domingo, 31 de março de 2013

[SGM] O naufrágio do transatlântico Wilheim Guslöff

Há 65 anos acontecia o maior naufrágio do mundo. Mas, até hoje, pouca gente ouviu falar dele

Eduardo Szklarz | 20/06/2012 15h53

Na noite de 30 de janeiro de 1945, o transatlântico Wilhelm Gustlöff deslizava pelas águas geladas do mar Báltico rumo a oeste. Sua missão: evacuar milhares de alemães que fugiam das tropas soviéticas durante a Segunda Guerra. Os capitães Friederich Petersen e Wilhelm Zahn iniciaram o percurso enfrentando névoa, blocos de gelo e ondas altas, mas perto das 21h eles abriram uma garrafa de conhaque para fazer um brinde: o pior já havia passado. O festejo durou pouco. Logo depois, o navio seria protagonista do maior desastre naval de todos os tempos. O número de vítimas ainda gera debate, mas vários pesquisadores estimam em cerca de 9 mil - o equivalente a seis Titanics. Ao contrário do navio britânico, porém, a tragédia do Gustlöff ainda é quase desconhecida.

De passeios a resgates

O navio de cruzeiro mais avançado do mundo. Assim os alemães receberam o Wilhelm Gustlöff na sua festa de inauguração, em 1937. Hitler queria surpreender o mundo com o colosso de 208,5 metros e 25 mil toneladas, que tinha capacidade para 1880 pessoas - entre passageiros e tripulantes. Uma bela propaganda para o poderio do Terceiro Reich.

Dentro da Alemanha, a ideia era usar o navio para cooptar a classe trabalhadora ao nacional-socialismo. Ele foi construído para a KdF (Kraft durch Freude, ou Força da Alegria), uma organização sindical que promovia atividades de cultura e lazer para os funcionários do regime nazista. Agora eles podiam embarcar em excursões baratinhas para os fiordes noruegueses, a Ilha da Madeira e outros destinos da moda. Todas as cabines eram da mesma classe, o que se ajustava à noção de unidade racial do povo (volk). "Nas 50 excursões que realizou, o barco ofereceu aos seus 65 mil viajantes uma experiência inesquecível", diz o pesquisador canadense David Krawczyk, editor de um site sobre o Gustlöff e grande especialista na história. "Mas com o início da Segunda Guerra, em setembro de 1939, a Alemanha o transformou em navio-hospital."

Assim, uma faixa verde foi pintada ao longo do casco e cruzes vermelhas substituíram os emblemas da KdF. Nos meses seguintes, a embarcação gigantesca socorreu soldados feridos nas invasões alemãs à Polônia, Noruega e Dinamarca.

Em novembro de 1940, veio outra metamorfose: o navio virou um quartel flutuante para dar abrigo à esquadra nazista no porto de Gotenhafen, próximo a Danzig, na Prússia Oriental (atual Polônia). As cruzes vermelhas foram tampadas por tons de cinza, já que o objetivo, agora, era a camuflagem.

O Wilhelm Gustlöff ficou ancorado ali por quatro anos, mas as derrotas sofridas pela Alemanha no front soviético mudariam de novo o seu destino. E pela última vez.

Operação Hannibal

Em janeiro de 1945, até o alemão mais otimista sabia que a guerra estava perdida. A contra-ofensiva do Exército Vermelho espalhava pânico na Prússia Oriental. "Legiões de refugiados, oficiais e soldados alemães feridos lotaram os portos de Danzig e Gotenhafen, tentando fugir para o oeste", diz o historiador americano James Wise no livro Soldiers Lost at Sea ("Soldados perdidos no mar", sem tradução no Brasil).

O almirante alemão Karl Dönitz decidiu que era hora de agir: enviou à sua frota o código "Hannibal" - que significava evacuar a maior quantidade possível de militares e civis. O Gustlöff foi preparado para a operação, mesmo após ter ficado imóvel por quatro anos. Os capitães Friederich Petersen e Wilhelm Zahn assumiram o desafio e, em 28 de janeiro de 1945, receberam a ordem de partir em 48 horas. A essa altura, o porto de Gotenhafen era puro caos. Homens, mulheres e crianças disputavam um lugar no navio, mas só podia entrar quem tinha um passe especial. Isso significava ter muito dinheiro, influência ou algum conhecido entre os tripulantes. Soldados feridos tinham prioridade.

O empurra-empurra no porto era tão grande que algumas crianças caíram na fresta entre o deck e o casco e desapareceram na água. "Pelas listas oficiais, 3 mil refugiados se instalaram no navio na manhã de 30 de janeiro. Contudo, a partir de então, a tripulação perdeu a conta dos que chegavam", afirma Krawczyk. "Portanto, nunca saberemos o número exato de pessoas que zarparam." Estima-se que mais de 10 mil pessoas se amontoaram no navio, inclusive dentro da piscina vazia. Quase a metade era de crianças e adolescentes.

O Gustlöff zarpou ao redor das 12h30 com destino à baía de Kiel, no oeste do Báltico. Apesar do frio externo, o calor era intenso dentro do navio. Muitos tiraram os coletes salva-vidas, e não demorou para que enjoassem e vomitassem com os solavancos provocados por ondas de vários metros de altura. A tensão também era grande na cabine de comando, já que apenas um barco torpedeiro escoltava o navio. Os capitães sabiam que a região era cheia de minas e monitorada pelos ingleses. No início da noite, eles perceberam que um comboio de caça-minas alemães se aproximava na direção oposta. Apesar dos protestos do colega, Petersen decidiu acender as luzes de navegação para evitar uma colisão no meio da névoa. Seria um erro fatal.

 


A poucos quilômetros dali, escondido nas profundezas do Báltico, o submarino soviético S-13 patrulhava a costa de Danzig. Seu capitão, Alexander Marinesko, estava sendo investigado pelos superiores por causa de alguns deslizes - era beberrão - e precisava de uma glória para limpar sua ficha.

Pouco antes das 20h, o S-13 detectou luzes entre a névoa densa. Marinesko agarrou o periscópio e visualizou a silhueta do colosso alemão. Nas duas horas seguintes, ele o perseguiu com cuidado, sorrateiro, preparando-se para dar o bote. O mais mortífero de sua carreira.Logo após as 20h, os auto-falantes do Gustlöff interromperam a música ambiente para transmitir um discurso de Hitler ao vivo no rádio, comemorando os 12 anos de ascensão do nazismo. Os passageiros não tinham motivo para celebrar, claro. Mas pelo menos a ameaça soviética parecia ter ficado para trás.

O ataque

Enquanto isso, Marinesko e sua equipe preparavam quatro torpedos, pintando cada um com uma mensagem. Torpedo 1: "Para a pátria". Torpedo 2: "Para Stalin". Torpedo 3: "Para o povo soviético". E torpedo 4: "Para Leningrado". Perto das 21h, o capitão ordenou: "Fogo!" O torpedo dedicado a Stalin perdeu o rumo, mas os outros três acertaram o alvo em cheio (veja a partir da pág. 41). Os passageiros situados nos locais de impacto perderam a vida na hora. Os outros correram em pânico para a zona dos botes. Muitos foram pisoteados, outros se jogaram no mar e morreram congelados, apesar do resgate feito por barcos da frota alemã.
 

"O navio afundou a só 12 milhas da costa (cerca de 22 km), mas o pânico e a temperatura da água (15 graus negativos) causaram uma enorme perda entre os que tinham escapado do naufrágio", diz o analista naval americano Norman Polmar. "O cruzador alemão Almirante Hipper estava próximo, mas não prestou socorro por medo dos submarinos."

Hoje, diversos pesquisadores estimam que 1230 pessoas sobreviveram ao naufrágio. O número de mortos é menos preciso, pois não se sabe ao certo quantos passageiros havia no Gustlöff. As cifras giram em torno de 9 mil pessoas, ou seis vezes o número de vítimas do Titanic. E mesmo assim você provavelmente nunca ouviu falar dessa tragédia. Afinal, por que ela é tão pouco conhecida? Primeiro, porque ocorreu durante uma guerra - e, para muitos, desastres assim são menos trágicos que os ocorridos em tempos de paz. Os aliados não deram muita bola para o desastre sofrido pelo inimigo. Para os soviéticos, aliás, os torpedos do S-13 eram uma retribuição à ocupação alemã. E o próprio Hitler não quis admitir que seu gigante dos mares havia tido esse destino. Além disso, durante décadas muitos alemães se sentiram culpados pelas atrocidades que seu país cometeu antes e durante o conflito, e esse sentimento pode ter ofuscado a tragédia naval. "Ao contrário do Titanic, o Gustlöff não viajava rumo aos Estados Unidos e não havia americanos a bordo. Assim, essa história não teve apelo para Hollywood", diz David Krawczyk. Também pudera: Wilhelm Gustlöff era líder do Partido Nazista na Suíça (leia abaixo). Se o navio tivesse outro nome, talvez ganhasse mais simpatia. E pensar que o plano original era batizá-lo de Adolf Hitler...

Última viagem

A tragédia do Gostlöff em três atos


A fuga

30/1/1945. O navio escapa pelo mar Báltico, levando cerca de 10 mil soldados e civis alemães, quando é detectado pelo submarino soviético S-13. Começa a caçada.

1º Torpedo

O projétil atinge a dianteira do navio. Quem está perto do ponto de impacto é vaporizado. Portas herméticas se fecham para selar a área, mas isolam tripulantes. O navio começa a tombar para bombordo (sobre a esquerda). O segundo torpedo lançado erra o alvo.

3º Torpedo

Explode sob a piscina vazia, que servia de abrigo para uma unidade feminina da Marinha. Apenas três das 373 mulheres sobreviveram.mpacto cria ondas de ar que levam lascas de ladrilhos e metal para todos os lados, inclusive as cabines mais próximas. Apenas 3 das 373 mulheres sobrevivem aos cortes.

4º Torpedo
Atinge a sala de máquinas e corta a energia do navio. Luzes de emergência se acendem. Sem comunicação, o operador de rádio usa um transmissor de SOS. Também são emitidos sinais de luz. Um barco da escolta capta e retransmite o pedido de socorro.

Caos

Desespero toma conta da embarcação


Sem saída

O navio tomba mais sobre a esquerda, impedindo o acesso aos botes. Tripulantes tentam conter a confusão, sem sucesso.

Suicidas

Muitos passageiros caem no mar, outros morrem pisoteados. Desesperados, vários oficiais atiram em seus parentes e se matam.

Botes não funcionam

A inclinação complica o acesso aos botes também do lado direito. A multidão não sabe como baixá-los. As amarras estão congeladas e poucos são usados corretamente.

Mar gelado

Muita gente pula na água de 15 graus negativos e não consegue ajuda nos botes lotados. Alguns náufragos são até agredidos por quem já garantiu seu lugar. Os coletes são grandes para as crianças; várias acabam se afogando.

Rumo às profundezas


O Gustlöff afunda levando milhares de pessoas com ele.

Sobreviventes

O barco-escolta se aproxima e inicia o salvamento. Outras embarcações alemãs chegam para ajudar, entre elas um barco torpedeiro e três caça-minas. A escuridão e o gelo dificultam os trabalhos, mas 1230 pessoas são resgatadas com vida. Cerca de 9 mil morrem (não se sabe o número exato).

Vingança mortal

Navio homenageava líder nazista morto por um judeu


Em 31 de janeiro de 1936, o estudante David Frankfurter pegou um trem em Berna com destino a Davos, nos Alpes suíços. Ninguém desconfiou que ele levava um revólver na maleta. Seu plano era matar Wilhelm Gustlöff, líder do Partido Nazista na Suíça. Filho do rabino de Daruvar, na atual Croácia, Frankfurter havia começado a cursar medicina na Alemanha. Com a ascensão do nazismo, porém, teve de continuar seus estudos na Suíça. Foi quando percebeu a ameaça que também pairava sobre os judeus desse país. E decidiu dar cabo de Gustlöff com as próprias mãos. Assim, naquele 31 de janeiro ele fez o check-in num hotel em Davos e esperou o momento de agir. Em 4 de fevereiro, tocou a campainha da casa do chefe nazista e pediu à esposa dele uma breve audiência com o líder. Ela deixou o rapaz entrar e foi chamar o marido. "Durante alguns minutos, o garoto de 27 anos observou os objetos nazistas que decoravam o aposento, inclusive uma foto de Hitler com dedicatória", diz o pesquisador canadense David Krawczyk. Quando Gustlöff apareceu, David tirou o revólver do casaco e disparou-lhe cinco tiros contra a cabeça, o pescoço e o peito. Depois saiu calmamente, enquanto a mulher gritava ao lado do morto. Convencido de que seu ato não era um crime, David se entregou à polícia e foi condenado a 18 anos de prisão. Hitler alçou Wilhelm Gustlöff a mártir do nazismo, batizando com seu nome o "transatlântico mais moderno do mundo". Terminada a guerra, a Suíça perdoou Frankfurter com a condição de que deixasse o país. Ele emigrou para Israel, onde integrou o Ministério de Defesa. Os suíços retiraram a ordem de exílio em 1969, mas Frankfurter ficou em Tel Aviv, onde morreu em 1982.

Saiba mais

LIVRO


Soldiers Lost at Sea - A Chronicle of Troopship Disasters, James E. Wise Jr. e Scott Baron, Naval Institute Press, 2004

Ainda sem edição no Brasil, o livro narra os maiores desastres navais relacionados a conflitos.

Site

www.wilhelmgustloff.com

O site organizado pelo pesquisador David F. Krawczyk traz informações detalhadas sobre a tragédia.

 
http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/conheca-historia-naufragio-transatlantico-wilheim-gusloff-segunda-guerra-mundial-689446.shtml

[ARM] Armas de Infantaria - Armas Longas

ESPINGARDA

São armas de fogo portáteis, de cano longo e sem raiamento (alma lisa), com ampla gama de utilização na caça, tiro ao vôo, defesa, combate, etc. Existem seis tipos básicos de espingardas: Tiro Simples (um cano), de Ferrolho (um cano), Mecanismo de Corrediça (um cano), Semiautomática (um cano), Canos Duplos Paralelos (normalmente, dois canos) e Canos Duplos Sobrepostos (dois canos). O tipo de espingarda mais usado atualmente é a de dois canos sobrepostos, monogatilho, extratores automáticos e seletor de cano, podendo, ainda, ter um par de canos extras. A figura 1 mostra um modelo de espingarda e suas partes principais.

Fig. 1

 Calibre

Os calibres (diâmetro interno do cano) das armas à bala são usualmente denominados em milímetros ou polegadas. Exemplo: o calibre .45 ACP, na denominação americana, significa que o diâmetro do cano (e do projétil) é de 45 centésimos de polegada, o que corresponde a 11,43 mm. Entretanto, os calibres das espingardas de chumbo foram estabelecidos há muitos anos e não foram baseados em qualquer sistema convencional de medida. Tomou-se, como base, o número de esferas de chumbo que perfazem uma libra.

Converteu-se uma libra (453,6 g) de chumbo puro em 12 esferas de iguais peso e diâmetro. Se uma dessas esferas se encaixava perfeitamente num determinado cano, o calibre deste era "12". Estas esferas tinham 0,730 polegada de diâmetro, ou seja, 18,5 mm. De igual peso de chumbo (1 libra), foram feitas 16 esferas e chegou-se ao calibre 16, assim procedendo-se com os demais calibres, com exceção do 36, pois, segundo esse critério, seria o calibre 67. O calibre 36 corresponde, na realidade, a 0,410 polegada, ou seja, 10,414 mm.

A medida do diâmetro da alma do cano pode variar em 0,40 mm, dependendo da broca usada na perfuração, se nova ou usada, conforme ficou estabelecido na Convenção de Stutgart, em 1913, como mostra a tabela 1:
 
 
Os chumbos utilizados para carregar cartuchos variam, normalmente, de 1,25 a 5,50 mm de diâmetro, sendo usados, ainda, balotes: um único projétil de chumbo de diâmetro equivalente ao calibre da espingarda. A figura 2 mostra os diferentes tamanhos de chumbo para espingarda.

Fig. 2
 

Cartuchos

Infelizmente, não temos condições de falar muito detalhadamente sobre a munição de espingardas, mas, informamos que, para um mesmo calibre, existem diversos tipos de cartuchos (carregamentos), que poderão influir decisivamente no desempenho da arma. Além do tipo do cartucho propriamente dito (de plástico, metal, papelão, de fundo chato ou redondo), mostrado na figura 3, do chumbo usado (uniforme em peso, diâmetro e forma - comum, endurecido ou cromado), existem as espoletas, pólvoras, buchas e muitos outros fatores que alteram o tiro.

É bom lembrar que, quanto maior o diâmetro interno do cano, mais pólvora e chumbo poderão ser usados. Assim, uma arma calibre 12 pode disparar mais chumbo a maiores distâncias do que outra de menor calibre. Uma espingarda "36" comporta uma quantidade de chumbo 25% menor do que uma de calibre 20 e seu alcance útil é de pouco mais de 27 metros.
 
Fig. 3
 
 
Câmara

É o local, na culatra, onde se alojam os cartuchos. Existem dois tamanhos de câmaras, 70 mm (2 3/4 pol) e 75 mm (3 pol), sendo que as de 65 mm não são mais encontradas em armas de fabricação recente. A maioria das espingardas possui câmara 70, mas as adotadas para alvos distantes (por exemplo, ganso voando a grande altura) têm a câmara mais extensa, capaz de alojar os cartuchos Magnum mais potentes. Os cartuchos não ocupam todo o espaço interno das câmaras. O espaço excedente permite a expansão do estojo, por ocasião do disparo.

Comprimento do cano

Com as modernas pólvoras, o tiro alcança o máximo de velocidade muito rapidamente. Por isso, o comprimento do cano - respeitadas medidas não inferiores a 500 mm ou de comprimentos exagerados - tem pouca influência sobre sobre a velocidade do tiro, alcance, penetração, grupamento, dispersão ou energia de uma carga de chumbo. O comprimento do cano deve ser escolhido de acordo com a proficiência pessoal do atirador e tipo de tiro a ser feito. Um cano longo tende a aumentar o peso da arma, porém, aumenta a sua linha de visada. Um cano curto torna a arma mais fácil de manuseio, podendo ser usada com maior liberdade de ação para tiros seguidos e que exijam viradas constantes ("swing"). Um cano de 700 mm é de tamanho ideal para os diversos tipos de caça e "skeet", enquanto que, para "trap" e tiro ao pombo, 760 mm é o recomendado.

FUZIL

Um fuzil é uma arma de fogo que possui uma coronha que é sustentada pelo ombro, com o cano tendo ranhuras helicoidas ou um padrão de ranhuras talhado no interior das paredes do cano. As áreas ascendentes das ranhuras são chamadas “cheios”, as quais fazem contato com o projétil (para armas curtas, chamado bala), provocando um giro em torno do eixo correspondendo à orientação da arma. Quando o projétil deixa o cano, a conservação de momento angular melhora a precisão e o alcance. A palavra “fuzil” originalmente se relacionava às ranhuras e um fuzil era chamado uma “arma ranhurada”. Fuzis são usados em guerras, caçadas e esportes de tiro.

Normalmente, uma bala é propelida pela deflagração contida de um composto explosivo – originalmente pólvora negra, cordite (pólvora à base de nitrocelulose) e agora nitrocelulose – apesar de outros meios serem utilizados, como ar comprimido em fuzis à gás, que são populares para controle de animais daninhos, caçadas ou plinking.

Fuzis modernos são quase sempre carregados pela culatra, apesar de alguns carregadores de boca ainda existirem. Eles são geralmente semi-automáticos, totalmente automáticos, por ação de pinos ou alavancas ou tiro único por cartucho. Um fuzil de batalha é um fuzil para aplicações militares cujo alcance e precisão foram projetados para acertar alvos a longa distância, enquanto que seu tamanho e peso o tornam inconveniente para combate próximo. Durante a Segunda Guerra, por exemplo, os combates com armas de pequeno porte ocorriam a 100 metros ou menos, com uns poucos acontecendo a 300 metros. Assim, a curta distância, o poder de fogo do fuzil é, em sua maior parte, desperdiçado em luta de curta distância, exigindo um fuzil mais leve e manobrável. Essa desvantagem levou ao desenvolvimento do primeiro fuzil de assalto, o alemão StG 44.

Os fuzis são usados para quase tudo, desde tiro-ao-alvo até combates urbanos. O fuzil militar, na época da arma de pederneira, foi considerado a arma principal na cabeça dos elaboradores da Segunda Emenda à Constituição Estadunidense[1]. A distinção mais notável entre um fuzil de guerra e um fuzil de assalto é que o primeiro dispara um cartucho de alta potência, tais como o calibre .30 (7,62 mm) de um fuzil semi-automático M1 Garand (Segunda Guerra) e o fuzil automático M14 (Coréia e Vietnã) de calibre 7,62 ´ 51 mm. Fuzis de assalto disparam menos, possuem cartuchos de tamanho médio e menos potentes como, por exemplo, balas de 5,56 ´ 45 mm, para a família M16 (derivada do AR-15), ou o 7,62 ´ 39 mm, para o fuzil russo AK-47. Entretanto, eles atiram com maior velocidade e potência do que pistolas e submetralhadoras; além disso, as principais vantagens do fuzil de assalto em relação ao fuzil de guerra são: menor “coice”, menor peso, maior capacidade de munição e alta taxa de tiro, enquanto que as principais desvantagens são: menor potência de tiro e menor alcance. A figura 4 apresenta alguns modelos de fuzis conhecidos.
 

Fig. 4
 
METRALHADORAS

A metralhadora permite o fogo total automático, isto é, que múltiplos cartuchos sejam disparados com um simples apertar de gatilho, sendo essa uma das diferenças entre um fuzil e uma metralhadora, pois o primeiro necessita de um puxão no gatilho para cada cartucho disparado (acionado de forma automática ou semi-automática). A munição de uma metralhadora pode ser estocada em pentes ou tambores longos ou em fitas de cartuchos ligados entre si.

Apesar do termo “metralhadora” ser geralmente usado por leigos para descrever todas as armas totalmente automáticas, no jargão militar o termo é restrito a dispositivos pesados acionados de algum suporte de apoio, ao invés de manual, e capaz de manter fogo tanto tempo dure a munição. As metralhadoras são normalmente usadas contra soldados desprotegidos ou pouco equipados, ou também para fornecer fogo supressor (disparo na direção do inimigo para coibir sua ação e mantê-lo em sua posição).

Algumas metralhadoras podem, na prática, manter fogo supressor por várias horas; outras armas automáticas sofrem um aumento térmico interno com poucos minutos de uso. Pelo fato de se tornarem muito quentes, praticamente todas as metralhadoras atiram de ferrolho aberto (isto é, no momento do disparo o ferrolho se encontra totalmente contraído), para permitir a refrigeração de ar a partir da culatra durante as explosões. Elas também têm um sistema de tubo de refrigeração, ou tubos removíveis, que permitem a substituição de um cano aquecido.

Uma sub-metralhadora é uma arma projetada para disparar cartuchos de pistola no modo automático e é empregada em lutas de curta distância. Elas foram as primeiras armas portáteis automáticas. Atualmente, elas são usadas em combate próximo quando um fuzil de assalto seria muito volumoso ou ter muita penetração. Algumas sub-metralhadoras populares são a alemã MP40 da Segunda Guerra, a HK MP5 e a IMI Uzi, sendo as duas primeiras mostradas na figura 5.
 
 
Fig. 5

 
A metralhadora leve (comumente abreviada para LMG) é uma classe de metralhadora mais leve e normalmente projetada para ser carregada por um único soldado e/ou um assistente. LMGs modernas possuem freqüentemente menor calibre do que as metralhadoras médias (MMG) e são mais leves e compactas.
 
Geralmente, uma LMG deve agir como arma de apoio, onde gerará um volume maior de fogo automático contínuo em relação às armas carregadas pelos soldados de infantaria, porém consumindo uma grande quantidade de munição e possuindo um peso maior.

Um exemplo de LMG é a M249 SAW (Arma Automática de Esquadrão) usada pelo exército americano. LMGs usam projéteis de fuzis (cartucho de 5,56 mm), tanto de alta quanto de potência intermediária, e são operadas utilizando um suporte de dois pés (bipode) ou uma montagem em tripé. Elas geralmente são alimentadas por fita ou possuem um carregador maior do que o normal. Isto permite a ela ter maior poder de fogo do que os fuzis de assalto e, por isso, é usada para dar fogo de cobertura para tropas amigas. A figura 6 mostra uma M249 montada sobre um bipode.
 
Fig. 6


Uma metralhadora média, ou MMG, designa uma arma automática alimentada por fita, disparando cartuchos de fuzil de alta potência e pesando tipicamente entre 6,8 e 18,1 kg. Estas armas geralmente trabalham com cartuchos 7,62 ´ 39 da série AK-47 ou o cartucho padrão de 5,56 ´ 45 da OTAN, usado nos fuzis AR-15/M-16. As MMGs geralmente têm algum tipo de provisão para fogo estendido, tal como um cano removível ou extra-pesado, alhetas de refrigeração ou um invólucro de refrigeração a água, porém são leves o suficiente para serem usadas com um bipode. Elas se situam numa região tênue entre as metralhadoras leves (LMG) e as pesadas.

As médias disparam munição de calibre de fuzil de alta potência e tem um uso geral mais geral e mais prolongado. Isto geralmente inclui ambas as montagens com bipode e tripé e rápida troca de canos. Metralhadoras refrigeradas a água do mesmo calibre que as médias já não tem mais utilidade, já que a situação em que são idealmente aplicáveis (fogo ininterrupto) não é mais necessária na guerra atual. Isto porque as famosas cargas concentradas de infantaria raramente são feitas, sendo substituídas por ataques baseados em AFV; além disso, uma posição MMG estática seria o alvo prioritário de uma bateria de foguetes inimiga. A maior parte das MMGs que usam troca de cano sobreaquecem após 200 tiros e, então, uma troca rápida de cano é necessária, pois elas só podem continuar atirando se houver canos sobressalentes. Entretanto, canos são caros e pesados, de modo que uma quantidade muito limitada é mantida. Conseqüentemente, mesmo se 2 ou 3 canos forem carregados e girados para dentro e para fora, isto não permitiria o fogo incessante; o cano removido não resfria antes que o próximo seja substituído.

A M240, formalmente conhecida como Metralhadora 7,62 mm M240, pertence à classe de MMGs operadas a gás e alimentadas por fita, disparando o cartucho 7,62 ´ 51 mm da OTAN. A M240, mostrada na figura 7, é usada pelas forças armadas norte-americanas desde meados dos anos 1990. Ela é usada extensamente pela infantaria, veículos terrestres, embarcações e aviões. Apesar de não ser a mais leve MMG em serviço, a M240 é altamente lembrada por sua confiabilidade e a sua padronização junto aos membros da OTAN é também vista como uma vantagem.
 
Fig. 7
 
Uma metralhadora pesada designa tanto uma arma de alta potência e grande calibre quanto uma arma de médio calibre, utilizada para fogo prolongado e montada sobre bases pesadas, com pouca mobilidade ou em posição estática (ou uma combinação de ambas). A XM312 (figura 8) é uma metralhadora pesada, derivada do canhão automático (isto é, carregam automaticamente a munição e possuem uma taxa de tiro maior que a da artilharia) XM307 de 25mm; além disso, ela é adaptada para o cartucho de 12,7 ´ 99 mm (.50 BMG) da OTAN.   
 
 
Fig. 8
 




[1] Promulgada em 1787 na Pensilvânia, contém sete artigos e 27 emendas. A Segunda Emenda dá o direito ao cidadão de possuir e portar arma para se proteger.

Fontes:
 
Na época da compilação deste material, consultei diversas fontes, a principal a wikipédia. No entanto, não registrei as páginas de onde capturei as imagens e o texto. Quem for o autor de alguma passagem ou souber da página original, favor entrar em contato para que eu possa dar os créditos.
 
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sábado, 30 de março de 2013

[ARM] Gepard

Projetado na década de 1960, no auge da Guerra Fria, para defender a Alemanha de um eventual avanço de aviões soviéticos, o Gepard é produzido pela empresa alemã KMW e entrou em serviço no início dos anos 70. Baseado no tanque Leopard - em operação atualmente no Exército Brasileiro -, o Gepard é equipado com uma grande torre giratória, dotada de um par de canhões Oerlikon KDA, de 35 mm.
 


Os Requisitos Operacionais do Gepard foram formulados pelo Exército Alemão, nos anos 60. Duas empresas apresentaram propostas e protótipos: a Oerlikon Contraves (hoje Rheinmetall Air Defense) e a própria Rheinmetall.
Em 1973 é escolhida a versão da Oerlikon Contraves com a adoção do radar Siemens MPDR12, que tinha sido desenvolvido para a versão Matador da Rheinmetall.
 
A versão escolhida foi o Gepard equipada com dois canhões Oerlikon 35 mm KDA. Cada canhão tem 310 tiros para AA e 20 tiros para AT (anticarro). O engajamento do alvo ocorre a 3.000 a 5.000 m com rajadas de 20 a 40 tiros.

Foi desenvolvida nova munição que estende o alcance para até 5.000m.

Os países que adquiriram o Gepard foram:
  • Alemanha - 423 carros
  • Holanda - 100 com radar da Hollandsee Signalapparaten que equipava a versão Matadorda Rheinmetall
  • Bélgica - 55 carros
  • A România adquiriu uma quantidade de excedentes do Exército Alemão em 1999.

Os principais requisitos e características do GEPARD:

- alto nível de proteção;
- alta mobilidade;
- autônomo (só dependente de apoio logístico para combustível e munição)
- busca independente e sensores de rastreamento;
- proteção NBQ para a tripulação, e,
- capacidade de operar em ambiente de interferências eletrônicas;

Seu principal objetivo na época (anos 70/80), eram defesa antiaérea contra aviação tática soviética (Aviação do Front), e principalmente os helicópteros de ataque equipados com mísseis como o Mi-24 Hind.

O primeiro contrato de produção para 122 Gepard foi assinado com a empresa KraussMaffei (Hoje KMW).Em 1980 foi encerrada a produção para todo os clientes.

Em 1996 o Exército Alemão contratou a KMW para aperfeiçoamento do Gepard surgindo a versão A2.

Foram incorporados: um sistema de tiro digital,visores termais estabilizados, datalink a um centro de controle de defesa aérea/ monitoramento, sensores de velocidade da munição (Vo) mais aperfeiçoados.

Características

O carro tem autonomia de 550 km com uma velocidade máxima de 65 km/h. Possui um tanque de 985 litros fazendo uma média de 600 metros por litro. Contém dois motores, o do chassi e o auxiliar(APU), de 90 HP, que é responsável por alimentar de energia os sistemas de observação, radares e a torre do blindado.

Sem preparação ele cruza num vão de 0,75 metros, com vedação para não entrar água e demais ajustes pode chegar a 2,25 metros. Pode cruzar um obstáculo de 60 graus na frente e 30 graus de lateral. A blindagem de 20 milímetros.

As funções do atirador e chefe podem se confundir, pois enquanto um atira o outro está fazendo uma varredura do espaço aéreo. O que facilita isso são os periscópios que trabalham de maneira independente.Juntamente com o Gepard, o Exército Brasileiro comprou um simulador para treinamento das tripulações.

Tripulação: 3 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador)Comprimento: 7,68 m
Largura: 3,71 m
Altura: 3,29 m (com radar de busca recolhido)
Peso: 47,5 t
Potência do motor: 830 hp
Velocidade máxima: 65 km/h
Autonomia: 550 km
Alcance: 5 km
Área de vigilância: 15 km
Armamento: 2 canhões de 35 mm alimentados por correia; 8 lançadores de granadas de fumaça; possibilidade de instalação de 2 suportes de lançamento de mísseis terra-ar



 
 
No Brasil

Os planos de mobiliar a modernizar a defesa antiaérea do Exército Brasileiro dentro do Projeto Estratégico Defesa Antiaérea surgiu o Gepard 1 A2 como uma opção de baixo custo e atendendo a rápida disponibilidade.

Para isto foram adquiridos 37 carros de combate Gepard, que virão para o Brasil até 2015. O material irá dotar as Baterias Antiaéreas das Brigadas Blindadas do Exército. Os Gepard foram distribuídos para unidades subordinadas à 6ª Brigada de Infantaria Blindada, localizada no Rio Grande do Sul, e também para a Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea no Rio de Janeiro.

A avaliação do Exército Brasileiro levou à solução de Artilharia Antiaérea em vez de mísseis pela sua pronta resposta e a possibilidade de tratar contra alvos móveis e de pequena seção visível ao radar como os UAVs e Drones.

Os “concorrentes” do Gepard

PGZ95 (China)
 
 

 
Fabricado pela chinesa Norinco, o PGZ95 é empregado pelo Exército da China desde 1999.
 
Características
 
Tripulação: 3 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador)
Comprimento: 6,71 m
Largura: 3,2 m
Altura: 3,4 m
Peso: 22,5 t
Velocidade máxima: 53 km/h
Autonomia: 450 km
Armamento: 4 canhões automáticos de 25 mm; 4 lançadores de mísseis terra-ar QW-2

PZA LOARA (Polônia)


 

 
Equipado com o mesmo tipo de canhões do Gepard, o LOARA foi desenvolvido no fim da década de 1990 na Polônia, usando como base o chassi do tanque soviético T-72 MBT. Em 2004, o governo polonês autorizou o início da produção em série do blindado.
 
Características

Tripulação: 3 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador)
Comprimento: 6,67 m
Largura: 3,4 m
Altura: 2,19 m
Peso: 45 t
Potência do motor: 1.000 hp
Velocidade máxima: 60 km/h
Autonomia: 650 km
Armamento: 2 canhões automáticos de 35 mm alimentados por correia

Type 87 SPAAG (Japão)
 


Assim como o Gepard e o LOARA, o Type 87 SPAAG é equipado com os canhões Oerlikon, de 35 mm. Fabricado pela empresa japonesa Mitsubishi, está em operação no Exército do Japão desde 1987.

Características
Tripulação: 3 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador)
Comprimento: 6,7 m
Largura: 3,2 m
Altura: 4,1 m
Peso: 44 t
Potência do motor: 750 hp
Velocidade máxima: 53 km/h
Autonomia: 300 km
Armamento: 2 canhões automáticos de 35 mm alimentados por correia; 6 lançadores de granadas de fumaça

Tunguska M1 (Rússia)
 

 


O projeto do Tunguska foi desenvolvido na década de 1970. Em 1982, o blindado entrou em operação na extinta União Soviética.
 
Características
 
Tripulação: 4 (1 comandante, 1 piloto, 1 atirador, 1 operador de radar)
Comprimento: 7,93 m
Largura: 3,24 m
Altura: 3,36 m
Peso: 34 t
Potência do motor: 780 hp
Velocidade máxima: 65 km/h
Autonomia: 500 km
Armamento: 8 mísseis terra-ar 9M311-M1; 2 canhões automáticos de 30 mm




sexta-feira, 29 de março de 2013

[SGM] Os Soldados não-Arianos de Hitler

Voluntários soviéticos da Ásia Central

Mesmo hoje, mais de sete décadas após o início da Segunda Guerra Mundial, parece incrível que milhares de homens cujos países foram conquistados pelos nazistas se apresentaram como voluntários na temível SS. Centenas de milhares foram voluntários ou se alistaram nas forças armadas alemãs, Wehrmacht (Heer/Exército, Kriegsmarine/Marinha e Luftwaffe/Força Aérea). Muitos não tiveram escolha, mas um número significativo desejava ser membro dessas organizações, e aqueles que serviram na SS eram, em sua maioria, voluntários.

Durante o andamento da Segunda Guerra Mundial, a Waffen-SS (SS Armada, o ramo militar da SS) cresceu de uma força de elite de quatro regimentos compostos somente de cidadãos alemães, que obedeciam os padrões físicos e raciais de Heinrich Himmler, para uma força poliglota de 900.000 homens em 39 divisões, sendo mais da metade formada por voluntários estrangeiros ou alistados. Mesmo assim, em seu auge, a Waffen-SS representou apenas um décimo da força da Wehrmacht – apesar de ter sido responsável por um quarto da força blindada alemã.

Poucas pessoas compreendem o quão eram internacionais as forças armadas alemãs na Segunda Guerra Mundial. É estimado que cerca de dois milhões de estrangeiros serviram sob a suástica. Apesar de no final da guerra grande parte deles terem sido transferidos para a SS, muitos ainda serviram no Exército, particularmente na frente oriental. Os mais comprometidos entre os voluntários estrangeiros encontraram um lar na SS, de modo que a organização assumiu mais uma aparência da famosa Legião Estrangeira francesa do que a de uma unidade de elite alemã.   

Apesar da SS não receber voluntários não-alemães até quase metade do conflito na Rússia, a ideia de recrutar tais homens data antes da guerra. Em sua busca por uma Europa pan-germânica, o Reichsführer-SS (Comandante Supremo) Heinrich Himmler decretou em 1938 que não-alemães de origem “nórdica” poderiam se alistar na SS. Isto se devia ao fato de que a Wehrmacht detinha o monopólio e a preferência do alistamento militar sobre os cidadãos do Reich. O explosivo crescimento da Waffen-SS refletiu o desejo de Himmler de criar um instrumento de poder político que seria o guardião da revolução nacional socialista no interior da Alemanha. Noruega, Dinamarca, Holanda e Bélgica tinham seus próprios partidos fascistas, criados segundo o modelo alemão ou italiano. No início, era a doutrina racial nazista que determinava o nível de aceitação dos voluntários. Dinamarqueses, noruegueses e flamengos (belgas germânicos) eram considerados “arianos”, enquanto que franceses, espanhóis e valões (belgas franceses) não eram considerados racialmente puros.

O soldado alemão ideal, o melhor entre as elites, conquistou a Polônia após ter tomado a Áustria e derrotou as tropas belgas, holandesas, francesas e britânicas. Somente os finlandeses, noruegueses, dinamarqueses, holandeses, flamengos e valões eram bem vistos pelos nazistas, já que estes povos tinham origem germânica e ancestralidade nórdica, pois em 1941 e 1942, para Hitler, a questão da raça ainda era uma das forças motivadoras da Alemanha. Húngaros, búlgaros, romenos, croatas e eslovenos fizeram seu melhor na frente russa, mas jamais foram páreo para o soldado alemão treinado no estilo prussiano. De fato, apesar das primeiras formações no Exército e na Waffen-SS terem fortes motivações políticas, sua performance no campo de batalha não foi compatível com seu entusiasmo inicial. Exceção pode ser feita à Divisão Wiking, formada por escandinavos, que foi uma verdadeira tropa de elite. Comandada por Felix Steiner, um dos maiores nomes da Waffen-SS, a Wiking foi a primeira divisão internacional da SS.

A campanha na Rússia foi a grande força motivadora no recrutamento de estrangeiros. Descrita como uma cruzada contra o comunismo, a guerra no Leste atraiu muitos idealistas de extrema direita. No período entre guerras, a política europeia ficou fortemente polarizada entre dois sistemas políticos antagônicos, o fascismo e o comunismo, e o apoio soviético a movimentos comunistas locais tornou a União Soviética uma espécie de pária na Europa.

Graças ao rápido avanço na União Soviética, a Wehrmacht capturou quase três milhões de prisioneiros – entre eles mongóis, armênios e asiáticos, considerados em 1941 como “sub-humanos” - e os deixou para morrerem em campos de prisioneiros a céu aberto. Entretanto, o período entre 1941 e 1942 marcou uma guinada decisiva e inesperada em relação ao comportamento das autoridades nazistas com os “não-arianos”. No início de 1943, após a derrota do 6º. Exército, comandado pelo Marechal-de-Campo Paulus em Stalingrado, a necessidade por mais homens aumentou consideravelmente. No final deste ano, os nazistas recrutaram 80.000 ucranianos para a guerra contra a União Soviética, dos 17.000 se uniram à Divisão Galícia da Waffen-SS. A última onda de ucranianos recrutados apareceu no outono de 1944 e muitos líderes nacionais foram libertados dos campos de concentração alemães para se juntar ao exército de Vlasov na “guerra contra o Bolchevismo”.

À medida que a guerra progredia e os recursos humanos escasseavam, a SS diminuiu seus padrões raciais. A propaganda nazista também mudou à medida que mais não-arianos juntavam-se à Wehrmacht e à Waffen-SS. Os prisioneiros russos seriam recrutados dentro dos campos alemães; alguns o fizeram porque foram obrigados, outros porque eram anti-comunistas. Eles acabariam revelando-se bons soldados e certas “Tropas Orientais” (Osttruppen) permaneceriam lutando contra os soviéticos e gastariam seus últimos cartuchos pela causa alemã, tais como os kalmykianos (N. do T.: mongóis ocidentais da Rússia), chechenos, inguches, etc... Adolf Hitler e Himmler prometeram que, como último ato simbólico da vitória final, estes povos seriam libertados e tornados independentes.

Os bósnios, cristãos antigos convertidos ao Islã por diplomacia e razões pessoais durante a ocupação otomana, foram aceitos serem ilírios (tribos de indo-europeus que ocuparam a parte ocidental dos Bálcãs cerca de 400 a.C.), portanto quase arianos. Servidores leais do trono austro-húngaro, eles consequentemente mereceram ostentar as runas SS e a suástica em seus uniformes. Os mongóis foram considerados descendentes de Gengis-Khan, o grande conquistador e criador do maior exército móvel da história.

Assim, o maior número de voluntários estrangeiros a serviço dos alemães veio da União Soviética, apesar de que não foi somente no final da guerra que os padrões raciais da SS diminuíram a tal ponto de permitir que unidades SS russas fossem formadas. Quase desde o começo da campanha na Rússia, um número expressivo de prisioneiros de guerra e desertores soviéticos ofereceram seus serviços aos alemães. Conhecidos como Hilfswilige – literalmente “voluntários”, porém mais conhecidos como “voluntários auxiliares” e geralmente apelidados de “Hiwis” – estes homens serviram inicialmente em seus uniformes soviéticos, passando mais tarde a usar uniformes alemães.

Entretanto, nem todos esses recrutas foram bons soldados e podendo ser apenas utilizados em serviços de apoio, como motoristas, camareiros, pedreiros, lenhadores e mesmo chefes de cozinha. Isto permitiria que soldados alemães, que realizavam essas tarefas nada enobrecedoras, fossem enviados ao front. Estas tropas estrangeiras teriam atingido melhores resultados se tivessem sido treinadas e comandadas por oficiais compatriotas e recrutados em regimentos autônomos e com comandantes motivados. Ao invés disso, Hitler ordenou que estas unidades fossem absorvidas por regimentos alemães, com oficiais e sargentos da Wehrmacht e da Waffen-SS no comando, os quais eram conhecidos por sua dureza e falta de confiança.

Em alguns casos, estes soldados estrangeiros acabariam se rebelando e assassinando seus superiores alemães, como aconteceu com os bósnios em Aveyron em setembro de 1943, quando cinco oficiais alemães da SS foram assassinados, ou para entregar-se ao inimigo, como aconteceu aos georgianos na batalha de Carentan na Normandia, em julho de 1944. Estas traições na reta final da guerra aconteceram, respectivamente, por causa do péssimo tratamento a que as Osttruppen eram submetidas ou para mostrar às tropas aliadas que eles não eram nazistas. Consequentemente, mesmo em altas posições, estes homens eram considerados como um mal necessário e tinham que aguentar todo tipo de insultos, zombarias e assédio de seus mestres alemães, mesmo que as ordens do Alto Comando exigissem tratamento igualitário para todos os soldados.

Uma das unidades estrangeiras mais interessantes a serviço do Terceiro Reich foi a Legião Voluntária Indiana (Indische Freiwilligen Legion), criada pelo líder nacionalista Chandra Bose para lutar contra o domínio britânico na Índia. Ela foi formada através da captura de soldados indianos servindo as forças britânicas na África do Norte. Entre os 17.000 prisioneiros indianos, 3.500 concordaram em se alistar no exército alemão. A Abwehr (agência de inteligência das forças armadas alemãs) planejou para a Legião Indiana acompanhar as forças do Eixo no Cáucaso e então seguir atravessar o Irã em direção da Índia para desestabilizar o domínio britânico naquele país através de revoltas populares. Foi mesmo considerado lançar os voluntários indianos de paraquedas (uma força estimada em 800 soldados). Em janeiro de 1942, cerca de uma centena deles foi lançada na parte oriental do Irã e eles conseguiram promover alguns atos de sabotagem contra instalações inglesas. Entretanto, a operação foi cancelada devido à vitória dos soviéticos em Stalingrado. De qualquer forma, o recrutamento dos indianos foi difícil. A primeira unidade, o 950º. Regimento, com três batalhões, composto de dois terços de mulçumanos e um terço de hindus se amotinou na batalha de El Alamein em 1942. Em 1943, os indianos mulçumanos foram incorporados à 13ª. Divisão SS de voluntários da Bósnia-Herzegovina, uma divisão alpina, totalmente composta de mulçumanos. A legião indiana jamais conseguiu se impor militarmente, sendo relegada a funções de guarnição.

 
Soldado indiano do Exército alemão
 
A Legião Naval Croata, formada por 350 voluntários, tornou-se parte da Kriegsmarine e chegou em Varna no Mar Negro em 17 de julho de 1941, iniciando seu treinamento em navios caça-minas e submarinos. Em 30 de setembro, a unidade moveu-se para Gensicek na URSS, onde tornou-se operacional como a 23ª. Flotilha Caça-Minas da Kriegsmarine. Incapaz de operar seus navios no inverno, os marinheiros cavaram trincheiras e lutaram como infantes para defender a cidade dos ataques russos. Em abril de 1942, eles voltaram ao mar e permaneceram até o final do ano, quando retornaram para a Croácia. Em outubro de 1943, a legião foi desfeita e seus membros foram alocados para os navios da Kriegsmarine operando no Mar Adriático.

As Osttruppen do Exército alemão tiveram, é claro, um papel secundário comparado àquele da Wehrmacht nas operações terrestres. Mas, apesar disso, algumas destas formações estrangeiras lutaram bravamente. Isto porque estes soldados pertenciam a etnias perseguidas por séculos por todo tipo de invasores, de modo que eles viam a Alemanha como o único meio de obter sua independência. Na Normandia, os Georgianos do 795º. Batalhão deram muito trabalho às 82ª. e 101ª. divisões aerotransportadas americanas, enquanto que o 835º. Batalhão Caucasiano do Norte e o 781º. Batalhão Turquistanês lutaram contra o Regimento britânico Dorset.

Os soldados mais azarados da Segunda Guerra Mundial com certeza foram aqueles que os alemães recrutaram para as Tropas Orientais. Esses povos tiveram suas identidades roubadas inúmeras vezes, já que pertenciam a países asiáticos ou orientais antigos que sofreram invasões mongóis, turcas e russas entre os séculos I e XVIII e mudavam de nacionalidade de acordo com a do invasor. Passando do regime czarista para o soviético, eles perderam novamente suas identidades e lutaram contra a nova forma de governo. Com a chegada dos alemães, uma parte desses “soldados soviéticos” tornou-se “soldados da Wehrmacht”, alguns recrutados forçosamente, outros com a vaga esperança de uma queda do regime comunista.

Eles foram deslocados em direção do oeste, especialmente para a França e foram novamente extirpados de sua nacionalidade, deixados sem nenhuma escolha a não ser lutar com os alemães. Quando estava claro que a Alemanha perderia a guerra, eles perceberam que seriam feitos prisioneiros e possivelmente enviados à União Soviética, onde a morte por traição era praticamente certa. Alguns desertaram e se alistaram na Resistência; os armênios e croatas se infiltraram nas cidades francesas; aos indianos e asiáticos restava esperar a chegada dos Aliados; os rebeldes, saqueadores, assassinos e estupradores fugiram para a África do Norte.  
 
Soldado indonésio da Waffen-SS (A Indonésia era Colônia holandesa
na época e a Holanda estava ocupada pelos alemães)

                                                
Fontes:

Caucasian, Muslim and Asian Troops of the Wehrmacht and SS. J.F. Borsarello e W. Palinckx, 2007.

Hitler´s Foreing Divisions. Chris Bishop, 2005.

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