domingo, 20 de janeiro de 2013

A Agenda Homossexual

A Agenda Homossexual, ou ideologia homossexual, consiste de um conjunto de crenças e objetivos projetados para promover e mesmo obrigar a aceitação e aprovação da homossexualidade, e as estratégias usadas para implantá-la. Este artigo mostra que os objetivos e meios deste movimento incluem a doutrinação de estudantes em escolas públicas, restringir a liberdade de expressão dos opositores, obter tratamento especial para homossexuais, distorcer o ensino bíblico e a ciência e interferir com a liberdade de associação. Os defensores da agenda homossexual buscam direitos especiais para homossexuais que outras pessoas não têm, tais como imunidade à crítica. Tais direitos especiais virão necessariamente às expensas dos direitos da sociedade inteira.



O presidente Obama e quase todos os políticos democratas agora defendem a agenda homossexual, refletindo o crescimento do poder financeiro da rede homossexual. A obsessão de Obama com a reeleição e o financiamento de sua campanha fez com que ele criasse uma atenção especial para este assunto ao invés de se preocupar com outros assuntos como a economia.

Os objetivos do movimento homossexual incluem:

1.    Ignorar a moral cristã e desencorajar as leis baseadas na religião.

2.    Lembrar ao mundo que o casamento é um termo legal e um direito nos EUA, não um valor religioso como acreditado pelos cristãos.

3.    Ignorar a mensagem clara da Bíblia que a homossexualidade é um pecado e uma abominação diante de Deus porque seus direitos da primeira emenda permitem-lhes fazer isso.

4.    Censurar evidência que o “gene gay” é uma mentira. Afinal, teriam que ser genes múltiplos interagindo juntos.

5.    Censurar o discurso contra a homossexualidade afirmando ser “discurso de ódio”.

6.    Censurar afirmações bíblicas condenando a homossexualidade.

7.    Pressionar por direitos de empregabilidade iguais.

8.    Expandir a legislação de crimes de ódio para incluir orientação sexual, que seria igualmente errada para os heterossexuais fazerem isso.

10.  Terminar as restrições da carreira militar em relação à homossexualidade.

11.  Impedir que crianças tão jovens quanto 5 anos de fazer terapia para reparar sua preferência sexual.

12.  Ensinar tolerância com o homossexualismo nas escolas.

13.  Em lugares como Massachusetts e Califórnia, onde o lobby gay é mais forte, isso começa tão cedo quanto a pré-escola. Eles dizem a garotos e garotas de sete ou oito anos que “se você gosta somente de meninos, existe uma chance de você ser homossexual,” ou “se você gosta de garotas, você pode ser lésbica.” Crianças nesta fase não têm hormônios para experimentar atração sexual, de modo que elas nãocompreendem isto ainda.

14.  Exigir proteções contra discriminação no trabalho.

15.  Processar um site de relacionamentos por discriminação. Isto porque orientação sexual é um grupo protegido e, como tal, esta empresa estava desrespeitando a lei.

16.  Destruir a resolução de homossexuais latentes, de modo que seu desejo se torne muito fraco para resistir à tentação da homossexualidade.

17.  Pressionar pela adoção legalizada de crianças por indivíduos ou casais gays.

18.  Doutrinação de crianças nas escolas públicas para apoiar a agenda homossexual.

A pressão Estado por Estado pelo casamento de mesmo sexo pode ser visto como um meio para os objetivos acima, ou um objetivo por si mesmo. Um exemplo disto seria a recente lei de New Hampshire que torna legal as uniões civis de mesmo sexo.

Os ativistas homossexuais são frequentemente vistos defendendo argumentação falaciosa, tais como tentativas de controverter o ensinamento consistente da Bíblia sobre as relações homossexuais e usando falsas analogias, no sentido de ganhar a aceitação da homossexualidade. Um argumento comum usado pelos ativistas homossexuais procura comparar sua luta por direitos iguais aos dos outros. Este argumento é derrubado pela observação de que os negros foram capazes de argumentar pacificamente que a humanidade “não poderia ser julgada pela cor de sua pele, mas sim pelo seu caráter”, já que o último não carrega nenhuma distinção moral. Em contraste, os ativistas homossexuais buscam a aceitação de uma prática imoral e, além disso, praticam meios coercivos e manipulativos para atingir seus objetivos. Isto inclui o uso de protestos, que parecem ser elaborados para censurar e intimidar aqueles que se opõem de todas as formas.

A acusação de homofobia também tem sido utilizada com frequência como parte dos meios de intimidação usados na promoção da agenda homossexual. Devido à conotação que a palavra homofobia carrega, de ser uma repressão ao homossexualismo, de possuir um ódio irracional à aproximação de homossexuais ou de ser uma perseguição fanática às vítimas, o uso generalizado do termo “homofóbico” vincula um estigma poderoso a qualquer um que possa mesmo conscientemente se opor à prática do homossexualismo, assim silenciando quem possa por ventura se opor.

Em relação a tal opressão, o psicólogo Nicholas Cummings, antigo presidente da Associação de Psicólogos Americanos (APA), observou que “Homofobia como intimidação é uma das técnicas mais persuasivas usadas para silenciar qualquer um que discorde da agenda do ativista gay.”

Erik Holland, autor de A Natureza da Homossexualidade, percebe que os homossexuais têm se tornado tão negligentes em rotular os outros de homofóbicos que “qualquer um que questiona a rotulação de uma pessoa é, ele próprio, um homofóbico. Mesmo citar estatísticas reais mostrando a conexão entre homossexualismo e AIDS é supostamente homofobia.” Além disso, de acordo com o ativista homossexual Vernos A. Wall, “mesmo a aceitação da homossexualidade pode ser vista como homofobia, pois falar sobre aceitação desse comportamento significa que o homossexualismo necessita ser aceito.”        


 
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As Origens do Politicamente Correto

sábado, 19 de janeiro de 2013

[POL] A Estrutura do Estado Nacional Socialista

O Governo na República de Weimar

Antes de Hitler, a Alemanha era governada de acordo com a constituição mais democrática já escrita. O povo alemão elegia diretamente seu presidente, representantes no Reichstag (Parlamento Central) e representantes no Reichsrat (Assembleia dos Governantes Locais). O Reichsrat poderia dar consultoria e rejeitar novas leis, mas ele podia ser sobrepujado pelo Reichstag. O presidente poderia indicar um Chanceler e dissolver o Reichstag no sentido de convocar novas eleições. Ele comandava o Exército e, em uma emergência, poderia governar por decreto. O Chanceler propunha leis ao Reichstag e era invariavelmente a pessoa que o presidente sentia ser o mais capaz para estabelecer a cooperação entre os vários partidos do Parlamento. Em todas as suas decisões, o presidente era ajudado por seu Gabinete, um grupo de consultores experientes.

Além disso, a Alemanha era dominada pelos latifundiários autocratas (Junkers). Seus interesses eram representados no Reichslandbund, veementemente anticomunista e extremamente poderoso – a influência deste grupo sobre Hindenburg teve uma grande contribuição na queda do Chanceler Schleicher e na sua substituição por Hitler.

É também significativo que os junkers dominavam o Exército, o Reichswehr; três de cinco generais eram aristocratas. O Exército era neutro na República de Weimar, Hitler apontou Von Blomberg como Ministro da Defesa em 30 de janeiro de 1933 para conseguir apoio político. Entretanto, Blomberg também queria que o Exército permanecesse neutro e independente do Partido Nazista. A partir daí, um grande atrito foi gerado e que culminou com a demissão do general em 1938.

Menos poderosos que os junkers eram os industriais capitalistas: as famílias Krupp, Loewe, Wolfe, Kirdorf, Flick e Mercedes-Benz que controlavam as indústrias siderúrgica, carvão, aço, armamento, química e automobilística.

A velha burocracia do Serviço Público também tinha o seu destaque. Ele havia crescido em poder durante o período quando o governo foi conduzido por decreto presidencial, sob o Artigo 48 da Constituição de Weimar. Estes servidores públicos eram geralmente autocratas de direita, mais ligados ao DNVP (Partido Popular Nacional Alemão) do que ao NSDAP, e esperavam que o governo continuasse nesse estilo não-parlamentarista.

A Estrutura do Governo Alemão a partir de 1933

É importante salientar que a chegada de Hitler ao poder foi uma revolução legal e sem violência. Assim, as estruturas de poder existentes permaneceram as mesmas quando Hitler foi nomeado Chanceler. Dado o conservadorismo característico das elites alemãs da época, as políticas de Hitler, pelo menos inicialmente, tiveram que ser cuidadosas e disfarçadas por uma cobertura legal para manter as alianças com os interesses conservadores na política, negócios e Exército.

Entretanto, no final de 1934, a democracia já havia sido destruída e substituída por uma ditadura com Hitler como líder supremo (Führer). Apesar da Alemanha Nazista ser um regime totalitário, existe muito debate histórico sobre a verdadeira natureza da estrutura governamental.

A Visão Tradicional

Esta visão mantém que a administração do Terceiro Reich era compacta e estruturada cuidadosamente, com Hitler com o controle total de todo o processo. Ela também defende que o Terceiro Reich era um modelo de eficiência, com um sistema de governo totalmente nazificado.

A Alemanha Nazista costuma ser vista, junto com a Rússia de Stalin, como um caso clássico de regime totalitário.

Analistas afirmam que o povo se sentia atraído por Hitler e seu regime porque ele era visto e percebido como bem organizado.

O desejo do Führer era lei, assim, não existia espaço para um poder formal ou estrutura de tomada de decisão.

A Visão Revisionista

Historiadores mais recentes (desde os anos 1960) mostraram que a realidade da estrutura governamental de Hitler era caótica, ao invés de ordenada.

Hitler não destruiu o sistema de governo existente em 1933/34, mas construiu um novo no topo da velha estrutura. O Ministro do Interior, Wilhelm Frick, esboçou esquemas para uma grande reforma administrativa, mas Hitler não estava interessado em desenvolver algo mais coerente. O resultado foi um caos administrativo, como instituições redundantes (ao nível nacional e local) com funções duplicadas, e falta de um limite de responsabilidade que levava mormente ao conflito.

Esta forma de governo é conhecida como policracia. Ela também é descrita como feudal, já que os líderes nazistas juravam lealdade total a Hitler. Cada líder (nível) competia para conseguir a atenção do Führer. Como retribuição, ele permitia a cada líder construir suas próprias estruturas de poder, especialmente Göring, Himmler e Goebbels.

O Estado Nazista

O Estado Nazista não era certamente uma estrutura monolítica: o poder estava dividido entre muitos sistemas diferentes redundantes e competidores. A figura 1 mostra um organograma dessa estrutura.
 
 
Figura 1

 
Williamson afirma que “Hitler não tinha um esboço imediato para construir um Estado Nazista específico em 1933... (ele) apenas pegou o Estado existente e também ocupou as posições-chaves locais e nacionais com nazistas ou garantiu que elas estivessem em mãos seguras.”

Mantendo as Estruturas Existentes

Instituições como o Reichstag e o Gabinete do Reich continuaram a existir, mas eram virtualmente inúteis. Hitler não tinha nenhum interesse em promover reuniões de gabinete; em 1933, foram 72, em 1936, apenas 6.

O corpo administrativo principal era a Chancelaria do Reich, que assumiu a coordenação da política do gabinete. Ela esboçou a maior parte das leis e regulava a aprovação da legislação. Entretanto, ela não era correta: em um momento havia 5 departamentos na Chancelaria afirmando representar Hitler. Havia um grande contraste na representação da Chancelaria do Reich em Berlim (1938): ela estava instalada em um novo prédio que simbolizava ordem e poder, embora seu interior vivesse no caos. Entretanto, Lammars, Chefe da Chancelaria, controlava o acesso a Hitler.

O Serviço Público permaneceu em grande parte intacto, principalmente porque:

a) era profissional e eficiente e foi inicialmente protegido da interferência partidária pelo Ministro do Interior Frick.

b) Hitler não queria colocar em risco seu compromisso com as elites tradicionais, as quais sustentavam seu regime.

c) O partido era inicialmente muito radical, descontrolado, dividido e inexperiente para competir com o serviço público. O poder dos membros do partido também declinou à medida que a filiação aumentou rapidamente na primeira metade de 1933.

d) Hitler não queria perder tempo e energia reconstruindo o serviço público, já que seus objetivos principais eram a luta contra o desemprego e o rearmamento.

Com o tempo, o serviço público continuou a existir, apesar de estar sujeito a uma “revisão” sincronizada com o objetivo nazista de coordenação (Gleichshaltung):

  • Judeus e dissidentes políticos foram expulsos pela Lei de Restauração do Serviço Público Profissional (1933).
 
  • A filiação partidária tornou-se compulsória a partir de 1939. Gradativamente, o serviço público tornou-se subordinado à máquina partidária. Sua função tornou-se a implantação e execução dos decretos do governo.

  • O serviço público tornou-se progressivamente menos eficiente à medida que tornou-se dominado pelo NSDAP; a burocracia aumentou porque os nazistas eram viciados em papel.

  • Finalmente, ele ficou enfraquecido com a criação de novas agências reguladoras que assumiram as responsabilidades anteriormente mantidas pelos departamentos do serviço público.

Governo Local

O governo regional foi afetado pelos mesmos fatores de ineficiência, confusão e autoridades redundantes como o governo central.

Cada uma das Lander (regiões) reteve seu tradicional Presidente-Ministro. Após a legislação de 1934, os poderes autônomos das legislaturas estaduais foram eliminados e o Presidente-Ministro tornou-se subordinado ao Ministro do Interior.

Entretanto, sua autoridade foi diminuída pela dos 10 governadores do Reich (um departamento de Estado). Estes 10 governadores eram selecionados entre os Gauleiters mais importantes do partido. (Apenas para deixar claro, como parte da reorganização do partido entre 1924 e 1929, o NSDAP dividiu a Alemanha em Gaue, ou regiões. Cada região era administrada por um Gauleiter; basicamente diretores de departamento do partido, responsáveis por todas as atividades políticas e econômicas, defesa civil e mobilização de trabalho dentro de um distrito. O Gauleiter controlava todas as Células de grupos distritais e líderes locais, criando uma cadeia vertical de comando do Gaue para Hitler. Apontando os 10 Gauleiters mais influentes para assumir funções era um meio de premiar a lealdade e coordenar os departamentos do partido e Estado.) O trabalho dos governadores do Reich era garantir que as políticas de Hitler estavam sendo totalmente implantadas. Entretanto, a ausência de linhas de demarcação claras entre as funções dos Gauleiters e dos Presidentes-Ministros levavam frequentemente a conflitos.

Instituições Auxiliares

Enquanto Hitler continuou com a prática tradicional de ter departamentos governamentais chefiados por ministros individuais, ele também indicou agências especiais para realizar certas funções, e.g. Departamento do Plano Quadrienal (1933). Estes departamentos se sobrepunham e entravam em conflito com as instituições estatais tradicionais como defesa, economia e trabalho. Por exemplo:

  • A Inspetoria Geral para as Estradas Alemãs interferia com algumas das funções do tradicional Ministério dos Correios e Transporte.

  • O Líder da Juventude Hitlerista tinha algumas funções semelhantes ao do Ministro da Educação.

  • O Ministro da Propaganda competia com o Ministro para os Territórios Ocupados em relação à Visão de Mundo nazista (Weltanschauung), com o Secretário de Imprensa e com o Departamento de Censura.  

Instituições auxiliares foram também usadas para contornar os sistemas de tribunais e legais tradicionais. Os tribunais já estabelecidos continuaram, mas foram gradativamente superados pelo novo Tribunal Popular e pelos Tribunais Especiais criados em março de 1933. Advogados foram “convertidos” pela Frente de Advogados Alemães. O novo código penal ordenava que os juízes agissem “de acordo com a vontade popular.” A lei existente foi enfraquecida e ações arbitrárias foram tomadas pelas autoridades fora do contexto da lei.” Mesmo dentro dos tribunais, à medida que novas leis eram criadas por decreto, ao invés de serem aprovadas no Reichstag, o processo legal tornou-se gradativamente interpretativo – interpretação sincronizada como os valores nazistas, é claro.

Instituições Partidárias

É interessante notar que, apesar do fato do Nazismo ser um sistema de partido único, o Partido não assumiu, de fato, o controle das estruturas pré-existentes, ao invés disso operando ao lado delas e copiando as funções. Isto aconteceu mesmo com a Lei de Garantia da Unidade do Partido e Estado de 1933, que fez muito pouco para esclarecer a relação entre os dois. Isto pode ser porque em 1933, o partido estava muito dividido e faltava-lhe habilidade administrativa para criar um Estado Nazista apropriado, de modo que sistema duplo acabou prevalecendo.

Por outro lado, podemos argumentar que Hitler estava perseguindo uma iniciativa cuidadosa para garantir o apoio das elites tradicionais, cujo compromisso ele dependia inicialmente. O processo de Gleischchaltung poderia ser interpretado, portanto, como o movimento gradual em direção da homogeneidade do governo, administração e processos legais e judiciais desde o início.

Por exemplo, órgãos partidários como a Juventude Hitlerista, RAD, DAF, KdF, etc. foram estabelecidos inicialmente para substituir, marginalizar ou contornar agências públicas ou privadas. Na época, agências não-nazistas foram abolidas:

  • Os sindicatos foram abolidos em 2 de maio de 1933 e substituídos pelo DAF (Frente de Trabalho Alemã), liderado por Robert Ley.

  • A associação à Juventude Hitlerista tornou-se compulsória em 1936. A presença de jovens nos encontros atingiu 80% em 1939.

Alternativamente, dado que muitas instituições do partido e Estado continuaram a coexistir no período nazista, podemos interpretar esta duplicidade como uma ação deliberada de Hitler. Como Evans e Jenkins sugeriram, “Hitler permitiu esta confusão porque a única força unificadora era a obediência à sua pessoa.” Darwinismo social em ação.

Finalmente, enquanto tecnicamente agências do partido, havia um número de departamentos que podiam ser vistos como outra camada de pessoal que estavam fora do escopo tanto dos ministérios normais quanto dos corpos paralelos. Estes incluíam o Departamento do Vice-Führer e o complexo SS/Gestapo/SD sob o comando de Himmler.

Inicialmente, o corpo de guarda-costas pessoal de Hitler, a SS, liderado por Heinrich Himmler cresceu e tornou-se o bloco mais poderoso na ditadura. A organização era administrada por Oswald Pohl. A SS (Schutzstaffel) pode quase ser vista como “um Estado dentro do Estado” a partir de 1939 (isto é um argumento aceito generalizadamente).

A SS representava a pureza racial e ideológica nazista e foi o principal instrumento do Estado de Terror.


http://www.schoolhistory.co.uk/

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

[POL] O Sistema Judicial do Partido Nazista

John Brown Mason, Universidade de Standford

 
A Origem dos Tribunais do Partido

Quando Hitler restabeleceu a organização NSDAP na primavera de 1925, ele o fez de forma sistemática, com muitas divisões através das quais as funções eram exercidas. A SA era a “tropa”, concebida para proteção e ordem (como os nazistas as viam). O departamento do Reicheschatzmeister era a divisão financeira do partido, e o Departamento de Organização tinha a função característica de seu nome. Os Comitês de Investigação e Ajuste (Unterschungs und Schlichtungs ausschusse), abreviadamente conhecidos como USCHLA, finalmente, foram o ponto de partida de um elaborado sistema judicial dentro do partido, que consistia de uma hierarquia de tribunais locais e distritais e de um tribunal superior. Após 1933, o Führer nomeou o Chefe de Justiça do Partido, Walter Buch, para converter o USCHLA em um sistema judicial do partido.
 

 Walter Buch


Objetivo

As Diretivas, que foram aprovadas pelo então vice-Führer, Rudolf Hess, em 17 de fevereiro de 1934, diziam que os tribunais do partido tinham “o objetivo de preservar a honra comum do partido e do membro individual do partido e, se necessário, ajustar diferenças de opinião entre os membros individuais.” Era sua função especial tomar medidas contra “aqueles membros do partido cuja conduta não corresponda ao conceito de honra e às visões do NSDAP, e, quando parecer necessário para a preservação da honra e prestígio do partido, estudar a exclusão de membros não-confiáveis do partido.” Colocando a coisa em poucas e diretas palavras, os tribunais do partido tinham uma dupla tarefa. Eles serviam para preservar a unidade dentro do partido ajustando as diferenças e atritos entre seus membros, e entre e com os líderes do partido de vários níveis; e para preservar o prestígio do partido, punindo membros que tenham cometido crimes, ou que tenham falhado em suas obrigações partidárias, ou cuja conduta tenham se tornado um problema para a organização.

Posição Legal

A posição legal e poderes do sistema judicial do partido são, é claro, fundamentalmente dependente da posição do próprio partido. Sob a Lei de Salvaguarda da Unidade do Partido e Estado de dezembro de 1933, o NSDAP é o “responsável pelo governo alemão e está inseparavelmente conectado ao Estado.” É uma “corporação de natureza pública”, sendo que sua constituição é determinada pelo Führer. Pelo fato do partido e suas organizações afiliadas serem “a liderança e a dinâmica do Estado Nacional Socialista,” seus membros têm “funções crescentes” para com o Führer, com o povo e com o Estado. Violando ou desprezando estas funções, eles estão sujeitos a uma jurisdição especial do partido. As ordens e regulamentos necessários para a execução e extensão desta lei, especialmente em relação à formação e procedimento da jurisdição do partido, eram emitidas pelo Chanceler, como Führer do NSDAP. O Führer tinha o poder superior sobre todos os assuntos partidários, não por causa de sua posição no Estado (Chanceler), mas como Führer do movimento nacional socialista. Esta independência do movimento resulta de suas próprias leis e não da lei comum.

Estrutura

1) Tribunais Locais

Regiões do NSDAP com 500 ou mais membros tinham um tribunal local (Ortsgericht), enquanto que dentro de um determinado distrito pequeno (Kreis) um tribunal distrital local (Kreisgericht) servia todas as regiões do partido que tinham menos de 500 membros cada. Eles tinham jurisdição sobre todos os membros do partido que viviam em seus respectivos distritos e eram lá registrados como membros, com exceção, entretanto, daqueles que possuíam um posto oficial médio ou alto dentro do partido, que estaria sob a jurisdição de um tribunal distrital, ou mesmo do Tribunal Superior do Partido.

2) Tribunais Distritais

Os tribunais distritais (Gaugerichte) exerciam uma dupla função. Eles eram (a) tribunais superiores de apelação dos tribunais locais; e (b) tribunais de jurisdição original para funcionários do partido de posto intermediário. Havia um tribunal distrital para cada distrito do partido, incluindo, anteriormente, um para a Cidade Livre de Danzig e um para a Ausland, ou países estrangeiros, com a sede em Berlim.

3) Tribunal Superior do Partido (Oberstes Parteigericht)   

Ele consistia de três câmaras, cada uma com um presidente e quatro associados, que dividiam o trabalho entre si segundo uma base geográfica. Elas constituíam tanto o tribunal mais alto de apelação dos tribunais distritais e o único tribunal do partido de jurisdição original para líderes do partido de alta patente, que não tinham nenhuma possibilidade de apelação.

Os Juízes

Os membros do Tribunal Superior do Partido eram apontados pelo Führer. Seu presidente (geralmente conhecido como Chefe da Justiça do Partido) indicava os presidentes das cortes distritais, sob a indicação dos respectivos líderes partidários distritais. Os presidentes dos tribunais locais eram determinados pelo Tribunal Superior do Partido sob a indicação dos presidentes dos respectivos tribunais distritais. Os juízes distritais e locais indicavam, por sua vez, dois juízes assistentes (Beisitzer) no tribunal e dois substitutos, em acordo com as autoridades partidárias apropriadas. Um membro de um tribunal do partido devia pertencer à SA. Mulheres não eram indicadas juízas. Juízes e associados do Partido podiam ser demitidos somente pelo presidente do Tribunal Superior do Partido. Os tribunais locais eram compostos somente por advogados. Os tribunais distritais incluíam juízes profissionais treinados.

Julgamentos

As Diretivas englobavam as seguintes punições: advertência, repreensão e, nos casos mais sérios, exclusão ou mesmo expulsão do partido. Além destas, havia também a proibição de manter um escritório do partido por um período de até três anos, de carregar armas por até três meses ou agir como orador público. Ao tomar decisões, os juízes do partido não eram limitados pela lei do Estado. Citando o Chefe de Justiça do Partido: “Eles estão ligados apenas pela sua consciência nacional socialista; eles não estão subordinados a qualquer funcionário do partido; eles estão sob as ordens apenas do Führer.” E, além disso: “... apesar do Führer, em sua proclamação de 25 de abril de 1928, de sujeitar a si mesmo e a todos os departamentos do partido ao Tribunal Superior, sua palavra sempre será a lei suprema para todos dentro do partido. O sistema judicial do partido não é, de modo algum, absoluto... Assim como o Führer ordena a direção na qual o movimento (nacional socialista) marcha, ele também decide o que deve ser a lei no partido. Se, de acordo com o desejo do Führer, o significado e o propósito do partido é a preservação do Germanismo, então, de acordo com seu desejo, tudo é legítimo para o partido que corresponda com a preservação do Germanismo, e ilegal qualquer coisa que entre em conflito com aquilo.” Portanto, de acordo o Chefe de Justiça do Partido Buch, que foi o fundador do sistema de tribunais do NSDAP, assim como seu chefe, não existia lei final nestes tribunais, exceto a palavra e desejo de Hitler.

 
http://www.jstor.org/discover/10.2307/1949427?uid=3737664&uid=2129&uid=2&uid=70&uid=4&sid=21101674476627

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

[POL] A Política Econômica Nazista 1933 – 1939

As pessoas votam ou se unem a um partido político que elas acreditam que isso aumentará sua riqueza, poder e prestígio. Uma das razões mais importantes pelas quais que o partido nazista ganhou popularidade no final dos anos 1920 foi em virtude do caos econômico na Alemanha após a Crise de Wall Street em 1929. Os nazistas perceberam que se eles queriam ganhar e manter apoio popular do povo alemão, eles teriam que resolver os seguintes problemas sérios:

Desemprego: este havia crescido para mais de 6 milhões em 1932.

Inflação e hiperinflação: a Alemanha tinha enfrentado em 1923 quando U$ 1 = 4,2 bilhões de marcos.

Auto-suficiência: a Alemanha dependia de comércio exterior para conseguir matérias-primas e alimentos. Parte dos motivos da Alemanha ter perdido a Grande Guerra foi porque ela não foi capaz de manter suprimentos destes itens. Hitler queria tornar a Alemanha auto-suficiente.

Os nazistas foram relativamente impopulares entre 1923 e 1928, mas sua sorte mudou com a Crise de Wall Street em outubro de 1929. Desesperado por capital, os EUA começaram a trazer de volta investimentos feitos na Europa. Uma das conseqüências disto foi um rápido aumento do desemprego. A Alemanha, cuja economia dependia pesadamente em investimentos americanos, sofreu mais do que qualquer outro país na Europa.

Antes da crise, 1,25 milhões de pessoas estavam desempregadas na Alemanha. No final de 1930, o número havia alcançado quase 4 milhões, ou 15,3% da população. Mesmo aquelas empregadas sofriam já que elas trabalhavam apenas meio expediente. Com a queda na demanda para trabalho, os salários também caíram e aqueles trabalhando a jornada normal tinham que sobreviver com rendas cada vez menores. Hitler, que foi considerado um idiota em 1928 quando previu o desastre econômico, era agora visto sob uma luz diferente. As pessoas começaram a dizer que se ele era capaz de prever a crise, também seria capaz de resolvê-la.

Em 1932, mais de 30% da força de trabalho alemã estava desempregada. Na eleição de 1933, Adolf Hitler prometeu que, se ele fosse eleito, ele acabaria com o desemprego. Ele foi sortudo, pois a economia alemã começava a se recuperar justamente quando ele assumiu a Chancelaria. Entretanto, as políticas que Hitler introduziu ajudaram a reduzir o número de desempregados na Alemanha.

As políticas econômicas nazistas

• Em 2 de maio de 1933, Adolf Hitler ordenou que a SA (Sturm Abteilung) prendesse os líderes sindicais da Alemanha. Robert Ley, então, formou a Frente de Trabalho Alemã (RAD), a única organização sindical permitida no Terceiro Reich.

• Um congelamento de salários foi introduzido em 1933, e eles seriam agora decididos pela RAD, que determinava deduções compulsórias feitas no imposto de renda para seu programa “Força pela Alegria” (Kraft durch Freude). O RAD emitiu carteiras de trabalho, onde era feito o histórico empregatício do trabalhador e este não poderia ser empregado se não tivesse uma.

• O governo proibiu a introdução de máquinas automatizadas.

• Os empregadores precisavam de autorização governamental para reduzir suas forças de trabalho.

• O governo nazista dava contratos àquelas companhias que dependiam de trabalho manual ao invés de máquinas. Isto foi especialmente verdade no programa extensivo de auto-pistas (autobahn).

• Os nazistas se concentraram no rearmamento. Milhares de alemães trabalhavam em fábricas de material bélico.

• Os judeus perderam sua cidadania em 1935 e, consequentemente, não foram incluídos nas estatísticas de desemprego, mesmo aqueles que perderam seus empregos no início do governo de Hitler.

• O alistamento obrigatório nas forças armadas alemãs ajudou a reduzir o número de desempregados.

• Hitler também encorajou a produção em massa de rádios. Neste caso, ele não estava apenas preocupado em reduzir o desemprego, mas viu este meio de comunicação como uma forma rápida e eficiente de divulgar a propaganda nazista entre o povo alemão.

• O desemprego dos jovens foi resolvido com a formação do Serviço de Trabalho Voluntário e do Serviço da Juventude Voluntária, sendo que estas organizações eram responsáveis pelo reflorestamento, manutenção de margens de rios e reconstrução após devastações.

• As mulheres em certas profissões, como médicas e funcionárias públicas, foram afastadas enquanto que outras mulheres casadas recebiam uma renda de 1.000 marcos para ficar em casa.

• No verão de 1935, Adolf Hitler anunciou a introdução do Serviço de Trabalho (RAD). Com esta medida, todos os homens com idades entre 19 e 25 anos tinham que trabalhar para o governo por seis meses. Mais tarde, as mulheres também foram incluías no programa, apesar delas trabalharem exclusivamente com serviços domésticos ou como professoras.

Força pela Alegria

A organização Força pela Alegria foi criada para encorajar os trabalhadores a trabalhar duro pela Alemanha e pelo Nazismo. A oferta de férias baratas e um carro novo popular foram boas medidas para ganhar apoio do cidadão médio. Uma viagem ás Ilhas Canárias custava 62 marcos – facilmente pagável para muitos, apesar de que a maioria dos cruzeiros era adquirida por altos funcionários do NSDAP. Férias com direito a caminhadas e esqui nos Alpes bávaros custavam 28 marcos. Um tour de duas semanas na Itália custava 155 marcos. Ley ordenou a construção de dois novos navios de cruzeiro que foram usados pelos trabalhadores em suas férias no exterior. Em 1938, cerca de 180.000 pessoas viajaram em cruzeiro para lugares como Ilha da Madeira (Portugal) e os fiordes noruegueses. Outros conseguiam férias gratuitas dentro da Alemanha. O programa Força pela Alegria também construiu praças esportivas, pagava idas ao teatro e financiava turnês de grupos artísticos. Apesar do trabalhador alemão pagar por estes benefícios através de descontos compulsórios, a imagem das pessoas recebendo férias e ganhando entretenimento subsidiado era de grande valor propagandístico para o governo nazista.

Apesar de não saber dirigir, Hitler amava carros e queria que toda família na Alemanha tivesse seu próprio veículo. Ele mesmo este envolvido no projeto do acessível Fusca (Volkswagen, ou carro popular). Os nazistas deram um jeito para que a classe operária conseguisse um carro. O Besouro, projetado por Ferdinand Porsche, custava 990 marcos. Isto representava cerca de 9 meses de trabalho para o operário comum. Para comprar um, ele depositava 5 marcos por semana numa conta. Teoricamente, quando a conta alcançasse 750 marcos, o trabalhador recebia uma senha que o levaria a receber o carro. De fato, ninguém recebia o carro, mas os milhões de marcos investidos neste esquema eram redirecionados para as fábricas de armamentos. Isto foi acelerado à medida que a tensão política aumentava na Europa e ninguém reclamava para não ter problema com a Gestapo.




O tempo livre dos trabalhadores também foi cuidado. Ley determinou que cada trabalhador tivesse 3.740 horas livres por ano para realizar atividades de lazer – que o Estado deveria fornecer. As atividades fornecidas eram registradas de modo cuidadoso e sistemático. Para a região de Berlim (1933-38):



Os Nazistas produziram um Milagre Econômico na Alemanha?

O quão foi bem sucedido o ataque dos nazistas contra o desemprego, inflação e na obtenção da auto-suficiência?

O desemprego caiu de 6 milhões em 1933 para apenas 300.000 em 1939.


A produção industrial em 1939 era superior à da República de Weimar antes da Crise de Wall Street.

Porém,

  • Em 1939, a Alemanha ainda importava 33% de matérias-primas essenciais.
  • A arrecadação de impostos foi de 10 bilhões de Reichsmark em 1928. Em 1939, foi de 15 bilhões. Entretanto, os gastos públicos aumentaram de 12 bilhões em 1928 para mais de 30 bilhões em 1939.
  • De 1933 a 1939, o governo nazista sempre gastou mais do que arrecadou de modo que em 1939, o déficit público ficou em 40 bilhões de Reichsmark.
  • O consumo anual de comida em 1937 caiu para pão de trigo, carne, bacon, leite, ovos, vegetais, açúcar, frutas tropicais e cerveja comparado aos números de 1927. O único aumento foi em pão de centeio, queijo e batata.
  • Ganhos reais em 1938 foram praticamente os mesmos de 1928. (Ganhos reais são os salários ajustados de acordo com a inflação.)

http://www.historylearningsite.co.uk/nazis_and_the_german_economy.htm

http://en.wikipedia.org/wiki/Economy_of_Nazi_Germany


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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

[SGM] A Organização Econômica de um Campo de PdG


 
 
Para aqueles de nós que nunca viram uma guerra, os relatos dos soldados podem nos ajudar a compreender o que o Dia da Lembrança significa. (N. do T.: o Dia da Lembrança, nos países da Comunidade Britânica é a homenagem aos soldados mortos desde a Primeira Guerra Mundial, geralmente 11 de novembro.)

Richard Radford é tal soldado. Quando a guerra iniciou em 1939, ele largou seus estudos em Cambridge e se alistou no exército britânico. Capturado na Líbia em 1942, ele gastou o resto do conflito em campos de prisioneiros de guerra (PdG). Quando foi libertado, ele escreveu uma análise da organização econômica de um campo de PdGs. Vale a pena ler o artigo hoje, tanto para saber como era a vida durante a guerra quanto para conhecer suas lições sobre “a universalidade e espontaneidade” da atividade econômica.

Soldados nos campos de PdG alemães receberam rações regulares durante boa parte da guerra. Seus captores forneciam as necessidades básicas – pão, margarina e outros produtos. A Cruz Vermelha e doadores privados forneciam o resto – cigarros, chocolate, carne, chá, café e itens menos populares, como cenouras enlatadas. Tão logo os soldados eram capturados, sistemas de troca surgiam, com não-fumantes negociando cigarros por chocolate, por exemplo. Mas com o tempo, os campos se tornaram economias altamente organizadas, com cigarros servindo como moedas.

Os cigarros tinham muitas vantagens como dinheiro – eles eram relativamente homogêneos, duráveis e com um tamanho conveniente para transações pequenas e, em pacotes, grandes. Mesmo assim, eles também tinham desvantagens.

A Lei de Gresham diz que dinheiro ruim expulsa o bom – e cigarros ruins expulsaram os bons. Por exemplo, o uso de cigarros enrolados à mão levou a negociações complexas. Cada cigarro era examinado individualmente para garantir que ele continha uma quantidade aceitável de tabaco antes que a transação fosse completada.

Mas a maior desvantagem do cigarro como moeda era que as pessoas queimavam seu dinheiro de uma forma contínua. Com o tempo, o tabagismo reduziu o estoque de cigarros em circulação. À medida que os cigarros tornaram-se raros, fumantes compulsivos estavam dispostos a vender melado ou geleia por poucos cigarros, resultando em deflação. A menos que uma carga de cigarros chegasse, “os estoques logo acabavam”, os preços caíam, os negócios declinavam em volume e tornavam-se gradativamente um assunto de permuta.” Mas muitos cigarros injetados nesta economia rapidamente causavam problemas também – pessoas “inundadas” com cigarros logo ofereciam quantidades generosas por comida, podendo resultar em inflação.

As flutuações monetárias não eram a única causa do movimento dos preços nos campos. Comida era abastecida em intervalos regulares, e seu preço subia e caía com a quantidade em circulação: pão era abastecido nas quintas e segundas, quatro e três dias de rações respectivamente, e na quarta e domingo à noite ele já havia subido para pelo menos um cigarro por ração, de sete a oito na hora da ceia. Alguém sempre guardava uma ração para vender então no maior preço: sua oferta de “pão agora” se destacava na reunião entre um número de “pães de segunda-feira” vendendo um ou dois, ou não vendendo nada – e ele sempre fumava na noite de domingo.

Um economista do século XXI poderia ver essas flutuações de preço como um sinal de mercados trabalhando corretamente, respondendo à escassez e premiando a economia. Mesmo assim, nos campos elas eram vistas de forma diferente. “Havia um forte sentimento de que tudo era precificado em cigarros. Embora a avaliação do preço justo ... era impossível de explicação, este preço era, no entanto, bem conhecido.”

De fato, dos aspectos mais fascinantes do relato de Radford, temos o surgimento de regras e instituições. Algumas delas facilitaram a atividade comercial. Outras, limitaram seu escopo – pois mesmo os campos de PdG tinham desigualdade econômica, e muita desigualdade ameaçava a estrutura social do campo.

Havia um número de fontes de desigualdade. Algumas pessoas recebiam mais doações privadas do que outras. Algumas tinham vantagens especiais que permitiam-lhes fazer negócios mais lucrativos. Por exemplo, um soldado britânico paquistanês foi capaz de trocar carne por geleia e margarina em termos mais vantajosos na parte do campo onde havia soldados indianos.

Mas talvez a maior fonte de desigualdade era o tabagismo, ou dinheiro descartável. Os fumantes que negociavam muita comida por cigarros se arriscavam a ficar subnutridos. Isto era um problema social, não somente por causa da solidariedade entre os prisioneiros, mas porque prisioneiros doentes eram levados ao hospital do campo, onde eles se tornavam um sumidouro dos recursos coletivos dos soldados. Mas o que poderia ser feito a respeito disso?

Uma solução simples era restringir o comércio – com os artigos higiênicos da Cruz Vermelha, por exemplo, ou com as rações alemãs.

Outra possibilidade era a redistribuição total de não-fumantes para fumantes. Os soldados discutiam interminavelmente se os não-fumantes deveriam receber ou não uma ração de cigarros, mas nenhum ajuste das rações jamais era feito.

Finalmente, o Oficial Senior britânico, respondendo a preocupações de saúde e opinião pública, instituía a fixação de preços. Preços recomendados eram anunciados, e quaisquer vendas que ultrapassassem mais de 5% do preço recomendado eram “desencorajadas pela autoridade.” As escalas totais de preços eram ajustadas para cima e para baixo de acordo com o suprimento de cigarros, mas os preços relativos não eram ajustados.

E, à medida que a guerra chegava ao fim, isto se tornou um problema.

Em agosto de 1944, os suprimentos de itens e cigarros foram reduzidos à metade. Desde que ambos os lados da equação foram mudados no mesmo valor, variações nos preços não foram esperados. Mas este não foi o caso: a demanda não-monetária por cigarros era menos elástica do que a demanda por comida, e os preços de comida caíram um pouco. Mais importante, entretanto, foram as mudanças na estrutura dos preços. A margarina e geleia alemãs, até aqui sem o valor devido para adequar os suprimentos de manteiga e marmelada canadense, adquiriram novo valor. O chocolate, popular e um produto certo, e  açúcar caíram. O pão aumentou; muitos contratos de pão por cigarros foram quebrados, especialmente quando a ração de pão foi reduzida algumas semanas depois.

Os preços fixados pelos oficiais superiores não foram ajustados em resposta às variações na estrutura do preço. Consequentemente, mais e mais vendas aconteceram no mercado negro a preços desautorizado. “Eventualmente, a opinião pública voltou-se contra a escala recomendada e a autoridade desistiu da luta.” E então:

Nas últimas semanas (da guerra), com deflação incomparável, os preços caíram com rapidez alarmante, não existia nenhuma referência, e o fornecimento e demanda, sozinha, determinava os preços... Uma ração de margarina gradualmente afundou em valor até que ela trocava diretamente por uma ração de melado. O açúcar despencou lamentavelmente. Somente o pão manteve o seu valor.

Em condições de extrema escassez, as regras e instituições que faziam os mercados trabalhar ficaram sob pressão:

Em abril de 1945, o caos substituiu a ordem na esfera econômica; as vendas eram difíceis, os preços não tinham estabilidade.

Em 12 de abril, o campo de Radford foi libertado. Seu relato da organização econômica de um campo de PdG foi publicada no final daquele ano. Sua intenção era descrever “a universalidade e espontaneidade” da atividade econômica. Mas o que ele mostrou foi a força do espírito humano.

O texto completo de Radford está aqui:

sábado, 12 de janeiro de 2013

Z-1: O Traje Espacial de Última Geração

A NASA está projetando o protótipo do traje espacial Z-1 para um grande número de possíveis missões após 2015. O Z-1 oferece mobilidade adicional para caminhadas espaciais na Lua e em Marte.

Uma grande inovação no Z-1 é a sua escotilha de entrada traseira. Ao invés de ser vestida como uma roupa, o Z-1 é acessado como se fosse uma espaçonave, através da escotilha traseira, eliminando a necessidade de câmaras de vácuo (airlocks).

Criando um traje com entrada traseira resolve um pouco dos problemas que os astronautas geralmente enfrentam durante as viagens à Estação Espacial Internacional (ISS). Usar câmaras de vácuo para despressurizar consome tempo, um processo cansativo. Neste novo desenho, os astronautas não precisarão passar por nenhuma câmara de vácuo. O traje se encaixa do lado de fora da espaçonave, usando a abertura de uma “porta espacial”, e os astronautas simplesmente sobem e se separam.   

Através de uma porta em forma de placa, o traje pode ser engatado em uma escotilha externa em veículo motorizado ou espaçonave. O arranjo da porta permite que os astronautas deslizem diretamente dentro do traje de dentro do veículo. Uma cobertura interna de atracação e um sistema portátil de manutenção de vida (PLSS) são removidos para acesso ao traje.

Os primeiros trajes espaciais da NASA eram separados em seções separadas das pernas e dorso. O traje russo Orlan usado desde 1977 tem uma entrada traseira semelhante ao do projeto do Z-1.

O novo protótipo é extremamente flexível, mas um pouco pesado. Os modelos atuais de traje pesam cerca de 45 kg, mas o Z-1 chega a volumosos 72 kg. Mesmo em Marte – onde a gravidade é um terço da Terra – os 27 kg adicionais podem fazer uma grande diferença.

Outra inovação do Z-1 é o seu sistema de suporte à vida. O dióxido de carbono será continuamente eliminado do ar respirável, terminando a necessidade de cilindros de hidróxido de lítio, absorventes de CO2.

O capacete-bolha do Z-1 oferece um campo de visão extenso. Juntas de ombro especialmente projetadas tem grande mobilidade.

As faixas verdes fosforescentes do protótipo Z-1 parecem com a do traje de Buzz Lightyear, personagem do desenho animado Toy Story.

Diferentemente dos trajes usados na ISS, o Z-1 foi planejado para uso no vácuo sideral e em superfícies planetárias. Os trajes espaciais devem ser especificamente projetados para os rigores de caminhada sobre a Lua ou Marte. A NASA tem mais dois trajes protótipos, sendo que o Z-2 deve ser construído logo. O objetivo é ter uma versão Z-3 do traje pronto para os astronautas da ISS em 2017.

O traje atual da NASA, a Unidade de Mobilidade Extraveícular (EMU), foi projetada no começo dos anos 1980, mas foi atualizada em 1998 para a tarefa de construção da ISS. A EMU atualizada é modular de modo que partes podem ser trocadas para se encaixar a diferentes astronautas. As partes do traje podem ser deixadas à bordo da estação por até dois anos.  
 

 
 
 
http://www.space.com/18998-nasa-z-1-spacesuit-graphic.html

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Império de Napoleão

O Império de Napoleão: do Absolutismo Iluminista ao Imperialismo Colonial

Broers Michael

Publicado no History Review, 2006.

 
A hegemonia de Napoleão sobre a Europa chegou a ser abrangente, apesar de seu domínio ser breve. Mesmo na França e em suas conquistas iniciais nos Países Baixos, norte da Itália e Alemanha ocidental, o reinado de Napoleão durou um pouco mais que 14 anos. Esta justaposição de uma vasta presença imperial através da Europa, inigualada antes ou depois, com um pequeno lapso de tempo para estudar, impõe um dilema inevitável. O tamanho interessa? Ou essa passagem curta de poder torna a história napoleônica apenas “um episódio”, como uma série de livros didáticos o chamou? O Império de Napoleão foi mais parecido com o de Átila, o Huno, que varreu a Europa como um vendaval destruidor, somente para desaparecer sem deixar rastro? Ou, como eu acredito, pode tal período curto ser comparado ao romano ou, além da Europa, ao Rajastão Britânico?

A influência permanente de Napoleão na Europa contemporânea não deveria ser julgada somente na natureza duradoura de seus feitos positivos, mas também no trauma que seu reinado induziu naqueles que o experimentaram. Quanto mais curto o choque, geralmente maior e mais duradouro é o trauma. Interpretado desta maneira, o domínio napoleônico teve repercussões vastas e profundas para a sociedade europeia – e um papel importante na formação das instituições da Europa moderna – que superam de longe sua brevidade.

Contudo, existe ainda a dimensão “imperial” do problema. Estudiosos em muitas disciplinas – críticos literários e teólogos, assim como muitos historiadores, economistas ou cientistas políticos – agora veem no imperialismo uma das grandes forças, tanto para o bem quanto para o mal, no mundo moderno. Apesar do imperialismo ser difícil de definir, ele é facilmente reconhecido como uma série de fenômenos que tornaram o mundo contemporâneo muito do que ele é agora. O “episódio” napoleônico – confinado como foi à Europa continental e levado a um grau tão elevado de conveniência militar e os caprichos de um homem – merece ser incluído no gênero de imperialismo? Podem as ferramentas dos estudos modernos pós-coloniais ser aplicadas ao império europeu, independentemente de quão longo ou curto foi o seu momento de domínio? Novamente, acredito que sim, e por duas razões principais.

Primeira, o império não era comandado por um homem só, Napoleão; e aqueles que administravam – de fato, coagiam – as terras sob seu controle tinham uma visão comum de como a sociedade deveria ser. Por todas as suas muitas e variadas afirmações sobre o assunto, Napoleão em geral compartilhava aquela visão e isto fez com que seu grande empreendimento se tornasse realidade: Napoleão pertenceu ao seu próprio tempo e, assim, aglomerou sua geração em torno dele.

Segunda, sua visão era coerente, conduzindo adiante os imperialistas napoleônicos, quando as chances eram obviamente contra eles – e nas regiões distantes do império, eles sempre estavam, um fato que os sucessos surpreendentes de Napoleão nocampo de batalha não poderiam disfarçar. Os exércitos em marcha deixavam uma bagunça atrás deles, e a administração imperial de prefeitos, magistrados e polícia tinham que enfrentar as consequências. A visão deles diante dessas adversidades era uma firme convicção que a França, como nação e sociedade, tinha evoluído para a mais alta forma de civilização no mundo, que a civilização francesa era exportável para todos os povos da Europa e que o destino daqueles povos dependia de sua absorção ao “estilo francês”. Isto tem todas as carcterísticas do imperialismo; de uma certa forma, é o amanhecer dos grandes impérios europeus do final do século XIX e início do século XX. Tomados juntos, estes aspectos do período napoleônico tornam-o um dos mais produtivos, formativos e dinâmicos na história moderna europeia, se não necessariamente de um modo visivelmente óbvio.

Napoleão Bonaparte (1769 - 1821)

A necessidade em focar nos homens que comandavam o império, e levar seriamente a natureza de seu trabalho, foi iniciado por Stuart Woolf, em seu agora produtivo A Integração da Europa de Napoleão. Ele foi um trabalho encorpado, bem sucedido e pioneiro e, inevitavelmente, encontrou os seus críticos. Geoffrey Ellis, em um ensaio cuidadoso, porém incisivo, afirma que, no final, brevidade é a chave e que Napoleão era um “patrão” irascível, buscando oportnidade ao custo da ideologia ou estabilidade. Minha argumentação é que a tese de Woolf deveria ser extendida mais, mas que, talvez, os aspectos negativos do imperialismo napoleônico precisem ser privilegiados sobre os positivos, em virtude da situação pós-colonial para os impérios europeus tardios. Isto, em parte pelo menos, foi assim taão breve para que uma hegemonia tivesse um impacto profundo. O impacto foi tanto direto – algumas vezes a batida de um martelo no corpo da Europa – quanto indireto.

O Legado Direto do Imperialismo Napoleônico

Os feitos duradouros, institucionais do império napoleônico são bem conhecidos, e têm sido discutidos na literatura acadêmica, junto com seu legado para a Europa. O domínio napoleônico na Europa ocidental impressionou suficientemente os regimes restaurados para reter, ou reviver, dentro de poucas décadas, suas instituições públicas chaves. O sistema prefeitoral centralizado de governo local, a essência do Código Civil Napoleônico e, sob uma variedade de novos nomes, a força policial paramilitar, a Gendarmaria Nacional, foi reproduzida mesmo pelos mais inveterados adversários de Napoleão, assim como o Conselho de Estado, como um instrumento de política no ápice do Estado. Eles tornaram-se a base das instituições públicas da maioria das nações da Europa ocidental em meados do século XIX, criando as bases reais, apesar de subestimadas, para o tipo de cooperação que somente tornou-se possível com as novas circunstâncias políticas que emergiram após a Segunda Guerra Mundial.      

Nos Países Baixos, na Alemanha ocidental e do sul e na maior parte da Itália do norte – Piedmont e Lombardia, senão Veneza – a hegemonia napoleônica durou o suficiente para que estas instituições criassem raízes. De fato, em muitos casos, o caráter dos regimes que antecederam o império estimulou uma perspectiva simpática ao modelo altamente uniforme de governo centralizado no coração da cultura política napoleônica. Há pouca dúvida sobre a impressão duradoura deixada pelo domínio napoleônico nestas regiões da Europa. Um mapa da Comunidade Européia (EEC), fundada pelo Tratado de Roma em 1957, é incrivelmente semelhante ao “império napoleônico interno”, aquelas terras tanto anexadas diretamente à França quanto sob influência napoleônica direta, antes de 1807. Havia um grau forte de empatia entre os imperialistas napoleônicos – os franceses – e muitas elites europeias não-francesas durante o domínio imperial e, é claro, depois disso. O processo não foi forçado, pelo menos entre as classes governantes, e é a única base na qual a durabilidade das reformas napoleônicas pode ser explicada. Isto é verdade em muitos casos significativos, particularmente aqueles dos Estados alemães de Nassau, Hesse-Darmstadt, Bavária, Baden e Württemberg, onde a hegemonia napoleônica foi indireta, mas a essência de seu sistema político foi importado e subordinado ao pensamento mercantilista pré-existente.

Entretanto, o que dizer do espírito no qual os franceses exportaram e instalaram sua cultura política em outros europeus e as reações a ela além dos limitados – e, em última análise, onipotentes – círculos das elites? Às vezes, e em certos lugares, o império interior provou males que foram para o bem, já que forças de um imperialismo mais cultural, ao invés de puramente institucional, estabeleciam-se devidamente.

Os franceses não estavam muito acostumados a dominar outros povos na época em que o Grande Armée entregou boa parte da Europa em suas mãos. Seu império marítimo nunca foi tão grande quanto o britânico, português ou espanhol, e a maioria dele foi perdida uma geração antes das guerras revolucionárias começarem. Nem, apesar de sua riqueza e variedade internas, a França realmente abraçou a diversidade dos povos, línguas e culturas com as quais os Habsburgos, Roamnovs, Otomanos ou mesmo os Hanoverianos estavam tão acostumados a governar. O compromisso cultural não era na natureza ou experiência do Estado francês, seja aquela da velha monarquia ou da Revolução. Napoleão e seus colaboradores orgulhavam-se de ter reconciliado o melhor dos mundos de Luis XIV com os novos benefícios da Revolução. Assim, as vantagens comuns entre os regimes velho e novo era uma visão de uma única França, centralizada, política e culturalmente, o triunfo de uma cultura francesa padrão sobre o regionalismo. Isto pressagiou um problema para uma situação pragmática no seu novo império multicultural. Assim foi provado. Os franceses aprenderam sobre domínio imperialista e os povos da Europa conseguiram um na cultura política francesa, entregue com toda a arrogância e auto-confiança do imperialismo colonial de uma era futura.

Havia partes de seu império que os franceses aprovavam carinhosamente e outras que eles chegaram a desprezar. As razões por seus gostos e desgostos têm três qualidades determinantes. Suas opinões eram uniformes, mesmo formadas espontaneamente; isto é, administradores diferentes em áreas adjacentes da Itália ou Renãnia, por exemplo, expressavam opiniões quase idênticas de seus administrados, não influenciadas entre si e, de fato, em desacordo com o que seus superiores no centro esperavam que eles chegassem a pensar de suas responsabilidades.



A resposta francesa à Itália é um caso notável, já que poucas partes da Europa foram marcadas por suas diferenças internas do que a península que Metternich (N. do T.: Príncipe Clemens Von Metternich, diplomata austríaco) descreveu como “uma mera expressão geográfica”. Não obstante, os administradores franceses eram uniformes em sua opinião depreciadora dos italianos – todos os italianos, de qualquer região – à medida que sua ocupação progredia. Eles não eram cegos para as diferenças entre os italianos, especialmente quando estas envolviam falhas em seu caráter ou cultura: os toscanos eram pérfidos, espertos mas covardes e dados à superstição; o piemontês (N. do T.: de Piemonte, região fronteiriça com a França) era corrupto, violento e unido a clãs. Se o denunciador era o filho de um nobre, tal como La Tour Du Pin, o sub-prefeito de Florença, ou um ex-terrorista, como Nardon, o prefeito de Parma, o veredito era sempre o mesmo. Os exemplos da Toscana e Piemonte são particularmente importantes, pois elas estavam entre as poucas partes da Itália que a França investia esperanças. Acreditava-se que Piemonte possuía um sistema absolutista de governo parecido com aquele do antigo regime da França; acreditava-se que os toscanos foram influenciados pelas reformas iluministas do governante Habsburgo, Pedro Leopoldo, nos anos 1780. A familiaridade ensinou aos franceses “pés no chão” a pensarem de outra forma, e eles o fizeram como uma mente só. Ou eles todos gostavam de uma dada sociedade, ou não gostavam; as opiniões quase nunca eram divididas.

Segundo, os franceses nunca tiveram quaisquer dúvidas sobre como qualquer área que eles mantinham o controle deveria ser governada. Por mais que Napoleão tenha hesitado em adquirir novos territórios, e mesmo se ele fizesse isso puramente com objetivos diplomáticos – usando territórios como peças de barganha em negociações diplomáticas, como aconteceu com as Províncias Ilíricas (N. do T.: Eslovênia, Dalmácia e Croácia) – os franceses nunca duvidaram de como governá-las. Todo território recebia a panóplia completa do sistema legal e administrativo francês, muito rapidamente. Os franceses nunca comprometiam isto, em quaisquer termos ou por quaisquer razões, outros que não os seus próprios, salvo em casos excepcionais. O Grão-Ducado de Varsóvia era tão digno deles em apoio militar que parecia bobagem alienar sua nobreza pressionando-a por uma abolição de fato do feudalismo ou da tolerância religiosa com os judeus. As vastas reformas propostas pelo supostamente novo modelo de Jerome Bonaparte (N. do T.: irmão mais jovem de Napoleão), o Reino da Westfália, na Alemanha central, foram afundadas a níveis insignificantes por razões muito semelhantes. Em todo lugar, nos departamentos imperiais da Itália e Alemanha e nos reinos-satélites da Itália, Napoles e Holanda, os franceses varreram as antigas ordens institucionais em um só golpe. Esta política trouxe à Europa ocidental suas fundações institucionais, mas ela foi dirigida pela natureza inflexível do imperialismo francês. Se o consentimento aparecia, tanto melhor; caso contrário, não havia qualquer compromisso por parte dos novos senhores. Imitadores e admiradores do “modo napoleônico” existiram, nenhum mais que Maximiliam da Bavária e seu primeiro ministro, Montgelas. Eles tentaram impor brutalmente o domínio, de forma próxima ao modelo francês, no Tirol, o qual eles tomaram da Áustria através do Tratado de Pressburg em 1805, resultando numa revolta feroz do Tirol em 1809. Só havia um modo, e somente um. O domínio napoleônico não envolvia acordo. De fato, ele desconhecia sua existência.

A última peculiaridade é a mais reveladora. Os gostos ou dissabores franceses eram medidos puramente em relação ao grau que eles acreditavam que uma dada sociedade se aproximasse da França ou não. Colocando de outra forma, eles tinham apenas um padrão de medida, sua própria cultura, e nunca julgavam um povo por seus próprios méritos, à luz do sucesso de sua própria cultura ou instituições. Isto poderia ser mesmo mais revelador da propensão francesa para o imperialismo cultural quando refletia naquilo que admiravam. Por exemplo, Norvis de Montbreton sobre Baden, lembrando sua estada lá como agente diplomático: “O Grão-Ducado tornou-se uma segunda Alsácia, unida, ao invés de separada, pelo Reno até o ponto que era impossível estar mais na França do que no Estado alemão.” Tais homens julgavam pelos padrões franceses e eram insensíveis às muitas realidades complexas naqueles julgamentos. Mesmo em sua admiração admitida pelos europeus não-franceses, a janela era muito estreita e auto-definida.

A fonte desta convicção cultural resultou da crença entre os franceses, ou pelo menos aqueles que escolheram seguir Napoleão, que a França havia aproveitado o melhor do Iluminismo pelo controle de sua Revolução e salvando o que havia de melhor do velho regime. Nas circunstâncias variáveis do império, o universalista afirma que os valores iluministas adquiriram um significado variável nas mãos de uma superpotência que acreditava ela própria encarná-los. O resultado foi o que Antony Pagden chamou “o último dos grandes projetos de unificação”. É discutível que o “projeto” napoleônico, uma vez colocado em movimento – contrariamente às suas fontes de inspiração – logo evoluiu da última posição de um ramo do Iluminismo para a primeira posição das “missões civilizatórias” que marcaria o século seguinte. Seja como for, a busca pela uniformização continuou a passos largos, e os resultados foram traumáticos.

O Legado Indireto do Imperialismo Napoleônico

A ocupação estrangeira e a dominação imperial podem durar séculos e mesmo assim deixar poucos traços, mas elas não precisam viver muito para ter um impacto duradouro sobre os ocupados. A Bretanha Romana é um exemplo do primeiro caso; a França ocupada pelos nazistas é um caso pungente do último. Onde uma ocupação breve deixa uma marca duradoura, é geralmente através de seus aspectos negativos, pelo trauma que ele causa entre os ocupados, e isto foi geralmente o caso daquelas partes da Europa que estiveram pouco tempo sob a hegemonia napoleônica. Uma vez entendido isto, o episódio napoleônico adquire uma significância importante na história européia, muito além de sua curta existência. O exemplo nazista é citado puramente no contexto da cronologia comparada com a influência; as intenções e comportamento da França Napoleônica eram frequentemente brutais, mas nunca intrinsecamente malígnas. Todavia, a hegemonia napoleônica poderia provar ser tão permanente nos traumas que provocou, quanto nos impulsos reformistas positivos.    

O domínio napoleônico tornou-se mais rompedor e alienador para os povos da Europa extamente quando ele começou a mostrar os primeiros sinais do colonialismo do século XIX: a sede por uniformidade comandada pelo imperialismo cultural, e uma atitude implacável para explorar os povos subordinados economica e militarmente. A uniformidade era, em essência, imperialismo cultural. Ela esmagou os costumes locais através da centralização administrativa e da introdução do Código, sobre o Catolicismo popular pela imposição da Concordata e sobre as hierarquias tradicionais de poder através da abolição do feudalismo e da simples perda de independência para um todo imperial.

Em termos culturais e econômicos, o império napoleônico operava muito mais como um império colonial do que outros impérios continentais que ele desafiou e temporariamente varreu, simplesmente pelo direcionamento deliberado dos recursos dos povos não-franceses que ele controlava pelo centro imperial. Os Habsburgos tinham uma tradição – quebrada brevemente por Joseph II – de jogar as províncias e os interesses um contra o outro; os homens de Napoleão sangravam o império todo em virtude das políticas ditadas pelo centro de poder. Em termos econômicos, isto era a proposta do Sistema Continental – que Louis Bergon chamou “um Mercado Comum Desigual” e Geoffrey Ellis, mesmo com mais rigor, um “Mercado Comum de Mão Única”, um mercado que era liderado pela França. Assim como o algodão indiano e egípcio levou a Lancanshire, a seda italiana levou a Lyon durante o Primeiro Império, mas no entanto o rompimento espetacular causado por essas políticas, a brevidade do domínio napoleônico assegurou que ela teria vida curta. O Bloqueio anti-britânico arruinuou a maioria dos portos europeus, mas seu fim presenciou seu rápido recomeço; a destruição deliberada da metalurgia em Berg ou a tecelagem de seda no norte da Itália não sobreviveu ao colapso do domínio imperial. O siginificado de longo termo de tais políticas reside não em seus resultados práticos, mas nas indicações que elas dão de uma mentalidade exploradora que resultou no colonalismo mais tarde. Diferentemente da exploração crua praticada pelos impérios modernos coloniais emergentes, a versão napoleônica tentou reestruturar e permanentemente reorientar as economias de seus territórios submissos e, especialmente, destruir seus bolsões mais desenvolvidos industrialmente, no sentido de reduzir a competição.

O Império de Napoleão

Reinaldo José Lopes / Tiago Cordeiro, 08/12/2009

Durante 15 anos, o general francês tentou controlar todos os países vizinhos.

Perguntaram certa vez ao duque de Wellington quem era o melhor general de sua época. A resposta? "Nesta era, em eras passadas, em qualquer era, Napoleão". Vinda do britânico que coordenou a destruição definitiva do exército napoleônico na batalha de Waterloo, o elogio não poderia ser maior. De fato, poucos líderes militares venceram tantas batalhas quanto o oficial baixinho que nasceu na ilha italiana da Córsega e se transformou no imperador da França.

Os triunfos de Bonaparte foram provocados, em parte, pela Revolução Francesa de 1789. Ao contrário dos exércitos aristocráticos do passado, os soldados da nova França eram recrutados do povo às centenas de milhares. Napoleão conseguiu transformar esses soldados em eficientes máquinas de guerra, realizando manobras rápidas e usando armas leves e letais. O resultado foi uma onda de conquistas que só acabou com o fracasso da invasão da Rússia, no inverno de 1812.

A Europa sou eu

1. Primeiras vitórias

Anos: 1796-1797

Conquista: Com 28 anos, Bonaparte liderou as forças de invasão da Itália, dominada principalmente pelos austríacos. Conseguiu uma série impressionante de vitórias, que forçaram a Áustria a ceder suas terras nos Países Baixos. E o norte da Itália se dividiu em repúblicas pró-França.

2. Temporada no Egito

Anos: 1798-1801

Conquista: A fim de reagir à ameaça dos britânicos, Napoleão resolveu ocupar o Egito para reforçar seu poderio naval. Partiu para Alexandria, onde venceu as forças otomanas. Mas o bloqueio marítimo inglês no Mediterrâneo inviabilizou a ocupação, e os franceses abandonaran o país.

3. Itália dominada

Anos: 1800-1802

Conquista: Ao saber da situação política instável em Paris, o general foi do Egito à França e tomou o poder. Logo depois, voltou a atacar a Itália. No caminho, venceu a Áustria na Batalha de Marengo. Com isso, na prática, anexou os reinos do norte da península. Nos anos seguintes, ele controlaria toda a Itália.

4. A Alemanha se dobra

Ano: 1806

Conquista: Depois da derrota por mar para os ingleses em Trafalgar e da vitória em Austerlitz, Napoleão volta ao ataque por terra. Derrota duas coalizões de monarquias europeias e traz para seu lado uma série de territórios da atual Alemanha.

5. No topo do mundo

Anos: 1812

Conquistas: Dominadas a Itália e a Alemanha, tudo fica muito rápido. O imperador austríaco cede a mão de sua filha a Napoleão. Espanha e Portugal são conquistados em batalhas históricas, como a de La Coruña. Partes da atual Polônia ficam sob controle francês e Dinamarca e Noruega viram estados vassalos.

6. A queda

Anos: 1813-1815

Conquistas: O poder francês nunca mais seria o mesmo após a invasão desastrada da Rússia. Exilado em 1814, Napoleão ainda retomaria o poder antes da derrota final, em Waterloo, em 1815. Ao fim de sua carreira, o território francês era menor que o de 1789.

Nepotismo imperial

O imperador deu vários cargos para familiares

Você conquistou meia Europa e precisa garantir a segurança de seus territórios. O que faz? Dá cargos para parentes, é claro. Nessa política, Napoleão daria inveja a muito político brasileiro. Bonapartes ocuparam vários tronos no começo do século 19. Para ficar entre os irmãos: Luís virou rei da Holanda; José reinou sobre Nápoles e a Espanha; Jerônimo ocupou o trono de Vestfália (hoje parte da Alemanha) e Elisa tornou-se Grã-Duquesa da Toscana (na Itália).

Multidão em armas

Batalhas napoleônicas envolviam milhares

Enquanto Napoleão dominou a Europa, as mortes ligadas a guerras dispararam. Calcula-se que o total de falecidos nos conflitos napoleônicos, entre civis e militares, fique entre 3,5 milhões e 6,5 milhões. Esses números têm relação direta com os exércitos gigantescos do francês. Só para invadir a Rússia, ele reuniu 650 mil homens - um terço dessa força lutou em Borodino. Na maior vitória e na maior derrota, respectivamente em Austerlitz e em Waterloo, eram cerca de 70 mil homens reunidos.


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