sábado, 20 de abril de 2013

[POL] O Preço da Destruição

Alex Harrowell

 

Resenha do livro The Wages of Destruction, Adam Tooze.

 
Em seu novo longo livro, o historiador de Cambridge Adam Tooze apresenta o Terceiro Reich como uma engrenagem destinada a destruir-se em pedaços não como Albert Speer (Ministro dos Armamentos) disse, por causa das guerras internas burocráticas e pelos hábitos administrativos caóticos de Hitler, mas por causa de seus próprios defeitos de nascimento. Resumindo: a Alemanha de Hitler foi sempre muito afetada pela escassez de matérias primas, particularmente petróleo bruto e borracha, mas também minério de ferro e carvão, ração animal e fertilizante, moeda estrangeira e mesmo mão de obra, para conseguir a independência comercial e industrial em paz, e deixar de lado uma campanha de conquista europeia. Apesar de toda a ingenuidade de oportunistas cínicos como Hjalmar Schacht, no Reichsbank até 1939, e Speer, nos Armamentos após 1942, a Alemanha atravessou uma sucessão de crises financeiras e de recursos graves que prejudicaram seus exércitos e resultaram no colapso final.

A originalidade do livro, e que o torna uma leitura atual, é o papel esmagador que Tooze dá aos Estados Unidos como um espectro para os medos e imaginação de Hitler. Em seu segundo livro (N. do T.: os rascunhos foram encontrados após a guerra e publicados recentemente em inglês), Hitler utiliza o discurso anacrônico anti-americano à la Chavez ou Bin Laden. “Devido à moderna tecnologia,” escreve Hitler, “e as comunicações tornam isso possível, as relações internacionais entre os povos tornaram-se tão próximas que os europeus, mesmo sem ser totalmente conscientes disso, aplicam como padrão de referência de sua existência as condições de vida americana...”

Confrontados com esse desejo por gentilezas americanas, mas sem a vasta escala da massa de terras ou mercado americano para ajudar-lhes, os estados europeus devem ser reduzidos ao estado de uma “Suíça ou Holanda”. Uma união cooperativa dos estados europeus, tal como aquela que foi promovida após a guerra, não era compatível com as obsessões raciais de Hitler. Ao invés disso, ele encontrou outra justificativa para a conquista do leste – conhecida como Lebensraum – na escala do mercado interno americano.

Continuando a partir disto, e de modo mais controverso, Tooze argumenta que dada a disposição de poder industrial no mundo e sua ideologia racial, Hitler estava certo em agir como agiu. Ciente de que era apenas uma questão de tempo antes que o gigante americano se agitasse, Hitler foi sábio em agir com tal precipitação, lançar a corrida armamentista, anexar a Áustria e os Sudetos, explorar a oportunidade diplomática repentina de invadir a Polônia, partir para cima do Ocidente em 1940, e mesmo invadir a União Soviética no ano seguinte. “Uma vez que analisamos,” escreve Tooze, “a escala dos acontecimentos internacionais que Hitler iniciou em 1938, é possível reconstruir uma lógica estratégica inteligível e consistente por trás das ações de Hitler.”

Tooze começa com uma discussão dos problemas econômicos e a posição relativa no mundo da Alemanha enquanto esta atravessava a Depressão. Ele fornece um relato excelente da política de Stresemann (N. do T.: Gustav Stresemann, Ministro do Exterior 1923-29) em termos de uma relação especial com os Estados Unidos, importando capital americano para desenvolver a indústria alemã e ajudar a cobrir o valor das reparações para a França e Grã-Bretanha. Simultaneamente, ele argumenta, laços econômicos mais fortes com os EUA também eram uma forma de forçar o governo americano a pressionar os aliados europeus em relação às reparações de guerra; a França e o Reino Unido insistiam no pagamento no sentido de cobrir seus próprios débitos de guerra junto aos EUA, portanto estando tão próximo quanto possível dos EUA significava que a Alemanha poderia contar com o apoio dos EUA em uma crise, baseando-se no princípio de ser muito grande para falhar.

A América aos olhos alemães é o tema principal do livro, e um subtema do discurso nazista pouco lembrado geralmente. Não somente os líderes nazistas estavam preocupados com o poder potencial dos EUA, eles também assimilaram o que eles acharam ser a eficiência única dos anos 1920 da indústria americana, e demonizavam o que eles consideravam ser a decadência e miscigenação da sociedade americana. Era a época de Josephine Baker, Al Capone e Henry Ford e os três ícones foram assimilados pela cultura de Weimar, assim como os banqueiros americanos circularam papéis de curto prazo pela indústria de Weimar. Stresemann e seus colegas liberais e os social-democratas achavam que a resposta com a América era no sentido de preservar a estrutura política e comercial internacional; talvez com a comunidade europeia no futuro distante.

A resposta nazista era abalar a estrutura até que ela desmoronasse; a história econômica dos anos 1930 na Alemanha é uma de crises de mudança estrangeira contínua, mitigadas por uma sucessão de expedientes gradativamente inconsistentes. Hjalmar Schacht, como presidente do Reichsbank, é a figura mais associada com isto – é interessante notar que ele próprio era meio americano, mas não usava seus outros dois sobrenomes (Horace Greeley) muito frequentemente. Um detalhe a ser contado é que, quando cada crise passava, o Banco e os ministros da área financeira e econômica se convenciam que desta vez, as coisas poderiam voltar ao normal. Memorandos para um retorno ao comércio multilateral, um relaxamento dos controles administrativos e uma redução dos gastos militares seriam esboçados e imediatamente ignorados por Hitler, e os vários grupos tanto trabalhando com o Führer quanto tentando levar vantagens em seus interesses, concluíram que sua sobrevivência à crise confirmava a exatidão de suas medidas.

De acordo com Tooze, que fornece uma considerável quantidade de evidência estatística para esta afirmação, o programa de criação de empregos criou pouco trabalho; acima de tudo, o gasto real em autobahns e projetos de obras públicas não era assim tão grande e a demanda total por operários de construção civil era limitada. Os novos métodos de construção por concreto reforçado de Fritz Todt exigiam muito capital e habilidades específicas, ao invés de multidões de trabalhadores. O que colocou a Alemanha de volta ao trabalho foi o rearmamento, e Tooze argumenta que muito do que é pensado como investimento civil era na verdade mais como investimento militar disfarçado, ou investimento na indústria de suprimentos de guerra. É bem importante salientar aqui que Tooze é muito bom no mundo corporativo da Alemanha Nazista, e especialmente na influência e poder crescentes de altos executivos técnicos da grande indústria (especialmente química e engenharia aeronáutica) os quais criaram algo como um lobby tecnocrático independente particular. A tecnoestrutura de J. K. Galbraith vem à cabeça; isto pode ter sido a manifestação mais malévola disso. Mesmo os grandes homens do carvão e aço, que geralmente concordavam, ficavam frequentemente horrorizados pela política nazista; não eram somente a Junkers, BASF, Bosch ou IG-Farben que lucravam com a venda de armas, mas se beneficiavam do investimento de capital estatal maciço nas últimas tecnologias em suas divisões de pesquisa.

Geralmente, aço e mercado de câmbio eram os fatores limitantes, e por este motivo balançavam de forma conservadora; química e engenharia eram convencidas de que tudo poderia ser conseguido com orçamento suficiente, desejo e aço. Mas não era seu trabalho encontrar aço ou a libra esterlina, de modo que suas ambições alcançaram proporções perigosas. Na época da crise de Munique em 1938, a Alemanha estava quase falida – após um verão de crise de moeda, o Reichsbank foi capaz de se livrar de uma sucessão de títulos que estavam para vencer, mas ficou na parede quando o mercado se recusou a fazer um quarto empréstimo. Somente pagando os fornecedores 40% de seus preços contratuais em créditos tributários pôde o Reich rolar suas dívidas de curto prazo; simultaneamente, o vasto consumo de aço pelas indústrias militares significou que as Ferrovias Estatais estavam lutando para se manter vivas. A questão do mercado de câmbio entrou na questão do anti-semitismo; até a guerra, o Reichsbank tinha que, até por seus próprios procedimentos, converter os marcos de qualquer um que emigrasse da Alemanha em moeda estrangeira. E mesmo que a riqueza total que podia ser tomada dos judeus fosse risivelmente pequena, mesmo assim ela excedeu o dinheiro disponível. Tooze argumenta que um dos motivos para a Kristallnacht era assustar os judeus para mandá-los embora, porém deixando suas economias; mesmo isso era um problema, já que muitas placas de vidro tinham que vir da Bélgica, significando que elas tinham que ser pagas em moeda forte e à vista.

Em 1939, o Reichsbank foi reduzido a realizar estudos secretos para estimar a taxa de câmbio do marco; os economistas que os conduziram concluíram que o conceito era agora inútil à luz das dezenas de acordos multilaterais incompatíveis com os parceiros comerciais da Alemanha. A Alemanha pagava 72% acima do preço mundial pelo algodão peruano, e 10% a mais pelo petróleo da mesma fonte; 63% a mais pela manteiga holandesa, mas a manteiga dinamarquesa era paga com o preço do mercado mundial (deveria haver muita manteiga se movendo da Dinamarca para a Holanda...).

O resultado foi que a decisão pela guerra, e então a decisão de realizar a ofensiva contra o Ocidente, e finalmente a decisão de atacar a Rússia foram feitas passo a passo segundo uma lógica de interesse econômico. A guerra, e a consequente perda do mercado mundial, teve um impacto sério inicial na economia alemã; a inflação ameaçava ficar fora de controle, havia uma constante luta entre os interesses sobre os ativos de fornecimento limitado, e uma característica fundamental da economia alemã causou profundo descontentamento. Isto era o subdesenvolvimento; Tooze argumenta fortemente que o aparente poder econômico da Alemanha ocultava uma longa cauda de pobreza, não apenas entre a classe trabalhadora urbana, mas também entre o campesinato.

Os camponeses eram um constituinte fundamental nazista, assim como ocupavam uma posição importante na ideologia; infelizmente, esta imagem de virtude não se traduzia na produção de grãos. A produtividade agrícola era baixa, com um coquetel tóxico formado por propriedades de latifundiários ausentes e baixa renda que mal sustentava seus inquilinos. A maioria das soluções nazistas para isto partia da ideia de uma classe de fazendeiros com posse de terras grandes o suficiente para ter uma vida decente, mas queria que o excesso de camponeses permanecesse na terra por questões de mitologia. Assim, a resposta era colocá-los na terra dos outros. Aqui, a figura terrível de Herbert Backe, Secretário de Estado e mais tarde Ministro da Agricultura, aparece; Backe escreveu uma tese de doutorado anos antes de entrar no negócio dos grãos russos, na qual ele explicava que um povo superior sem espaço deve se livrar dos russos no sentido de garantir a colheita da Ucrânia e assentar o suficiente de sua classe trabalhadora para superar as tendências apátridas e degeneradas criadas pelos nômades modernos, ou seja, os judeus.

Ironicamente, a banca examinadora rejeitou este manifesto pelo genocídio; tragicamente, ele a reimprimiu e a editou como parte da formação dos comandantes da Wehrmacht para a invasão da Rússia. Tooze argumenta que a elevação de Backe ao ministério no início de 1942 foi um catalisador importante na decisão de lançar a Operação Reinhard, o extermínio da judiaria europeia; é bem conhecido que uma força encorajadora da guettotização no ano anterior tinha sido a tendência dos governadores nazistas de arrebanhar os inimigos de sua raça no Governo Geral da Polônia, a qual havia sido programada para ter sua população reduzida. Entretanto, um fato até agora subestimado é que as alocações revisadas de grão de Backe ao mesmo tempo previam uma mudança dramática; ao invés de se tornar um importador de alimentos, o feudo de Hans Frank deveria tornar-se um grande exportador.

A razão disto ser tão importante é simples; apesar da conquista da Europa Ocidental tornar uma posição econômica muito ruim em uma tolerável com potencial considerável, a Europa estava mais globalizada do que os economistas nazistas supunham. O petróleo é o exemplo canônico, mas a Europa também importava muita ração animal, e também carvão britânico. Problemas com transporte e a inabilidade dos planejadores de chegar a um acordo sobre o fornecimento de carvão entre os grupos poderosos de interesse preocupados, exacerbou o problema dos alimentos. À medida que a produtividade agrícola caía, também caía a produtividade das minas; provavelmente, teria acontecido de qualquer maneira, os comunistas franceses não parecendo suscetíveis a virar as costas aos fascistas alemães, mas a fome é suficiente para explicar a queda na produção de carvão por hora. O Ministério do Exterior colocou em práticas esquemas para uma comunidade europeia, mas no clima existente de radicalismo isto jamais teria alguma chance; o governo de longe preferia uma opção mais exploradora, o sistema de acerto de contas centralizado (N. do T.: processo que serve de mecanismo para o estabelecimento de obrigações entre os membros de um grupo, tal como os bancos)sob o qual os exportadores da Alemanha eram pagos por seus próprios bancos centrais, os quais então cobravam do Reichsbank. As exportações alemãs na outra direção deveriam ser imputadas a este; entretanto, os alemães simplesmente recorreram permanentemente ao limite do cheque especial.

Isto permitiu um roubo substancial de bens, serviços e ativos; isso também criou um incentivo poderoso para não se produzir. O resultado foi uma economia europeia operando maciçamente abaixo da capacidade e uma economia alemã rodando no vermelho, com uma grande escassez de elementos essenciais. O comércio soviético, sob o pacto Molotov-Ribbentrop, compensou parte da diferença, mas o governo soviético determinou o preço, especialmente em termos de transferência de tecnologia. O comércio com aliados e neutros, enquanto isso, tinha a séria desvantagem de um ponto de vista nazista pelo fato de ser justamente um comércio; isto exigia exportações correspondentes, o que, por razões políticas, era uma reivindicação prioritária em relação aos recursos.

Então, a crise; com os territórios ocupados sendo somente um benefício marginal, e muito capital de investimento ainda não produzindo, a Alemanha enfrentou o rápido crescimento da produção americana. Aonde ir para a próxima etapa de crescimento antes que o poder americano tivesse efeito? A Rússia, decerto. O livro de Tooze pode ser uma demonstração final para a visão “funcionalista” do nazismo, dominante desde os anos 1980, que afirma que a política interna do regime, suposições compartilhadas e a radicalização gradativa causada por uma sucessão de crises conduziram a Alemanha à guerra e ao genocídio, ao invés de um projeto racional claro. As decisões independentes, tomadas por causa de razões diferentes, reforçaram-se mutuamente.

Isto não é mais controverso, mas há muito no livro que é. Por exemplo, Tooze critica vigorosamente a ideia comum de que a Alemanha jamais atingiu o mesmo nível de mobilização civil que a Grã-Bretanha, que o governo nazista “protegeu” os padrões de vida civil às custas do esforço de guerra e ocupou-se com a declaração de “Guerra Total” em 1943. De fato, ele argumenta, havia pouca negligência na economia; se qualquer coisa estava sendo atrasada para a produção de guerra, era porque os anos iniciais de guerra foram anos de maciço investimento de capital. Este investimento, ele afirma, explica a explosão na produção de armamentos a partir de 1942, que geralmente é creditada a Albert Speer. Foi a dinâmica pré-guerra espantosamente grande entre a Luftwaffe, o Führer e os tecnocratas industriais, combinada com uma nova postura do empreendedor como líder.

Parte disto foi desperdiçada, é claro. Havia a fabulosa Flugmotorenwerke Ostmark, um esquema para construir uma planta aeronáutica gigantesca na Áustria para igualar a produção da nova planta da Ford próxima a River Rouge (ela poderia também ter rivalizado com a planta da Rolls-Royce em Barnoldswick, mas tinha que ser americana); ela nunca produziu mais do que 198 motores por mês, comparado aos 1.000 projetados. Mas no mesmo ramo, a Daimler-Benz foi capaz de atualizar uma de suas fábricas de 300 motores DB605 por mês para 1.200, a uma fração do custo. (A economia de guerra da Grã-Bretanha teve uma experiência semelhante com fábricas financiadas pelo governo; a Rover and Vauxhall nunca realmente conseguiu o domínio dos motores aeronáuticos, especialmente para o programa de aviões a jato, mas as coisas melhoraram imensamente quando a coisa toda foi deixada para os especialistas verdadeiros da Rolls-Royce.) E quem sabe que a planta de borracha sintética Buna próximo de Auschwitz ainda produz cerca de 5% da borracha sintética do mundo? A fábrica, nunca concluída durante a guerra, foi primeiramente desmontada pelos russos e depois reabilitada pelos poloneses; mesmo que não tenhamos um Hitler in uns selbst, pode haver algum Hitler em seus pneus.

De modo que não deveria haver surpresa quando a economia de guerra alemã engrenou após a crise de Moscou no inverno de 1941; foi a formação de capital que conseguiu isso. Tooze possui amplos dados estatísticos para sustentar esta tese, mas estou menos convicto de suas conclusões a respeito de outra controvérsia clássica. Em quase todos os relatos britânicos da Segunda Guerra Mundial, os autores tomam partido de uma ou mais reflexões sobre a moralidade, eficiência e inteligência da ofensiva de bombardeio estratégico da RAF (Força Aérea Real) contra a Alemanha; é uma decisão particular de qualquer historiador britânico. AJP Taylor é o líder da oposição; ele argumentava, com base nos resultados da pesquisa do bombardeio estratégico americano feito por J. K. Galbraith e George Ball, que não somente era errado, mas também incrivelmente dispendioso, sugando quase um quarto da produção industrial da Grã-Bretanha e falhando seriamente em interromper o esforço de guerra alemão.  Ainda menos por ter esmagado o moral como os teóricos do poder aéreo prometiam. E nenhum outro departamento do serviço militar oferecia a seus membros um prazo de vida tão curto.

Tooze argumenta, contra Galbraith, que o bombardeio era de fato eficiente. Especificamente, ele cita a "Batalha do Ruhr” na primavera de 1943 como sendo essencialmente suficiente para interromper o crescimento da produção de armamentos alemã; e ele tem um gráfico que apoia isto, com uma pequena explosão no ponto de inflexão (presumivelmente não há um corpo carbonizado de um operário no arquivo de clipart do MS Excel). Ele também cita várias reações de pessoas à destruição de Hamburgo com um regozijo levemente detestável, portanto explicando o sarcasmo da minha última sentença. De fato, ele vai tão longe a ponto de confundir o Ruhr com Hamburgo, apesar de Hamburgo não ser o ponto-chave pois não é uma cidade siderúrgica e nunca foi. E, de qualquer modo, os bombardeiros não ganharam a guerra em 1943, nem em 1944 ou 1945. O que aconteceu de errado? Tooze argumenta que o erro foi o Comando dos Bombardeiros – apesar de não falar isso diretamente. Mas foi o Comando, e particularmente o “Bombardeiro” Harris que desviou o alvo do Ruhr para Hamburgo e então para Berlim. Harris e sua equipe não queriam interromper a indústria; eles queriam “desalojar a classe trabalhadora alemã”, a qual eles acreditavam conduziriam uma revolução ou pelo menos o caos. Logo, esta situação contrafactual teria exigido um Comando de Bombardeiro diferente; um que não acreditasse na teoria do poder aéreo e, portanto, provavelmente não teria existido. Isto não é mencionado, apesar de Tooze repetidamente aprovar o termo “desalojar”.

Mais importante, ele argumenta que o Comando de Bombardeiro da RAF poderia simplesmente ter continuado o bombardeio do Ruhr à mesma taxa de 1943 indefinidamente; mas há uma razão por que a Batalha de Berlim foi interrompida em fevereiro de 1944. Muito simples, os Nachtjäger haviam vencido e a taxa de perda da RAF estava subindo permanentemente bem acima da infraestrutura projetada para suportar. Mesmo a batalha do Ruhr teve uma taxa de perda agregada de 4,71%; a missão em Oberhausen (N. do T.: cidade alemã localizada na região da Renânia) em 14 de junho atingiu 8,37% e nada poderia ser mais um alvo do tipo Ruhr do que Oberhausen. O Departamento de História Aérea da RAF achava que “o Comando de Bombardeiro estava aproximando-se perigosamente do número insustentável de baixas sofrido, ou perto da uma taxa do insuportável durante a Batalha do Ruhr”; é bom lembrar que cada tripulação enfrentava aquela taxa média toda vez que ele saía para combate, para um grupo de trinta missões. Não era uma questão de encontrar aeronaves em número suficiente, e sim pessoas. O número de 30 representava o ponto em que o risco de morte individual atingia 50%, e uma vez que a taxa de perda ultrapassava o número crítico, esta linha demarcatória, como era sabido, aproximava-se cada vez mais perto. E a taxa começou a subir progressivamente com o tempo; a batalha de Berlim teve uma média de 6,44%, e a última missão sobre a cidade alcançou 8,88%, a missão sobre Nüremberg seis dias depois causou um impacto de 11,94%.

Algo mudou, e não foi a pontaria; a Luftwaffe redesenhou completamente sua tática, comando e controle e equipamento entre a primavera de 1943 e o outono. O sistema altamente centralizado “Zahme Sau” (Porco Domado)[1] foi substituído pelo sistema “livre de rédeas” “Wilde Sau” (Porco Selvagem) [2]; novas estações de radar significavam que os caças noturnos começaram a surgir na metade do caminho do Mar do Norte para interceptar a frota de bombardeiros. É claro, este é o tipo de assunto com o qual os historiadores econômicos não se interessariam; mas temos que pensar que os custos são um conceito muito importante na economia. Além disso, o Comando de Bombardeiro competia por recursos com o Comando Costeiro da RAF, em sua luta contra os submarinos alemães; mas não temos nada disso aqui.

Tooze retorna aos bombardeiros mais tarde, quando estes voltam a ser utilizados; aparentemente, no outono de 1944, “a frota aérea da vitória estava agora pronta”. Parece ter sido muito tarde; e lemos “a correlação entre a área bombardeada das cidades da Alemanha e o colapso de sua produção industrial militar estava indefinida na melhor das hipóteses... a destruição maciça das cidades alemãs poderia interromper a produção, mas não levá-la ao colapso completo.” Entre estas sentenças, tomamos conhecimento que longe de se submeter ao “estrangulamento operacional” estabelecido para o Ruhr em 1943, a fábrica da Krupp em Essen continuou trabalhando até que seu fornecimento de energia elétrica foi cortado em outubro de 1944; de fato, uma vitória. Além disso, ele argumenta que foi na verdade os ataques maciços sobre a rede ferroviária neste período que tiveram importância; o que não é a mesma coisa que bombardear siderúrgicas dois anos atrás.

Concluindo, o que realmente importa é que o Terceiro Reich era fascinado pelos Estados Unidos, talvez muito mais do que pela União Soviética. Hitler falava do Volga como sendo o Mississipi da Alemanha e a SS tratando os habitantes locais como “índios peles-vermelhas”. O tamanho do império concebido era frequentemente comparado ao Canadá ou Austrália. É claro que um fator principal motivador para muitos líderes nazistas era um desejo de fugir de uma economia mundial cada vez mais integrada, e um desejo paralelo de ter uma comunidade (Grossraumwirtschaft) que controlasse a economia mundial. O livro de Tooze deixa a sensação perturbadora de que isto nos representa hoje.                                             


Texto adicional


Notas:

[1] Esse sistema era uma tática de interceptação introduzida em 1943. Quando da indicação da presença de uma frota de bombardeiros, os caças eram colocados em voo e reunidos em torno de um dos vários sistemas de rádio espalhados pela Alemanha, prontos para serem direcionados em massa para a frota e quando a alcançavam, os caças localizavam bombardeiros individuais por radar, permanecendo em combate enquanto tivessem munição e combustível.

[2] Neste sistema, os caças não eram direcionados usando o guiamento tático por estações de rádio em solo; ao invés disso, a interceptação era baseada simplesmente (após guiamento por rádio em direção da área geral da frota de bombardeiros) na visão do piloto e no seu próprio julgamento.

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terça-feira, 16 de abril de 2013

[SGM] A Conspiração do Império

Arthur S. Trask

“Finalmente eu digo, deixem os demagogos e salvadores da pátria arrotar seu discurso vazio a ouvidos vazios; ser enganado duas vezes é demais.”

Robinson Jeffers

 
Resenha do livro Day of Deceit: The Truth About FDR and Pearl Harbor, Robert B. Stinnett

 
O falecido Murray Rothbard frequentemente argumentava que longe de ser evidência de um estilo “paranoico” na mente americana, a crença em conspirações como um elemento na história americana nunca foi geralmente levado a sério. A verdade por trás da maioria das teorias de conspiração, ele alegava, era muito mais hedionda e diabólica do que mesmo o mais obstinado teórico conspiracionista suspeitaria. Enquanto muitos achavam que Rothbard estava sendo apenas meio sério, um novo livro sobre o ataque japonês contra Pearl Harbor, de Robert Stinnett, oferece evidência constrangedora de que Murray estava certo. A verdade que emerge enquanto analisamos este volume exaustivamente pesquisado é de uma rede política e militar americana cujo brilhantismo somente é excedido por sua total falta de escrúpulo moral ou patriotismo genuíno. Sessenta anos depois do ataque fatídico, Stinnett descobriu, apresentou e provou a verdade por trás de Pearl Harbor. É claro agora que FDR sabia que o ataque japonês aconteceria. Ele sabia com mais de um ano de antecedência dos planos japoneses de bombardear a frota americana do Pacífico em Pearl, e ele sabia com uma semana de antecedência que o ataque aconteceria no domingo de manhã. Ele sabia porque a inteligência naval americana havia decifrado o código naval japonês no início do outono de 1940, ou seja 15 meses antes do ataque fatídico.

A fumaça mal havia desaparecido de Pearl Harbor quando jornalistas conservadores, poetas mal-humorados e alguns políticos republicanos começaram a suspeitar de que Pearl Harbor foi uma armação. Desde então, historiadores revisionistas têm afirmado que FDR tanto provocou quanto saudou a guerra; e alguns chegaram mesmo a dizer que ele sabia do ataque com antecedência. Historiadores do relato oficial e funcionários do governo rebateram estas críticas insistindo que o ataque foi de fato uma surpresa devido a uma falha da inteligência americana e incompetência no alto comando naval. Stinnett cita o historiador Stephen E. Ambrose que afirmou, tão recentemente quanto um editorial do Wall Street Journal de 1999, que “o problema real era que a inteligência americana era terrível.” De acordo com Ambrose (que repete a história oficial), a Marinha não tinha decifrado os códigos navais japoneses e que a força-tarefa japonesa manteve silêncio radiofônico total em seu caminho para o Havaí. Consequentemente, “no final de novembro, a inteligência ‘perdeu’ a frota de porta-aviões japonesa.” [1] Outros historiadores têm afirmado que os japoneses nos pegaram de surpresa devido a falhas na análise de boa inteligência, excesso de burocracia entre os oficiais de alta patente em Washington, subestimação da ameaça e capacidade japonesas e expectativa de que o ataque aconteceria contra possessões holandesas ou britânicas na Ásia Oriental, não contra o Havaí. Stinnett expõe cada uma dessas teorias como sendo falsas. Por exemplo, ele demonstra exaustivamente que a frota de porta-aviões japonesa realizava transmissões diárias de comunicação via rádio com o alto comando no Japão, comandos militares no Pacífico Central e entre si. Stinnett descobriu a verdade ao ler as interceptações de rádio das transmissões japonesas pela inteligência naval americana. A inteligência americana NÃO perdeu os porta-aviões.

Como Stinnett conseguiu descobrir a verdade quando investigações congressionais (tanto em 1945-46 quanto em 1995) falharam em fazer isso? A resposta está na inteligência, integridade e esforço incansável de Stinnett (algo que consumiu 17 anos), qualidades que sabemos da experiência faltaram nas investigações congressionais. Mas também está em um pedido feito pelo autor em 1983 aproveitando o Ato para a Liberdade de Informação (FOIA, em inglês). Naquele ano, Stinnett soube da existência dos arquivos de inteligência de comunicação da Guerra do Pacífico da Marinha dos Estados Unidos (um arquivo ultra-secreto contendo mais de um milhão de documentos relacionados com a inteligência de comunicação antes e durante a guerra). O pedido do autor foi inicialmente negado, mas em 1994, a Marinha decidiu desclassificar os registros, ou pelo menos uma parte deles. Como Stinnett logo descobriu, interceptações-chaves e documentos permaneceram secretos, alguns estavam faltando dos registros e outros foram adulterados para esconder informação vital. Entretanto, informação suficiente foi liberada, talvez inadvertidamente, de modo a permitir a Stinnett juntar as peças do quebra-cabeças da verdade.

As operações de comunicação de inteligência americana no teatro do Pacífico foi basicamente uma operação naval. A rede de inteligência era composta de 21 estações de interceptação de rádio localizadas ao longo da costa norte-americana do Panamá até o Alasca e nas ilhas do Pacífico do Havaí até as Filipinas. Como Stinnett demonstra, mais de 90% de todas as transmissões de rádio japonesas foram interceptadas por uma ou mais dessas estações. Uma vez interceptadas, estas mensagens eram enviadas para um dos três centros de controle regionais, dois dos quais eram também centros de criptografia, e a partir daí elas eram enviadas para a Estação EUA em Washington, o quartel-general da comunicação de inteligência naval. É claro, todas as comunicações japonesas estavam em código. As mensagens diplomáticas eram enviadas nos códigos Púrpura, Tsu ou Oite; as comunicações navais em um dos 29 códigos chamados Kaigun Ango, o mais importante dos quais eram o 5-Num (operações navais), SM (movimento naval), S (marinha mercante) e o Yobidashi Fugo (sinal de chamada de rádio). Stinnett conclusivamente demonstra que os criptologistas americanos (violadores de código) haviam decifrado todos os quatro códigos navais em outubro de 1940. A inteligência americana decifrou os códigos diplomáticos japoneses mesmo antes: o Tsu nos anos 1920, o Oite em 1939 e o Púrpura em setembro de 1940. Consequentemente, os criptologistas puderam interceptar, decifrar e traduzir quase todo o tráfego de rádio diplomático e japonês em questão de horas após recebê-los. A decodificação e tradução era feita em três centros criptográficos: a Estação CAST em Corregidor nas Filipinas; a Estação HYPO em Oahu; e a Estação EUA em Washington.

A informação de inteligência resultante era então enviada para funcionários de alto escalão das forças armadas e do gabinete, incluindo o presidente (cerca de 36 indivíduos ao todo). Entretanto, como Stinnett meticulosa e amplamente demonstra, a informação crucial que indicava um ataque japonês em Pearl foi deliberadamente retida pelo General Walter Short, comandante do Exército no Havaí, e pelo Almirante Husband E. Kimmell, comandante da frota do Pacífico. Roosevelt e seus conselheiros haviam escolhido estes dois oficiais distintos para serem os bodes expiatórios pela catástrofe em Pearl. A estória de sua traição pelos amigos e colegas no alto comando naval, todos sabendo do ataque iminente e da estratégia de provocação de Roosevelt, é comovente.

Além da interceptação e decodificação das transmissões de radio, a maioria das estações de interceptação de rádio eram equipadas com localizadores de direção via rádio (RDF, sigla em inglês), que permitia a operadores experientes estabelecer o local exato de navios de guerra japoneses uma vez seu sinal de chamada de rádio individual ser identificado. Através do RDF, especialistas de inteligência naval eram capazes de rastrear o movimento da força de porta-aviões japonesa enquanto ela se aproximava de Pearl Harbor. As descobertas de Stinnett confirmam a veracidade da afirmação feita pelo adido naval holandês nos Estados Unidos, o capitão Johan Ranneft, que enquanto visitava o Departamento de Inteligência Naval em Washington em 2 e 6 de dezembro, ele viu mapas de inteligência rastreando o movimento dos porta-aviões japoneses a leste em direção do Havaí. Analogamente, suas descobertas dão apoio ao testemunho de Robert Ogg, que afirma que enquanto em serviço no 12º. Distrito Naval em São Francisco, ele localizou (por meio da inteligência RDF) a frota japonesa ao norte do Havaí três dias antes do ataque.

Talvez o único e mais importante documento descoberto por Stinnett é um memorando de 7 de outubro de 1940 escrito pelo Tenente-Comandante Arthur H. McCollum, chefe da secretaria do Oriente Distante do Departamento de Inteligência Naval. O memorando de McCollum estabelece uma política estratégica criada para induzir os japoneses a cometer “um ato público de guerra” contra os Estados Unidos. McCollum escreve que tal estratégia era necessária porque “não é possível pelo estado atual da opinião política que os Estados Unidos sejam capazes de declarar guerra contra o Japão sem mais barulho.” McCollum sugere oito “ações” específicas que os Estados Unidos deveriam tomar para conseguir este resultado. A principal é a “Ação F” que diz para manter “a força principal” da Frota do Pacífico “nas vizinhanças das Ilhas do Havaí.”  McCollum conclui seu memorando dizendo que “se por estes meios o Japão puder ser levado a cometer um ato público de guerra, melhor ainda.” Stinnett tem pouco trabalho em demonstrar que a estratégia definida neste memorando tornou-se a política oficial da administração Roosevelt. Não somente foi o memorando endossado pelo Capitão Dudley Knox, um dos conselheiros militares mais confiáveis de Roosevelt, mas os registros da Casa Branca mostram que Roosevelt recebeu o memorando; e ao longo do ano seguinte, Roosevelt colocou cada uma das oito ações sugeridas em prática. Ele implementou a última (Ação H) em 26 de julho de 1941, quando ordenou um embargo completo de todos os negócios com o Japão.

O embargo de verão de Roosevelt foi o auge de outra política muito esperta da administração, qual seja ajudar os japoneses a armazenar petróleo para suas reservas militares apenas para encorajá-los a atacar os Estados Unidos, mas não o suficiente para mantê-los em guerra por muito tempo. No verão de 1940, Roosevelt realizou duas ações criadas para implementar seu verdadeiro plano maquiavélico. Primeiro, ele assinou um decreto autorizando a construção de uma grande marinha de dois oceanos. Segunda, ele exigiu das companhias americanas a obter licenciamento governamental antes de vender derivados de petróleo ou metal bruto para o Japão. Pelos próximos 12 meses, a administração prontamente garantiu a exportação de matérias primas de companhias americanas para o Japão, e os navios-tanques e de transporte puderam ser vistos carregando minério de ferro e petróleo nos portos da costa oeste americana. Enquanto isso, a inteligência naval americana, usando o RDF rastreava os navios-tanques para o depósito de petróleo naval japonês em Tokuyama. Os estrategistas de Roosevelt calcularam que ajudar os japoneses a estabelecer uma reserva de dois anos seria o correto. Neste caso, se a guerra estourasse na segunda metade de 1941, os japoneses ficariam sem petróleo em meados ou final de 1943, na época em que a produção industrial de guerra estaria atingindo o seu pico e sua grande frota de porta-aviões (100 unidades planejadas) estaria pronta para ir ao contra-ataque. Em julho de 1941, Roosevelt deu o passo final e, junto com os britânicos e holandeses, impôs um embargo à venda de petróleo, ferro e aço ao Japão (Ação H de McCollum). A armadilha estava então montada, e os japoneses não demoraram para cair nela.

Stinnett não ignora as dimensões morais da estratégia de Roosevelt. Como aqueles que sabiam que o ataque estava para acontecer justificariam o sacrifício de três mil vidas americanas? Um comentário de arrepiar os cabelos feito pelo Tenente-Comandante Joseph J. Rochefort, comandante da Estação HYPO em Pearl Harbor, dá a resposta. Em uma avaliação no pós-guerra do ataque realizado a um historiador naval, ele lembrou que Pearl Harbor “foi um preço muito baixo a pagar pela unificação do país.” Então é isso. Fraude maciça, mentiras, o sacrifício de carreiras militares, a traição de amigos e colegas oficiais, e a morte de milhares de soldados americanos – tudo justificado para incitar um povo pacífico à guerra. O próprio Stinnett está longe de ser contra à estratégia de Roosevelt. Ele concorda com os intervencionistas do pré-guerra que a América precisava ir à guerra contra as potências do Eixo. De acordo com Stinnett, Roosevelt e seus conselheiros “enfrentaram um dilema terrível”. O público em sua maioria se opunha à entrada na guerra e em uma democracia o povo supostamente manda. Mesmo assim, Roosevelt acreditava que esta guerra era necessária e justa. O que fazer? No final, eles decidiram que “algo tinha que ser feito para parar um mal maior.”

Aqui temos outro exemplo de americanos fazendo uso da doutrina que os fins justificam os meios. Os americanos são rápidos em negar a legitimidade ética desta doutrina quando ela é apresentada a eles como uma proposta nua, ainda que não exista nenhuma doutrina que eles se voltam mais rapidamente para justificar práticas moralmente questionáveis. Aqueles que defendem o holocausto nuclear de Hiroshima e Nagasaki argumentam como sua primeira linha de defesa que ele foi moralmente justificado porque salvou vidas americanas? E não podemos esperar para ouvir no futuro próximo daqueles que não podem mais negar a verdade, “A duplicidade de Roosevelt foi justificada porque era necessário parar Hitler.” A resposta cristã a esta questão foi feita por paulo dois mil anos atrás: “E por que não dizer ‘Façamos o mal que o bem virá’? - como somos blasfemados e como alguns dizem que dizemos. Sua condenação é justa.” (Romanos 3:8 Novo Testamento)


Nota:

[1] Ambrose (1936 – 2002) era historiador na Universidade de Nova Orleans e é conhecido por seus relatos patrióticos em Band of Brothers, Soldados Cidadãos, O Dia-D e outros trabalhos. Como biógrafo do ex-presidente Dwight Eisenhower, se opôs veementemente ao envolvimento deste com o extermínio de prisioneiros alemães após a guerra em campos sem quaisquer condições sanitárias. Ambrose, no entanto, “não é flor que se cheire” e esteve envolvido em casos de plágio, falsificação e erros históricos grosseiros.

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quinta-feira, 11 de abril de 2013

[HOL] Franklin Roosevelt e os Judeus


 
 
Franklin Roosevelt obteve o apoio majoritário dos judeus americanos durante sua presidência, e os motivos são claros. Em seus quase quatro mandatos, de 1933 a 1945, ele liderou a guerra contra Hitler, apoiou um lar judeu na Palestina, indicou um judeu para a Suprema Corte, escolheu outro para ser seu Secretário do Tesouro e cercou-se de conselheiros judeus que ajudaram a moldar as leis que revolucionaram o papel do governo na vida americana – o que alguns críticos zombeteiramente chamaram de “Jew Deal”. Então, é claro, havia Eleanor Roosevelt cuja preocupação com as minorias reforçou ainda mais a ligação. Quando Roosevelt morreu em 1945, a Assembleia Rabínica da América o descreveu sobrenaturalmente, como “um líder imortal da humanidade e um servidor inigualável de Deus.”

Nascidos em famílias protestantes ricas e influentes, os Roosevelt não estavam imunes aos preconceitos de sua época. Antes de entrar na Casa Branca, Eleanor descreveu o futuro juiz da Suprema Corte, Felix Frankfurter, como “um homenzinho interessante, apesar de judeu” e, após trabalhar para o financista de Wall Street Bernard Baruch, reclamou: “O pessoal judeu é terrível. Nunca mais quero ouvir sobre dinheiro, joias e vestes de luto.” Franklin foi mesmo mais longe, fazendo piadas anti-semitas para encantar líderes mundiais, como Josef Stalin, que era conhecido por temer e odiar judeus. De fato, foi a habilidade dos Roosevelts em colocar de lado estes preconceitos que pareceu distingui-los de muitos outros de sua classe. Quando foi importante, seus instintos mais nobres assumiram o controle.

Em 1938, por exemplo, Roosevelt pediu ao seu embaixador na Alemanha que protestasse contra a Kristallnacht, o pogrom nazista. Foi um pouco mais do que um gesto simbólico, mas ele foi o único chefe de estado a fazer isso. Além disso, mesmo sob os protestos de seu Departamento de Estado notoriamente anti-semita, Roosevelt encorajou esforços para assentar os judeus europeus na América Latina – cerca de 40.000 deles o fizeram entre 1938 e 1941 – e pressionou os britânicos para manter a Palestina aberta aos refugiados judeus. Mais importante, talvez, foi a sua aprovação do Conselho de Refugiados de Guerra em 1943, que, apesar de frequentemente ignorado e sempre subfinanciado, trabalhou com heróis como Raoul Wallenberg através da Europa ocupada pelos nazistas para salvar incontáveis milhares de judeus.

Em relação à afirmação revisionista mais controversa, de que Roosevelt poderia ter emperrado a máquina de matança de Hitler ao ordenar a destruição das linhas ferroviárias de Auschwitz, resta pouca dúvida de que os aviões aliados fossem capazes de alcançar este destino em meados de 1944.[1] Os complexos industriais na área já haviam sido bombardeados. O problema era que o Departamento de Guerra via o projeto como um desvio de alvos militares mais importantes. A oposição era tanta que o assunto aparentemente nunca chegou à mesa do presidente. O quão bem sucedido o bombardeamento de Auschwitz teria sido, dado os resultados em outros lugares, é questão de debate. O que é inegável, contudo, é que cerca de 250.000 judeus foram mortos nos meses entre a captura deste campo de extermínio e a rendição alemã em maio de 1945.[2]    

Iniciando nos anos 1960, uma série de livros foram lançados com títulos auto-evidentes como “Nenhum Paraíso para os Oprimidos” e “Enquanto Seis Milhões morriam”. Mas o relato mais influente de longe foi “O Abandono dos Judeus”, de David S. Wyman, publicado em 1984. Wyman, o neto de dois pastores protestantes, considerou vários culpados pela tépida resposta da América ao Holocausto, inclusive uma comunidade judaica pessimamente dividida, um ninho de anti-semitas virulentos no Departamento de Estado e um presidente distraído e profundamente indiferente a questões humanitárias que ele sentia estarem fora de seu controle, não importando sua extensão.

O vice-presidente Henry Wallace, que anotou a conversa em seu diário, disse que Roosevelt falou positivamente de um plano (recomendado pelo geógrafo e presidente da Universidade John Hopkins Isaiah Bowman) “para espalhar os judeus em pequenos grupos ao redor do mundo.” A anotação do diário acrescenta: “O presidente disse que ele tentou isto no Condado (Meriwether), Georgia (onde Roosevelt viveu nos anos 1920) e em Hyde Park segundo um esquema de acrescentar quatro ou cinco famílias judias em cada lugar. Ele afirmou que a população local não teria nenhuma objeção se não houvesse mais do que isto.”

A ideia de Roosevelt é condescendente e detestável, e vindo de outra pessoa, provavelmente seria classificada como anti-semitismo. Porém, mais do que isso, o apoio de FDR “para espalhar os judeus em pequenos grupos” pode conter a chave para o entendimento de um assunto que tem estado no centro da controvérsia por décadas: a tépida resposta do governo americano ao Holocausto.

Eis o paradoxo. O sistema de imigração americano limitava severamente o número de judeus alemães aceitos durante os anos nazistas a cerca de 26.000 anualmente – mas mesmo esta cota não foi preenchida por nem mesmo 25% durante a maior parte da era Hitler, pois a administração Roosevelt acrescentou muitas exigências extras para os candidatos à imigração. Por exemplo, iniciando em 1941, o simples fato de deixar um parente próximo na Europa seria o suficiente para desqualificar o candidato – sob o argumento absurdo de que os nazistas poderiam ameaçar o parente e, portanto, forçar o imigrante a espionar para Hitler.

Por que a administração procurou ativamente desencorajar e desqualificar os refugiados judeus de vir para os Estados Unidos? Por que o presidente não disse discretamente ao seu Departamento de Estado (que administrava o sistema de imigração) para preencher as cotas da Alemanha e dos países ocupados pelo Eixo até o limite legal? Somente esta ação teria salvado 190.000 vidas. Não teria exigido uma luta contra o Congresso ou forças anti-imigração; teria envolvido mínimo risco político ao presidente.

Todas as decisões de política presidencial são moldadas por uma variedade de fatores, alguns políticos, alguns pessoais. No caso de Roosevelt, um padrão de ideias sobre os judeus, alguns dos quais foram descobertos nos Arquivos Centrais Sionistas em Jerusalém e de outras fontes, podem ser significativos.

Em 1923, como membro do Conselho de Diretores de Harvard, Roosevelt decidiu que havia muitos estudantes judeus na universidade e ajudou a instituir uma cota para limitar o número de admitidos. Em 1938, ele privadamente sugeriu que os judeus na Polônia dominavam a economia e eram, portanto, os responsáveis pelo anti-semitismo lá. Em 1941, ele lembrou num encontro do Gabinete que havia muitos judeus entre os servidores públicos federais no Oregon. Em 1943, ele disse a funcionários do governo no norte da África recém-libertada pelos Aliados que o número de judeus locais em várias profissões “deveria ser definitivamente limitado” de modo “a eliminar as reclamações específicas e compreensíveis que os alemães faziam em relação aos judeus na Alemanha.”

Existe também evidência de outras declarações privadas controvertidas de FDR, incluindo recusa de apelo pelos refugiados judeus como “choro judeu” e “coitadismo” (N. do T.: original em inglês sob stuff); expressando (para um senador) seu orgulho de “não ter sangue judeu em nossas veias”; e caracterizando uma manobra fiscal de um dono judeu de jornal como “trapaça suja judaica.” Mas o tema comum nas declarações privadas de Roosevelt sobre os judeus tem a ver com sua percepção que eles estavam “tomando conta” de muitas profissões e exercendo influência desproporcional.

Esta atitude se encaixa com o que é conhecido das visões de FDR sobre os imigrantes em geral e os imigrantes asiáticos em particular. Em uma entrevista de 1920, ele reclamou dos imigrantes estarem “apinhando-se” nas cidades e disse “o remédio para isto deveria ser a distribuição de estrangeiros em várias partes do país.” Em uma série de artigos para o Daily Telegraph e para a revista Asia nos anos 1920, ele alertou contra a concessão de cidadania para “imigrantes não-assimiláveis” e se opôs à imigração japonesa afirmando que “misturar sangue asiático com sangue europeu ou americano produz, em nove casos entre dez, os resultados mais infelizes.” Ele recomendou que a imigração no futuro fosse limitada àqueles que tivessem “sangue do tipo certo.”

A decisão de FDR de aprisionar milhares de americanos japoneses em campos de internamento durante a Segunda Guerra Mundial era consistente com esta percepção dos asiáticos como tendo características raciais inadequadas tornando-os não confiáveis. Analogamente, ele aparentemente via com desprezo o que ele parecia entender como características inadequadas dos judeus. Aceitar um número significativo de imigrantes judeus ou asiáticos não combinava confortavelmente na visão de FDR da América.

Outros presidentes americanos também compartilharam de visões não muito amigáveis sobre os judeus. Um diário mantido por Harry Truman incluía declarações do tipo “Os judeus, eu acho, são muito, muito egoístas.” As denúncias de Richard Nixon dos judeus como “muito agressivos e detestáveis” foram mais tarde reveladas em gravações de conversas no Salão Oval da Casa Branca.

No início de 1945, após a conferência de Yalta com Churchill e Stalin, o presidente viajou até o Oriente Médio, dizendo que “nunca mais virei aqui.” Roosevelt considerava-se um mestre da persuasão, mas seu encontro principal com o rei saudita Ibn Saud não foi bem. Notando que os judeus sobreviventes da Europa haviam sofrido “horrores indescritíveis”, ele garantiu ao rei que permitindo a entrada deles na Palestina melhoraria a terra tanto para árabes quanto para judeus. Ibn Saud não se comoveu. A cooperação com os sionistas era impossível, ele afirmou; a porta estava fechada. Retornando para a América, o presidente exausto desculpou-se ao rabino Stephen Wise, um proeminente líder judeu, por falhar “em sua causa.” Roosevelt morreu um mês depois na Pequena Casa Branca (N. do T.: construída por ele em 1932) em Warm Springs, na Georgia – tristemente consciente, suspeitamos, do banho de sangue interminável entre judeus e árabes que se seguiria.

Fontes:



Notas:

[1] O termo “revisionista” aqui mencionado se refere às duas correntes biográficas principais de Roosevelt, uma, a “oficial”, que trata o presidente como um grande humanitário, liberal, defensor dos direitos humanos e da democracia; a outra corrente, a “revisionista”, mostra um Roosevelt mais cínico, belicista e interesseiro. Não tem nada a ver com negação do Holocausto.

[2] No original: What is undeniable, however, is that close to 250,000 Jews were murdered in the months between the capture of this death camp and the German surrender in May 1945.” A pergunta que eu faço é: quem matou esses 250.000 judeus, já que Auschwitz já não estava mais nas mãos dos nazistas?

 
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sábado, 6 de abril de 2013

[POL] Hitler, Mussolini, Roosevelt

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David Boaz

Resenha do livro  Three New Deals: Reflections on Roosevelt’s America, Mussolini’s Italy, and Hitler’s Germany, 1933 – 1939, de Wolfgang Schivelbusch

 
Em 7 de maio de 1933, apenas dois meses após o início do mandato de Franklin Delano Roosevelt, a repórter do New York Times Anne O´Hare McCormick escreveu que o clima em Washington era “estranhamente parecido com o de Roma nas primeiras semanas após a marcha dos camisas negras, de Moscou no começo do Plano Quinquenal... a América hoje pede literalmente por ordens.” A administração Roosevelt, ela acrescentou, “busca uma federação da indústria, trabalho e governo após a onda do Estado Corporativo como existe hoje na Itália.”

Este artigo não é citado em Three New Deals, um estudo fascinante do historiador cultural alemão Wolfgang Schvielbusch. Mas ele mantém seu argumento central: que há semelhanças surpreendentes entre os programas de Roosevelt, Mussolini e Hitler.

Quando Roosevelt assumiu o governo em março de 1933, ele recebeu do Congresso uma delegação de poderes extraordinária para acabar com a Depressão. “Os poderes de longo alcance dados a Roosevelt pelo Congresso, antes que a instituição entrasse em recesso foram sem precedentes em épocas de paz. Por meio desta ‘delegação de poderes’, o Congresso tinha, com efeito, se tornado o braço legislativo do governo. O único poder de oposição remanescente ao executivo era a Suprema Corte. Na Alemanha, um processo semelhante permitiu a Hitler assumir poder legislativo após o Reichstag (Parlamento alemão) ter sido queimado em caso suspeito de incêndio culposo em 28 de fevereiro de 1933.”

A imprensa nazista entusiasticamente saudou as novas medidas do New Deal (N. do T.: “Novo Acordo”, o programa econômico de FDR): a América, como o Reich, havia decididamente rompido com “o delírio desinibido da especulação financeira.” O jornal do partido nazista, o Völkisher Beobachter (N. do T.: Observador Popular), “sublinhou a adoção por Roosevelt das linhas de pensamento nacional-socialistas em suas políticas econômicas e sociais, elogiando o estilo de liderança do presidente como sendo compatíveis com o Führerprinzip ditatorial de Hitler.”

Até mesmo Hitler elogiou sua contraparte americana. “Ele disse ao embaixador Americano William Dodd que ‘estava de acordo com o presidente na visão de que a virtude da missão, a prontidão para o sacrifício e a disciplina contaminariam o povo inteiro.’ ‘Estas demandas morais que o presidente coloca diante de cada cidadão dos Estados Unidos também são a quintessência da filosofia do estado alemão, que é expressa no lema ‘O interesse público transcende o interesse individual.’” Uma Nova Ordem em ambos os países havia substituído uma ênfase obsoleta nos direitos.

Mussolini, que não permitiu que seu trabalho como ditador interferisse em seu jornalismo prolífico, escreveu uma crítica positiva sobre o livro de Roosevelt Looking Forward (N. do T.: Olhando Adiante). Ele o considerou “reminiscente do fascismo... o princípio no qual o Estado não deixa mais a economia sem regulação”; e, em outra crítica, desta vez do livro New Frontiers (N. do T.: Novas Fronteiras) de Henry Wallace, o Duce considerou o programa do Secretário da Agricultura semelhante ao seu próprio Corporativismo.

Roosevelt nunca simpatizou com Hitler, mas Mussolini era outra estória. “Não me importo em te dizer em segredo,” disse Roosevelt a um correspondente da Casa Branca, “que estou mantendo contato com aquele admirável cavalheiro italiano.” Rexford Tugwell, um conselheiro experiente do presidente tinha dificuldades em conter o entusiasmo do presidente pelo programa de Mussolini para modernizar a Itália: “É o mais limpo... mais eficiente plano operacional de engenharia social que eu vi. Tenho inveja.” [1]

Schivelbusch faz um paralelo nas ideias, estilo e programas dos três regimes diferentes – e mesmo sua arquitetura. “Monumentalismo neoclássico,” ele escreve, “é o estilo arquitetônico no qual o estado visualmente manifesta seu poder e autoridade.” Em Berlim, Moscou e Roma, “o inimigo que deveria ser erradicado era o legado arquitetônico do laissez-faire do liberalismo do século XIX, uma mixórdia de estilos e estruturas não planejada.” Washington ergueu vários monumentos neoclássicos nos anos 1930, apesar de utilizar menos destruição como a que ocorreu nas capitais europeias. Pense nas esculturas “O Homem controla o Comércio” em frente à Comissão Federal do Comércio, com um homem musculoso segurando um enorme cavalo[2]. Elas teriam um lugar certo na Itália de Mussolini.

“Comparando,” esclarece Schivelbusch, “isto não é o mesmo que igualar. A América durante o New Deal de Roosevelt não tornou-se um estado de partido único; ela não tinha uma polícia secreta; a Constituição permaneceu ativa e nunca houve campos de concentração[3]; o New Deal preservou as instituições do sistema liberal democrático que o Nacional Socialismo aboliu.” Mas durante os anos 1930, intelectuais e jornalistas notaram “áreas de convergência entre o New Deal, Fascismo e Nacional Socialismo.” Todos os três eram vistos como transcendendo o “liberalismo anglo-francês clássico” – individualismo, mercados livres e poder descentralizado.

Desde 1776, o liberalismo transformou o mundo ocidental. Como o jornal A Nação comentou em 1900, antes dele mesmo abandonar o velho liberalismo, “livres da intromissão vexatória dos governos, os homens se dedicaram à sua tarefa natural, qual seja o melhoramento de sua condição, com os resultados maravilhosos que nos cercam.” – indústria, transporte, telefones e telégrafos, saneamento, comida em abundância, eletricidade. Mas o editor preocupou-se que “seu conforto material fechou os olhos da geração atual para a causa que tornou isso possível.” Os velhos liberais morreram, e os jovens começaram a pensar se o governo não poderia ser uma força positiva, algo a ser usado ao invés de ser limitado.

Outros, não obstante, começaram a rejeitar o próprio liberalismo. Em seu romance dos anos 1930, O Homem sem Qualidades, Robert Musil escreveu, “O infortúnio decretou que... o humor dos tempos se afastariam das velhas ideias do liberalismo que favoreceram Leo Fischel – os grandes ideais orientadores de tolerância, dignidade do homem e mercado livre – e a razão e progresso no mundo ocidental seria determinada por teorias raciais e lemas urbanos.”

O sonho de uma sociedade planificada infectou tanto a direita quanto a esquerda. Ernst Jünger, um militarista influente de extrema direita na Alemanha, demonstrou sua reação à União Soviética: “Disse a mim mesmo: beleza, eles não têm constituição, mas têm um plano. Isto pode ser ótimo.” Ainda em 1912, o próprio FDR elogiou o modelo alemão-prussiano: “Eles ultrapassaram a liberdade do indivíduo enquanto dono de sua própria propriedade e acharam necessário comparar esta liberdade com o benefício da liberdade do povo inteiro,” disse ele em um discurso para o Fórum Popular de Tróia, em Nova York.

Progressistas americanos estudaram em universidades alemãs, escreve Schivelbusch, e “chegaram a apreciar a teoria hegeliana de um estado forte e o militarismo prussiano como o modo mais eficiente de organizar as modernas sociedades que não podiam mais ser governadas pelos princípios liberais anárquicos.” O ensaio influente “O Equivalente Moral da Guerra” de 1910 do filósofo pragmático William James sublinha a importância da ordem, disciplina e planificação.  

Intelectuais preocupavam-se com a desigualdade, a pobreza da classe trabalhadora e da cultura comercial criada pela produção em massa. (Eles não parecem ter notado a contradição entre a última afirmação e as duas primeiras.) O liberalismo parecia inadequado para lidar com tais problemas. Quando a crise econômica apareceu – na Itália e na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, e nos EUA durante a Grande Depressão – os anti-liberais aproveitaram a oportunidade, argumentando que o mercado tinha falhado e que o tempo para uma experimentação firme havia chegado.

Na revista North American Review em 1934, o escritor progressista Roger Shaw descreveu o New Deal como “meios fascistas para atingir fins liberais.” Ele não estava enlouquecendo. O consultor de FDR Rexford Tugwell escreveu em seu diário que Mussolini “fez muitas coisas que para mim são necessárias.” Lorena Hickok, uma amiga íntima de Eleanor Roosevelt, que viveu por um tempo na Casa Branca, escreveu com a aprovação de um funcionário local que disse, “Se (o presidente) Roosevelt fosse realmente um ditador, poderíamos chegar a algum lugar.”[4] Ela acrescentou que se fosse mais jovem gostaria de liderar “o movimento fascista nos Estados Unidos.” Na Administração Nacional de Reconstrução (NRA), a agência cartelista no coração do New Deal, um relatório declarou sinceramente, “Os princípios fascistas são muitos semelhantes àqueles que estamos implantando aqui na América.”

Em Roma, Berlim e Washington D.C. havia uma infinidade de metáforas militares e estruturas militares. Fascistas, nacional socialistas e new dealers foram todos jovens durante a Primeira Guerra Mundial e olhavam com saudades as experiências no planejamento militar. Em seu primeiro discurso oficial, Roosevelt conclamou à nação: “Se tivermos que ir adiante, devemos nos mover como um exército treinado e leal desejando sacrificar-se pelo bem de uma disciplina comum. Estamos, eu sei, prontos e desejosos de submeter nossas vidas e propriedades para tal disciplina, pois isto torna possível uma liderança que objetiva um bem maior. Assumo sem hesitar a liderança deste grande exército... Peço ao Congresso um instrumento antigo para enfrentar a crise – o poder executivo estendido para empreender uma guerra contra a emergência, tão grande quanto o poder que seria dado a mim se estivéssemos de fato sendo invadidos por um inimigo estrangeiro.”

Isto era uma nova imagem para um presidente da república americana. Schivelbusch argumenta que “Hitler e Roosevelt eram ambos líderes carismáticos que faziam as massas seguir suas ideias – e sem este tipo de liderança, nem o nacional socialismo nem o New Deal teriam sido possíveis.” Este estilo plebiscitário estabeleceu uma conexão direta entre o líder e as massas. Schivelbusch argumenta que os ditadores dos anos 1930 diferiam dos “déspotas da velha guarda, cujo poder era baseado grandemente na força coerciva de sua força pretoriana.” Reuniões de multidões, conversas ao rádio – e em nossa própria época – televisão podem levar o governante diretamente às pessoas de um modo que nunca foi possível antes.

Para este fim, todos os novos regimes dos anos 1930 empreenderam esforços propagandísticos. “Propaganda,” escreve Schivelbusch, “é o meio pelo qual uma liderança carismática, circunavegando instituições sociais e políticas intermediárias como parlamentos, partidos e grupos de interesse, ganha controle direto sobre as massas.” A campanha Águia Azul da NRA, na qual negócios que se submetiam ao código da agência eram permitidos mostrar um símbolo, uma “águia azul”, que era um meio de reunir as massas e convocar qualquer um a mostrar um símbolo visível de apoio. O chefe da NRA, Hugh Johnson, deixou claro sua proposta: “Aqueles que não estão conosco, estão contra nós.”

Os pesquisadores ainda estudam aquela propaganda. No começo deste ano, um museu de Berlim montou uma exibição chamada de “Arte e Propaganda: O Choque entre as Nações, 1939 – 1945.” De acordo com o crítico David D´Arcy, ela mostra como os governos alemão, italiano, soviético e americano “encomendavam e financiavam a arte quando a construção de imagem servia à construção da nação em seu extremo... Os quatro países reuniram seus cidadãos com imagens de renascimento e regeneração.” Um pôster americano de um martelo trazia o lema “O trabalho te mantém livre,” que D´Arcy considerou “extraordinariamente parecido com ‘Arbeit Macht Frei’, o slogan que saudava os prisioneiros em Auschwitz.” Analogamente, uma reedição de um documentário clássico do New Deal, The River (1938), levou o crítico do Washington Post, Philip Kennicott a escrever que “assistindo-o 70 anos depois em um DVD Naxos sinto um calafrio na espinha... Há momentos, especialmente envolvendo tratores (o grande fetiche dos propagandistas do século XX), quando você está certo que este filme poderia ter sido muito bem produzido por um dos estados totalitários da Europa.”

Programa e propaganda se misturaram nos trabalhos públicos em todos os três sistemas. A Autoridade do Vale do Tenesse, a autobahn, a reestruturação dos pântanos de Pontine nos subúrbios de Roma foram todos projetos de exibição, outro aspecto da “arquitetura de poder” que mostrava o vigor e a vitalidade do regime.

Você pode perguntar, “Onde está Stalin nesta análise? Por que este livro não chama-se Quatro New Deals?” Schivelbusch não menciona Moscou repetidamente, como McCormick em seu texto para o New York Times. Mas Stalin tomou o poder dentro de um sistema já totalitário; ele foi o vencedor em um golpe. Hitler, Mussolini e Roosevelt, cada qual ao seu modo, chegaram ao poder como líderes fortes em um processo político. Eles, portanto, compartilham a “liderança carismática” que Schivelbusch considera tão importante.

Schivelbusch não é o primeiro a notar tais semelhanças. B. C. Forbes, o fundador da revista homônima, denunciou o “fascismo exagerado” em 1933. Em 1935, o antecessor de Roosevelt, Herbert Hoover, estava usando frases como “arregimentação fascista” ao discutir o New Deal. Uma década depois, ele escreveu em suas memórias que “o New Deal introduziu os americanos ao espetáculo do controle fascista nos negócios, trabalho e agricultura,” e que medidas como o Ato de Ajuste Agrícola, “em suas consequências de controle de produtos e mercados, estabeleceu um paralelo americano estranho com o regime agrícola de Mussolini e Hitler.” Em 1944, no livro “O Caminho para a Escravidão”, o economista F. A. Hayek alertou que a planificação econômica poderia levar ao totalitarismo. Ele alertou os americanos e ingleses a não pensar que havia algo de unicamente mau na alma alemã. O nacional socialismo, ele disse, abraçou as ideias coletivistas que permearam o mundo ocidental por uma geração ou mais.

Em 1973, um dos historiadores americanos mais distintos, John A. Garraty, da Universidade de Columbia, causou tumulto com seu artigo “O New Deal, o Nacional Socialismo e a Grande Depressão.” Garraty era um admirador de Roosevelt, mas não pôde ajudar ao notar, por exemplo, os paralelos entre o Corpo de Conservação Civil e programas similares na Alemanha. Ambos, ele escreveu, “foram essencialmente projetados para manter os jovens fora do mercado de trabalho. Roosevelt descreveu os campos de trabalho como um meio de manter a juventude ‘fora das ruas,’ enquanto Hitler pensava numa forma de afastá-la da ‘desesperança cruel das ruas.’ Em ambos os países, muito foi feito dos resultados sociais benéficos de misturar milhares de jovens de diferentes classes nos campos. Além disso, ambos estavam organizados em linhas semimiltares com propostas secundárias de melhorar o condicionamento físico de soldados em potencial e estimular o comprometimento público com o serviço nacional no caso de uma emergência.”

E em 1976, o candidato presidencial Ronald Reagan provocou a ira do senador Edward Kennedy (Democrata, Massachussets), do historiador pró-Roosevelt Arthur M. Schlesinger Jr., e do New York Times quando ele disse aos jornalistas que “o fascismo era realmente a base do New Deal.”

Mas Schivelbusch explorou estas conexões em grande detalhe e segundo uma distância histórica maior. À medida que a memória viva do nacional socialismo e do Holocausto retrocedem, os pesquisadores – talvez especialmente na Alemanha – estão gradualmente começando a aplicar ciência política normal aos movimentos e eventos dos anos 1930. Schivelbusch ocasionalmente especula, como quando escreve que Roosevelt certa vez se referiu a Stalin e Mussolini como seus “irmãos de sangue.” (De fato, parece claro na fonte de Schivelbusch – o livro “A Era de Roosevelt”, de Schlesinger – que FDR estava dizendo que o comunismo e o fascismo eram irmãos de sangue entre si, não com ele.) Mas, no geral, este é um trabalho de pesquisa acadêmica formidável.[5]

Ele conclui o livro lembrando o grande panfleto de John T. Flynn de 1944, “Enquanto Marchamos.” Flynn, comparando o New Deal com o fascismo, anteviu um problema que ainda nos confronta hoje. “Mas desejando ou não, Flynn argumentou, o New Deal colocou-se na posição de precisar de um estado de crise permanente ou, de fato, de guerra permanente para justificar suas intervenções sociais. ‘Nasceu na crise, vive em crise e não pode sobreviver à era de crise’... a estória de Hitler é a mesma coisa.’ O prognóstico de Flynn para o regime de seu inimigo Roosevelt parece mais aplicável hoje do quando ele o fez em 1944... ‘Devemos ter inimigos,’ escreveu ele em Enquanto Marchamos, ‘Eles tornar-se-ão uma necessidade econômica para nós.’”

 
http://www.cato.org/publications/commentary/hitler-mussolini-roosevelt

Os trechos em itálico foram extraídos do texto que David Gordon escreveu para o The Mises Review, Volume 12, Número 3 (2006).


 
Notas:

[1]  Lembrando que Churchill também era um grande fã de Mussolini. Isto talvez explique a razão pela qual a Itália tenha sido poupada da vingança dos Aliados após a derrota do Eixo em 1945.


Existe ainda um prédio da Marinha americana, construído nos anos 1960, com o formato de uma suástica. Após clamor popular, a Marinha decidiu gastar U$ 600 mil para corrigir o prédio de formato ofensivo.


[3] Até a entrada na guerra, quando então foram criados campos para os cidadãos americanos de ascendência japonesa.

[4] Lorena Hickok foi amante da primeira-dama Eleanor Roosevelt, que tinha vida sexual bem ativa com homens e mulheres. Entre seus amantes estão Harry Hopkins e Earl Miller, funcionários de FDR. Em relação à afirmação “se Roosevelt fosse um ditador”, vale lembrar que ele governou os EUA de 1933 a 1945, foi o único presidente a ter quatro mandatos seguidos e, evidentemente, só largou o osso porque morreu um pouco antes da guerra terminar.

[5] Roosevelt chamava carinhosamente o genocida Stalin de “Tio Joe”.

domingo, 31 de março de 2013

[ARM] Tiger I: O Panzer Poderoso

Eduardo A. Cajias

 
Quando foi lançado em agosto de 1942, o Tiger era, simplesmente, o mais poderoso tanque de guerra do mundo. O êxito do Tiger em derrotar tanques oponentes foi tão grande que sua superioridade foi reconhecida até pelos inimigos. Há relatos daquela época que confirmam que ninguém se atrevia a travar um combate de tanques em campo aberto com ele.

O Panzerkampfwagen (Veículo de Combate Blindado) Tiger Ausf. E, nome oficial final deste tanque (quase sempre simplificado para “Tiger”), surgiu como uma resposta para enfrentar a boa blindagem dos tanques soviéticos T-34 e KV-2 durante a invasão da Rússia, já que até a Operação Barbarossa, os Panzer III e IV combatiam os tanques inimigos com eficiência.

 
Os projetos do Tiger foram das empresas alemãs Porsche – a mesma dos conhecidos automóveis esportivos – e da tradicional produtora de locomotivas Henschel & Son. No início, a Henschel produzia 25 tanques Tiger por mês, porém a produção em abril de 1944 saltou para 105 a cada mês. Um aumento considerável, já que representa quatro vezes mais do que no começo, porém é pouco se comparado com a grande produção dos Estados Unidos e até dos russos.

Mas não era nada barato para se fabricar o Tiger. Os custos de sua produção eram 50% maiores do que os dos Panzer III e IV, e mais que o dobro do preço do Panzer V Panther. Sua produção era difícil e complexa devido à grande quantidade e boa diversidade de materiais, por isso era demorado para completar cada unidade.

Os primeiros quatro Tiger a entrar em combate não têm uma história honrosa para contar. Eles foram enviados em agosto de 1942 para o sudeste da cidade de Leningrado (atual São Petersburgo), na Rússia, e tiveram que atuar em um terreno pantanoso totalmente impróprio para seu peso. Mas quando foram para o norte da África quatro meses depois, a situação foi completamente diferente. O Tiger tinha total domínio no terreno aberto do Saara, mas foi usado em pequenas quantidades.

Sua blindagem era tão espessa que deixava os inimigos boquiabertos. Só que o que mais rendeu celebridade ao Tiger foi um armamento principal inovador. Um canhão de nada menos que 88 mm. Até então os tanques com armas mais poderosas contavam com canhões de 75 mm (como os Panzer IV e os Panther alemães ou o MK VIII inglês) ou de 76,2 mm, como os maiores tanques russos. Dependendo da munição utilizada, a velocidade na boca do canhão podia chegar a 930 m/s, o suficiente para penetrar a blindagem de mais de 110 mm a uma distância de 2 mil metros (os T-34 russos tinham até 90 mm de blindagem nas partes mais espessas).

Obviamente, o Tiger não era um tanque veloz, mas não fazia feio em relação aos outros tanques pesados que teve que enfrentar. No entanto, com uma velocidade máxima em estrada de 38 km/h era até mais rápido que o vagaroso inglês Matilda (máxima de 24 km/h na estrada) e bem mais do que o Churchill MK IV, que chegava a no máximo 20 km/h.

O resultado foi que os tanques americanos M4A2 Sherman de 75 mm – que os britânicos empregaram amplamente no norte da África – e os T-34 só tinham chance de imobilizar um Tiger a uma curta distância. A consequência em batalhas posteriores foi que o Tiger destruiu uma quantidade impressionante de equipamento inimigo. Ele conseguiu quebrar vários recordes de inimigos abatidos nos anos de 1943 e 1944. Além de seu bom desempenho no norte da África, o sucesso foi ainda maior na Itália e no front oriental, especialmente na Rússia.

Diversas histórias de guerra são contadas, mas nem todas elas são verdadeiras. Isso se pode observar em relação à quantidade de inimigos destruídos por cada Tiger e seu comandante responsável. Os mais renomados e conhecidos destes comandantes são Otto Carius e, principalmente, Michael Wittmann. Otto Carius foi um tenente que destruiu mais de 150 tanques. Já Michael Wittmann é reputado por destruir 138  (ou mais) tanques. Este jovem capitão recebeu, diretamente das mãos de Adolf Hitler, a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas de Carvalho e Espadas. Lutou muito na Rússia, mas foi enviado para a Normandia. No norte da França, Wittmann comandou a 2ª. Companhia do 101º. Batalhão SS de panzer Pesados e se notabilizou por enfrentar os britânicos na França. Morreu em batalha em agosto de 1944, e seus restos mortais estão no cemitério de guerra alemão de La Cambe, na França.

Michael Wittmann
 
As propagandas nazistas exageraram nas qualidades do Tiger, sem dúvida. E o medo de alguns soldados americanos e britânicos podia ser desmesurado, mas não totalmente sem razão. Afinal, o Tiger é inegavelmente um dos melhores tanques de guerra de todos os tempos.

Especificações

Fabricante: Henschel & Sohn, Krupp (torre)
Tripulação: 5 (3 na torre)
Comprimento: 8,45 m
Largura: 3,4 a 3,7 m
Altura: 2,93 m
Peso: 56.000 a 57.000 kg (últimas versões)
Capacidade de combustível: 534 litros (4 tanques de combustível)
Autonomia: 140 km
Armamento principal: 88 mm KwK 36L/56
Armamento secundário: 2 ou 3 metralhadoras 7,92 mm MG 34
Munição: 92 a 120 de 88 mm, 4.500 a 5.700 de 7,92 mm

Instruções do Exército Russo para derrotar um Tiger
 
Publicado originalmente na revista “Guerras: Armas, Táticas e Equipamentos”, Ano I nº 2, Ed. Nova Sampa.