sábado, 6 de abril de 2013

[POL] Hitler, Mussolini, Roosevelt

O que FDR tem em comum com os outros grandes coletivistas dos anos 30

David Boaz

Resenha do livro  Three New Deals: Reflections on Roosevelt’s America, Mussolini’s Italy, and Hitler’s Germany, 1933 – 1939, de Wolfgang Schivelbusch

 
Em 7 de maio de 1933, apenas dois meses após o início do mandato de Franklin Delano Roosevelt, a repórter do New York Times Anne O´Hare McCormick escreveu que o clima em Washington era “estranhamente parecido com o de Roma nas primeiras semanas após a marcha dos camisas negras, de Moscou no começo do Plano Quinquenal... a América hoje pede literalmente por ordens.” A administração Roosevelt, ela acrescentou, “busca uma federação da indústria, trabalho e governo após a onda do Estado Corporativo como existe hoje na Itália.”

Este artigo não é citado em Three New Deals, um estudo fascinante do historiador cultural alemão Wolfgang Schvielbusch. Mas ele mantém seu argumento central: que há semelhanças surpreendentes entre os programas de Roosevelt, Mussolini e Hitler.

Quando Roosevelt assumiu o governo em março de 1933, ele recebeu do Congresso uma delegação de poderes extraordinária para acabar com a Depressão. “Os poderes de longo alcance dados a Roosevelt pelo Congresso, antes que a instituição entrasse em recesso foram sem precedentes em épocas de paz. Por meio desta ‘delegação de poderes’, o Congresso tinha, com efeito, se tornado o braço legislativo do governo. O único poder de oposição remanescente ao executivo era a Suprema Corte. Na Alemanha, um processo semelhante permitiu a Hitler assumir poder legislativo após o Reichstag (Parlamento alemão) ter sido queimado em caso suspeito de incêndio culposo em 28 de fevereiro de 1933.”

A imprensa nazista entusiasticamente saudou as novas medidas do New Deal (N. do T.: “Novo Acordo”, o programa econômico de FDR): a América, como o Reich, havia decididamente rompido com “o delírio desinibido da especulação financeira.” O jornal do partido nazista, o Völkisher Beobachter (N. do T.: Observador Popular), “sublinhou a adoção por Roosevelt das linhas de pensamento nacional-socialistas em suas políticas econômicas e sociais, elogiando o estilo de liderança do presidente como sendo compatíveis com o Führerprinzip ditatorial de Hitler.”

Até mesmo Hitler elogiou sua contraparte americana. “Ele disse ao embaixador Americano William Dodd que ‘estava de acordo com o presidente na visão de que a virtude da missão, a prontidão para o sacrifício e a disciplina contaminariam o povo inteiro.’ ‘Estas demandas morais que o presidente coloca diante de cada cidadão dos Estados Unidos também são a quintessência da filosofia do estado alemão, que é expressa no lema ‘O interesse público transcende o interesse individual.’” Uma Nova Ordem em ambos os países havia substituído uma ênfase obsoleta nos direitos.

Mussolini, que não permitiu que seu trabalho como ditador interferisse em seu jornalismo prolífico, escreveu uma crítica positiva sobre o livro de Roosevelt Looking Forward (N. do T.: Olhando Adiante). Ele o considerou “reminiscente do fascismo... o princípio no qual o Estado não deixa mais a economia sem regulação”; e, em outra crítica, desta vez do livro New Frontiers (N. do T.: Novas Fronteiras) de Henry Wallace, o Duce considerou o programa do Secretário da Agricultura semelhante ao seu próprio Corporativismo.

Roosevelt nunca simpatizou com Hitler, mas Mussolini era outra estória. “Não me importo em te dizer em segredo,” disse Roosevelt a um correspondente da Casa Branca, “que estou mantendo contato com aquele admirável cavalheiro italiano.” Rexford Tugwell, um conselheiro experiente do presidente tinha dificuldades em conter o entusiasmo do presidente pelo programa de Mussolini para modernizar a Itália: “É o mais limpo... mais eficiente plano operacional de engenharia social que eu vi. Tenho inveja.” [1]

Schivelbusch faz um paralelo nas ideias, estilo e programas dos três regimes diferentes – e mesmo sua arquitetura. “Monumentalismo neoclássico,” ele escreve, “é o estilo arquitetônico no qual o estado visualmente manifesta seu poder e autoridade.” Em Berlim, Moscou e Roma, “o inimigo que deveria ser erradicado era o legado arquitetônico do laissez-faire do liberalismo do século XIX, uma mixórdia de estilos e estruturas não planejada.” Washington ergueu vários monumentos neoclássicos nos anos 1930, apesar de utilizar menos destruição como a que ocorreu nas capitais europeias. Pense nas esculturas “O Homem controla o Comércio” em frente à Comissão Federal do Comércio, com um homem musculoso segurando um enorme cavalo[2]. Elas teriam um lugar certo na Itália de Mussolini.

“Comparando,” esclarece Schivelbusch, “isto não é o mesmo que igualar. A América durante o New Deal de Roosevelt não tornou-se um estado de partido único; ela não tinha uma polícia secreta; a Constituição permaneceu ativa e nunca houve campos de concentração[3]; o New Deal preservou as instituições do sistema liberal democrático que o Nacional Socialismo aboliu.” Mas durante os anos 1930, intelectuais e jornalistas notaram “áreas de convergência entre o New Deal, Fascismo e Nacional Socialismo.” Todos os três eram vistos como transcendendo o “liberalismo anglo-francês clássico” – individualismo, mercados livres e poder descentralizado.

Desde 1776, o liberalismo transformou o mundo ocidental. Como o jornal A Nação comentou em 1900, antes dele mesmo abandonar o velho liberalismo, “livres da intromissão vexatória dos governos, os homens se dedicaram à sua tarefa natural, qual seja o melhoramento de sua condição, com os resultados maravilhosos que nos cercam.” – indústria, transporte, telefones e telégrafos, saneamento, comida em abundância, eletricidade. Mas o editor preocupou-se que “seu conforto material fechou os olhos da geração atual para a causa que tornou isso possível.” Os velhos liberais morreram, e os jovens começaram a pensar se o governo não poderia ser uma força positiva, algo a ser usado ao invés de ser limitado.

Outros, não obstante, começaram a rejeitar o próprio liberalismo. Em seu romance dos anos 1930, O Homem sem Qualidades, Robert Musil escreveu, “O infortúnio decretou que... o humor dos tempos se afastariam das velhas ideias do liberalismo que favoreceram Leo Fischel – os grandes ideais orientadores de tolerância, dignidade do homem e mercado livre – e a razão e progresso no mundo ocidental seria determinada por teorias raciais e lemas urbanos.”

O sonho de uma sociedade planificada infectou tanto a direita quanto a esquerda. Ernst Jünger, um militarista influente de extrema direita na Alemanha, demonstrou sua reação à União Soviética: “Disse a mim mesmo: beleza, eles não têm constituição, mas têm um plano. Isto pode ser ótimo.” Ainda em 1912, o próprio FDR elogiou o modelo alemão-prussiano: “Eles ultrapassaram a liberdade do indivíduo enquanto dono de sua própria propriedade e acharam necessário comparar esta liberdade com o benefício da liberdade do povo inteiro,” disse ele em um discurso para o Fórum Popular de Tróia, em Nova York.

Progressistas americanos estudaram em universidades alemãs, escreve Schivelbusch, e “chegaram a apreciar a teoria hegeliana de um estado forte e o militarismo prussiano como o modo mais eficiente de organizar as modernas sociedades que não podiam mais ser governadas pelos princípios liberais anárquicos.” O ensaio influente “O Equivalente Moral da Guerra” de 1910 do filósofo pragmático William James sublinha a importância da ordem, disciplina e planificação.  

Intelectuais preocupavam-se com a desigualdade, a pobreza da classe trabalhadora e da cultura comercial criada pela produção em massa. (Eles não parecem ter notado a contradição entre a última afirmação e as duas primeiras.) O liberalismo parecia inadequado para lidar com tais problemas. Quando a crise econômica apareceu – na Itália e na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, e nos EUA durante a Grande Depressão – os anti-liberais aproveitaram a oportunidade, argumentando que o mercado tinha falhado e que o tempo para uma experimentação firme havia chegado.

Na revista North American Review em 1934, o escritor progressista Roger Shaw descreveu o New Deal como “meios fascistas para atingir fins liberais.” Ele não estava enlouquecendo. O consultor de FDR Rexford Tugwell escreveu em seu diário que Mussolini “fez muitas coisas que para mim são necessárias.” Lorena Hickok, uma amiga íntima de Eleanor Roosevelt, que viveu por um tempo na Casa Branca, escreveu com a aprovação de um funcionário local que disse, “Se (o presidente) Roosevelt fosse realmente um ditador, poderíamos chegar a algum lugar.”[4] Ela acrescentou que se fosse mais jovem gostaria de liderar “o movimento fascista nos Estados Unidos.” Na Administração Nacional de Reconstrução (NRA), a agência cartelista no coração do New Deal, um relatório declarou sinceramente, “Os princípios fascistas são muitos semelhantes àqueles que estamos implantando aqui na América.”

Em Roma, Berlim e Washington D.C. havia uma infinidade de metáforas militares e estruturas militares. Fascistas, nacional socialistas e new dealers foram todos jovens durante a Primeira Guerra Mundial e olhavam com saudades as experiências no planejamento militar. Em seu primeiro discurso oficial, Roosevelt conclamou à nação: “Se tivermos que ir adiante, devemos nos mover como um exército treinado e leal desejando sacrificar-se pelo bem de uma disciplina comum. Estamos, eu sei, prontos e desejosos de submeter nossas vidas e propriedades para tal disciplina, pois isto torna possível uma liderança que objetiva um bem maior. Assumo sem hesitar a liderança deste grande exército... Peço ao Congresso um instrumento antigo para enfrentar a crise – o poder executivo estendido para empreender uma guerra contra a emergência, tão grande quanto o poder que seria dado a mim se estivéssemos de fato sendo invadidos por um inimigo estrangeiro.”

Isto era uma nova imagem para um presidente da república americana. Schivelbusch argumenta que “Hitler e Roosevelt eram ambos líderes carismáticos que faziam as massas seguir suas ideias – e sem este tipo de liderança, nem o nacional socialismo nem o New Deal teriam sido possíveis.” Este estilo plebiscitário estabeleceu uma conexão direta entre o líder e as massas. Schivelbusch argumenta que os ditadores dos anos 1930 diferiam dos “déspotas da velha guarda, cujo poder era baseado grandemente na força coerciva de sua força pretoriana.” Reuniões de multidões, conversas ao rádio – e em nossa própria época – televisão podem levar o governante diretamente às pessoas de um modo que nunca foi possível antes.

Para este fim, todos os novos regimes dos anos 1930 empreenderam esforços propagandísticos. “Propaganda,” escreve Schivelbusch, “é o meio pelo qual uma liderança carismática, circunavegando instituições sociais e políticas intermediárias como parlamentos, partidos e grupos de interesse, ganha controle direto sobre as massas.” A campanha Águia Azul da NRA, na qual negócios que se submetiam ao código da agência eram permitidos mostrar um símbolo, uma “águia azul”, que era um meio de reunir as massas e convocar qualquer um a mostrar um símbolo visível de apoio. O chefe da NRA, Hugh Johnson, deixou claro sua proposta: “Aqueles que não estão conosco, estão contra nós.”

Os pesquisadores ainda estudam aquela propaganda. No começo deste ano, um museu de Berlim montou uma exibição chamada de “Arte e Propaganda: O Choque entre as Nações, 1939 – 1945.” De acordo com o crítico David D´Arcy, ela mostra como os governos alemão, italiano, soviético e americano “encomendavam e financiavam a arte quando a construção de imagem servia à construção da nação em seu extremo... Os quatro países reuniram seus cidadãos com imagens de renascimento e regeneração.” Um pôster americano de um martelo trazia o lema “O trabalho te mantém livre,” que D´Arcy considerou “extraordinariamente parecido com ‘Arbeit Macht Frei’, o slogan que saudava os prisioneiros em Auschwitz.” Analogamente, uma reedição de um documentário clássico do New Deal, The River (1938), levou o crítico do Washington Post, Philip Kennicott a escrever que “assistindo-o 70 anos depois em um DVD Naxos sinto um calafrio na espinha... Há momentos, especialmente envolvendo tratores (o grande fetiche dos propagandistas do século XX), quando você está certo que este filme poderia ter sido muito bem produzido por um dos estados totalitários da Europa.”

Programa e propaganda se misturaram nos trabalhos públicos em todos os três sistemas. A Autoridade do Vale do Tenesse, a autobahn, a reestruturação dos pântanos de Pontine nos subúrbios de Roma foram todos projetos de exibição, outro aspecto da “arquitetura de poder” que mostrava o vigor e a vitalidade do regime.

Você pode perguntar, “Onde está Stalin nesta análise? Por que este livro não chama-se Quatro New Deals?” Schivelbusch não menciona Moscou repetidamente, como McCormick em seu texto para o New York Times. Mas Stalin tomou o poder dentro de um sistema já totalitário; ele foi o vencedor em um golpe. Hitler, Mussolini e Roosevelt, cada qual ao seu modo, chegaram ao poder como líderes fortes em um processo político. Eles, portanto, compartilham a “liderança carismática” que Schivelbusch considera tão importante.

Schivelbusch não é o primeiro a notar tais semelhanças. B. C. Forbes, o fundador da revista homônima, denunciou o “fascismo exagerado” em 1933. Em 1935, o antecessor de Roosevelt, Herbert Hoover, estava usando frases como “arregimentação fascista” ao discutir o New Deal. Uma década depois, ele escreveu em suas memórias que “o New Deal introduziu os americanos ao espetáculo do controle fascista nos negócios, trabalho e agricultura,” e que medidas como o Ato de Ajuste Agrícola, “em suas consequências de controle de produtos e mercados, estabeleceu um paralelo americano estranho com o regime agrícola de Mussolini e Hitler.” Em 1944, no livro “O Caminho para a Escravidão”, o economista F. A. Hayek alertou que a planificação econômica poderia levar ao totalitarismo. Ele alertou os americanos e ingleses a não pensar que havia algo de unicamente mau na alma alemã. O nacional socialismo, ele disse, abraçou as ideias coletivistas que permearam o mundo ocidental por uma geração ou mais.

Em 1973, um dos historiadores americanos mais distintos, John A. Garraty, da Universidade de Columbia, causou tumulto com seu artigo “O New Deal, o Nacional Socialismo e a Grande Depressão.” Garraty era um admirador de Roosevelt, mas não pôde ajudar ao notar, por exemplo, os paralelos entre o Corpo de Conservação Civil e programas similares na Alemanha. Ambos, ele escreveu, “foram essencialmente projetados para manter os jovens fora do mercado de trabalho. Roosevelt descreveu os campos de trabalho como um meio de manter a juventude ‘fora das ruas,’ enquanto Hitler pensava numa forma de afastá-la da ‘desesperança cruel das ruas.’ Em ambos os países, muito foi feito dos resultados sociais benéficos de misturar milhares de jovens de diferentes classes nos campos. Além disso, ambos estavam organizados em linhas semimiltares com propostas secundárias de melhorar o condicionamento físico de soldados em potencial e estimular o comprometimento público com o serviço nacional no caso de uma emergência.”

E em 1976, o candidato presidencial Ronald Reagan provocou a ira do senador Edward Kennedy (Democrata, Massachussets), do historiador pró-Roosevelt Arthur M. Schlesinger Jr., e do New York Times quando ele disse aos jornalistas que “o fascismo era realmente a base do New Deal.”

Mas Schivelbusch explorou estas conexões em grande detalhe e segundo uma distância histórica maior. À medida que a memória viva do nacional socialismo e do Holocausto retrocedem, os pesquisadores – talvez especialmente na Alemanha – estão gradualmente começando a aplicar ciência política normal aos movimentos e eventos dos anos 1930. Schivelbusch ocasionalmente especula, como quando escreve que Roosevelt certa vez se referiu a Stalin e Mussolini como seus “irmãos de sangue.” (De fato, parece claro na fonte de Schivelbusch – o livro “A Era de Roosevelt”, de Schlesinger – que FDR estava dizendo que o comunismo e o fascismo eram irmãos de sangue entre si, não com ele.) Mas, no geral, este é um trabalho de pesquisa acadêmica formidável.[5]

Ele conclui o livro lembrando o grande panfleto de John T. Flynn de 1944, “Enquanto Marchamos.” Flynn, comparando o New Deal com o fascismo, anteviu um problema que ainda nos confronta hoje. “Mas desejando ou não, Flynn argumentou, o New Deal colocou-se na posição de precisar de um estado de crise permanente ou, de fato, de guerra permanente para justificar suas intervenções sociais. ‘Nasceu na crise, vive em crise e não pode sobreviver à era de crise’... a estória de Hitler é a mesma coisa.’ O prognóstico de Flynn para o regime de seu inimigo Roosevelt parece mais aplicável hoje do quando ele o fez em 1944... ‘Devemos ter inimigos,’ escreveu ele em Enquanto Marchamos, ‘Eles tornar-se-ão uma necessidade econômica para nós.’”

 
http://www.cato.org/publications/commentary/hitler-mussolini-roosevelt

Os trechos em itálico foram extraídos do texto que David Gordon escreveu para o The Mises Review, Volume 12, Número 3 (2006).


 
Notas:

[1]  Lembrando que Churchill também era um grande fã de Mussolini. Isto talvez explique a razão pela qual a Itália tenha sido poupada da vingança dos Aliados após a derrota do Eixo em 1945.


Existe ainda um prédio da Marinha americana, construído nos anos 1960, com o formato de uma suástica. Após clamor popular, a Marinha decidiu gastar U$ 600 mil para corrigir o prédio de formato ofensivo.


[3] Até a entrada na guerra, quando então foram criados campos para os cidadãos americanos de ascendência japonesa.

[4] Lorena Hickok foi amante da primeira-dama Eleanor Roosevelt, que tinha vida sexual bem ativa com homens e mulheres. Entre seus amantes estão Harry Hopkins e Earl Miller, funcionários de FDR. Em relação à afirmação “se Roosevelt fosse um ditador”, vale lembrar que ele governou os EUA de 1933 a 1945, foi o único presidente a ter quatro mandatos seguidos e, evidentemente, só largou o osso porque morreu um pouco antes da guerra terminar.

[5] Roosevelt chamava carinhosamente o genocida Stalin de “Tio Joe”.

domingo, 31 de março de 2013

[ARM] Tiger I: O Panzer Poderoso

Eduardo A. Cajias

 
Quando foi lançado em agosto de 1942, o Tiger era, simplesmente, o mais poderoso tanque de guerra do mundo. O êxito do Tiger em derrotar tanques oponentes foi tão grande que sua superioridade foi reconhecida até pelos inimigos. Há relatos daquela época que confirmam que ninguém se atrevia a travar um combate de tanques em campo aberto com ele.

O Panzerkampfwagen (Veículo de Combate Blindado) Tiger Ausf. E, nome oficial final deste tanque (quase sempre simplificado para “Tiger”), surgiu como uma resposta para enfrentar a boa blindagem dos tanques soviéticos T-34 e KV-2 durante a invasão da Rússia, já que até a Operação Barbarossa, os Panzer III e IV combatiam os tanques inimigos com eficiência.

 
Os projetos do Tiger foram das empresas alemãs Porsche – a mesma dos conhecidos automóveis esportivos – e da tradicional produtora de locomotivas Henschel & Son. No início, a Henschel produzia 25 tanques Tiger por mês, porém a produção em abril de 1944 saltou para 105 a cada mês. Um aumento considerável, já que representa quatro vezes mais do que no começo, porém é pouco se comparado com a grande produção dos Estados Unidos e até dos russos.

Mas não era nada barato para se fabricar o Tiger. Os custos de sua produção eram 50% maiores do que os dos Panzer III e IV, e mais que o dobro do preço do Panzer V Panther. Sua produção era difícil e complexa devido à grande quantidade e boa diversidade de materiais, por isso era demorado para completar cada unidade.

Os primeiros quatro Tiger a entrar em combate não têm uma história honrosa para contar. Eles foram enviados em agosto de 1942 para o sudeste da cidade de Leningrado (atual São Petersburgo), na Rússia, e tiveram que atuar em um terreno pantanoso totalmente impróprio para seu peso. Mas quando foram para o norte da África quatro meses depois, a situação foi completamente diferente. O Tiger tinha total domínio no terreno aberto do Saara, mas foi usado em pequenas quantidades.

Sua blindagem era tão espessa que deixava os inimigos boquiabertos. Só que o que mais rendeu celebridade ao Tiger foi um armamento principal inovador. Um canhão de nada menos que 88 mm. Até então os tanques com armas mais poderosas contavam com canhões de 75 mm (como os Panzer IV e os Panther alemães ou o MK VIII inglês) ou de 76,2 mm, como os maiores tanques russos. Dependendo da munição utilizada, a velocidade na boca do canhão podia chegar a 930 m/s, o suficiente para penetrar a blindagem de mais de 110 mm a uma distância de 2 mil metros (os T-34 russos tinham até 90 mm de blindagem nas partes mais espessas).

Obviamente, o Tiger não era um tanque veloz, mas não fazia feio em relação aos outros tanques pesados que teve que enfrentar. No entanto, com uma velocidade máxima em estrada de 38 km/h era até mais rápido que o vagaroso inglês Matilda (máxima de 24 km/h na estrada) e bem mais do que o Churchill MK IV, que chegava a no máximo 20 km/h.

O resultado foi que os tanques americanos M4A2 Sherman de 75 mm – que os britânicos empregaram amplamente no norte da África – e os T-34 só tinham chance de imobilizar um Tiger a uma curta distância. A consequência em batalhas posteriores foi que o Tiger destruiu uma quantidade impressionante de equipamento inimigo. Ele conseguiu quebrar vários recordes de inimigos abatidos nos anos de 1943 e 1944. Além de seu bom desempenho no norte da África, o sucesso foi ainda maior na Itália e no front oriental, especialmente na Rússia.

Diversas histórias de guerra são contadas, mas nem todas elas são verdadeiras. Isso se pode observar em relação à quantidade de inimigos destruídos por cada Tiger e seu comandante responsável. Os mais renomados e conhecidos destes comandantes são Otto Carius e, principalmente, Michael Wittmann. Otto Carius foi um tenente que destruiu mais de 150 tanques. Já Michael Wittmann é reputado por destruir 138  (ou mais) tanques. Este jovem capitão recebeu, diretamente das mãos de Adolf Hitler, a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas de Carvalho e Espadas. Lutou muito na Rússia, mas foi enviado para a Normandia. No norte da França, Wittmann comandou a 2ª. Companhia do 101º. Batalhão SS de panzer Pesados e se notabilizou por enfrentar os britânicos na França. Morreu em batalha em agosto de 1944, e seus restos mortais estão no cemitério de guerra alemão de La Cambe, na França.

Michael Wittmann
 
As propagandas nazistas exageraram nas qualidades do Tiger, sem dúvida. E o medo de alguns soldados americanos e britânicos podia ser desmesurado, mas não totalmente sem razão. Afinal, o Tiger é inegavelmente um dos melhores tanques de guerra de todos os tempos.

Especificações

Fabricante: Henschel & Sohn, Krupp (torre)
Tripulação: 5 (3 na torre)
Comprimento: 8,45 m
Largura: 3,4 a 3,7 m
Altura: 2,93 m
Peso: 56.000 a 57.000 kg (últimas versões)
Capacidade de combustível: 534 litros (4 tanques de combustível)
Autonomia: 140 km
Armamento principal: 88 mm KwK 36L/56
Armamento secundário: 2 ou 3 metralhadoras 7,92 mm MG 34
Munição: 92 a 120 de 88 mm, 4.500 a 5.700 de 7,92 mm

Instruções do Exército Russo para derrotar um Tiger
 
Publicado originalmente na revista “Guerras: Armas, Táticas e Equipamentos”, Ano I nº 2, Ed. Nova Sampa.

[SGM] O naufrágio do transatlântico Wilheim Guslöff

Há 65 anos acontecia o maior naufrágio do mundo. Mas, até hoje, pouca gente ouviu falar dele

Eduardo Szklarz | 20/06/2012 15h53

Na noite de 30 de janeiro de 1945, o transatlântico Wilhelm Gustlöff deslizava pelas águas geladas do mar Báltico rumo a oeste. Sua missão: evacuar milhares de alemães que fugiam das tropas soviéticas durante a Segunda Guerra. Os capitães Friederich Petersen e Wilhelm Zahn iniciaram o percurso enfrentando névoa, blocos de gelo e ondas altas, mas perto das 21h eles abriram uma garrafa de conhaque para fazer um brinde: o pior já havia passado. O festejo durou pouco. Logo depois, o navio seria protagonista do maior desastre naval de todos os tempos. O número de vítimas ainda gera debate, mas vários pesquisadores estimam em cerca de 9 mil - o equivalente a seis Titanics. Ao contrário do navio britânico, porém, a tragédia do Gustlöff ainda é quase desconhecida.

De passeios a resgates

O navio de cruzeiro mais avançado do mundo. Assim os alemães receberam o Wilhelm Gustlöff na sua festa de inauguração, em 1937. Hitler queria surpreender o mundo com o colosso de 208,5 metros e 25 mil toneladas, que tinha capacidade para 1880 pessoas - entre passageiros e tripulantes. Uma bela propaganda para o poderio do Terceiro Reich.

Dentro da Alemanha, a ideia era usar o navio para cooptar a classe trabalhadora ao nacional-socialismo. Ele foi construído para a KdF (Kraft durch Freude, ou Força da Alegria), uma organização sindical que promovia atividades de cultura e lazer para os funcionários do regime nazista. Agora eles podiam embarcar em excursões baratinhas para os fiordes noruegueses, a Ilha da Madeira e outros destinos da moda. Todas as cabines eram da mesma classe, o que se ajustava à noção de unidade racial do povo (volk). "Nas 50 excursões que realizou, o barco ofereceu aos seus 65 mil viajantes uma experiência inesquecível", diz o pesquisador canadense David Krawczyk, editor de um site sobre o Gustlöff e grande especialista na história. "Mas com o início da Segunda Guerra, em setembro de 1939, a Alemanha o transformou em navio-hospital."

Assim, uma faixa verde foi pintada ao longo do casco e cruzes vermelhas substituíram os emblemas da KdF. Nos meses seguintes, a embarcação gigantesca socorreu soldados feridos nas invasões alemãs à Polônia, Noruega e Dinamarca.

Em novembro de 1940, veio outra metamorfose: o navio virou um quartel flutuante para dar abrigo à esquadra nazista no porto de Gotenhafen, próximo a Danzig, na Prússia Oriental (atual Polônia). As cruzes vermelhas foram tampadas por tons de cinza, já que o objetivo, agora, era a camuflagem.

O Wilhelm Gustlöff ficou ancorado ali por quatro anos, mas as derrotas sofridas pela Alemanha no front soviético mudariam de novo o seu destino. E pela última vez.

Operação Hannibal

Em janeiro de 1945, até o alemão mais otimista sabia que a guerra estava perdida. A contra-ofensiva do Exército Vermelho espalhava pânico na Prússia Oriental. "Legiões de refugiados, oficiais e soldados alemães feridos lotaram os portos de Danzig e Gotenhafen, tentando fugir para o oeste", diz o historiador americano James Wise no livro Soldiers Lost at Sea ("Soldados perdidos no mar", sem tradução no Brasil).

O almirante alemão Karl Dönitz decidiu que era hora de agir: enviou à sua frota o código "Hannibal" - que significava evacuar a maior quantidade possível de militares e civis. O Gustlöff foi preparado para a operação, mesmo após ter ficado imóvel por quatro anos. Os capitães Friederich Petersen e Wilhelm Zahn assumiram o desafio e, em 28 de janeiro de 1945, receberam a ordem de partir em 48 horas. A essa altura, o porto de Gotenhafen era puro caos. Homens, mulheres e crianças disputavam um lugar no navio, mas só podia entrar quem tinha um passe especial. Isso significava ter muito dinheiro, influência ou algum conhecido entre os tripulantes. Soldados feridos tinham prioridade.

O empurra-empurra no porto era tão grande que algumas crianças caíram na fresta entre o deck e o casco e desapareceram na água. "Pelas listas oficiais, 3 mil refugiados se instalaram no navio na manhã de 30 de janeiro. Contudo, a partir de então, a tripulação perdeu a conta dos que chegavam", afirma Krawczyk. "Portanto, nunca saberemos o número exato de pessoas que zarparam." Estima-se que mais de 10 mil pessoas se amontoaram no navio, inclusive dentro da piscina vazia. Quase a metade era de crianças e adolescentes.

O Gustlöff zarpou ao redor das 12h30 com destino à baía de Kiel, no oeste do Báltico. Apesar do frio externo, o calor era intenso dentro do navio. Muitos tiraram os coletes salva-vidas, e não demorou para que enjoassem e vomitassem com os solavancos provocados por ondas de vários metros de altura. A tensão também era grande na cabine de comando, já que apenas um barco torpedeiro escoltava o navio. Os capitães sabiam que a região era cheia de minas e monitorada pelos ingleses. No início da noite, eles perceberam que um comboio de caça-minas alemães se aproximava na direção oposta. Apesar dos protestos do colega, Petersen decidiu acender as luzes de navegação para evitar uma colisão no meio da névoa. Seria um erro fatal.

 


A poucos quilômetros dali, escondido nas profundezas do Báltico, o submarino soviético S-13 patrulhava a costa de Danzig. Seu capitão, Alexander Marinesko, estava sendo investigado pelos superiores por causa de alguns deslizes - era beberrão - e precisava de uma glória para limpar sua ficha.

Pouco antes das 20h, o S-13 detectou luzes entre a névoa densa. Marinesko agarrou o periscópio e visualizou a silhueta do colosso alemão. Nas duas horas seguintes, ele o perseguiu com cuidado, sorrateiro, preparando-se para dar o bote. O mais mortífero de sua carreira.Logo após as 20h, os auto-falantes do Gustlöff interromperam a música ambiente para transmitir um discurso de Hitler ao vivo no rádio, comemorando os 12 anos de ascensão do nazismo. Os passageiros não tinham motivo para celebrar, claro. Mas pelo menos a ameaça soviética parecia ter ficado para trás.

O ataque

Enquanto isso, Marinesko e sua equipe preparavam quatro torpedos, pintando cada um com uma mensagem. Torpedo 1: "Para a pátria". Torpedo 2: "Para Stalin". Torpedo 3: "Para o povo soviético". E torpedo 4: "Para Leningrado". Perto das 21h, o capitão ordenou: "Fogo!" O torpedo dedicado a Stalin perdeu o rumo, mas os outros três acertaram o alvo em cheio (veja a partir da pág. 41). Os passageiros situados nos locais de impacto perderam a vida na hora. Os outros correram em pânico para a zona dos botes. Muitos foram pisoteados, outros se jogaram no mar e morreram congelados, apesar do resgate feito por barcos da frota alemã.
 

"O navio afundou a só 12 milhas da costa (cerca de 22 km), mas o pânico e a temperatura da água (15 graus negativos) causaram uma enorme perda entre os que tinham escapado do naufrágio", diz o analista naval americano Norman Polmar. "O cruzador alemão Almirante Hipper estava próximo, mas não prestou socorro por medo dos submarinos."

Hoje, diversos pesquisadores estimam que 1230 pessoas sobreviveram ao naufrágio. O número de mortos é menos preciso, pois não se sabe ao certo quantos passageiros havia no Gustlöff. As cifras giram em torno de 9 mil pessoas, ou seis vezes o número de vítimas do Titanic. E mesmo assim você provavelmente nunca ouviu falar dessa tragédia. Afinal, por que ela é tão pouco conhecida? Primeiro, porque ocorreu durante uma guerra - e, para muitos, desastres assim são menos trágicos que os ocorridos em tempos de paz. Os aliados não deram muita bola para o desastre sofrido pelo inimigo. Para os soviéticos, aliás, os torpedos do S-13 eram uma retribuição à ocupação alemã. E o próprio Hitler não quis admitir que seu gigante dos mares havia tido esse destino. Além disso, durante décadas muitos alemães se sentiram culpados pelas atrocidades que seu país cometeu antes e durante o conflito, e esse sentimento pode ter ofuscado a tragédia naval. "Ao contrário do Titanic, o Gustlöff não viajava rumo aos Estados Unidos e não havia americanos a bordo. Assim, essa história não teve apelo para Hollywood", diz David Krawczyk. Também pudera: Wilhelm Gustlöff era líder do Partido Nazista na Suíça (leia abaixo). Se o navio tivesse outro nome, talvez ganhasse mais simpatia. E pensar que o plano original era batizá-lo de Adolf Hitler...

Última viagem

A tragédia do Gostlöff em três atos


A fuga

30/1/1945. O navio escapa pelo mar Báltico, levando cerca de 10 mil soldados e civis alemães, quando é detectado pelo submarino soviético S-13. Começa a caçada.

1º Torpedo

O projétil atinge a dianteira do navio. Quem está perto do ponto de impacto é vaporizado. Portas herméticas se fecham para selar a área, mas isolam tripulantes. O navio começa a tombar para bombordo (sobre a esquerda). O segundo torpedo lançado erra o alvo.

3º Torpedo

Explode sob a piscina vazia, que servia de abrigo para uma unidade feminina da Marinha. Apenas três das 373 mulheres sobreviveram.mpacto cria ondas de ar que levam lascas de ladrilhos e metal para todos os lados, inclusive as cabines mais próximas. Apenas 3 das 373 mulheres sobrevivem aos cortes.

4º Torpedo
Atinge a sala de máquinas e corta a energia do navio. Luzes de emergência se acendem. Sem comunicação, o operador de rádio usa um transmissor de SOS. Também são emitidos sinais de luz. Um barco da escolta capta e retransmite o pedido de socorro.

Caos

Desespero toma conta da embarcação


Sem saída

O navio tomba mais sobre a esquerda, impedindo o acesso aos botes. Tripulantes tentam conter a confusão, sem sucesso.

Suicidas

Muitos passageiros caem no mar, outros morrem pisoteados. Desesperados, vários oficiais atiram em seus parentes e se matam.

Botes não funcionam

A inclinação complica o acesso aos botes também do lado direito. A multidão não sabe como baixá-los. As amarras estão congeladas e poucos são usados corretamente.

Mar gelado

Muita gente pula na água de 15 graus negativos e não consegue ajuda nos botes lotados. Alguns náufragos são até agredidos por quem já garantiu seu lugar. Os coletes são grandes para as crianças; várias acabam se afogando.

Rumo às profundezas


O Gustlöff afunda levando milhares de pessoas com ele.

Sobreviventes

O barco-escolta se aproxima e inicia o salvamento. Outras embarcações alemãs chegam para ajudar, entre elas um barco torpedeiro e três caça-minas. A escuridão e o gelo dificultam os trabalhos, mas 1230 pessoas são resgatadas com vida. Cerca de 9 mil morrem (não se sabe o número exato).

Vingança mortal

Navio homenageava líder nazista morto por um judeu


Em 31 de janeiro de 1936, o estudante David Frankfurter pegou um trem em Berna com destino a Davos, nos Alpes suíços. Ninguém desconfiou que ele levava um revólver na maleta. Seu plano era matar Wilhelm Gustlöff, líder do Partido Nazista na Suíça. Filho do rabino de Daruvar, na atual Croácia, Frankfurter havia começado a cursar medicina na Alemanha. Com a ascensão do nazismo, porém, teve de continuar seus estudos na Suíça. Foi quando percebeu a ameaça que também pairava sobre os judeus desse país. E decidiu dar cabo de Gustlöff com as próprias mãos. Assim, naquele 31 de janeiro ele fez o check-in num hotel em Davos e esperou o momento de agir. Em 4 de fevereiro, tocou a campainha da casa do chefe nazista e pediu à esposa dele uma breve audiência com o líder. Ela deixou o rapaz entrar e foi chamar o marido. "Durante alguns minutos, o garoto de 27 anos observou os objetos nazistas que decoravam o aposento, inclusive uma foto de Hitler com dedicatória", diz o pesquisador canadense David Krawczyk. Quando Gustlöff apareceu, David tirou o revólver do casaco e disparou-lhe cinco tiros contra a cabeça, o pescoço e o peito. Depois saiu calmamente, enquanto a mulher gritava ao lado do morto. Convencido de que seu ato não era um crime, David se entregou à polícia e foi condenado a 18 anos de prisão. Hitler alçou Wilhelm Gustlöff a mártir do nazismo, batizando com seu nome o "transatlântico mais moderno do mundo". Terminada a guerra, a Suíça perdoou Frankfurter com a condição de que deixasse o país. Ele emigrou para Israel, onde integrou o Ministério de Defesa. Os suíços retiraram a ordem de exílio em 1969, mas Frankfurter ficou em Tel Aviv, onde morreu em 1982.

Saiba mais

LIVRO


Soldiers Lost at Sea - A Chronicle of Troopship Disasters, James E. Wise Jr. e Scott Baron, Naval Institute Press, 2004

Ainda sem edição no Brasil, o livro narra os maiores desastres navais relacionados a conflitos.

Site

www.wilhelmgustloff.com

O site organizado pelo pesquisador David F. Krawczyk traz informações detalhadas sobre a tragédia.

 
http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/conheca-historia-naufragio-transatlantico-wilheim-gusloff-segunda-guerra-mundial-689446.shtml

[ARM] Armas de Infantaria - Armas Longas

ESPINGARDA

São armas de fogo portáteis, de cano longo e sem raiamento (alma lisa), com ampla gama de utilização na caça, tiro ao vôo, defesa, combate, etc. Existem seis tipos básicos de espingardas: Tiro Simples (um cano), de Ferrolho (um cano), Mecanismo de Corrediça (um cano), Semiautomática (um cano), Canos Duplos Paralelos (normalmente, dois canos) e Canos Duplos Sobrepostos (dois canos). O tipo de espingarda mais usado atualmente é a de dois canos sobrepostos, monogatilho, extratores automáticos e seletor de cano, podendo, ainda, ter um par de canos extras. A figura 1 mostra um modelo de espingarda e suas partes principais.

Fig. 1

 Calibre

Os calibres (diâmetro interno do cano) das armas à bala são usualmente denominados em milímetros ou polegadas. Exemplo: o calibre .45 ACP, na denominação americana, significa que o diâmetro do cano (e do projétil) é de 45 centésimos de polegada, o que corresponde a 11,43 mm. Entretanto, os calibres das espingardas de chumbo foram estabelecidos há muitos anos e não foram baseados em qualquer sistema convencional de medida. Tomou-se, como base, o número de esferas de chumbo que perfazem uma libra.

Converteu-se uma libra (453,6 g) de chumbo puro em 12 esferas de iguais peso e diâmetro. Se uma dessas esferas se encaixava perfeitamente num determinado cano, o calibre deste era "12". Estas esferas tinham 0,730 polegada de diâmetro, ou seja, 18,5 mm. De igual peso de chumbo (1 libra), foram feitas 16 esferas e chegou-se ao calibre 16, assim procedendo-se com os demais calibres, com exceção do 36, pois, segundo esse critério, seria o calibre 67. O calibre 36 corresponde, na realidade, a 0,410 polegada, ou seja, 10,414 mm.

A medida do diâmetro da alma do cano pode variar em 0,40 mm, dependendo da broca usada na perfuração, se nova ou usada, conforme ficou estabelecido na Convenção de Stutgart, em 1913, como mostra a tabela 1:
 
 
Os chumbos utilizados para carregar cartuchos variam, normalmente, de 1,25 a 5,50 mm de diâmetro, sendo usados, ainda, balotes: um único projétil de chumbo de diâmetro equivalente ao calibre da espingarda. A figura 2 mostra os diferentes tamanhos de chumbo para espingarda.

Fig. 2
 

Cartuchos

Infelizmente, não temos condições de falar muito detalhadamente sobre a munição de espingardas, mas, informamos que, para um mesmo calibre, existem diversos tipos de cartuchos (carregamentos), que poderão influir decisivamente no desempenho da arma. Além do tipo do cartucho propriamente dito (de plástico, metal, papelão, de fundo chato ou redondo), mostrado na figura 3, do chumbo usado (uniforme em peso, diâmetro e forma - comum, endurecido ou cromado), existem as espoletas, pólvoras, buchas e muitos outros fatores que alteram o tiro.

É bom lembrar que, quanto maior o diâmetro interno do cano, mais pólvora e chumbo poderão ser usados. Assim, uma arma calibre 12 pode disparar mais chumbo a maiores distâncias do que outra de menor calibre. Uma espingarda "36" comporta uma quantidade de chumbo 25% menor do que uma de calibre 20 e seu alcance útil é de pouco mais de 27 metros.
 
Fig. 3
 
 
Câmara

É o local, na culatra, onde se alojam os cartuchos. Existem dois tamanhos de câmaras, 70 mm (2 3/4 pol) e 75 mm (3 pol), sendo que as de 65 mm não são mais encontradas em armas de fabricação recente. A maioria das espingardas possui câmara 70, mas as adotadas para alvos distantes (por exemplo, ganso voando a grande altura) têm a câmara mais extensa, capaz de alojar os cartuchos Magnum mais potentes. Os cartuchos não ocupam todo o espaço interno das câmaras. O espaço excedente permite a expansão do estojo, por ocasião do disparo.

Comprimento do cano

Com as modernas pólvoras, o tiro alcança o máximo de velocidade muito rapidamente. Por isso, o comprimento do cano - respeitadas medidas não inferiores a 500 mm ou de comprimentos exagerados - tem pouca influência sobre sobre a velocidade do tiro, alcance, penetração, grupamento, dispersão ou energia de uma carga de chumbo. O comprimento do cano deve ser escolhido de acordo com a proficiência pessoal do atirador e tipo de tiro a ser feito. Um cano longo tende a aumentar o peso da arma, porém, aumenta a sua linha de visada. Um cano curto torna a arma mais fácil de manuseio, podendo ser usada com maior liberdade de ação para tiros seguidos e que exijam viradas constantes ("swing"). Um cano de 700 mm é de tamanho ideal para os diversos tipos de caça e "skeet", enquanto que, para "trap" e tiro ao pombo, 760 mm é o recomendado.

FUZIL

Um fuzil é uma arma de fogo que possui uma coronha que é sustentada pelo ombro, com o cano tendo ranhuras helicoidas ou um padrão de ranhuras talhado no interior das paredes do cano. As áreas ascendentes das ranhuras são chamadas “cheios”, as quais fazem contato com o projétil (para armas curtas, chamado bala), provocando um giro em torno do eixo correspondendo à orientação da arma. Quando o projétil deixa o cano, a conservação de momento angular melhora a precisão e o alcance. A palavra “fuzil” originalmente se relacionava às ranhuras e um fuzil era chamado uma “arma ranhurada”. Fuzis são usados em guerras, caçadas e esportes de tiro.

Normalmente, uma bala é propelida pela deflagração contida de um composto explosivo – originalmente pólvora negra, cordite (pólvora à base de nitrocelulose) e agora nitrocelulose – apesar de outros meios serem utilizados, como ar comprimido em fuzis à gás, que são populares para controle de animais daninhos, caçadas ou plinking.

Fuzis modernos são quase sempre carregados pela culatra, apesar de alguns carregadores de boca ainda existirem. Eles são geralmente semi-automáticos, totalmente automáticos, por ação de pinos ou alavancas ou tiro único por cartucho. Um fuzil de batalha é um fuzil para aplicações militares cujo alcance e precisão foram projetados para acertar alvos a longa distância, enquanto que seu tamanho e peso o tornam inconveniente para combate próximo. Durante a Segunda Guerra, por exemplo, os combates com armas de pequeno porte ocorriam a 100 metros ou menos, com uns poucos acontecendo a 300 metros. Assim, a curta distância, o poder de fogo do fuzil é, em sua maior parte, desperdiçado em luta de curta distância, exigindo um fuzil mais leve e manobrável. Essa desvantagem levou ao desenvolvimento do primeiro fuzil de assalto, o alemão StG 44.

Os fuzis são usados para quase tudo, desde tiro-ao-alvo até combates urbanos. O fuzil militar, na época da arma de pederneira, foi considerado a arma principal na cabeça dos elaboradores da Segunda Emenda à Constituição Estadunidense[1]. A distinção mais notável entre um fuzil de guerra e um fuzil de assalto é que o primeiro dispara um cartucho de alta potência, tais como o calibre .30 (7,62 mm) de um fuzil semi-automático M1 Garand (Segunda Guerra) e o fuzil automático M14 (Coréia e Vietnã) de calibre 7,62 ´ 51 mm. Fuzis de assalto disparam menos, possuem cartuchos de tamanho médio e menos potentes como, por exemplo, balas de 5,56 ´ 45 mm, para a família M16 (derivada do AR-15), ou o 7,62 ´ 39 mm, para o fuzil russo AK-47. Entretanto, eles atiram com maior velocidade e potência do que pistolas e submetralhadoras; além disso, as principais vantagens do fuzil de assalto em relação ao fuzil de guerra são: menor “coice”, menor peso, maior capacidade de munição e alta taxa de tiro, enquanto que as principais desvantagens são: menor potência de tiro e menor alcance. A figura 4 apresenta alguns modelos de fuzis conhecidos.
 

Fig. 4
 
METRALHADORAS

A metralhadora permite o fogo total automático, isto é, que múltiplos cartuchos sejam disparados com um simples apertar de gatilho, sendo essa uma das diferenças entre um fuzil e uma metralhadora, pois o primeiro necessita de um puxão no gatilho para cada cartucho disparado (acionado de forma automática ou semi-automática). A munição de uma metralhadora pode ser estocada em pentes ou tambores longos ou em fitas de cartuchos ligados entre si.

Apesar do termo “metralhadora” ser geralmente usado por leigos para descrever todas as armas totalmente automáticas, no jargão militar o termo é restrito a dispositivos pesados acionados de algum suporte de apoio, ao invés de manual, e capaz de manter fogo tanto tempo dure a munição. As metralhadoras são normalmente usadas contra soldados desprotegidos ou pouco equipados, ou também para fornecer fogo supressor (disparo na direção do inimigo para coibir sua ação e mantê-lo em sua posição).

Algumas metralhadoras podem, na prática, manter fogo supressor por várias horas; outras armas automáticas sofrem um aumento térmico interno com poucos minutos de uso. Pelo fato de se tornarem muito quentes, praticamente todas as metralhadoras atiram de ferrolho aberto (isto é, no momento do disparo o ferrolho se encontra totalmente contraído), para permitir a refrigeração de ar a partir da culatra durante as explosões. Elas também têm um sistema de tubo de refrigeração, ou tubos removíveis, que permitem a substituição de um cano aquecido.

Uma sub-metralhadora é uma arma projetada para disparar cartuchos de pistola no modo automático e é empregada em lutas de curta distância. Elas foram as primeiras armas portáteis automáticas. Atualmente, elas são usadas em combate próximo quando um fuzil de assalto seria muito volumoso ou ter muita penetração. Algumas sub-metralhadoras populares são a alemã MP40 da Segunda Guerra, a HK MP5 e a IMI Uzi, sendo as duas primeiras mostradas na figura 5.
 
 
Fig. 5

 
A metralhadora leve (comumente abreviada para LMG) é uma classe de metralhadora mais leve e normalmente projetada para ser carregada por um único soldado e/ou um assistente. LMGs modernas possuem freqüentemente menor calibre do que as metralhadoras médias (MMG) e são mais leves e compactas.
 
Geralmente, uma LMG deve agir como arma de apoio, onde gerará um volume maior de fogo automático contínuo em relação às armas carregadas pelos soldados de infantaria, porém consumindo uma grande quantidade de munição e possuindo um peso maior.

Um exemplo de LMG é a M249 SAW (Arma Automática de Esquadrão) usada pelo exército americano. LMGs usam projéteis de fuzis (cartucho de 5,56 mm), tanto de alta quanto de potência intermediária, e são operadas utilizando um suporte de dois pés (bipode) ou uma montagem em tripé. Elas geralmente são alimentadas por fita ou possuem um carregador maior do que o normal. Isto permite a ela ter maior poder de fogo do que os fuzis de assalto e, por isso, é usada para dar fogo de cobertura para tropas amigas. A figura 6 mostra uma M249 montada sobre um bipode.
 
Fig. 6


Uma metralhadora média, ou MMG, designa uma arma automática alimentada por fita, disparando cartuchos de fuzil de alta potência e pesando tipicamente entre 6,8 e 18,1 kg. Estas armas geralmente trabalham com cartuchos 7,62 ´ 39 da série AK-47 ou o cartucho padrão de 5,56 ´ 45 da OTAN, usado nos fuzis AR-15/M-16. As MMGs geralmente têm algum tipo de provisão para fogo estendido, tal como um cano removível ou extra-pesado, alhetas de refrigeração ou um invólucro de refrigeração a água, porém são leves o suficiente para serem usadas com um bipode. Elas se situam numa região tênue entre as metralhadoras leves (LMG) e as pesadas.

As médias disparam munição de calibre de fuzil de alta potência e tem um uso geral mais geral e mais prolongado. Isto geralmente inclui ambas as montagens com bipode e tripé e rápida troca de canos. Metralhadoras refrigeradas a água do mesmo calibre que as médias já não tem mais utilidade, já que a situação em que são idealmente aplicáveis (fogo ininterrupto) não é mais necessária na guerra atual. Isto porque as famosas cargas concentradas de infantaria raramente são feitas, sendo substituídas por ataques baseados em AFV; além disso, uma posição MMG estática seria o alvo prioritário de uma bateria de foguetes inimiga. A maior parte das MMGs que usam troca de cano sobreaquecem após 200 tiros e, então, uma troca rápida de cano é necessária, pois elas só podem continuar atirando se houver canos sobressalentes. Entretanto, canos são caros e pesados, de modo que uma quantidade muito limitada é mantida. Conseqüentemente, mesmo se 2 ou 3 canos forem carregados e girados para dentro e para fora, isto não permitiria o fogo incessante; o cano removido não resfria antes que o próximo seja substituído.

A M240, formalmente conhecida como Metralhadora 7,62 mm M240, pertence à classe de MMGs operadas a gás e alimentadas por fita, disparando o cartucho 7,62 ´ 51 mm da OTAN. A M240, mostrada na figura 7, é usada pelas forças armadas norte-americanas desde meados dos anos 1990. Ela é usada extensamente pela infantaria, veículos terrestres, embarcações e aviões. Apesar de não ser a mais leve MMG em serviço, a M240 é altamente lembrada por sua confiabilidade e a sua padronização junto aos membros da OTAN é também vista como uma vantagem.
 
Fig. 7
 
Uma metralhadora pesada designa tanto uma arma de alta potência e grande calibre quanto uma arma de médio calibre, utilizada para fogo prolongado e montada sobre bases pesadas, com pouca mobilidade ou em posição estática (ou uma combinação de ambas). A XM312 (figura 8) é uma metralhadora pesada, derivada do canhão automático (isto é, carregam automaticamente a munição e possuem uma taxa de tiro maior que a da artilharia) XM307 de 25mm; além disso, ela é adaptada para o cartucho de 12,7 ´ 99 mm (.50 BMG) da OTAN.   
 
 
Fig. 8
 




[1] Promulgada em 1787 na Pensilvânia, contém sete artigos e 27 emendas. A Segunda Emenda dá o direito ao cidadão de possuir e portar arma para se proteger.

Fontes:
 
Na época da compilação deste material, consultei diversas fontes, a principal a wikipédia. No entanto, não registrei as páginas de onde capturei as imagens e o texto. Quem for o autor de alguma passagem ou souber da página original, favor entrar em contato para que eu possa dar os créditos.
 
Tópicos Relacionados:
 
Armas de Infantaria: Armas Curtas
 
 
Armas de Infantaria: Munição e Calibre de Armas de Fogo