domingo, 24 de março de 2013

[POL] A Formação do Pensamento Político de Adolf Hitler

Voltaire Schilling

Acostumou-se a pensar ter sido Adolf Hitler, morto em 1945, uma vergonha dentro da civilização Ocidental e cristã, espécie de excrescência política sem raízes na nossa tradição. A indução a esse tipo de erro deve-se em parte à conceituação de ser essa civilização apresentada como um monopólio identificado com os princípios do humanismo, do liberalismo e da tolerância, omitindo-se discretamente sua latência colonialista, racista e agressiva, que germinava na cultura ocidental.

Antes de apresentarmos os argumentos necessários a refutar as considerações iniciais, acreditamos ser necessário alertar para as dificuldades que se antepõem àqueles que pretendem rastrear sua ideologia. Em primeiro lugar, Hitler sempre manifestou clara ojeriza ao intelectualismo, dando ênfase ao primado da vontade e da ação. Em segundo lugar, a totalidade da sua obra política ainda não foi reunida. Ele próprio empenhou-se em evitar uma edição dos seus discursos.

A razão disso é muito simples. Como todo e qualquer político de massas, ele foi é obrigado a realizar pronunciamentos muitas vezes contraditórios oscilando suas opiniões conforme o momento ou o público. Sendo crente no princípio da infalibilidade da liderança - o Führerprinzip - Hitler não admitia que encontrassem em seus pronunciamentos, incoerências ou idiossincrasias que causassem dúvidas ou lançassem sombras sobre sua integridade ideológica.

Portanto, enquanto não for realizado o levantamento completo de seus discursos, e boa parte deles se encontram transcritos no órgão oficial do partido nacional-socialista - o Völkischer Beobachter - devemos nos contentar com o Mein Kampf, publicado em 1925, ou as anotações feitas nas Tischgespraechen e ainda o Adolf Hitler in Franken.

 
Análises sobre Hitler

O papel de Adolf Hitler gerou uma bibliografia verdadeiramente pródiga e , em geral, de excelente nível; tais como as de Ernst Noite (Der Faschismus in seiner Epoche); a de Karl D. Bracher (Die deutsche Diktatur); a do historiador britânico Alan Bullock ( Hitler: a study of a tirany) e o mais recente trabalho de Joachim Fest (Hitler), que anteriormente já se havia consagrado com a notável Das Gesicht des Dritten Reiches.

Devemos lembrar ainda o livro do professor J.P. Stern (Hitler: the Führer and the people) editado a pouco menos de sete anos, caracterizado pelo seu esforço de síntese e brilho intelectual. Merecendo um especial destaque a imensa obra de Ian Kershaw editada em dois tomos: Hitler, 1889-1936 Hubris ; Hitler, 1936-1945 Nemesis, aparecidas em 1998 e 2000, e traduzidas para o português (Hitler, Companhia das Letras, 2009).

Quase todos esses trabalhos foram sob o prisma da interpretação liberal ou social-democratica, corrente que até agora se mostraram mais ativas na sua tentativa de compreensão do nacional-socialismo. Deve-se igualmente alertar que a personalidade de Hitler tem sido minuciosamente averiguada pelos adeptos da psico-história. No entanto basta passar os olhos sobre esse tipo de literatura para se ficar em dúvida sobre a sanidade, não de Hitler, mas a de seus psico-intérpretes.

Hitler segundo o marxismo

Não deixa de parecer estranho que até os nossos dias o pensamento marxista foi incapaz de produzir um trabalho clássico sobre o seu principal e formidável inimigo, aquele que desejava exterminá-lo. A literatura marxista não tem sido feliz em suas análises, demonstrando uma impotência teórica abrumadora: repetem ad nauseam os conhecidos ditos de ter sido Hitler o representante máximo da "ditadura do capital financeiro" ou o "tirano do capitalismo monopolista", terminando por reduzir o nazismo a um epifenômeno da economia, não apresentando nenhuma razão mais contundente para as massas germânicas terem aderido às suas propostas.

Por outro lado, essa impotência é reveladora porque de sua derrota nos anos 1920 e 1930 frente ao nazi- fascismo. Um esforço recente foi aquele realizado pelo neomarxista Nicos Poulantzas (Fascisme et Dictadure), mas que deixou muito a desejar na medida em que encontrou muito mais preso à metodologia estruturalista do que ao maior legado de Marx, que foi a História.

O caminho prussiano

Enquanto os jacobinos e girondinos franceses destroçavam as amarras do Ancien Regime por meio de um processo revolucionário que sepultou a nobreza feudal, aos intelectuais alemães coube realizar uma "revolução pelo espírito", que produziu apenas excelentes tratados filosóficos. Não está longe da verdade a imagem de terem os pensadores alemães se debruçado sobre as margens orientais do Reno e assistido embevecidos às façanhas irreverentes de seus vizinhos.

Alguns mantiveram esperanças que o "espírito da razão" atravessasse as braçadas o rio e emancipasse a nação alemã. Mas não foi o "espírito" e sim o Grande Exército napoleônico quem se apossou da nação alemã. Não foram os argumentos iluministas os mais convincentes, mas sim a artilharia francesa. Assim, na Alemanha, o liberalismo vinculou-se inarredavelmente ao exercito de ocupação - a algo estranho a ser rejeitado pelos "verdadeiros alemães". E quando se deu o desabamento do império napoleônico, a vitória coube às forças conservadoras feudais da Santa Aliança, coligação tradicionalista e aristocrática que continuou a gozar de prestigio junto à população alemã.

Na medida em que se considerava impotente para derrubar o poderoso Estado militar-feudal prussiano, sediado em Berlim, a burguesia alemã resignou-se, escolhendo a capitulação. Ainda em 1848/9, na chamada Revolta dos Poetas, tentou inutilmente impor suas diretrizes de cunho liberal, mas fracassou. O medo que o populacho pudesse avançar politicamente refreou-lhe o desejo de emancipação.

Deste modo, frustrada a solução da unificação nacional pela via liberal, só restou ao capitão da progressista região do Reno seguir o junker, o guerreiro feudal e comandante das armas do exército prussiano. O resultado disso foi a ascensão do II Reich, fundado por Otto von Bismarck, o estadista prusssiano que consolidou o poder autoritário sobre o restante da Alemanha às custas de guerras.

A burguesia alemã submete-se ao Estado Feudal

Bem antes, o filósofo Hegel havia traçado o perfil desse peculiar acordo entre a burguesia alemã e o aparelho feudal-prussiano. "O Estado", disse ele "é o espírito como vontade substancial revelada clara para si mesma, que se conhece e se pensa e realiza o que sabe e porque (...) enquanto o individuo obtém sua liberdade substancial da sua atividade".

Quer dizer, a liberdade não se dá como ocorreu entre a burguesia inglesa e francesa, isto é contra o Estado, limitando-lhe o poder e a autoridade , mas sim por meio dele e sob a atenta proteção dele. Friedrich Engels, o companheiro de Karl Marx, furibundo sintetizou tal situação de conformismo afirmando que a gente de classe média alemã, estreita de pensamento, deixara a aristocracia prussiana no leme do Estado conquanto pudesse ganhar dinheiro.

Portanto, todo o roteiro de transformações por que a Alemanha passou no século 19 (basicamente sua unificação nacional e acelerada industrialização) se deu dentro dos "quadros de ferro" do estado feudal-militar com seu culto à disciplina e à ordem e com escassa tolerância para com a dissidência política, consagrando o dito "Gegen demokraen helfen nur soldaten", contra democratas só adianta soldados.

Esta contradição histórica e social, onde encontramos os meios de produção nas mãos de burgueses e as instituições políticas ocupadas pela casta militar dos junker, terminou mais tarde por conduzir o país à camisa-de-força do nacional-socialismo. A dolorosa gravidez da burguesia alemã não produziu um nascituro democrático, e sim um tirano expressionista.

O Social-Darwinismo

Hitler não se abeberou somente do passado nacional alemão, com seu culto ao militarismo e ao estado todo- poderoso. O social-darwinismo, extremamente difundido a partir da publicação da obra de Charles Darwin em 1859, teve um peso inequívoco em sua concepção ideológica.

A ideia básica dessa teoria era que, como na selva, os destinos dos povos e a evolução geral da sociedade eram regidos por fatores de ordem biológica. As mesmas leis que existiam na selva e nas savanas imperavam na sociedade humana.

No plano político, a ideologia social-darwinista conduzia a fazer uma apologia dos mais fortes, daqueles que conseguiam se impor perante o rebanho. Seriam eles, os ricos, os poderosos, os proprietários, os condutores naturais da sociedade humana da mesma forma que os leões se impõem sobre os demais animais da floresta.

Segundo esse raciocínio, qualquer ideia que propusesse a igualdade entre os homens não estaria apenas propagando uma quimera como igualmente cometendo um atentado contra a natureza.

Os social-darwinistas propunham um processo de seleção rigorosa por meio da eugenia, operação que exigia ao mesmo tempo a eliminação e a procriação de certos tipos humanos - um controle biológico qualitativo, que permitiria a supremacia de alguns sobre os demais.

Radicalizando-se com o tempo, defendiam a eliminação dos desajustados, o apelo ao dirigismo técnico para a política de colonização, o internamento forçado em silos e a esterilização dos elementos tidos como inferiores.

Essa doutrina trazia em bojo uma categórica rejeição tanto ao socialismo como à democracia na medida em que tanto um como outro se opõe ao domínio do mais forte, ao sucesso do mais apto e capaz, como era aceito pelos social-darwinistas.(*)

Não existe igualdade na selva nem se dá a partilha equitativa dos recursos materiais. Os leões não são iguais aos cordeiros nem eleitos por esses. Eles simplesmente se impõem aos demais. Como facilmente se observa, todo o programa nacional-socialista já se encontrava previamente esboçado nessas teorias que tinham ampla difusão e aceitação por toda Europa "respeitável" no período anterior à Primeira Guerra Mundial. Já Mussolini bradava a respeito do Movimento Fascista, Noi il leone! Nós os leões!

(*) o termo social-darwinismo surgiu em 1879 por obra de um artigo publicado na revista Popular Science por Oscar Schmidt. Seus antecedentes ideológicos prestam tributo ao demógrafo e economista inglês Thomas Malthus, ao sociólogo Herbert Spence, ao sobrinho de Darwin Francis Galton e ao biologista alemão Ernst Haeckel.

A visão conflitiva da humanidade

Em sua visão universal (Weltanchauung) havia uma luta permante entre dois tipos de humanidade. Uma, a desprezada por ele, a que denominou de "humanidade individualista", guiava-se por sentimentos de fraternidade e espírito de colaboração, influenciada por princípios morais religiosos ou inspirada em filosofias sociais que visavam a contenção dos instinto e da agressividade humana.

A outra, a qual ele se alinhava, era a "humanidade natural", que se aproximava com mais fidelidade das leis mais primárias, que justamente são as que "destroem a debilidade para dar lugar à força". Esta celebra a coragem, o destemor, deixando-se levar pelos impulsos originais mais chãos que lhe permitem a superação dos desafios e o empenho na liquidação dos mais débeis.

Este conflito entre estas duas humanidades se estende para os povos e os países. Dada a perspectiva de escassez futura das possibilidades materiais de reprodução da vida - visto que está em curso uma implacável disputa por espaço, - somente aquele "mais forte em coragem e em zelo", o que possui "a energia de o conquistar e o cuidado de o cultivar", é que receberá "o prêmio da existência", que sempre contempla o mais resistente. A natureza "não conhece limites políticos".

Assim, somente a "cegueira pacifista" de certos povos faz com que desistam das conquistas necessárias à reprodução e ampliação das raças fortes. E, se fazem isto, incorrendo no erro, contribuem para limitar-se e debilitar-se e, por isto mesmo, condenando-se a desaparecer do cenário da vida.

Duas ordens disputam o futuro da humanidade. A primeira esta baseada na presença do número, regida pelo espírito da democracia que teima em representar e promover as inúmeras raças mais fracas (cuja vitória representaria fatalmente o sucesso da anemia e da covardia, projetando o definhamento geral da humanidade), a outra, ao contrário, será aquela em que as leis da "ordem natural" estarão no comando.

O conflito filosófico claramente se dava entre o ideário iluminista, repudiado por ele, e o darwinista, do qual se julgava intérprete e seguidor. Este embate não se dava pela luta de classes como os marxistas supunham, mas pela luta entre raças, um choque titânico pelo controle do mundo.

Neste caso, os reais vencedores serão "os povos de vontade brutal", aqueles que não exigirão nenhum limite dos seus, nem aos seus instintos naturais e nem ao desejo de expansão e conquista.

Esta luta fenomenal pela existência que cobre o planeta inteiro fará desaparecer as inibições inerentes "ao espírito de humanidade" (composto, segundo Hitler, por "palermice, covardia e pretensa sabedoria"), visto que o "instinto de conservação" é imensamente superior a tudo o mais e não se deixa prender por considerações de ordem ética ou moral. Tudo se move "numa luta perpétua, a paz eterna pô-la-á (a humanidade) no túmulo". (ver Adolf Hitler - Minha Luta, cap.IV).

Simultaneamente, embebido pela concepção heróica da história que ele absorvera de Thomas Carlyle (**), viu o choque entre as nações como embate entre seus líderes. Eram os super-homens ou titãs modernos quem entravam na liça e venciam a parada. As massas apenas os seguiam, obedientes e fiéis. A guerra era sempre uma atividade de gênios ou de gigantes, de personalidades excepcionais que saiam-se bem devido a sua férrea vontade e vocação para o sucesso.

Hitler tinha total confiança na sua estrela porque acreditava que o clarão da vitória iluminava aquele que tivesse a vontade de poder e seguisse a preponderância do mais forte, e não pelos que dispunham de quantidades materiais.

Era a personalidade não o número é que importava (mentalidade que de certa forma explica o desatino dele em, confiando nos alemães serem uma super-raça, manter guerras simultâneas contra o Império Britânico, contra a União Soviética e contra os Estados Unidos).

(**) Ele se impressionara com o famoso livro de Carlyle sobre a biografia de Frederico o Grande, publicado entre 1858 1868, no qual ele defende o primado do herói sobre tudo o mais.

O racismo

Outra poderosa vertente que fluirá para o caudal da ideologia nacional-socialista estava armazenada no pensamento racista do século 19. Deve-se observar que as teorias racistas apresentavam em comum um "lamento aristocrático", um fatalismo da nobreza europeia que, apesar de ainda granjear respeito, sentia-se cada vez mais marginalizada do poder político pelo processo histórico.

Incapazes em poder explicar seu declínio social por meio racional, diziam que a "decadência da raça aristocrática" resultara de uma irresponsável miscigenação com grupos inferiores.

Justificaram o declínio da nobreza pela degradação biológica da sua espécie. Seu principal representante foi o francês José Artur , conde Gobineau, autor do Essai sur I¿inégalle dès races humanes, Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, de 1853/5, que determinou não só a superioridade da raça branca sobre os demais, como explicava as distinções sociais entre nobreza, burguesia e povo de acordo com sua maior ou menor participação no sangue ariano (raça superior mitológica, formadora da aristocracia europeia e dos brancos "puros" em geral).

Coube a outro francês, o antropólogo Vacher de Lapouge, autor do L¿ Arien, son role social, O ariano e seu papel social, levar o naturalismo às últimas consequências. Na medida em que o homem não é a imagem de Deus, só são válidas as leis do reino animal. O Ariano - rocher de bronze - que apresenta estabilidade do sangue e é o motor do progresso e da civilização humana e se encontra socialmente representado na classe dominante.

Por último, lembramos aquele que interpretou toda a história da humanidade sobre o prisma racista - o inglês Houston S. Chamberlain. Autor do famoso ensaio Die Grundlagen des Neunzehnten Jahrhunderts, Os Fundamentos do Século 19, aparecido em 1899, onde acentua à luta entre as raças, interpretando a História como um conflito entre elas.

Ele considerava os alemães como os últimos portadores de elementos sanguíneos puros na medida em que, graças à sua situação geográfica, não foram contaminados nem pelo decadentismo latino, nem pela barbárie asiática, como ocorrera com os eslavos. Esta crença na supremacia teutônica lhe foi inculcada pela convivência com o compositor Richard Wagner, de quem se tornou genro, quando passou a ser um integrante do Círculo Bayereuth, composto por escritores e intelectuais ultra-nacionalistas.

Quando foi apresentado a Hitler, então no início de sua carreira, afirmou "o fato de que a Alemanha tivesse dado á luz um Hitler, na hora de sua maior desgraça, demonstrava sua vitalidade como nação."

O antissemitismo

Se a difusão das ideias racistas poderia parecer uma novidade no contexto cultural europeu, o mesmo não se pode dizer em relação ao anti-semitismo (***), cujas origens datam no mínimo do tempo das Cruzadas. Deve-se observar, no entanto, uma radical modificação nos argumentos dos antissemitas. Até o século 18, o preconceito contra os judeus se fundamentava em razões de ordem religiosa ou teológica.

No século 19, com o enorme desenvolvimento das ciências naturais e positivas, os argumentos cristãos caíram em desuso. O moderno antissemitismo então vai se abeberar na corrente naturalista, dando o surgimento de um anti-semitismo secular que retira seus argumentos da fisiologia, da biologia, da genética e da bacteorologia.

A partir de então a literatura reacionária é pródiga na utilização de termos como "vírus judaico", "bactérias nocivas", aos quais contrapõe a política da eugenia, da preservação da raça branca ariana. Mas o anti-semitismo redobra suas forças não só pelos argumentos obtidos junto aos naturalistas.

O século 19, é o século do nacionalismo burguês, perante o qual o judeu foi visto como um elemento não assimilável, um cosmopolita incorrigível, um apátrida incapaz de aderir ou compreender o conceito de nação. Fato explicitado pelo famoso Caso Dreyfuss, ocorrido na França no final daquele século.

O mesmo tema, da impossibilidade de adaptação do judeu a uma outra cultura, foi abordado pelo famoso historiador Heinrich Treitchke, símbolo maior da Alemanha "respeitável", num ensaio de grandes repercussões, publicado em 1879. Um dos seus discípulos foi o professor Hans Gunther, autor da Pequena Etnologia do Povo Alemão, aparecido em 1929, no qual ele celebrou o Ariano Nórdico como a vanguarda da civilização, condenando com veemência a "introdução de sangue estrangeiro" na Europa.

Além disso, o anti-semitismo tomou impulso, segundo o historiador Robert Seltzer, por ser uma reação ao sucesso dos judeus emancipados em meio à sociedade europeia do século 19, situação que passou a causar mais temor ainda do que a imagem do antigo judeu de gueto que somente de vez em quando era assolado por violências e pogroms.

Por fim, sob o ponto de vista da direita feudal, a ascensão social dos judeus é a prova inconteste da decadência ocidental da sociedade capitalista, responsável pela extirpação dos valores aristocráticos.

(***) A expressão anti-semita ou anti-semitismo foi cunhada em 1873 por Wilhelm Marr, um escritor alemão, autor de O caminho da vitória do Germanismo sobre o Judaísmo, que teve larga difusão por todo o país.

Facilmente verifica-se que a formação do pensamento político de Hitler deitava raízes firmes no passado recente europeu, nas novas doutrinas anti-democráticas e anti-socialistas que não paravam de emergir num cenário de rivalidade intensa entre as potências e de expansão do domínio do homem branco sobre o restante do planeta, doutrinas estas que eram aceitas e difundidas por intelectuais respeitáveis.

Natural que depois da Segunda Guerra desejassem apresentá-lo como uma aberração, uma exceção, como se não houvesse racismo nos Estados Unidos, ou que a política de eugenia (a seleção dos racialmente melhores) fosse praticada somente na Alemanha Nazista, quando ela era praxe em muitos países europeus (na Suíça e na Escandinávia) e mesmo em 25 estados da América do Norte. O que não exime em nenhum momento da responsabilidade de Hitler tê-las adotado como política do estado alemão com terríveis consequências para a humanidade.

Bibliografia

Fischer, Klaus P.- Nazi Germany: A New History (1995);
Friedlander, Saul - Nazi Germany and the Jews (1997;
Kershaw, Ian - Hitler, 1889-1933, Hubris,(2001);
Maltitz, Horst von - The Evolution of Hitler's Germany (1973);
Milfull, John (editor) - Why Germany: National Socialist Anti-Semitism and the European Context (1993);
Seltzer, Robert M. Jewish People, Jewish Thought - The Jewish Experience in History (1980);
Tuchman, Barbara - A Torre do Orgulho (1966).


Tópicos Relacionados:

O Mito Hitler - Entrevista com Ian Kershaw


Hitler: Além da Maldade e da Tirania

terça-feira, 19 de março de 2013

[SGM] Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Stalin

Resenha do livro Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin, de Timothy Snyder.


Para a maioria das pessoas, que se interessa pela Segunda Guerra Mundial, a carnificina começou em 1939, bem antes das potências vencedoras do conflito – Estados Unidos e União Soviética – entrarem na guerra oficialmente. Timothy Snyder, um professor de história em Yale, mostra-nos como o extermínio em massa de pessoas e a destruição resultante dessa ação começaram no regime de Stalin e então passaram para o Reich de Hitler.

A época estudada está entre 1933 – o início da segunda onda de fome na Ucrânia – e 1945. A região de interesse é o território que fica entre a Polônia central e aproximadamente a fronteira da Rússia, cobrindo a Polônia oriental, Ucrânia, Belarus e as repúblicas bálticas. Naqueles anos e naqueles locais, um total inimaginável de 14 milhões de pessoas inocentes, a maioria dos quais mulheres e crianças, foram executadas, gaseadas ou intencionalmente deixadas para morrer de fome. As “terras de sangue” tornaram-se dois países: o Reich alemão e a União Soviética. Agindo em harmonia, estes dois países engoliram outros países da região. Claramente, então, as terras de sangue não são somente a estória da fome, guerra e massacre, mas também da conquista imperial.

Os três principais grupos de vítimas civis foram os judeus exterminados pelos alemães, os não-judeus exterminados também pelos alemães e os cidadãos soviéticos mortos por seu próprio governo. Neste caso, Snyder também poderia ter incluído os judeus e não-judeus mortos pelos aliados da Alemanha, pois sem a ação destes, muito menos judeus, ou poloneses e russos, teriam perecido. Como Snyder mostra, sem a polícia judaica, que tomava conta dos guetos e não permitia a saída dos judeus, mais pessoas desse povo teriam sido capazes de evitar a deportação para os campos de extermínio.

No relato de Snyder, as terras de sangue tiveram três períodos. O primeiro aconteceu entre 1933 e 1938, quando os soviéticos sozinhos realizaram a matança; a segunda fase, de 1939 e 1941, foi marcada pela colaboração de alemães e soviéticos na tarefa; e a terceira durou de 1941 a 1945, quando os alemães foram os principais responsáveis pelo extermínio em massa.

Acima de tudo, muito mais pessoas morreram nas terras de sangue nos anos 1930 e 1940 – de fome, tifo,frio, fogo, trabalho forçado, tortura e assassinato – do que em todo o resto da Europa. Podemos contestar a tese de Snyder argumentando que outras áreas da Europa foram analogamente afetadas – a Alemanha, com seu meio milhão de civis aniquilados pelos bombardeios aliados; ou a Grécia, onde 100.000 civis morreram durante a fome de 1941-42; ou o norte da Holanda, onde milhares foram deixados para morrer de fome no início de 1945; ou a Romênia, onde 300.000 judeus foram eliminados num Holocausto interno; ou a Hungria, onde em 1944, as autoridades entregaram 400.000 judeus para o extermínio nos campos alemães; ou a Iugoslávia, onde a guerra civil resultou em centenas de milhares de vítimas; ou em outros lugares da União Soviética, onde muitas minorias étnicas vivendo a leste das terras de sangue foram deportadas e parcialmente aniquiladas sob as ordens de Stalin durante a guerra. Porém, devemos concordar com Snyder essa honra maldita, de ter perdido a maior proporção da população durante a guerra, pertence à Polônia, Ucrânia, Belarus, as repúblicas bálticas e à Rússia ocidental. A tragédia dos outros estados europeus empalidece em comparação.

Na União Soviética, parece agora que, apesar de cerca de um milhão de pessoas terem perecido nos campos de trabalho, nove entre 10 prisioneiros de gulag sobreviveram. O grande assassinato de Stalin aconteceu não na Sibéria, mas nas repúblicas ocidentais soviéticas, acima de tudo a Ucrânia, onde nos anos 1930 pelo menos 3 milhões de pessoas morreram em fomes induzidas no massacre do campesinato kulak (N. do T.: o número pode atingir até 7 milhões, de acordo com alguns autores). A Ucrânia tornou-se o marco zero da fome induzida. O regime comunista confiscou os grãos das cidades, enquanto vigiava as fronteiras para impedir que o povo escapasse, ou fosse testemunha. O Holodomor, como os ucranianos o chamam, destruiu mais de 3 milhões de homens, mulheres e crianças. Mais de 2.500 foram condenados ao canibalismo em 1932 e 1933. Em 1937, “o censo soviético encontrou oito milhões de pessoas a menos do que havia sido projetado,” em grande parte na Ucrânia. Stalin se recusou a divulgar a informação e, consistente com sua prática geral, “mandou executar os demógrafos.”

As causas e motivações da coletivização, e da resultante fome catastrófica na Ucrânia Soviética e em outros lugares da URSS, ainda são calorosamente debatidas, mas pelo menos ninguém diz que ela não aconteceu. Isto nem sempre foi o caso. Em 1932-33, e em alguns casos mais tarde, todos os líderes soviéticos, e também alguns observadores ocidentais, como os jornalistas Walter Duranty e Louis Fischer, assim como o ex-primeiro ministro francês Édouard Herriot, negaram o fato completamente. As reportagens honestas do jornalista galês Gareth Jones e do jornalista britânico Malcolm Muggeridge foram censuradas pela mídia ocidental, tão grande era o fascínio do mundo com o experimento soviético. E todos aqueles que admitiam que havia fome em várias partes da União Soviética geralmente utilizavam o princípio apelativo do “você não pode fazer um omelete sem quebrar uns poucos ovos” – isto é, apesar da fome ser lamentável, era também uma necessidade política e econômica, um elemento indispensável à modernização.

Snyder demonstra que ao invés de aliviar o sofrimento no interior da Ucrânia, a liderança soviética fez o que pode para agravar as consequências da péssima colheita e garantir a fome. O campesinato como um todo foi tratado como um bando de sabotadores e saqueadores. Desde que as cotas de entrega eram impossíveis de ser cumpridas, brigadas formadas de trabalhadores industriais de outras regiões foram formadas para bater nos camponeses e manter suas fazendas limpas. Aqueles suspeitos de esconder ou destruir suas produções eram fuzilados ou enviados a campos de concentração. Tendo sido negados a passaportes internos, os camponeses famintos foram proibidos de entrar nas cidades. Eles sequer podiam ir a um hospital. Milhares morreram nas estações ferroviárias, nas beiras das estradas ou nas vilas. Historicamente, em épocas de fome, os produtores têm mais alimento do que os consumidores, mas neste caso, os produtores estavam em situação pior do que aqueles que viviam nas cidades, que recebiam bilhetes de ração negados aos camponeses.

Uma parte do campesinato, geralmente a mais próspera, era chamada de “kulak” e sujeita a perseguição particular. De certo modo, os kulaks eram tratados como os judeus na Alemanha Nazista – por exemplo, as autoridades publicamente proclamavam que a criminalidade kulak era hereditária e não poderia ser aliviada com a entrega da terra da família para o Estado. De fato, a ideia da criminalidade hereditária kulak continuou mesmo após a guerra, atingindo todo o bloco soviético. Na Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e Romênia, “kulaks e crianças kulaks mal educadas” eram enviados à prisão por sabotar seu estoque, mas também por tentar comprar forragem e pão nas cidades para abastecer seu estoque. Eles eram acusados de sabotar a produção socialista e de conspirar com o inimigo titoísta (N. do T.: seguidor do Titoísmo, um comunismo praticado na Iugoslávia durante a tirania de Tito) e americano.

As páginas mais terríveis no relato de Snyder da Grande Fome são aqueles que descrevem incidentes de canibalismo. Os aldeões ucranianos primeiro se alimentavam de cadáveres, porém mais tarde também matavam e se alimentavam de suas próprias crianças, ou mesmo as crianças se alimentavam de seus pais. Alguém, de alma corajosa, devia escrever um estudo acadêmico sobre o canibalismo praticado na Europa Oriental durante os anos 1930 e 1940, não só na Ucrânia, mas também na Leningrado sitiada, entre soldados soviéticos em campos de prisioneiros de guerra alemães, e até, eventualmente, em campos de prisioneiros de guerra soviéticos para os soldados alemães e outros. Curiosamente, não existem relatos de canibalismo entre judeus nos campos de concentração alemães. Isto deve ser devido ao fato de que tais judeus, que não foram fuzilados ou gaseados, receberam alguma alimentação. A morte por fome começou nos campos de concentração alemães somente nos últimos meses de guerra, quando o sistema nazista de rações de baixa caloria para os prisioneiros já não estava mais funcionando.

Mas Stalin não estava satisfeito. Em poucos anos, o Grande Terror, como é chamado, atingiu funcionários do partido e o Exército Vermelho, levando à execução de dezenas de milhares de oficiais e servidores públicos. O Terror também envolvia a matança de centenas de milhares de camponeses e membros de minorias nacionais, mais acentuadamente os poloneses soviéticos e, mais uma vez, os ucranianos. Stalin sentiu a necessidade de explicar as fatalidades da coletivização culpando os inimigos que sabotavam seus planos. Os poloneses vivendo dentro da União Soviética, que chegaram a 600.000 na época, preenchiam os requisitos. Ordenando prisões em larga escala, a polícia estatal buscava por sobrenomes poloneses na lista telefônica. Em Leningrado, quase 7.000 pessoas foram presas; uma grande maioria foi executada em apenas 10 dias. Deve ser admitido que, pelo menos em relação aos militares, a loucura de Stalin foi somente temporária, e que o Alto Comando alemão cometeu um grande erro ao interpretar que o Grande Terror era um sinal de fraqueza nas forças armadas soviéticas. Uma parte dos oficiais soviéticos libertados dos gulags foram aqueles que, entre 1941 e 1945, derrotaram os nazistas.

Na época em que o Grande Terror começou, em 1937, a diplomacia soviética havia mudado do isolacionismo para uma política de Frente Popular, favorecendo a cooperação com todas as forças esquerdistas contra a ameaça fascista de Hitler. Mesmo assim, em casa a capmpanha de terror atingiu seu ápice nesa época, incluindo os Grandes Espetáculos Jurídicos (Show Trials), um procedimento pavoroso inédito. Durante sua existência, incontáveis supostos conspiradores, sabotadores, saqueadores, espiões alemães, poloneses e japoneses, trotskistas e traidores social democratas foram torturados, julgados e executados, ou executados sem um julgamento. Em outras palavras, o Grande Terror era o reconhecimento que o povo não era julgado por sua classe, por sua posição na ordem econômica, mas por suas identidades pessoais e conexões culturais.

Snyder explica bem como a ênfase original bolchevista na luta de classes mudou para uma ênfase em lutar contra infiltradores estrangeiros: mesmo os kulaks eram considerados estrangeiros ou agentes estrangeiros, e assim também eram vistos os comunistas estrangeiros que pediram asilo na União Soviética. As principais vítimas do Grande Terror, entretanto, não foram Nikolai Bukharin e outros líderes comunistas soviéticos, e nem mesmo os poloneses ou outros comunistas estrangeiros, mas compatriotas comuns, muitos dos quais viviam na Rússia por gerações. “Em 1937 e 1938,” escreve Snyder, “um quarto de milhão de cidadãos soviéticos foram fuzilados por pertencer essencialmente a grupos étnicos... Stalin foi o pioneiro em extermínio em massa nacional, e os poloneses foram as vítimas proeminentes entre as nacionalidades soviéticas.” Para ser mais preciso, “das 143.810 pessoas presas sob a acusação de espionagem para a Polônia, 111.091 foram executadas.”

Com o início da Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939, Hitler logo ocupou uma grande parte da Polônia. Mas ele não iniciou de imediato o genocídio dos judeus. É verdade que os guetos foram construídos em Varsóvia e Lodz, e que dezenas de milhares de judeus poloneses sucumbiram por fuzilamentos aleatórios, exposição e doenças. Mesmo assim, isso não foi o Holocausto. Snyder mostra convincentemente como o Holocausto surgiu. Para os alemães, a presença repentina de um número gigantesco de judeus representou um dilema imediato. Snyder acredita que, até 1941, os alemães não planejaram aniquilar a judiaria européia. O terror e os fuzilamentos, sim – mas o principal objetivo era empurrar os judeus para fora do continente, para Madagascar ou para o império de Stalin. Somente quando a solução Madagascar provou ser inexequível, e que Stalin não os queria e que mesmo Hans Frank, o governador nazista da Polônia Central, não aceitaria mais judeus, é que os líderes nazistas começaram a pensar numa solução mais drástica.

Nas áreas onde os alemães chegaram somente no verão de 1941, era sua determinação inflexível fazer um trabalho radical – com a assistência da população local – que levou a tais resultados assustadores. E a principal razão para os pogroms a leste da linha Molotov-Ribbentrop aconteceu quando os soviéticos fugiram, no verão de 1941, e o NKVD – a polícia secreta soviética – deixou para trás os cadáveres de milhares e milhares de prisioneiros políticos, que ela havia liquidado no último momento. A população local, da Estônia até o sul da Ucrânia, viam a polícia política soviética como uma instituição judaica e os massacres do NKVD como o trabalho de judeus.

Em dezembro de 1941, quando o Exército Vermelho finalmente parou a Wehrmacht fora de Moscou, a política nazista mudou. Quando o objetivo sagrado de varrer o bolchevismo da Europa provou ser impossível, a grande tarefa remanescente era livrar a Europa da ameaça judaica. É possível que se Hitler tivesse ganho a guerra contra a União Soviética, então os judeus, os poloneses e milhões de outros europeus orientais poderiam não ter sido mortos, mas expulsos para leste nos territórios soviéticos onde os interesses agrícolas dos alemães não interessavam.

Sem a conquista do espaço soviético, a deportação era impossível. Logo, a decisão foi tomada para resolver o “problema judaico” como um todo, através do extermínio em massa. Como Snyder coloca a questão, “a solução final como assassinato em massa ‘estava se espalhando pelo ocidente.’” Mas havia métodos mais “modernos” que podiam ser adotados. Os três centros de gaseamento construídos na Polônia ocupada (Belzec, Sobibor e Treblinka), seguidos por um outro em Auschwitz-Birkenau, foram projetados para exterminar a população inteira judaica da Europa a oeste da antiga fronteira polonesa-soviética. A leste daquela linha, nas terras onde a maioria dos judeus europeus uma vez viveram, o trabalho já havia sido feito pelos esquadrões da morte.

Nos campos de concentração do Terceiro Reich, um milhão de prisioneiros teve mortes miseráveis durante o período nazista. Mas 10 milhões de outros, que nunca entraram nestes campos foram executados (a maioria judeus), deliberadamente deixados morrer de fome (a maioria prisioneiros de guerra soviéticos) ou gaseados em “centros especiais de matança”, que não eram apenas campos de detenção. Em Auschwitz, a esmagadora maioria dos judeus eram levadas direto dos vagões para as câmaras de gás em sua chegada. E Auschwitz foi na verdade uma espécie de epílogo para o Holocausto judeu. Na época em que as principais câmaras de gás entraram em operação em 1943, a maioria das vítimas judias da Europa já estavam mortas.

Somente no final da guerra ocorreu a alguns líderes nazistas que milhões de judeus e prisioneiros de guerra soviéticos representavam uma força de trabalho incalculável, e que muitos cidadãos soviéticos não-judeus estariam mesmo preparados para lutar ao lado dos alemães. No final da guerra, um milhão de cidadãos soviéticos estavam ajudando os alemães com armas. Os judeus também eram colocados para trabalhar em números enormes na indústria de guerra alemã, tais como aquelas que operavam em Auschwitz. O que os alemães nunca realmente compreenderam é que para tornar o trabalho escravo eficiente é necessário tratar e alimentar decentemente essas pessoas.

Nas terras de sangue e no resto da Europa oriental, a estória do último ano da guerra não foi aquela mostrada nos filmes de propaganda americanos, com mulheres bonitas parisienses recebendo os soldados com flores e sorrisos. No leste, a estória do último ano da guerra e do primeiro ano do pós-guerra foi a da onde estupros contra as mulheres alemãs feita pelos soldados soviéticos; de refugiados congelando até a morte nas estradas levando à Alemanha; dos soviéticos desarmando e mesmo prendendo opositores poloneses anti-nazistas; de poloneses e outros europeus orientais assassinando judeus que tiveram a audácia de sobreviver aos campos e desafiar os saqueadores de seus pertences; de sobreviventes judeus entrando na polícia política comunista; de outros judeus sendo presos pela mesma polícia política; e outros judeus fugindo da Europa Oriental para sempre.

Mas “Terras de Sangue” tem um defeito, qual seja, quando Snyder lida com as consequências da guerra na União Soviética. Stalin tornou-se obcecado pelos judeus. Membros do Comitê Anti-Fascista Judeu, que tinham conduzido uma campanha eficiente de propaganda no interesse da aliança durante a guerra entre o Kremlin e as democracias ocidentais, foram presos e sentenciados por um julgamento secreto em 1952. Snyder falha em dar significância ao caso. Afirmando que havia 14 réus (de fato, havia 15), ele se refere a eles como “judeus soviéticos mais ou menos desconhecidos.” Mas entre os 15 estavam os renomados escritores íidiche Peretz Markish e David Bergelson, que tinham reputação internacional. E o principal réu, Solomon Abramovich Lozovsky, era um velho bolchevista que foi mencionado no livro de John Reed, “Dez Dias que Abalaram o Mundo” por seu papel na Petrogrado revolucionária.

Fontes:

http://www.nytimes.com/2010/11/28/books/review/Rubenstein-t.html?_r=1&

http://www.newrepublic.com/article/books-and-arts/magazine/79084/snyder-bloodlands-hitler-stalin#

http://www.guardian.co.uk/books/2010/oct/09/bloodlands-stalin-timothy-snyder-review

O Iraque valeu a pena?

Patrick Buchanan, 19/03/2013



Dez anos atrás, exatamente hoje, as forças aéreas, terrestres e navais dos EUA atacaram o Iraque. E os grandes objetivos da Operação Iraque Livre?

Destruir as armas biológicas e químicas que Saddam Hussein armazenou para usar contra nós ou transferi-las para a Al-Qaida para uso dentro dos EUA.

Retribuir exatamente a cumplicidade de Saddam no 11/9 após sabermos que seus agentes se encontraram secretamente em Praga com Mohamed Atta.

Criar uma democracia florescente em Bagdá que serviria como catalisador de uma transformação milagrosa do Oriente Médio de uma terra de déspotas para uma região de democracias ao estilo ocidental.

Nem todos concordaram com a sabedoria desta guerra. O general Bill Odom, ex-diretor da Agência Nacional de Segurança, achava que George W. Bush e cia. haviam perdido a cabeça: "A Guerra do Iraque tornar-se-á o grande erro estratégico da história americana."

Mesmo assim, após poucas semanas de "choque e pavor", as forças americanas tomaram Bagdá e destronaram Saddam, que fugiu mas logo foi encontrado em um buraco e processado e enforcado, assim como seus associados, "o baralho de cartas", alguns dos quais tiveram o mesmo destino.

E assim chegou a famosa vitória. Missão cumprida!

Logo, entretanto, a América encontrar-se-ia em uma nova e imprevista guerra, e por volta de 2006, estávamos, surpreendentemente, no precipício da derrota, conduzidos para dentro de um conflito sectário sunita-xiita produzido por nossa culpa ao desmontar o exército iraquiano e conduzindo ao poder o primeiro regime xiita na história da nação.

Somente uma "turbinada" nas tropas americanas chefiada pelo general David Petraeus salvou os Estados Unidos de uma derrota estratégica semelhante à queda de Saigon.

Mas essa renovação não pôde ajudar a salvar o Partido Republicano, que patrocinou esta guerra, do repúdio de uma nação que acredita ter sido enganada e guiada à guerra. Em 2006, o partido perdeu ambas as casas do Congresso e o arquiteto da guerra do Pentágono, Donald Rumsfeld, foi demitido pelo comandante em chefe.

Dois anos depois, a desilusão com o Iraque contribuiu para a derrota do falcão republicano John McCain para um senador novo de Illinois que se opunha à guerra.

Então, o que diz a lápide agora, depois de 10 anos? Qual é o atual veredito da História sobre o que a História viria a chamar "A Guerra de Bush"?

Dos três objetivos da guerra, nenhum foi atingido. Nenhuma arma de destruição em massa foi encontrada. Saddam e seus filhos pagaram seus pecados, mas nenhum deles tinha nada a ver com o 11/9. Nada. Tudo foi propaganda enganosa.

Enquanto não havia nenhuma Al-Qaida no Iraque enquanto Saddam estava no poder, hoje ela espalhou-se pelo Iraque. Onde o Iraque era barreira árabe sunita confrontando o Irã em 2003, uma década depois o Iraque se afasta do campo sunita em direção da presença crescente do Irã e Hezbollah xiitas.

Qual o custo em sangue e riqueza de nossa malfadada aventura mesopotâmica? Quatro mil e quinhentos soldados americanos mortos, 35.000 feridos e este é o resumo dos custos de guerra segundo o Wall Street Journal:

"O esforço da década (Iraque) custou U$ 1,7 trilhões de acordo com um estudo... do Instituto Watson para Estudos Internacionais da Universidade Brown. A luta nos últimos dez anos matou 134.000 civis iraquianos... Enquanto isso, cerca de U$ 500 bilhões em benefícios não pagos aos veteranos da Guerra do Iraque poderiam aumentar para U$ 6 trilhões nos próximos 40 anos."

O Iraque teve uma grande participação na falência da América.

Quanto aos 134.000 civis iraquianos mortos, o que corresponde a 500.000 viúvas e órfãos. O que eles pensam de nós?

De acordo com a última pesquisa Gallup, de 2 para 1, os iraquianos acreditam que estarão mais seguros agora que os americanos estão deixando seu país.

Bem para trás, entretanto, está nossa outrora boa reputação. Nunca antes a América esteve em tão baixa consideração entre os povos árabes ou no mundo islâmico. Quanto à reputação dos militares americanos, quantos anos se passarão até que nossas forças armadas não estejam mais associadas automaticamente a palavras como Abu Ghraib, Guantanamo, execuções e torturas?

Quanto às comunidades cristãs caldéia e assíria do Iraque que foram devastadas e abandonadas, com muitos tendo deixado seus lares ancestrais para sempre?

Não somos conhecidos como um povo meditativo. Mas uma questão tem que ser debatida. Se Saddam não tinha armas de destruição em massa, não teve nenhuma responsabilidade no 11/9, nunca nos ameaçou e não queria uma guerra contra nós, nosso ataque não provocado contra aquele país foi uma guerra verdadeiramente justa e moral?

O que torna esta questão mais do que acadêmica é que os provocadores da guerra contra o Iraque uma década atrás agora estão clamando por uma guerra contra o Irã. Objetivo: impedir que o Irã tenha armas de destruição em massa, mesmo quando todas as nossas 16 agências de inteligências dizem que o Irã não as tem e não possui nenhum programa para construí-las.

Esta geração é testemunha de como uma Grande Potência declina e cai. E citando o velho Rei Pirro (319 - 272 a.C.), mais uma vitória como esta do Iraque e estamos perdidos.

http://buchanan.org/blog/was-iraq-worth-it-5511


Nostalgia pela figura de Saddam sobrevive no Iraque

DefesaNet, 19 de Março, 2013


Uma década depois da invasão americana, anos de violência e a pouca confiança na atual e dividida classe política, alimentam a nostalgia de muitos iraquianos por Saddam Hussein, o homem que governava com mão de ferro e foi derrubado pelas tropas estrangeiras.

Acusar alguém de ter mantido laços com Hussein é recorrente quando se pretende manchar a reputação de um político no Iraque atual. Porém, residentes de Tikrit, cidade natal do antigo líder, expressam carinho por um homem que é lembrado pela estabilidade que impunha no país e não por ordenar a morte de milhares de pessoas.

"Lembrarei de Saddam com orgulho", disse Khaled Jamal, um vendedor de relógios em Tikrit. "Nosso país não mudou nem se desenvolveu nos últimos dez anos", acrescentou.

Além de sua frustração pelo vagaroso processo de reconstrução, muitos iraquianos - não apenas em Tikrit - sofrem com a má distribuição de serviços básicos e o alto nível de desemprego. Jamal também citou outra frustração muito comum: o aparente aumento do sectarismo desde a queda de Saddam Hussein.

"Não havia sectarismo, nem de sunitas, nem de xiitas", explicou.

"Mas agora essa é a primeira pergunta que se ouve quando você se encontra com alguém", acrescentou em alusão às perguntas sobre a província de origem de uma pessoa, ferramenta para conhecer sua lealdade religiosa.

Saddam Hussein nasceu no dia 28 de abril de 1937 no vilarejo de Al-Qja, logo ao sul de Tikrit, cidade localizada ao norte de Bagdá.

Ativista no agora proibido partido árabe socialista Baath, Hussein foi sentenciado à pena de morte em 1959 por conspirar para o crime do líder iraquiano Abdul Karim Qassem, e era uma das principais figuras do partido quando a organização tomou o controle do Iraque após o golpe militar de 1968. Apesar disso, ele chegou à presidência 11 anos depois.

Na frente doméstica, Hussein - ou Saddam, como era mais conhecido - impôs uma visão secular para o país e se apresentava como um líder árabe que faria frente ao vizinho Irã - uma teocracia muçulmana, mas não árabe -, e era brutal com seus opositores.

Hussein era considerado responsável pela morte de dezenas de milhares de curdos na campanha "Anfal" e de até 100.000 pessoas que fizeram parte da ascensão contra seu regime após a guerra do Golfo de 1991, além de outros massacres.

No âmbito internacional, lutou em uma longa, custosa e sangrenta guerra contra o Irã (1980-1988) com a vista grossa por parte das potências ocidentais e logo invadiu o Kuwait (1990) antes de ser expulso por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos. Foram impostas sobre o Iraque duras sanções econômicas e um embargo comercial.

Saddam já era um pária internacional com a invasão de 2003 e foi capturado em dezembro daquele ano, quando se escondia em uma fazenda, tendo sido enforcado em dezembro de 2006.

Porém em Tikrit, o dirigente é relembrado de uma forma muito mais benevolente, como um líder que lutou pelo Iraque e que estava na vanguarda quando o país desfrutou de uma relativa estabilidade.

Saddam prestou muita atenção em Tikrit às custas de outras cidades do sul do país, o que ao menos lhe garantiu um legado mais favorável em sua cidade de origem.

"É natural que continuemos orgulhosos dele", disse Umm Sara. "Apesar das circunstâncias que atravessava o Iraque, ele dirigiu o país sem problemas".

"Saddam nos ajudou muito, assim que é natural que o veneremos como outros o fazem com Charles de Gaulle", comentou Abu Hussein, referindo-se ao ex-presidente francês.

"Saddam tinha uma forte personalidade. A impôs dentro e fora do país".

Residentes que viveram o caos pós-2003, período em que dezenas de milhares morreram em uma guerra sectária, relembram os tempos antes da invasão quando a violência estava limitada às forças de segurança e os iraquianos podiam, em teoria, escapar de sua fúria.

E apesar de os serviços públicos serem de baixa qualidade, os residentes de Bagdá tinham eletricidade e existia um programa para alimentar os pobres em meio à penúria pelas sanções econômicas.

Na atualidade, os iraquianos dependem de geradores privados para completar o fornecimento elétrico, os empregos são escassos, a corrupção contamina tudo e muitos estão inconformados com os atuais líderes políticos.

"Estou agradecida aos atuais políticos", disse Inês, uma professora 37 anos em Tikrit.

Em referência às dificuldades que enfrentam os iraquianos e as frustrações que sentem, afirmou: "Nos fazem amar Saddam, nos fazem sentir orgulhosos de sua figura, nos provoca, nostalgia daqueles dias".

http://www.defesanet.com.br/ecos/noticia/10121/Nostalgia-pela-figura-de-Saddam-sobrevive-no-Iraque

sábado, 16 de março de 2013

[POL] Kurt von Schuschnigg e o Anschluss

Kurt von Schuschnigg nasceu em 14 de dezembro de 1897 em Riva del Garlda, hoje localizada na Itália, mas na época pertencente ao Império Austro-Hungaro. Seu pai, Arthur Von Schuschnigg era um militar de carreira que alcançou o posto de general. É dito que a família tem ascendência eslovena, o nome original sendo Susnik, mas Schuschnigg negou esta versão. Ele explicou que sua família tinha raízes em Klagenfurt, Áustria; seu bisavô era dono de um moinho e seu avô era um oficial que tornou-se comandante da polícia no Tirol em 1901. Apesar de Schuschnigg manter o título hereditário de Edler, aproximadamente equivalente a baronete (título intermediário na nobreza britânica entre Cavaleiro e Barão, sendo este último maior hierarquicamente), a nova República da Áustria aboliu o uso de títulos em 1919. Consequentemente, Kurt Von Schuschnigg tornou-se Kurt Schuschnigg, eliminando o prefixo nobre “Von” de seu sobrenome. No entanto, durante sua carreira política como membro do partido conservador do governo, o antigo nome era usado. Este também foi usado durante sua época como professor na Universidade de Saint Louis (EUA).

Quando era criança, estudou na escola jesuíta de Stella Matutina em Feldkirch. Ele serviu como oficial de artilharia na frente italiana durante a Primeira Guerra Mundial e recebeu seu diploma de advogado da Universidade de Innsbruck em 1922. Dois anos depois, ele estabeleceu seu próprio escritório na cidade. Ele também filiou-se ao Partido Social Cristão e em 1927 foi eleito para a assembleia nacional, tornando-se o seu membro mais jovem. Em 1930, ele fundou a Tropa de Assalto Austríaca (Ostmaerkische Sturmscharen), um esforço na revitalização da cultura católica e defesa política, que mais tarde assumiu as características de uma força paramilitar.

Schuschnigg casou-se pela primeira vez em 1924 com Herma Masera, a filha de um comerciante de Bozen, hoje Bolzano (Itália). Com Herma, ele teve um filho, Kurt, nascido em 1926. Herma morreu em um acidente de automóvel em 13 de julho de 1935, acidente que deixou Schuschnigg ferido e seu filho com pequenos ferimentos. Mais tarde, Schuschnigg envolveu-se com a Condessa Vera Czernin von und zu Chudenitz, a antiga Condessa Fugger von Babenhausen; seu primeiro casamento foi anulado, mas produziu quarto filhos, Eleonore, Rudolf, Rose Marie, e Sylvia.

O Chanceler Karl Buresch apontou Schuschnigg seu ministro da justice em 1932, enquanto que o sucessor de Buresch, Engelbert Dollfuss, também nomeou Schuschnigg ministro da educação em 1933. O governo em geral, e Schuschnigg em particular como ministro da justiça, foram muito criticados pelas sentenças de morte impostas aos opositores de esquerda do regime, os quais lutavam contra as forças governamentais nas ruas durante a guerra civil de 1934. Karl Munichreiter, líder da Schutzbund, uma organização paramilitar de esquerda, foi ferido e preso, sendo em seguida condenado à morte e enforcado em praça pública, uma ação vista como especialmente chocante. Schuschnigg recusou a aceitar o clamor popular a favor do condenado, o qual foi imediatamente executado para servir de exemplo para o povo.

 Kurt von Schuschnigg em 1936

 
Quando Dollfuss foi assassinado em uma tentativa de golpe pelos nazistas austríacos em 1934, Schuschnigg sucedeu-o como Chanceler, um pedido que foi supostamente feito por Dollfuss no leito de morte. Aos 36 anos, Schuschnigg era – e continua sendo até hoje – a pessoa mais jovem a assumir o cargo. Ao tentar realizar o sonho de seu mentor de criar um Estado Corporativo, ele enfrentou a oposição não somente dos grupos de esquerda e nazistas, mas também dos rivais dentro de seu próprio partido. Ernst Rudiger Von Starhemberg, chefe do grupo paramilitar Defesa da Nação (Heimwehr), era visto por muitos como uma ameaça a Schuschnigg, de modo que este proibiu todas as forças paramilitares em outubro de 1936. Sua própria tropa de assalto acabou convertendo-se em uma organização cultural em abril daquele mesmo ano.

O governo nazista da Alemanha ajudou e fomentou as intrigas de seus colegas austríacos, que, como alemães étnicos, buscavam a união, ou Anschluss, com a Alemanha. Schuschnigg tentou manter a independência da Áustria promovendo sentimentos de solidariedade e de nacionalidade através da Frente Pátria ou Patriótica (Vaterlandische), uma organização suprapartidária fundada por Dollfuss e o único grupo político legal na Áustria. Ele também tentou afastar o assalto alemão fortalecendo as relações com a Itália e a Hungria e assinando um tratado de coexistência com a Alemanha em 1936. Este acordo garantia à Áustria liberdade das interferências alemãs em seus assuntos internos em troca da libertação de membros do ilegal partido nazista e da participação no governo austríaco de figuras ligadas aos alemães. Mesmo assim, em fevereiro de 1938, quando foi convocado pelo líder alemão Adolf Hitler em Berchtesgaden na Bavária para responder acusações de supostas violações austríacas ao tratado, Schuschnigg ficou sem saída. A Áustria não podia contar com ajuda prática das potências democráticas da Europa no caso de ameaça militar alemã, e as intenções da Itália estavam longe de serem claras.

Durante o encontro em Berchtesgaden, Hitler exigiu que Schuschnigg nomeasse o simpatizante nazista Arthur Seyss-Inquart seu ministro do interior. Obrigado a concordar, Schuschnigg retornou abalado a Viena, como ele mencionou, “pelos dias mais terríveis de minha vida.” Em 24 de fevereiro de 1938, Schuschnigg anunciou um plebiscito para 13 de março sobre a questão do Anschluss. O que alguns classificaram como ato de coragem, foi na verdade um ato de desespero. Schuschnigg temia uma iminente invasão alemã e mais tarde ele escreveu, “Tornando-a legalmente difícil tanto quanto possível para Hitler e, em qualquer caso, deixando-o do lado errado era o máximo que podia ser alcançado na prática.” Schuschnigg esperava obter pelo menos entre 60 e 65% de votos a favor da manutenção da independência, e aparentemente Hitler não estava confiante de um resultado positivo para os seus planos.

Não arriscando, Hitler revidou em 11 de março, insistindo que o plebiscito fosse cancelado. Com as tropas alemãs já mobilizadas ao longo da fronteira, Schuschnigg concordou, somente para ter Hitler exigindo sua renúncia e a nomeação de Seyss-Inquart como Chanceler. Enquanto isso, a Alemanha transmitia ao mundo que a Áustria estava na iminência de um levante violento dos trabalhadores, e seu governo não tinha mais controle sobre a situação. Denominando estas alegações de “invenções de A a Z” em seu famoso discurso de despedida à nação, Schuschnigg revelou que no sentido de evitar um conflito fraticida ele ordenou que o exército austríaco não resistisse aos alemães: “Nós cedemos à força... Deus salve a Áustria!” Em 12 de março, o dia originalmente planejado para o plebiscito, Hitler entrou na Áustria, recebendo uma recepção triunfante dos nazistas locais, e o país foi formalmente anexado à Alemanha no dia seguinte.

Schuschnigg foi imediatamente colocado sob prisão domiciliar, então levado para a sede da Gestapo em Viena, no Hotel Metropol, onde foi mantido em confinamento individual em um pequeno quarto por cerca de um ano, até ser transferido para o campo de concentração de Dachau na Alemanha. Mais tarde, ele foi encarcerado nos campos de concentração de Flossenburg e Sachsenhausen. Em abril de 1945, junto com outros prisioneiros “celebridades”, ele foi levado ao Hotel Prager-Wildsee no Tirol italiano, onde poucos dias depois, em maio, ele e seus colegas de prisão foram libertados pelos esforços combinados da resistência local e do exército americano.

Após algum tempo em um campo para refugiados na ilha de Capri na Itália, Schuschnigg aceitou uma oferta de uma viagem como professor aos Estados Unidos. Em 1947, o magro ex-chanceler, sua segunda esposa, Vera, e sua filha Maria Dolores Elisabeth (Sissi) desembarcaram em Nova York. Por meio da iniciativa do Dr. William Bauer, director do departamento de patologia da escola odontológica da Universidade de Saint Louis, um antigo amigo de Innsbruck, Schuschnigg foi convidado a uma posição no departamento de ciência política na Universidade, a qual ele assumiu na sessão do verão de 1948. Vera tornou-se cidadã americana em 1954 e morreu de câncer em setembro de 1959. O próprio Schuschnigg tornou-se cidadão americano aos 59 anos em 1956. O filho de Schuschnigg, Kurt, um negociante de artes, emigrou para os Estados Unidos em 1957. Schuschnigg permaneceu nos EUA, dando aulas de lei internacional e história da Alemanha e Europa Central, até sua aposentadoria em 1967, quando recebeu o Prêmio Fleur-de-Lis, a maior honra dada pela Universidade. Ele depois mudou-se para a vila de Mutternear, em Innsbruck, o lar de seus avós maternos. Em 18 de novembro de 1977, Schuschnigg morreu de causas desconhecidas, que durante as últimas semanas o deixou acamado.

Ao longo de sua vida, Schuschnigg enfrentou acusações de ele próprio ser um fascista e um ditador, e a controvérsia continua até hoje. O principio de governo de seu regime, e de Dollfuss antes dele, era chamada de clérico-fascismo ou austro-fascismo. Ele é frequentemente chamado de inimigo da democracia, cujo autoritarismo ironicamente favoreceu as condições que levaram ao Anschluss, cujas consequências ele tentou arduamente evitar. Mesmo assim, acabou ganhando respeito por causa de seu longo cativeiro nas mãos dos nazistas, mesmo que, como algumas vezes é mencionado, seu encarceramento foi sob condições suaves reservadas a prisioneiros politicamente importantes.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sensoriamento Remoto no Brasil

Carlos Alberto Gurgel Veras, Diretor de Satélites, Aplicações e Desenvolvimento da Agência Espacial Brasileira (AEB)




Brasília, 12 de março de 2013 – A técnica de sensoriamento remoto pode ser melhor entendida, em um primeiro instante, traduzindo-se o próprio termo. Remoto significa “sem contato direto” e sensoriamento é o uso de sensores para detectar dados variáveis de uma superfície, como temperatura, distribuição de cores, relevo e muitos outros.

Para bem observar a superfície da Terra ou do mar, o sensor deve estar em posição o mais vertical possível sobre a área a ser observada, o que evita distorções na imagem. Isto se consegue instalando-se o sensor numa plataforma aérea, por exemplo, em um avião.

No fim do século XVIII, balões a gás eram usados para observação dos campos de batalha. Em termos de observação remota, pode-se dizer que os olhos dos militares eram os sensores e o balão a gás era a plataforma. Mas, o registro das imagens só podia ser repassado por meio de relatos.

A observação da terra com registro de imagem aguardava a invenção da máquina fotográfica, na segunda década do século XIX. Aí surgiu uma técnica precursora do sensoriamento remoto.

A expressão “sensoriamento remoto” foi cunhada e se popularizou nos idos de 1960, graças à Era Espacial, inaugurada em outubro de 1957 com o lançamento do Sputnik I.

As primeiras teorias e técnicas, indispensáveis ao avanço do sensoriamento remoto precederam à corrida espacial. Cabe destacar a teoria clássica do eletromagnetismo (James Clerk Maxwell, 1831-1879), o aprimoramento da aerofotografia (~1909), o desenvolvimento do radar (~1930) e de sensores infravermelhos (~1940).

Tais técnicas e outras mais modernas são aplicadas nos sensores que constituem a carga útil necessária à observação da terra. Aí temos os sensores óticos (visível, infravermelho próximo e infravermelho térmico), micro-ondas e laser.

Com o uso de tais sensores e suas combinações, é possível registrar variáveis de grande interesse, sem esgotar a lista: localização e dimensões planares, localização topográfica, cores, temperatura de superfícies, textura, umidade e tipo de vegetação.

Hoje, as imagens são largamente obtidas por satélites com missões específicas de observação da terra. No caso brasileiro, dados de sensoriamento remoto são coletados a partir de inúmeras plataformas satelitais. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mantém um banco de imagens dos seguintes satélites: CBERS-2 (China-Brasil), CBERS-2B (China-Brasil), LANDSAT1, LANDSAT2, LANDSAT3, LANDSAT4, LANDSAT5, LANDSAT7 (EUA), RESOURCESAT-1 (Índia), TERRA (EUA) e AQUA (EUA).

O LANDSAT7 está operacional, mas não transmite dados para o Brasil. O satélite LANDSAT6, lamentavelmente, não chegou à órbita programada e não pôde cumprir sua missão.

Os satélites RESOURCESAT-1, TERRA e AQUA estão operacionais e fornecem diferentes tipos de imagens, inclusive para o Brasil. Estamos negociando com a Índia o acesso aos dados do RESOURCESAT-2.

As informações geradas por essas plataformas nos permitem tomar decisão vitais nas áreas de agricultura, recursos florestais, uso da terra, uso da água, exploração de recursos naturais e muitas outras. A família CBERS, LANDSAT e outras plataformas são usadas intensamente nestes campos. De grande importância para o Brasil são os dados, recebidos quase em tempo real, sobre incêndios florestais em todo o país. Algumas plataformas de observação da terra executam relevantes missões científicas, como as operados pela NASA, sobretudo os satélites TERRA e AQUA. O satélite TERRA realiza sensoriamento remoto da terra, dos oceanos e da atmosfera. Como carga útil destacam-se os sensores para:

• energia radiante de nuvens e da superfície (CERES), via ondas curtas e ondas longas e fluxo líquido;

• imageamento estereoscópico por nove diferentes ângulos (MISR);

• imageamento multiespectral de alta definição (ASTER);

• imageamento global de média resolução (MODIS) em até dois dias;

• medição global de concentrações de metano e monóxido de carbono na troposfera (MOPITT).

Alcançar este nível de capacitação tecnológica é meta do Programa Espacial Brasileiro. Cargas úteis similares estão planejadas para futuras missões nacionais.

Em breve, teremos o lançamento do CBERS-3 e, logo a seguir, do CBERS-4. Cada um deles carrega quatro tipos de câmaras (multiespectrais), com resolução entre 5 e 80m e largura de faixa imageada entre 60 e 866km.

Há também outras missões brasileiras planejadas, com máximo de nacionalização das cargas úteis e módulos de serviço: satélite radar, satélite de observação do mar (Sabiá-Mar, Brasil-Argentina), satélite Amazônia e satélite meteorológico brasileiro.

* Artigo publicado na Revista MundoGEO. Edição nº 71, Pág. 64.

http://mundogeo.com/mundogeo71.php

Introdução ao Sensoriamento Remoto

http://www.inpe.br/unidades/cep/atividadescep/educasere/apostila.htm

Defesa e Segurança no Século XXI

José Monserrat Filho *


“A eliminação da guerra é o nosso principal problema.”

Hans Kelsen, jurista e filósofo austríaco.¹


As atividades de defesa e segurança estão hoje entre as mais intensas, crescentes, perigosas, caras e lucrativas do mundo. Os investimentos, aí, costumam ser milionários, quando não bilionários. São todas elas atividades necessárias e inevitáveis? Muitas o são, sem dúvida, sobretudo as que protegem a ordem constitucional interna dos países. Outras, são altamente polêmicas, tanto no âmbito internacional, como no interno. Ainda há muitas guerras julgadas desnecessárias, injustas e perfeitamente evitáveis. Basta acompanhar as intervenções e votações da maioria dos países na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) nas últimas décadas.

Certo, já não há mais Ministérios da Guerra, como antigamente. A Carta da ONU, adotada em 1945 após as barbáries da 2ª Guerra Mundial, conseguiu, enfim, pela primeira vez na história do direito internacional, vetar o uso da força, e até mesmo a ameaça de seu uso ¨C ou seja, a guerra e a ameaça de guerra ¨C para resolver litígios internacionais. Ao mesmo tempo, a Carta erigiu o princípio da solução exclusivamente pacífica das controvérsias. Neste novo quadro jurídico, como manter o nome de Ministério da Guerra, se a guerra passara a ser legalmente proibida?

Assim, não cabe mais falar em guerra, só em defesa. Isso muitas vezes corresponde à verdade dos fatos. Outras vezes, seria o caso de voltar ao nome de Ministério da Guerra. E aí, para dissimular o caráter agressivo das ações realizadas ou planejadas, cai bem a palavra “defesa”.

A realidade é que a dobradinha “defesa & segurança” nem sempre aparece como legítima e legal. Certo, todos os países têm o direito inalienável de garantir sua segurança nacional e de se defender de agressões à sua soberania e independência, bem como de qualquer intervenção em seus assuntos internos. É lícita a intervenção aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU, quando comprovada a prática por um país de genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes de agressão. Violações dos direitos humanos e do direito internacional geral, devidamente demonstradas e apreciadas, também podem ser objetos de condenação por órgãos da ONU ou por suas Cortes Internacionais de Justiça (Corte de Haia e Corte Penal).

No entanto, o ordenamento jurídico internacional vigente, tanto pela letra como pelo espírito, não admite de modo algum ações unilaterais empreendidas por um ou mais países, à revelia da ONU, como não raro tem ocorrido. As decisões arbitrárias minam a convívio normal, regular, cooperativo e razoavelmente justo entre os países E empestam o clima mundial de intranquilidade, ceticismo, desconfiança, medo e ódio.

Em oposição, vale o que afirma Thomas J. Schoenbaum, professor da Universidade George Washington, EUA, e da Universidade Internacional Cristã, Japão: “O estado de direito e o respeito pelas instituições internacionais podem se tornar a pedra de toque das relações internacionais no Século XXI, porque, pela primeira vez na história humana, povos e nações do mundo inteiro abraçaram objetivos e interesses comuns: fim da violência e da guerra, prosperidade econômica, proteção ambiental, redução da pobreza e das doenças, e proteção dos direitos humanos.”3

Na maior parte dos países, inclusive no Brasil, defesa e segurança nacional significam exatamente isso: defesa e segurança nacional. Ninguém deseja ou pretende ir além de suas fronteiras.

O Brasil hoje preocupa-se em manter a soberania nacional intimamente vinculada à defesa do território, e em garantir a segurança pública, como manda a Constituição Federal de 1988. Atitudes e ambições que um dia extrapolaram esse princípio básico, felizmente, ficaram no passado.

Temos nada menos de 16.866 km de fronteiras com dez países vizinhas, onde cultivamos uma convivência respeitosa e construtiva. Zelamos pela integralidade de nossas regiões-limite, com base no Plano Estratégico de Fronteiras (PEF), que visa prevenir e inibir os crimes nas áreas fronteiriças, combater o crime organizado e os traficantes de armas e drogas que se infiltram em nosso país, e melhorar o nível de vida de cerca de seis milhões de pessoas que moram em municípios remotos.4

Nosso Exército atua também em qualquer região do país em que a presença militar se faça imperativa para inibir e enfrentar ações hostis vindas do exterior. Com aviões e equipamentos de alta tecnologia, nossa Força Aérea zela pela soberania de nosso espaço aéreo, para nenhuma aeronave estrangeira invadir o território brasileiro sem a devida autorização. Nossa Marinha realiza ações semelhantes para preservar a integralidade de nossas fronteiras marítimas, que, aliás, são muito ricas.

Desenvolvemos uma Estratégia Nacional de Defesa insuspeita, à qual submetemos o avanço de uma indústria bélica à altura de nossas necessidades e possibilidades legítimas, respeitando os nossos compromissos internacionais. A política de ciência, tecnologia e inovação para a defesa está cada vez mais ligada ao esforço de estimular o progresso científico e tecnológico do país.

Isso seguramente nos estimula a perceber e a cultivar, cada vez mais, a consciencia de que os problemas da defesa e segurança são o maior desafio global do nosso tempo. Dele depende o uso racional e produtivo dos bilhões de dólares hoje desperdiçados em guerras inúteis, desnecessárias, injustas e evitáveis. E dele depende também a conquista de uma paz real e responsável em todo o mundo, essencial para a sobrevivência e o avanço da civilização humana.

* Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da AEB.

Referências

1) Kelsen Hans, jurista e filósofo austríaco (1881-1973), A Paz pelo Direito (original em inglês de 1944), S. Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 17.

2) “O rumo mais provável para nosso futuro é o mais perigoso”, escreve o economista Joshua Cooper Ramo, ex-editor da revista “Time”, in A Era do Inconcebível, S. Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 21.

3) Schoenbaum Thomas J., International Relations ¨C The Path Not Taken ¨C Using International Law to promote World Peace and Security, New York, USA: Cambridge University Press, 2006, p. 11.

4) Ver www.brasil.gov.br/sobre/o-brasil/defesa-e-seguranca-publica.

quinta-feira, 14 de março de 2013

[HOL] "Por que eu acredito que Simon Wiesenthal é uma Fraude"

Guy Walters, 10/09/2010


Para milhões ao redor do mundo, Simon Wiesenthal é visto como um herói.

Frequentemente conhecido por levar à justiça cerca de 1.100 criminosos de guerra, o caçador de nazistas e sobrevivente do Holocausto é lembrado como sendo um santo, um homem que fez mais do que qualquer governo para prender os perpetradores de alguns dos piores crimes que o mundo já presenciou.

Indicado para o Prêmio Nobel da Paz, o recebedor de título de cavaleiro e mais de 50 outras honras, Wiesenthal é particularmente lembrado por seu papel  em rastrear o conhecido arquiteto do Holocausto, Adolf Eichmann.

Após morrer com a idade de 96 anos em setembro de 2005, as homenagens pipocaram em todo mundo.

Wiesenthal foi saudado como “o representante permanente das vítimas”, um homem que não apenas buscava justiça, mas orgulhava-se de nunca ter esquecido seus “seis milhões de clientes,” como chamava aqueles que morreram no Holocausto.

Aqueles que lêem suas memórias somente podem imaginar seu heroísmo e suas escapadas incríveis da morte nas mãos dos nazistas.

Parecia como se a missão de Wiesenthal fosse quase divinamente  concebida, os deuses poupando sua vida por algum motivo mais nobre.

Os relatos de suas caçadas contra fugitivos não eram menos sensacionais, como Wiesenthal contou como ele se envolveu numa batalha heróica contra redes nazistas sinistras do pós-guerra e seus simpatizantes.

Ou seja, era a estória final de programas e filmes de uma boa estória sentimental, e o mundo suspirava por ela.

Programas de TV e filmes foram produzidos e logo Wiesenthal tornou-se um nome conhecido, um símbolo do triunfo da esperança sobre o Mal.

Aqueles que ficaram excitados com sua estória de vida podem agora vivenciar essas emoções outra vez, graças a uma nova biografia escrita pelo historiador israelense Tom Segev.

A imagem que emerge deste livro é muito mais complexa do que alguém poderia supor.

O Dr. Segev mostra que muito dos relatos de Wisenthal sobre sua vida foi o produto de exagero e auto-mitologia.

Aparecendo no programa “Hoje” da Radio 4 esta semana, o autor disse que Wiesenthal foi “um contador de estórias, um homem que viveu entre a realidade e a fantasia.”

Ele desculpou a inclinação de Wiesenthal para fabricar estórias sobre seu passado, dizendo que este foi o modo mais fácil para lidar com as atrocidades reais que ele experimentou nos campos de concentração.

Desculpe-me, mas esta abordagem compassiva simplesmente eu não aceito. Pois a verdade é que o grande caçador de nazistas é muito, mas muito pior do que o Dr. Segev acha.

Em minha opinião, Simon Wiesenthal era um mentiroso e uma fraude. De fato, iria mais longe dizendo que ele foi um dos maiores vigaristas do século XX.

Gastei quatro anos trabalhando em uma história da caçada aos nazistas que foi publicada ano passado, e o material que reuni sobre Wiesenthal foi suficiente para dizer o que eu digo.

Quando comecei a escrever o livro, acreditava que o grande homem era apenas isso – grande.

Mas quando olhei para suas memórias, biografias e material original de arquivo, percebi que, como outros, a imagem que havia construído de Simon Wiesenthal estava incorrigivelmente errada.

Havia tantas distorções e incoerências, tantas mentiras descaradas – nenhuma das quais poderia ser explicada pelo papo psicológico bacana oferecido por gente como o Dr. Segev.

A verdade é que Wiesenthal mentiu sobre quase tudo em sua vida.

Vamos, por exemplo, começar do início e ver seu registro escolar.

Se você visitar a página do Centro Simon Wiesenthal, aprenderá que ele “fez o pedido de admissão no Instituto Politécnico em Lvov,” mas foi recusado “devido a restrições de cotas para estudantes judeus.”

A página então afirma que ele foi para a Universidade Técnica de Praga, “onde ele recebeu seu diploma de engenheiro arquiteto em 1932.”

Outras biografias – publicadas enquanto Wisenthal estava vivo – dizem que ele de fato foi para Lvov, em 1934 ou 35, e recebeu um diploma de engenheiro arquiteto em 1939.

Todos estes relatos são mentiras.

Os Arquivos Públicos de Lvov não tem nenhum registro de Simon Wiesenthal como estudante na Universidade Técnica.

Os arquivos têm registros de outros estudantes daquele período, mas não de Wiesenthal – e não havia nenhuma restrição de cotas para estudantes judeus na época.

Nem ele se graduou em Praga. Apesar dele ter se matriculado em 21 de fevereiro de 1929, Wiesenthal nunca concluiu seu curso. Ele passou em sua primeira avaliação pública em 15 de fevereiro de 1932, e então abandonou naquele mesmo ano.

Apesar da falta de credenciais acadêmicas, ele usaria de forma fraudulenta seu suposto diploma de engenharia em seu papel timbrado pelo resto de sua vida.

Durante a guerra, Wiesenthal afirmou ter gasto anos dentro e fora de uma série de campos de concentração.

Apesar dele certamente ter gasto tempo em campos como Mauthausen, ele também disse ter estado em Auschwitz – uma afirmação que não existe registro.

Então, há a sua suposta carreira como bravo partisan. Em duas de suas memórias, ele afirma ter se juntado a um grupo de partisans após escapar de um campo em outubro de 1943.

De acordo com uma entrevista que ele deu ao exército americano em 1948, ele afirmou que ele foi promovido a tenente imediatamente “com base em minha inteligência.”

Ele logo foi promovido a major, e foi fundamental em “construir bunkers e linhas fortificadas.”

“Tínhamos fabulosas construções de bunkers,” ele disse.

“Meu posto não era muita coisa considerando meu conhecimento estratégico e técnico.”

Precisamos somente de uma compreensão básica da história da Segunda Guerra Mundial para saber que as afirmações de Wiesenthal são altamente duvidosas.

Grupos partisans não construíam “fabulosas construções de bunkers,” ao invés disso eles utilizavam a mobilidade para enganar o inimigo.

Como judeu, é também altamente improvável que ele fosse promovido a oficial em tal grupo, que geralmente era anti-semita.

Wiesenthal também daria outro relato de sua experiência com os partisans, no qual ele se afiliou a um bando menor e mais especialista – dificilmente um para construir bunkers e fortificações ou ter uma estrutura formal de promoção.

Já que existem pelo menos quatro relatos totalmente diferentes das atividades de Wiesenthal entre outubro de 1943 e meados de 1944, questões sérias sobre o que ele realmente fez deveriam ser levantadas.

Alguns que duvidaram de sua versão dos fatos – como o antigo chanceler austríaco Bruno Kreisky – foram longe acusando-o repetidamente nos anos 1970 e 80 de ter sido colaborador da Gestapo.

As afirmações de Kreisky eram apoiadas por evidência não confirmada fornecida pelos governos polonês e soviético, e quando Wiesenthal levou Kreisky ao tribunal, foi Wiesenthal que ganhou.    

Duas declarações sob juramento feitas por ex-membros do exército alemão também afirmavam que o caçador de nazistas era um colaborador, mas tais afirmações devem ser tratadas com extremo cuidado.

Sujar Wiesenthal é um passatempo predileto para anti-semitas, negadores do Holocausto, “revisionistas” e outras figuras.

Mas a multiplicidade de relatos conflituosos exige que questões sobre a autenticidade de sua estória sejam levantadas por aqueles que, como eu, não tem nenhuma agenda.

Contudo, não tenho nenhum arrependimento em dizer que a maior mentira que ele espalhou foi sobre seu envolvimento na caçada e eventual captura de Adolf Eichmann, uma suposta ação com a qual ele sempre estará associado – e totalmente injustificada.

De acordo com o mito, Simon Wiesenthal começou a caçar Eichmann tão logo a guerra terminou.

No início dos anos 1950, ele havia desistido da busca, quando então teve a chance de se encontrar com um nobre austríaco chamado Barão Mast no final do outono de 1953.

O Barão Mast mostrou a Wiesenthal uma carta que ele recebeu em maio daquele ano de um antigo camarada de exército agora vivendo na Argentina, onde o escritor estava atrás do “porco Eichmann”, que estava vivendo em Buenos Aires e trabalhando próximo.

Em sua primeira memória publicada, “Eu cacei Eichmann”, Wiesenthal lembra como ele estava terrivelmente excitado pelas notícias, mas estava fora de seu alcance.

Uns poucos meses depois, em 30 de março de 1954, Wiesenthal finalmente enviou um dossiê sobre Eichmann para o Congresso Mundial Judaico e para o cônsul israelense em Viena, no qual ele compartilhava os conteúdos da carta do Barão e revelava que o criminoso estava trabalhando em uma obra de uma estação elétrica a 80 km de Buenos Aires.

Infelizmente, a inteligência de Wiesenthal era inútil. Não somente ele era incapaz de fornecer o nome falso de Eichmann – Riccardo Klement – mas na época da carta do barão, Eichmann estava de fato trabalhando mais de 1000 km de Buenos Aires, e em março de 1954, ele estava vivendo na capital argentina tentando estabelecer seu próprio negócio.

Entretanto, o pior estava por vir.

Em 1959, quando a caçada por EIchmann esta esquentando, o serviço de inteligência israelense, o Mossad, perguntou a Wiesenthal se ele poderia dar mais informações sobre o criminoso.

Em 23 de setembro, ele escreveu aos israelenses e disse-lhes que suspeitava que Eichmann estava no norte da Alemanha e que ele “visita a Áustria de vez em quando.”

Novamente, ele estava fornecendo informação inútil.

A partir de outras fontes, os israelenses estabeleceram que o fugitivo estava de fato em Buenos Aires, e que a dica de Wiesenthal levava a lugar nenhum.

Após Eichmann ser sequestrado no ano seguinte por agentes do Mossad, Wiesenthal pelo menos teve a gentileza de negar que ele “tinha algo a ver com a prisão de Eichmann,” e que ele guardou todos os seus arquivos em Jerusalém.

Porém, com os israelenses permanecendo calados sobre seu envolvimento, ele decidiu preencher o vácuo de informações e começou a colocar-se no coração da caçada.

Ele escreveria que, apesar dele ter dito que enviou seus arquivos para Israel, ele na verdade manteve o arquivo sobre Eichmann. Isto é totalmente inverídico.

Talvez a mentira mais chocante de Wiesenthal relacionada ao caso Eichmann seja afirmar que ele disse aos israelenses em sua carta de setembro de 1959 que o nazista estava na verdade na Argentina.

Como vimos, ele disse a eles que Eichmann estava provavelmente na Alemanha – uma pequena diferença de muitos milhares de quilômetros.

Curiosamente, o Dr. Segev viu tanto a carta de setembro de 1959 quanto a afirmação mais tarde, mesmo assim ele preferiu ignorar as diferenças em seu livro.

O fato é que Wiesenthal mentiu sobre sua educação, suas experiências de guerra e sobre sua “caçada” a Adolf Eichmann.

Qualquer homem que carregue tantas mentiras não merece ser reverenciado. Apesar de alguns desculparem os “contos da carochinha” de Wiesenthal, existem simplesmente muitas outras mentiras para levá-lo seriamente.

Além disso, ao dizer que Wiesenthal “viveu entre a realidade e a fantasia” para lidar com suas experiências de guerra é um insulto a todos aqueles sobreviventes do Holocausto que simplesmente disseram a verdade.

http://www.dailymail.co.uk/news/article-1310725/Why-I-believe-king-Nazi-hunters-Simon-Wiesenthal-fraud.html?openGraphAuthor=%2Fhome%2Fsearch.html%3Fs%3D%26authornamef%3DGuy%2BWalters


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