terça-feira, 19 de março de 2013

O Iraque valeu a pena?

Patrick Buchanan, 19/03/2013



Dez anos atrás, exatamente hoje, as forças aéreas, terrestres e navais dos EUA atacaram o Iraque. E os grandes objetivos da Operação Iraque Livre?

Destruir as armas biológicas e químicas que Saddam Hussein armazenou para usar contra nós ou transferi-las para a Al-Qaida para uso dentro dos EUA.

Retribuir exatamente a cumplicidade de Saddam no 11/9 após sabermos que seus agentes se encontraram secretamente em Praga com Mohamed Atta.

Criar uma democracia florescente em Bagdá que serviria como catalisador de uma transformação milagrosa do Oriente Médio de uma terra de déspotas para uma região de democracias ao estilo ocidental.

Nem todos concordaram com a sabedoria desta guerra. O general Bill Odom, ex-diretor da Agência Nacional de Segurança, achava que George W. Bush e cia. haviam perdido a cabeça: "A Guerra do Iraque tornar-se-á o grande erro estratégico da história americana."

Mesmo assim, após poucas semanas de "choque e pavor", as forças americanas tomaram Bagdá e destronaram Saddam, que fugiu mas logo foi encontrado em um buraco e processado e enforcado, assim como seus associados, "o baralho de cartas", alguns dos quais tiveram o mesmo destino.

E assim chegou a famosa vitória. Missão cumprida!

Logo, entretanto, a América encontrar-se-ia em uma nova e imprevista guerra, e por volta de 2006, estávamos, surpreendentemente, no precipício da derrota, conduzidos para dentro de um conflito sectário sunita-xiita produzido por nossa culpa ao desmontar o exército iraquiano e conduzindo ao poder o primeiro regime xiita na história da nação.

Somente uma "turbinada" nas tropas americanas chefiada pelo general David Petraeus salvou os Estados Unidos de uma derrota estratégica semelhante à queda de Saigon.

Mas essa renovação não pôde ajudar a salvar o Partido Republicano, que patrocinou esta guerra, do repúdio de uma nação que acredita ter sido enganada e guiada à guerra. Em 2006, o partido perdeu ambas as casas do Congresso e o arquiteto da guerra do Pentágono, Donald Rumsfeld, foi demitido pelo comandante em chefe.

Dois anos depois, a desilusão com o Iraque contribuiu para a derrota do falcão republicano John McCain para um senador novo de Illinois que se opunha à guerra.

Então, o que diz a lápide agora, depois de 10 anos? Qual é o atual veredito da História sobre o que a História viria a chamar "A Guerra de Bush"?

Dos três objetivos da guerra, nenhum foi atingido. Nenhuma arma de destruição em massa foi encontrada. Saddam e seus filhos pagaram seus pecados, mas nenhum deles tinha nada a ver com o 11/9. Nada. Tudo foi propaganda enganosa.

Enquanto não havia nenhuma Al-Qaida no Iraque enquanto Saddam estava no poder, hoje ela espalhou-se pelo Iraque. Onde o Iraque era barreira árabe sunita confrontando o Irã em 2003, uma década depois o Iraque se afasta do campo sunita em direção da presença crescente do Irã e Hezbollah xiitas.

Qual o custo em sangue e riqueza de nossa malfadada aventura mesopotâmica? Quatro mil e quinhentos soldados americanos mortos, 35.000 feridos e este é o resumo dos custos de guerra segundo o Wall Street Journal:

"O esforço da década (Iraque) custou U$ 1,7 trilhões de acordo com um estudo... do Instituto Watson para Estudos Internacionais da Universidade Brown. A luta nos últimos dez anos matou 134.000 civis iraquianos... Enquanto isso, cerca de U$ 500 bilhões em benefícios não pagos aos veteranos da Guerra do Iraque poderiam aumentar para U$ 6 trilhões nos próximos 40 anos."

O Iraque teve uma grande participação na falência da América.

Quanto aos 134.000 civis iraquianos mortos, o que corresponde a 500.000 viúvas e órfãos. O que eles pensam de nós?

De acordo com a última pesquisa Gallup, de 2 para 1, os iraquianos acreditam que estarão mais seguros agora que os americanos estão deixando seu país.

Bem para trás, entretanto, está nossa outrora boa reputação. Nunca antes a América esteve em tão baixa consideração entre os povos árabes ou no mundo islâmico. Quanto à reputação dos militares americanos, quantos anos se passarão até que nossas forças armadas não estejam mais associadas automaticamente a palavras como Abu Ghraib, Guantanamo, execuções e torturas?

Quanto às comunidades cristãs caldéia e assíria do Iraque que foram devastadas e abandonadas, com muitos tendo deixado seus lares ancestrais para sempre?

Não somos conhecidos como um povo meditativo. Mas uma questão tem que ser debatida. Se Saddam não tinha armas de destruição em massa, não teve nenhuma responsabilidade no 11/9, nunca nos ameaçou e não queria uma guerra contra nós, nosso ataque não provocado contra aquele país foi uma guerra verdadeiramente justa e moral?

O que torna esta questão mais do que acadêmica é que os provocadores da guerra contra o Iraque uma década atrás agora estão clamando por uma guerra contra o Irã. Objetivo: impedir que o Irã tenha armas de destruição em massa, mesmo quando todas as nossas 16 agências de inteligências dizem que o Irã não as tem e não possui nenhum programa para construí-las.

Esta geração é testemunha de como uma Grande Potência declina e cai. E citando o velho Rei Pirro (319 - 272 a.C.), mais uma vitória como esta do Iraque e estamos perdidos.

http://buchanan.org/blog/was-iraq-worth-it-5511


Nostalgia pela figura de Saddam sobrevive no Iraque

DefesaNet, 19 de Março, 2013


Uma década depois da invasão americana, anos de violência e a pouca confiança na atual e dividida classe política, alimentam a nostalgia de muitos iraquianos por Saddam Hussein, o homem que governava com mão de ferro e foi derrubado pelas tropas estrangeiras.

Acusar alguém de ter mantido laços com Hussein é recorrente quando se pretende manchar a reputação de um político no Iraque atual. Porém, residentes de Tikrit, cidade natal do antigo líder, expressam carinho por um homem que é lembrado pela estabilidade que impunha no país e não por ordenar a morte de milhares de pessoas.

"Lembrarei de Saddam com orgulho", disse Khaled Jamal, um vendedor de relógios em Tikrit. "Nosso país não mudou nem se desenvolveu nos últimos dez anos", acrescentou.

Além de sua frustração pelo vagaroso processo de reconstrução, muitos iraquianos - não apenas em Tikrit - sofrem com a má distribuição de serviços básicos e o alto nível de desemprego. Jamal também citou outra frustração muito comum: o aparente aumento do sectarismo desde a queda de Saddam Hussein.

"Não havia sectarismo, nem de sunitas, nem de xiitas", explicou.

"Mas agora essa é a primeira pergunta que se ouve quando você se encontra com alguém", acrescentou em alusão às perguntas sobre a província de origem de uma pessoa, ferramenta para conhecer sua lealdade religiosa.

Saddam Hussein nasceu no dia 28 de abril de 1937 no vilarejo de Al-Qja, logo ao sul de Tikrit, cidade localizada ao norte de Bagdá.

Ativista no agora proibido partido árabe socialista Baath, Hussein foi sentenciado à pena de morte em 1959 por conspirar para o crime do líder iraquiano Abdul Karim Qassem, e era uma das principais figuras do partido quando a organização tomou o controle do Iraque após o golpe militar de 1968. Apesar disso, ele chegou à presidência 11 anos depois.

Na frente doméstica, Hussein - ou Saddam, como era mais conhecido - impôs uma visão secular para o país e se apresentava como um líder árabe que faria frente ao vizinho Irã - uma teocracia muçulmana, mas não árabe -, e era brutal com seus opositores.

Hussein era considerado responsável pela morte de dezenas de milhares de curdos na campanha "Anfal" e de até 100.000 pessoas que fizeram parte da ascensão contra seu regime após a guerra do Golfo de 1991, além de outros massacres.

No âmbito internacional, lutou em uma longa, custosa e sangrenta guerra contra o Irã (1980-1988) com a vista grossa por parte das potências ocidentais e logo invadiu o Kuwait (1990) antes de ser expulso por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos. Foram impostas sobre o Iraque duras sanções econômicas e um embargo comercial.

Saddam já era um pária internacional com a invasão de 2003 e foi capturado em dezembro daquele ano, quando se escondia em uma fazenda, tendo sido enforcado em dezembro de 2006.

Porém em Tikrit, o dirigente é relembrado de uma forma muito mais benevolente, como um líder que lutou pelo Iraque e que estava na vanguarda quando o país desfrutou de uma relativa estabilidade.

Saddam prestou muita atenção em Tikrit às custas de outras cidades do sul do país, o que ao menos lhe garantiu um legado mais favorável em sua cidade de origem.

"É natural que continuemos orgulhosos dele", disse Umm Sara. "Apesar das circunstâncias que atravessava o Iraque, ele dirigiu o país sem problemas".

"Saddam nos ajudou muito, assim que é natural que o veneremos como outros o fazem com Charles de Gaulle", comentou Abu Hussein, referindo-se ao ex-presidente francês.

"Saddam tinha uma forte personalidade. A impôs dentro e fora do país".

Residentes que viveram o caos pós-2003, período em que dezenas de milhares morreram em uma guerra sectária, relembram os tempos antes da invasão quando a violência estava limitada às forças de segurança e os iraquianos podiam, em teoria, escapar de sua fúria.

E apesar de os serviços públicos serem de baixa qualidade, os residentes de Bagdá tinham eletricidade e existia um programa para alimentar os pobres em meio à penúria pelas sanções econômicas.

Na atualidade, os iraquianos dependem de geradores privados para completar o fornecimento elétrico, os empregos são escassos, a corrupção contamina tudo e muitos estão inconformados com os atuais líderes políticos.

"Estou agradecida aos atuais políticos", disse Inês, uma professora 37 anos em Tikrit.

Em referência às dificuldades que enfrentam os iraquianos e as frustrações que sentem, afirmou: "Nos fazem amar Saddam, nos fazem sentir orgulhosos de sua figura, nos provoca, nostalgia daqueles dias".

http://www.defesanet.com.br/ecos/noticia/10121/Nostalgia-pela-figura-de-Saddam-sobrevive-no-Iraque

sábado, 16 de março de 2013

[POL] Kurt von Schuschnigg e o Anschluss

Kurt von Schuschnigg nasceu em 14 de dezembro de 1897 em Riva del Garlda, hoje localizada na Itália, mas na época pertencente ao Império Austro-Hungaro. Seu pai, Arthur Von Schuschnigg era um militar de carreira que alcançou o posto de general. É dito que a família tem ascendência eslovena, o nome original sendo Susnik, mas Schuschnigg negou esta versão. Ele explicou que sua família tinha raízes em Klagenfurt, Áustria; seu bisavô era dono de um moinho e seu avô era um oficial que tornou-se comandante da polícia no Tirol em 1901. Apesar de Schuschnigg manter o título hereditário de Edler, aproximadamente equivalente a baronete (título intermediário na nobreza britânica entre Cavaleiro e Barão, sendo este último maior hierarquicamente), a nova República da Áustria aboliu o uso de títulos em 1919. Consequentemente, Kurt Von Schuschnigg tornou-se Kurt Schuschnigg, eliminando o prefixo nobre “Von” de seu sobrenome. No entanto, durante sua carreira política como membro do partido conservador do governo, o antigo nome era usado. Este também foi usado durante sua época como professor na Universidade de Saint Louis (EUA).

Quando era criança, estudou na escola jesuíta de Stella Matutina em Feldkirch. Ele serviu como oficial de artilharia na frente italiana durante a Primeira Guerra Mundial e recebeu seu diploma de advogado da Universidade de Innsbruck em 1922. Dois anos depois, ele estabeleceu seu próprio escritório na cidade. Ele também filiou-se ao Partido Social Cristão e em 1927 foi eleito para a assembleia nacional, tornando-se o seu membro mais jovem. Em 1930, ele fundou a Tropa de Assalto Austríaca (Ostmaerkische Sturmscharen), um esforço na revitalização da cultura católica e defesa política, que mais tarde assumiu as características de uma força paramilitar.

Schuschnigg casou-se pela primeira vez em 1924 com Herma Masera, a filha de um comerciante de Bozen, hoje Bolzano (Itália). Com Herma, ele teve um filho, Kurt, nascido em 1926. Herma morreu em um acidente de automóvel em 13 de julho de 1935, acidente que deixou Schuschnigg ferido e seu filho com pequenos ferimentos. Mais tarde, Schuschnigg envolveu-se com a Condessa Vera Czernin von und zu Chudenitz, a antiga Condessa Fugger von Babenhausen; seu primeiro casamento foi anulado, mas produziu quarto filhos, Eleonore, Rudolf, Rose Marie, e Sylvia.

O Chanceler Karl Buresch apontou Schuschnigg seu ministro da justice em 1932, enquanto que o sucessor de Buresch, Engelbert Dollfuss, também nomeou Schuschnigg ministro da educação em 1933. O governo em geral, e Schuschnigg em particular como ministro da justiça, foram muito criticados pelas sentenças de morte impostas aos opositores de esquerda do regime, os quais lutavam contra as forças governamentais nas ruas durante a guerra civil de 1934. Karl Munichreiter, líder da Schutzbund, uma organização paramilitar de esquerda, foi ferido e preso, sendo em seguida condenado à morte e enforcado em praça pública, uma ação vista como especialmente chocante. Schuschnigg recusou a aceitar o clamor popular a favor do condenado, o qual foi imediatamente executado para servir de exemplo para o povo.

 Kurt von Schuschnigg em 1936

 
Quando Dollfuss foi assassinado em uma tentativa de golpe pelos nazistas austríacos em 1934, Schuschnigg sucedeu-o como Chanceler, um pedido que foi supostamente feito por Dollfuss no leito de morte. Aos 36 anos, Schuschnigg era – e continua sendo até hoje – a pessoa mais jovem a assumir o cargo. Ao tentar realizar o sonho de seu mentor de criar um Estado Corporativo, ele enfrentou a oposição não somente dos grupos de esquerda e nazistas, mas também dos rivais dentro de seu próprio partido. Ernst Rudiger Von Starhemberg, chefe do grupo paramilitar Defesa da Nação (Heimwehr), era visto por muitos como uma ameaça a Schuschnigg, de modo que este proibiu todas as forças paramilitares em outubro de 1936. Sua própria tropa de assalto acabou convertendo-se em uma organização cultural em abril daquele mesmo ano.

O governo nazista da Alemanha ajudou e fomentou as intrigas de seus colegas austríacos, que, como alemães étnicos, buscavam a união, ou Anschluss, com a Alemanha. Schuschnigg tentou manter a independência da Áustria promovendo sentimentos de solidariedade e de nacionalidade através da Frente Pátria ou Patriótica (Vaterlandische), uma organização suprapartidária fundada por Dollfuss e o único grupo político legal na Áustria. Ele também tentou afastar o assalto alemão fortalecendo as relações com a Itália e a Hungria e assinando um tratado de coexistência com a Alemanha em 1936. Este acordo garantia à Áustria liberdade das interferências alemãs em seus assuntos internos em troca da libertação de membros do ilegal partido nazista e da participação no governo austríaco de figuras ligadas aos alemães. Mesmo assim, em fevereiro de 1938, quando foi convocado pelo líder alemão Adolf Hitler em Berchtesgaden na Bavária para responder acusações de supostas violações austríacas ao tratado, Schuschnigg ficou sem saída. A Áustria não podia contar com ajuda prática das potências democráticas da Europa no caso de ameaça militar alemã, e as intenções da Itália estavam longe de serem claras.

Durante o encontro em Berchtesgaden, Hitler exigiu que Schuschnigg nomeasse o simpatizante nazista Arthur Seyss-Inquart seu ministro do interior. Obrigado a concordar, Schuschnigg retornou abalado a Viena, como ele mencionou, “pelos dias mais terríveis de minha vida.” Em 24 de fevereiro de 1938, Schuschnigg anunciou um plebiscito para 13 de março sobre a questão do Anschluss. O que alguns classificaram como ato de coragem, foi na verdade um ato de desespero. Schuschnigg temia uma iminente invasão alemã e mais tarde ele escreveu, “Tornando-a legalmente difícil tanto quanto possível para Hitler e, em qualquer caso, deixando-o do lado errado era o máximo que podia ser alcançado na prática.” Schuschnigg esperava obter pelo menos entre 60 e 65% de votos a favor da manutenção da independência, e aparentemente Hitler não estava confiante de um resultado positivo para os seus planos.

Não arriscando, Hitler revidou em 11 de março, insistindo que o plebiscito fosse cancelado. Com as tropas alemãs já mobilizadas ao longo da fronteira, Schuschnigg concordou, somente para ter Hitler exigindo sua renúncia e a nomeação de Seyss-Inquart como Chanceler. Enquanto isso, a Alemanha transmitia ao mundo que a Áustria estava na iminência de um levante violento dos trabalhadores, e seu governo não tinha mais controle sobre a situação. Denominando estas alegações de “invenções de A a Z” em seu famoso discurso de despedida à nação, Schuschnigg revelou que no sentido de evitar um conflito fraticida ele ordenou que o exército austríaco não resistisse aos alemães: “Nós cedemos à força... Deus salve a Áustria!” Em 12 de março, o dia originalmente planejado para o plebiscito, Hitler entrou na Áustria, recebendo uma recepção triunfante dos nazistas locais, e o país foi formalmente anexado à Alemanha no dia seguinte.

Schuschnigg foi imediatamente colocado sob prisão domiciliar, então levado para a sede da Gestapo em Viena, no Hotel Metropol, onde foi mantido em confinamento individual em um pequeno quarto por cerca de um ano, até ser transferido para o campo de concentração de Dachau na Alemanha. Mais tarde, ele foi encarcerado nos campos de concentração de Flossenburg e Sachsenhausen. Em abril de 1945, junto com outros prisioneiros “celebridades”, ele foi levado ao Hotel Prager-Wildsee no Tirol italiano, onde poucos dias depois, em maio, ele e seus colegas de prisão foram libertados pelos esforços combinados da resistência local e do exército americano.

Após algum tempo em um campo para refugiados na ilha de Capri na Itália, Schuschnigg aceitou uma oferta de uma viagem como professor aos Estados Unidos. Em 1947, o magro ex-chanceler, sua segunda esposa, Vera, e sua filha Maria Dolores Elisabeth (Sissi) desembarcaram em Nova York. Por meio da iniciativa do Dr. William Bauer, director do departamento de patologia da escola odontológica da Universidade de Saint Louis, um antigo amigo de Innsbruck, Schuschnigg foi convidado a uma posição no departamento de ciência política na Universidade, a qual ele assumiu na sessão do verão de 1948. Vera tornou-se cidadã americana em 1954 e morreu de câncer em setembro de 1959. O próprio Schuschnigg tornou-se cidadão americano aos 59 anos em 1956. O filho de Schuschnigg, Kurt, um negociante de artes, emigrou para os Estados Unidos em 1957. Schuschnigg permaneceu nos EUA, dando aulas de lei internacional e história da Alemanha e Europa Central, até sua aposentadoria em 1967, quando recebeu o Prêmio Fleur-de-Lis, a maior honra dada pela Universidade. Ele depois mudou-se para a vila de Mutternear, em Innsbruck, o lar de seus avós maternos. Em 18 de novembro de 1977, Schuschnigg morreu de causas desconhecidas, que durante as últimas semanas o deixou acamado.

Ao longo de sua vida, Schuschnigg enfrentou acusações de ele próprio ser um fascista e um ditador, e a controvérsia continua até hoje. O principio de governo de seu regime, e de Dollfuss antes dele, era chamada de clérico-fascismo ou austro-fascismo. Ele é frequentemente chamado de inimigo da democracia, cujo autoritarismo ironicamente favoreceu as condições que levaram ao Anschluss, cujas consequências ele tentou arduamente evitar. Mesmo assim, acabou ganhando respeito por causa de seu longo cativeiro nas mãos dos nazistas, mesmo que, como algumas vezes é mencionado, seu encarceramento foi sob condições suaves reservadas a prisioneiros politicamente importantes.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sensoriamento Remoto no Brasil

Carlos Alberto Gurgel Veras, Diretor de Satélites, Aplicações e Desenvolvimento da Agência Espacial Brasileira (AEB)




Brasília, 12 de março de 2013 – A técnica de sensoriamento remoto pode ser melhor entendida, em um primeiro instante, traduzindo-se o próprio termo. Remoto significa “sem contato direto” e sensoriamento é o uso de sensores para detectar dados variáveis de uma superfície, como temperatura, distribuição de cores, relevo e muitos outros.

Para bem observar a superfície da Terra ou do mar, o sensor deve estar em posição o mais vertical possível sobre a área a ser observada, o que evita distorções na imagem. Isto se consegue instalando-se o sensor numa plataforma aérea, por exemplo, em um avião.

No fim do século XVIII, balões a gás eram usados para observação dos campos de batalha. Em termos de observação remota, pode-se dizer que os olhos dos militares eram os sensores e o balão a gás era a plataforma. Mas, o registro das imagens só podia ser repassado por meio de relatos.

A observação da terra com registro de imagem aguardava a invenção da máquina fotográfica, na segunda década do século XIX. Aí surgiu uma técnica precursora do sensoriamento remoto.

A expressão “sensoriamento remoto” foi cunhada e se popularizou nos idos de 1960, graças à Era Espacial, inaugurada em outubro de 1957 com o lançamento do Sputnik I.

As primeiras teorias e técnicas, indispensáveis ao avanço do sensoriamento remoto precederam à corrida espacial. Cabe destacar a teoria clássica do eletromagnetismo (James Clerk Maxwell, 1831-1879), o aprimoramento da aerofotografia (~1909), o desenvolvimento do radar (~1930) e de sensores infravermelhos (~1940).

Tais técnicas e outras mais modernas são aplicadas nos sensores que constituem a carga útil necessária à observação da terra. Aí temos os sensores óticos (visível, infravermelho próximo e infravermelho térmico), micro-ondas e laser.

Com o uso de tais sensores e suas combinações, é possível registrar variáveis de grande interesse, sem esgotar a lista: localização e dimensões planares, localização topográfica, cores, temperatura de superfícies, textura, umidade e tipo de vegetação.

Hoje, as imagens são largamente obtidas por satélites com missões específicas de observação da terra. No caso brasileiro, dados de sensoriamento remoto são coletados a partir de inúmeras plataformas satelitais. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mantém um banco de imagens dos seguintes satélites: CBERS-2 (China-Brasil), CBERS-2B (China-Brasil), LANDSAT1, LANDSAT2, LANDSAT3, LANDSAT4, LANDSAT5, LANDSAT7 (EUA), RESOURCESAT-1 (Índia), TERRA (EUA) e AQUA (EUA).

O LANDSAT7 está operacional, mas não transmite dados para o Brasil. O satélite LANDSAT6, lamentavelmente, não chegou à órbita programada e não pôde cumprir sua missão.

Os satélites RESOURCESAT-1, TERRA e AQUA estão operacionais e fornecem diferentes tipos de imagens, inclusive para o Brasil. Estamos negociando com a Índia o acesso aos dados do RESOURCESAT-2.

As informações geradas por essas plataformas nos permitem tomar decisão vitais nas áreas de agricultura, recursos florestais, uso da terra, uso da água, exploração de recursos naturais e muitas outras. A família CBERS, LANDSAT e outras plataformas são usadas intensamente nestes campos. De grande importância para o Brasil são os dados, recebidos quase em tempo real, sobre incêndios florestais em todo o país. Algumas plataformas de observação da terra executam relevantes missões científicas, como as operados pela NASA, sobretudo os satélites TERRA e AQUA. O satélite TERRA realiza sensoriamento remoto da terra, dos oceanos e da atmosfera. Como carga útil destacam-se os sensores para:

• energia radiante de nuvens e da superfície (CERES), via ondas curtas e ondas longas e fluxo líquido;

• imageamento estereoscópico por nove diferentes ângulos (MISR);

• imageamento multiespectral de alta definição (ASTER);

• imageamento global de média resolução (MODIS) em até dois dias;

• medição global de concentrações de metano e monóxido de carbono na troposfera (MOPITT).

Alcançar este nível de capacitação tecnológica é meta do Programa Espacial Brasileiro. Cargas úteis similares estão planejadas para futuras missões nacionais.

Em breve, teremos o lançamento do CBERS-3 e, logo a seguir, do CBERS-4. Cada um deles carrega quatro tipos de câmaras (multiespectrais), com resolução entre 5 e 80m e largura de faixa imageada entre 60 e 866km.

Há também outras missões brasileiras planejadas, com máximo de nacionalização das cargas úteis e módulos de serviço: satélite radar, satélite de observação do mar (Sabiá-Mar, Brasil-Argentina), satélite Amazônia e satélite meteorológico brasileiro.

* Artigo publicado na Revista MundoGEO. Edição nº 71, Pág. 64.

http://mundogeo.com/mundogeo71.php

Introdução ao Sensoriamento Remoto

http://www.inpe.br/unidades/cep/atividadescep/educasere/apostila.htm

Defesa e Segurança no Século XXI

José Monserrat Filho *


“A eliminação da guerra é o nosso principal problema.”

Hans Kelsen, jurista e filósofo austríaco.¹


As atividades de defesa e segurança estão hoje entre as mais intensas, crescentes, perigosas, caras e lucrativas do mundo. Os investimentos, aí, costumam ser milionários, quando não bilionários. São todas elas atividades necessárias e inevitáveis? Muitas o são, sem dúvida, sobretudo as que protegem a ordem constitucional interna dos países. Outras, são altamente polêmicas, tanto no âmbito internacional, como no interno. Ainda há muitas guerras julgadas desnecessárias, injustas e perfeitamente evitáveis. Basta acompanhar as intervenções e votações da maioria dos países na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) nas últimas décadas.

Certo, já não há mais Ministérios da Guerra, como antigamente. A Carta da ONU, adotada em 1945 após as barbáries da 2ª Guerra Mundial, conseguiu, enfim, pela primeira vez na história do direito internacional, vetar o uso da força, e até mesmo a ameaça de seu uso ¨C ou seja, a guerra e a ameaça de guerra ¨C para resolver litígios internacionais. Ao mesmo tempo, a Carta erigiu o princípio da solução exclusivamente pacífica das controvérsias. Neste novo quadro jurídico, como manter o nome de Ministério da Guerra, se a guerra passara a ser legalmente proibida?

Assim, não cabe mais falar em guerra, só em defesa. Isso muitas vezes corresponde à verdade dos fatos. Outras vezes, seria o caso de voltar ao nome de Ministério da Guerra. E aí, para dissimular o caráter agressivo das ações realizadas ou planejadas, cai bem a palavra “defesa”.

A realidade é que a dobradinha “defesa & segurança” nem sempre aparece como legítima e legal. Certo, todos os países têm o direito inalienável de garantir sua segurança nacional e de se defender de agressões à sua soberania e independência, bem como de qualquer intervenção em seus assuntos internos. É lícita a intervenção aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU, quando comprovada a prática por um país de genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes de agressão. Violações dos direitos humanos e do direito internacional geral, devidamente demonstradas e apreciadas, também podem ser objetos de condenação por órgãos da ONU ou por suas Cortes Internacionais de Justiça (Corte de Haia e Corte Penal).

No entanto, o ordenamento jurídico internacional vigente, tanto pela letra como pelo espírito, não admite de modo algum ações unilaterais empreendidas por um ou mais países, à revelia da ONU, como não raro tem ocorrido. As decisões arbitrárias minam a convívio normal, regular, cooperativo e razoavelmente justo entre os países E empestam o clima mundial de intranquilidade, ceticismo, desconfiança, medo e ódio.

Em oposição, vale o que afirma Thomas J. Schoenbaum, professor da Universidade George Washington, EUA, e da Universidade Internacional Cristã, Japão: “O estado de direito e o respeito pelas instituições internacionais podem se tornar a pedra de toque das relações internacionais no Século XXI, porque, pela primeira vez na história humana, povos e nações do mundo inteiro abraçaram objetivos e interesses comuns: fim da violência e da guerra, prosperidade econômica, proteção ambiental, redução da pobreza e das doenças, e proteção dos direitos humanos.”3

Na maior parte dos países, inclusive no Brasil, defesa e segurança nacional significam exatamente isso: defesa e segurança nacional. Ninguém deseja ou pretende ir além de suas fronteiras.

O Brasil hoje preocupa-se em manter a soberania nacional intimamente vinculada à defesa do território, e em garantir a segurança pública, como manda a Constituição Federal de 1988. Atitudes e ambições que um dia extrapolaram esse princípio básico, felizmente, ficaram no passado.

Temos nada menos de 16.866 km de fronteiras com dez países vizinhas, onde cultivamos uma convivência respeitosa e construtiva. Zelamos pela integralidade de nossas regiões-limite, com base no Plano Estratégico de Fronteiras (PEF), que visa prevenir e inibir os crimes nas áreas fronteiriças, combater o crime organizado e os traficantes de armas e drogas que se infiltram em nosso país, e melhorar o nível de vida de cerca de seis milhões de pessoas que moram em municípios remotos.4

Nosso Exército atua também em qualquer região do país em que a presença militar se faça imperativa para inibir e enfrentar ações hostis vindas do exterior. Com aviões e equipamentos de alta tecnologia, nossa Força Aérea zela pela soberania de nosso espaço aéreo, para nenhuma aeronave estrangeira invadir o território brasileiro sem a devida autorização. Nossa Marinha realiza ações semelhantes para preservar a integralidade de nossas fronteiras marítimas, que, aliás, são muito ricas.

Desenvolvemos uma Estratégia Nacional de Defesa insuspeita, à qual submetemos o avanço de uma indústria bélica à altura de nossas necessidades e possibilidades legítimas, respeitando os nossos compromissos internacionais. A política de ciência, tecnologia e inovação para a defesa está cada vez mais ligada ao esforço de estimular o progresso científico e tecnológico do país.

Isso seguramente nos estimula a perceber e a cultivar, cada vez mais, a consciencia de que os problemas da defesa e segurança são o maior desafio global do nosso tempo. Dele depende o uso racional e produtivo dos bilhões de dólares hoje desperdiçados em guerras inúteis, desnecessárias, injustas e evitáveis. E dele depende também a conquista de uma paz real e responsável em todo o mundo, essencial para a sobrevivência e o avanço da civilização humana.

* Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da AEB.

Referências

1) Kelsen Hans, jurista e filósofo austríaco (1881-1973), A Paz pelo Direito (original em inglês de 1944), S. Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 17.

2) “O rumo mais provável para nosso futuro é o mais perigoso”, escreve o economista Joshua Cooper Ramo, ex-editor da revista “Time”, in A Era do Inconcebível, S. Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 21.

3) Schoenbaum Thomas J., International Relations ¨C The Path Not Taken ¨C Using International Law to promote World Peace and Security, New York, USA: Cambridge University Press, 2006, p. 11.

4) Ver www.brasil.gov.br/sobre/o-brasil/defesa-e-seguranca-publica.

quinta-feira, 14 de março de 2013

[HOL] "Por que eu acredito que Simon Wiesenthal é uma Fraude"

Guy Walters, 10/09/2010


Para milhões ao redor do mundo, Simon Wiesenthal é visto como um herói.

Frequentemente conhecido por levar à justiça cerca de 1.100 criminosos de guerra, o caçador de nazistas e sobrevivente do Holocausto é lembrado como sendo um santo, um homem que fez mais do que qualquer governo para prender os perpetradores de alguns dos piores crimes que o mundo já presenciou.

Indicado para o Prêmio Nobel da Paz, o recebedor de título de cavaleiro e mais de 50 outras honras, Wiesenthal é particularmente lembrado por seu papel  em rastrear o conhecido arquiteto do Holocausto, Adolf Eichmann.

Após morrer com a idade de 96 anos em setembro de 2005, as homenagens pipocaram em todo mundo.

Wiesenthal foi saudado como “o representante permanente das vítimas”, um homem que não apenas buscava justiça, mas orgulhava-se de nunca ter esquecido seus “seis milhões de clientes,” como chamava aqueles que morreram no Holocausto.

Aqueles que lêem suas memórias somente podem imaginar seu heroísmo e suas escapadas incríveis da morte nas mãos dos nazistas.

Parecia como se a missão de Wiesenthal fosse quase divinamente  concebida, os deuses poupando sua vida por algum motivo mais nobre.

Os relatos de suas caçadas contra fugitivos não eram menos sensacionais, como Wiesenthal contou como ele se envolveu numa batalha heróica contra redes nazistas sinistras do pós-guerra e seus simpatizantes.

Ou seja, era a estória final de programas e filmes de uma boa estória sentimental, e o mundo suspirava por ela.

Programas de TV e filmes foram produzidos e logo Wiesenthal tornou-se um nome conhecido, um símbolo do triunfo da esperança sobre o Mal.

Aqueles que ficaram excitados com sua estória de vida podem agora vivenciar essas emoções outra vez, graças a uma nova biografia escrita pelo historiador israelense Tom Segev.

A imagem que emerge deste livro é muito mais complexa do que alguém poderia supor.

O Dr. Segev mostra que muito dos relatos de Wisenthal sobre sua vida foi o produto de exagero e auto-mitologia.

Aparecendo no programa “Hoje” da Radio 4 esta semana, o autor disse que Wiesenthal foi “um contador de estórias, um homem que viveu entre a realidade e a fantasia.”

Ele desculpou a inclinação de Wiesenthal para fabricar estórias sobre seu passado, dizendo que este foi o modo mais fácil para lidar com as atrocidades reais que ele experimentou nos campos de concentração.

Desculpe-me, mas esta abordagem compassiva simplesmente eu não aceito. Pois a verdade é que o grande caçador de nazistas é muito, mas muito pior do que o Dr. Segev acha.

Em minha opinião, Simon Wiesenthal era um mentiroso e uma fraude. De fato, iria mais longe dizendo que ele foi um dos maiores vigaristas do século XX.

Gastei quatro anos trabalhando em uma história da caçada aos nazistas que foi publicada ano passado, e o material que reuni sobre Wiesenthal foi suficiente para dizer o que eu digo.

Quando comecei a escrever o livro, acreditava que o grande homem era apenas isso – grande.

Mas quando olhei para suas memórias, biografias e material original de arquivo, percebi que, como outros, a imagem que havia construído de Simon Wiesenthal estava incorrigivelmente errada.

Havia tantas distorções e incoerências, tantas mentiras descaradas – nenhuma das quais poderia ser explicada pelo papo psicológico bacana oferecido por gente como o Dr. Segev.

A verdade é que Wiesenthal mentiu sobre quase tudo em sua vida.

Vamos, por exemplo, começar do início e ver seu registro escolar.

Se você visitar a página do Centro Simon Wiesenthal, aprenderá que ele “fez o pedido de admissão no Instituto Politécnico em Lvov,” mas foi recusado “devido a restrições de cotas para estudantes judeus.”

A página então afirma que ele foi para a Universidade Técnica de Praga, “onde ele recebeu seu diploma de engenheiro arquiteto em 1932.”

Outras biografias – publicadas enquanto Wisenthal estava vivo – dizem que ele de fato foi para Lvov, em 1934 ou 35, e recebeu um diploma de engenheiro arquiteto em 1939.

Todos estes relatos são mentiras.

Os Arquivos Públicos de Lvov não tem nenhum registro de Simon Wiesenthal como estudante na Universidade Técnica.

Os arquivos têm registros de outros estudantes daquele período, mas não de Wiesenthal – e não havia nenhuma restrição de cotas para estudantes judeus na época.

Nem ele se graduou em Praga. Apesar dele ter se matriculado em 21 de fevereiro de 1929, Wiesenthal nunca concluiu seu curso. Ele passou em sua primeira avaliação pública em 15 de fevereiro de 1932, e então abandonou naquele mesmo ano.

Apesar da falta de credenciais acadêmicas, ele usaria de forma fraudulenta seu suposto diploma de engenharia em seu papel timbrado pelo resto de sua vida.

Durante a guerra, Wiesenthal afirmou ter gasto anos dentro e fora de uma série de campos de concentração.

Apesar dele certamente ter gasto tempo em campos como Mauthausen, ele também disse ter estado em Auschwitz – uma afirmação que não existe registro.

Então, há a sua suposta carreira como bravo partisan. Em duas de suas memórias, ele afirma ter se juntado a um grupo de partisans após escapar de um campo em outubro de 1943.

De acordo com uma entrevista que ele deu ao exército americano em 1948, ele afirmou que ele foi promovido a tenente imediatamente “com base em minha inteligência.”

Ele logo foi promovido a major, e foi fundamental em “construir bunkers e linhas fortificadas.”

“Tínhamos fabulosas construções de bunkers,” ele disse.

“Meu posto não era muita coisa considerando meu conhecimento estratégico e técnico.”

Precisamos somente de uma compreensão básica da história da Segunda Guerra Mundial para saber que as afirmações de Wiesenthal são altamente duvidosas.

Grupos partisans não construíam “fabulosas construções de bunkers,” ao invés disso eles utilizavam a mobilidade para enganar o inimigo.

Como judeu, é também altamente improvável que ele fosse promovido a oficial em tal grupo, que geralmente era anti-semita.

Wiesenthal também daria outro relato de sua experiência com os partisans, no qual ele se afiliou a um bando menor e mais especialista – dificilmente um para construir bunkers e fortificações ou ter uma estrutura formal de promoção.

Já que existem pelo menos quatro relatos totalmente diferentes das atividades de Wiesenthal entre outubro de 1943 e meados de 1944, questões sérias sobre o que ele realmente fez deveriam ser levantadas.

Alguns que duvidaram de sua versão dos fatos – como o antigo chanceler austríaco Bruno Kreisky – foram longe acusando-o repetidamente nos anos 1970 e 80 de ter sido colaborador da Gestapo.

As afirmações de Kreisky eram apoiadas por evidência não confirmada fornecida pelos governos polonês e soviético, e quando Wiesenthal levou Kreisky ao tribunal, foi Wiesenthal que ganhou.    

Duas declarações sob juramento feitas por ex-membros do exército alemão também afirmavam que o caçador de nazistas era um colaborador, mas tais afirmações devem ser tratadas com extremo cuidado.

Sujar Wiesenthal é um passatempo predileto para anti-semitas, negadores do Holocausto, “revisionistas” e outras figuras.

Mas a multiplicidade de relatos conflituosos exige que questões sobre a autenticidade de sua estória sejam levantadas por aqueles que, como eu, não tem nenhuma agenda.

Contudo, não tenho nenhum arrependimento em dizer que a maior mentira que ele espalhou foi sobre seu envolvimento na caçada e eventual captura de Adolf Eichmann, uma suposta ação com a qual ele sempre estará associado – e totalmente injustificada.

De acordo com o mito, Simon Wiesenthal começou a caçar Eichmann tão logo a guerra terminou.

No início dos anos 1950, ele havia desistido da busca, quando então teve a chance de se encontrar com um nobre austríaco chamado Barão Mast no final do outono de 1953.

O Barão Mast mostrou a Wiesenthal uma carta que ele recebeu em maio daquele ano de um antigo camarada de exército agora vivendo na Argentina, onde o escritor estava atrás do “porco Eichmann”, que estava vivendo em Buenos Aires e trabalhando próximo.

Em sua primeira memória publicada, “Eu cacei Eichmann”, Wiesenthal lembra como ele estava terrivelmente excitado pelas notícias, mas estava fora de seu alcance.

Uns poucos meses depois, em 30 de março de 1954, Wiesenthal finalmente enviou um dossiê sobre Eichmann para o Congresso Mundial Judaico e para o cônsul israelense em Viena, no qual ele compartilhava os conteúdos da carta do Barão e revelava que o criminoso estava trabalhando em uma obra de uma estação elétrica a 80 km de Buenos Aires.

Infelizmente, a inteligência de Wiesenthal era inútil. Não somente ele era incapaz de fornecer o nome falso de Eichmann – Riccardo Klement – mas na época da carta do barão, Eichmann estava de fato trabalhando mais de 1000 km de Buenos Aires, e em março de 1954, ele estava vivendo na capital argentina tentando estabelecer seu próprio negócio.

Entretanto, o pior estava por vir.

Em 1959, quando a caçada por EIchmann esta esquentando, o serviço de inteligência israelense, o Mossad, perguntou a Wiesenthal se ele poderia dar mais informações sobre o criminoso.

Em 23 de setembro, ele escreveu aos israelenses e disse-lhes que suspeitava que Eichmann estava no norte da Alemanha e que ele “visita a Áustria de vez em quando.”

Novamente, ele estava fornecendo informação inútil.

A partir de outras fontes, os israelenses estabeleceram que o fugitivo estava de fato em Buenos Aires, e que a dica de Wiesenthal levava a lugar nenhum.

Após Eichmann ser sequestrado no ano seguinte por agentes do Mossad, Wiesenthal pelo menos teve a gentileza de negar que ele “tinha algo a ver com a prisão de Eichmann,” e que ele guardou todos os seus arquivos em Jerusalém.

Porém, com os israelenses permanecendo calados sobre seu envolvimento, ele decidiu preencher o vácuo de informações e começou a colocar-se no coração da caçada.

Ele escreveria que, apesar dele ter dito que enviou seus arquivos para Israel, ele na verdade manteve o arquivo sobre Eichmann. Isto é totalmente inverídico.

Talvez a mentira mais chocante de Wiesenthal relacionada ao caso Eichmann seja afirmar que ele disse aos israelenses em sua carta de setembro de 1959 que o nazista estava na verdade na Argentina.

Como vimos, ele disse a eles que Eichmann estava provavelmente na Alemanha – uma pequena diferença de muitos milhares de quilômetros.

Curiosamente, o Dr. Segev viu tanto a carta de setembro de 1959 quanto a afirmação mais tarde, mesmo assim ele preferiu ignorar as diferenças em seu livro.

O fato é que Wiesenthal mentiu sobre sua educação, suas experiências de guerra e sobre sua “caçada” a Adolf Eichmann.

Qualquer homem que carregue tantas mentiras não merece ser reverenciado. Apesar de alguns desculparem os “contos da carochinha” de Wiesenthal, existem simplesmente muitas outras mentiras para levá-lo seriamente.

Além disso, ao dizer que Wiesenthal “viveu entre a realidade e a fantasia” para lidar com suas experiências de guerra é um insulto a todos aqueles sobreviventes do Holocausto que simplesmente disseram a verdade.

http://www.dailymail.co.uk/news/article-1310725/Why-I-believe-king-Nazi-hunters-Simon-Wiesenthal-fraud.html?openGraphAuthor=%2Fhome%2Fsearch.html%3Fs%3D%26authornamef%3DGuy%2BWalters


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[HOL] A Primeira Vez que Hollywood expôs o Holocausto

Matt Lebovic, 09/03/2013


Exatamente 70 anos atrás, os grandes astros de Hollywood reuniram-se para expor o Holocausto.

Foi no início de 1943, e os exércitos de Hitler estavam finalmente em retirada da África do Norte e da União Soviética. O Dia-D estava mais de um ano longe, e os nazistas haviam matado quase três milhões de judeus.

Desde o começo da guerra, relatos de testemunhas de execuções em massa e campos de extermínio chegaram aos governos ao redor do mundo. “Resgate através da Vitória” permaneceu a estratégia oficial aliada, e as mortes recebiam pouca atenção.

Quando o genocídio atingiu seu ápice, Hollywood decidiu agir.

Um jornalista e roteirista experiente, Ben Hecht foi a primeira celebridade a publicar um texto sobre o Holocausto. O ensaio de Hecht de fevereiro de 1943, “O Extermínio dos Judeus” (http://www.unz.org/Pub/AmMercury-1943feb-00194 ) fez barulho, mesmo com o Departamento de Estado dos EUA deixando de lado relatórios do genocídio.

“Destes 6.000.000 de judeus da Europa, quase um terço já foi massacrada pelos alemães, romenos e húngaros,” escreveu Hecht no Reader´s Digest. “O mais conservador dos marcadores (N. do T.: pessoa que registra os resultados de um jogo ou concurso) estima que antes que a guerra acabe, pelo menos outros um terço terá o mesmo destino.”

Não contente com esse alerta, Hecht decidiu fazer o que ele fazia de melhor – colocar a idéia em um drama envolvente. Um roteirista premiado com o Oscar por “E o Vento Levou” e autor de “Scarface”, Hecht sabia como mexer com as emoções e estabelecer uma estória épica.

Afirmando “frustração com a política americana e ultraje com o medo de Hollywood de ofender seus mercados europeus,” Hecht gastou um mês escrevendo um espetáculo épico hollywoodiano para expor o Holocausto e exigir uma ação de resgate imediata.

Evocando a profecia “Eles nunca devem morrer” do profeta Habakkuk, hecht chamou o seu show de Jamais Morreremos. Exibindo centenas de figurantes e uma orquestra de 50 músicos da NBC, a excursão de seis cidades da produção foi o primeiro grande protesto político de Hollywood.


O compositor Kurt Weill escreveu a trilha sonora e recrutou estrelas como Edward G. Robinson, Paul Muni e Stella Adler para aparecerem no “espetáculo de propagand” dirigido por Billy Rose. Cinqüenta rabinos idosos resgatados da Europa tomaram o palco para cantar a oração kaddish dos mortos no encerramento.

Hecht colaborou intimamente com o Comitê para um Exército Judeu, um grupo sionista revisionista liderado pelo futuro membro do Knesset, Hillel Kook – sob o pseudônimo Peter Bérgson. O assim chamado Grupo Bérgson convocou celebridades não-judaicas, incluindo Frank Sinatra e Burgess Meredith para a excursão nacional de Jamais Morreremos.


A estréia em Nova York aconteceu em 9 de março de 1943, no Madison Square Garden, apenas uma semana após uma reunião maciça “Parem Hitler Agora!” no mesmo local. Os produtores do espetáculo realizaram outro show na noite de abertura para atender à demanda, permitindo que 40.000 pessoas assistissem a ele.

“Estes são os dois milhões de mortos judeus da Europa hoje,” anunciou o locutor quando o show iniciou. “Os quatro milhões restantes deixados para morrer estão sendo mortos, de acordo com o plano. Quando a paz acontecer, eles já estarão mortos.”

Reduzidos em tamanho por um palco que deixaria Cecil B. DeMille com inveja, as celebridades se apresentaram como “as vozes dos sem voz” próximos a crianças vestidas de fantasmas repetindo “Lembrem-se de nós.” Duas tábuas de 12 metros de altura contendo os Dez Mandamentos em hebreu faziam uma ligação da história do povo judeu com o massacre presente.

“Lembrem-se de nós que estivemos na Ucrânia,” murmuraram os atores. “Os alemães jogaram nossas mulheres nas estradas amarradas às nossas crianças. Então, eles passaram com seus caminhões sobre nós. Milhares de nós morreram desta forma, como os veículos militares indo e voltando sobre nossos corpos feridos. Lembrem-se de nós.”

A performance de Jamais Morreremos em Washington, DC, em 12 de abril foi vista por 300 congressistas, seis juízes da Suprema Corte e pela Primeira Dama, Eleanore Roosevelt. Para motivar os membros importantes da audiência, Hecht acrescentou apelos específicos ao longo do show.

“Lembrem-se de nós que fomos colocados em vagões de carga que deixaram a França e Holanda e Bélgica e que rodaram por toda a Europa... em pé,” entoaram atores vestidos com farrapos. “Morremos nos vagões de carga em pé… Lembrem-se de nós.”

Muitos americanos leram sobre o genocídio pela primeira vez quando Eleanore Roosevelt dedicou parte de sua coluna jornalística à produção: “Ninguém que ouviu cada grupo se apresentar e dar a história do que tinha acontecido com ele nas mãos dos militares alemães implacáveis, jamais esquecerá as terríveis palavras: Lembre-se de nós,” ecreveu a Primeira Dama.

A performance em Los Angeles em 21 de julho no Hollywood Bowl foi transmitida nacionalmente pela NBC, mas também marcou um fim rancoroso ao espetáculo após quatro meses de apresentações.

Bérgson e Hecht reuniram os líderes de 32 organizações nacionais judaicas em Nova York para pedir-lhes a sua aprovação do espetáculo. Suspeitando do agressivo Grupo Sionista Bérgson e ansiosos com seus próprios projetos, os líderes recusaram agregar o nome de suas organizações à produção.

“Gritaria em inglês e em Iídiche tomou conta do recinto,” escreveu Hecht em sua autobiografia sobre o encontro malfadado. “Em cinco minutos, um bate-boca, gélido como um feudo de Kentucky, estava em sua plenitude. O espetáculo de judeus comicamente se ridicularizando na pior hora de sua história me deixou enojado.”

Jamais Morreremos também enfrentou oposição dos líderes judeus locais, que se preocuparam com o fato de que isto incitaria o anti-semitismo e dominaria as agendas comunitárias. O Congresso Judaico Americano fez campanha pelo banimento da produção nas cidades afiliadas, enviando cartas censurando o comitê por causa do Exército judeu e sua promoção.

“Devo pedir-lhe que cancele esta divulgação e interrompa todas as suas atividades futuras em nome dos judeus,” escreveu o rabino Stephen Wise, o mais influente de Nova York, para Hecht. “Se o senhor desejar trabalhar pela causa judaica daqui por diante, peço-lhe que me consulte e deixe-me aconselhá-lo.”

Nem todas as vozes proeminentes foram contra Jamais Morreremos. A Representação Judaica da Filadélfia saudou o alerta da produção.

Jamais Morreremos demonstrou a todos a importância de se atingir a consciência dos cristãos assim como a dos próprios judeus, a psicologia popular deve ser compreendida e utilizada,” afirmou o editorial da Representação. “As antigas organizações confiáveis, com a naftalina de sua crendice, faria melhor se estimulasse o exemplo realizado.”

Enquanto a produção percorria o país, esforços políticos para aliviar o sofrimento da judiaria européia falharam. Os países se recusaram em aceitar refugiados judeus na Conferência das Bermudas e a Grã-Bretanha nem mesmo discutiria deixar os judeus emigrarem para a Palestina.

Apesar de sua pouca duração, Jamais Morreremos ajudou a criar uma atmosfera “panela de pressão”, conduzindo à criação pelo presidente Roosevelt do Escritório de Refugiados de Guerra em janeiro de 1944. Durante quinze meses de operação, o Escritório seguiu passos concretos para diminuir o ritmo do genocídio, salvando cerca de 200.000 judeus.

Jamais Morreremos foi visto por 100.000 pessoas, e por muitos milhões sintonizados nas transmissões da NBC. Hecht nunca ficou satisfeito com seu projeto ou com os resultados, chamando-os de inconseqüentes.

“As apresentações não resultaram em nada,” Hecht disse a Weill. “Na verdade, tudo o que fizemos foi fazer um monte de judeus chorar, o que não é um feito surpreendente.”

http://www.timesofisrael.com/the-first-time-hollywood-exposed-the-holocaust/

quarta-feira, 13 de março de 2013

[SGM] Hollywood vai à Guerra

Resenha do livro HOLLYWOOD GOES TO WAR: HOW POLITICS, PROFITS AND PROPAGANDA SHAPED WORLD WAR II MOVIES, de Clayton R. Koppes e Gregory D. Black (1987).



Propaganda pode ser definida como a tentativa de manipular a opinião pública com o objetivo de ajudar ou prejudicar uma causa, indivíduo ou grupo particular. O propagandista procura controlar ao invés de informar.

Hollywood vai à Guerra (em tradução livre) é a biografia de uma agência federal governamental, o Escritório de Informação de Guerra (OWI, Office of War Information, 1942-45). O OWI – não confundir com o OSS, OGR, OCD ou qualquer outra agência com iniciais parecidas – foi uma criação da administração Roosevelt cujo propósito era controlar a mensagem contida nos filmes americanos durante a guerra. Em outras palavras, era uma agência de propaganda que, como os autores Koppes e Black explicam no prefácio, emitia manuais para os estúdios, comparecia às reuniões de roteiristas, revia os roteiros, pressionava os estúdios para mudar os textos, chegando a editar os filmes e, em alguns casos, reescrever o diálogo das falas principais. A Segunda Guerra Mundial era vista como uma “guerra total” e controlar o conteúdo dos filmes (empregando o que eles chamavam de “estratégia da verdade”) era visto como uma necessidade.

O conteúdo dos filmes tornou-se orgulhosamente internacionalista e anti-isolacionista muito antes de Pearl Harbor. Em 1938, o estúdio United Artists produziu Blockade, um relato pró-republicano da Guerra Civil espanhola estrelando Henry Fonda. Organizações católicas protestaram contra a exibição deste tipo de filme haja vista o recorde de atrocidades cometidas pelos exércitos republicanos pró-comunistas contra padres e freiras. Joseph Breen, o jornalista católico conservador e chefe da Administração do Código de Produção (criado em 1934 pela Associação Cinematográfica da América), acusou Hollywood e, em particular, a Liga Anti-Nazista de Hollywood de uma tentativa de “utilizar o cinema americano para fins de propaganda comunista.” Breen era conhecido por seu anti-semitismo e afirmou que a Liga era “conduzida e financiada quase inteiramente por judeus.”

De fato, como Koppes e Black explicam, “Os homens que orientaram a indústria em sua transição para o grande negócio eram, em sua maioria, proprietários judeus de salas de cinema, que eram adequados para esta tarefa. O autor e roteirista Ben Hecht certa vez observou que Hollywood constituía “um Renascimento Semita sem rabinos e Talmude.”

Os mais conhecidos entre estes judeus de Hollywood eram Carl Laemmle, que fundou os estúdios da Universal, Adolph Zukor, o criador da Paramount Pictures, William Fox, o idealizador da 20th Century-Fox, Harry, Sam, Albert e Jack, os irmãos criadores da Warner Brothers, Marcus Loew, da rede de cinemas Loews, Harry Cohn, presidente da Columbia Pictures e Louis B. Mayer, chefe do maior dos estúdios, a Metro-Goldwyn-Mayer. A maioria dos judeus europeus orientais que conseguiram sucesso no negócio na virada do século nos Estados Unidos, veio do ramo da moda. Entretanto, um punhado destes emigrantes empreendedores criou o universo americano a partir de um mundo de ilusão e fantasia. Eles mais tarde acabariam sendo conhecidos como “Os Magnatas de Hollywood”.

“Dentro dos estúdios e nas telas,” escreve Neal Gabler, autor de An Empire of Their Own: How the Jews Invented Hollywood (1989), “os judeus podiam simplesmente criar um novo país – um império próprio, por assim dizer – onde eles não seriam apenas admitidos, mas também o governariam. Eles criariam seu império segundo a imagem da América, assim como criariam sua própria imagem como americanos bem sucedidos. Eles estabeleceriam seus valores e mitos, suas tradições e arquétipos. De fato, estes homens criaram a América e os valores americanos. “Os valores americanos vieram a ser definidos grandemente pelos filmes que os judeus faziam, criando sua América ideal nas telas, de modo que eles reinventaram o país na imagem de sua ficção,” diz Gabler. Curiosamente, a América forte, saudável, honrada e incorruptível em seus filmes não apresentava traços judaicos. Atores de ascendência judaica, por exemplo, mudavam seus nomes para esconder a natureza étnica. Por outro lado, o sistema de estúdios foi aperfeiçoado por uma segunda geração de judeus e mesmo hoje, em uma Hollywood profundamente alterada pela chegada da televisão, a indústria por trás das câmeras, de sua liderança executiva até o pessoal envolvido com produção, divulgação, seleção de talentos, administradores e advogados, ainda é preponderantemente judaica, apesar da diminuição do senso de comunidade que existia no período pré-Segunda Guerra Mundial.

O início da “Era de Ouro”, também conhecida como a “Era dos Estúdios”, começou em 1927, com a produção do filme The Jazz Singer, o primeiro filme a ter som sincronizado. Em 1929, a indústria cinematográfica estabeleceu sua própria premiação para os melhores filmes e profissionais, Os Prêmios da Academia, conhecidos mais tarde como “Festa do Oscar”. O sucesso de Hollywood durante a Era de Ouro foi construído sobre o sistema de estúdios, que começou ainda na Era Muda, mas realmente emplacou nesta época. O sistema de estúdios era um modelo de integração vertical – os “Cinco Grandes” (MGM, Paramount, Warner Bros., RKO e Fox) tinham controle absoluto nas suas próprias redes de salas de cinema, garantindo a distribuição dos filmes, enquanto os “Três Pequenos” (Universal, Columbia e United Artists) dependiam de salas independentes para exibir seus filmes.

No final dos anos 1930, o sistema de estúdios dominava os mercados doméstico e internacional. Em 1940, as principais companhias cinematográficas refinaram o sistema de produção de acordo com as condições do mercado e com a estrutura verticalmente integrada da indústria. O sistema era essencialmente um esquema de produção em série onde os lucros da distribuição e exibição permitiam que os estúdios trabalhassem com capacidade máxima. Este sistema permitia que as companhias entregassem um filme por semana junto a séries, curta-metragens, documentários e assim por diante. O principal produto de Hollywood era, sem dúvida, o longa-metragem, que em 1940 contava com um orçamento de 90% dos U$ 150 milhões investidos na produção.

Como os autores Koppes e Black nos dizem: “Eles (os estúdios) controlavam todo o processo, desde o recrutamento de atores até a exibição. Os Oito Grandes abocanhavam 95% dos lucros com a indústria cinematográfica dentro dos EUA no final dos anos 1930. Seu controle sobre as redes de salas de cinema, particularmente as urbanas que determinavam o futuro dos filmes, era crítico.”

Em 1939, a Warner Bros. estreou Confissões de um Espião Nazista, cuja mensagem era que a Alemanha desejava conquistar o mundo. “Usando técnicas de documentários e longos períodos de narração, o filme identificou a Liga Teuto-Americana como um braço do governo alemão, cujo propósito era destruir a Constituição americana e o Código de Leis.” Fritz Kuhn, líder da Liga, respondeu a essa campanha difamatória com um processo de U$ 5.000.000. Após Kuhn ser, por sua vez, indiciado e considerado culpado por roubar fundos da Liga, o processo foi retirado. Estas acusações contra Kuhn foram politicamente motivadas, haja vista o apoio da Liga a ele mesmo após este episódio.

Também realizado em 1939 foi Bestas de Berlim, aproveitando o enredo do infame filme de 1917, Kaiser, a Besta de Berlim, que provocou manifestações anti-alemãs em muitas cidades americanas durante a Primeira Guerra Mundial.

Os anos de 1940 e 1941 viram o surgimento de filmes pró-guerra como a paródia de Hitler e Mussolini em O Grande Ditador, de Charles Chaplin, assim como Caçada Humana, dirigida pelo emigrante alemão Fritz Lang, Tempestade Mortal, Um Ianque na RAF, Sargento York, Casei com um Nazista e uma variedade de outros filmes. Estes filmes eram parte integral da vigorosa campanha de vários interessados em colocar os Estados Unidos na guerra contra a Alemanha.

Ligações íntimas entre Hollywood e a administração Roosevelt são indicadas pelo seguinte trecho do livro de Koppes e Black:

“Em agosto (1940), FDR pediu a Nicholas Schenck, presidente da Loew (pai da MGM) para fazer um filme sobre defesa e política externa. Em meados de outubro, Olhos da Marinha, um filme que o executivo prometeu ao presidente resultaria em milhares de votos, estreou nos cinemas. O interesse de Schenck pode ter sido pessoal assim como patriótico. Seu irmão Joseph, chefe da 20th Century-Fox, foi acusado de evasão de impostos. O presidente Roosevelt pediu ao Promotor Público Robert Jackson (que mais tarde iria presidir o julgamento dos líderes nazistas em Nuremberg) para apenas multar o chefe do estúdio, e assim fez o filho de Roosevelt, James, para quem Joseph havia emprestado U$ 50.000. Mas o correto Jackson insistiu na sentença de prisão. Schenck ficou quatro meses na prisão até receber condicional.”

Em setembro de 1941, um subcomitê do Comitê de Comércio Exterior começou a audiência pública sobre “propaganda de guerra disseminada pela indústria cinematográfica e do monopólio na produção, distribuição ou exibição de filmes.” Esta investigação foi idealizada pelo senador isolacionista de Dakota do Norte, Gerald P. Nye. O chefe de conselho para Hollywood era Wendel Willkie, internacionalista e candidato presidencial republicano em 1940. Este último esforço dos isolacionistas chegou tarde demais e foi muito tímido. O ataque japonês a Pearl Harbor três meses depois encerrou as audiências.

Uma vez que os Estados Unidos estavam em guerra com a Alemanha (que havia declarado guerra aos EUA imediatamente após Pearl Harbor), os estúdios produziram filmes anti-nazistas um após o outro. As platéias de hoje são capazes de rir de tais “clássicos” feitos na época, como Blitzkrieg Rústica, Mulheres em Cativeiro, O Diabo com Hitler, Escapei da Gestapo, As Crianças de Hitler, A Moléstia Nazista, A Estranha Morte de Adolf Hitler, Inimigo das Mulheres, Os Loucos de Hitler, A Raça Superior, A Gangue de Hitler, Hotel Berlim e Tarzan Triunfa. (N. do T.: é engraçado como mesmo após 70 anos do fim da Guerra, produções desta natureza ainda continuem sendo feitas, alguns casos recentes são Bastardos Inglórios, Lago dos Zumbis e Outpost, ambos retratando soldados zumbis da SS, e Iron Sky.) Koppes e Black resumem a estória de Tarzan Triunfa:

“Agentes nazistas descem de pára-quedas no reino pacífico de Tarzan e ocupam uma fortaleza, esperando explorar petróleo e estanho. Johnny Weissmuller, ingênuo, porém capaz de comandar os selvagens nobres, reúne os nativos (curiosamente todos brancos) contra o Eixo. ‘Matem os nazistas!’ ordena Tarzan aos nativos. Eles balançam a cabeça positivamente. Os alemães são tão detestáveis que até mesmo os animais se voltam contra eles. Tarzan persegue o líder das tropas nazistas na floresta e, quando o oficial alemão em estado desespero chama Berlim pelo rádio, Tarzan o mata. Em Berlim, o operador de rádio reconhece o pedido de socorro e avisa o general responsável pela campanha africana. Enquanto Tarzan, o Rei da Floresta, olha dando gargalhadas, o chipanzé Cheetah tagarela no transmissor. Ignorante da batalha nas profundezas da floresta, o general ouve o chipanzé no rádio, bate os pés, faz a saudação nazista e avisa seus subordinados que eles estão ouvindo não a África, mas o próprio Führer.”

Os papéis de nazistas sádicos, pervertidos e malucos nestes filmes eram feitos por “malvados” típicos de Hollywood, como George Siegman, Erich Von Stroheim, Walter Long e Hobart Bosworth. O ator Bobby Watson manteve-se ocupado nestes anos interpretando Adolf Hitler. Entretanto, Hollywood produziu alguns filmes de qualidade entre os 2400 realizados entre 1939 e 1945, por exemplo, Casablanca (Warner Bros, 1943), The Story of G.I. Joe (United Artists, 1945) e Lifeboat (Fox, 1944). Contudo, os melhores filmes apareceram após a guerra terminar.

Os japoneses não tiveram destino melhor nas mãos dos fabricantes de sonhos de Hollywood. Em Pequena Tóquio, EUA (Fox, 1942), todos os descendentes de japoneses são retratados como leais ao Imperador e capazes de sabotagem e traição. Este filme defendia vigorosamente o internamento de todos os americanos de ascendência japonesa. No final do filme, quando “um policial verdadeiramente americano de Los Angeles”, chamado Mike Steele, após desbaratar a rede de espiões japoneses, realiza o sonho de todo americano sedento por vingança, nocauteia o vilão japonês proclamando “Isto é por Pearl Harbor, olhos puxados!”

O militarismo sanguinário japonês foi retratado em The Purple Heart, Diário de Guadalcanal, Wake Island, Ameaça do Sol Nascente, Relembrando Pearl Harbor, Perigo no Pacífico e outros. Koppes e Black nos lembra que “Era raro um filme que não empregasse termos pejorativos como ‘japas’, ‘bestas’, ‘macacos amarelos’, ‘retalhos’ ou ‘ratos de olhos puxados’. Os soldados japoneses eram frequentemente mostrados estuprando mulheres brancas, em geral loiras ‘turbinadas’. Outra imagem freqüente era a do piloto de caça japonês sendo metralhado em sua cabina, com o sangue jorrando pelo vidro e gritando em agonia enquanto seu avião mergulha no oceano.

O auge do absurdo na escalação de elenco aparece em Semente do Dragão (MGM, 1944) no qual brancos altamente maquiados, incluindo a loira Katherine Hepburn, interpretam chineses, enquanto chineses verdadeiros interpretam japoneses.

Em 1943, a Warner Bros estreou Missão em Moscou, baseado em um livro homônimo de Joseph E. Davies, embaixador americano na União Soviética entre 1936 e 1938. Os autores de Hollywood vai à Guerra classificam esse filme como “o mais notável exemplo de propaganda sob o disfarce de entretenimento já produzido m Hollywood.” Missão em Moscou copia o estilo documentário a carreira de Davies como embaixador e os eventos ocorridos na União Soviética e no mundo de meados dos anos 1930 até 1941.

A administração Roosevelt estava intimamente envolvida na produção do filme, o qual representava o presidente como grande internacionalista e anti-fascista. Davies tinha poder sobre a aprovação do roteiro e foi o grande responsável pelo encobrimento dos crimes de Stalin em Missão em Moscou. Davies insistia que a invasão soviética da Finlândia deveria ser retratada como um “convite” da Finlândia aos soviéticos para ocupar posições estratégicas contra a Alemanha. Analogamente, outros crimes soviéticos dos anos 1930 são ignorados: a invasão da parte oriental da Polônia em 1939, a agressão contra os países bálticos e a coletivização forçada dos kulaks (camponeses) na Ucrânia, que resultou na morte pela fome de milhões de pessoas. O filme apresentou os julgamentos de expurgo em Moscou como o resultado das tentativas de Trotsky, Bukharin, Krestinsky e outros “Velhos Camaradas” de entregar a União Soviética para a Alemanha e Japão. Missão em Moscou usou técnicas de documentário para agregar realidade, descrevendo os isolacionistas americanos como um complô secreto para submeter a vontade do povo à “segurança coletiva”. A União Soviética era descrita como uma terra rica em contraste com a Alemanha nazista, que carecia de comida e outros bens. O público foi levado a crer que a União Soviética era uma “democracia” e o povo russo era “parecido com os americanos.”

A maioria dos grandes estúdios produziu filmes pró-soviéticos nos últimos anos da guerra, incluindo Canção da Rússia (MGM, 1943), Três Garotas Russas (United Artists, 1943), Estrela Polar (MGM, 1943), O Garoto de Stalingrado (Columbia, 1943), Dias de Glória (RKO, 1944) e Contra-ataque (Columbia, 1945).

Sem dúvida, os estúdios de Hollywood queriam contribuir com o esforço de guerra e derrotar o Eixo, embora simultaneamente os magnatas do cinema não quisessem ser aconselhados a administrar suas corporações monopolistas. Mais importante para estes executivos de estúdios eram os lucros. No início e meados dos anos 1930, os estúdios mudaram o conteúdo dos filmes para permitir-lhes serem exibidos nos mercados lucrativos crescentes da Alemanha, Itália, Espanha e América Latina. Cerca de 5.000 salas de cinema na América Latina exibiram filmes americanos, 6.000 salas na Ásia e incríveis 35.000 salas na Europa.

Hollywood vai à Guerra fornece um quadro claro do que acontece quando uma indústria poderosa e o governo tentam controlar a opinião púbica. Como expresso na Conclusão:

“Hollywood sempre afirmou que somente dava ao público o que ele queria, e citou a popularidade dos filmes como prova. Mas, desde que o cartel controlava o poder de escolha, Hollywood estava apenas dizendo que o povo comprava o que lhe era dado.”

Fontes:

http://encyclopedia.jrank.org/articles/pages/2910/The-Hollywood-Studio-System-in-1940-1941.html

http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/GoldenAgeOfHollywood

http://www.ihr.org/jhr/v08/v08p104_Wikoff.html

http://www.freerepublic.com/focus/f-news/1083144/posts