quarta-feira, 6 de março de 2013

Os Nazistas no Tibete: A Cruzada de Himmler

Em 1935, o Reichsführer SS Heinrich Himmler fundou uma organização chamada Sociedade da Herança Ancestral (Ahnenerbe) no sentido de descobrir o passado escondido de uma raça imaginária ariana que ele e algumas lideranças nazistas acreditavam ser a mais nobre e a maior força vital na história humana. O fato de nunca ter existido tal raça – na verdade, uma categoria filológica (grupo de línguas indo-germânicas) que foi transformada em “povo” – não era impedimento para alguém que acreditava que os Arianos foram colocados no mundo após trovões divinos romperem o gelo primordial no qual eles estavam presos.

A alegação de que o Sânscrito contém a maioria das línguas modernas chamou a atenção das mentes do século XIX em relação à área geral do norte da Índia e Tibete como o lar ancestral dos míticos arianos. Assim, uma das missões científicas que Himmler apoiou foi uma expedição multitarefas ao Tibete sob a liderança do ornitólogo Ernst Schäfer. Schäfer então recrutou um antropólogo, Bruno Beger, para medir narizes e crânios e produzir formas em gesso dos rostos; um geógrafo especializado em geomagnetismo terrestre, um botânico que também transportava uma câmera de mão e um assistente.

Ernst Schäfer, nascido em 1910, interrompeu seus estudos universitários em zoologia e geologia duas vezes. Em 1930, Brooke Dolan, um jovem milionário americano, chegou à Alemanha para recrutar cientistas para uma expedição zoológica ao Tibete que ele queria realizar. Apesar de ter somente 20 anos na época, Schäfer participou da primeira expedição Dolan para a China Ocidental e o Tibete oriental, antes de retornar à Alemanha em 1932 para concluir seus estudos. Em 1934, Schäfer novamente interrompeu seus estudos para liderar a segunda expedição de Dolan, no Tibete oriental e na China, patrocinada pela Academia de Ciências Naturais na Filadélfia; esta viagem foi concluída em 1936. A Academia reconheceu o grande sucesso científico de ambas as expedições mais de 50 anos depois em seu obituário de 1992 de Schäfer, o qual menciona que este e Dolan “coletaram dados científicos e espécimes dos mamíferos e aves da região que nunca foram igualados em tamanho e importância. Em reconhecimento às suas contribuições científicas, o Dr. Schäfer foi eleito para membro vitalício da Academia (já) em 1932.” Após seu retorno à Alemanha, ele concluiu seus estudos em Berlim e em 1937, sob a orientação de Erwin Stresemann, completou seu doutorado com uma tese, de escopo incompreendido na época, sobre a vida das aves no Tibete.

Esta era a primeira expedição científica alemã a receber um convite especial para Lhasa do governo Tibetano, e seus membros seriam permitidos permanecer na capital Tibetana por dois meses inteiros. Com a política restrita do governo Tibetano nos anos 1930 de recusar a entrada de estrangeiros, o convite por si só era uma sensação menor, gerando tensões adiante nas carregadas e complexas relações anglo-germânicas da época.

O Reichsführer SS Himmler tentava tirar proveito da reputação de Ernst Schäfer para a propaganda nazista e perguntou-lhe sobre seus planos futuros. Schäfer desejava que sua expedição estivesse sob o patrocínio do departamento cultural de assuntos estrangeiros da Fundação de Pesquisa Alemã (DFG, Deutsche Forschungsgemeinschaft) como indicado por seus pedidos. Himmler era fascinado por misticismo asiático e, portanto, desejava enviar tal expedição sob os auspícios da Ahnenerbe e desejava que Schäfer realizasse pesquisa baseada na teoria pseudocientífica de Hans Hörbiger da “Cosmogonia Glacial”. Schäfer tinha objetivos científicos e, assim, ele recusou-se a incluir Edmund Kiss, um adepto desta teoria, em sua equipe, e exigiu 12 condições para trabalhar com liberdade. Wolfram Sievers, da Ahnenerbe, expressou críticas em relação aos objetivos da expedição, de modo que a organização não iria dar apoio a ela. Himmler, por outro lado, aceitou que a expedição fosse formada desde que todos os seus membros se afiliassem à SS. Para evitar mais problemas, Schäfer entrou para essa organização.

Apesar de Himmler eventualmente aceitar os objetivos de Schäfer, um memorando de setembro de 1937 torna claro que a Ahnenerbe continuaria a exercer pressão na questão do recrutamento da expedição, exigindo que um geógrafo, um antropologista, um geólogo, um botânico, representante da Teoria da Cosmogonia Glacial, e um arqueólogo fossem incluídos. Entretanto, o nome oficial seria mudado de Ahnenerbe para Expedição Alemã-Tibetana Ernst Schäfer, sob o patrocínio do Reichsführer SS Himmler e em conexão com a Ahnenerbe.

Em dezembro de 1937, Schäfer submeteu um plano detalhado e definitivo à DFG, no qual ele ainda defendia que o destino da expedição seria o Tibete Oriental, com acesso a partir da China. Isto também incluía um programa antropológico realizado pelo antropólogo Bruno Berger, cujo programa era baseado em torno da questão se os indo-europeus poderiam ser originários da Ásia Central, uma ideia que era debatida há longo tempo além dos círculos nacional-socialistas. De fato, discussão internacional e interdisciplinar sobre este assunto continua até hoje.

O escritor britânico Christopher Hale afirma que ninguém pode inferir que Schäfer era independente da SS e foi capaz de fazer “ciência pura” simplesmente a partir de um papel timbrado que ele conseguiu para a expedição: para todos os efeitos e objetivos, a expedição permaneceu sob o patrocínio de Himmler e Schäfer não tinha nenhum interesse em perder o apoio do Reichsführer.
 
 

 De acordo com Hale, como Schäfer exigia mais de 60.000 Reichsmark para sua expedição e os cofres da SS estavam secos na época, ele foi obrigado a levantar fundos sozinho. De acordo com o pesquisador Irrun Engelhardt, a expedição não foi financiada pela Ahnenerbe. Schäfer levantou fundos onde 80% vieram do Conselho de Propaganda e Relações Públicas da Indústria, assim como de grandes empresas alemãs, da DFG e do milionário Dolan. O custo de equipagem da expedição foi RM 65.000 e a própria expedição custou outros RM 65.000, exceto o voo de volta, que foi financiado pela SS.

Em outras palavras, nem Himmler nem a Ahnenerbe financiaram diretamente a expedição, apesar de Schäfer continuar a receber apoio político de ambos. Ele estava bem ciente de sua dependência em relação a Himmler e foi forçado a aceitar vários compromissos no sentido de manter mais tarde a cooperação dos britânicos para obter passaportes e, especialmente, em procurar moeda estrangeira, o maior problema que enfrentou na época. Schäfer teve mesmo que se comprometer com o nome e o papel timbrado da expedição. Após sua chegada à Índia, este timbre causou consideráveis dificuldades a Schäfer com as autoridades britânicas, já que nos documentos poderia ficar claro que a missão era da SS, um órgão político e militar da Alemanha e não uma expedição puramente científica.

Schäfer recrutou jovens de boa forma física que estariam adaptados a uma viagem cansativa. Aos 24 anos, Karl Weinert (um assistente de Wilhelm Filchner, um famoso explorador) era o geólogo da equipe. Também com 24 anos, Edmund Geer foi selecionado como líder técnico para organizar a expedição. Um membro relativamente velho, de 38 anos, era Ernst Krause (não confundi-lo com o biólogo alemão homônimo) era o cineasta e entomologista (especialista em insetos). Bruno Berger era um especialista racial de 26 anos e estudante de Hans F. K. Günther, sendo também o antropólogo da equipe. O grupo de cinco pesquisadores pretendia entrar em contato com o Regente do Tibete e visitar as cidades sagradas Lhasa e Shigatse. Mesmo com as dificuldades da guerra, o grupo teve sucesso em estabelecer contato com as autoridades e povo tibetanos.

Os alemães coletaram tudo o que encontraram: milhares de artefatos, um grande número de plantas e animais, incluindo espécimes vivos. Eles enviaram os seres vivos, incluindo cães, felinos, lobos, raposas e peles de animais para a Alemanha. Os membros da expedição colheram uma grande quantidade de plantas, em particular centenas de variedades de cevada, trigo e aveia. As sementes foram mais tarde armazenadas no Instituto de Genética Vegetal da SS em Lannach, próximo a Graz, Áustria, um centro de pesquisas comandado pelo botânico membro da SS Heinz Brücker. Este esperava usar tanto a coleção do Tibete quanto a do Instituto Vaviley nos territórios orientais para selecionar plantas capazes de suportar o clima da Europa oriental – considerado na época parte do Lebensraum nazista.

Wienert acumulou quatro conjuntos de dados geomagnéticos. Krause estudou as vespas tibetanas. Schäfer observou os rituais tibetanos, inclusive as piras funerárias (onde conseguiu alguns crânios humanos). Eles tiraram fotos e filmaram a cultura local, notavelmente as espetaculares celebrações de Ano Novo, quando milhares de peregrinos chegavam a Lhasa. Bruno Berger registrou as medidas de 376 pessoas e fez matrizes de cabeças, faces, mãos e orelhas de 17 delas, assim como tirou as digitais e das mãos de outras 350. Para conduzir esta pesquisa, ele se passou como curandeiro para ganhar a confiança dos aristocratas tibetanos, receitando remédios para monges com doenças sexualmente transmissíveis.

Schäfer manteve notas meticulosas sobre os costumes religiosos e culturais dos tibetanos, de seus vários festivais budistas coloridos e das atitudes do povo em relação ao casamento, estupro, menstruação, nascimento, homossexualidade e masturbação. Em seu relato da homossexualidade, ele descreve detalhes da relação dos velhos lamas com meninos e como esse tipo de relação tinha importância na política local. Ele também descreve cuidadosamente a variedade de posições sexuais do povo himalaio.

Schäfer apresentou os resultados de sua expedição em 25 de julho de 1939 no Clube Himalaio de Calcutá. De lá, a expedição pegou um avião da British Airways para Bagdá, onde fizeram uma escala para Atenas via um Lufthansa JU 52. Em Atenas, um avião fretado pelo governo alemão os conduziu até sua casa.

Eles retornaram à Alemanha com uma edição completa do texto sagrado tibetano Kagyur (108 volumes), exemplos de Mandala, outros textos antigos e um documento supostamente detalhando a raça ariana. Estes documentos foram guardados nos arquivos da Ahnenerbe.

Assim, a coleção mais detalhada de objetos tibetanos etnológicos, agora no Museu Bávaro de Etnologia em Munique, vieram dos materiais da expedição de Schäfer. Pelo fato dos livros de Sch6afer sobre esta expedição jamais terem sido traduzidos para o inglês, a opinião pública ocidental foi informada pelas fontes disponíveis na Biblioteca Oficial da Índia em Londres e por Hugh Richardson, que estava a cargo da Missão Britânica em Lhasa na época da expedição. Isto acabou contribuindo com o legado duvidoso no mundo ocidental, enquanto que na Alemanha ele está quase esquecido. Somente na literatura popular científica e histórias de ocultismo a expedição é citada repetidamente, estabelecendo as conexões entre o Terceiro Reich e o Tibete, ou as relações ocultistas entre Hitler e o Tibete. A maioria das publicações mais recentes também cai nesta categoria, refletindo os preconceitos ideológicos e o sensacionalismo.

Uma descrição detalhada da expedição, inclusive com fotos, pode ser visto aqui:


Fotos da Expedição
 
 

 
Ernst Schäfer
 
 
 
 
 
 
 
Fortaleza de Yumbulagang
 
 
Estátua Budista Antiga encontrada por expedição nazista foi criada por meteorito de mil anos

Associated Press, 28/09/2012

 
Berlim – Uma estátua budista antiga que uma expedição nazista trouxe do Tibete um pouco antes da Segunda Guerra Mundial foi criada a partir de um meteorito que se chocou com a Terra milhares de anos atrás.

O que parece ser um roteiro de filme de Indiana Jones realmente aconteceu, de acordo com pesquisadores europeus que publicaram um artigo no jornal de Ciência Planetária e Meteorítica este mês.

Elmar Buchner, da Universidade de Stuttgart, disse na quinta-feira que a estátua foi trazida à Alemanha pela expedição Schäfer. A aventura financiada pelos nazistas foi até o Tibete em 1938 para encontrar as origens da raça ariana – um dos fundamentos da ideologia racista nazista.

A existência da estátua de 10,6 kg, conhecida como “homem de ferro”, foi somente revelada em 2007, quando seu proprietário morreu e ela foi para leilão, Buchner disse à Associated Press.
 
 

sábado, 2 de março de 2013

[SGM] A Crise de 1938 – O Caminho Torto para a Guerra

Ian Kershaw

The Guardian, 23/08/2008
 

 

Setenta anos atrás, a Europa foi lançada na crise mais profunda experimentada desde o fim da Primeira Guerra Mundial, pavimentando o caminho para a rápida descida em um novo e mesmo mais terrível conflito mundial. Poucos desenvolvimentos históricos foram mais pesquisados e reavaliados extensivamente do que os eventos críticos de 1938, e tem havido debates ferozes, em particular, sobre os objetivos de Hitler. Ele tinha um programa ideológico claro, um esquema consistentemente a ser seguido? Ou ele era um oportunista brutal e sem princípios, com um dom para a propaganda e gosto pelo poder, junto com um olho afiado para explorar a fraqueza das democracias ocidentais? Poderia ser a agressão alemã ser atribuída simplesmente à megalomania de Hitler ou ela representou forças enraizadas na sociedade, particularmente a força dos militares e dos grandes empresários? Hitler, em outras palavras, seguiu ou rompeu com os objetivos tradicionais da política externa alemã?

Os historiadores têm enfrentado estas questões ao longo dos anos. Mas eles gradualmente chegaram a algumas respostas claras. Atualmente, estamos aproveitando uma avalanche de grandes livros sobre o Terceiro Reich por historiadores britânicos e estes livros são notáveis não apenas porque refletem o fato que há agora geralmente – se não universalmente – aceitado conclusões sobre Hitler e o caminho para a guerra.

Um ponto de partida óbvio no debate é a publicação em 1961 de “As Origens da Segunda Guerra mundial”, de A. J. P. Taylor. Para Taylor, Hitler não era mais do que um oportunista, trabalhando sem qualquer plano ou programa além de noções vagas de expansão. Os vilões reais de Taylor eram os apaziguadores na Grã-Bretanha e na França cuja inércia política abriu a porta. Era uma interpretação dissidente, que foi calorosamente contestada. Hugh Trevor-Roper argumentou convincentemente que Hitler era um homem de idéias, apesar de serem repulsivas. Tim Mason, enfatizando as pressões econômicas surgindo com o expansionismo alemão que tornaram o caminho para a guerra inevitável, chegou próximo a dizer que Taylor não sabia do que estava falando. Na Alemanha, a interpretação de Taylor dificilmente foi levada a sério, mas a antítese de sua abordagem foi mais sincera em um trabalho que ainda forma o estudo mais fundamental da política externa alemã do pré-guerra, o fabuloso “A Política Externa da Alemanha de Hitler”, de Gerhard L. Weinberg, no qual o objetivo de dominação de Hitler é absolutamente central.

Recentemente, o aclamado estudo de Adam Tooze “The Wages of Destruction” (As Rendas da Destruição, em tradução livre) ofereceu uma nova abordagem – olhando na fraqueza econômica de longo prazo da Alemanha em relação aos EUA como a chave para a agressão alemã. Como um determinante da política externa do pré-guerra, Tooze talvez exagere a preocupação de Hitler com a ameaça da América. Mas ele acrescenta de forma bem sucedida as pressões econômicas crescentes sobre o regime nazista pelo impulso ideológico que produziu aquelas pressões. E ele é também um dos poucos historiadores a conectar a radicalização do antisemitismo com a proximidade crescente da guerra, assim como a tensão internacional crescente apoiou noções de uma “conspiração judaica mundial” por trás da política americana.

Jonathan Wright produziu o incisivo “A Alemanha e as Origens da Segunda Guerra Mundial”, enquanto que a política externa alemã é também explorada, como estrutura do regime nazista, no livro “O Terceiro Reich no Poder”, de Richard Evans, e, com particular foco  no papel de Hitler, em minha própria biografia do líder alemão.

Então, quais são as conclusões geralmente aceitas? Hitler não tinha um programa definido. Mas classificá-lo como um mero oportunista seria errado. Ele tinha um conjunto limitado, porém inflexível, de idéias que deu uma direção consistente à sua liderança. Seus caminhos paralelos, embutidos em um senso de raça como o determinante-chave na história, eram a “remoção” dos judeus e a expansão para o leste para conseguir terras para garantir o futuro da Alemanha. Ambos imprecisos, os objetivos distantes serviram, uma vez Hitler tomado o poder em janeiro de 1933, como guias para ação para cada detalhe do regime, sem nunca ter de ser explicitadas em termos de políticas evidentes. Muito foi adaptado para as circunstâncias rapidamente variáveis – mas dentro dos parâmetros incorporados à “visão” ideológica de Hitler.

Antes de 1938, não havia incompatibilidade entre os objetivos de longo prazo de Hitler e os interesses dos militares (e de outros membros da elite do poder) na construção da força armada alemã, renovação da força e robustez nacionais e na obtenção de lucros a serem conseguidos com a expansão da indústria de armamentos. Mas, como tornar-se-ia mais aparente de 1938 em diante, Hitler não seguiria apenas as linhas tradicionais da política alemã. A linha descartável característica de Taylor de que “nos assuntos internacionais não havia nada de errado com Hitler exceto o fato de que ele era alemão” (deixando de lado de que ele de fato era austríaco) é enganosa. Hitler de fato pôde ampliar as tradições expansionistas da elite de poder alemã. Mas sua liderança inatacável crescente e suas obsessões raciais distorceram aquelas tradições, levando então a política para território desconhecido à medida que a guerra progrediu – produzindo finalmente a ruína física e moral de seu país.

Se mesmo em retrospecto não tem sido fácil chegar a uma avaliação clara dos objetivos de Hitler, não é de se estranhar que os contemporâneos dentro e fora da Alemanha estejam incertos em como devem tratar com ele. O ano de 1938 marcou o auge das tentativas das democracias ocidentais em apaziguar Hitler. “Munique” ainda tem fama para a ignomínia que liga as tentativas de Chamberlain para saciar Hitler às custas da Tchecoslováquia. A reputação de Chamberlain não pode ser resgatada. Mas o reconhecimento dos graves erros de julgamento da política nos anos 1930 deve ser vistos sob a perspectiva das opções realistas abertas ao governo britânico na época.

A primeira crise de 1938, com a Áustria, surgiu tão repentinamente que a liderança nazista foi pega de surpresa. Ela foi iniciada pelo anúncio em 9 de março pelo chanceler austríaco Kurt von Schuschnigg que haveria um plebiscito três dias depois para determinar se a Áustria permaneceria um país independente. O resultado teria sido uma conclusão definitiva, mas o plebiscito jamais ocorreu. Irado pelo gesto de Schuschnigg, Hitler reagiu rapidamente. Em 11 de março, os austríacos foram ameaçados à submissão, Schuschnigg e o presidente, Wilhelm Miklas, forçados a renunciar. Lorde Halifax, o secretário do exterior britânico, disse a Schuschnigg que “o governo de sua majestade era incapaz de garantir proteção.”

O parceiro do Eixo de Hitler, a Itália, ofereceu apoio à anexação, garantindo expressões de gratidão por parte de Hitler. O homem de Hitler, Arthur Seyss-Inquart, foi colocado como novo chanceler. Mas mesmo com a Áustria sob controle nazista, Hitler ordenou que a Wehrmacht cruzasse a fronteira austríaca. Ele próprio seguiu naquele mesmo dia, 12 de março, desfilando vagarosamente através de uma multidão exultante antes de alcançar sua cidade natal de Linz.* Sob o impacto emocional de sua recepção tumultuada, Hitler decidiu que o mero status de satélite para a Áustria não era suficiente. Tinha que ser a incorporação total. Legislação para isto foi apressadamente elaborada em 13 de março. Antes da noite terminar, a Áustria havia se tornado uma mera província alemã. Um mês depois, em 12 de abril, em um plebiscito com resultado totalmente previsível para um regime ditatorial, 99% da população aprovou o Anschluss.

Apesar da crise do Anschluss ter surgido rapidamente e os nazistas tenham agido de maneira brutal  e improvisada, seria um erro compartilhar a visão de Taylor de que o modo pelo qual a Áustria caiu sob o controle alemão foi para Hitler “um acidente enfadonho, uma interrupção de sua política de longo prazo.” Ele foi de fato uma conseqüência direta dos objetivos ideológicos, estratégico-militares e econômicos interligados da política nazista que haviam sido desenvolvidos nos últimos cinco anos. O imperativo ideológico de expansão, necessitando de rápido rearmamento, que garantiu o apoio a Hitler na liderança militar e nos altos negócios, tornou a Áustria um alvo estratégico – mesmo independentemente do desejo de Hitler em unir sua pátria com o Reich e o crescente clamor pela união entre os simpatizantes nazistas austríacos (cerca de um terço da população). A velocidade do rearmamento tinha levado a graves gargalos econômicos. A Áustria oferecia depósitos desejados de minério de ferro, outras matérias-primas e mão de obra.

Não é de se estranhar que houvesse uma pressão crescente pela união política entre a Alemanha e a Áustria, que já era muito dependente economicamente do Reich. Na segunda metade de 1937, Hitler falou ameaçadoramente sobre agir logo contra a Áustria. E quando, em 12 de fevereiro de 1938, Hitler se encontrou com Schuschnigg, ele o intimidou por grandes concessões usando a influência alemã lá. Os planos para uma gradual absorção da Áustria pela Alemanha foram então colocados em risco pelo anúncio prematuro de Schuschnigg do plebiscito. A crise logo se seguiu. Mas foi uma crise que aguardava acontecer. Ela foi, de fato, provocada por Schuschnigg, ao invés de Hitler, como Taylor afirmou, mas somente no sentido de que um carro com a porta aberta pode estimular alguém a roubá-lo. A reação furiosa de Hitler ao movimento de Schuschnigg não deve ser tomada como evidência de que a crise não foi bem vinda ao ditador alemão. Pelo contrário: foi uma oportunidade que ele estava ávido em agarrar com as duas mãos.

Hitler sabia que sua ação seria engolida pelas potências ocidentais. Halifax já havia dado uma indicação disso quando ele se encontrou com Hitler em novembro último. Chamberlain certamente não gostava dos métodos brutais usados. Mas, falando diante do comitê de política externa do gabinete dois dias após o Anschluss, ele disse “ele não pensou que nada do que acontecera poderia provocar uma alteração por parte do governo de sua política atual” de buscar uma solução geral para os problemas da Europa através do apaziguamento da Alemanha. Ele estava, de fato, mais certo de que esta política era correta. O apaziguamento estava para ser submetida a um teste muito mais severo na crise tcheca que era grandemente esperada após o triunfo de Hitler na Áustria.

O controle alemão na Áustria deixou a Tchecoslováquia completamente exposta. E ela era muito mais importante do que a Áustria considerando-se os objetivos expansionistas alemães. Mas a agressão alemã estava carregada de perigo. Desde que a França tinha um tratado de segurança com a Tchecoslováquia no caso de uma agressão e a Grã-Bretanha era aliada da França, um ataque alemão significava um risco muito alto de uma guerra européia. A União Soviética, também, tinha obrigações diplomáticas com os tchecos e havia indicado seu desejo de ajudar os franceses.

Para Hitler, contudo, não havia como voltar atrás. Precisamente por causa das alianças entre os inimigos da Alemanha a leste e a oeste, não havia tempo a perder em destruir a Tchecoslováquia se suas intenções expansionistas deveriam ser realizadas. Economicamente também o país era uma alternativa tentadora, com sua forte base industrial, grandes fábricas de armamentos e importantes fontes de matérias primas. A poderosa minoria de três milhões de alemães étnicos nos Sudetos, adjacente à Alemanha, oferecia o pretexto para uma política alegadamente nacionalista publicamente direcionada para trazê-la “de volta para o Reich”. Ao longo do verão de 1938, Hitler forçou uma pressão sobre os tchecos. A guerra parecia ser iminente. Ma a maioria dos alemães estava horrorizada com a possibilidade de outro conflito apenas 20 anos após o final da Primeira Guerra Mundial. Relatórios internos falavam de uma “psicose de guerra” entre a população alemã. O exército estava dividido. O chefe do staff geral, Ludwig Beck, defendia uma parada coletiva pela liderança militar, mas foi deixado isolado e demitiu-se em agosto. Apesar de suas apreensões, a maioria dos generais permaneceu leal. Entretanto, pela primeira vez, houve traços de resistência entre indivíduos bem posicionados, e planos começaram a ser elaborados para depor Hitler no caso de um ataque contra a Tchecoslováquia.               

Provavelmente nada teria se materializado. Havia pontos fracos inevitáveis no planejamento clandestino, o mais óbvio sendo uma dependência na vontade do comandante-em-chefe do exército, Walter Von Brauchitsch para apoiar o golpe. Mas, de qualquer forma, as esperanças dos conspiradores foram destruídas por Chamberlain. Casado com sua política de acalmar Hitler e determinado a salvar a paz européia, Chamberlain embarcou desesperadamente na diplomacia de estrada, voando em 15 de setembro para visitar Hitler em Berchtesgaden, então uma semana depois em Bad Godesberg. O ditador alemão simplesmente aumentou suas exigências. Mesmo agora, Chamberlain foi persuadido de que Hitler estava dizendo a verdadeem querer não mais do que a “unidade racial” com os alemães sudetos. Mas seu apelo pessoal a Hitler caiu em ouvidos surdos. A guerra parecia inevitável.

Então, o quase impossível aconteceu: Hitler recuou. A Grã-Bretanha, apoiada pela França, pressionou os tchecos na cessão da região dos Sudetos para a Alemanha. Mussolini interveio então, apelando para Hitler para uma postergação da mobilização e da aceitação de uma negociação em torno das linhas propostas pelos britânicos. Sendo efetivamente dado o que ele exigia, Hitler aceitou com má vontade. O resultado foi a dilaceração da Tchecoslováquia no acordo de Munique em 30 de setembro, decidida em uma conferência entre alemães, franceses, italianos e britânicos. Os próprios tchecos não estavam presentes à mutilação de seu país.      

Hitler queria a guerra para destruir a Tchecoslováquia completamente, não um acordo negociado para parte do país. Seus planos foram além da “volta ao lar” dos sudetos alemães. Mas quando a Grã-Bretanha e a França concordaram em lhe dar o que ele publicamente queria sem guerra ele não tinha pretexto para lutar. “Você não pode levar a cabo uma guerra mundial por causa de modalidades,” lembrou seu ministro da propaganda, Joseph Goebbels.

Nascido da fraqueza, com recursos e compromissos militares (em diferentes partes do mundo) estendendo-se ao máximo, e programas de rearmamento (recusado até o final pelo Partido Trabalhista e liberais) ainda em seus estágios iniciais, o direcionamento de Chamberlain pelo apaziguamento era um resultado lógico dos anos de deriva, hesitação  e esperança para o melhor em política externa britânica, aliado a medos profundos de uma repetição de 1914-18. Seus chefes militares desaconselharam o caminho para a guerra. Os governantes não queriam lutar pela Tchecoslováquia. Apesar de seu grande exército, os franceses também não tinham desejo por uma luta: Verdun ainda estava freco em suas memórias. A Liga das Nações era, por volta desta época, mera figura decorativa, desprovida de credibilidade já que suas divisões internas e pusilanimidade haviam sido expostas após a invasão da Abissínia no outono de 1935.

E do outro lado do Atlântico, o militarmente fraco EUA** estava apenas saindo da confortável ilusão do isolacionismo e começando a mostrar preocupação sobre os desenvolvimentos na Europa. Ao saber que Chamberlain estava a caminho de Munique, onde uma vitória da ameaça alemã estava começando a surgir no horizonte, Roosevelt transmitiu a mensagem “Bom homem!” para o primeiro-ministro britânico.

No geral, Chamberlain estava estendendo a mão errada, e continuou agindo de forma ruim através de suas ideias enganosas sobre os objetivos de Hitler e sua extrema apatia em aplacar o ditador com concessões territoriais. A única esperança residia, como Churchill defendeu, em criar uma “grande aliança” com a União Soviética para deter e colocar pressão sobre Hitler. Chamberlain se opôs a isso. Uma antipatia ao comunismo certamente teve influência em sua decisão. Mas sua razão de estadista era a de que uma aliança da Grã-Bretanha, França e União Soviética, lembrando o alinhamento antes de 1914, garantiria que Hitler partiria para a guerra ao invés de afastá-lo do conflito. Ele estava provavelmente certo que isto teria sido visto como uma provocação a Hitler ao invés de uma intimidação.

De qualquer forma, a “grande aliança” tinha, na prática, pouco a oferecer. Apesar de Stalin afirmar que suas tropas estavam prontas para marchar se Hitler invadisse a Tchecoslováquia, o Exército Vermelho – devastado pelos recentes expurgos – teria sua passagem bloqueada pela Polônia e Romênia. No ocidente, a França estava procurando um jeito de honrar seu comprometimento com a Tchecoslováquia e a Grã-Bretanha não queria estar amarrada por sua aliança à França para lutar por um povo em “um país distante”, de quem “não sabemos nada”. Assim, Chamberlain tendo colocado suas cartas na mesa em Berchtesgaden e Bad Godesberg, foi forçado a se render – e com isso o destino da Tchecoslováquia – em Munique.

Aplausos vibrantes vieram de todos os lados do Parlamento quando Chamberlain anunciou que estava indo a Munique. Membros de todos os partidos estavam ansiosos em cumprimentar o primeiro-ministro, apesar de estar claro para todos que a viagem a Munique significava apenas uma coisa: a paz só poderia ser salva através do sacrifício dos tchecos. A alegria por ter preservado “paz para o nosso tempo”, que Chamberlain declarou a uma multidão delirante em seu retorno de Munique (ele recebeu 40.000 cartas de congratulações), evaporou quase que instantaneamente. Vergonha e humilhação nacional do que foi feito em nome da Grã-Bretanha substituiu a euforia. Por outro lado, muitos que escracharam Chamberlain após o evento haviam antes apoiado a política de apaziguamento.

Chamberlain estava apenas ganhando tempo, como ele ainda afirmava em 1940, quando permaneceu inflexível ao achar que havia feito a coisa certa? O que teria acontecido se a Grã-Bretanha tivesse ido à guerra pela Tchecoslováquia no outono de 1938? Nenhuma ajuda militar da Grã-Bretanha ou da França teria chegado à Tchecoslováquia. Provavelmente, as forças de Hitler teriam derrotado rapidamente os tchecos (como os jogos de guerra previram). A oposição interna na Alemanha não teria conseguido nada. Uma guerra silenciosa semelhante á que ocorreu em 1939 teria ocorrido um ano antes. É claro, as forças e defesas alemãs em 1938 não eram tão fortes quanto as que existiam na primavera de 1940. Em compensação, as forças britânicas na época eram proporcionalmente ainda mais fracas. Dada a pressão por agir, a fraqueza dos seus adversários e seu próprio temperamento, Hitler provavelmente teria invadido a França em 1939, o que teria necessitado um acordo (temporário) no leste com os poloneses ou os russos. Os franceses teriam caído assim como caíram em 1940.

Se Churchill tivesse assumido o cargo e fosse bem sucedido em alimentar o moral e coragem se a guerra tivesse começado um ano antes não pode, como todo o resto, ser sabido. Mas sem sua liderança, a Grã-Bretanha poderia ter sido tentada a buscar um acordo que teria deixado a Alemanha na ascendência na Europa. Quem sabe? O que deixou de acontecer está aberto somente ao reino da fantasia, não aos métodos de pesquisa histórica. Mas é pelo menos possível que a capitulação de Chamberlain em Munique provou ser ao final benéfica à Grã-Bretanha – mesmo que às custas dos tchecos e acabando com a ignomínia nacional.

Cada uma das crises na Áustria e na Tchecoslováquia tiveram um efeito crucial na política anti-judaica nazista e pavimentou o caminho para a terceira grande crise de 1938: “A Noite dos Cristais”. Apesar da política externa e da perseguição aos judeus serem geralmente tratados separadamente na literatura – “Anti-Semitismo no Terceiro Reich” de Hermann Graml (1992) e “A Alemanha Nazista e os Judeus” de Saul Friedländer (1997) serem um ponto de referência para o último caso – é importante reconhecer as conexões. Estas surgem claramente nos eventos envolvendo o pogrom nacional da noite de 9-10 de novembro de 1938.          
O pogrom não foi planejado. Entretanto, não foi um desenvolvimento acidental. A ocasião foi a execução de Ernst Von Rath em 7 de novembro por um jovem judeu na embaixada alemã em Paris. Goebbels, com a expressa aprovação de Hitler, aproveitou a oportunidade para liberar os radicais do partido através da Alemanha para dar vazão à “fúria popular” e promover a orgia de violência que destruiu sinagogas e outras propriedades, conduziu a surras brutais e morte de centenas de judeus, terminando com 30.000 judeus masculinos sendo presos e enviados a campos de concentração como chantagem para levantar dinheiro para eles pagarem para sua emigração. Legislação foi aprovada apressadamente para obrigar os judeus a ficar fora da economia e obter uma poderosa e cínica fiança por terem provocado a destruição de sua própria propriedade.

Violência anti-judaica cresceu durante meses antes do pogrom. Hitler deu sinal verde para uma nova onda de ataques contra os judeus em um discurso para o partido em setembro de 1937. Em seguida, foi iniciado o processo de “arianização” da economia, o qual foi acelerado em 1938 já que os grandes negócios alemães, ávidos em maximizar lucros com a indústria armamentista crescente, uniram-se ao governo na pressão para forçar os preocupados judeus a vender suas empresas a preços de banana. O assalto econômico sobre os judeus foi acompanhado por legislação discriminatória tornando os judeus párias vivendo à margem da sociedade. À medida que o ano progredia, ataques violentos contra os judeus, sua propriedade, negócios, sinagogas e cemitérios drasticamente foram intensificados. A crescente assertividade do regime teve sua influência. Assim aconteceu a radicalização da política anti-judaica que seguiu ao Anschluss.***

A selvageria sobre os judeus nas ruas de Viena imediatamente seguiu o Anschluss, libertando o espírito agressivo das hordas nazistas, sobrepujando mesmo o que aconteceu na própria Alemanha desde 1933. A violência fora de controle logo foi seguida de violência mais orquestrada através da expulsão nas mãos do homem cuja habilidade para forçar os judeus austríacos a irem embora estabeleceu a reputação que o tornaria o responsável pela “solução final”: Adolf Eichmann. Na Alemanha, ataques contra os judeus revelaram-se uma distração útil para as gangues nazistas em um verão de tensão sempre crescente. Então, o acordo de Munique deu um grande impulso à autoconfiança do regime. Por volta do outono, o clima anti-semita era extremamente ameaçador aos judeus. O barril de pólvora estava prestes a explodir. Só precisava de uma fagulha. Von Rath foi morto. A Noite dos Cristais seguiu-se.

Havia agora uma multidão para deixar o país, produzindo uma crise de refugiados. Cerca de 120.000 escaparam nos próximos meses. Mas a porta para a emigração estava apenas parcialmente aberta. As barreiras contra a aceitação de refugiados judeus, recentemente reforçadas na conferência internacional em Evian, na França, em julho de 1938, preveniu que muitos fossem embora. Chamberlain concordou em facilitar um pouco a admissão de refugiados judeus da Alemanha na Grã-Bretanha. Mas o apaziguamento estava somente temporariamente suspenso, não abandonado. Ele expressou esperança de que os “moderados” na Alemanha pudessem mesmo agora limitar Hitler.

Na própria Alemanha, a impopularidade, que penetrou fundo nos círculos nazistas, da violência do pogrom (embora não o objetivo de remover os judeus) significou que tal ultraje escancarado não seria tentado outra vez dentro do Reich. Algo muito mais sinistro aconteceu. Em janeiro de 1939, a responsabilidade por encontrar uma solução para a “Questão Judaica” (ainda nesta época através da emigração forçada) foi colocada nas mãos da polícia de segurança – abrindo caminho que terminaria nas câmaras de gás. Não havia nenhum tipo de pensamento em relação a câmaras de gás no final de 1938. Mas na fétida atmosfera anti-judaica antes e após o pogrom, noções de que a guerra seria uma prova final em relação aos judeus – vistos como os responsáveis pela derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e agora vistos como agentes malignos agitando por uma nova guerra – foram defendidas pelas lideranças nazistas. Estas marcas de uma mentalidade genocida encontraram sua expressão sincera na “profecia” fatal de Hitler feita durante um grande discurso ao Reichstag em 30 de janeiro de 1939 que “se os judeus financistas internacionais dentro e fora da Europa forem bem sucedidos em jogar as nações mais uma vez em uma guerra mundial, então o resultado não será a bolchevização da terra, e assim a vitória da judiaria, mas a aniquilação da raça judaica na Europa.”

No final de 1938, então, os objetivos irmãos do nazismo – expansão para ganhar a dominação da Europa e a “remoção” dos judeus – foram misturados na visão de uma guerra logo a ser lutada e a destruição dos judeus como uma consequência daquela guerra. Os apaziguadores, por meio da entrega da Tchecoslováquia em Munique, conseguiram uma pausa. Eles não tinham, mesmo agora, desistido. Somente quando, em março de 1939, Hitler rasgou o acordo de Munique e ocupou o que restou das terras tchecas, a venda caiu de seus olhos. Outra crise, agora sobre a Polônia, era inevitável, com a Grã-Bretanha e a França finalmente comprometidas com a ação no caso de uma agressão alemã. Hitler achou que as democracias ocidentais aceitariam dar Danzig como foi feito com os Sudetos. Desta vez ele estava errado. Desta vez haveria guerra.

Olhando de volta para 1938, vemos a “velha Europa” se aproximando de seu fim, antes da guerra a envolver e antes da entrada em cena das superpotências que determinariam o destino do pós-guerra do continente em ruínas. Não é uma visão bonita - uma Europa de nações amargamente concorrentes, dividida pelos confrontos antigos de dominação, agora acontecendo em uma época de hiper-nacionalismo com seu cortejo de ambições imperialistas, apoiado pelas tecnologias de guerra total e extermínio em massa.

           
Setenta anos depois, nossa atual Europa, com todas as suas falhas e faltas, fornece um contraste perfeito, de modo que não é difícil de ver o projeto europeu que nasceu das lições da Segunda Guerra Mundial e da visão ampla do pós-guerra dos estadistas alemães e franceses como uma estória de sucesso. O principal objetivo destes visionários do pós-guerra era prevenir as circunstâncias novamente de levar as nações europeias à guerra entre si. A antiga Iugoslávia dá um exemplo do que, há não muito tempo atrás, ainda era possível fora do sistema que se tornou a União Européia. Apesar de “1938” jamais ocorrer novamente, as crises pontuais moveram-se para outros lugares. Os perigos para a paz mundial são diferentes, mas ainda presentes. Chegando assim tão longe, a lógica sugere que precisamos olhar para um futuro no qual, sem qualquer perda da identidade nacional, uma voz europeia possa falar com mais força e urgentemente para os interesses de um continente unido ao invés da atual e persistente dissonância.


 
Notas:

* Logo após o fim da PGM, houve iniciativas por parte de alguns setores austríacos para um “Anschluss” com a Alemanha, ou seja, uma união, e não como o termo é empregado até hoje, como anexação. Um referendo de 1919 no Tirol, por exemplo, indicou 98% de aprovação a uma união com a Alemanha. A própria manifestação popular exaltando Hitler em sua chegada ao país é uma forma de mostrar o apoio a essa união.

** Quando a guerra na Europa começou em 1º. de setembro de 1939, com a invasão alemã da Polônia, o exército dos EUA era o 17º. Lugar em tamanho e poder de fogo entre os exércitos do mundo inteiro, logo atrás da Romênia. Ele tinha 190.000 soldados (cresceria para 8,3 milhões em 1945). Quando a mobilização começou em 1940, o exército tinha um corpo profissional de oficiais de apenas 14.000 membros. A idade média dos majores – um posto médio entre capitão e tenente-coronel – era de aproximadamente 48 anos; na Guarda nacional, quase ¼ dos tenentes tinha mais de 40 anos e os postos superiores eram dominados por apadrinhados políticos com incompetência militar certificada. Nenhum oficial em ação em 1941 havia comandado uma grande unidade maior do que uma divisão na Primeira Guerra Mundial. Na época de Pearl Harbor, em dezembro de 1941, somente uma divisão americana estava totalmente preparada.

Em relação à Marinha, a construção naval, especialmente de encouraçados, estava limitada pela Conferência Naval de Washington de 1921-22. A construção de porta-aviões foi acelerada após o New Deal (política econômica de Roosevelt no seu primeiro mandato), que forneceu os recursos para a construção do USS Yorktown e o USS Enterprise. Em 1936, com a construção do USS Wasp, a Marinha americana adquiriu uma frota de 165.000 toneladas. Contudo, ela transformou-se em uma força extraordinária nos anos precedentes à Segunda Guerra Mundial, com a produção de encouraçados em 1937.

*** A historiografia oficial geralmente se preocupa em descrever a perseguição aos judeus e as medidas anti-econômicas contra eles, como a expropriação de propriedades. Entretanto, é interessante saber qual a lógica por trás dessas medidas, já que da forma como são descritas parece que as autoridades nazistas o faziam apenas por fazer.

Ao final da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha estava quebrada e refém do pagamento maciço de indenização a outros países, estabelecido pelo Tratado de Versalhes. Em 1923, a situação na Alemanha tornou-se desesperada e a inflação atingiu níveis astronômicos. Em 1921, a taxa de câmbio era de 75 marcos para um dólar. Em 1924, a taxa passou a 5 trilhões de marcos para um dólar. Isto virtualmente destruiu a classe média alemã, reduzindo a poupança nos bancos a zero.

E aí entra a questão do enriquecimento dos judeus na Alemanha às custas do povo alemão. Segundo Arthur Bryant (“Unfinished Victory”, 1940), judeus na Alemanha quebrada faziam empréstimos pessoais ou junto a instituições fora da Alemanha, por exemplo, EUA, utilizando suas ligações devido à religião. Assim, um judeu nos EUA emprestava em dólar para o seu primo na Alemanha, e este convertia em marcos com um poder de compra extraordinário. E não restava outra alternativa aos alemães venderem a preço de banana suas propriedades, já que não havia dinheiro para manter as famílias. De acordo com Bryant, a investida judaica sobre os bens dos alemães foi tão grande que em 1938, após cinco anos de legislação anti-semita, eles ainda detinham 1/3 das propriedades no Reich.

Em seu livro “Hitler, os Alemães e a ‘Questão Judaica’”, a autora Sarah Gordon essencialmente confirma o que Bryant diz. De acordo com ela, os judeus nunca excederam 1% da população alemã entre 1871-1933, mas em 1923 Berlim possuía 150 bancos de propriedade de judeus contra 11 de não-judeus. Eles detinham 41% das siderúrgicas e 57% das indústrias metalúrgicas. Em 1928, 80% dos membros do mercado de ações eram judeus, sendo que 85% foram exonerados em 1933. Cerca de ¼ dos professores universitários e de ensino básico tinham ascendência judaica, assim como 75% dos advogados e médicos. Em 1931, 50% dos diretores de teatro na Alemanha eram judeus (80% em Berlim).  

Um dos objetivos de Hitler era destruir o Comunismo, um fato que lhe garantiu imenso ódio e animosidade entre organizações judaicas e meios de comunicação e políticos simpatizantes da causa marxista. De acordo com Chaim Bermant, um escritor judeu, apesar dos judeus formarem menos de 5% da população russa, em 1934 38,5% dos membros do aparato de segurança soviético tinham ascendência judaica. (Sever Plocker, http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3342999,00.html )

Evidentemente, esses fatos explicam o ódio dos nazistas contra a população judaica, mas não justificam as atrocidades cometidas contra este povo.

 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

[SGM] As Origens da Segunda Guerra Mundial

T. S. Tsonchev

The Montreal Review, março de 2010

 
Uma resenha do livro “As Origens da Segunda Guerra Mundial” de A. J. P. Taylor

 

 
As fontes de conflito estão sempre escondidas no meio de velhos crimes e injustiças, feridas não cicatrizadas da dignidade perdida, sofrimentos e traumas que poderiam mostrar que mesmo o pior criminoso foi uma vítima de circunstâncias infelizes e abusos passados. O mal da guerra e conflito é sempre simples em suas manifestações exteriores e misticamente obscura em seus motivos interiores. A obra de A. J. P. Taylor “As Origens da Segunda Guerra Mundial” , apesar de seu grande discernimento, não pode nos dar uma resposta completa para a questão “Por que a Europa sucumbiu a uma segunda guerra sanguinária após os pesadelos da Primeira Guerra Mundial?”

As observações e conclusões de Taylor são notáveis, e muitos historiadores ainda as aceitam ou as rejeitam apaixonadamente. Seu livro sobre as origens da Segunda Guerra Mundial talvez seja a leitura mais popular sobre o assunto, ainda que sua interpretação não possa ser vista como uma verdade final sobre as causas da guerra mais sanguinária da história humana. A narrativa fascinante de Taylor é, em alguns aspectos, correta, em outros errada, e certamente não dá um quadro completo do período entre guerras. É apenas um fragmento de um quadro maior que ainda espera pela sua total revelação.

A conclusão mais popular de Taylor em “As Origens...” é que Hitler não tinha nenhum plano real para a expansão alemã. Ele argumenta que não devemos misturar planos com intenções e fantasias. De acordo com Taylor, Hitler esperava alcançar a expansão a leste não através de uma grande guerra, mas por meio de ofensivas bem direcionadas e rápidas ou, se fosse possível, sem mesmo uma guerra. Hitler também não esperava que a França capitularia de sua posição de Grande Potência de maneira fácil. Ele não tinha uma visão clara de como na realidade a Ucrânia e Polônia conquistadas seriam povoadas por alemães, nem ele era capaz de militarizar a Alemanha mais rápido que as outras Grandes Potências durante os anos 1930. Hitler também não tinha nenhum plano para tirar a Alemanha da depressão econômica. Sua qualidade política mais significativa era a habilidade de esperar, ou ter nervos de aço. Ele era um perfeito oportunista na política doméstica, assim como na externa. Em casa, Hitler usou as oportunidades que Von Papen e outros conservadores lhe deram para assumir o controle, sua política era de uma constante improvisação – ele explorava com a paciência de um predador suas intrigas, mas sem ideia de como ele escaparia de seu controle. A mesma técnica ele aplicava à política externa. Ele torturou, emocionalmente, a França e a Grã-Bretanha com os medos e esperanças e a confusão deles trabalhou para ele melhor do que suas ações ofensivas. Ele esperou pacientemente por vitórias políticas entregues num prato por seus próprios inimigos através de seus erros.

Quando “As Origens…” foi publicada em 1961, a maioria destas conclusões era novidade. Assim, com sua publicação, o livro de Taylor produziu tremores no entendimento comum da origem da Segunda Guerra Mundial, principalmente pelo argumento de que Hitler foi o único culpado pela guerra. A visão de Taylor não era tão não convencional, pois ele acreditava que, acima de tudo, o Tratado de Versalhes foi a principal razão para o conflito. As cláusulas pesadas não destruíram a Alemanha completamente. Além disso, a Alemanha com ou sem o tratado era ainda a maior potência do continente. “Os alemães,” observa Taylor, “tinham essa enorme vantagem que eles podiam enfraquecer o sistema de segurança criado contra eles simplesmente não fazendo nada.” Este fato se encaixava bem no estilo político de Hitler. De fato, em uma coincidência tudo na Europa trabalhou bem para um político alemão com talento oportunista e nervos para esperar, a tragédia estava no fato de que este político era Hitler, uma pessoa com uma visão corrompida para o futuro e ideias lunáticas. Se no lugar de Hitler, estivesse uma pessoa inteligente, sensível com uma visão racional do futuro da Alemanha, menos obcecada pela ideia de poder, a Segunda Guerra Mundial talvez não tivesse acontecido. É claro, os oportunistas não são sempre as pessoas mais sensíveis, e raramente a maioria é humilde, de modo que políticos alemães combinando em suas características talento oportunista, forte vontade política, boas intenções e pragmatismo eram praticamente impossíveis de surgir ou permanecer no poder por muito tempo nos anos turbulentos após a Primeira Guerra Mundial.

O Tratado de Versalhes tinha uma falha séria – nenhum dos lados acreditava genuinamente que ele foi um acordo justo. As nações derrotadas sentiram a humilhação e viram-se como vítimas de um roubo; os vencedores – Grã-Bretanha, França, EUA e Itália – tinham suas próprias dúvidas sobre se eles tomaram as decisões certas em Versalhes. A crença comum, admita ou não, era a de que os Aliados puniram a Alemanha além da conta. Mas os franceses, preocupados com sua própria segurança, queriam os alemães de joelhos. Enquanto isso, os britânicos não foram capazes de abandonar seu aliado continental, França, nem ignorar a opinião pública anti-alemã em casa imediatamente após a guerra; por outro lado, os americanos saíram de cena em seu tradicional isolacionismo e não fizeram nada para melhorar a situação política na Europa.

Após Versalhes, os Aliados seguiram uma política externa caótica, seguindo seus próprios interesses e objetivos. Mas, como Taylor nota, “não havia rejeição deliberada da parceria dos tempos de guerra. Os eventos afastaram os aliados; e nenhum deles lutou o bastante para reverter o processo.” Após a guerra, a Grã-Bretanha se sentiu segura e não viu a Alemanha como um perigo; a França tinha sentimentos opostos, sua obsessão com o item segurança mesmo aprofundou-se. Enquanto a Grã-Bretanha estava tentando apoiar a recuperação alemã, a França fazia o que podia para retardá-la. Os franceses acreditavam que a primeira Guerra Mundial foi causada por agressão, enquanto que os britânicos mantinham a posição de que se tratou de um engano.

Sob pressão da França, o tamanho das reparações alemãs não foi definido imediatamente após a guerra. Foi um erro. O lucro real das reparações foi insignificante para os Aliados e as reparações não tiveram um efeito tão devastador na economia alemã como parece à primeira vista. O dinheiro que vinha da Alemanha era usado pelos Aliados para pagar os débitos de guerra aos americanos, não para a recuperação de suas economias, enquanto que a Alemanha, simultaneamente, estava recebendo empréstimos generosos dos EUA. Mas as constantes disputas sobre a questão da reparação e a inabilidade de um acordo justo ser alcançado eram uma constante fonte de tensão. Isso criou um ambiente psicológico amargo na Alemanha que impedia o melhoramento das relações entre as Potências por anos e que estava alimentando o radicalismo anti-ocidental entre os alemães. Os alemães acreditavam que as reparações eram a principal causa de seus problemas econômicos. “De repente, as reparações tornaram-se a única responsável pela pobreza alemã,” diz Taylor. “O comerciante em dificuldades; o professor mal pago; o trabalhador desempregado, todos culpavam as reparações pelos seus problemas. O choro de uma criança faminta era o choro contra as reparações... A grande inflação de 1923 foi atribuída às reparações; assim como a grande depressão de 1932...” Este senso de injustiça evoluiu das reparações para todas as outras cláusulas do Tratado de Versalhes. No final, todos os problemas econômicos da Alemanha nos anos 1920 e 1930 eram explicados pelas cláusulas punidoras de Versalhes.

Mas isto é um mito, argumenta Taylor, que os problemas econômicos da Alemanha eram devidos apenas a causas externas. As dificuldades econômicas entre as guerras foram devidos aos defeitos da política doméstica alemã.

Na opinião de Taylor, a Alemanha entre as guerras teve um de seus grandes políticos em Gustav Stresemann. Stresemann sabia que a Alemanha precisava de uma Europa em paz para sua recuperação, e a recuperação tornaria seu país forte o suficiente para revisar o Tratado de Versalhes. Em meados dos anos 1920, Stresemann, MacDonald e o ministro do exterior francês Briand trabalharam juntos por um tempo para pacificar a Europa, para normalizar os antagonismos entre as Potências. Pela primeira vez após 1917, diz Taylor, com o Tratado de Locarno todos os lados pareciam satisfeitos. Locarno deu à Europa um pouco de paz e esperança. Foi o maior e único triunfo da política de “apaziguamento”. É claro, essa paz foi mais uma ilusão do que uma realidade. O apaziguamento não era possível até que a França se sentisse completamente tranquilizada e a Alemanha totalmente satisfeita.

Hitler destruiu a ordem política de Locarno dez anos depois com a reocupação da Renânia. Hitler chegou ao poder graças às intrigas políticas dos poderes políticos conservadores. Fatores diferentes ajudaram no crescimento da popularidade do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mas Von Papen e Hindenburg cometeram o erro crucial de apontar Hitler como Chanceler com a intenção de usá-lo temporariamente, enquanto os conservadores ganhavam poder político suficiente para governar sozinhos. Ninguém esperava que Hitler lançaria algumas “mudanças revolucionárias” tanto internas quanto externas. Taylor argumenta que Hitler tornou-se gradualmente um ditador e a única mudança política que ele promoveu foi a transformação do sistema político alemão da democracia para a ditadura. Em sua política externa, não havia nada de “revolucionário”. Nos assuntos estrangeiros, ele simplesmente continuou a política de seus predecessores: libertar a Alemanha das restrições do tratado de paz, restaurar o grande exército alemão e tornar a Alemanha uma grande potência continental como já havia sido antes.

Na política externa, Hitler agiu de acordo com as circunstâncias – sem um plano, sem um grande projeto. Ele tinha em sua mente as simples verdades do alemão comum e agia de acordo com elas. Taylor diz que Hitler foi “um intelecto poderoso, porém não instruído.” Sua política externa era um “eco” das conversas em qualquer café austríaco ou cervejaria alemã. Em seu esboço de política externa havia somente um elemento de pensamento sistemático, e não era original – sua visão era “continental”. Suas ambições eram restritas à Europa, mais precisamente, à Europa oriental. Ele queria o leste de volta à Alemanha – Áustria, polônia, Ucrânia e os espólios de Brest-Litovsk. De acordo com Taylor, a expansão oriental era a proposta primária da política de Hitler, senão a única. O “terrível” literalismo era a força impulsionadora em suas ações políticas e intenções. Hitler colocou em movimento a política “urbana”, ele estava alcançando as crenças vagas do alemão comum e estava fazendo isso pacientemente e com nervos de aço, agindo com passos curtos e esperando seus adversários perderem o controle e cometer erros. “Talvez”, escreve Taylor, “esta espera não tenha sido a princípio consciente ou deliberada. Os grandes estadistas são aqueles que não sabem o que estão fazendo.”

Hitler escancarou a fraqueza de seus adversaries quando ele abandonou em 1933 a Conferência de Desarmamento Mundial em Genôva. Como aconteceu muito frequentemente nos anos vindouros, esta ação não teve consequências. Isto deu-lhe uma garantia de que estava livre para blefar e verificar as reais intenções dos Aliados toda vez que a ocasião permitisse.

De acordo com Taylor, os primeiros sucessos de Hitler na política externa foram o Pacto de Não-Agressão com a Polônia em 1934. Este acordo deu-lhe segurança para manobrar a França e a Inglaterra no futuro. Hitler tratou com muito cuidado o fracasso da Liga das Nações em resolver o problema da agressão italiana na Abissínia. Isto mostrou-lhe que a comunidade internacional não tinha nenhum prestígio para intervir em casos de violação de obrigações internacionais coletivas. Assim, em 1935, ele reocupou a Renânia. Em resposta, os franceses não fizeram praticamente nada, nem a Grã-Bretanha, Polônia ou outro país. A reocupação da Renânia, diz Taylor, anulou o sistema de Versalhes. A Alemanha estava livre para rearmar-se e o sistema internacional voltou à familiar anarquia dos anos pré-guerra. Ora, diz Taylor, a anarquia internacional torna a guerra possível, mas não lhe dá certeza de ocorrer. Em 1935, ainda havia ceticismo que a Alemanha causaria guerra; de fato, os europeus esperavam um possível conflito no Mediterrâneo entre França e Itália. “As guerras quando vêm,” diz Taylor, “são sempre diferentes da guerra que é esperada. A vitória vai para o lado que cometeu menos erros, não para aquele que supunha estar certo.” No período pré-Segunda Guerra Mundial, Hitler estava do lado que cometeu menos erros.        

Após a reocupação da Renânia, não havia nenhum sério incentivo para o rearmamento na França e Grã-Bretanha. As razões gerais para isto eram três – os ingleses e franceses ainda não acreditavam que a política de “apaziguamento” era um fracasso, eles não queriam uma nova guerra e os problemas econômicos preveniram quaisquer planos para gastos militares. A Alemanha iniciou alguma militarização, mas não era tão grande quanto as pessoas pensam. A opinião popular é que a Alemanha era o único país (exceto a União Soviética) que gozava que pleno emprego após 1935 e isto era devido ao rearmamento. Na realidade, o sucesso econômico foi devido à abordagem heterodoxa de Hitler na economia que permitiu ao governo gastar dinheiro em projetos públicos apesar da Depressão. De fato, isto é uma expressão típica do capitalismo de estado autocrático que, por um período particular, é muito eficiente em facilitar o revigoramento da economia através de medidas de incentivo, tais como controle centralizado das indústrias e manipulação estatal ativa de preços e investimentos.

Assim, de acordo com Taylor, o espaço entre as duas guerras mundiais foi estendido por precisamente mais dois anos. “O período pós-guerra terminou quando a Alemanha reocupou a Renânia em 7 de março de 1936, o período de pré-guerra começou quando ela anexou a Áustria em 13 de março de 1938.”

Taylor insiste que o período do pré-guerra começou sem um plano. De acordo com ele, o popular “Memorando Hossbach”, que foi apresentado nos julgamentos de Nuremberg, e que serviu de evidência principal para a estratégia de política externa de Hitler, não era nada mais do que um encontro de conferência documentado na Chancelaria em 1937, no qual Hitler esperava convencer seus ministros conservadores (entre eles somente Göring era nazista) a apoiar seu programa de aumento de armamentos contra os escrúpulos financeiros do Ministro da Economia Schacht.

O “Memorando Hossbach” não era realmente um plano de ação. O Anschluss em março de 1938 veio, contra os objetivos expressos no memorando, antes da “planejada” destruição da Tchecoslováquia. As políticas de Hitler em relação à Áustria não tinham sido diferentes da abordagem evolutiva tradicional alemã de esperar que os alemães austríacos se fundissem com a pátria étnica sem nenhum apoio externo. Mas as circunstancias permitiram uma invasão alemã precoce. Após o Anschluss, “a geografia e a política automaticamente colocaram a Tchecoslováquia na agenda,” não os pontos no memorando.

A Tchecoslováquia era um país da Europa central, composto de minorias nacionais e cercado de vizinhos não amigáveis (exceto a Romênia). A destruição do Estado Tcheco foi fácil – seus aliados França e Rússia Soviética não tiveram coragem de defendê-lo, a Grã-Bretanha estava convencida de que o risco de sua destruição era menor comparando com a possibilidade da segunda grande guerra. Hitler ocupou a terra dos Sudetos, onde a minoria alemã vivia, com a benção da Grã-Bretanha e da França em Munique. A última etapa desta ordem de passos curtos mas altamente eficientes era a cidade livre de Danzig e do Corredor Polonês que dividia a Alemanha da Prússia Oriental. Danzig marca o começo real da Segunda Guerra Mundial na interpretação de Taylor.

Acima de tudo, o que podemos concluir a partir do livro de Taylor? Quais foram as origens da Segunda Guerra Mundial?

Primeiro, a semente da discórdia plantada em Versalhes. O tratado que objetivava criar uma ordem segura pós-guerra mundial revelou-se um completo fiasco. Ele foi esboçado sem o consentimento das nações derrotadas, não foi um acordo coletivo e, de fato, era um compromisso dos medos franceses com a opinião pública dos países vencedores. O sistema de Versalhes foi incrivel e injustificadamente cruel com a maior nação na Europa, a Alemanha, e com isto produziu constante situação de instabilidade. Durante os anos interguerras, todo político europeu sabia que Versalhes foi um erro, mas ninguém estava certo como corrigi-lo sem colocar em risco os outros países ou perder o status internacional de seu país.

Segundo, os franceses e os britânicos tinham diferentes conceitos sobre a ordem do mundo do pós-guerra. A França estava engajada em ações que supostamente deveriam garantir sua segurança, mas ela nunca estava satisfeita; a Grã-Bretanha se importava com sua tranquilidade e preferia a paz. A França estava obcecada por questões de segurança, mas ela não foi capaz de resistir à ameaça alemã sem o apoio da Inglaterra; no outro lado, a Grã-Bretanha sabia que a Alemanha tinha o direito de buscar justiça e sinceramente acreditava que uma vez que suas exigências fossem satisfeitas ela seria pacificada. A Grã-Bretanha olhava a França como o principal obstáculo contra a recuperação alemã e, consequentemente, como o principal perturbador da paz. Era impensável à Grã-Bretanha apoiar a França militarmente ao invés de acalmar toda a razão para um conflito aberto.

Terceiro, durante o período entre guerras, a Alemanha experimentou um número de turbilhões políticos e econômicos e para todos eles, justificadamente ou não, Versalhes foi a razão alegada. A radicalização da sociedade alemã produziu i movimento extremista nazista e tornou possível o regime nazista. O ambiente político na Alemanha e fora dela cedo ou tarde produziria um político rude e sangue-frio que cortaria o nó górdio do sistema de Versalhes. Este político era Hitler. Ele foi um lunático, que acreditava que qualquer objetivo que o homem alcançasse seria devido à sua originalidade e brutalidade (Gordon W. Prange, ed. Hitler's Words, Washington, D.C., 1944, p.8). Ele era uma pessoa destituída de dúvidas, suas ações criminosas tinham uma “fundação de concreto” em sua filosofia anti-semita e ele estava livre de restrições morais. Tal pessoa não pode ser inteligente o suficiente para criar um plano para domínio mundial, ele pode apenas mostrar os defeitos do sistema internacional. A opinião de Taylor é exatamente esta: Hitler foi o produto de um mundo corrompido, e a responsabilidade pelo início da Segunda Guerra Mundial não deveria ser colocada apenas nos ombros de uma pessoa, como já havia acontecido em 1917.

 
http://www.themontrealreview.com/2009/The-origins-of-the-Second-World-War.php

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Rumo a uma Política Externa Sionista Cristã

Philip Giraldi, 14/02/2013


Os países frequentemente se definem pelo que eles acreditam ser verdade. Quando realidade e crença discordam com aquela definição podemos muito bem nos referir como um “mito nacional”. Nos Estados Unidos, muitos acreditam que existe uma separação constitucionalmente estabelecida entre religião e governo. Na prática, contudo, esta separação jamais realmente existiu, exceto que os americanos são livres para praticar qualquer religião que eles escolham ou mesmo nenhuma. A religião dominante da nação, o Cristianismo, moldou de fato a política governamental em muitas áreas importantes desde a fundação da república. A isenção de impostos para as igrejas poderia ser um exemplo de legislação favorecendo a religião organizada enquanto que no século XIX os governos de um número de estados americanos tinham cláusulas religiosas escritas em suas constituições e também coletavam impostos de dízimos para apoiar a dominação cristã local. A prática só terminou com a aprovação da décima quarta emenda em 1868.

O Sionismo Cristão não é uma religião per se, mas ao invés disso um conjunto de crenças baseadas em interpretações de partes específicas da Bíblia – notavelmente o Livro das Revelações e partes de Ezequiel, Daniel e Isaías – que falam do retorno dos judeus para a Terra prometida, uma pré-condição para a Segunda Vinda de Cristo. A crença de que Israel é essencial para o processo levou à fusão do Cristianismo com o Sionismo, portanto o nome do movimento.

O significado político deste ponto de vista é enorme, significando que uma grande parte dos cristãos promove uma política externa irreal baseada numa interpretação controversa da Bíblia, a qual abraça com fervor considerável. O Sionismo Cristão por definição consiste de cristãos (normalmente evangélicos protestantes) que acreditam que uma vez que as condições sejam satisfeitas para a Segunda Vinda de Jesus Cristo, todos os crentes verdadeiros serão conduzidos ao Paraíso, apesar dos detalhes da sequência de eventos e o tempo serem questionáveis. Muitos sionistas cristãos acreditam que a Segunda Vinda acontecerá logo, dentro de uma geração após o retorno dos judeus à Terra Santa, de modo que eles apoiam o governo e o povo de Israel completa e incondicionalmente em tudo o que eles fazem, para incluir a realização da profecia através do encorajamento da expansão por força na Judéia histórica, que incluiria o que resta do lado ocidental palestino.

Outro aspecto do Sionismo Cristão é a crença de alguns que o fim dos tempos, como eles se referem, será precedido por um governo mundial (convenientemente visto como as Nações Unidas) e anos de guerra e tumulto com uma gigante batalha final colocando as forças do bem contra as forças do mal, na qual todos os malfeitores serão destruídos e os direitos serão triunfantes. A batalha supostamente deverá acontecer em Armageddon, um local desconhecido no Oriente Médio que alguns acreditam ser derivado do nome da antiga capital hitita Megiddo.  

Que os sionistas cristãos acreditam que o retorno de Cristo é iminente e que haverá grandes guerras e uma batalha final no Oriente Médio precedendo-o pareceria irrelevante para a maioria de nós, mas isso tem, neste caso real, consequências mundiais, pois temos seu envolvimento na política americana e, em particular, em alguns aspectos da política externa americana. Cristãos evangélicos começaram a se mobilizar e tornar-se uma força política poderosa no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 em reação à ação da administração de Jimmy Carter em desafiar o status de tributação das escolas cristãs independentes.

Muita da agenda inicialmente apoiada dos sionistas cristãos era sectária, refletido em sua aparente antipatia em relação ao catolicismo, que eles descrevem como uma “prostituta da Babilônia” e em sua crença de que o Papa é o Anti-Cristo, ou social, tal como sendo anti-aborto e hostil aos direitos homossexuais, mas também sempre houve desde o início um horror ao “Comunismo Ateu” e uma identificação com Israel. Era sempre mantido que Israel deveria ser protegido acima e além dos interesses da política externa americana na região do Oriente Médio. Através da criação de organizações como a poderosa Cristãos Unidos por Israel (CUFI), com dois milhões de membros e liderada pelo pastor John Hagee, este foco em Israel tem obtido um mecanismo para unir os evangélicos e fornecer-lhes os meios e direção para pressionar o congresso para continuar os altos níveis de ajuda para Israel e também resistir a quaisquer tentativas de desafiar o apoio às políticas de Israel. Este mecanismo foi mais recentemente observado em ação em 28 de janeiro quando 200 líderes da CUFI viajaram até Washington com todas as despesas pagas por um “doador anônimo” para pressionar seus senadores contra a confirmação de Chuck Hagel como Secretário da Defesa. Hagel foi criticado por não ser totalmente apoiador de Israel e hesitante em entrar em guerra contra o Irã pelo interesse de Israel.

Apesar de ser uma organização que se define como cristã, a CUFI apoia a Guerra contra o Irã como um precursor de um conflito global total. Hagee explica: “Os EUA devem se unir a Israel num ataque preventivo contra o Irã para satisfazer o plano de Deus para Israel e o Ocidente... um confronto bíblico profetizado do fim dos tempos com o Irã, que conduzirá ao Êxtase, Aflição e à Segunda Vinda de Cristo.”  

A maioria dos evangélicos, mesmo se eles não compartilhem da agenda detalhada da CUFI, favorece Israel e tem os inimigos de Israel como seus próprios. Este foco em Israel vindo de possivelmente 60 milhões de evangélicos é visto mais poderosamente no Partido Republicano, que incorpora em suas próprias visões, mas isso também tem certo apelo entre os democratas. É concentrado em um número de estados sulistas e fronteiriços, o Cinturão Bíblico, que tem significado que poucos congressistas daqueles estados se sentem predispostos a questionar o que Israel faz. De fato, eles fazem o contrário e frequentemente ovacionam seu amor por Israel, que pode ser ou não genuíno. Alguns congressistas, incluindo o antigo porta-voz da Casa, Dick Armey, do Texas, abraça a agenda total do Armageddon, levando-nos a pensar por que alguém votaria em um político que deseja fervorosamente trazer o fim do mundo.

Este bloco poderoso de sentimento pró-Israel fornece um passe livre para os assentamentos ilegais israelenses e também para a política externa brutal de Tel Aviv com seus vizinhos, que tem prejudicado outros interesses americanos na região. Isso também significa que qualquer consideração dos árabes como partes prejudicadas no rebuliço do Oriente Médio é raramente expressa, apesar de que muitos dos árabes que são vítimas das políticas centradas em Israel são, de fato, vítimas de cristãos.

John Hagee disse falsamente que o Corão conclama todos os mulçumanos a matar cristãos e judeus. A identificação persistente de mulçumanos como inimigos de Israel e também como apoiadores do terrorismo por evangélicos em geral e sionistas cristãos em particular tem levado a um crescimento natural da islamofobia nos estados Unidos. Este preconceito surge da percepção de que o Islã faz parte integral dos problemas do mundo árabe, levando a uma rebelião infeliz naqueles americanos, incluindo congressistas como Peter King e Michelle Bachmann, que acreditam que o Islã é uma religião má e que os mulçumanos deveriam ser monitorados pelas autoridades e mesmo negados de ter alguns direitos civis básicos, ou deportados porque eles não são confiáveis. Em virtude dos armageddonistas acreditarem que haverá um confronto final com as forças do mal, tem sido necessário identificar o inimigo e aquele inimigo é, frequentemente, caracterizado como mulçumano. Hagee construiu este conflito contra o mundo mulçumano como uma resistência futura às investidas satânicas se opondo ao final dos tempos.

Neoconservadores, que geralmente poderiam ser descritos como não-religiosos, rapidamente identificaram as vantagens derivadas de ligar sua causa com a dos evangélicos e estabelecer laços fortes durante a administração Reagan. Israel também reconheceu os benefícios de uma relação próxima e continuada com os sionistas cristãos, mesmo que os líderes de Israel quase que certamente façam cara feia neste caso, achando que a escatologia do retorno de Cristo invejosa para todos os judeus, mas aqueles que se converterem também morrerão e irão para o inferno quando o mundo acabar. Quando grupos como a CUFI organizam suas peregrinações em massa para visitar Israel, eles gastam todo seu tempo em Israel, frequentemente se recusando a visitar os principais sítios cristãos em terras árabes e nunca se encontrando com os cristãos palestinos, que eles não reconhecem como correligionários. Quando os sionistas cristãos se reúnem em Jerusalém eles frequentemente encontram com líderes israelenses, como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que muitas vezes fala com eles.

Alguns líderes evangélicos, incluindo John Hagee, também tem se beneficiado da relação diretamente de outras formas. O governo israelense presenteou Hagee com um jato executivo, completo com tripulação, para tornar sua evangelização mais confortável. Tem sido sugerido, é claro, que a ajuda americana e contribuições de caridade livres de impostos para Israel são assim redirecionados para apoiar aqueles grupos que inevitavelmente estão desejosos de fornecer ainda mais ajuda até que o poço de Washington finalmente seque.

Portanto, a questão é que o envolvimento do sionismo cristão na política americana em favor da relação de Washington com Israel não tem servido a qualquer interesse nacional americano, a menos que pensemos que Israel e os EUA são essencialmente a mesma forma de governo, o que é insustentável. Pelo contrário, a política sionista cristã tem sido um grande responsável pelo apoio à política externa obtusa dos EUA na região do Oriente Médio e também em outros países mulçumanos, uma política que tem contribuído para pelo menos quatro guerras em quanto torna o mundo um lugar mais perigoso para se viver para todos os americanos. O sionismo cristão promoveu uma política externa que serve apenas a um interesse restrito paroquial que, ironicamente, é pretendido fazer qualquer coisa para trazer o fim do mundo, possivelmente uma vitória para cavalheiros como o pastor John Hagee, se sua interpretação da Bíblia é correta, mas inegavelmente um desastre para o resto de nós.

http://original.antiwar.com/giraldi/2013/02/13/towards-a-christian-zionist-foreign-policy/

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