sábado, 30 de março de 2013

[ARM] Gepard

Projetado na década de 1960, no auge da Guerra Fria, para defender a Alemanha de um eventual avanço de aviões soviéticos, o Gepard é produzido pela empresa alemã KMW e entrou em serviço no início dos anos 70. Baseado no tanque Leopard - em operação atualmente no Exército Brasileiro -, o Gepard é equipado com uma grande torre giratória, dotada de um par de canhões Oerlikon KDA, de 35 mm.
 


Os Requisitos Operacionais do Gepard foram formulados pelo Exército Alemão, nos anos 60. Duas empresas apresentaram propostas e protótipos: a Oerlikon Contraves (hoje Rheinmetall Air Defense) e a própria Rheinmetall.
Em 1973 é escolhida a versão da Oerlikon Contraves com a adoção do radar Siemens MPDR12, que tinha sido desenvolvido para a versão Matador da Rheinmetall.
 
A versão escolhida foi o Gepard equipada com dois canhões Oerlikon 35 mm KDA. Cada canhão tem 310 tiros para AA e 20 tiros para AT (anticarro). O engajamento do alvo ocorre a 3.000 a 5.000 m com rajadas de 20 a 40 tiros.

Foi desenvolvida nova munição que estende o alcance para até 5.000m.

Os países que adquiriram o Gepard foram:
  • Alemanha - 423 carros
  • Holanda - 100 com radar da Hollandsee Signalapparaten que equipava a versão Matadorda Rheinmetall
  • Bélgica - 55 carros
  • A România adquiriu uma quantidade de excedentes do Exército Alemão em 1999.

Os principais requisitos e características do GEPARD:

- alto nível de proteção;
- alta mobilidade;
- autônomo (só dependente de apoio logístico para combustível e munição)
- busca independente e sensores de rastreamento;
- proteção NBQ para a tripulação, e,
- capacidade de operar em ambiente de interferências eletrônicas;

Seu principal objetivo na época (anos 70/80), eram defesa antiaérea contra aviação tática soviética (Aviação do Front), e principalmente os helicópteros de ataque equipados com mísseis como o Mi-24 Hind.

O primeiro contrato de produção para 122 Gepard foi assinado com a empresa KraussMaffei (Hoje KMW).Em 1980 foi encerrada a produção para todo os clientes.

Em 1996 o Exército Alemão contratou a KMW para aperfeiçoamento do Gepard surgindo a versão A2.

Foram incorporados: um sistema de tiro digital,visores termais estabilizados, datalink a um centro de controle de defesa aérea/ monitoramento, sensores de velocidade da munição (Vo) mais aperfeiçoados.

Características

O carro tem autonomia de 550 km com uma velocidade máxima de 65 km/h. Possui um tanque de 985 litros fazendo uma média de 600 metros por litro. Contém dois motores, o do chassi e o auxiliar(APU), de 90 HP, que é responsável por alimentar de energia os sistemas de observação, radares e a torre do blindado.

Sem preparação ele cruza num vão de 0,75 metros, com vedação para não entrar água e demais ajustes pode chegar a 2,25 metros. Pode cruzar um obstáculo de 60 graus na frente e 30 graus de lateral. A blindagem de 20 milímetros.

As funções do atirador e chefe podem se confundir, pois enquanto um atira o outro está fazendo uma varredura do espaço aéreo. O que facilita isso são os periscópios que trabalham de maneira independente.Juntamente com o Gepard, o Exército Brasileiro comprou um simulador para treinamento das tripulações.

Tripulação: 3 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador)Comprimento: 7,68 m
Largura: 3,71 m
Altura: 3,29 m (com radar de busca recolhido)
Peso: 47,5 t
Potência do motor: 830 hp
Velocidade máxima: 65 km/h
Autonomia: 550 km
Alcance: 5 km
Área de vigilância: 15 km
Armamento: 2 canhões de 35 mm alimentados por correia; 8 lançadores de granadas de fumaça; possibilidade de instalação de 2 suportes de lançamento de mísseis terra-ar



 
 
No Brasil

Os planos de mobiliar a modernizar a defesa antiaérea do Exército Brasileiro dentro do Projeto Estratégico Defesa Antiaérea surgiu o Gepard 1 A2 como uma opção de baixo custo e atendendo a rápida disponibilidade.

Para isto foram adquiridos 37 carros de combate Gepard, que virão para o Brasil até 2015. O material irá dotar as Baterias Antiaéreas das Brigadas Blindadas do Exército. Os Gepard foram distribuídos para unidades subordinadas à 6ª Brigada de Infantaria Blindada, localizada no Rio Grande do Sul, e também para a Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea no Rio de Janeiro.

A avaliação do Exército Brasileiro levou à solução de Artilharia Antiaérea em vez de mísseis pela sua pronta resposta e a possibilidade de tratar contra alvos móveis e de pequena seção visível ao radar como os UAVs e Drones.

Os “concorrentes” do Gepard

PGZ95 (China)
 
 

 
Fabricado pela chinesa Norinco, o PGZ95 é empregado pelo Exército da China desde 1999.
 
Características
 
Tripulação: 3 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador)
Comprimento: 6,71 m
Largura: 3,2 m
Altura: 3,4 m
Peso: 22,5 t
Velocidade máxima: 53 km/h
Autonomia: 450 km
Armamento: 4 canhões automáticos de 25 mm; 4 lançadores de mísseis terra-ar QW-2

PZA LOARA (Polônia)


 

 
Equipado com o mesmo tipo de canhões do Gepard, o LOARA foi desenvolvido no fim da década de 1990 na Polônia, usando como base o chassi do tanque soviético T-72 MBT. Em 2004, o governo polonês autorizou o início da produção em série do blindado.
 
Características

Tripulação: 3 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador)
Comprimento: 6,67 m
Largura: 3,4 m
Altura: 2,19 m
Peso: 45 t
Potência do motor: 1.000 hp
Velocidade máxima: 60 km/h
Autonomia: 650 km
Armamento: 2 canhões automáticos de 35 mm alimentados por correia

Type 87 SPAAG (Japão)
 


Assim como o Gepard e o LOARA, o Type 87 SPAAG é equipado com os canhões Oerlikon, de 35 mm. Fabricado pela empresa japonesa Mitsubishi, está em operação no Exército do Japão desde 1987.

Características
Tripulação: 3 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador)
Comprimento: 6,7 m
Largura: 3,2 m
Altura: 4,1 m
Peso: 44 t
Potência do motor: 750 hp
Velocidade máxima: 53 km/h
Autonomia: 300 km
Armamento: 2 canhões automáticos de 35 mm alimentados por correia; 6 lançadores de granadas de fumaça

Tunguska M1 (Rússia)
 

 


O projeto do Tunguska foi desenvolvido na década de 1970. Em 1982, o blindado entrou em operação na extinta União Soviética.
 
Características
 
Tripulação: 4 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador, 1 operador de radar)
Comprimento: 7,93 m
Largura: 3,24 m
Altura: 3,36 m
Peso: 34 t
Potência do motor: 780 hp
Velocidade máxima: 65 km/h
Autonomia: 500 km
Armamento: 8 mísseis terra-ar 9M311-M1; 2 canhões automáticos de 30 mm




sexta-feira, 29 de março de 2013

[SGM] Os Soldados não-Arianos de Hitler

Voluntários soviéticos da Ásia Central

Mesmo hoje, mais de sete décadas após o início da Segunda Guerra Mundial, parece incrível que milhares de homens cujos países foram conquistados pelos nazistas se apresentaram como voluntários na temível SS. Centenas de milhares foram voluntários ou se alistaram nas forças armadas alemãs, Wehrmacht (Heer/Exército, Kriegsmarine/Marinha e Luftwaffe/Força Aérea). Muitos não tiveram escolha, mas um número significativo desejava ser membro dessas organizações, e aqueles que serviram na SS eram, em sua maioria, voluntários.

Durante o andamento da Segunda Guerra Mundial, a Waffen-SS (SS Armada, o ramo militar da SS) cresceu de uma força de elite de quatro regimentos compostos somente de cidadãos alemães, que obedeciam os padrões físicos e raciais de Heinrich Himmler, para uma força poliglota de 900.000 homens em 39 divisões, sendo mais da metade formada por voluntários estrangeiros ou alistados. Mesmo assim, em seu auge, a Waffen-SS representou apenas um décimo da força da Wehrmacht – apesar de ter sido responsável por um quarto da força blindada alemã.

Poucas pessoas compreendem o quão eram internacionais as forças armadas alemãs na Segunda Guerra Mundial. É estimado que cerca de dois milhões de estrangeiros serviram sob a suástica. Apesar de no final da guerra grande parte deles terem sido transferidos para a SS, muitos ainda serviram no Exército, particularmente na frente oriental. Os mais comprometidos entre os voluntários estrangeiros encontraram um lar na SS, de modo que a organização assumiu mais uma aparência da famosa Legião Estrangeira francesa do que a de uma unidade de elite alemã.   

Apesar da SS não receber voluntários não-alemães até quase metade do conflito na Rússia, a ideia de recrutar tais homens data antes da guerra. Em sua busca por uma Europa pan-germânica, o Reichsführer-SS (Comandante Supremo) Heinrich Himmler decretou em 1938 que não-alemães de origem “nórdica” poderiam se alistar na SS. Isto se devia ao fato de que a Wehrmacht detinha o monopólio e a preferência do alistamento militar sobre os cidadãos do Reich. O explosivo crescimento da Waffen-SS refletiu o desejo de Himmler de criar um instrumento de poder político que seria o guardião da revolução nacional socialista no interior da Alemanha. Noruega, Dinamarca, Holanda e Bélgica tinham seus próprios partidos fascistas, criados segundo o modelo alemão ou italiano. No início, era a doutrina racial nazista que determinava o nível de aceitação dos voluntários. Dinamarqueses, noruegueses e flamengos (belgas germânicos) eram considerados “arianos”, enquanto que franceses, espanhóis e valões (belgas franceses) não eram considerados racialmente puros.

O soldado alemão ideal, o melhor entre as elites, conquistou a Polônia após ter tomado a Áustria e derrotou as tropas belgas, holandesas, francesas e britânicas. Somente os finlandeses, noruegueses, dinamarqueses, holandeses, flamengos e valões eram bem vistos pelos nazistas, já que estes povos tinham origem germânica e ancestralidade nórdica, pois em 1941 e 1942, para Hitler, a questão da raça ainda era uma das forças motivadoras da Alemanha. Húngaros, búlgaros, romenos, croatas e eslovenos fizeram seu melhor na frente russa, mas jamais foram páreo para o soldado alemão treinado no estilo prussiano. De fato, apesar das primeiras formações no Exército e na Waffen-SS terem fortes motivações políticas, sua performance no campo de batalha não foi compatível com seu entusiasmo inicial. Exceção pode ser feita à Divisão Wiking, formada por escandinavos, que foi uma verdadeira tropa de elite. Comandada por Felix Steiner, um dos maiores nomes da Waffen-SS, a Wiking foi a primeira divisão internacional da SS.

A campanha na Rússia foi a grande força motivadora no recrutamento de estrangeiros. Descrita como uma cruzada contra o comunismo, a guerra no Leste atraiu muitos idealistas de extrema direita. No período entre guerras, a política europeia ficou fortemente polarizada entre dois sistemas políticos antagônicos, o fascismo e o comunismo, e o apoio soviético a movimentos comunistas locais tornou a União Soviética uma espécie de pária na Europa.

Graças ao rápido avanço na União Soviética, a Wehrmacht capturou quase três milhões de prisioneiros – entre eles mongóis, armênios e asiáticos, considerados em 1941 como “sub-humanos” - e os deixou para morrerem em campos de prisioneiros a céu aberto. Entretanto, o período entre 1941 e 1942 marcou uma guinada decisiva e inesperada em relação ao comportamento das autoridades nazistas com os “não-arianos”. No início de 1943, após a derrota do 6º. Exército, comandado pelo Marechal-de-Campo Paulus em Stalingrado, a necessidade por mais homens aumentou consideravelmente. No final deste ano, os nazistas recrutaram 80.000 ucranianos para a guerra contra a União Soviética, dos 17.000 se uniram à Divisão Galícia da Waffen-SS. A última onda de ucranianos recrutados apareceu no outono de 1944 e muitos líderes nacionais foram libertados dos campos de concentração alemães para se juntar ao exército de Vlasov na “guerra contra o Bolchevismo”.

À medida que a guerra progredia e os recursos humanos escasseavam, a SS diminuiu seus padrões raciais. A propaganda nazista também mudou à medida que mais não-arianos juntavam-se à Wehrmacht e à Waffen-SS. Os prisioneiros russos seriam recrutados dentro dos campos alemães; alguns o fizeram porque foram obrigados, outros porque eram anti-comunistas. Eles acabariam revelando-se bons soldados e certas “Tropas Orientais” (Osttruppen) permaneceriam lutando contra os soviéticos e gastariam seus últimos cartuchos pela causa alemã, tais como os kalmykianos (N. do T.: mongóis ocidentais da Rússia), chechenos, inguches, etc... Adolf Hitler e Himmler prometeram que, como último ato simbólico da vitória final, estes povos seriam libertados e tornados independentes.

Os bósnios, cristãos antigos convertidos ao Islã por diplomacia e razões pessoais durante a ocupação otomana, foram aceitos serem ilírios (tribos de indo-europeus que ocuparam a parte ocidental dos Bálcãs cerca de 400 a.C.), portanto quase arianos. Servidores leais do trono austro-húngaro, eles consequentemente mereceram ostentar as runas SS e a suástica em seus uniformes. Os mongóis foram considerados descendentes de Gengis-Khan, o grande conquistador e criador do maior exército móvel da história.

Assim, o maior número de voluntários estrangeiros a serviço dos alemães veio da União Soviética, apesar de que não foi somente no final da guerra que os padrões raciais da SS diminuíram a tal ponto de permitir que unidades SS russas fossem formadas. Quase desde o começo da campanha na Rússia, um número expressivo de prisioneiros de guerra e desertores soviéticos ofereceram seus serviços aos alemães. Conhecidos como Hilfswilige – literalmente “voluntários”, porém mais conhecidos como “voluntários auxiliares” e geralmente apelidados de “Hiwis” – estes homens serviram inicialmente em seus uniformes soviéticos, passando mais tarde a usar uniformes alemães.

Entretanto, nem todos esses recrutas foram bons soldados e podendo ser apenas utilizados em serviços de apoio, como motoristas, camareiros, pedreiros, lenhadores e mesmo chefes de cozinha. Isto permitiria que soldados alemães, que realizavam essas tarefas nada enobrecedoras, fossem enviados ao front. Estas tropas estrangeiras teriam atingido melhores resultados se tivessem sido treinadas e comandadas por oficiais compatriotas e recrutados em regimentos autônomos e com comandantes motivados. Ao invés disso, Hitler ordenou que estas unidades fossem absorvidas por regimentos alemães, com oficiais e sargentos da Wehrmacht e da Waffen-SS no comando, os quais eram conhecidos por sua dureza e falta de confiança.

Em alguns casos, estes soldados estrangeiros acabariam se rebelando e assassinando seus superiores alemães, como aconteceu com os bósnios em Aveyron em setembro de 1943, quando cinco oficiais alemães da SS foram assassinados, ou para entregar-se ao inimigo, como aconteceu aos georgianos na batalha de Carentan na Normandia, em julho de 1944. Estas traições na reta final da guerra aconteceram, respectivamente, por causa do péssimo tratamento a que as Osttruppen eram submetidas ou para mostrar às tropas aliadas que eles não eram nazistas. Consequentemente, mesmo em altas posições, estes homens eram considerados como um mal necessário e tinham que aguentar todo tipo de insultos, zombarias e assédio de seus mestres alemães, mesmo que as ordens do Alto Comando exigissem tratamento igualitário para todos os soldados.

Uma das unidades estrangeiras mais interessantes a serviço do Terceiro Reich foi a Legião Voluntária Indiana (Indische Freiwilligen Legion), criada pelo líder nacionalista Chandra Bose para lutar contra o domínio britânico na Índia. Ela foi formada através da captura de soldados indianos servindo as forças britânicas na África do Norte. Entre os 17.000 prisioneiros indianos, 3.500 concordaram em se alistar no exército alemão. A Abwehr (agência de inteligência das forças armadas alemãs) planejou para a Legião Indiana acompanhar as forças do Eixo no Cáucaso e então seguir atravessar o Irã em direção da Índia para desestabilizar o domínio britânico naquele país através de revoltas populares. Foi mesmo considerado lançar os voluntários indianos de paraquedas (uma força estimada em 800 soldados). Em janeiro de 1942, cerca de uma centena deles foi lançada na parte oriental do Irã e eles conseguiram promover alguns atos de sabotagem contra instalações inglesas. Entretanto, a operação foi cancelada devido à vitória dos soviéticos em Stalingrado. De qualquer forma, o recrutamento dos indianos foi difícil. A primeira unidade, o 950º. Regimento, com três batalhões, composto de dois terços de mulçumanos e um terço de hindus se amotinou na batalha de El Alamein em 1942. Em 1943, os indianos mulçumanos foram incorporados à 13ª. Divisão SS de voluntários da Bósnia-Herzegovina, uma divisão alpina, totalmente composta de mulçumanos. A legião indiana jamais conseguiu se impor militarmente, sendo relegada a funções de guarnição.

 
Soldado indiano do Exército alemão
 
A Legião Naval Croata, formada por 350 voluntários, tornou-se parte da Kriegsmarine e chegou em Varna no Mar Negro em 17 de julho de 1941, iniciando seu treinamento em navios caça-minas e submarinos. Em 30 de setembro, a unidade moveu-se para Gensicek na URSS, onde tornou-se operacional como a 23ª. Flotilha Caça-Minas da Kriegsmarine. Incapaz de operar seus navios no inverno, os marinheiros cavaram trincheiras e lutaram como infantes para defender a cidade dos ataques russos. Em abril de 1942, eles voltaram ao mar e permaneceram até o final do ano, quando retornaram para a Croácia. Em outubro de 1943, a legião foi desfeita e seus membros foram alocados para os navios da Kriegsmarine operando no Mar Adriático.

As Osttruppen do Exército alemão tiveram, é claro, um papel secundário comparado àquele da Wehrmacht nas operações terrestres. Mas, apesar disso, algumas destas formações estrangeiras lutaram bravamente. Isto porque estes soldados pertenciam a etnias perseguidas por séculos por todo tipo de invasores, de modo que eles viam a Alemanha como o único meio de obter sua independência. Na Normandia, os Georgianos do 795º. Batalhão deram muito trabalho às 82ª. e 101ª. divisões aerotransportadas americanas, enquanto que o 835º. Batalhão Caucasiano do Norte e o 781º. Batalhão Turquistanês lutaram contra o Regimento britânico Dorset.

Os soldados mais azarados da Segunda Guerra Mundial com certeza foram aqueles que os alemães recrutaram para as Tropas Orientais. Esses povos tiveram suas identidades roubadas inúmeras vezes, já que pertenciam a países asiáticos ou orientais antigos que sofreram invasões mongóis, turcas e russas entre os séculos I e XVIII e mudavam de nacionalidade de acordo com a do invasor. Passando do regime czarista para o soviético, eles perderam novamente suas identidades e lutaram contra a nova forma de governo. Com a chegada dos alemães, uma parte desses “soldados soviéticos” tornou-se “soldados da Wehrmacht”, alguns recrutados forçosamente, outros com a vaga esperança de uma queda do regime comunista.

Eles foram deslocados em direção do oeste, especialmente para a França e foram novamente extirpados de sua nacionalidade, deixados sem nenhuma escolha a não ser lutar com os alemães. Quando estava claro que a Alemanha perderia a guerra, eles perceberam que seriam feitos prisioneiros e possivelmente enviados à União Soviética, onde a morte por traição era praticamente certa. Alguns desertaram e se alistaram na Resistência; os armênios e croatas se infiltraram nas cidades francesas; aos indianos e asiáticos restava esperar a chegada dos Aliados; os rebeldes, saqueadores, assassinos e estupradores fugiram para a África do Norte.  
 
Soldado indonésio da Waffen-SS (A Indonésia era Colônia holandesa
na época e a Holanda estava ocupada pelos alemães)

                                                
Fontes:

Caucasian, Muslim and Asian Troops of the Wehrmacht and SS. J.F. Borsarello e W. Palinckx, 2007.

Hitler´s Foreing Divisions. Chris Bishop, 2005.

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Centenas de brasileiros lutaram ao lado dos nazistas

domingo, 24 de março de 2013

[POL] A Formação do Pensamento Político de Adolf Hitler

Voltaire Schilling

Acostumou-se a pensar ter sido Adolf Hitler, morto em 1945, uma vergonha dentro da civilização Ocidental e cristã, espécie de excrescência política sem raízes na nossa tradição. A indução a esse tipo de erro deve-se em parte à conceituação de ser essa civilização apresentada como um monopólio identificado com os princípios do humanismo, do liberalismo e da tolerância, omitindo-se discretamente sua latência colonialista, racista e agressiva, que germinava na cultura ocidental.

Antes de apresentarmos os argumentos necessários a refutar as considerações iniciais, acreditamos ser necessário alertar para as dificuldades que se antepõem àqueles que pretendem rastrear sua ideologia. Em primeiro lugar, Hitler sempre manifestou clara ojeriza ao intelectualismo, dando ênfase ao primado da vontade e da ação. Em segundo lugar, a totalidade da sua obra política ainda não foi reunida. Ele próprio empenhou-se em evitar uma edição dos seus discursos.

A razão disso é muito simples. Como todo e qualquer político de massas, ele foi é obrigado a realizar pronunciamentos muitas vezes contraditórios oscilando suas opiniões conforme o momento ou o público. Sendo crente no princípio da infalibilidade da liderança - o Führerprinzip - Hitler não admitia que encontrassem em seus pronunciamentos, incoerências ou idiossincrasias que causassem dúvidas ou lançassem sombras sobre sua integridade ideológica.

Portanto, enquanto não for realizado o levantamento completo de seus discursos, e boa parte deles se encontram transcritos no órgão oficial do partido nacional-socialista - o Völkischer Beobachter - devemos nos contentar com o Mein Kampf, publicado em 1925, ou as anotações feitas nas Tischgespraechen e ainda o Adolf Hitler in Franken.

 
Análises sobre Hitler

O papel de Adolf Hitler gerou uma bibliografia verdadeiramente pródiga e , em geral, de excelente nível; tais como as de Ernst Noite (Der Faschismus in seiner Epoche); a de Karl D. Bracher (Die deutsche Diktatur); a do historiador britânico Alan Bullock ( Hitler: a study of a tirany) e o mais recente trabalho de Joachim Fest (Hitler), que anteriormente já se havia consagrado com a notável Das Gesicht des Dritten Reiches.

Devemos lembrar ainda o livro do professor J.P. Stern (Hitler: the Führer and the people) editado a pouco menos de sete anos, caracterizado pelo seu esforço de síntese e brilho intelectual. Merecendo um especial destaque a imensa obra de Ian Kershaw editada em dois tomos: Hitler, 1889-1936 Hubris ; Hitler, 1936-1945 Nemesis, aparecidas em 1998 e 2000, e traduzidas para o português (Hitler, Companhia das Letras, 2009).

Quase todos esses trabalhos foram sob o prisma da interpretação liberal ou social-democratica, corrente que até agora se mostraram mais ativas na sua tentativa de compreensão do nacional-socialismo. Deve-se igualmente alertar que a personalidade de Hitler tem sido minuciosamente averiguada pelos adeptos da psico-história. No entanto basta passar os olhos sobre esse tipo de literatura para se ficar em dúvida sobre a sanidade, não de Hitler, mas a de seus psico-intérpretes.

Hitler segundo o marxismo

Não deixa de parecer estranho que até os nossos dias o pensamento marxista foi incapaz de produzir um trabalho clássico sobre o seu principal e formidável inimigo, aquele que desejava exterminá-lo. A literatura marxista não tem sido feliz em suas análises, demonstrando uma impotência teórica abrumadora: repetem ad nauseam os conhecidos ditos de ter sido Hitler o representante máximo da "ditadura do capital financeiro" ou o "tirano do capitalismo monopolista", terminando por reduzir o nazismo a um epifenômeno da economia, não apresentando nenhuma razão mais contundente para as massas germânicas terem aderido às suas propostas.

Por outro lado, essa impotência é reveladora porque de sua derrota nos anos 1920 e 1930 frente ao nazi- fascismo. Um esforço recente foi aquele realizado pelo neomarxista Nicos Poulantzas (Fascisme et Dictadure), mas que deixou muito a desejar na medida em que encontrou muito mais preso à metodologia estruturalista do que ao maior legado de Marx, que foi a História.

O caminho prussiano

Enquanto os jacobinos e girondinos franceses destroçavam as amarras do Ancien Regime por meio de um processo revolucionário que sepultou a nobreza feudal, aos intelectuais alemães coube realizar uma "revolução pelo espírito", que produziu apenas excelentes tratados filosóficos. Não está longe da verdade a imagem de terem os pensadores alemães se debruçado sobre as margens orientais do Reno e assistido embevecidos às façanhas irreverentes de seus vizinhos.

Alguns mantiveram esperanças que o "espírito da razão" atravessasse as braçadas o rio e emancipasse a nação alemã. Mas não foi o "espírito" e sim o Grande Exército napoleônico quem se apossou da nação alemã. Não foram os argumentos iluministas os mais convincentes, mas sim a artilharia francesa. Assim, na Alemanha, o liberalismo vinculou-se inarredavelmente ao exercito de ocupação - a algo estranho a ser rejeitado pelos "verdadeiros alemães". E quando se deu o desabamento do império napoleônico, a vitória coube às forças conservadoras feudais da Santa Aliança, coligação tradicionalista e aristocrática que continuou a gozar de prestigio junto à população alemã.

Na medida em que se considerava impotente para derrubar o poderoso Estado militar-feudal prussiano, sediado em Berlim, a burguesia alemã resignou-se, escolhendo a capitulação. Ainda em 1848/9, na chamada Revolta dos Poetas, tentou inutilmente impor suas diretrizes de cunho liberal, mas fracassou. O medo que o populacho pudesse avançar politicamente refreou-lhe o desejo de emancipação.

Deste modo, frustrada a solução da unificação nacional pela via liberal, só restou ao capitão da progressista região do Reno seguir o junker, o guerreiro feudal e comandante das armas do exército prussiano. O resultado disso foi a ascensão do II Reich, fundado por Otto von Bismarck, o estadista prusssiano que consolidou o poder autoritário sobre o restante da Alemanha às custas de guerras.

A burguesia alemã submete-se ao Estado Feudal

Bem antes, o filósofo Hegel havia traçado o perfil desse peculiar acordo entre a burguesia alemã e o aparelho feudal-prussiano. "O Estado", disse ele "é o espírito como vontade substancial revelada clara para si mesma, que se conhece e se pensa e realiza o que sabe e porque (...) enquanto o individuo obtém sua liberdade substancial da sua atividade".

Quer dizer, a liberdade não se dá como ocorreu entre a burguesia inglesa e francesa, isto é contra o Estado, limitando-lhe o poder e a autoridade , mas sim por meio dele e sob a atenta proteção dele. Friedrich Engels, o companheiro de Karl Marx, furibundo sintetizou tal situação de conformismo afirmando que a gente de classe média alemã, estreita de pensamento, deixara a aristocracia prussiana no leme do Estado conquanto pudesse ganhar dinheiro.

Portanto, todo o roteiro de transformações por que a Alemanha passou no século 19 (basicamente sua unificação nacional e acelerada industrialização) se deu dentro dos "quadros de ferro" do estado feudal-militar com seu culto à disciplina e à ordem e com escassa tolerância para com a dissidência política, consagrando o dito "Gegen demokraen helfen nur soldaten", contra democratas só adianta soldados.

Esta contradição histórica e social, onde encontramos os meios de produção nas mãos de burgueses e as instituições políticas ocupadas pela casta militar dos junker, terminou mais tarde por conduzir o país à camisa-de-força do nacional-socialismo. A dolorosa gravidez da burguesia alemã não produziu um nascituro democrático, e sim um tirano expressionista.

O Social-Darwinismo

Hitler não se abeberou somente do passado nacional alemão, com seu culto ao militarismo e ao estado todo- poderoso. O social-darwinismo, extremamente difundido a partir da publicação da obra de Charles Darwin em 1859, teve um peso inequívoco em sua concepção ideológica.

A ideia básica dessa teoria era que, como na selva, os destinos dos povos e a evolução geral da sociedade eram regidos por fatores de ordem biológica. As mesmas leis que existiam na selva e nas savanas imperavam na sociedade humana.

No plano político, a ideologia social-darwinista conduzia a fazer uma apologia dos mais fortes, daqueles que conseguiam se impor perante o rebanho. Seriam eles, os ricos, os poderosos, os proprietários, os condutores naturais da sociedade humana da mesma forma que os leões se impõem sobre os demais animais da floresta.

Segundo esse raciocínio, qualquer ideia que propusesse a igualdade entre os homens não estaria apenas propagando uma quimera como igualmente cometendo um atentado contra a natureza.

Os social-darwinistas propunham um processo de seleção rigorosa por meio da eugenia, operação que exigia ao mesmo tempo a eliminação e a procriação de certos tipos humanos - um controle biológico qualitativo, que permitiria a supremacia de alguns sobre os demais.

Radicalizando-se com o tempo, defendiam a eliminação dos desajustados, o apelo ao dirigismo técnico para a política de colonização, o internamento forçado em silos e a esterilização dos elementos tidos como inferiores.

Essa doutrina trazia em bojo uma categórica rejeição tanto ao socialismo como à democracia na medida em que tanto um como outro se opõe ao domínio do mais forte, ao sucesso do mais apto e capaz, como era aceito pelos social-darwinistas.(*)

Não existe igualdade na selva nem se dá a partilha equitativa dos recursos materiais. Os leões não são iguais aos cordeiros nem eleitos por esses. Eles simplesmente se impõem aos demais. Como facilmente se observa, todo o programa nacional-socialista já se encontrava previamente esboçado nessas teorias que tinham ampla difusão e aceitação por toda Europa "respeitável" no período anterior à Primeira Guerra Mundial. Já Mussolini bradava a respeito do Movimento Fascista, Noi il leone! Nós os leões!

(*) o termo social-darwinismo surgiu em 1879 por obra de um artigo publicado na revista Popular Science por Oscar Schmidt. Seus antecedentes ideológicos prestam tributo ao demógrafo e economista inglês Thomas Malthus, ao sociólogo Herbert Spence, ao sobrinho de Darwin Francis Galton e ao biologista alemão Ernst Haeckel.

A visão conflitiva da humanidade

Em sua visão universal (Weltanchauung) havia uma luta permante entre dois tipos de humanidade. Uma, a desprezada por ele, a que denominou de "humanidade individualista", guiava-se por sentimentos de fraternidade e espírito de colaboração, influenciada por princípios morais religiosos ou inspirada em filosofias sociais que visavam a contenção dos instinto e da agressividade humana.

A outra, a qual ele se alinhava, era a "humanidade natural", que se aproximava com mais fidelidade das leis mais primárias, que justamente são as que "destroem a debilidade para dar lugar à força". Esta celebra a coragem, o destemor, deixando-se levar pelos impulsos originais mais chãos que lhe permitem a superação dos desafios e o empenho na liquidação dos mais débeis.

Este conflito entre estas duas humanidades se estende para os povos e os países. Dada a perspectiva de escassez futura das possibilidades materiais de reprodução da vida - visto que está em curso uma implacável disputa por espaço, - somente aquele "mais forte em coragem e em zelo", o que possui "a energia de o conquistar e o cuidado de o cultivar", é que receberá "o prêmio da existência", que sempre contempla o mais resistente. A natureza "não conhece limites políticos".

Assim, somente a "cegueira pacifista" de certos povos faz com que desistam das conquistas necessárias à reprodução e ampliação das raças fortes. E, se fazem isto, incorrendo no erro, contribuem para limitar-se e debilitar-se e, por isto mesmo, condenando-se a desaparecer do cenário da vida.

Duas ordens disputam o futuro da humanidade. A primeira esta baseada na presença do número, regida pelo espírito da democracia que teima em representar e promover as inúmeras raças mais fracas (cuja vitória representaria fatalmente o sucesso da anemia e da covardia, projetando o definhamento geral da humanidade), a outra, ao contrário, será aquela em que as leis da "ordem natural" estarão no comando.

O conflito filosófico claramente se dava entre o ideário iluminista, repudiado por ele, e o darwinista, do qual se julgava intérprete e seguidor. Este embate não se dava pela luta de classes como os marxistas supunham, mas pela luta entre raças, um choque titânico pelo controle do mundo.

Neste caso, os reais vencedores serão "os povos de vontade brutal", aqueles que não exigirão nenhum limite dos seus, nem aos seus instintos naturais e nem ao desejo de expansão e conquista.

Esta luta fenomenal pela existência que cobre o planeta inteiro fará desaparecer as inibições inerentes "ao espírito de humanidade" (composto, segundo Hitler, por "palermice, covardia e pretensa sabedoria"), visto que o "instinto de conservação" é imensamente superior a tudo o mais e não se deixa prender por considerações de ordem ética ou moral. Tudo se move "numa luta perpétua, a paz eterna pô-la-á (a humanidade) no túmulo". (ver Adolf Hitler - Minha Luta, cap.IV).

Simultaneamente, embebido pela concepção heróica da história que ele absorvera de Thomas Carlyle (**), viu o choque entre as nações como embate entre seus líderes. Eram os super-homens ou titãs modernos quem entravam na liça e venciam a parada. As massas apenas os seguiam, obedientes e fiéis. A guerra era sempre uma atividade de gênios ou de gigantes, de personalidades excepcionais que saiam-se bem devido a sua férrea vontade e vocação para o sucesso.

Hitler tinha total confiança na sua estrela porque acreditava que o clarão da vitória iluminava aquele que tivesse a vontade de poder e seguisse a preponderância do mais forte, e não pelos que dispunham de quantidades materiais.

Era a personalidade não o número é que importava (mentalidade que de certa forma explica o desatino dele em, confiando nos alemães serem uma super-raça, manter guerras simultâneas contra o Império Britânico, contra a União Soviética e contra os Estados Unidos).

(**) Ele se impressionara com o famoso livro de Carlyle sobre a biografia de Frederico o Grande, publicado entre 1858 1868, no qual ele defende o primado do herói sobre tudo o mais.

O racismo

Outra poderosa vertente que fluirá para o caudal da ideologia nacional-socialista estava armazenada no pensamento racista do século 19. Deve-se observar que as teorias racistas apresentavam em comum um "lamento aristocrático", um fatalismo da nobreza europeia que, apesar de ainda granjear respeito, sentia-se cada vez mais marginalizada do poder político pelo processo histórico.

Incapazes em poder explicar seu declínio social por meio racional, diziam que a "decadência da raça aristocrática" resultara de uma irresponsável miscigenação com grupos inferiores.

Justificaram o declínio da nobreza pela degradação biológica da sua espécie. Seu principal representante foi o francês José Artur , conde Gobineau, autor do Essai sur I¿inégalle dès races humanes, Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, de 1853/5, que determinou não só a superioridade da raça branca sobre os demais, como explicava as distinções sociais entre nobreza, burguesia e povo de acordo com sua maior ou menor participação no sangue ariano (raça superior mitológica, formadora da aristocracia europeia e dos brancos "puros" em geral).

Coube a outro francês, o antropólogo Vacher de Lapouge, autor do L¿ Arien, son role social, O ariano e seu papel social, levar o naturalismo às últimas consequências. Na medida em que o homem não é a imagem de Deus, só são válidas as leis do reino animal. O Ariano - rocher de bronze - que apresenta estabilidade do sangue e é o motor do progresso e da civilização humana e se encontra socialmente representado na classe dominante.

Por último, lembramos aquele que interpretou toda a história da humanidade sobre o prisma racista - o inglês Houston S. Chamberlain. Autor do famoso ensaio Die Grundlagen des Neunzehnten Jahrhunderts, Os Fundamentos do Século 19, aparecido em 1899, onde acentua à luta entre as raças, interpretando a História como um conflito entre elas.

Ele considerava os alemães como os últimos portadores de elementos sanguíneos puros na medida em que, graças à sua situação geográfica, não foram contaminados nem pelo decadentismo latino, nem pela barbárie asiática, como ocorrera com os eslavos. Esta crença na supremacia teutônica lhe foi inculcada pela convivência com o compositor Richard Wagner, de quem se tornou genro, quando passou a ser um integrante do Círculo Bayereuth, composto por escritores e intelectuais ultra-nacionalistas.

Quando foi apresentado a Hitler, então no início de sua carreira, afirmou "o fato de que a Alemanha tivesse dado á luz um Hitler, na hora de sua maior desgraça, demonstrava sua vitalidade como nação."

O antissemitismo

Se a difusão das ideias racistas poderia parecer uma novidade no contexto cultural europeu, o mesmo não se pode dizer em relação ao anti-semitismo (***), cujas origens datam no mínimo do tempo das Cruzadas. Deve-se observar, no entanto, uma radical modificação nos argumentos dos antissemitas. Até o século 18, o preconceito contra os judeus se fundamentava em razões de ordem religiosa ou teológica.

No século 19, com o enorme desenvolvimento das ciências naturais e positivas, os argumentos cristãos caíram em desuso. O moderno antissemitismo então vai se abeberar na corrente naturalista, dando o surgimento de um anti-semitismo secular que retira seus argumentos da fisiologia, da biologia, da genética e da bacteorologia.

A partir de então a literatura reacionária é pródiga na utilização de termos como "vírus judaico", "bactérias nocivas", aos quais contrapõe a política da eugenia, da preservação da raça branca ariana. Mas o anti-semitismo redobra suas forças não só pelos argumentos obtidos junto aos naturalistas.

O século 19, é o século do nacionalismo burguês, perante o qual o judeu foi visto como um elemento não assimilável, um cosmopolita incorrigível, um apátrida incapaz de aderir ou compreender o conceito de nação. Fato explicitado pelo famoso Caso Dreyfuss, ocorrido na França no final daquele século.

O mesmo tema, da impossibilidade de adaptação do judeu a uma outra cultura, foi abordado pelo famoso historiador Heinrich Treitchke, símbolo maior da Alemanha "respeitável", num ensaio de grandes repercussões, publicado em 1879. Um dos seus discípulos foi o professor Hans Gunther, autor da Pequena Etnologia do Povo Alemão, aparecido em 1929, no qual ele celebrou o Ariano Nórdico como a vanguarda da civilização, condenando com veemência a "introdução de sangue estrangeiro" na Europa.

Além disso, o anti-semitismo tomou impulso, segundo o historiador Robert Seltzer, por ser uma reação ao sucesso dos judeus emancipados em meio à sociedade europeia do século 19, situação que passou a causar mais temor ainda do que a imagem do antigo judeu de gueto que somente de vez em quando era assolado por violências e pogroms.

Por fim, sob o ponto de vista da direita feudal, a ascensão social dos judeus é a prova inconteste da decadência ocidental da sociedade capitalista, responsável pela extirpação dos valores aristocráticos.

(***) A expressão anti-semita ou anti-semitismo foi cunhada em 1873 por Wilhelm Marr, um escritor alemão, autor de O caminho da vitória do Germanismo sobre o Judaísmo, que teve larga difusão por todo o país.

Facilmente verifica-se que a formação do pensamento político de Hitler deitava raízes firmes no passado recente europeu, nas novas doutrinas anti-democráticas e anti-socialistas que não paravam de emergir num cenário de rivalidade intensa entre as potências e de expansão do domínio do homem branco sobre o restante do planeta, doutrinas estas que eram aceitas e difundidas por intelectuais respeitáveis.

Natural que depois da Segunda Guerra desejassem apresentá-lo como uma aberração, uma exceção, como se não houvesse racismo nos Estados Unidos, ou que a política de eugenia (a seleção dos racialmente melhores) fosse praticada somente na Alemanha Nazista, quando ela era praxe em muitos países europeus (na Suíça e na Escandinávia) e mesmo em 25 estados da América do Norte. O que não exime em nenhum momento da responsabilidade de Hitler tê-las adotado como política do estado alemão com terríveis consequências para a humanidade.

Bibliografia

Fischer, Klaus P.- Nazi Germany: A New History (1995);
Friedlander, Saul - Nazi Germany and the Jews (1997;
Kershaw, Ian - Hitler, 1889-1933, Hubris,(2001);
Maltitz, Horst von - The Evolution of Hitler's Germany (1973);
Milfull, John (editor) - Why Germany: National Socialist Anti-Semitism and the European Context (1993);
Seltzer, Robert M. Jewish People, Jewish Thought - The Jewish Experience in History (1980);
Tuchman, Barbara - A Torre do Orgulho (1966).


Tópicos Relacionados:

O Mito Hitler - Entrevista com Ian Kershaw


Hitler: Além da Maldade e da Tirania

terça-feira, 19 de março de 2013

[SGM] Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Stalin

Resenha do livro Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin, de Timothy Snyder.


Para a maioria das pessoas, que se interessa pela Segunda Guerra Mundial, a carnificina começou em 1939, bem antes das potências vencedoras do conflito – Estados Unidos e União Soviética – entrarem na guerra oficialmente. Timothy Snyder, um professor de história em Yale, mostra-nos como o extermínio em massa de pessoas e a destruição resultante dessa ação começaram no regime de Stalin e então passaram para o Reich de Hitler.

A época estudada está entre 1933 – o início da segunda onda de fome na Ucrânia – e 1945. A região de interesse é o território que fica entre a Polônia central e aproximadamente a fronteira da Rússia, cobrindo a Polônia oriental, Ucrânia, Belarus e as repúblicas bálticas. Naqueles anos e naqueles locais, um total inimaginável de 14 milhões de pessoas inocentes, a maioria dos quais mulheres e crianças, foram executadas, gaseadas ou intencionalmente deixadas para morrer de fome. As “terras de sangue” tornaram-se dois países: o Reich alemão e a União Soviética. Agindo em harmonia, estes dois países engoliram outros países da região. Claramente, então, as terras de sangue não são somente a estória da fome, guerra e massacre, mas também da conquista imperial.

Os três principais grupos de vítimas civis foram os judeus exterminados pelos alemães, os não-judeus exterminados também pelos alemães e os cidadãos soviéticos mortos por seu próprio governo. Neste caso, Snyder também poderia ter incluído os judeus e não-judeus mortos pelos aliados da Alemanha, pois sem a ação destes, muito menos judeus, ou poloneses e russos, teriam perecido. Como Snyder mostra, sem a polícia judaica, que tomava conta dos guetos e não permitia a saída dos judeus, mais pessoas desse povo teriam sido capazes de evitar a deportação para os campos de extermínio.

No relato de Snyder, as terras de sangue tiveram três períodos. O primeiro aconteceu entre 1933 e 1938, quando os soviéticos sozinhos realizaram a matança; a segunda fase, de 1939 e 1941, foi marcada pela colaboração de alemães e soviéticos na tarefa; e a terceira durou de 1941 a 1945, quando os alemães foram os principais responsáveis pelo extermínio em massa.

Acima de tudo, muito mais pessoas morreram nas terras de sangue nos anos 1930 e 1940 – de fome, tifo,frio, fogo, trabalho forçado, tortura e assassinato – do que em todo o resto da Europa. Podemos contestar a tese de Snyder argumentando que outras áreas da Europa foram analogamente afetadas – a Alemanha, com seu meio milhão de civis aniquilados pelos bombardeios aliados; ou a Grécia, onde 100.000 civis morreram durante a fome de 1941-42; ou o norte da Holanda, onde milhares foram deixados para morrer de fome no início de 1945; ou a Romênia, onde 300.000 judeus foram eliminados num Holocausto interno; ou a Hungria, onde em 1944, as autoridades entregaram 400.000 judeus para o extermínio nos campos alemães; ou a Iugoslávia, onde a guerra civil resultou em centenas de milhares de vítimas; ou em outros lugares da União Soviética, onde muitas minorias étnicas vivendo a leste das terras de sangue foram deportadas e parcialmente aniquiladas sob as ordens de Stalin durante a guerra. Porém, devemos concordar com Snyder essa honra maldita, de ter perdido a maior proporção da população durante a guerra, pertence à Polônia, Ucrânia, Belarus, as repúblicas bálticas e à Rússia ocidental. A tragédia dos outros estados europeus empalidece em comparação.

Na União Soviética, parece agora que, apesar de cerca de um milhão de pessoas terem perecido nos campos de trabalho, nove entre 10 prisioneiros de gulag sobreviveram. O grande assassinato de Stalin aconteceu não na Sibéria, mas nas repúblicas ocidentais soviéticas, acima de tudo a Ucrânia, onde nos anos 1930 pelo menos 3 milhões de pessoas morreram em fomes induzidas no massacre do campesinato kulak (N. do T.: o número pode atingir até 7 milhões, de acordo com alguns autores). A Ucrânia tornou-se o marco zero da fome induzida. O regime comunista confiscou os grãos das cidades, enquanto vigiava as fronteiras para impedir que o povo escapasse, ou fosse testemunha. O Holodomor, como os ucranianos o chamam, destruiu mais de 3 milhões de homens, mulheres e crianças. Mais de 2.500 foram condenados ao canibalismo em 1932 e 1933. Em 1937, “o censo soviético encontrou oito milhões de pessoas a menos do que havia sido projetado,” em grande parte na Ucrânia. Stalin se recusou a divulgar a informação e, consistente com sua prática geral, “mandou executar os demógrafos.”

As causas e motivações da coletivização, e da resultante fome catastrófica na Ucrânia Soviética e em outros lugares da URSS, ainda são calorosamente debatidas, mas pelo menos ninguém diz que ela não aconteceu. Isto nem sempre foi o caso. Em 1932-33, e em alguns casos mais tarde, todos os líderes soviéticos, e também alguns observadores ocidentais, como os jornalistas Walter Duranty e Louis Fischer, assim como o ex-primeiro ministro francês Édouard Herriot, negaram o fato completamente. As reportagens honestas do jornalista galês Gareth Jones e do jornalista britânico Malcolm Muggeridge foram censuradas pela mídia ocidental, tão grande era o fascínio do mundo com o experimento soviético. E todos aqueles que admitiam que havia fome em várias partes da União Soviética geralmente utilizavam o princípio apelativo do “você não pode fazer um omelete sem quebrar uns poucos ovos” – isto é, apesar da fome ser lamentável, era também uma necessidade política e econômica, um elemento indispensável à modernização.

Snyder demonstra que ao invés de aliviar o sofrimento no interior da Ucrânia, a liderança soviética fez o que pode para agravar as consequências da péssima colheita e garantir a fome. O campesinato como um todo foi tratado como um bando de sabotadores e saqueadores. Desde que as cotas de entrega eram impossíveis de ser cumpridas, brigadas formadas de trabalhadores industriais de outras regiões foram formadas para bater nos camponeses e manter suas fazendas limpas. Aqueles suspeitos de esconder ou destruir suas produções eram fuzilados ou enviados a campos de concentração. Tendo sido negados a passaportes internos, os camponeses famintos foram proibidos de entrar nas cidades. Eles sequer podiam ir a um hospital. Milhares morreram nas estações ferroviárias, nas beiras das estradas ou nas vilas. Historicamente, em épocas de fome, os produtores têm mais alimento do que os consumidores, mas neste caso, os produtores estavam em situação pior do que aqueles que viviam nas cidades, que recebiam bilhetes de ração negados aos camponeses.

Uma parte do campesinato, geralmente a mais próspera, era chamada de “kulak” e sujeita a perseguição particular. De certo modo, os kulaks eram tratados como os judeus na Alemanha Nazista – por exemplo, as autoridades publicamente proclamavam que a criminalidade kulak era hereditária e não poderia ser aliviada com a entrega da terra da família para o Estado. De fato, a ideia da criminalidade hereditária kulak continuou mesmo após a guerra, atingindo todo o bloco soviético. Na Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e Romênia, “kulaks e crianças kulaks mal educadas” eram enviados à prisão por sabotar seu estoque, mas também por tentar comprar forragem e pão nas cidades para abastecer seu estoque. Eles eram acusados de sabotar a produção socialista e de conspirar com o inimigo titoísta (N. do T.: seguidor do Titoísmo, um comunismo praticado na Iugoslávia durante a tirania de Tito) e americano.

As páginas mais terríveis no relato de Snyder da Grande Fome são aqueles que descrevem incidentes de canibalismo. Os aldeões ucranianos primeiro se alimentavam de cadáveres, porém mais tarde também matavam e se alimentavam de suas próprias crianças, ou mesmo as crianças se alimentavam de seus pais. Alguém, de alma corajosa, devia escrever um estudo acadêmico sobre o canibalismo praticado na Europa Oriental durante os anos 1930 e 1940, não só na Ucrânia, mas também na Leningrado sitiada, entre soldados soviéticos em campos de prisioneiros de guerra alemães, e até, eventualmente, em campos de prisioneiros de guerra soviéticos para os soldados alemães e outros. Curiosamente, não existem relatos de canibalismo entre judeus nos campos de concentração alemães. Isto deve ser devido ao fato de que tais judeus, que não foram fuzilados ou gaseados, receberam alguma alimentação. A morte por fome começou nos campos de concentração alemães somente nos últimos meses de guerra, quando o sistema nazista de rações de baixa caloria para os prisioneiros já não estava mais funcionando.

Mas Stalin não estava satisfeito. Em poucos anos, o Grande Terror, como é chamado, atingiu funcionários do partido e o Exército Vermelho, levando à execução de dezenas de milhares de oficiais e servidores públicos. O Terror também envolvia a matança de centenas de milhares de camponeses e membros de minorias nacionais, mais acentuadamente os poloneses soviéticos e, mais uma vez, os ucranianos. Stalin sentiu a necessidade de explicar as fatalidades da coletivização culpando os inimigos que sabotavam seus planos. Os poloneses vivendo dentro da União Soviética, que chegaram a 600.000 na época, preenchiam os requisitos. Ordenando prisões em larga escala, a polícia estatal buscava por sobrenomes poloneses na lista telefônica. Em Leningrado, quase 7.000 pessoas foram presas; uma grande maioria foi executada em apenas 10 dias. Deve ser admitido que, pelo menos em relação aos militares, a loucura de Stalin foi somente temporária, e que o Alto Comando alemão cometeu um grande erro ao interpretar que o Grande Terror era um sinal de fraqueza nas forças armadas soviéticas. Uma parte dos oficiais soviéticos libertados dos gulags foram aqueles que, entre 1941 e 1945, derrotaram os nazistas.

Na época em que o Grande Terror começou, em 1937, a diplomacia soviética havia mudado do isolacionismo para uma política de Frente Popular, favorecendo a cooperação com todas as forças esquerdistas contra a ameaça fascista de Hitler. Mesmo assim, em casa a capmpanha de terror atingiu seu ápice nesa época, incluindo os Grandes Espetáculos Jurídicos (Show Trials), um procedimento pavoroso inédito. Durante sua existência, incontáveis supostos conspiradores, sabotadores, saqueadores, espiões alemães, poloneses e japoneses, trotskistas e traidores social democratas foram torturados, julgados e executados, ou executados sem um julgamento. Em outras palavras, o Grande Terror era o reconhecimento que o povo não era julgado por sua classe, por sua posição na ordem econômica, mas por suas identidades pessoais e conexões culturais.

Snyder explica bem como a ênfase original bolchevista na luta de classes mudou para uma ênfase em lutar contra infiltradores estrangeiros: mesmo os kulaks eram considerados estrangeiros ou agentes estrangeiros, e assim também eram vistos os comunistas estrangeiros que pediram asilo na União Soviética. As principais vítimas do Grande Terror, entretanto, não foram Nikolai Bukharin e outros líderes comunistas soviéticos, e nem mesmo os poloneses ou outros comunistas estrangeiros, mas compatriotas comuns, muitos dos quais viviam na Rússia por gerações. “Em 1937 e 1938,” escreve Snyder, “um quarto de milhão de cidadãos soviéticos foram fuzilados por pertencer essencialmente a grupos étnicos... Stalin foi o pioneiro em extermínio em massa nacional, e os poloneses foram as vítimas proeminentes entre as nacionalidades soviéticas.” Para ser mais preciso, “das 143.810 pessoas presas sob a acusação de espionagem para a Polônia, 111.091 foram executadas.”

Com o início da Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939, Hitler logo ocupou uma grande parte da Polônia. Mas ele não iniciou de imediato o genocídio dos judeus. É verdade que os guetos foram construídos em Varsóvia e Lodz, e que dezenas de milhares de judeus poloneses sucumbiram por fuzilamentos aleatórios, exposição e doenças. Mesmo assim, isso não foi o Holocausto. Snyder mostra convincentemente como o Holocausto surgiu. Para os alemães, a presença repentina de um número gigantesco de judeus representou um dilema imediato. Snyder acredita que, até 1941, os alemães não planejaram aniquilar a judiaria européia. O terror e os fuzilamentos, sim – mas o principal objetivo era empurrar os judeus para fora do continente, para Madagascar ou para o império de Stalin. Somente quando a solução Madagascar provou ser inexequível, e que Stalin não os queria e que mesmo Hans Frank, o governador nazista da Polônia Central, não aceitaria mais judeus, é que os líderes nazistas começaram a pensar numa solução mais drástica.

Nas áreas onde os alemães chegaram somente no verão de 1941, era sua determinação inflexível fazer um trabalho radical – com a assistência da população local – que levou a tais resultados assustadores. E a principal razão para os pogroms a leste da linha Molotov-Ribbentrop aconteceu quando os soviéticos fugiram, no verão de 1941, e o NKVD – a polícia secreta soviética – deixou para trás os cadáveres de milhares e milhares de prisioneiros políticos, que ela havia liquidado no último momento. A população local, da Estônia até o sul da Ucrânia, viam a polícia política soviética como uma instituição judaica e os massacres do NKVD como o trabalho de judeus.

Em dezembro de 1941, quando o Exército Vermelho finalmente parou a Wehrmacht fora de Moscou, a política nazista mudou. Quando o objetivo sagrado de varrer o bolchevismo da Europa provou ser impossível, a grande tarefa remanescente era livrar a Europa da ameaça judaica. É possível que se Hitler tivesse ganho a guerra contra a União Soviética, então os judeus, os poloneses e milhões de outros europeus orientais poderiam não ter sido mortos, mas expulsos para leste nos territórios soviéticos onde os interesses agrícolas dos alemães não interessavam.

Sem a conquista do espaço soviético, a deportação era impossível. Logo, a decisão foi tomada para resolver o “problema judaico” como um todo, através do extermínio em massa. Como Snyder coloca a questão, “a solução final como assassinato em massa ‘estava se espalhando pelo ocidente.’” Mas havia métodos mais “modernos” que podiam ser adotados. Os três centros de gaseamento construídos na Polônia ocupada (Belzec, Sobibor e Treblinka), seguidos por um outro em Auschwitz-Birkenau, foram projetados para exterminar a população inteira judaica da Europa a oeste da antiga fronteira polonesa-soviética. A leste daquela linha, nas terras onde a maioria dos judeus europeus uma vez viveram, o trabalho já havia sido feito pelos esquadrões da morte.

Nos campos de concentração do Terceiro Reich, um milhão de prisioneiros teve mortes miseráveis durante o período nazista. Mas 10 milhões de outros, que nunca entraram nestes campos foram executados (a maioria judeus), deliberadamente deixados morrer de fome (a maioria prisioneiros de guerra soviéticos) ou gaseados em “centros especiais de matança”, que não eram apenas campos de detenção. Em Auschwitz, a esmagadora maioria dos judeus eram levadas direto dos vagões para as câmaras de gás em sua chegada. E Auschwitz foi na verdade uma espécie de epílogo para o Holocausto judeu. Na época em que as principais câmaras de gás entraram em operação em 1943, a maioria das vítimas judias da Europa já estavam mortas.

Somente no final da guerra ocorreu a alguns líderes nazistas que milhões de judeus e prisioneiros de guerra soviéticos representavam uma força de trabalho incalculável, e que muitos cidadãos soviéticos não-judeus estariam mesmo preparados para lutar ao lado dos alemães. No final da guerra, um milhão de cidadãos soviéticos estavam ajudando os alemães com armas. Os judeus também eram colocados para trabalhar em números enormes na indústria de guerra alemã, tais como aquelas que operavam em Auschwitz. O que os alemães nunca realmente compreenderam é que para tornar o trabalho escravo eficiente é necessário tratar e alimentar decentemente essas pessoas.

Nas terras de sangue e no resto da Europa oriental, a estória do último ano da guerra não foi aquela mostrada nos filmes de propaganda americanos, com mulheres bonitas parisienses recebendo os soldados com flores e sorrisos. No leste, a estória do último ano da guerra e do primeiro ano do pós-guerra foi a da onde estupros contra as mulheres alemãs feita pelos soldados soviéticos; de refugiados congelando até a morte nas estradas levando à Alemanha; dos soviéticos desarmando e mesmo prendendo opositores poloneses anti-nazistas; de poloneses e outros europeus orientais assassinando judeus que tiveram a audácia de sobreviver aos campos e desafiar os saqueadores de seus pertences; de sobreviventes judeus entrando na polícia política comunista; de outros judeus sendo presos pela mesma polícia política; e outros judeus fugindo da Europa Oriental para sempre.

Mas “Terras de Sangue” tem um defeito, qual seja, quando Snyder lida com as consequências da guerra na União Soviética. Stalin tornou-se obcecado pelos judeus. Membros do Comitê Anti-Fascista Judeu, que tinham conduzido uma campanha eficiente de propaganda no interesse da aliança durante a guerra entre o Kremlin e as democracias ocidentais, foram presos e sentenciados por um julgamento secreto em 1952. Snyder falha em dar significância ao caso. Afirmando que havia 14 réus (de fato, havia 15), ele se refere a eles como “judeus soviéticos mais ou menos desconhecidos.” Mas entre os 15 estavam os renomados escritores íidiche Peretz Markish e David Bergelson, que tinham reputação internacional. E o principal réu, Solomon Abramovich Lozovsky, era um velho bolchevista que foi mencionado no livro de John Reed, “Dez Dias que Abalaram o Mundo” por seu papel na Petrogrado revolucionária.

Fontes:

http://www.nytimes.com/2010/11/28/books/review/Rubenstein-t.html?_r=1&

http://www.newrepublic.com/article/books-and-arts/magazine/79084/snyder-bloodlands-hitler-stalin#

http://www.guardian.co.uk/books/2010/oct/09/bloodlands-stalin-timothy-snyder-review