20 anos depois, recebeu o título de Herói da União Soviética.

A agente apaixonada

A professora americana Elizabeth Bentley (1908-1963) teve contato com os ideais socialistas em 1933 quando estudou em Florença, Itália. Quando voltou aos EUA, em 1935, filiou-se ao PC local. Foi trabalhar numa organização italiana que propagava o fascismo nos EUA e pediu para entrar no serviço de espionagem soviético. Logo entrou em contato com Jacob Golos, um imigrante russo cidadão americano e um dos principais nomes da inteligência da URSS. O relacionamento se tornou amoroso e Golos, aos poucos, transferiu algumas de suas atividades para a mulher, como o trânsito de documentos entre os contatos da inteligência soviética em solo americano. O casal montou uma agência de viagem que facilitava a entrada de agentes secretos nos EUA. Depois da morte de Golos, Bentley começou a se desentender com os chefes, em 1943. Enquanto seu assassinato já era planejado, em novembro de 1945, após a Segunda Guerra, ela procurou o FBI e confessou. Entregou o nome de 150 espiões.

O traidor da KGB

A ação de um espião russo do NKVD está intimamente ligada ao início da Guerra Fria. Igor Sergeyevich Gouzenko (1919-1982) era criptógrafo na embaixada soviética em Ottawa, no Canadá. Mas ele desertou e, em setembro de 1945, reuniu 109 documentos e os entregou ao Jornal de Ottawa. A papelada provava a existência de uma rede de espionagem soviética no Canadá. O objetivo era obter informações para roubar tecnologia americana, principalmente sobre a bomba atômica. A URSS havia sido uma aliada importante para a derrota de Hitler e as revelações de Gouzenko serviram para alertar EUA e Canadá sobre as reais intenções dos soviéticos. Ele recebeu nova identidade e cidadania canadense. Em público, só aparecia mascarado.

Os espiões de Cambridge

Ainda nos anos 20 começou um plano do NKVD para infiltrar espiões no serviço de inteligência britânico. Jovens estudantes que seguiriam carreira diplomática ou nos órgãos de segurança e que manifestavam simpatia pelas ideias marxistas eram identificados e recrutados. Membros do Partido Comunista local eram descartados, pois nunca teriam acesso a dados internos do governo. Assim surgiu o grupo conhecido como os Espiões de Cambridge, quatro jovens que por quase 30 anos passaram segredos importantes aos contatos soviéticos na Europa. Guy Burgess (1910-1963), Anthony Blunt (1907-1983), Donald Maclean (1915-1983) e Kim Philby (1912-1988) atuavam no Escritório de Contrainteligência e no Serviço Secreto de Inteligência britânicos e foram responsáveis por revelar os projetos sobre a bomba atômica aos soviéticos. Permitindo o rápido acesso da URSS ao armamento nuclear, quando o presidente americano Harry Truman tinha sobre a mesa um plano de bombardeio a 32 cidades soviéticas, os espiões de Cambridge acabaram ajudando a salvar o mundo de uma catástrofe, já que os EUA desistiram da ideia temendo as consequências igualmente desastrosas.

O playboy sedutor

Em 1958, Oleg Kalugin chegou aos EUA como um estudante de intercâmbio para aprender jornalismo na Universidade de Columbia. Aos 24 anos, filho de um membro da polícia secreta de Stalin e falando alemão, inglês e árabe, além de russo, claro, Kalugin usou e abusou de sua simpatia, charme e de galanteios para circular entre os jovens americanos disseminando os ideais soviéticos. Analisava os nomes do Departamento de Estado e identificava quais poderiam ter alguma tendência esquerdista para se aproximar. Oferecia cerca de mil dólares por boas informações e mantinha estreita relação com funcionários de embaixadas. Descoberto em 1970, voltou para a União Soviética, tornando-se, aos 40 anos, o mais jovem general da história da KGB. Mas em 1990, desiludido, deixou o cargo e passou a criticar o Partido Comunista. Buscou refúgio no país que tinha espionado e conseguiu cidadania americana. É professor no Centro de Estudos de Contrainteligência e Segurança dos EUA. Na Rússia, está condenado a 15 anos de prisão por traição. Mas os americanos não pretendem extraditá-lo.

Médicos sabotadores

Agência manipulou o preconceito contra os judeus

Em 13 de janeiro de 1953, quem abrisse o Pravda, jornal oficial do Partido Comunista, daria de cara com a notícia: professores de medicina do hospital do Kremlin estavam "encurtando a vida de personalidades públicas da União Soviética, através de tratamento incorreto e sabotagem médica". Segundo a historiadora Jutta Petersdorf, da Universidade Livre de Berlim, a notícia se baseava num relatório da KGB. A URSS sofreu, então, uma onda de depredações de consultórios. O relatório da KGB era baseado na denúncia de Lydia Timashuk. A médica acusou um colega de propositalmente interpretar errado o exame cardiológico de um membro do PC para deixá-lo morrer. A acusação originou uma série de investigações da KGB, que, segundo Jutta , costumava incitar o preconceito como instrumento de repressão. "As conclusões dessas diligências vincularam a participação de médicos, em sua maioria judeus, à morte de várias lideranças soviéticas, inclusive Gorki, escritor e dramaturgo, herói do povo russo." O relatório encobria mortes inexplicáveis do período do expurgo stalinista, quando milhares de ex-aliados do ditador sumiram ou morreram misteriosamente.

Bugigangas fatais

Os equipamentos mais esquisitos usados pelos espiões soviéticos

Nem só de espiões e informantes viviam os serviços secretos soviéticos. Cientistas, técnicos e engenheiros trabalhavam no desenvolvimento de armas e equipamentos de escuta discretos e eficientes - como uma pistola em forma de batom, que disparava um único tiro. Conheça alguns deles

Câmera escondida

Na década de 1970, agentes soviéticos levavam minicâmeras escondidas, com a lente em forma de botão falso, para fotografar pessoas perseguidas pelo regime comunista. O mecanismo era acionado dentro do bolso do paletó.

Esconderijos portáteis

As gravações em áudio e vídeo precisavam ser escondidas em algum lugar pequeno e insuspeito. Surgiram, então, as canetas e escovas com buracos capazes de armazenar microfilmes. Mas os objetos mais usados para esse fim eram os maços de cigarro.

Gás mortal

A arma criada em 1950 levava no tambor um frasco com ácido prússico. Se o portador apertasse o gatilho, uma fagulha convertia o ácido em gás cianureto. Quem estivesse por perto morria por intoxicação - se o espião estivesse a ponto de ser pego, poderia se matar e ainda arrastar inimigos com ele.

Guarda-chuva assassino

Em 1978, o escritor dissidente búlgaro Georgi Markov esperava o ônibus em Londres quando sentiu uma dor aguda na perna. Virou-se e viu um homem com um guarda-chuva. Georgi morreu dias depois. Tudo indica que a ponta do guarda-chuva estava envenenada.

Sapato espião

Em 1960, a KGB introduziu um transmissor, um microfone e uma bateria dentro de solas de sapatos para monitorar as conversas de quem os calçava.

Vale tudo

Os golpes mais bizarros da KGB

O conto da espiã gata

Um jovem guarda de segurança do corpo de fuzileiros na embaixada dos Estados Unidos em Moscou, Clayton Lonetree, caiu no que podemos chamar de Conto da Espiã Gata. Acabou seduzido pela bela Violetta Sanni, funcionária da embaixada. Quando o caso já estava quente, eis que surge Sasha, um suposto tio de Violeta, para completar a cilada da KGB. O guarda foi intimado a contar o que acontecia na embaixada americana. Meses depois, respirou aliviado quando foi transferido para Viena, na Áustria. Mas Sasha começou a visitá-lo também lá e passou a oferecer-lhe dinheiro. Em 14 de dezembro de 1986, Clayton confessou. Foi despachado para os EUA e respondeu a um processo militar.

GPS em pó

Certo dia, uma funcionária da CIA em Leningrado encontrou suas luvas cobertas por um pó amarelo. Só depois de um ano apareceu outra amostra da substância, entregue por Sergev Vorontsov, contato infiltrado na KGB. Ele disse que a KGB usava o produto para localizar pessoas. Testes revelaram que o pó era nitrofenilpentadienal, capaz de alterar a estrutura celular se absorvido pela pele. Agentes passaram a recusar trabalho em Moscou. Em 1985, os EUA protestaram formalmente contra o uso do pó.

Tecla que eu te escuto

Em 1984, funcionários da embaixada americana em Moscou foram obrigados a trocar máquinas de escrever por lápis. A KGB estava interceptando as batidas de 13 máquinas IBM instaladas em áreas de segurança da embaixada. As máquinas haviam sido modificadas. Um posto de escuta eletrônica do lado de fora do prédio recebia todas as palavras datilografadas.

Chantagens sexuais

Uma agente da CIA em Berlim, em 1986, preferiu revelar o caso homossexual que tinha com outra agente a colaborar com a KGB. Os soviéticos tentaram chantageá-la com um vídeo recheado de cenas picantes entre ela e a amante.

Sem faxina

Quando os russos prenderam, em Moscou, o jornalista Nicholas Daniloff, em 1985, os americanos ativaram a linha Gravilov, um canal direto entre CIA e KGB para resolver pendências. Ele foi solto, mas EUA e URSS expulsaram diplomatas em protesto. Os russos retiraram 260 funcionários que trabalhavam na limpeza da embaixada dos EUA em Moscou. Os americanos tiveram de se virar para limpar e cozinhar.


 
http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/kbg-capa-guerra-fria-suja-518169.shtml