terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Missão é colocar o Brasil em órbita

Evanildo da Silveira, 07/11/2012

Revista Problemas Brasileiros

Depois de 32 anos de existência, o programa espacial brasileiro passa por reformulações. Maior integração entre órgãos e instituições, uma nova série de projetos, mais participação de indústrias e domínio de tecnologias críticas são as principais características e objetivos do novo Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), para 2011-2020, cujas diretrizes foram aprovadas recentemente pelo Conselho Superior da Agência Espacial Brasileira (AEB). Uma das alterações mais importantes é o aumento da participação da iniciativa privada, tendo sido criada uma empresa industrial nacional, mista entre governo e setor privado, chamada Visiona Tecnologia Espacial. Ela será a encarregada de fabricar os satélites e equipamentos de solo e, para tanto, assinar contratos com outras indústrias, nacionais ou internacionais.

De acordo com o presidente da AEB, José Raimundo Braga Coelho, no cargo desde maio, a criação da Visiona, fruto da associação da Embraer (51%) com a Telebras (49%), esta última ligada ao Ministério das Comunicações, representa um primeiro e importante passo para maior participação da indústria nacional nos projetos espaciais. “Com a chegada da Visiona abre-se a oportunidade para agregar esse novo conceito de empresa integradora ao PNAE”, diz. Além disso, ele esclarece, “a utilização de todo o potencial do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, por meio de foguetes desenvolvidos em programas conduzidos pelo governo e por iniciativas autônomas puramente comerciais é uma alternativa que se apresenta promissora”.

A Visiona vem juntar-se às empresas privadas brasileiras que já atuam no setor, fornecendo satélites pequenos e suas estruturas e equipamentos de bordo, incluindo cargas úteis, foguetes de sondagem e veículos lançadores. “Nossa indústria aeroespacial é, certamente, a maior do hemisfério sul”, assegura o engenheiro Walter Bartels, diretor presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), que congrega cerca de 50 empresas dos segmentos aeronáutico, de defesa e espacial. “Temos colaborado, de forma significativa, para o desenvolvimento do país, seja diretamente, por meio da contribuição econômica, seja indiretamente, pela transferência de inovações e princípios de qualidade a outros setores.”

Na opinião de Bartels, o aumento da presença das companhias locais no PNAE vai intensificar essa situação. “A participação da indústria nacional na criação de tecnologias e sistemas espaciais é condição necessária para a efetiva absorção pelo setor produtivo das inovações e da capacitação promovidas por essas atividades”, diz. Ele explica que o processo de globalização, cada vez mais percebido em todo o mundo, demonstra que a agregação de valor aos produtos fabricados em um país “é fundamental para sua competitividade como nação”.

No plano institucional, a ideia é reorganizar o Sistema Nacional de Desenvolvimento das Atividades Espaciais (SINDAE), responsável pela definição das políticas para a área. A principal novidade seria a criação do Conselho Nacional de Política Espacial – integrado pelos ministérios da Defesa (MD) e da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), além dos demais com projetos na área –, ligado diretamente à Presidência da República. Hoje, cada pasta cuida de seus projetos e responde à presidente. Abaixo dos ministérios, a proposta é criar o Conselho Técnico Científico, em substituição ao Conselho Superior, que faria a ligação entre as empresas e as universidades e centros de pesquisa.

Pelo novo desenho do SINDAE, haveria mudanças ainda em relação ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que deixaria de se reportar diretamente ao MCTI e passaria a se subordinar à AEB. Um novo organograma define também os órgãos encarregados da execução do PNAE, com a atribuição de tarefas como o gerenciamento de atividades, a aprovação de planos, cronogramas, custos e gastos, o repasse de recursos financeiros e o acompanhamento de projetos.

Segundo Coelho, o que se procura com essas mudanças é construir um sistema integrado de gestão, para tornar mais dinâmico o PNAE, dando a ele um novo ritmo e tornando-o mais eficiente. “Nenhum grande problema é resolvido setorialmente”, diz. “Todos os elementos de um sistema – instituições, pesquisadores, técnicos e administradores envolvidos numa tarefa comum – têm de trabalhar em conjunto, trocando informações e colaborando uns com os outros. É assim que se faz qualquer coisa, principalmente em áreas de grande complexidade científica e tecnológica, como satélites e foguetes. Essa é a melhor forma de superar os problemas Nacionais.”

História

Até chegar a essas mudanças, o PNAE percorreu um longo caminho. O Brasil começou a realizar pesquisas espaciais no início da década de 1960, mas só passou a ter um programa estruturado, com recursos próprios, em 1980, com a criação da Missão Espacial Completa Brasileira (MECB). O objetivo não era nada modesto: colocar em órbita satélites brasileiros, com foguetes de construção nacional, em uma base localizada no país. A meta até hoje não foi alcançada e só foi atingida, na verdade, por poucas nações. No caso do Brasil, o país já tem dois centros de lançamento, o CLA e o da Barreira do Inferno (CLBI), no Rio Grande do Norte, e também constrói satélites. O que falta é um foguete capaz de levá-los ao espaço.

Não foi por falta de esforço que deixamos de alcançar esse objetivo. Quando se criou a MECB, a intenção era testar o primeiro protótipo do Veículo Lançador de Satélite 1 (VLS-1) em 1987, o que acabou não ocorrendo. O cronograma atrasou dez anos e a primeira tentativa só foi realizada em 1997. Dois anos depois, em 1999, foi feita a segunda. Em ambas, o VLS explodiu logo após a subida aos céus. Em 2003, estava programada uma terceira. Entretanto, aconteceu então o maior acidente já registrado até hoje no PNAE. No dia 22 de agosto, enquanto era preparado para ser levado ao espaço, o VLS-1 explodiu, destruindo a torre de lançamento do CLA e matando 21 engenheiros e técnicos do então Centro Técnico Aeroespacial (CTA), hoje Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), do Comando da Aeronáutica.

Na época, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva garantiu que, até 2006, quando terminaria seu primeiro mandato, haveria um novo lançamento do VLS-1. A promessa não só não foi cumprida como sequer a torre, agora chamada de Torre Móvel de Integração (TMI), seria reerguida até aquela data. “Embora as ações para sua reconstrução tenham se iniciado um ano após o acidente, as obras de fato só começaram em 2009, devido a diversos problemas judiciais, que impediram seu início conforme planejado”, conta o brigadeiro engenheiro Carlos Antônio de Magalhães Kasemodel, diretor do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), do DCTA. “Ela só ficou pronta em julho de 2012, quando foi realizada a Operação Salina, que consistiu na integração de um mock-up do VLS-1, para verificação das interfaces mecânicas e testes de recebimento da nova TMI.”

Mock-up é uma maquete em tamanho natural. O da cabine de um avião, por exemplo, é construído para que os prováveis ocupantes possam experimentar suas condições de conforto e ergonomia. No caso do VLS-1, seu mock-up, totalmente inerte (sem combustível ou satélite a bordo) foi acoplado à TMI para testar principalmente os sistemas elétricos. A torre, agora completamente automatizada, é bem melhor que a anterior, destruída no acidente de 2003. “Hoje, a TMI é uma das plataformas de lançamento mais modernas do mundo para veículos espaciais do porte do VLS”, garante Coelho. “Grande parte das modificações em relação ao projeto anterior visou tornar a torre mais segura.”


Já o VLS-1 real está em fase final de desenvolvimento. Trata-se de um lançador de pequeno porte, composto por quatro estágios de propulsão, todos movidos a combustível sólido, com capacidade para transportar cargas de até 250 quilos para órbitas equatoriais de até 700 quilômetros de altitude. Seu próximo teste está previsto para 2013, em um voo somente com o primeiro e o segundo estágios ativos. Um outro voo de teste, com todos os estágios, está previsto para 2014 e, em 2015, ele deverá voar já com um satélite a bordo. A criação do VLS-1 visa consolidar a tecnologia indispensável para a colocação em órbita de artefatos importantes para o país.

Projetos

Os conhecimentos adquiridos também poderão ser usados no Programa de Veículos Lançadores de Satélites Cruzeiro do Sul, criado em 2005 com planos de construção de cinco novos foguetes até 2022. A princípio, eles seriam denominados Alfa, Beta, Gama, Delta e Épsilon – nomes das estrelas principais da constelação do Cruzeiro do Sul – e teriam capacidade de transportar desde artefatos pequenos até satélites de grande porte para as mais diversas órbitas terrestres. Por enquanto, porém, o projeto ainda não saiu do papel. Dentre os foguetes planejados, os únicos que deverão ser de fato construídos são os dois primeiros, VLS-Alfa e VLS-Beta, com capacidade de lançamento de 500 e 800 quilos a altitudes de 750 e 800 quilômetros, respectivamente.


Segundo o brigadeiro Kasemodel, os estudos preliminares para a construção do VLS-Alfa já foram realizados, mas até agora não foram disponibilizados recursos para levar o projeto adiante. “O desenvolvimento dos demais veículos da família Cruzeiro do Sul está sendo rediscutido, considerando que não teria sentido criar um veículo nacional para competir com o Cyclone-4, que seria o VLS-Delta”, diz. O militar diz que, “quanto ao VLS-Gama e ao VLS-Épsilon, o problema é a perspectiva de baixa demanda para esses lançadores no mercado”.

O Cyclone-4, mencionado por Kasemodel, é um foguete fabricado pela Ucrânia e que será comercializado com exclusividade pela Alcântara Cyclone Space (ACS). Trata-se de uma empresa pública binacional de capital brasileiro e ucraniano, criada em 31 de agosto de 2006 com o objetivo de fazer lançamentos comerciais de satélites para qualquer país interessado, a partir de Alcântara. Para isso, a companhia está construindo seu próprio sítio de lançamento no CLA. Quando a ACS foi fundada, a previsão era de que o voo inaugural fosse feito em 2010, o que não ocorreu. Agora, a perspectiva é que o primeiro voo de qualificação do Cyclone-4 seja realizado no final de 2013.

Com 40 metros de comprimento, esse foguete tem capacidade para colocar 5,3 mil quilos em órbita terrestre baixa (até 500 quilômetros) ou 1,6 mil quilos em uma órbita de transferência geoestacionária. Esta é elíptica, com seu perigeu (ponto mais próximo da Terra) a 170 quilômetros de altitude e o apogeu (ponto mais afastado da Terra) a 35,98 mil quilômetros de altitude. Ela é utilizada para transferir um satélite de uma órbita baixa terrestre para a geoestacionária – aquela em que o artefato espacial fica sempre sobre o mesmo ponto da superfície do planeta.

Em 2015, deverá ocorrer o primeiro voo do Veículo Lançador de Microssatélites 1 (VLM-1), que está sendo construído, em parceria, pelo IAE e pela Agência Espacial Alemã (DLR), com investimentos previstos de R$ 100 milhões. Esse novo foguete terá capacidade para levar pequenos artefatos, de até 200 quilos, a uma órbita equatorial de 300 quilômetros de altitude. Como seu custo de produção é relativamente pequeno, a expectativa é que se abra um mercado significativo para sua comercialização. Além disso, para atrair possíveis clientes e demandas diferentes, o VLM-1 será produzido em várias versões, com alterações apenas no terceiro estágio, mantendo-se inalterados o primeiro e o segundo.

Além dos foguetes, o Brasil também fabrica os motores que os levam com suas cargas até o espaço. São três os propulsores mais importantes em produção, todos movidos a combustível líquido: L5, L15 e L75. O domínio dessa tecnologia é mais difícil, mas os motores são mais eficientes do que os que usam propelentes sólidos, além de propiciar maior precisão na hora de colocar um satélite em sua órbita, uma vez que podem ser ligados ou desligados no espaço quando isso se fizer necessário. Todos os três estão sendo desenvolvidos pelo IAE, com grande participação de empresas privadas.

O L5, que funciona com etanol e oxigênio líquido, é capaz de movimentar até meia tonelada. Movido com os mesmos combustíveis, o L15 tem força três vezes maior, podendo carregar 1,5 toneladas. O mais potente, o L75, com capacidade para deslocar 7,5 toneladas, é alimentado com querosene e oxigênio líquido. O principal objetivo do desenvolvimento do L5 é capacitar os técnicos e engenheiros do IAE e as empresas envolvidas para projetar, fabricar e testar outros motores movidos a combustível líquido, como é o caso do L15 e do L75. Além disso, ele poderá ser usado para substituir o atual motor do quarto estágio do VLS-1, que hoje utiliza combustível sólido. As vantagens da troca são o aumento da capacidade de carga do foguete e a melhoria na precisão da entrada em órbita. O L75, por sua vez, deverá ser empregado como propulsor do VLS-Alfa e do VLS-Beta.

Em órbita

Na área de construção e operação de satélites, o Brasil está mais avançado. Já em 1993, o país havia construído sozinho o Satélite de Coleta de Dados 1 (SCD-1), colocado no espaço pelo foguete americano Pegasus, no dia 9 de fevereiro daquele ano. Ainda em operação, ele já deu mais de 100 mil voltas ao redor da Terra, percorrendo uma distância de cerca de 4,5 bilhões de quilômetros, o que corresponde a quase 6 mil viagens de ida e volta à Lua. Cinco anos mais tarde, foi lançado o SCD-2. Ambos continuam coletando dados ambientais, para a previsão do tempo e monitoramento das bacias hidrográficas, entre outras aplicações, repassados por 300 sensores instalados no solo.

Em parceria com a China, num trabalho conjunto iniciado em 1988, foram construídos três Satélites Sino-Brasileiros de Recursos Terrestres (CBERS na sigla em inglês de China-Brazil Earth Resources Satellite), lançados pelo país asiático. Nenhum está mais funcionando; o CBERS-1 se manteve em operação de outubro de 1999 a agosto de 2003, o CBERS-2 de outubro de 2003 a janeiro de 2009, e o CBERS-2B de setembro de 2007 a maio de 2010. Agora, um quarto da série, o CBERS-3, está sendo preparado para voar, o que deve acontecer em dezembro deste ano ou início de 2013.

CBERS

Além do CBERS-3, a nova carteira de projetos da AEB prevê o lançamento de novos artefatos até 2019. Em 2014, deverá ser colocado em órbita o CBERS-4 e, em 2015, o primeiro Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC). “No período compreendido entre 2015 e 2020 – fase de expansão do PNAE –, investiremos no desenvolvimento de novos projetos de maior complexidade tecnológica”, revela Coelho. “Serão colocados no espaço três satélites de monitoramento ambiental do Programa Amazônia: o AMZ-1 e o AMZ-1B em 2015 e o AMZ-2, além de um meteorológico geoestacionário, em 2018. Em 2019 serão lançados ainda o segundo SGDC e um satélite radar.”

Desses todos, um dos mais importantes é o SGDC, cujo projeto será coordenado pelo Comitê Diretor de Projeto (CDP), do qual fazem parte representantes da Telebras e de três ministérios: da Defesa, das Comunicações e da Ciência, Tecnologia e Inovação. A construção dele ficará a cargo da Visiona, que poderá subcontratar fornecedores estrangeiros e empresas nacionais que atuam na área espacial. Quando estiver em operação, o SGDC servirá ao Programa Nacional de Banda Larga, levando a internet a cerca de 1,2 mil municípios brasileiros hoje sem acesso à rede mundial de computadores.

Ele também será usado pelo Sistema de Comunicações Militares por Satélite (Siscomis), que hoje utiliza dois satélites da empresa Star One, controlada por um grupo mexicano. Essa situação deixa o país sujeito à interrupção das comunicações militares por motivos comerciais ou geopolíticos, além de pôr em risco informações confidenciais estratégicas e de segurança. O novo satélite nacional vai eliminar essa vulnerabilidade, além de capacitar as empresas nacionais para a construção do segundo SGDC e de outros artefatos demandados pelo PNAE.

Soberania e desenvolvimento

Comparada às condições vivenciadas no passado – quando as atividades espaciais do país sofriam, na maior parte do tempo, com a falta de recursos –, a situação atual, no aspecto financeiro, é relativamente melhor. Segundo o presidente da AEB, o orçamento aprovado para o programa espacial em 2012 é da ordem de R$ 443 milhões, pouco mais de 7% de tudo o que foi destinado ao longo das três décadas do PNAE. “Nesse período, os investimentos governamentais atingiram o total de R$ 6,152 bilhões [já corrigidos para 2011]”, informa Coelho. “Desse valor, aproximadamente 40% foram aplicados no desenvolvimento de satélites, 28% em foguetes e suas respectivas infraestruturas associadas e 25% nos centros de lançamento”, ele conta.

Para muitas pessoas, esse dinheiro seria mais bem empregado se fosse usado para resolver problemas mais urgentes do país, como saúde e educação. Esse é um raciocínio simplista, que não leva em conta os benefícios imediatos e de longo prazo proporcionados pelas pesquisas espaciais. São muitos os motivos pelos quais é importante para um país com as dimensões do Brasil ter um programa na área: ele atende a demandas concretas da nação e da sociedade. “Podemos citar a prevenção e o alerta de desastres, a estratégia nacional de defesa, o monitoramento ambiental e a segurança alimentar e hídrica”, ressalta Coelho.

O brigadeiro Kasemodel, por sua vez, lembra que os investimentos em atividades espaciais são considerados estratégicos para o desenvolvimento soberano do país e fundamentais para incentivar o crescimento econômico e social da nação. “A extensão de nossas fronteiras terrestre e marítima e as riquezas minerais tornam inaceitável a dependência de satélites estrangeiros para os sistemas de comunicações e monitoramento do território nacional”, justifica o diretor do IAE. “O patrimônio da Amazônia seria, por si só, motivo relevante para justificar a necessidade de o país investir num programa espacial. No entanto, há outros fatores motivadores, como as reservas de petróleo na camada do pré-sal, por exemplo.”

É preciso levar em consideração, também, que com o tempo as pesquisas nessa área acabarão contribuindo para o desenvolvimento tecnológico do país. Por isso, segundo Coelho, criar tecnologia espacial significa avanços em todos os campos de atividade. “Ela é fundamental para o progresso da própria ciência e das outras tecnologias”, explica, afirmando que “a complexidade tecnológica da atividade aeroespacial é a segunda, no ranking da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), perdendo somente para a farmacêutica.” O resultado são itens de alto valor agregado. Enquanto os produtos agrícolas valem, em média, US$ 0,20 por quilo e os aeronáuticos US$ 10 mil, os espaciais chegam a US$ 50 mil.

Às vezes passa despercebido, mas muitas das tecnologias criadas para a área espacial nos países ricos geram subprodutos, que acabam sendo usados no dia a dia em todo o mundo. Entre os exemplos mais notórios estão os chips de circuitos integrados utilizados em larga escala pela eletrônica moderna, as baterias solares para relógios e calculadoras, o teflon, o forno de microondas e as soldas e brocas especiais de dentista. Kasemodel salienta que isso, em certa medida, também ocorre com o programa espacial brasileiro, que tornou possível o desenvolvimento de tecnologias estratégicas em diversos segmentos, como áreas de materiais, química, eletrônica, sistemas de navegação e controle e sensores.

O brigadeiro dá alguns exemplos concretos de subprodutos do PNAE, como a química de propelentes, materiais ablativos (que se queimam para proteger uma outra estrutura) e adesivos, compósitos e tecnologia de bobinagem de fios e fitas sintéticas, aços especiais de alta resistência, tubos de alumínio sem costura e processos e meios industriais de usinagem, soldagem, tratamento térmico e de conformação de chapas metálicas. “Além disso, há os benefícios indiretos, como o aumento da capacitação de recursos humanos e a geração de empregos de alta tecnologia”, destaca Kasemodel. “São avanços difíceis de quantificar, mas que representam a alavanca do setor intelectual e produtivo dos países que se dedicam a esse ramo do conhecimento.”

http://www.iae.cta.br/?action=noticia&id=219

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

[POL] “A Questão Judaica” na visão dos Nazistas

O Problema Judeu

Max Eichler


Publicado em  Du bist sofort im Bilde (Erfurt: J. G. Cramer’s Verlag, 1939) pp. 139-142.

 

 

A Questão Judaica é tão antiga quanto a história da própria judiaria. Dos dias da antiguidade até o presente, os povos sempre se levantaram para se defender do parasitismo judeu. A defesa era frequentemente sangrenta. A Grande Alemanha é o primeiro país no mundo a encontrar um modo legal de se separar do povo judeu estrangeiro. Ao contrário das visões do século passado, e dos democratas contemporâneos, o Nacional Socialismo vê a Questão Judaica não como um problema religioso, mas sim como uma questão racial.

Após os judeus terem sido removidos do serviço público, e após a imprensa e a vida cultural terem sido limpas, o passo mais importante foram as leis de Nuremberg (veja as páginas 36-47!). O mundo prestou atenção. Ele viu que não era mais uma questão teórica, que não era meramente o anti-semitismo de uma era antiga, mas que o acerto final com a judiaria havia começado. Pela primeira vez em sua história, os judeus enfrentavam um movimento que transcendia todas as fronteiras e oceanos, um que não poderia ser mais parado – independentemente  de outros povos resistirem ou hesitarem. O movimento do boicote mundial contra a Alemanha Nacional Socialista, a guerra de agitação da imprensa mundial judaica e os tiros dos assassinos judeus que mataram Wilhelm Gustloff e Ernst Von Rath, provaram isso.


O Nacional Socialismo luta suas batalhas até um final vitorioso com determinação de ferro. Ele resolverá a Questão Judaica de um modo que ele acha certo para o povo alemão, independentemente da inimizade mortal e músicas de ódio por parte dos judeus e de seus amigos democráticos. Ele fará isso legalmente, mas sem compromisso e de uma vez por todas. Não é acidente que o povo alemão tenha sido conclamado a fazer isso.  Nenhum outro povo deu aos judeus tal oportunidade para cumprir suas ações como fez o povo alemão, no meio de sua mais profunda necessidade. Nenhum outro povo é forte o suficiente para dar aos judeus o destino que eles merecem além do povo alemão! Como em tantas outras áreas. A Alemanha Nacional Socialista deu ao resto do mundo o exemplo de como lidar com a Questão Judaica, como foi mostrado pelas leis raciais de nosso aliado Itália e pela difusão da Questão Judaica para muitos outros países.


O assassinato de Ernst von Rath não atrasou as medidas legais elaboradas para resolver o Problema Judaico, mas ao invés disso acelerou-as. Os judeus vivendo na Alemanha tiveram que pagar uma indenização de 1 bilhão de marcos para desencorajá-los a repetir um crime covarde. As vozes democrático-judaicas estrangeiras reclamaram a respeito dos “pobres” judeus. Mesmo assim, após seis anos de governo nacional socialista, os 700.000 judeus na Alemanha detinham 8 bilhões de marcos enquanto que aproximadamente 80 milhões de cidadãos alemães detinham somente 200 bilhões de marcos. Cada judeu tinha em média 4,57 vezes a média alemã. A renda judia, que era de 4 bilhões de marcos em 1918, dobrou às custas do povo alemão. Os judeus também possuíam propriedade substancial (por exemplo, mais da metade – cerca de 60% - de Berlim pertencia aos judeus, apesar deles serem apenas 3,8% da população). Isto prova a extensão da exploração do povo alemão pelos parasitas judeus. Realmente, é somente uma pequena conta que a liderança nacional socialista do povo alemão deu para os judeus.      


 

Resolvendo a Questão Judaica

Dr. Achim Gercke


Publicado em “Die Lösung der Judenfrage,” Nationalsozialistische Monatshefte, Heft 38 (May 1933), pp. 195-197


Como resultado da vitória da revolução nacional socialista, a Questão Judaica tornou-se um problema para aqueles que nunca pensaram antes em resolvê-la, que nunca lutaram para resolvê-la. Todos viram que a situação atual é intolerável. Permitir desenvolvimento livre e igualdade para os judeus tem levado a uma situação “não-livre” de competição exploradora e para uma entrega de importantes posições dentro do povo alemão para aqueles de uma raça estrangeira.


O resultado é que qualquer um que pensa nesta questão procura por uma solução. Todos têm uma proposta em sua mesa, que se consegue uma reação mais ou menos favorável em discussões. Isto era esperado.


Mas a solução para tão importante problema não é tão fácil quanto parece.


As medidas legais que acabaram de ser emitidas pelo governo são ações de limpeza que habilidosamente respondem a declaração de guerra de Judá. Basicamente, as leis fornecem uma direção na qual devemos nos mover. Ninguém deveria subestimar o significado destas leis. Todo o povo será educado sobre a Questão Judaica e entenderá que a comunidade do povo é uma comunidade de sangue. Pela primeira vez, elas serão influenciadas pelo pensamento racial e estarão focadas não em soluções teóricas, mas em uma solução real.


Todavia, estas medidas temporárias não podem ser uma solução final para a Questão Judaica já que a época não é oportuna, apesar das leis apontarem a direção e deixarem espaço para quaisquer outros futuros desenvolvimentos.


Seria, entretanto, muito cedo para pensar em planos para discussão pública que proponham fazer mais do que atualmente foi feito. Apesar disso, uns poucos princípios devem ser expostos de modo que os planos que façamos possam amadurecer e erros possam ser evitados.


Fundamentalmente, alguém deve decidir se devemos reunir os judeus na Alemanha (assim como aqueles de ascendência judaica) de forma organizada. Muitos planos anunciados até aqui propõem reunir os judeus em uma federação de modo que eles possam ser mantidos sob vigilância e influenciados. Todas estas propostas estão fundamentalmente erradas. Se estabelecermos uma federação de judeus, sob algum tipo de administração judaica ou qualquer outro tipo semelhante de estrutura, os judeus continuarão tendo uma âncora legal eterna com a Alemanha, um meio de apresentar seus desejos, uma ferramenta para seus objetivos, um modo legal para assegurar ligações secretas. E daríamos a impressão de que estamos lidando com uma minoria nacional que poderia buscar, e encontrar, apoio fora da Alemanha. Ninguém pode dar nem mesmo apoio superficial a tal atitude em relação à Questão Judaica, já que seria uma insanidade política confundir medidas domésticas alemãs sobre a Questão Judaica com questões de política externa.  


Todas as propostas que incluí uma presença permanente, uma regulação dos judeus na Alemanha não resolve a Questão Judaica, já que elas não eliminam os judeus da Alemanha. E é isto o que queremos fazer. Se os judeus são capazes de explorar seus povos anfitriões para sempre, eles permanecerão uma constante fonte de chama aberta e destrutiva do Bolchevismo, tornando mais fácil acendê-la repetidamente, sem mencionar as incertezas políticas resultantes da desunião do povo e do perigo para a unidade racial. Vamos nos livrar deste tipo de pensamento para sempre, seja ele resultante de pensamento pobre ou más intenções. Resumindo, o Estado pode e deve focar na eliminação sistemática, na emigração.


Se destruirmos qualquer cooperação organizacional dos judeus e expulsarmos os agitadores judeus subversivos e perigosos, que mostram quaisquer sinais de atividades conspiradoras, os judeus ainda terão a sinagoga, o rabino, para protegê-los. Se apoiarmos os planos sionistas e tentar uma solução internacional estabelecendo um lar para os judeus, seremos capazes de resolver a Questão Judaica não somente na Alemanha, mas na Europa e no mundo inteiro. O mundo inteiro tem interesse em tal solução, em eliminar esta fonte de desordem, que constantemente precede o Bolchevismo. Devemos estabelecer isto claramente.


Talvez os judeus sejam capazes de se tornar uma nação, um povo. Isto requereria trabalhadores, artesãos e colonos judeus que se desenvolveriam a partir da população judaica. Se regularmos este plano, então criaremos novas fundações para este assentamento. Dispersar os judeus aos quatro ventos não resolve a Questão Judaica, mas ao invés disso, piora a situação. Um programa sistemático de assentamento, portanto, é a melhor solução.


Planos e programas devem ter um objetivo apontando para o futuro. Eles não podem estar focados apenas em uma situação desconfortável temporária. Um futuro melhor exige a solução sistemática da Questão Judaica, não a organização dos judeus.


 

Gercke (1902 – 1997) trabalhou como especialista em assuntos raciais no Ministério do Interior do Terceiro Reich. Ele trabalhou no caso de Reihard Heydrich, que foi acusado de ter sangue judeu, provando o contrário. Após a guerra, trabalhou no governo de Konrad Adenauer.

 

O Fim da Migração Judia

Dr. Johann Von Leers


Publicado em “Das Ende der jüdischen Wanderung,” Nationalsozialistische Monatshefte, Heft 38 (May 1933) pp. 229-231.


 

O problema judeu é um problema migratório que se arrasta por séculos de uma região européia a outra. Podemos falar de um certo grau de saturação com a população judaica em regiões individuais. Se este grau de saturação for alcançado ou superado, os povos não-judeus afetados sempre tomarão as mesmas medidas defensivas. Eles tentam reduzir a influência judaica, impedir a corrupção judaica de sua vida cultural e comercial, ou para revertê-la se já tiver ocorrido. Frequentemente, o primeiro passo é uma clara conscientização de que os judeus são um elemento estrangeiro. Aqueles países não simultaneamente afetados pelo problema tendem a equivocar-se com estas medidas defensivas, e até o ponto que isso está em seus interesses políticos, ou na extensão da influência judaica sobre eles, falando de “barbarismo”. Quando as massas de emigrantes judeus desmascararem-se para eles, o curso inteiro de eventos frequentemente se repete. Medidas defensivas similares surgem no segundo país, enquanto que no primeiro país o espírito lutador contra os judeus se acalmou – e assim o equívoco continua.

Ninguém que compreende a situação será capaz de negar que a causa destas medidas defensivas reside basicamente no próprio povo judeu. Mesmo com o alto grau de imparcialidade, concluiremos que estamos lidando com um grupo de pessoas que na média é altamente indesejável. Isto não pode nos impedir de olhar a questão mais claramente.


É inquestionável mesmo falar de um “povo judeu”, já que há apenas um sentido limitado e variado de consciência real de ser um povo. Existe uma gama contínua desde os sionistas convictos até os judeus assimilados, de modo que é melhor falar da judiaria como um grupo de humanos no qual há um forte sentimento de se estabelecer como um povo. Dada a extensão da migração judaica, há duas coisas que temos que ter em mente. Primeira, é errado ver a judiaria como um povo já existente, e assim tratá-los como tratamos uma minoria étnica. Segunda, se desejamos seriamente resolver o problema, temos que levar em conta o desejo interior da judiaria de construir seu próprio povo.


Baseado nestas razões, a reflexão madura mostra que é um erro pegar aqueles judeus de um determinado país e levá-los juntos para formar uma federação, independentemente se eles são ortodoxos, assimilados, ou uma raça misturada, mão com a possibilidade e objetivo de construir um povo, mas ao invés disso estabelecer uma minoria legal com direitos dentro de um Estado de povo não-judeu. O objetivo é sempre os judeus construírem seu próprio povo e separá-los dos povos não-judeus. Portanto, não devemos promover judeus individuais como cidadãos minoritários, ou qualquer outro status, dentro de um povo não-judeu, mas ao invés disso mover os judeus para construírem seu próprio povo.


De século em século, a Europa sempre teve surtos de anti-semitismo, e dos bons e justificados desejos de defender os povos não-judeus contra uma judiaria indigesta. Não podemos, portanto, estar satisfeitos com uma solução que simplesmente muda os judeus de um país para outro ao longo dos séculos. Isto só fortalece a perigosa habilidade judia de conduzir suas políticas dentro dos Estados, construindo um poder transnacional. Ademais, sempre permanecem poderosos grupos judaicos, o resultado da mistura racial e assimilação dentro dos respectivos povos, o que aumenta o declínio racial.


Ao invés disso, devemos encontrar uma solução afirmativa que livre a Europa das massas de judeus nômades. Isto não é uma questão de números pequenos, como as estatísticas demonstram. De acordo com o Zeitschrift für Demokratie und Statistik der Juden (Berlim), havia cerca de 15 milhões de judeus no mundo no final de 1931. Havia 9,8 milhões na Europa, dos quais 3,1 milhões estavam na Polônia, 3 milhões na Romênia, 0,6 milhão na Alemanha, 0,5 milhão na Hungria e 0,4 milhão na Tchecoslováquia. Desde que estes números incluem somente judeus por confissão religiosa, estes números são provavelmente baixos. Mesmos estes números, entretanto, incluem milhões dos chamados “vagabundos” (original: Luftmenschen), pedintes empobrecidos e mascates da Europa Oriental, grupos populacionais que estão prontos quando as fronteiras abrem para deixar seus guetos poloneses e lituanos e espalhar-se pela Europa. Enquanto essa pressão destes milhões de judeus existir, a Questão Judaica na Europa não será resolvida, mas ao invés disso necessariamente continuará.


Mesmo se um movimento político e um povo tenham tido as piores experiências com a judiaria, isso opor-se-ia ao sentimento nórdico alemão de história de ver uma solução negativa como um meio de se defender das massas judaicas. Ao invés disso, a totalidade de nossa missão histórica exige uma aproximação grande e compreensiva que também chamará a atenção de nosso adversário.


O que dá alguma justificação para os objetivos sionistas não é que eles sejam frequentemente tanto românticos quanto um tipo particular de propaganda de seu modo de pensamento (como a velha piada judia “O que é sionismo? Um judeu quer dinheiro de um segundo judeu de modo que um terceiro judeu possa ir à Palestina.”) , mas ao invés disso, sua afirmação de que há uma questão relacionada ao povo judeu e que deve ser resolvida. O sionismo assume que ele pode construir um novo povo judeu a partir de muitos indivíduos judeus. Ele tem, entretanto, alguma justiça em exigir uma fundação territorial para seu desenvolvimento.


A Palestina é incapaz de absorver as massas vindouras de judeus já que ela não pode apoiá-los, e nem é sua localização exata. Além disso, a Inglaterra tem que considerar tanto a população nativa árabe e a comunidade mundial islâmica, o que torna impossível assentar mesmo uma significante parte das massas judias lá.


Somente um bárbaro permanecendo fora da grande manifestação divina da história mundial proporia uma batalha geral anti-semita com o objetivo de exterminar este povo. (N.do T.: o grifo é meu) O objetivo dos povos altamente desenvolvidos não é promover o ódio quando existe um modo decente de resolver o problema.


A única solução imaginável, positiva que finalmente resolva o problema judaico na Europa e ao mesmo tempo forneça a possibilidade real de tornar-se um povo, de estar ligado a uma terra e mesmo talvez permitir que seus elementos menos valiosos sejam influenciados pelos mais valorosos, é uma região rica fora da Europa. O holandês Von Dinghene, em seu livro Vollzionismus, propôs a ilha de Madgascar mas poderíamos imaginar outras regiões apropriadas nas regiões africana e sulamericana. Por um lado, tal área de assentamento deve dar ao povo judeu um espaço onde eles podem trabalhar produtivamente, dentro de uma estrutura que forneça espaço para os povos que hoje não dispõem de espaço. Por outro lado, nestes países onde os judeus estão sendo separados da população não-judia, os judeus perderão um grande número de empregos. Eles devem ser hoje treinados em grupos de trabalho, recebendo educação técnica e em agricultura de modo que eles possam se fixar nesta área. Aquelas potências coloniais Européias ocidentais que também estão se preocupando com a Questão Judaica e seus efeitos na Europa Oriental e Central, sem entretanto ver as conexões, realizariam um trabalho não somente humanitário, mas também um ato de estadista que traria paz ao mundo e a solução de um de seus mais sérios problemas se eles tornassem tal área de assentamento disponível. Isto não somente aliviaria a Europa do problema judeu, mas também permitiria que a judiaria se tornasse um povo.   


 

Von Leers (1902 – 1965) serviu na SA e depois na Waffen-SS como Sturmbannführer e foi professor na Universidade de Jena. Trabalhou no Ministério da Propaganda de Goebbels, publicando 27 livros. Após a guerra, viveu na Argentina e no Egito, onde tornou-se membro do Departamento Egípcio de Informação e converteu-se ao Islamismo sob o nome Omar Amin.

http://www.calvin.edu/academic/cas/gpa/gercke.htm



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http://epaubel.blogspot.com.br/2012/05/qual-o-motivo-do-odio-de-hitler-aos.html

domingo, 27 de janeiro de 2013

[POL] O Fascismo é inerentemente Anti-Semita?

Nicholas Farrell, 02/09/2012

 
O fascismo é imaginado ser intrínseca e violentamente anti-semita, e os fascistas queriam exterminar os judeus, certo? Errado. Estes eram os Nacional Socialistas.

O historiador e jornalista alemão Emil Ludwig, que escreveu um livro fascinante sobre Mussolini em 1932 baseado em uma série de longas entrevistas com o Duce, notou:

Indubitavelmente, nenhum inglês ou russo contemporâneo teve comigo tanta compreensão simpática em relação aos judeus quanto Mussolini.

Ludwig, cujo sobrenome original era Cohn, era judeu e escreveu essas palavras em 1946 na introdução de uma nova edição de seu livro “Bate-papo com Mussolini.” Em outras palavras, ele as escreveu com percepção tardia: a Segunda Guerra Mundial havia acabado e os horrores do Holocausto eram revelados.

Foi somente após a aliança fatal da Itália com a Alemanha Nazista no final dos anos 1930 que o fascismo italiano tornou-se anti-semita, mas mesmo então ele não tinha planos de exterminar os judeus. Até então, os 50.000 judeus italianos estavam bem integrados e muitos fascistas da velha guarda eram judeus.

 Ettore Ovazza, banqueiro e empresário judeu entrou para o Partido Fascista em 1926

 
Marguerita Sarfatti, a principal amante de Mussolini até os anos 1930, era judia. Filha de uma rica família veneziana, Sarfatti encontrou Mussolini em Milão antes da primeira Guerra Mundial quando ele era uma celebridade revolucionária socialista. Ela escreveu artigos sobre arte para o jornal do Partido Socialista Avanti!, que Mussolini editava.

Ela o seguiu quando Mussolini abandonou o Partido Socialista Italiano em 1914. Mas ele não abandonou a ideologia, pois o partido queria que a Itália permanecesse neutra, que ele percebeu forçaria-a a ser um coadjuvante, ao invés da protagonista. E quando ele fundou o fascismo como um movimento revolucionário alternativo de centro-esquerda em 1919, ela tornou-se uma das chefes de propaganda, escrevendo a primeira biografia dele após a tomada do poder em 1922. Intitulado DUX em italiano, este livro brilhante, mas bajulador foi publicado primeiro em inglês em 1925 e tornou-se um Best-seller internacional traduzido para 20 línguas.

Os fascistas italianos não eram mais ou menos anti-semitas ou racistas do que os europeus médios daqueles dias.

Em 1920, Winston Churchill escreveu um artigo no Illustrated Sunday Herald sobre os três tipos de judeus – dois bons e um mau – judeus “nacionalistas” que eram patriotas, judeus “Sionistas” que queriam criar Israel e os judeus “internacionais”, que incluíam os líderes comunistas e eram maus porque atrás deles estava “uma conspiração mundial para a destruição da civilização.”

Até Mussolini aliar-se a Hitler no final dos anos 1930, não havia nada a respeito do fascismo italiano que pudesse ser relacionado ao anti-semitismo. Para o mesmo Ludwig, Mussolini disse em 1932:

É claro que não existem raças puras; nem mesmo os judeus mantiveram seu sangue intacto. Cruzamentos bem sucedidos sempre promoveram a energia e a beleza de uma nação. Raça! Ela é um sentimento, não uma realidade; noventa e cinco por cento, pelo menos, é um sentimento. Nada me fará acreditar que raças biologicamente puras possam existir hoje em dia. É engraçado que nenhum destes que vivem proclamando a “nobreza” da raça teutônica era, ele próprio, um teutão... o anti-semitismo não existe na Itália. Os italianos de origem judaica têm se mostrado bons cidadãos e eles lutaram bravamente na guerra.

N. do T.: O texto completo está aqui:


 
Mesmo assim, em setembro de 1938, ao mesmo tempo que Mussolini estava sendo anunciado como um anjo da paz em virtude do Acordo de Munique, o qual supostamente garantiria “paz para o nosso tempo,” ele introduziu leis anti-semitas na Itália.

Enquanto a Alemanha nacional socialista sempre foi anti-semita, a Itália fascista não. Nem era inevitável que a Alemanha Nazista e a Itália Fascista, apesar de compartilharem ódio comum do capitalismo e comunismo, se tornassem aliados militares. Pelo contrário. A anexação de Hitler em março de 1938 da Áustria – que faz fronteira com a Itália e dá acesso aos Balcãs – ultrajou e também amedrontou Mussolini. Por outro lado, sua própria invasão em 1935 da Abssínia (N. do T.: atual Etiópia) causou uma deterioração perigosa em suas relações com a Grã-Bretanha e França, fazendo com que procurasse vantagem em outro lugar.

O estreitamento dos laços entre nazista e fascistas italianos não foi a razão pela qual Mussolini introduziu suas leis anti-semitas, mas eles foram o catalisador.

O motivo tinha raízes profundas.

O inimigo número um de Mussolini, tanto como socialista como fascista, sempre foi a burguesia. Isto incluía os comunistas russos, que ele definia como capitalistas de Estado. Os judeus, ele chegou a acreditar, eram seu epítome. Seu anti-semitismo difundiu-se não por ódio à raça judia, mas da mentalidade judaica cujo espírito anti-fascista era o maior obstáculo à “fascistização” (fascistizzazione) da Itália. Mas um judeu sempre poderia renunciar à sua fé.

O anti-semitismo de Hitler, por outro lado, era uma coisa biológica: uma vez judeu, sempre judeu.

As leis anti-semitas de Mussolini foram terríveis porque elas transformaram os judeus italianos em cidadãos de segunda classe. Mas a ideia de Mussolini construir campos de extermínio com câmaras de gás para os judeus é inconcebível.

Nenhum judeu foi enviado para os campos de extermínio nazistas a partir da Itália, ou dos territórios ocupados pelos italianos (França, Iugoslávia e Grécia), até após a queda de Mussolini pelo rei da Itália, Vittorio Emanuele III, em julho de 1943, seguindo a libertação da Sicília.

Mussolini retornou ao poder no norte da Itália em novembro de 1943 como chefe da República Socialista de Saló, mas ele era realmente um fantoche de Hitler.

Os fascistas na parte da França ocupada pelas forças italianas até setembro de 1943, salvaram ativamente milhares de judeus, muito mais do que o bom nazista do filme “A Lista de Schindler” de Steven Spielberg. Mas eles não os salvaram dos alemães – eles os salvaram da República de Vichy que mal esperava enviar os judeus para os campos nazistas!

Entre setembro de 1943, quando os nazistas ocuparam a Itália, e abril de 1945, um total de 8.500 judeus (cerca de 17% do total na Itália) foram presos na Itália e deportados para os campos de extermínio nazistas. Aproximadamente 7.680 deles morreram. Os nazistas ordenaram suas prisões para deportação e soldados alemães efetuaram as prisões, apesar de fascistas italianos algumas vezes colaborarem.

Às vezes, fico pensando: poderia Mussolini ter evitado a sua aliança fatal com Hitler e permanecer neutro na Segunda Guerra Mundial e quais seriam suas consequências?

O General Francisco Franco, o ditador nacionalista da Espanha, fez isso e sua ditadura sobreviveu até sua morte em 1975.

Mas a Espanha não é a Itália e Mussolini não era Franco. A Espanha, diferentemente da Itália, havia saído de uma guerra civil devastadora. E a posição geográfica da Itália no coração do Mediterrâneo tornou a neutralidade muito mais difícil. Em ambas as guerras, a Itália permaneceu neutra por nove meses cada vez.

Mussolini não foi movido apenas pela ganância, mas pelo medo também. Por um bom motivo. Se ele tivesse permanecido neutro, Hitler, tenho certeza, teria tomado a parte norte da Itália ao nordeste do Lago Garda até os Alpes, e aquelas nações Bálcãs, que haviam sido parte até 1918 do Império Austríaco. Não obstante, a Itália poderia ter permanecido neutra e fascista após a guerra, apesar de que após algum tempo certamente teria havido uma guerra civil, como aconteceu na Espanha, que Mussolini poderia muito bem ter ganho. E temos também outra hipótese: se a Itália tivesse permanecido neutra, Hitler não teria atrasado de forma fatal sua invasão da Rússia em 1941 para resolver a confusão em que os italianos se meteram na sua invasão da Grécia, evitando assim que a Europa e a América fossem poupadas da Guerra Fria!

 
Nicholas Farrell, formado na Universidade de Cambridge, vive na Itália, onde é colunista da Libero e da La Voce di Romagna. Ele foi repórter do Sunday Telegraph em Londres antes de se mudar para paris em 1997 para escrever um livro sobre a morte da Princesa Diana e para a Itália em 1998 para escrever uma biografia de Benito Mussolini.

sábado, 26 de janeiro de 2013

[POL] Um Bom Alemão? Von Staufenberg e a Conspiração de Julho

Roger Moorhouse

History Today, Volume 59/Edição 1 (2009)

 
Em janeiro de 2009 vimos a estreia do novo filme de Bryan Singer, Operação Valquíria, uma nova abordagem dramática da Conspiração de 20 de julho para assassinar Adolf Hitler, estrelando Tom Cruise no papel de Claus Schenk Von Stauffenberg, o assassino escolhido de Hitler.

Como é inevitável sempre que Hollywood encontra uma estória como essa, o filme é acompanhado por uma miríade de publicações, republicações, documentários e discussões, já que o assunto abordado é lançado aos holofotes da mídia.

Uma nova e maior plateia de leitores e cinéfilos estará, assim, exposta à estória de Stauffenberg, muitos deles pela primeira vez. Eles serão apresentados a Stauffenberg como um herói de ação com princípios éticos e morais, um “bom alemão” que se opôs a Hitler e “fez a coisa certa”. Alguns podem mesmo pensar que eles estão assistindo ao progenitor da Alemanha democrática que conhecemos hoje.

 

Mas, antes que promovamos Stauffenberg ao status de um santo secular, devemos talvez lembrar quem realmente era o assassino escolhido de Hitler e que valores ele defendia. Ele era realmente um arauto da “nova” Alemanha que deveria segui-lo ou era apenas um produto da “velha” Alemanha, assim como o seu alvo?

Não podemos nos esquecer que Stauffenberg era, de muitas formas, o típico nacionalista alemão – muito mais um produto da época em que vivia. Ele foi um antigo e entusiasta apoiador do nazismo, por exemplo, tinha bem recebido a indicação de Hitler como Chanceler em 1933. Ele abraçou todas as medidas subsequentes – a reintrodução do alistamento obrigatório, a remilitarização da Renânia, o Anschluss com a Áustria e a anexação dos Sudetos – que eram vistos como a “restauração da honra alemã.”

Stauffenberg não era democrata. Ele passou sua lua-de-mel, por exemplo, em Borne, onde assistiu a uma exibição celebrando os primeiros dez anos de poder de Mussolini. Mesmo mais tarde, como um dos organizadores do complô contra Hitler, ele se opôs raivosamente à inclusão da esquerda na conspiração.

Um aristocrata, Stauffenberg desprezava “a mentira de que todos os homens são iguais” e insistia que as “hierarquias naturais” fossem respeitadas. Sua rejeição a Hitler, quando veio, não foi baseada na política ou moralidade, foi baseada na classe. Ele não poderia estar sujeito a Hitler, ele disse, já que este era um “burguês inferior” e sua tradição familiar proibia isso.

Stauffenberg também estava suscetível ao clima difundido de preconceito racial e nacional sob Hitler. Após o encerramento da campanha polonesa em 1939, por exemplo (na qual ele serviu como oficial de gabinete em uma Divisão Panzer Leve), ele descreveu os poloneses como uma populaça inacreditável de “judeus e viralatas” que eram confortáveis somente sob o chicote. Ele foi adiante ao defender a colonização sistemática da Polônia ocupada pela Alemanha nazista.

Mesmo após unir-se à resistência em 1943, Stauffenberg raramente mudou suas opiniões. Apesar dele – como outros conspiradores das forças armadas – estar motivado basicamente por seu senso de horror em relação ao Holocausto e seu desejo de terminar a brutalidade do nazismo, havia outro fator importante no seu pensamento. Como militar, ele era um crítico ocasional da liderança de Hitler. Mas em 1943, ele estava totalmente convencido de que Hitler estava conduzindo a nação para uma derrota catastrófica. A guerra não poderia ser lutada com mais eficiência, ele acreditava, se não houvesse uma mudança de pessoal no topo.

A substituição de Hitler, portanto, era vista muito mais como um imperativo militar do que moral. E esta convicção foi aumentada, é claro, com a abertura de uma segunda frente com o desembarque na Normandia em junho de 1944 – apenas seis semanas antes do atentado contra a vida de Hitler ser lançado.

Os conspiradores amigos de Stauffenberg eram críticos na mesma linha. O diplomata anti-nazista Hans Gisevius, por exemplo, confrontava-o repetidamente em relação aos planos para um golpe maior contra Hitler – Gisevius preferindo uma revolução mais abrangente do que a visão mais minimalista de Stauffenberg. Ao assassinar o Führer, Gisevius reclamou, Stauffenberg “queria fazer apenas o necessário, então ele pintaria o navio do Estado de cinza militar e o faria mover-se novamente.” Stauffenberg, parecia, imaginava substituir a ditadura de Hitler por outra militar.

Stauffenberg era certamente dinâmico e não há dúvidas sobre seu valor pessoal. Ele claramente impôs ambas as qualidades diante do seu frequentemente temerário e vacilante grupo de co-conspiradores e em suas ações decisivas em Rastenburg ao plantar a bomba que quase matou Hitler. Além disso, ele exibiu uma profunda bravura moral. Ele viu os crimes hediondos que os soldados de Hitler estavam cometendo em nome da Alemanha e tinha resolvido agir em defesa de uma moral mais elevada, apesar de saber que isto poderia custar sua vida.

Esta determinação não deve ser vista, contudo, como uma assinatura de caráter. Stauffenberg é lembrado da maneira correta: seu lugar no panteão, assim como o mais famoso pretenso tiranocida, está garantido. Pelo contrário, deveria ser encarado como um corretivo temporal: um lembrete de que é imprudente ver o passado através do prisma do presente; erramos quando julgamos personagens históricos de acordo com os padrões modernos.

Acima de tudo, é um lembrete de que o público leitor e cinéfilo não deveria aceitar o novo herói de Hollywood “ao preço da embalagem”, sem críticas; nem imaginar cegamente que ele “era um de nós.” Não vamos nos enganar: apesar de todo seu valor, Stauffenberg defendia valores que são estranhos a nós – e para a Alemanha moderna – assim como Hitler foi.          

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

[POL] A Implacável Ascensão dos Nazistas em Berlim

Uwe Klussmann

Der Spiegel, 29/11/2012

Naquele dia cinzento de 7 de novembro de 1926, não havia nenhuma indicação que o pequeno homem de 29 anos de idade que caminhava com dificuldade e havia descido na Estação Ferroviária Anhalter de Berlim moldaria o destino da capital alemã. Josef Goebbels, um funcionário de carreira do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), ou Partido Nazista, chegou para uma aparentemente missão impossível. Como Gauleiter, ou líder regional do partido, ele tinha sido indicado para lutar pelo poder em Berlim.

Naquela época, o fragmentado grupo liderado por Adolf Hitler tinha 49.000 membros em toda a Alemanha. Ele estava mal na capital, onde tinha apenas umas poucas centenas de seguidores. Em um relatório escrito em 1926, um funcionário do partido escreveu sobre a “total desestruturação da organização em Berlim,” que ele descreveu como um grupo autodestrutivo, confuso que estava quase sem chances de reparação.

A sede do partido na Potsdamer Strasse 109 somente reforçava essa impressão. Ela consistia de um porão escuro que estava impregnado com fumaça de cigarro, suor e cerveja. Os membros do partido eram conhecidos como “a confraria do ópio.”

No final do ano, Goebbels alugou um escritório mais aceitável para o partido na Lützowstrasse. Ele expulsou os vagabundos e arruaceiros do partido e conclamou os membros restantes a participar de várias campanhas.

Goebbels atrás de Hitler num discurso em Berlim


Goebbels estava apenas uma semana no trabalho quando organizou uma passeata pelo bairro de Neukölln, um reduto comunista, que o transformou em um cenário de rebelião.

Goebbels queria que o partido de Hitler mostrasse suas cores em Berlim, que ele descreveu como “a cidade mais vermelha na Europa depois de Moscou.” Juntos, o partido Social Democrata (SPD) e o Partido Comunista da Alemanha (KPD) conseguiram 52,2% dos votos nas eleições municipais de 1925. O novo líder nazista de Berlim decidiu combater a superioridade da esquerda em números com um ataque frontal.

Ele foi para a Pharussäle, um salão de encontros usado frequentemente pelo KPD para suas reuniões no distrido do Casamento de Berlim, e fez um discurso sobre “O colapso do Estado Burguês.” Isto provocou os comunistas.

Em 11 de fevereiro de 1927, a reunião do partido nazista transformou-se numa violenta pancadaria entre os dois grupos. Copos de cerveja, cadeiras e mesas voavam de um lado a outro no salão, e muitas pessoas machucadas foram vistas no chão cobertas de sangue. Apesar dos ferimentos, foi um triunfo para Goebbels, cujos brutamontes surraram 200 comunistas e os expulsaram do salão.

Uma Estratégia de Provocação

Goebbels transformou Berlim em um violento laboratório para a futura ditadura, aproveitando-se dos serviços dos uniformizados Sturmabteilung (Divisão de Assalto), ou SA, cujos membros eram conhecidos como “camisas pardas”. A SA combinava romantismo militar, ódio pelas elites tradicionais e desprezo das classes trabalhadoras da parte oriental da cidade contra as classes mais abastadas do lado ocidental.

Para o partido nazista, os camisas pardas – que incluíam desempregados, subempregados, aprendizes e estudantes de ensino médio – eram “soldados políticos”. Na visão de Goebbels, sua tarefa era a “conquista da rua.” No cadinho de Belim, estes jovens deveriam reconciliar e incorporar duas visões de mundo antagônicas: o nacionalismo, que Goebbels acreditava que tinha de ser “reformatada segundo um modo revolucionário” e um “socialismo verdadeiro” livre do Marxismo.

Os judeus de Berlim tornaram-se o farol para esta experiência, que objetivava trazer as tensões políticas e sociais até o ponto de ruptura. Goebbels, que fez seu trabalho de doutorado sob a orientação de um professor judeu, atribuiu ao judeu o papel de bode expiatório.

“O judeu” era um “aspecto negativo” que tinha de ser “erradicado”, escreveu Goebbels em 1929. Ele via os judeus como incorporando simultaneamente o capitalismo, comunismo, a imprensa e a polícia. Seu slogan “Os judeus devem ser culpados!” provou ser um veneno de ação lenta.

Como chefe dos nazistas de Berlim, Goebbels escolheu Bernhard Weiss, o vice-chefe judeu da polícia, como alvo de sua agitação anti-semita. Goebbels apelidou-o de “Isidore” e, após Weiss processá-lo e ganhar a causa, ele provocou-o com “Weiss, aquele que não é permitido chamar de Isidore.” Goebbels zombou dos membros da polícia de Weiss chamando-os de “Bernhardiner” (cães São Bernardo) e “os guardas de Weiss”.

Membros jovens do partido cantavam canções satíricas sobre “Isidore” e usavam máscaras “Isidore” – e geralmente as pessoas riam desse sarcasmo. De fato, os nazistas usavam humor grotesco como uma arma poderosa em sua luta contra a República de Weimar. “Zombamos de um sistema inteiro e o derrubamos com uma gargalhada retumbante,” escreveu Gunter d´Alquen, o jovem editor-chefe do Das Schwarze Korps (jornal oficial da SS) em 1937.

Goebbels acreditava que a grosseria era necessária. Em uma exibição do filme da adaptação do livro “Tudo Quieto no Front Ocidental” em 5 de dezembro de 1930, no cinema Mozartsaal, localizado na Nollendorfplatz em Berlim, membros da SA jogaram camundongos na plateia. Mulheres em estado de pânico obrigaram a interrupção do filme, enquanto membros da SA riam da cena. O próprio Goebbels estava no meio da plateia.

Ele justificou sua estratégia de provocação dizendo que os nazistas podiam ser acusados de muitas coisas, exceto de serem inertes. Batalhas urbanas e pancadaria em encontros políticos forjaram o senso de unidade e camaradagem entre os membros do partido em Berlim. No 1º. De maio de 1927, Hitler falou para eles pela primeira vez na respeitada Sala de Concertos Clou. Goebbels apreciou a confiança de Hitler e chorou com o seu discurso sobre “espaço e as pessoas.”

Os membros do partido em Berlim amaram o homem que eles chamaram “nosso Dr. Goebbels” porque ele passava seu tempo em contato direto com eles. Ele confortava os feridos gravemente, segurava as mãos dos moribundos e participava de funerais.

Sucesso Modesto Inicial

Goebbels, que foi incapaz de lutar na Primeira Guerra Mundial em virtude de sua perna direita defeituosa, provou ser o maior soldado de um exército lutando uma guerra civil insidiosa. Durante ela, os nazistas sobreviveram a diversos desafios. Cinco dias após o discurso de Hitler no Clou, a polícia baniu o partido nazista em Berlim. Mas aquilo não interrompeu sua ascensão. Goebbels, que havia lido as memórias de August Bebel, um político marxista e co-fundador do Partido Social-Democrata (SPD) na Alemanha, aprendeu uma lição da luta dos social-democratas contra as leis anti-socialistas de Bismarck.

Os nazistas estabeleceram grupos aparentemente mais inofensivos, como clubes de boliche, poupança e natação. Usando o lema “Vivos, apesar da proibição,” Goebbels criou o jornal Der Angriff (O Ataque) em julho de 1927, inicialmente como um semanário. Os subtítulos “Para os Oprimidos-Contra os Exploradores” objetivava atingir os leitores das classes trabalhadoras.

No começo, os nazistas usufruiram de sucesso muito modesto. Cerca de 39.000 berlinenses, ou 1,6% da população total da cidade, votou no partido de Hitler na eleição de maio de 1928 para o Reichstag, como o Parlamento era chamado na época. Quando Goebbels tornou-se um dos 12 membros nazistas do Reichstag, ele o fez com as seguintes palavras desafiadoras: “Não temos nada a ver com o parlamento. Reijeitamo-o de dentro.”

De fato, a estratégia da sede de Berlim do partido nazista era ser uma oposição extra-parlamentar, formando células nas ruas e nos negócios, usando o caso comunista como modelo. Em 1928, o partido organizou uma reunião com muitos milhares de simpatizantes, lotando o ginásio de esportes de inverno Sportpalats na Potsdamer Strasse.

Em 1929, o partido, liderado pelo “bandido-chefe” Goebbels, como os comunistas o chamavam, conseguiu 5,8% dos votos para o conselho da cidade, garantindo 13 cadeiras na câmara de vereadores.

O “sistema” da república de Weimar, que os mazistas atacavam, era relativamente estável há muito tempo. Mas aquilo mudou no final de outubro de 1929, quando o mercado de ações de Nova York quebrou. Desemprego em massa cresceu rapidamente, aumentando o potencial de inquietação urbana.

Os nazistas de berlim empreenderam uma guerra política em duas frentes. Uma frente era contra os social-democratas e os partidos estabelecidos administrando a cidade e o país. A outra era contra os comunistas, cujas fileiras cresceram quando as pessoas afetadas pela crise correram para os seus braços.

Em sua luta com propagandistas da revolução mundial, o partido nazista tinha somente uma chance para se diferenciar da direita reacionária. No Der Angriff, Goebbels polemizou contra os “gatos gordos pretos, brancos e vermelhos,” se referindo às cores da bandeira do Império Alemão favorecido por muitos nacionalistas de extrema direita. “Vocês dizem ‘pátria’,” escreveu ele acusatoriamente, “mas o que vocês estão falando são porcentagens.”

Ele viu os trabalhadores frustrados com o desanimado SPD como uma chance de ataque. Ele chamou o SPD de “o partido mais vergonhoso da Alemanha” e culpou-o pela “pobreza, fome, gatos gordos e trabalhadores famintos.” Os social-democratas, disse Goebbels em agosto de 1930, não eram “mais os protagonistas de um socialismo verdadeiro, decidido,” mas ao invés disso, tornou-se o “lacaio e beneficiário do capitalismo de mercado.” De fato, com seus políticos velhos e corruptos, o SPD tornou as coisas mais fáceis para os nazistas em Berlim.

O maior desafio para os nazistas era o Partido Comunista da Alemanha (KPD), chefiado em Berlim por Walter Ulbricht, que continuaria o líder de fato na Alemanha Oriental do pós-guerra. O partido ativista tinha seus redutos nos bairros proletários, como o Friedrichshain e Wedding, e tinha uma poderosa organização paramilitar na Aliança dos Combatentes Vermelhos (Roter Frontkämpferbund).

Políticos que esperassem fazer sucesso nos bairros “vermelhos” de Berlim tinham que falar a língua falada lá. Em uma panfletagem aérea em setembro de 1931 para trabalhadores desempregados esperando numa agência governamental em Berlim, Goebbels escreveu que o partido estava se voltando para “trabalhadores sem trabalho e sem esperança, expostos à mais terrível forma de desespero,” e ele prometeu “destruir o sistema do capitalismo e substituí-lo por uma nova ordem socialista.”

Goebbels discursa para uma brigada SA na Lustgarden de Berlim em 1934.


No seu apelo “para todos os desempregados,” os nazistas inteligentemente apontaram a questão da força dos partidos esquerdistas, o SPD e o KPD. Goebbels cortejou os proletários tratando-os como noivas enganadas, lembrando-lhes que “vocês foram deixados esquecidos pelos seus sedutores.”

Goebbels era familiar com os pontos fracos dos comunistas, quais sejam, a linguagem frequentemente desligada de seus membros e o controle que os líderes soviéticos exerciam sobre eles. No Der Angriff, Goebbels escreveu que o KPD, como uma “legião estrangeira russa em solo alemão” criado “com dinheiro russo e recursos humanos alemães,” estava enganando muitos membros do proletariado.

Ajudado por um “Mártir”

Horst Wessel foi um dos propagandistas nazistas que sabiam como ganhar o apoio dos trabalhadores. Nascido em 1907, ele formou-se na escola secundária que enfatizou os clássicos, mas dispensou a universidade antes de concluí-la. Wessel via-se como um socialista que foi afetado pelo “grande empobrecimento social e servidão das classes trabalhadoras em todas as profissões.”

Wessel, filho de um pastor protestante, tinha 19 anos quando se alistou no partido nazista em 1926. Em 1929, ele avançou na carreira, tornando-se chefe de um esquadrão da SA em Friedrichshain. Em poucas semanas, suas habilidades retóricas ajudaram-no a recrutar dezenas de novos membros. Juntos, eles tornar-se-iam o lendário “SA-Sturm 5.”

De fato, próximo a Goebbels não havia ninguém que falasse com mais freqüência do Wessel para o partido nazista na grande Berlim. Os discursos de Wessel conseguiram mesmo converter antigos comunistas em membros da SA. Com a aprovação de Goebbels, eles foram autorizados a trazer seus instrumentos de sopro parecidos com oboés, chamados charamelas, para os eventos nazistas.

Wessel e seus amigos conseguiram manter contato com os proletários em pátios sombrios e tavernas barulhentas, em esquinas e nas agências de emprego. Ao fazer isso, eles aderiram ao terceiro dos “Dez Mandamentos para os nacional socialistas” escritos por Goebbels: “Todo camarada nacional, mesmo o mais pobre, é parte da Alemanha. Ame-o como ama a si mesmo.”

Logo, ele tornou-se uma figura odiada na “Comuna”, como os nazistas chamavam o KPD. Em 14 de janeiro de 1930, Albrecht Höhler, um cafetão comunista, atirou na boca do herói da SA, que estava vivendo com uma ex-prostituta. Wessel morreu em virtude de complicações do ataque em 23 de fevereiro.

Seu funeral mostrou o quão fora de controle Berlim tinha se tornado. Os comunistas atacaram a procissão do funeral e tentaram roubar o caixão. Antes do funeral, eles picharam as palavras “Um Heil Hitler final para o babaca Horst Wessel!” na parede do cemitério Nikolai.

Afastando os trabalhadores do Partido Comunista

Mas o assassinato de um de seus mais poderosos propagandistas não enfraqueceu o movimento nazista em Berlim. Os comunistas, m particular, tornaram-se gradativamente as vítimas dos membros armados da SA. Em uma versão de sua canção, “Marchamos pela Grande Berlim,” eles cantavam “A frente vermelha, os quebramos em pedaços.” Em outra versão, as palavras foram alteradas para “batemos neles até virarem uma pasta de carne.”

O partido nazista continuou a atrair novos membros, e Wessel tornou-se um mártir. Nos “bares tempestade” da SA – que, de acordo com a polícia, cresceram de cinco para 107 entre 1928 e 1931 – os membros da SA em seus uniformes pardos cantavam o hino Wessel que supostamente dizia: “A bandeira ao alto! A guarda bem fechada! A SA marcha com passo silencioso e constante.”

Alguns meses após a morte de Wessel, parecia claro que Berlim estava à beira de um terremoto político. Em 10 de setembro de 1930, uma multidão de mais de 100.000 pessoas se espremeram na Sportpalast tentando entrar numa reunião promovida por Hitler.

Nas eleições do Reichstag realizadas quarto dias depois, o partido nazista tornou-se o Segundo partido mais poderoso do país, conseguindo 18,3% dos votos. Em Berlim, onde tornou-se o terceiro partido mais poderoso depois do KPD e do SPD, ele conseguiu 396.000 votos, ou mais de 10 vezes o que tinha conseguido dois anos antes.

Os nazistas tornaram-se o centro de poder político e formador de opinião. Mesmo os comunistas, que tinham a esperança de combater os nazistas com os punhos, soqueiras e revolveres (seu lema era: “Surrem os nazistas onde quer que eles sejam encontrados!”), estavam agora cortejando os seguidores de Hitler. Em um apelo pelo escritório distrital de Berlim-Brandenburgo em 1º. de novembro de 1931, o KPD elogiou os “trabalhadores nacional socialistas” e o “simpatizantes proletários do partido nazista,” chamando-os de “lutadores honestos contra o sistema da fome.”

De fato, os nazistas quebraram o monopólio do KPD como o único partido de oposição das classes trabalhadoras de Berlim. Em agosto de 1930, o jornal oficial do KPD “O Partido Trabalhador” (Der Parteiarbeiter) reclamou que os novos camaradas no KPD não estavam encontrando “o espírito de camaradagem que é necessário para ser capaz para colaborar com amigos.” Mas os nazistas não tinham esse problema.

Ao invés da rígida tarifa ideológica do KPD, as casas da SA ofereciam sopa quente e solidariedade. Em 1932, havia 15.000 membros da SA em Berlim. Durante as ferias do Natal, os membros do partido desempregados eram convidados para os lares dos que ainda estavam trabalhando no que Goebbels chamou de “socialismo de ação.”

O conceito gradualmente tomou conta do Wedding vermelho, onde o número de membros do partido cresceu de 18 para 250 entre 1928 e 1930. Num distrito onde a maioria votava nos comunistas, a Juventude Hitlerista organizava “noites de discussão pública” com assuntos como “A Suástica ou a Estrela Soviética.”

Trabalhadores que viviam na União Soviética eram convidados populares nas noites de agitação nazistas. Eles faziam relatos vivos das vidas miseráveis dos trabalhadores no reino de terror da polícia secreta. Uma das estrelas no circo de atrações nazista era Roland Freisler. Durante a Primeira Guerra Mundial, Freisler passou um tempo na Rússia como prisioneiro de guerra. Ele se tornaria mais tarde presidente do Tribunal Popular da era nazista, que movimentou uma ampla gama de “ofensas políticas” e tornou-se conhecido por suas freqüentes sentenças de morte.

Explosão de Popularidade

Em 1932, quando as fileiras de desempregados no Reich atingiram mais de 6 milhões, e para 600.000 somente em Berlim, o partido nazista alcançou seu grande salto tornando-se um dos partidos principais, atingindo 40.000 membros na sua organização regional. Em março de 1932, o partido mobilizou cerca de 80.000 pessoas em uma concentração no parque Lustgarten (no que hoje é conhecido como Museu Island), que se tornou um teste para futuros eventos. Em 4 de abril, cerca de 200.000 pessoas compareceram na praça entre o edifício Zeughaus (atualmente abrigando o Museu Histórico Germânico) e a Prefeitura de Berlim para recepcionar Hitler.


Em janeiro, as eleições estudantis em Berlim demonstraram que os universitários também estavam ansiosos para apoiar Hitler. Os nazistas conseguiram 3.794 dos 5.801 votos, ou quase dois terços. A onda Hitler alcançou mesmo as crianças, que se filiaram à Juventude Alemã, uma subdivisão da Juventude Hitlerista para a infância, e a Liga das Garotas Alemãs. Em 1932, uma avó foi confrontou sua neta de 10 anos insistindo: “Vovó, você deve votar em Hitler!”

Jovens que liam o Der Angriff, que começou a ter tiragem diária em novembro de 1930, eram formadores de opinião nos escritórios e fábricas. No início de novembro de 1932, a Organização de Célula Fabril Nacional Socialista, junto com a Oposição União Revolucionária do KPD, organizou uma greve contra cortes salariais na Autoridade de Transporte de Berlim. Os nazistas e comunistas organizaram um piquete e juntaram forças para impedir a entrada dos fura-greve.

A greve custou um grande número de votos na eleição de 6 de novembro de 1932 para o Reichstag, especialmente nos bairros de classe média. Mas Goebbels estava perseguindo um objetivo estratégico na cidade, onde o KPD era agora o partido mais forte. “Nossa posição fixa entre os trabalhadores,” escreveu ele no seu diário, não poderia ser abalada.

Goebbels prometeu o “direito ao trabalho” e “uma Alemanha socialista que dá pão para suas crianças uma vez mais.” Isto despertou as esperanças de 31,3% dos eleitores de Berlim que votaram no partido nazista na última eleição do Reichstag de março de 1933. Somente aqueles que prestaram atenção ao que Goebbels estava falando poderiam adivinhar onde a jornada iria parar sob a liderança nazista.

Tal foi o caso de uma transmissão de rádio de 1932, na qual ele propagou a “criação e aquisição de espaço,” que era o código de Hitler para a expansão para o leste. Um outro foi o discurso que ele deu em 5 de fevereiro de 1933 no túmulo de um líder da SA de Berlim que havia sido morto com um tiro. Neste caso, ele ofereceu aos ouvintes do rádio um gosto do que estava por vir: “Talvez nós alemães não compreendamos o que significa viver, mas somos extremamente bons em morrer.”

http://www.spiegel.de/international/germany/how-the-nazis-succeeded-in-taking-power-in-red-berlin-a-866793-2.html