quinta-feira, 14 de março de 2013

[HOL] "Por que eu acredito que Simon Wiesenthal é uma Fraude"

Guy Walters, 10/09/2010


Para milhões ao redor do mundo, Simon Wiesenthal é visto como um herói.

Frequentemente conhecido por levar à justiça cerca de 1.100 criminosos de guerra, o caçador de nazistas e sobrevivente do Holocausto é lembrado como sendo um santo, um homem que fez mais do que qualquer governo para prender os perpetradores de alguns dos piores crimes que o mundo já presenciou.

Indicado para o Prêmio Nobel da Paz, o recebedor de título de cavaleiro e mais de 50 outras honras, Wiesenthal é particularmente lembrado por seu papel  em rastrear o conhecido arquiteto do Holocausto, Adolf Eichmann.

Após morrer com a idade de 96 anos em setembro de 2005, as homenagens pipocaram em todo mundo.

Wiesenthal foi saudado como “o representante permanente das vítimas”, um homem que não apenas buscava justiça, mas orgulhava-se de nunca ter esquecido seus “seis milhões de clientes,” como chamava aqueles que morreram no Holocausto.

Aqueles que lêem suas memórias somente podem imaginar seu heroísmo e suas escapadas incríveis da morte nas mãos dos nazistas.

Parecia como se a missão de Wiesenthal fosse quase divinamente  concebida, os deuses poupando sua vida por algum motivo mais nobre.

Os relatos de suas caçadas contra fugitivos não eram menos sensacionais, como Wiesenthal contou como ele se envolveu numa batalha heróica contra redes nazistas sinistras do pós-guerra e seus simpatizantes.

Ou seja, era a estória final de programas e filmes de uma boa estória sentimental, e o mundo suspirava por ela.

Programas de TV e filmes foram produzidos e logo Wiesenthal tornou-se um nome conhecido, um símbolo do triunfo da esperança sobre o Mal.

Aqueles que ficaram excitados com sua estória de vida podem agora vivenciar essas emoções outra vez, graças a uma nova biografia escrita pelo historiador israelense Tom Segev.

A imagem que emerge deste livro é muito mais complexa do que alguém poderia supor.

O Dr. Segev mostra que muito dos relatos de Wisenthal sobre sua vida foi o produto de exagero e auto-mitologia.

Aparecendo no programa “Hoje” da Radio 4 esta semana, o autor disse que Wiesenthal foi “um contador de estórias, um homem que viveu entre a realidade e a fantasia.”

Ele desculpou a inclinação de Wiesenthal para fabricar estórias sobre seu passado, dizendo que este foi o modo mais fácil para lidar com as atrocidades reais que ele experimentou nos campos de concentração.

Desculpe-me, mas esta abordagem compassiva simplesmente eu não aceito. Pois a verdade é que o grande caçador de nazistas é muito, mas muito pior do que o Dr. Segev acha.

Em minha opinião, Simon Wiesenthal era um mentiroso e uma fraude. De fato, iria mais longe dizendo que ele foi um dos maiores vigaristas do século XX.

Gastei quatro anos trabalhando em uma história da caçada aos nazistas que foi publicada ano passado, e o material que reuni sobre Wiesenthal foi suficiente para dizer o que eu digo.

Quando comecei a escrever o livro, acreditava que o grande homem era apenas isso – grande.

Mas quando olhei para suas memórias, biografias e material original de arquivo, percebi que, como outros, a imagem que havia construído de Simon Wiesenthal estava incorrigivelmente errada.

Havia tantas distorções e incoerências, tantas mentiras descaradas – nenhuma das quais poderia ser explicada pelo papo psicológico bacana oferecido por gente como o Dr. Segev.

A verdade é que Wiesenthal mentiu sobre quase tudo em sua vida.

Vamos, por exemplo, começar do início e ver seu registro escolar.

Se você visitar a página do Centro Simon Wiesenthal, aprenderá que ele “fez o pedido de admissão no Instituto Politécnico em Lvov,” mas foi recusado “devido a restrições de cotas para estudantes judeus.”

A página então afirma que ele foi para a Universidade Técnica de Praga, “onde ele recebeu seu diploma de engenheiro arquiteto em 1932.”

Outras biografias – publicadas enquanto Wisenthal estava vivo – dizem que ele de fato foi para Lvov, em 1934 ou 35, e recebeu um diploma de engenheiro arquiteto em 1939.

Todos estes relatos são mentiras.

Os Arquivos Públicos de Lvov não tem nenhum registro de Simon Wiesenthal como estudante na Universidade Técnica.

Os arquivos têm registros de outros estudantes daquele período, mas não de Wiesenthal – e não havia nenhuma restrição de cotas para estudantes judeus na época.

Nem ele se graduou em Praga. Apesar dele ter se matriculado em 21 de fevereiro de 1929, Wiesenthal nunca concluiu seu curso. Ele passou em sua primeira avaliação pública em 15 de fevereiro de 1932, e então abandonou naquele mesmo ano.

Apesar da falta de credenciais acadêmicas, ele usaria de forma fraudulenta seu suposto diploma de engenharia em seu papel timbrado pelo resto de sua vida.

Durante a guerra, Wiesenthal afirmou ter gasto anos dentro e fora de uma série de campos de concentração.

Apesar dele certamente ter gasto tempo em campos como Mauthausen, ele também disse ter estado em Auschwitz – uma afirmação que não existe registro.

Então, há a sua suposta carreira como bravo partisan. Em duas de suas memórias, ele afirma ter se juntado a um grupo de partisans após escapar de um campo em outubro de 1943.

De acordo com uma entrevista que ele deu ao exército americano em 1948, ele afirmou que ele foi promovido a tenente imediatamente “com base em minha inteligência.”

Ele logo foi promovido a major, e foi fundamental em “construir bunkers e linhas fortificadas.”

“Tínhamos fabulosas construções de bunkers,” ele disse.

“Meu posto não era muita coisa considerando meu conhecimento estratégico e técnico.”

Precisamos somente de uma compreensão básica da história da Segunda Guerra Mundial para saber que as afirmações de Wiesenthal são altamente duvidosas.

Grupos partisans não construíam “fabulosas construções de bunkers,” ao invés disso eles utilizavam a mobilidade para enganar o inimigo.

Como judeu, é também altamente improvável que ele fosse promovido a oficial em tal grupo, que geralmente era anti-semita.

Wiesenthal também daria outro relato de sua experiência com os partisans, no qual ele se afiliou a um bando menor e mais especialista – dificilmente um para construir bunkers e fortificações ou ter uma estrutura formal de promoção.

Já que existem pelo menos quatro relatos totalmente diferentes das atividades de Wiesenthal entre outubro de 1943 e meados de 1944, questões sérias sobre o que ele realmente fez deveriam ser levantadas.

Alguns que duvidaram de sua versão dos fatos – como o antigo chanceler austríaco Bruno Kreisky – foram longe acusando-o repetidamente nos anos 1970 e 80 de ter sido colaborador da Gestapo.

As afirmações de Kreisky eram apoiadas por evidência não confirmada fornecida pelos governos polonês e soviético, e quando Wiesenthal levou Kreisky ao tribunal, foi Wiesenthal que ganhou.    

Duas declarações sob juramento feitas por ex-membros do exército alemão também afirmavam que o caçador de nazistas era um colaborador, mas tais afirmações devem ser tratadas com extremo cuidado.

Sujar Wiesenthal é um passatempo predileto para anti-semitas, negadores do Holocausto, “revisionistas” e outras figuras.

Mas a multiplicidade de relatos conflituosos exige que questões sobre a autenticidade de sua estória sejam levantadas por aqueles que, como eu, não tem nenhuma agenda.

Contudo, não tenho nenhum arrependimento em dizer que a maior mentira que ele espalhou foi sobre seu envolvimento na caçada e eventual captura de Adolf Eichmann, uma suposta ação com a qual ele sempre estará associado – e totalmente injustificada.

De acordo com o mito, Simon Wiesenthal começou a caçar Eichmann tão logo a guerra terminou.

No início dos anos 1950, ele havia desistido da busca, quando então teve a chance de se encontrar com um nobre austríaco chamado Barão Mast no final do outono de 1953.

O Barão Mast mostrou a Wiesenthal uma carta que ele recebeu em maio daquele ano de um antigo camarada de exército agora vivendo na Argentina, onde o escritor estava atrás do “porco Eichmann”, que estava vivendo em Buenos Aires e trabalhando próximo.

Em sua primeira memória publicada, “Eu cacei Eichmann”, Wiesenthal lembra como ele estava terrivelmente excitado pelas notícias, mas estava fora de seu alcance.

Uns poucos meses depois, em 30 de março de 1954, Wiesenthal finalmente enviou um dossiê sobre Eichmann para o Congresso Mundial Judaico e para o cônsul israelense em Viena, no qual ele compartilhava os conteúdos da carta do Barão e revelava que o criminoso estava trabalhando em uma obra de uma estação elétrica a 80 km de Buenos Aires.

Infelizmente, a inteligência de Wiesenthal era inútil. Não somente ele era incapaz de fornecer o nome falso de Eichmann – Riccardo Klement – mas na época da carta do barão, Eichmann estava de fato trabalhando mais de 1000 km de Buenos Aires, e em março de 1954, ele estava vivendo na capital argentina tentando estabelecer seu próprio negócio.

Entretanto, o pior estava por vir.

Em 1959, quando a caçada por EIchmann esta esquentando, o serviço de inteligência israelense, o Mossad, perguntou a Wiesenthal se ele poderia dar mais informações sobre o criminoso.

Em 23 de setembro, ele escreveu aos israelenses e disse-lhes que suspeitava que Eichmann estava no norte da Alemanha e que ele “visita a Áustria de vez em quando.”

Novamente, ele estava fornecendo informação inútil.

A partir de outras fontes, os israelenses estabeleceram que o fugitivo estava de fato em Buenos Aires, e que a dica de Wiesenthal levava a lugar nenhum.

Após Eichmann ser sequestrado no ano seguinte por agentes do Mossad, Wiesenthal pelo menos teve a gentileza de negar que ele “tinha algo a ver com a prisão de Eichmann,” e que ele guardou todos os seus arquivos em Jerusalém.

Porém, com os israelenses permanecendo calados sobre seu envolvimento, ele decidiu preencher o vácuo de informações e começou a colocar-se no coração da caçada.

Ele escreveria que, apesar dele ter dito que enviou seus arquivos para Israel, ele na verdade manteve o arquivo sobre Eichmann. Isto é totalmente inverídico.

Talvez a mentira mais chocante de Wiesenthal relacionada ao caso Eichmann seja afirmar que ele disse aos israelenses em sua carta de setembro de 1959 que o nazista estava na verdade na Argentina.

Como vimos, ele disse a eles que Eichmann estava provavelmente na Alemanha – uma pequena diferença de muitos milhares de quilômetros.

Curiosamente, o Dr. Segev viu tanto a carta de setembro de 1959 quanto a afirmação mais tarde, mesmo assim ele preferiu ignorar as diferenças em seu livro.

O fato é que Wiesenthal mentiu sobre sua educação, suas experiências de guerra e sobre sua “caçada” a Adolf Eichmann.

Qualquer homem que carregue tantas mentiras não merece ser reverenciado. Apesar de alguns desculparem os “contos da carochinha” de Wiesenthal, existem simplesmente muitas outras mentiras para levá-lo seriamente.

Além disso, ao dizer que Wiesenthal “viveu entre a realidade e a fantasia” para lidar com suas experiências de guerra é um insulto a todos aqueles sobreviventes do Holocausto que simplesmente disseram a verdade.

http://www.dailymail.co.uk/news/article-1310725/Why-I-believe-king-Nazi-hunters-Simon-Wiesenthal-fraud.html?openGraphAuthor=%2Fhome%2Fsearch.html%3Fs%3D%26authornamef%3DGuy%2BWalters


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[HOL] A Primeira Vez que Hollywood expôs o Holocausto

Matt Lebovic, 09/03/2013


Exatamente 70 anos atrás, os grandes astros de Hollywood reuniram-se para expor o Holocausto.

Foi no início de 1943, e os exércitos de Hitler estavam finalmente em retirada da África do Norte e da União Soviética. O Dia-D estava mais de um ano longe, e os nazistas haviam matado quase três milhões de judeus.

Desde o começo da guerra, relatos de testemunhas de execuções em massa e campos de extermínio chegaram aos governos ao redor do mundo. “Resgate através da Vitória” permaneceu a estratégia oficial aliada, e as mortes recebiam pouca atenção.

Quando o genocídio atingiu seu ápice, Hollywood decidiu agir.

Um jornalista e roteirista experiente, Ben Hecht foi a primeira celebridade a publicar um texto sobre o Holocausto. O ensaio de Hecht de fevereiro de 1943, “O Extermínio dos Judeus” (http://www.unz.org/Pub/AmMercury-1943feb-00194 ) fez barulho, mesmo com o Departamento de Estado dos EUA deixando de lado relatórios do genocídio.

“Destes 6.000.000 de judeus da Europa, quase um terço já foi massacrada pelos alemães, romenos e húngaros,” escreveu Hecht no Reader´s Digest. “O mais conservador dos marcadores (N. do T.: pessoa que registra os resultados de um jogo ou concurso) estima que antes que a guerra acabe, pelo menos outros um terço terá o mesmo destino.”

Não contente com esse alerta, Hecht decidiu fazer o que ele fazia de melhor – colocar a idéia em um drama envolvente. Um roteirista premiado com o Oscar por “E o Vento Levou” e autor de “Scarface”, Hecht sabia como mexer com as emoções e estabelecer uma estória épica.

Afirmando “frustração com a política americana e ultraje com o medo de Hollywood de ofender seus mercados europeus,” Hecht gastou um mês escrevendo um espetáculo épico hollywoodiano para expor o Holocausto e exigir uma ação de resgate imediata.

Evocando a profecia “Eles nunca devem morrer” do profeta Habakkuk, hecht chamou o seu show de Jamais Morreremos. Exibindo centenas de figurantes e uma orquestra de 50 músicos da NBC, a excursão de seis cidades da produção foi o primeiro grande protesto político de Hollywood.


O compositor Kurt Weill escreveu a trilha sonora e recrutou estrelas como Edward G. Robinson, Paul Muni e Stella Adler para aparecerem no “espetáculo de propagand” dirigido por Billy Rose. Cinqüenta rabinos idosos resgatados da Europa tomaram o palco para cantar a oração kaddish dos mortos no encerramento.

Hecht colaborou intimamente com o Comitê para um Exército Judeu, um grupo sionista revisionista liderado pelo futuro membro do Knesset, Hillel Kook – sob o pseudônimo Peter Bérgson. O assim chamado Grupo Bérgson convocou celebridades não-judaicas, incluindo Frank Sinatra e Burgess Meredith para a excursão nacional de Jamais Morreremos.


A estréia em Nova York aconteceu em 9 de março de 1943, no Madison Square Garden, apenas uma semana após uma reunião maciça “Parem Hitler Agora!” no mesmo local. Os produtores do espetáculo realizaram outro show na noite de abertura para atender à demanda, permitindo que 40.000 pessoas assistissem a ele.

“Estes são os dois milhões de mortos judeus da Europa hoje,” anunciou o locutor quando o show iniciou. “Os quatro milhões restantes deixados para morrer estão sendo mortos, de acordo com o plano. Quando a paz acontecer, eles já estarão mortos.”

Reduzidos em tamanho por um palco que deixaria Cecil B. DeMille com inveja, as celebridades se apresentaram como “as vozes dos sem voz” próximos a crianças vestidas de fantasmas repetindo “Lembrem-se de nós.” Duas tábuas de 12 metros de altura contendo os Dez Mandamentos em hebreu faziam uma ligação da história do povo judeu com o massacre presente.

“Lembrem-se de nós que estivemos na Ucrânia,” murmuraram os atores. “Os alemães jogaram nossas mulheres nas estradas amarradas às nossas crianças. Então, eles passaram com seus caminhões sobre nós. Milhares de nós morreram desta forma, como os veículos militares indo e voltando sobre nossos corpos feridos. Lembrem-se de nós.”

A performance de Jamais Morreremos em Washington, DC, em 12 de abril foi vista por 300 congressistas, seis juízes da Suprema Corte e pela Primeira Dama, Eleanore Roosevelt. Para motivar os membros importantes da audiência, Hecht acrescentou apelos específicos ao longo do show.

“Lembrem-se de nós que fomos colocados em vagões de carga que deixaram a França e Holanda e Bélgica e que rodaram por toda a Europa... em pé,” entoaram atores vestidos com farrapos. “Morremos nos vagões de carga em pé… Lembrem-se de nós.”

Muitos americanos leram sobre o genocídio pela primeira vez quando Eleanore Roosevelt dedicou parte de sua coluna jornalística à produção: “Ninguém que ouviu cada grupo se apresentar e dar a história do que tinha acontecido com ele nas mãos dos militares alemães implacáveis, jamais esquecerá as terríveis palavras: Lembre-se de nós,” ecreveu a Primeira Dama.

A performance em Los Angeles em 21 de julho no Hollywood Bowl foi transmitida nacionalmente pela NBC, mas também marcou um fim rancoroso ao espetáculo após quatro meses de apresentações.

Bérgson e Hecht reuniram os líderes de 32 organizações nacionais judaicas em Nova York para pedir-lhes a sua aprovação do espetáculo. Suspeitando do agressivo Grupo Sionista Bérgson e ansiosos com seus próprios projetos, os líderes recusaram agregar o nome de suas organizações à produção.

“Gritaria em inglês e em Iídiche tomou conta do recinto,” escreveu Hecht em sua autobiografia sobre o encontro malfadado. “Em cinco minutos, um bate-boca, gélido como um feudo de Kentucky, estava em sua plenitude. O espetáculo de judeus comicamente se ridicularizando na pior hora de sua história me deixou enojado.”

Jamais Morreremos também enfrentou oposição dos líderes judeus locais, que se preocuparam com o fato de que isto incitaria o anti-semitismo e dominaria as agendas comunitárias. O Congresso Judaico Americano fez campanha pelo banimento da produção nas cidades afiliadas, enviando cartas censurando o comitê por causa do Exército judeu e sua promoção.

“Devo pedir-lhe que cancele esta divulgação e interrompa todas as suas atividades futuras em nome dos judeus,” escreveu o rabino Stephen Wise, o mais influente de Nova York, para Hecht. “Se o senhor desejar trabalhar pela causa judaica daqui por diante, peço-lhe que me consulte e deixe-me aconselhá-lo.”

Nem todas as vozes proeminentes foram contra Jamais Morreremos. A Representação Judaica da Filadélfia saudou o alerta da produção.

Jamais Morreremos demonstrou a todos a importância de se atingir a consciência dos cristãos assim como a dos próprios judeus, a psicologia popular deve ser compreendida e utilizada,” afirmou o editorial da Representação. “As antigas organizações confiáveis, com a naftalina de sua crendice, faria melhor se estimulasse o exemplo realizado.”

Enquanto a produção percorria o país, esforços políticos para aliviar o sofrimento da judiaria européia falharam. Os países se recusaram em aceitar refugiados judeus na Conferência das Bermudas e a Grã-Bretanha nem mesmo discutiria deixar os judeus emigrarem para a Palestina.

Apesar de sua pouca duração, Jamais Morreremos ajudou a criar uma atmosfera “panela de pressão”, conduzindo à criação pelo presidente Roosevelt do Escritório de Refugiados de Guerra em janeiro de 1944. Durante quinze meses de operação, o Escritório seguiu passos concretos para diminuir o ritmo do genocídio, salvando cerca de 200.000 judeus.

Jamais Morreremos foi visto por 100.000 pessoas, e por muitos milhões sintonizados nas transmissões da NBC. Hecht nunca ficou satisfeito com seu projeto ou com os resultados, chamando-os de inconseqüentes.

“As apresentações não resultaram em nada,” Hecht disse a Weill. “Na verdade, tudo o que fizemos foi fazer um monte de judeus chorar, o que não é um feito surpreendente.”

http://www.timesofisrael.com/the-first-time-hollywood-exposed-the-holocaust/

quarta-feira, 13 de março de 2013

[SGM] Hollywood vai à Guerra

Resenha do livro HOLLYWOOD GOES TO WAR: HOW POLITICS, PROFITS AND PROPAGANDA SHAPED WORLD WAR II MOVIES, de Clayton R. Koppes e Gregory D. Black (1987).



Propaganda pode ser definida como a tentativa de manipular a opinião pública com o objetivo de ajudar ou prejudicar uma causa, indivíduo ou grupo particular. O propagandista procura controlar ao invés de informar.

Hollywood vai à Guerra (em tradução livre) é a biografia de uma agência federal governamental, o Escritório de Informação de Guerra (OWI, Office of War Information, 1942-45). O OWI – não confundir com o OSS, OGR, OCD ou qualquer outra agência com iniciais parecidas – foi uma criação da administração Roosevelt cujo propósito era controlar a mensagem contida nos filmes americanos durante a guerra. Em outras palavras, era uma agência de propaganda que, como os autores Koppes e Black explicam no prefácio, emitia manuais para os estúdios, comparecia às reuniões de roteiristas, revia os roteiros, pressionava os estúdios para mudar os textos, chegando a editar os filmes e, em alguns casos, reescrever o diálogo das falas principais. A Segunda Guerra Mundial era vista como uma “guerra total” e controlar o conteúdo dos filmes (empregando o que eles chamavam de “estratégia da verdade”) era visto como uma necessidade.

O conteúdo dos filmes tornou-se orgulhosamente internacionalista e anti-isolacionista muito antes de Pearl Harbor. Em 1938, o estúdio United Artists produziu Blockade, um relato pró-republicano da Guerra Civil espanhola estrelando Henry Fonda. Organizações católicas protestaram contra a exibição deste tipo de filme haja vista o recorde de atrocidades cometidas pelos exércitos republicanos pró-comunistas contra padres e freiras. Joseph Breen, o jornalista católico conservador e chefe da Administração do Código de Produção (criado em 1934 pela Associação Cinematográfica da América), acusou Hollywood e, em particular, a Liga Anti-Nazista de Hollywood de uma tentativa de “utilizar o cinema americano para fins de propaganda comunista.” Breen era conhecido por seu anti-semitismo e afirmou que a Liga era “conduzida e financiada quase inteiramente por judeus.”

De fato, como Koppes e Black explicam, “Os homens que orientaram a indústria em sua transição para o grande negócio eram, em sua maioria, proprietários judeus de salas de cinema, que eram adequados para esta tarefa. O autor e roteirista Ben Hecht certa vez observou que Hollywood constituía “um Renascimento Semita sem rabinos e Talmude.”

Os mais conhecidos entre estes judeus de Hollywood eram Carl Laemmle, que fundou os estúdios da Universal, Adolph Zukor, o criador da Paramount Pictures, William Fox, o idealizador da 20th Century-Fox, Harry, Sam, Albert e Jack, os irmãos criadores da Warner Brothers, Marcus Loew, da rede de cinemas Loews, Harry Cohn, presidente da Columbia Pictures e Louis B. Mayer, chefe do maior dos estúdios, a Metro-Goldwyn-Mayer. A maioria dos judeus europeus orientais que conseguiram sucesso no negócio na virada do século nos Estados Unidos, veio do ramo da moda. Entretanto, um punhado destes emigrantes empreendedores criou o universo americano a partir de um mundo de ilusão e fantasia. Eles mais tarde acabariam sendo conhecidos como “Os Magnatas de Hollywood”.

“Dentro dos estúdios e nas telas,” escreve Neal Gabler, autor de An Empire of Their Own: How the Jews Invented Hollywood (1989), “os judeus podiam simplesmente criar um novo país – um império próprio, por assim dizer – onde eles não seriam apenas admitidos, mas também o governariam. Eles criariam seu império segundo a imagem da América, assim como criariam sua própria imagem como americanos bem sucedidos. Eles estabeleceriam seus valores e mitos, suas tradições e arquétipos. De fato, estes homens criaram a América e os valores americanos. “Os valores americanos vieram a ser definidos grandemente pelos filmes que os judeus faziam, criando sua América ideal nas telas, de modo que eles reinventaram o país na imagem de sua ficção,” diz Gabler. Curiosamente, a América forte, saudável, honrada e incorruptível em seus filmes não apresentava traços judaicos. Atores de ascendência judaica, por exemplo, mudavam seus nomes para esconder a natureza étnica. Por outro lado, o sistema de estúdios foi aperfeiçoado por uma segunda geração de judeus e mesmo hoje, em uma Hollywood profundamente alterada pela chegada da televisão, a indústria por trás das câmeras, de sua liderança executiva até o pessoal envolvido com produção, divulgação, seleção de talentos, administradores e advogados, ainda é preponderantemente judaica, apesar da diminuição do senso de comunidade que existia no período pré-Segunda Guerra Mundial.

O início da “Era de Ouro”, também conhecida como a “Era dos Estúdios”, começou em 1927, com a produção do filme The Jazz Singer, o primeiro filme a ter som sincronizado. Em 1929, a indústria cinematográfica estabeleceu sua própria premiação para os melhores filmes e profissionais, Os Prêmios da Academia, conhecidos mais tarde como “Festa do Oscar”. O sucesso de Hollywood durante a Era de Ouro foi construído sobre o sistema de estúdios, que começou ainda na Era Muda, mas realmente emplacou nesta época. O sistema de estúdios era um modelo de integração vertical – os “Cinco Grandes” (MGM, Paramount, Warner Bros., RKO e Fox) tinham controle absoluto nas suas próprias redes de salas de cinema, garantindo a distribuição dos filmes, enquanto os “Três Pequenos” (Universal, Columbia e United Artists) dependiam de salas independentes para exibir seus filmes.

No final dos anos 1930, o sistema de estúdios dominava os mercados doméstico e internacional. Em 1940, as principais companhias cinematográficas refinaram o sistema de produção de acordo com as condições do mercado e com a estrutura verticalmente integrada da indústria. O sistema era essencialmente um esquema de produção em série onde os lucros da distribuição e exibição permitiam que os estúdios trabalhassem com capacidade máxima. Este sistema permitia que as companhias entregassem um filme por semana junto a séries, curta-metragens, documentários e assim por diante. O principal produto de Hollywood era, sem dúvida, o longa-metragem, que em 1940 contava com um orçamento de 90% dos U$ 150 milhões investidos na produção.

Como os autores Koppes e Black nos dizem: “Eles (os estúdios) controlavam todo o processo, desde o recrutamento de atores até a exibição. Os Oito Grandes abocanhavam 95% dos lucros com a indústria cinematográfica dentro dos EUA no final dos anos 1930. Seu controle sobre as redes de salas de cinema, particularmente as urbanas que determinavam o futuro dos filmes, era crítico.”

Em 1939, a Warner Bros. estreou Confissões de um Espião Nazista, cuja mensagem era que a Alemanha desejava conquistar o mundo. “Usando técnicas de documentários e longos períodos de narração, o filme identificou a Liga Teuto-Americana como um braço do governo alemão, cujo propósito era destruir a Constituição americana e o Código de Leis.” Fritz Kuhn, líder da Liga, respondeu a essa campanha difamatória com um processo de U$ 5.000.000. Após Kuhn ser, por sua vez, indiciado e considerado culpado por roubar fundos da Liga, o processo foi retirado. Estas acusações contra Kuhn foram politicamente motivadas, haja vista o apoio da Liga a ele mesmo após este episódio.

Também realizado em 1939 foi Bestas de Berlim, aproveitando o enredo do infame filme de 1917, Kaiser, a Besta de Berlim, que provocou manifestações anti-alemãs em muitas cidades americanas durante a Primeira Guerra Mundial.

Os anos de 1940 e 1941 viram o surgimento de filmes pró-guerra como a paródia de Hitler e Mussolini em O Grande Ditador, de Charles Chaplin, assim como Caçada Humana, dirigida pelo emigrante alemão Fritz Lang, Tempestade Mortal, Um Ianque na RAF, Sargento York, Casei com um Nazista e uma variedade de outros filmes. Estes filmes eram parte integral da vigorosa campanha de vários interessados em colocar os Estados Unidos na guerra contra a Alemanha.

Ligações íntimas entre Hollywood e a administração Roosevelt são indicadas pelo seguinte trecho do livro de Koppes e Black:

“Em agosto (1940), FDR pediu a Nicholas Schenck, presidente da Loew (pai da MGM) para fazer um filme sobre defesa e política externa. Em meados de outubro, Olhos da Marinha, um filme que o executivo prometeu ao presidente resultaria em milhares de votos, estreou nos cinemas. O interesse de Schenck pode ter sido pessoal assim como patriótico. Seu irmão Joseph, chefe da 20th Century-Fox, foi acusado de evasão de impostos. O presidente Roosevelt pediu ao Promotor Público Robert Jackson (que mais tarde iria presidir o julgamento dos líderes nazistas em Nuremberg) para apenas multar o chefe do estúdio, e assim fez o filho de Roosevelt, James, para quem Joseph havia emprestado U$ 50.000. Mas o correto Jackson insistiu na sentença de prisão. Schenck ficou quatro meses na prisão até receber condicional.”

Em setembro de 1941, um subcomitê do Comitê de Comércio Exterior começou a audiência pública sobre “propaganda de guerra disseminada pela indústria cinematográfica e do monopólio na produção, distribuição ou exibição de filmes.” Esta investigação foi idealizada pelo senador isolacionista de Dakota do Norte, Gerald P. Nye. O chefe de conselho para Hollywood era Wendel Willkie, internacionalista e candidato presidencial republicano em 1940. Este último esforço dos isolacionistas chegou tarde demais e foi muito tímido. O ataque japonês a Pearl Harbor três meses depois encerrou as audiências.

Uma vez que os Estados Unidos estavam em guerra com a Alemanha (que havia declarado guerra aos EUA imediatamente após Pearl Harbor), os estúdios produziram filmes anti-nazistas um após o outro. As platéias de hoje são capazes de rir de tais “clássicos” feitos na época, como Blitzkrieg Rústica, Mulheres em Cativeiro, O Diabo com Hitler, Escapei da Gestapo, As Crianças de Hitler, A Moléstia Nazista, A Estranha Morte de Adolf Hitler, Inimigo das Mulheres, Os Loucos de Hitler, A Raça Superior, A Gangue de Hitler, Hotel Berlim e Tarzan Triunfa. (N. do T.: é engraçado como mesmo após 70 anos do fim da Guerra, produções desta natureza ainda continuem sendo feitas, alguns casos recentes são Bastardos Inglórios, Lago dos Zumbis e Outpost, ambos retratando soldados zumbis da SS, e Iron Sky.) Koppes e Black resumem a estória de Tarzan Triunfa:

“Agentes nazistas descem de pára-quedas no reino pacífico de Tarzan e ocupam uma fortaleza, esperando explorar petróleo e estanho. Johnny Weissmuller, ingênuo, porém capaz de comandar os selvagens nobres, reúne os nativos (curiosamente todos brancos) contra o Eixo. ‘Matem os nazistas!’ ordena Tarzan aos nativos. Eles balançam a cabeça positivamente. Os alemães são tão detestáveis que até mesmo os animais se voltam contra eles. Tarzan persegue o líder das tropas nazistas na floresta e, quando o oficial alemão em estado desespero chama Berlim pelo rádio, Tarzan o mata. Em Berlim, o operador de rádio reconhece o pedido de socorro e avisa o general responsável pela campanha africana. Enquanto Tarzan, o Rei da Floresta, olha dando gargalhadas, o chipanzé Cheetah tagarela no transmissor. Ignorante da batalha nas profundezas da floresta, o general ouve o chipanzé no rádio, bate os pés, faz a saudação nazista e avisa seus subordinados que eles estão ouvindo não a África, mas o próprio Führer.”

Os papéis de nazistas sádicos, pervertidos e malucos nestes filmes eram feitos por “malvados” típicos de Hollywood, como George Siegman, Erich Von Stroheim, Walter Long e Hobart Bosworth. O ator Bobby Watson manteve-se ocupado nestes anos interpretando Adolf Hitler. Entretanto, Hollywood produziu alguns filmes de qualidade entre os 2400 realizados entre 1939 e 1945, por exemplo, Casablanca (Warner Bros, 1943), The Story of G.I. Joe (United Artists, 1945) e Lifeboat (Fox, 1944). Contudo, os melhores filmes apareceram após a guerra terminar.

Os japoneses não tiveram destino melhor nas mãos dos fabricantes de sonhos de Hollywood. Em Pequena Tóquio, EUA (Fox, 1942), todos os descendentes de japoneses são retratados como leais ao Imperador e capazes de sabotagem e traição. Este filme defendia vigorosamente o internamento de todos os americanos de ascendência japonesa. No final do filme, quando “um policial verdadeiramente americano de Los Angeles”, chamado Mike Steele, após desbaratar a rede de espiões japoneses, realiza o sonho de todo americano sedento por vingança, nocauteia o vilão japonês proclamando “Isto é por Pearl Harbor, olhos puxados!”

O militarismo sanguinário japonês foi retratado em The Purple Heart, Diário de Guadalcanal, Wake Island, Ameaça do Sol Nascente, Relembrando Pearl Harbor, Perigo no Pacífico e outros. Koppes e Black nos lembra que “Era raro um filme que não empregasse termos pejorativos como ‘japas’, ‘bestas’, ‘macacos amarelos’, ‘retalhos’ ou ‘ratos de olhos puxados’. Os soldados japoneses eram frequentemente mostrados estuprando mulheres brancas, em geral loiras ‘turbinadas’. Outra imagem freqüente era a do piloto de caça japonês sendo metralhado em sua cabina, com o sangue jorrando pelo vidro e gritando em agonia enquanto seu avião mergulha no oceano.

O auge do absurdo na escalação de elenco aparece em Semente do Dragão (MGM, 1944) no qual brancos altamente maquiados, incluindo a loira Katherine Hepburn, interpretam chineses, enquanto chineses verdadeiros interpretam japoneses.

Em 1943, a Warner Bros estreou Missão em Moscou, baseado em um livro homônimo de Joseph E. Davies, embaixador americano na União Soviética entre 1936 e 1938. Os autores de Hollywood vai à Guerra classificam esse filme como “o mais notável exemplo de propaganda sob o disfarce de entretenimento já produzido m Hollywood.” Missão em Moscou copia o estilo documentário a carreira de Davies como embaixador e os eventos ocorridos na União Soviética e no mundo de meados dos anos 1930 até 1941.

A administração Roosevelt estava intimamente envolvida na produção do filme, o qual representava o presidente como grande internacionalista e anti-fascista. Davies tinha poder sobre a aprovação do roteiro e foi o grande responsável pelo encobrimento dos crimes de Stalin em Missão em Moscou. Davies insistia que a invasão soviética da Finlândia deveria ser retratada como um “convite” da Finlândia aos soviéticos para ocupar posições estratégicas contra a Alemanha. Analogamente, outros crimes soviéticos dos anos 1930 são ignorados: a invasão da parte oriental da Polônia em 1939, a agressão contra os países bálticos e a coletivização forçada dos kulaks (camponeses) na Ucrânia, que resultou na morte pela fome de milhões de pessoas. O filme apresentou os julgamentos de expurgo em Moscou como o resultado das tentativas de Trotsky, Bukharin, Krestinsky e outros “Velhos Camaradas” de entregar a União Soviética para a Alemanha e Japão. Missão em Moscou usou técnicas de documentário para agregar realidade, descrevendo os isolacionistas americanos como um complô secreto para submeter a vontade do povo à “segurança coletiva”. A União Soviética era descrita como uma terra rica em contraste com a Alemanha nazista, que carecia de comida e outros bens. O público foi levado a crer que a União Soviética era uma “democracia” e o povo russo era “parecido com os americanos.”

A maioria dos grandes estúdios produziu filmes pró-soviéticos nos últimos anos da guerra, incluindo Canção da Rússia (MGM, 1943), Três Garotas Russas (United Artists, 1943), Estrela Polar (MGM, 1943), O Garoto de Stalingrado (Columbia, 1943), Dias de Glória (RKO, 1944) e Contra-ataque (Columbia, 1945).

Sem dúvida, os estúdios de Hollywood queriam contribuir com o esforço de guerra e derrotar o Eixo, embora simultaneamente os magnatas do cinema não quisessem ser aconselhados a administrar suas corporações monopolistas. Mais importante para estes executivos de estúdios eram os lucros. No início e meados dos anos 1930, os estúdios mudaram o conteúdo dos filmes para permitir-lhes serem exibidos nos mercados lucrativos crescentes da Alemanha, Itália, Espanha e América Latina. Cerca de 5.000 salas de cinema na América Latina exibiram filmes americanos, 6.000 salas na Ásia e incríveis 35.000 salas na Europa.

Hollywood vai à Guerra fornece um quadro claro do que acontece quando uma indústria poderosa e o governo tentam controlar a opinião púbica. Como expresso na Conclusão:

“Hollywood sempre afirmou que somente dava ao público o que ele queria, e citou a popularidade dos filmes como prova. Mas, desde que o cartel controlava o poder de escolha, Hollywood estava apenas dizendo que o povo comprava o que lhe era dado.”

Fontes:

http://encyclopedia.jrank.org/articles/pages/2910/The-Hollywood-Studio-System-in-1940-1941.html

http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/GoldenAgeOfHollywood

http://www.ihr.org/jhr/v08/v08p104_Wikoff.html

http://www.freerepublic.com/focus/f-news/1083144/posts

domingo, 10 de março de 2013

O Oscar cria a Lenda: O Prêmio de Argo e a Falha da Verdade

Nima Shirazi, 23/02/2013

 
Sinopse e detalhes

1979. O Irã está em ebulição, com a chegada ao poder do aiatolá Khomeini. Como o antigo xá ganhou asilo político nos Estados Unidos, que haviam apoiado seu governo de opressão ao povo iraniano, há nas ruas de Teerã diversos protestos contra os americanos. Um deles acontece em frente à embaixada do país, que acaba invadida. Seis diplomatas americanos conseguem escapar do local pouco antes da invasão, indo se refugiar na casa do embaixador canadense. Lá eles vivem durante meses, sob sigilo absoluto, enquanto a CIA busca um meio de retirá-los do país em segurança. A melhor opção é apresentada por Tony Mendez (Ben Affleck), um especialista em exfiltrações, que sugere que uma produção de Hollywood seja utilizada como fachada para a operação. Aproveitando o sucesso de filmes como "Guerra nas Estrelas" e "A Batalha do Planeta dos Macacos", a ideia é criar um filme falso, a ficção científica Argo, que usaria as paisagens desérticas do Irã como locação. O projeto segue adiante com a ajuda do produtor Lester Siegel (Alan Arkin) e do maquiador John Chambers (John Goodman), que conhecem Ben como funciona Hollywood.


 

 
Um ano atrás, após seu belo drama iraniano, “Uma Separação”, ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o diretor/escritor Asghar Farhadi fez o melhor discurso de agradecimento da noite.

“Em uma época quando boatos de guerra, intimidação e agressão são trocados entre os políticos,” disse ele, o Irã finalmente foi agraciado por “sua cultura gloriosa, uma cultura rica e antiga que esteve escondida sob a poeira densa da política.” Farhadi dedicou o Oscar “às pessoas de meu país, um povo que respeita todas as culturas e civilizações e despreza a hostilidade e o ressentimento.”

Tal graça e eloquência não estiveram certamente presentes neste domingo, quando Ben Affleck, ladeado pelos seus co-produtores George Clooney e Grant Heslov, durante a entrega do Oscar de Melhor Filme, por sua homenagem altamente aclamada e decorada à CIA e à inocência americana, “Argo.”

Nos últimos doze meses, raramente passou uma semana sem que se proclamassem novas previsões de uma iminente arma nuclear iraniana e as ameaças constantes de um ataque militar americano ou israelense contra o Irã. Vem outubro de 2012, com o desafiador “Argo”, uma “estória real” descontextualizada, fictícia de proporções épicas, sujeitando as plateias a duas horas de vitimização americana e bárbaros barbudos, culminando em rolhas de champanhe estourando e bandeiras tremulando celebrando nosso heroísmo e triunfo e a frustração e derrota deles. Andrew O´Hehir, da revista Salon, corretamente descreveu o filme como “uma fábula propagandística”, explicando como muitos outros fizeram que essencialmente nenhum dos momentos marcantes do filme jamais ocorreu. O´Hehir sumariza desta forma:

“Os americanos nunca resistiram à ideia de ter uma equipe de filmagem, que é uma grande fonte de agitação no filme. (De fato, os próprios “convidados” escolheram a estória, de três opções oferecidas pela CIA.) Os americanos  não foram quase linchados por uma multidão de iranianos enlouquecidos no Grande Bazar de Teerã, porque eles não estavam lá. Não houve um cancelamento de último minuto, e então uma nova aprovação, dos bilhetes de passagem do grupo pela administração Carter. (A esposa do embaixador canadense Ken Taylor foi pessoalmente ao aeroporto e comprou os bilhetes de forma adiantada, para três voos longos.) O grupo não foi submetido a interrogação no aeroporto nem foram detidos no portão de embarque enquanto um membro da Guarda Revolucionária do Irã ligava para seu falso escritório em Burbank. Não houve uma fuga de último segundo no Aeroporto de Mehrabad, com militantes islâmicos barbudos atirando com seus Kalashnikovs contra os pneus de um avião comercial suíço.”

Um dos diplomatas presentes, Mark Lijek, notou que “a estória do filme falso da CIA nunca foi testado e, em certo sentido, era irrelevante para a fuga.” A partida dos seis americanos de Teerã foi, na verdade, comum e monótona. “Se fosse perguntado, diríamos que teríamos deixado Teerã quando fosse mais seguro,” relembrou Lijek, “mas ninguém jamais perguntou!... A verdade é que os funcionários da imigração raramente olharam para nós e seguimos o caminho burocrático normal. Pegamos o voo para Zurique e então fomos levados para a residência do embaixador em Berna. Foi desta forma.”

Além disso, Jimmy Carter reconheceu que “90% das contribuições para as ideias e realização do plano foram canadenses, enquanto que o filme dá crédito quase total à CIA... o personagem de Ben Affleck no filme esteve em Teerã somente um dia e meio e o herói verdadeiro, em minha opinião, foi Ken Taylor, que era o embaixador canadense que orquestrou o processo inteiro.”

O próprio Taylor recentemente lembrou que “Argo” fornece uma representação míope tanto dos iranianos quanto de sua revolução, ignorando seu “lado mais hospitaleiro e uma intenção de que eles estavam procurando por um certo grau de justiça e esperança e que tudo não foi apenas demonstração de violência gratuita. A coisa mais estranha é que o roteirista em Hollywood não tinha ideia do que ele estava falando.”

O´Hehir trabalha de forma perfeita com o verdadeiro crime do filme, sua exploração deliberada de “sua base histórica e seu modo de realismo detalhado para criar algo que é inteiramente fantasioso.” Não se trata apenas de uma coleção banal de cenas de ação conhecidas e diálogo expositivo,” mas “é também um filme de propaganda em seu sentido mais real, um que afirma ser inocente de toda ideologia.” Tal avaliação é confirmada pelos próprios comentários de Ben Affleck sobre o filme. Ao descrever “Argo” para Bill O´Reilly, Affleck jactou-se, “Você sabe, era uma grande estória. Resumindo, é um thriller. É na verdade uma comédia com a sátira de Hollywood. É um filme complicado sobre a CIA, um filme político. E tudo é verdade.” Ele disse à Rolling Stone que quando concebeu sua versão como diretor, ele sabia que “não tinha que manter absolutamente a integridade central e verdade da estória.”

“Não existe problema em embelezar, está tudo Ben em comprimir, desde que você não mude fundamentalmente a natureza da estória e do que aconteceu,” lembrou Affleck, indo mesmo longe ao dizer aos repórteres na estreia de Argo no Festival de Filme da BFI em Londres, “este filme é a respeito desta estória que aconteceu, e é verdade, e sofri ao contextualizá-lo e tentei ser imparcial de modo a ver os fatos de forma fria e realista.”

Em uma entrevista para o The Huffington Post, Affleck foi mais longe dizendo “Tentei fazer um filme que é absolutamente fatual. E esta é outra razão por que tentei ser tão verdadeiro quanto possível – porque não queria ser usado por qualquer um dos lados. Não queria ser politizado internacionalmente e domesticamente de uma maneira partisan. Queria apenas contar uma estória sobre os fatos como os compreendemos.”          

Para Affleck, estes fatos aparentemente não incluem compreender por que a Embaixada Americana em Teerã foi invadida e ocupada em 4 de novembro de 1979. “Não havia harmonia nem razão para esta ação,” insistiu Affleck, afirmando que o assalto “não era sobre nós,” isto é, o governo americano (apesar do fato de seu próprio filme ser introduzido por uma revisão transitória – apesar de frequentemente inexata – sobre a cumplicidade americana com a ditadura do Xá.)

Errado, Ben. Uma razão foi o medo de outro golpe de estado orquestrado pela CIA, como aquele perpetrado em 1953 a partir da mesma embaixada. Outra razão foi a admissão do Xá deposto nos EUA para tratamento médico e asilo ao invés de sua extradição ao Irã para enfrentar a acusação e julgamento por seus 25 anos de crimes contra o povo iraniano, financiados e apoiados pelo governo americano. Podemos não concordar com as razões, é claro, mas elas certamente existem.

Assim como George H. W. Bush uma vez disse após um navio de guerra da Marinha americana explodir um avião de passageiros no céu sobre o Golfo Pérsico, matando seus 290 civis iranianos, “Jamais me desculparei pelos EUA. Jamais. Não me importo o que os fatos sejam.” Affleck parece estar inclinado a concordar.

Se nada mais, “Argo” é um exercício no excepcionalismo americano – talvez a mais perigosa ficção que permeia nossa sociedade inteira e senso de identidade. (N. do T.: O “excepcionalismo Americano” é uma ideia que defende os EUA como o “Império da Liberdade” e que presume que os valores, o sistema político e a história americanas são únicos e merecedores de admiração universal. Eles também implicam que os Estados Unidos está destinado e designado a ter um papel distinto e positivo no cenário mundial.) Ele reinventa a história no sentido de criar um conto de triunfo a partir de uma derrota não aceita. A crise dos reféns, que durou 444 dias e destruiu uma presidência americana, foi um fracasso e embaraço para os americanos. O governo e mídia dos EUA passaram as últimas três décadas procurando incansavelmente uma vingança contra o Irã pelo que aconteceu.

“Argo” representa os iranianos revolucionários como vítimas azaradas da astúcia e logro americanos. Americanos são caçados, torturados e, no final, demonstram coragem e conseguem a liberdade. Os iranianos são maníacos, ameaçadores e, no final, tornam-se infantis e são enganados. Os fundamentalistas fanáticos falham enquanto a América vence. EUA 1 x 0 Irã. Além disso, “Argo” esconde a verdade inconveniente que, enquanto aqueles seis diplomatas estavam embarcando para a Suíça em 28 de janeiro de 1980, seus 52 compatriotas tiveram que esperar um ano inteiro antes de voltar para casa, não como resultado de uma tentativa audaciosa de resgate, mas após um acordo diplomático ter sido alcançado.

Refletir sobre os episódios mais problemáticos da história americana é uma tradição dinâmica periódica. Há uma razão por que os melhores filmes sobre o Vietnã serem recheados de dor, ódio, angústia e crimes de guerra. Em contraste, “Argo” é uma catarse pornográfica americana; pura insolência hollywoodiana. É propaganda pró-americana desprovida de introspecção, pathos ou humildade e destina-se a aliviar nossos sentimentos feridos. Em “Argo”, nenhuma lição é aprendida ao revisitar as consequências do apoio americano da monarquia Pahlavi ou da criação e treinamento da SAVAK, a brutal polícia secreta do Xá.

Em 11 de junho de 1979, meses antes da crise dos reféns começar, o New York Times publicou um artigo pelo historiador A. J. Langguth que fez revelações de um antigo funcionário da inteligência americana lembrando a relação íntima da CIA com a SAVAK. A agência enviou “um membro para ensinar métodos de interrogação para a SAVAK” incluindo “instruções sobre tortura, cujas técnicas foram copiadas dos nazistas.” Langguth lutou contra a imprensa, tentando entender por que isto não havia sido amplamente divulgado pela mídia. Ele chegou à seguinte conclusão:

“Nós – e quero dizer nós como americanos – não acreditamos. Podemos ler as acusações, mesmo examinar as evidências e considerá-las irrefutáveis. Mas, em nossos corações, não acreditamos que os americanos tenham difundido o uso da tortura em outros lugares.”

Podemos acreditar que funcionários públicos com reputação de brilhantismo podem ser arrogantes, cegos ou estúpidos. Qualquer coisa menos mau. E quando provas acumulativas tornam-se evidentes que representantes da CIA ou da Agência para Desenvolvimento Internacional ensinaram de fato práticas de tortura, nós nos desculpamos vilificando os indivíduos.

Analogamente, numa época quando a CIA está bancando um programa de execução por drones ilegal, imoral e não-regulado, os sequestradores e torturadores da CIA da administração anterior são protegidos de processo judicial pela atual administração, e documentos do departamento de Estado vazados revelam ordens para diplomatas americanos espionarem funcionários das Nações Unidas, é surreal que tal homenagem seja feita à mesma organização pelos tais liberais da elite de Hollywood.

Ao ganhar seu Golden Globe de Melhor Diretor mês passado, Ben Affleck servilmente agradeceu ao “serviço clandestino assim como o serviço estrangeiro que está fazendo sacrifícios em nome do povo americano diariamente (e) nossas tropas servindo no estrangeiro, quero agradecê-los muito,” uma afirmação repetida quase identicamente pelo co-produtor Grant Heslov quando “Argo” ganhou mais tarde o prêmio de Melhor Drama.    

Isto não é surpresa, considerando que Affleck havia previamente descrito “Argo” como um tributo “às pessoas extraordinárias e honradas na CIA” durante uma entrevista ao Fox News.

A relação entre Hollywood e as forças militares e a inteligência do governo americano têm sido longamente aconchegantes. “Quando a CIA ou o Pentágono dizem, ‘Te ajudaremos, se você jogar conosco,’ está favorecendo um tipo de discurso em detrimento dos outros. Torna-se propaganda,” disse David Robb, autor de “Operação Hollywood: Como o Pentágono molda e censura os Filmes”, ao Los Angeles Times. “O perigo para os cineastas é que seu produto – entretenimento e informação – acaba se tornando publicidade governamental.”

Premiar “Argo” como Melhor Filme no Oscar foi como a premiação de Obama com o Nobel da Paz: um prêmio imerecido a um destinatário duvidoso com base em uma ficção transparente; um prêmio pelo que nunca foi e nunca seria e uma decisão deliberadamente ingênua e grotesca que desonra qualquer relevância e prestígio que os procedimentos ainda poderiam ter.

Assim, quando “Argo” recebeu a cobiçada estatueta dourada, tornou-se claro que ainda estamos cegos pela densa poeira da política e nosso mantra americano de hostilidade e ressentimento continuará a dirigir nossas decisões, conduzindo-nos cada vez mais próximo do abismo.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Os Nazistas no Tibete: A Cruzada de Himmler

Em 1935, o Reichsführer SS Heinrich Himmler fundou uma organização chamada Sociedade da Herança Ancestral (Ahnenerbe) no sentido de descobrir o passado escondido de uma raça imaginária ariana que ele e algumas lideranças nazistas acreditavam ser a mais nobre e a maior força vital na história humana. O fato de nunca ter existido tal raça – na verdade, uma categoria filológica (grupo de línguas indo-germânicas) que foi transformada em “povo” – não era impedimento para alguém que acreditava que os Arianos foram colocados no mundo após trovões divinos romperem o gelo primordial no qual eles estavam presos.

A alegação de que o Sânscrito contém a maioria das línguas modernas chamou a atenção das mentes do século XIX em relação à área geral do norte da Índia e Tibete como o lar ancestral dos míticos arianos. Assim, uma das missões científicas que Himmler apoiou foi uma expedição multitarefas ao Tibete sob a liderança do ornitólogo Ernst Schäfer. Schäfer então recrutou um antropólogo, Bruno Beger, para medir narizes e crânios e produzir formas em gesso dos rostos; um geógrafo especializado em geomagnetismo terrestre, um botânico que também transportava uma câmera de mão e um assistente.

Ernst Schäfer, nascido em 1910, interrompeu seus estudos universitários em zoologia e geologia duas vezes. Em 1930, Brooke Dolan, um jovem milionário americano, chegou à Alemanha para recrutar cientistas para uma expedição zoológica ao Tibete que ele queria realizar. Apesar de ter somente 20 anos na época, Schäfer participou da primeira expedição Dolan para a China Ocidental e o Tibete oriental, antes de retornar à Alemanha em 1932 para concluir seus estudos. Em 1934, Schäfer novamente interrompeu seus estudos para liderar a segunda expedição de Dolan, no Tibete oriental e na China, patrocinada pela Academia de Ciências Naturais na Filadélfia; esta viagem foi concluída em 1936. A Academia reconheceu o grande sucesso científico de ambas as expedições mais de 50 anos depois em seu obituário de 1992 de Schäfer, o qual menciona que este e Dolan “coletaram dados científicos e espécimes dos mamíferos e aves da região que nunca foram igualados em tamanho e importância. Em reconhecimento às suas contribuições científicas, o Dr. Schäfer foi eleito para membro vitalício da Academia (já) em 1932.” Após seu retorno à Alemanha, ele concluiu seus estudos em Berlim e em 1937, sob a orientação de Erwin Stresemann, completou seu doutorado com uma tese, de escopo incompreendido na época, sobre a vida das aves no Tibete.

Esta era a primeira expedição científica alemã a receber um convite especial para Lhasa do governo Tibetano, e seus membros seriam permitidos permanecer na capital Tibetana por dois meses inteiros. Com a política restrita do governo Tibetano nos anos 1930 de recusar a entrada de estrangeiros, o convite por si só era uma sensação menor, gerando tensões adiante nas carregadas e complexas relações anglo-germânicas da época.

O Reichsführer SS Himmler tentava tirar proveito da reputação de Ernst Schäfer para a propaganda nazista e perguntou-lhe sobre seus planos futuros. Schäfer desejava que sua expedição estivesse sob o patrocínio do departamento cultural de assuntos estrangeiros da Fundação de Pesquisa Alemã (DFG, Deutsche Forschungsgemeinschaft) como indicado por seus pedidos. Himmler era fascinado por misticismo asiático e, portanto, desejava enviar tal expedição sob os auspícios da Ahnenerbe e desejava que Schäfer realizasse pesquisa baseada na teoria pseudocientífica de Hans Hörbiger da “Cosmogonia Glacial”. Schäfer tinha objetivos científicos e, assim, ele recusou-se a incluir Edmund Kiss, um adepto desta teoria, em sua equipe, e exigiu 12 condições para trabalhar com liberdade. Wolfram Sievers, da Ahnenerbe, expressou críticas em relação aos objetivos da expedição, de modo que a organização não iria dar apoio a ela. Himmler, por outro lado, aceitou que a expedição fosse formada desde que todos os seus membros se afiliassem à SS. Para evitar mais problemas, Schäfer entrou para essa organização.

Apesar de Himmler eventualmente aceitar os objetivos de Schäfer, um memorando de setembro de 1937 torna claro que a Ahnenerbe continuaria a exercer pressão na questão do recrutamento da expedição, exigindo que um geógrafo, um antropologista, um geólogo, um botânico, representante da Teoria da Cosmogonia Glacial, e um arqueólogo fossem incluídos. Entretanto, o nome oficial seria mudado de Ahnenerbe para Expedição Alemã-Tibetana Ernst Schäfer, sob o patrocínio do Reichsführer SS Himmler e em conexão com a Ahnenerbe.

Em dezembro de 1937, Schäfer submeteu um plano detalhado e definitivo à DFG, no qual ele ainda defendia que o destino da expedição seria o Tibete Oriental, com acesso a partir da China. Isto também incluía um programa antropológico realizado pelo antropólogo Bruno Berger, cujo programa era baseado em torno da questão se os indo-europeus poderiam ser originários da Ásia Central, uma ideia que era debatida há longo tempo além dos círculos nacional-socialistas. De fato, discussão internacional e interdisciplinar sobre este assunto continua até hoje.

O escritor britânico Christopher Hale afirma que ninguém pode inferir que Schäfer era independente da SS e foi capaz de fazer “ciência pura” simplesmente a partir de um papel timbrado que ele conseguiu para a expedição: para todos os efeitos e objetivos, a expedição permaneceu sob o patrocínio de Himmler e Schäfer não tinha nenhum interesse em perder o apoio do Reichsführer.
 
 

 De acordo com Hale, como Schäfer exigia mais de 60.000 Reichsmark para sua expedição e os cofres da SS estavam secos na época, ele foi obrigado a levantar fundos sozinho. De acordo com o pesquisador Irrun Engelhardt, a expedição não foi financiada pela Ahnenerbe. Schäfer levantou fundos onde 80% vieram do Conselho de Propaganda e Relações Públicas da Indústria, assim como de grandes empresas alemãs, da DFG e do milionário Dolan. O custo de equipagem da expedição foi RM 65.000 e a própria expedição custou outros RM 65.000, exceto o voo de volta, que foi financiado pela SS.

Em outras palavras, nem Himmler nem a Ahnenerbe financiaram diretamente a expedição, apesar de Schäfer continuar a receber apoio político de ambos. Ele estava bem ciente de sua dependência em relação a Himmler e foi forçado a aceitar vários compromissos no sentido de manter mais tarde a cooperação dos britânicos para obter passaportes e, especialmente, em procurar moeda estrangeira, o maior problema que enfrentou na época. Schäfer teve mesmo que se comprometer com o nome e o papel timbrado da expedição. Após sua chegada à Índia, este timbre causou consideráveis dificuldades a Schäfer com as autoridades britânicas, já que nos documentos poderia ficar claro que a missão era da SS, um órgão político e militar da Alemanha e não uma expedição puramente científica.

Schäfer recrutou jovens de boa forma física que estariam adaptados a uma viagem cansativa. Aos 24 anos, Karl Weinert (um assistente de Wilhelm Filchner, um famoso explorador) era o geólogo da equipe. Também com 24 anos, Edmund Geer foi selecionado como líder técnico para organizar a expedição. Um membro relativamente velho, de 38 anos, era Ernst Krause (não confundi-lo com o biólogo alemão homônimo) era o cineasta e entomologista (especialista em insetos). Bruno Berger era um especialista racial de 26 anos e estudante de Hans F. K. Günther, sendo também o antropólogo da equipe. O grupo de cinco pesquisadores pretendia entrar em contato com o Regente do Tibete e visitar as cidades sagradas Lhasa e Shigatse. Mesmo com as dificuldades da guerra, o grupo teve sucesso em estabelecer contato com as autoridades e povo tibetanos.

Os alemães coletaram tudo o que encontraram: milhares de artefatos, um grande número de plantas e animais, incluindo espécimes vivos. Eles enviaram os seres vivos, incluindo cães, felinos, lobos, raposas e peles de animais para a Alemanha. Os membros da expedição colheram uma grande quantidade de plantas, em particular centenas de variedades de cevada, trigo e aveia. As sementes foram mais tarde armazenadas no Instituto de Genética Vegetal da SS em Lannach, próximo a Graz, Áustria, um centro de pesquisas comandado pelo botânico membro da SS Heinz Brücker. Este esperava usar tanto a coleção do Tibete quanto a do Instituto Vaviley nos territórios orientais para selecionar plantas capazes de suportar o clima da Europa oriental – considerado na época parte do Lebensraum nazista.

Wienert acumulou quatro conjuntos de dados geomagnéticos. Krause estudou as vespas tibetanas. Schäfer observou os rituais tibetanos, inclusive as piras funerárias (onde conseguiu alguns crânios humanos). Eles tiraram fotos e filmaram a cultura local, notavelmente as espetaculares celebrações de Ano Novo, quando milhares de peregrinos chegavam a Lhasa. Bruno Berger registrou as medidas de 376 pessoas e fez matrizes de cabeças, faces, mãos e orelhas de 17 delas, assim como tirou as digitais e das mãos de outras 350. Para conduzir esta pesquisa, ele se passou como curandeiro para ganhar a confiança dos aristocratas tibetanos, receitando remédios para monges com doenças sexualmente transmissíveis.

Schäfer manteve notas meticulosas sobre os costumes religiosos e culturais dos tibetanos, de seus vários festivais budistas coloridos e das atitudes do povo em relação ao casamento, estupro, menstruação, nascimento, homossexualidade e masturbação. Em seu relato da homossexualidade, ele descreve detalhes da relação dos velhos lamas com meninos e como esse tipo de relação tinha importância na política local. Ele também descreve cuidadosamente a variedade de posições sexuais do povo himalaio.

Schäfer apresentou os resultados de sua expedição em 25 de julho de 1939 no Clube Himalaio de Calcutá. De lá, a expedição pegou um avião da British Airways para Bagdá, onde fizeram uma escala para Atenas via um Lufthansa JU 52. Em Atenas, um avião fretado pelo governo alemão os conduziu até sua casa.

Eles retornaram à Alemanha com uma edição completa do texto sagrado tibetano Kagyur (108 volumes), exemplos de Mandala, outros textos antigos e um documento supostamente detalhando a raça ariana. Estes documentos foram guardados nos arquivos da Ahnenerbe.

Assim, a coleção mais detalhada de objetos tibetanos etnológicos, agora no Museu Bávaro de Etnologia em Munique, vieram dos materiais da expedição de Schäfer. Pelo fato dos livros de Sch6afer sobre esta expedição jamais terem sido traduzidos para o inglês, a opinião pública ocidental foi informada pelas fontes disponíveis na Biblioteca Oficial da Índia em Londres e por Hugh Richardson, que estava a cargo da Missão Britânica em Lhasa na época da expedição. Isto acabou contribuindo com o legado duvidoso no mundo ocidental, enquanto que na Alemanha ele está quase esquecido. Somente na literatura popular científica e histórias de ocultismo a expedição é citada repetidamente, estabelecendo as conexões entre o Terceiro Reich e o Tibete, ou as relações ocultistas entre Hitler e o Tibete. A maioria das publicações mais recentes também cai nesta categoria, refletindo os preconceitos ideológicos e o sensacionalismo.

Uma descrição detalhada da expedição, inclusive com fotos, pode ser visto aqui:


Fotos da Expedição
 
 

 
Ernst Schäfer
 
 
 
 
 
 
 
Fortaleza de Yumbulagang
 
 
Estátua Budista Antiga encontrada por expedição nazista foi criada por meteorito de mil anos

Associated Press, 28/09/2012

 
Berlim – Uma estátua budista antiga que uma expedição nazista trouxe do Tibete um pouco antes da Segunda Guerra Mundial foi criada a partir de um meteorito que se chocou com a Terra milhares de anos atrás.

O que parece ser um roteiro de filme de Indiana Jones realmente aconteceu, de acordo com pesquisadores europeus que publicaram um artigo no jornal de Ciência Planetária e Meteorítica este mês.

Elmar Buchner, da Universidade de Stuttgart, disse na quinta-feira que a estátua foi trazida à Alemanha pela expedição Schäfer. A aventura financiada pelos nazistas foi até o Tibete em 1938 para encontrar as origens da raça ariana – um dos fundamentos da ideologia racista nazista.

A existência da estátua de 10,6 kg, conhecida como “homem de ferro”, foi somente revelada em 2007, quando seu proprietário morreu e ela foi para leilão, Buchner disse à Associated Press.