sábado, 8 de junho de 2013

Saímos do Iraque, mas os iraquianos não têm essa opção

John Pilger

The Guardian, 26/05/13

 
A areia percorre as longas estradas, as quais são os dedos do deserto. Ela entra em seus olhos e nariz e garganta; ela invade os mercados e os parquinhos das escolas, cobrindo as crianças que jogam futebol; e ela carrega, segundo o Dr. Jawad Al-Ali, “as sementes de nossa morte.” Especialista internacional respeitado em câncer no hospital universitário Sadr em Basra, o Dr. Ali me disse que em 1999, e hoje seu alerta é irrefutável. “Antes da Guerra do Golfo,” ele disse, “tínhamos dois ou três pacientes com câncer por mês. Agora, temos 30 a 35 morrendo todo mês. Nossos estudos indicam que 40 a 48% da população nesta área contrairão câncer: no tempo de cinco anos e, em seguida, muito tempo depois. É quase metade da população. A maioria de minha própria família está com ele, e não temos histórico familiar da doença. É como Chernobyl aqui; os efeitos genéticos são novos para nós; os cogumelos crescem enormes; mesmo as uvas em meu jardim sofreram mutação e não podem ser consumidas.”

Junto no corredor, a Dra. Ginan Ghalib Hassen, uma pediatra, manteve um álbum das crianças que ela estava tentando salvar. Muitas tinham neuroblastoma (n. do t.: tumor congênito que ataca recém-nascidos). “Antes da guerra, vimos apenas um caso deste tumor incomum em dois anos,” ela disse. “Agora, temos muitos casos, a maioria sem histórico familiar. Estudei o que aconteceu em Hiroshima. O aumento repentino de tais más formações congênitas é o mesmo.”

Entre os médicos que entrevistei, havia pouca dúvida de que os projéteis de urânio empobrecido usado pelos americanos e britânicos na Guerra do Golfo foram a causa. Um médico das forças armadas americanas designado para limpar o campo de batalho da guerra do Golfo ao longo da fronteira do Kuwait disse: “cada projétil disparado por uma aeronave de ataque A-10 Warthog carregava cerca de 4,5 kg de urânio sólido. Cerca de 300 toneladas de urânio empobrecido foram usadas. Isto é uma forma de guerra nuclear.”

Apesar da ligação com o câncer é sempre difícil de provar de forma absoluta, os médicos iraquianos argumentam que “a epidemia fala por si só.” O oncologista britânico Karol Sikora, chefe do programa de câncer da Organização Mundial da Saúde nos anos 1990, escreveu no Jornal Médico britânico: “Equipamento de radioterapia solicitado, drogas quimioterápicas e analgésicos são constantemente bloqueados pelos consultores americanos e britânicos (ao comitê de sansões iraquianas).” Ele me disse, “nós fomos avisados especificamente (pela OMS) a não falar sobre o que estava acontecendo no Iraque. A OMS não é uma organização que gosta de se envolver em política.”

Recentemente, Hans von Sponeck, antigo secretário geral da Nações Unidas e funcionário sênior da ONU Humanitária no Iraque, escreveu-me: “O governo americano conseguiu prevenir que a OMS investigasse as áreas no sul do Iraque, onde o urânio empobrecido foi usado e causou problemas sérios de saúde e ambientais.” Um relatório da OMS, o resultado de um estudo de referência conduzido pelo ministério da saúde iraquiano, foi “postergado”. Cobrindo 10.800 lares, ele contém “evidência avassaladora”, diz um funcionário do ministério e, de acordo com um de seus pesquisadores, permanece “ultra secreto”. O relatório diz que os defeitos de nascimento cresceram ao ponto de uma “crise” dentro da sociedade iraquiana onde o urânio empobrecido e outros metais pesados tóxicos foram usados pelos EUA e Grã-Bretanha. Quatorze anos após fazer o alerta, o Dr. Jawad Al-Ali avalia cânceres múltiplos em famílias inteiras.

O Iraque já não é mais notícia. Semana passada, a morte de 57 iraquianos em apenas um dia não foi nem comparado ao assassinato de um soldado britânico em Londres. Mesmo assim, as duas atrocidades estão conectadas. Seu simbolismo poderia ser um pródigo novo filme para “O Grande Gatsby” de F. Scott Fitzgerald. Os dois personagens principais, como escreveu Fitzgerald, “destruíram as coisas e as pessoas e voltaram-se para seu dinheiro e sua vasta irresponsabilidade... e deixaram que outras pessoas arrumassem a bagunça.”

A “bagunça” deixada por George Bush e Tony Blair no Iraque é uma guerra sectária, as bombas de 7/7 (n. do t.: os atentados em Londres de 07/07/2005) e agora um homem carregando uma faca ensanguentada em Woolwich. Bush voltou-se para o seu “museu e biblioteca presidencial” Mickey Mouse e Tony Blair em suas palestras ao redor do mundo e dinheiro.

Sua “bagunça” é um crime de proporções épicas, escreveu Von Sponeck, referindo-se à estimativa do Ministério de Assuntos Sociais do Iraque de 4,5 milhões de crianças que perderam um ou ambos os pais. “Isto significa que cerca de 14% da população iraquiana está órfã,” ele escreveu. “Cerca de um milhão de famílias são comandadas por mulheres, a maioria das quais são viúvas.” A violência doméstica e pedofilia são assuntos urgentes na Grã-Bretanha; no Iraque, a catástrofe iniciada pela Grã-Bretanha trouxe violência e abuso a milhões de lares.

Em seu livro “Despachos do Lado Negro”, Gareth Peirce, a grande advogada dos direitos humanos na Grã-Bretanha, aplica a força da lei contra Blair, seu propagandista Alastair Campbell e seu Gabinete conivente. Para Blair, ela escreveu, “seres humanos que supostamente mantenham suas visões (islâmicas) devem ser mutiladas por qualquer meio possível, e permanentemente... na linguagem de Blair, um ‘vírus’ a ser ‘eliminado’ e exigindo ‘uma miríade de intervenções (sic) profundamente nos assuntos de outras nações.” E mesmo assim, diz Peirce, “a troca de e-mails, comunicados intergovernamentais, não revelam dissidência.” Para o secretário do exterior Jack Straw, enviar cidadãos britânicos inocentes a Guantanamo era “o melhor meio de cumprir nosso objetivo contra-terrorista.”

Estes crimes, sua iniquidade em pé de igualdade com Woolwich, aguarda um processo judicial. Mas quem entrará com ele? No teatro kabuki (n. do t.: teatro japonês com os atores muito maquiados) da política de Westminster, a violência distante de “nossos valores” não tem interesse. O resto de nós virou as costas?           

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2013/may/26/iraqis-cant-turn-backs-on-deadly-legacy

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http://epaubel.blogspot.com.br/2012/06/por-que-os-eua-invadiram-o-iraque.html

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O discurso que Nixon nunca leu

Estadão, 07 de junho de 2013

Em 20 de julho de 1969, os astronautas americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin se tornavam os primeiros homens a pisar na Lua. Armstrong era comandante na missão Apolo 11 e foi ouvido e visto por 500 milhões de pessoas dizendo a frase, que se tornou famosa, “um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”.

A saída do módulo e a caminhada pela superfície lunar foram transmitidas ao vivo por TV e rádio. E, ao retornar da Lua, Armstrong anunciou que não pretendia voltar ao espaço. A caminhada lunar foi o grande trunfo dos americanos na corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria.

Mas, sabendo que o desfecho podia ser outro e os dois astronautas poderiam não voltar, em 18 de julho de 1969, William Safire, o jornalista que escrevia os discursos do presidente Richard Nixon, deixou pronto um comunicado para o caso de a missão Apolo XI falhar. O memorando deveria ser entregue ao secretário de Estado Harry Robbins Haldeman e lido por Nixon.

O documento está divulgado na página do Arquivo Nacional dos EUA e começa dizendo que o “destino determinou que os homens que foram para a Lua para explorar em paz, permaneçam na Lua para descansar em paz”. Usando palavras como “esperança” e “descoberta”, o discurso deveria enaltecer as pesquisas de Armstrong e Aldrin e incentivar a continuidade pela corrida espacial.

“Antigamente, homens olhavam para as estrelas e viam seus heróis nas constelações. Atualmente, fazemos o mesmo, mas nossos heróis são épicos homens de carne e sangue”, descreve o documento.

Além do discurso que Nixon deveria ler, o memorando deixava a instrução de que o pronunciamento deveria ser seguido de uma oração. Como está descrito no site do Arquivo Nacional, o documento “felizmente, nunca precisou ser utilizado.”


 


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Quem são os criminosos de guerra na Síria?

Patrick J. Buchanan


Na última semana, muitas pesquisas de opinião foram publicadas revelando a opinião do público americano sobre uma possível intervenção na Síria.

De acordo com a pesquisa do Huffington Post, os americanos se opõem a bombardeios aéreos na Síria por 3 a 1. Eles se opõem a enviar armas aos rebeldes por 4 a 1. Eles se opõem a colocar tropas americanas terrestres na Síria por 14 a 1. Democratas, republicanos e independentes são todos contra o envolvimento naquela guerra civil que já produziu 1,2 milhões de refugiados e 70.000 mortos.

Uma pesquisa da CBS/New York Times encontrou que por 62 a 24 os americanos querem ficar de fora da guerra síria. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos descobriu que 61 contra 10 americanos se opõem a qualquer intervenção americana.

Mas os números sofrem uma guinada quando o público é perguntado se faria diferença se o regime sírio usasse gás venenoso. Neste caso, a oposição à intervenção americana cai para 44 a 27 na Reuters/Ipsos.

Mesmo assim, no domingo os programas de entrevista estavam lotados dos falcões. Ter um senador que defende o armamento dos rebeldes e bombardeios aéreos americanos dá mais ibope que um senador que quer ficar de fora da guerra.

Na mesma pesquisa da CBS, porém, os 10% de todos os americanos que afirmam acompanhar a situação síria de perto, estavam igualmente divididos, 47 a 48, se deveria haver a intervenção.

O retrato da América que surge é a de uma nação não totalmente interessada no que está acontecendo na Síria, mas que em sua maioria quer ficar de fora da guerra.

Mas é também uma nação cuja elite da política externa é de longe mais intervencionista e muito mais apoiadora de enviar armas aos rebeldes e usar o poder aéreo americano. Destas pesquisas, não é difícil concluir que as elites de Beltway (n. do t.: o mundo social de Washington) que moldam a política externa dos EUA não representam mais o destino manifesto da América média.

A América não se tornou isolacionista, mas sim anti-intervencionista. Este país não quer que seus soldados sejam mais enviados em aventuras irresponsáveis como o Iraque e Afeganistão, e não vê qualquer interesse nacional vital naqueles que miram a Síria.

Mas quem está falando por esta grande maioria silenciosa? Quem no Senado americano está presente na TV opondo-se aos intervencionistas?

Quem no partido Republicano está combatendo os McCainmaníacos?

Outra estória que saiu este final de semana, sufocada pelas notícias dos ataques israelenses às instalações militares e depósitos de mísseis sírios, pode esfriar o ânimo da elite – e matar qualquer desejo público de intervir.

“Os rebeldes sírios podem ter usado gás sarin,” publicou a manchete da segunda-feira do New York Times. Citando Genebra, a estória começa:

“Os investigadores dos direitos humanos das Nações Unidas reuniram testemunhos das baixas da guerra civil síria e enfermeiros indicando que as forças rebeldes usaram o agente neurológico sarin, disse um dos principais investigadores no domingo.”

A comissão das Nações Unidas não encontrou evidência de que o exército sírio tenha usado armas químicas. Mas Carla Del Ponte, uma ex-promotora suíça e membro da comissão, disse:

“Nossos investigadores estiveram nos países vizinhos entrevistando as vítimas, médicos e hospitais provisórios, e de acordo com seus relatos da última semana, que eu vi, há fortes e concretas suspeitas, mas não ainda prova irrefutável do uso do gás sarin, a partir do estado em que as vítimas se encontram.”

“Isto foi usado por parte da oposição, os rebeldes.”

Ou seja, os criminosos de guerra podem ser as pessoas em cuja defesa supostamente devemos intervir. E se foram os rebeldes que usaram o gás sarin, e não as forças do presidente Bashar Assad, mais do que umas poucas perguntas precisam ser respondidas.

Apenas duas semanas atrás, a Casa Branca informou ao Congresso:

“Nossa comunidade de inteligência afirmou, com graus variados de confiança, que o regime sírio usou armas químicas em pequena escala na Síria, especificamente, o agente químico  sarin.”

Um clamor geral então exigiu que Obama fizesse bom uso de sua ameaça de que o uso de gás venenoso pelo regime sírio cruzaria a “linha vermelha” e seria uma “aposta”, exigindo “enormes consequências”.

Se os militares sírios não usaram o sarin, mas sim os rebeldes, quem na comunidade de inteligência dos EUA blefou? De quem as agências americanas obtiveram sua evidência de que o sarin foi usado por Damasco? Quase fomos arrastados para outra guerra desnecessária pelas últimas mentiras de alguém sobre armas de destruição em massa?

Quando as alegações do uso de sarin pelo governo sírio foram levantadas, muitos no Congresso, especialmente no Partido Republicano, denunciaram Obama por fraqueza em sustentar sua ameaça da “linha vermelha”.

Parece agora que Obama pode nos ter salvo de outro desastre estratégico ao não prosseguir com a ação militar. E a questão deveria ser colocada aos falcões da guerra:

Se o uso de sarin por Assad deveria exigir bombardeios aéreos americanos, o uso de sarin pelos rebeldes, se confirmado, faria com que este país lavasse suas mãos em relação àqueles criminosos de guerra?

Simón Bolívar e o juramento do Monte Sacro

Voltaire Schilling

 
No dia 15 de agosto de 1805, em pleno verão romano, três venezuelanos dirigindo-se para fora da Cidade Eterna subiram no Monte Sacro, a histórica colina subversiva de Roma. Entre eles estava o jovem Simón Bolívar, então com 22 anos, acompanhado pelo seu preceptor Simón Rodrigues, um filósofo itinerante, e seu amigo Francisco Rodrigues Del Toro. Emocionado pela evocação do local - o monte servira de abrigo nos tempos da Roma Antiga para um protesto dos plebeus contra os que os oprimiam - Simón Bolívar empenhou ali a sua palavra de vir libertar a América do domínio espanhol. Foi o juramento do Monte Sacro.

 
Um dândi atrás da revolução

Nascido em 1783, filho de uma família de crioulos venezuelanos riquíssimos, dona de terras e de minas, o jovem Simón Bolívar foi enviado aos 16 anos de idade para a Europa para aprimorar sua instrução. Esteve na corte de Madri e depois se dirigiu para a Paris de Napoleão. Lá, em 1804, frequentou o salão de uma prima, Fanny Dervieu de Villars, descendente dos Arisguieta da aristocracia crioula da Venezuela, casada com um conde francês apaixonado por biologia.

Viúvo aos 19 anos, Bolívar fazia então o papel do fidalgo estouvado, herdeiro de um potentado latino-americano que gastava dinheiro a rodo pavoneando-se como um dândi (firmou moda com o "chapéu a Bolívar", bem espetaculoso), dedicado a cortejar todas as beldades parisienses que encontrava pela frente.

Quem fazia notável sucesso social naquela ocasião era Alexandre von Humboldt, o barão prussiano que se consagrara como viajante e naturalista de renome. Ele recém desembarcara na França com seu companheiro André Bonplan, vindo de uma estadia de cinco anos pelo Novo Mundo (1799-1804), desbravando rios, entrando em florestas e escalando montanhas. Além disso, nominou ainda uns 400 vulcões e identificou nas costas peruanas uma corrente marítima que levou seu nome: a corrente de Humboldt.

Não havia salão de Paris que não quisesse ouvir as façanhas dos dois cientistas, promovidos a cavalheiros da natureza. Assim sendo, Humboldt - típico representante do nobre iluminista - terminou por encontrar Bolívar numa das tantas recepções oferecidas pela prima Fanny. Na ocasião, o venezuelano tinha 21 anos.

Humboldt e Bolívar

Entre eles, deu-se, por assim dizer, uma amizade à primeira vista. Mais tarde, Bolívar deixaria dito que, devido ao seu trabalho científico, o alemão "foi o verdadeiro descobridor da América".

Num desses encontros, Humboldt comentou que percebeu, por todos os lados em que andara no Vice-Reino da Nova Granada (Venezuela, Colômbia e Equador) ou no Vice-Reino da Nova Espanha (o México e os países da América Central de hoje), um enorme e sincero anseio dos chefes crioulos e dos nativos em geral em se verem livres do domínio espanhol.

A questão da independência das colônias, assegurou Humboldt, era coisa para qualquer hora. Todavia, ressalvou o sábio alemão, a rebelião poderia demorar porque ele não vira por lá quem pudesse encabeçar o levante contra Madri.

Talvez tal observação casual de Humboldt tenha servido como um inesperado desafio ao jovem Bolívar que, até então, somente demonstrara ser dono de um temperamento exaltado, romântico e passional - uma energia em busca de uma causa.

É certo que o preceptor dele, o impagável filósofo Simón Rodrigues, um peregrino da liberdade seguidor de Rousseau, inculcara-lhe horror à tirania e amor desmedido pela independência. Por igual, as duas margens do Atlântico foram violentamente sacudidas pelo efeito da revolução norte-americana de 1776 e pela francesa de 1789, ambas influindo sobre aquele rapagão irrequieto. A isso, somaram-se as tantas leituras que Bolívar fizera, devorando além de Rousseau e Voltaire, as biografias de Plutarco sobre os grandes homens do passado greco-romano: Péricles, Alexandre, César, os Gracos, e tantos outros mais.

Por último, dominando inteiramente o cenário europeu, havia a magnifica personalidade de Napoleão, o homem que do nada construíra um império, sozinho, e que projetara sua imagem titânica sobre uma nova geração que surgia do rescaldo da revolução de 1789 com grande sede de aventuras.

Por todos os poros da Europa e do Novo Mundo brotavam rapazes que queriam "ser como Napoleão".

O clima de tensão, as batalhas memoráveis da revolução, o domínio do inesperado, tudo isso serviu como entorno para que Bolívar, até então um jovem ricaço inconsequente, um pavão vaidoso e petulante, viesse a se transformar no Libertador.

O juramento de Roma

Com um empréstimo que a prima Fanny lhe alcançou, Bolívar, com seu preceptor Simón Rodrigues e o amigo Francisco Rodrigues del Toro, rumou de Paris para uma longa viagem em direção à Itália. Percorreram o caminho tanto de diligência como com boas caminhadas. O trio de amigos levou 11 dias para atravessar os Alpes até chegar a Milão. Lá foram testemunhas da coroação de Napoleão como rei da Itália, ocasião em que, numa cerimônia militar impressionante, o general tomou para si a coroa de ferro dos monarcas lombardos (a mesma que encimara a cabeça de Ataúlfo).

Quando, por fim, chegaram a Roma, hospedaram-se na Piazza di Spagna, bem perto da famosa escadaria. Alugando um coche, os três passaram a fazer um tour pela cidade até que, no dia 15 de agosto de 1805, passando pelos portões em direção à periferia, avistaram o Monte Sacro. De imediato, veio à memória de Simón Rodrigues o feito dos plebeus da cidade que, nos tempos da Roma Republicana, lá haviam acampado em sinal de protesto. No ano de 494 a.C., liderados por Sicino Belluto, o povo pobre da cidade de Roma manifestou sua desconformidade com as injurias que sofria por parte dos patrícios, arrancando deles com uma longa greve um conjunto de concessões. O Monte Sagrado onde Bolívar estava era, pois, um local subversivo por excelência.

Ao cair da tarde, tomado pela forte emoção que evocava o local histórico, ato de desafio aos poderosos feito em época tão remota, Bolívar, olhando fixo para Simón Rodrigues no momento em que o sol se punha, teria feito então o juramento que iria comprometê-lo para o resto da sua vida:

¡Juro delante de usted; juro por el Dios de mis padres; juro por ellos; juro por mi honor, y juro por mi Patria, que no daré descanso a mi brazo, ni reposo a mi alma, hasta que haya roto las cadenas que nos oprimen por voluntad del poder español!

Simón Bolívar, O Juramento do Monte Sacro, Roma, 15/08/1805

Em tradução livre: "Juro frente a ti: juro por Deus e meus pais, juro por eles, juro pela minha honra e juro pela minha pátria, que não darei descanso ao meu braço nem repouso a minha alma, até que tenha rompido as cadeias que nos oprimem por vontade do poder espanhol!"

A partir de então, e pelos 20 anos seguintes, todas as energias dele voltaram-se para a nobre causa da libertação e independência do Novo Mundo.

Voltaire recomenda:

Castro, Moacir Werneck de - O Libertador: a vida de Simón Bolívar. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1988.

terça-feira, 4 de junho de 2013

[SGM] Churchill queria Hitler na Cadeira Elétrica e Gandhi morrer de fome

The Independent, 01/01/2006


 
Um lado do caráter de Winston Churchill raramente revelado – isto é, a do líder vingativo ao invés do magnânimo – surgiu em documentos secretos do governo tornados públicos. Eles revelam que ele queria seguir o passo sem precedentes de enviar Adolf Hitler à cadeira elétrica, se tivesse sido capturado, e também estava feliz ao ver o líder da independência indiana Mahatma Gandhi passando fome durante uma epidemia em 1943.

O Primeiro Ministro, falando em um encontro do Gabinete de Guerra em julho de 1942, descreveu Hitler como “a principal cria do mal” e, em seu modo extravagante, sugeriu humoradamente alugar uma cadeira elétrica – conhecida como “Fagulha Velha” – dos americanos e executá-lo como “um gangster” se e quando ele fosse pego.

A nova visão da raiva profunda e ódio mortal de Churchill ao Führer nazista – que ele responsabilizou pela morte de mais de meio milhão de britânicos – chega graças a uma série de notas classificadas do Departamento de Gabinete liberada pelos Arquivos Nacionais esta semana. As notas, feitas pelo Vice-Secretário de Gabinete Sir Norman Book durante alguns dos encontros de alto nível mais críticos da guerra, lança nova luz nos pensamentos e medos dos líderes britânicos durante este período.

O argumento sobre como lidar com a liderança nazista, se e quando fosse capturada, volta à superfície um número de vezes nos diários manuscritos.

Em um encontro-chave, em 6 de julho de 1942, Churchill diz: “Se Hitler cair em nossas mãos, devemos certamente executá-lo. Ele não é um soberano que poderia ser colocado nas mãos de ministros, como o Kaiser.”

O Primeiro Ministro então descreve o método preferido para a execução de Hitler: o meio mais torturante possível – a cadeira elétrica. Ele mesmo faz uma piada aos colegas de Gabinete que poderiam arrumar uma dos EUA no programa “lease-lend”.

Gill Bennett, historiador-chefe do Departamento do Exterior e da Comunidade Britânica, disse que a ideia de usar cadeira elétrica para executar Hitler era “típica de Churchill”. “Isto tem muito a ver com o estilo de Churchill. Ele sempre foi um homem de grandes gestos, e ele expressava o que ele acreditava ser o desejo do povo britânico,” disse o Sr. Bennett. “O Gabinete inteiro sentia fortemente os perigos do nazismo.”

Em 12 de abril de 1945, apenas duas semanas antes do suicídio de Hitler em seu bunker em Berlim, as notas de Sir Norman mostram como o assunto esquentou. Os americanos e russos estavam pressionando por julgamentos-espetáculo (show trials), mas Churchill ainda queria execução sumária tão logo fosse possível. O Primeiro Ministro diz ao seu Gabinete: “O julgamento será uma farsa... eles serão tratados como foras-da-lei.”

Um porta-voz para o Departamento Interno alerta contra tornar Hitler um mártir na Alemanha, mas Churchill, ciente do talento do ditador para a retórica, está determinado que não lhe seja dado palco público para defender sua causa. “Não assumiria nenhuma responsabilidade por um julgamento – mesmo se os EUA queiram fazer isso,” ele diz isso ironicamente no dia em que o presidente Franklin D. Roosevelt morre.

Evidência posterior da agressividade de Churchill emerge nos diários de 1943, quando torna-se claro que ele está feliz em deixar o líder espeiritual indiano Gandhi morrer durante uma epidemia de fome sob responsabilidade britânica. Em outro encontro do Gabinete de Guerra em maio de 1945, Churchill fala sobre o destino do braço direito de Hitler, Heinrich Himmler, de forma semelhantemente agressiva. O registro apresenta ele perguntando se seria possível “negociar” com o chefe da SS e “depois matá-lo.” Infelizmente para Churchill e sua imaginação fértil, Himmler, como Hitler, cometeu suicídio antes que pudesse ser levado a julgamento.*   

Tivesse sido Hitler condenado à cadeira elétrica, a sentença teria sido realizada nos EUA, onde ela acontece desde 1890.


Nota:

* Esta declaração, por si só, já é uma prova de que Himmler foi assassinado quando caiu nas mãos dos britânicos, apesar da historiografia oficial ainda insistir que ele se suicidou. Em relação à declaração de Churchill sobre Nuremberg, ele não disse novidade.

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quinta-feira, 30 de maio de 2013

[SGM] Aliados discutiram assassinar Rommel durante o Dia-D

BBC News, 23/05/13

 
Esta carta de Charles Peake do Quartel-general Supremo da Força Expedicionária Aliada especula a possibilidade de assassinar figuras militares alemãs.

 
Foi discutido em comunicação entre o governo britânico, militares e serviços de inteligência com o objetivo de ajudar no desembarque.

Eles planejaram alvejar aqueles envolvidos com a Gestapo e a logística inimiga.

Entretanto, o plano foi abandonado como “o tipo de boa ideia que... produz uma boa dose de problemas e realiza muito pouco.”

As cartas e telegramas detalhando os planos foram revelados em um arquivo, datado de 1944 e indiretamente chamados de “Guerra (Geral)”, pelo sub-secretário do Departamento do Exterior Sir Alexander Cadogan.

O arquivo inclui comunicações de Sir Alexander assim como Charles peake, que estava a serviço do Quartel-general da Força Expedicionária Aliada, o órgão que comandou as forças aliadas na Europa setentrional, e Victor Cavendish-Bentinck, executivo dos Serviços de Inteligência Unidos.

Criminosos de guerra almejados

O plano discutiu a possibilidade de assassinatos específicos de qualquer membro alemão cuja “remoção a um ponto crítico poderia ser um desastre para o esforço alemão.”

Os alvos considerados eram figuras políticas assim como agentes da Gestapo, chefes de suprimentos e aqueles envolvidos em importantes “organizações econômicas.”

A carta inicial do Sr. Peake sugerindo o plano para assassinar importantes oficiais alemães tinha consciência de que era algo ambicioso, dizendo: “Compilar uma lista é uma coisa e conseguir os resultados é totalmente outra coisa, mas suponho que devemos fazer nosso melhor.”

A possibilidade de matar certas figuras militares de alta patente ao invés de fazê-las prisioneiras era controversa, mas foi decidido que “pode ser colocada na política como tratamento a criminosos de guerra.”

Os oficiais alemães discutidos incluíam o famoso Marechal-de-campo Erwin Rommel, que esteve envolvido no plano para matar Hitler.

O Sr. Cavendish-Bentinck argumentou que “se tais criminosos de guerra forem eliminados como proposto, isto nos livrará do problema de lidar com eles mais tarde.”

“Onda de Assassinatos”

O plano também seria estendido aos colaboradores da França Vichy, mas foi decidido que a identificação e assassinato destes alvos seria melhor deixado aos próprios franceses.

No final, contudo, o plano foi descartado pois acreditava-se que os ataques poderiam gerar “respostas sanguinárias”.

O Sr. Cavendish-Bebtinck acreditava que poderia resultar em uma “onda de assassinatos que provavelmente durará quando estivermos ocupando o território inimigo” e ele também duvidava da aptidão das forças britânicas para a tarefa:

“Os poloneses destruíram um número de oficiais alemães, mas eles eram especialistas neste tipo de trabalho e tiveram maior provocação. Se o assassinato fosse fácil, muitos estadistas e altos funcionários teriam tido um final violento.”

Mas ele permitiu que “se os franceses gostam de matar alemães ou colaboradores, não devemos detê-los.”

 Havia preocupações sobre a eficácia do plano, pois o Chefe do MI6, Stewart Menzies, referiu-se a ele como somente “C” nas comunicações, dizendo sobre as vítimas sugeridas:

“Não acreditamos, entretanto, que sua remoção terá muito, ou mesmo qualquer, efeito na eficiência funcionando na máquina altamente organizada e difundida na qual eles são funcionários proeminentes.”  


 
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[POL] A Admiração Secreta de John Kennedy por Hitler

Allan Hall

Daily Mail, 23/05/13

 

Um novo livro publicado na Alemanha revela como o presidente Kennedy era um admirador secreto dos nazistas.

As notícias chegam embaraçosamente próximas de uma visita a Berlim no próximo mês pelo presidente Obama – uma semana antes das comemorações do 50º. Aniversário do memorável discurso de JFK “Ich Bin ein Berliner” (Sou um Berlinense) pedindo a solidariedade dos EUA com a Europa durante a Guerra Fria.

As anotações e cartas do presidente Kennedy narrando seus passeios pela Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial, quando Adolf Hitler estava no poder, foram reveladas e mostram que ele era geralmente a favor do movimento que iria lançar o mundo na maior guerra da história.

“Fascismo?” escreveu o jovem future president. “A coisa certa para a Alemanha.”

Em outra; “O que são as maldades do fascismo comparadas às do comunismo?”

E, em 21 de agosto de 1937 – dois anos antes da guerra que matou 50 milhões de vidas eclodir – ele escreveu: “Os Alemães são realmente muito bons – portanto os povos cercam-se deles para se protegerem.”

E em uma linha que parece ser diretamente tirada da linha racista da superioridade racial do Terceiro Reich, ele escreveu após viajar pela Renânia: “As raças nórdicas certamente parecem ser superiores aos romanos.”

A saudação do futuro presidente é agora embaraçosa em perspective – uns poucos anos depois ele lutou na Segunda Guerra Mundial contra os nazistas e seu irmão mais velho, o Tenente Joseph Patrick Kennedy Jr., foi morto em combate.

Outros motivos de meditação foram a grandeza das autobahns – “as melhores rodovias no mundo” – e a visita à casa de campo bávara de Hitler em Berchtesgaden e à casa de chá construída no topo da montanha para ele.

Ele declarou: “Quem visitou estes dois lugares pode facilmente imaginar o quão Hitler erguer-se-á do ódio que atualmente o cerca e em poucos anos surgirá como uma das maiores personalidades de todos os tempos.”

A admiração de Kennedy pela Alemanha Nazista é revelada em um livro intitulado “John F. Kennedy entre os Alemães. Diários de viagem e cartas 1937 – 1945.”

Quando a Segunda Guerra Mundial chegou, o pai do futuro presidente, Joe P. Kennedy, se opôs fortemente em lutar contra a Alemanha e cometeu vários erros desgastando sua carreira política.

Ele adotou uma postura derrotista, pacifista e tentou agendar um encontro com Adolf Hitler sem a autorização do Departamento de Estado.

As razões para isso não são claras – alguns especulam que ele estava ávido em evitar a guerra porque ele temia que o capitalismo americano – com o qual ele lucrou muito – não sobrevivesse à entrada do país no conflito.

Como embaixador dos EUA na Grã-Bretanha, ele também se opôs à ajuda militar e econômica à Grã-Bretanha*.

Ele disse em uma entrevista: “A democracia acabou na Inglaterra. Ela existe aqui (nos EUA).”

Durante a Segunda Guerra Mundial, o irmão mais velho de JFK, Joe, voluntariou-se para uma missão secreta de teste de um avião tripulado experimental carregado de explosivos – uma arma que os Aliados esperavam utilizar como míssil guiado.

No primeiro voo de teste, os explosivos detonaram prematuramente e o avião explodiu – seu corpo nunca foi encontrado.

O jovem presidente gravou seu próprio lugar na história quando ele ficou na entrada da prefeitura de Berlim Ocidental de Schönenberg em 26 de junho de 1963 declarando a solidariedade americana à cidade e ao continente com as palavras imortais: “Sou um berlinense.”

O fato que, falando estritamente, ele estava referindo-se a si mesmo como uma rosquinha típica – o berlinense** – não diminuiu o entusiasmo contagiante por ele.

Mas seu elogio a Hitler em um país que ainda luta para chegar a um termo com seu legado pode revelar-se difícil para Obama, que visitará Berlim para conversações de longo termo com a Chanceler Merkel em 18 e 19 de junho.

Mas o seu louvor não era inteiramente sem ressalvas.

“É evidente que os alemães eram assustadores para ele,” escreveu a revista Der Spiegel em Berlim.

Nos diários das três viagens que ele fez à Alemanha do pré-guerra, ele também reconheceu; “Hitler parece ser tão popular aqui quanto Mussolini na Alemanha, apesar de que a propaganda é provavelmente sua arma mais poderosa.”

Observadores dizem que suas anotações variam da aversão à atração pela Alemanha.

O livro também contém suas impressões quando caminhou por uma Berlim destruída após a guerra: “Um fedor insuportável de corpos – doce e repugnante.”

E sobre o Führer morto ele disse; “Sua ambição ilimitada por seu país tornou-o uma ameaça à paz no mundo, mas ele tinha algo de misterioso. Ele foi uma lenda.”

O editor do livro acredita que ele era “sinistramente fascinado” pelo Fascismo.

Notas:    

* A famíla Kennedy era irlandesa.


 
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2329556/How-JFK-secretly-ADMIRED-Hitler-Explosive-book-reveals-Presidents-praise-Nazis-travelled-Germany-Second-World-War.html