domingo, 14 de julho de 2013

O Mito de Guernica

James S. Corum

Este texto faz parte do livro “Inflated by Air: Common Perceptions of Civilian Casualties from Bombing.


Em 26 de abril de 1937, talvez a incursão de bombardeio convencional mais famosa de todos os tempos foi conduzida durante a Guerra Civil Espanhola. Naquele dia, Guernica, uma cidade basca, e centro cultural, foi arrasada pela Luftwaffe (a força aérea alemã), que estava servindo sob o comando do governo nacionalista espanhol. O bombardeio de Guernica foi rapidamente transformado em um evento de proporções místicas e a versão dos eventos aceita pelo público e lideranças da Europa e América pareciam provar as piores predições das baixas civis que resultariam de um bombardeio aéreo. Guernica foi caracterizada como “bombardeio de terror” de civis inocentes conduzido com o intuito de castigar os não-combatentes e aterrorizar os sobreviventes até a submissão. O governo basco transformou o bombardeio de Guernica em uma grande propaganda e afirmou que 1.654 civis morreram e 889 ficaram feridos no ataque. As estatísticas de baixas e a interpretação padrão da incursão como um prelúdio para o bombardeio de terror de civis na Segunda Guerra Mundial continuou até hoje na literatura popular e histórica com poucas mudanças.

Os fatos sobre o bombardeio de Guernica guardam pouca semelhança com o mito. Guernica era uma pequena cidade de 5.000 a 7.000 pessoas que em abril de 1937 estava localizada próxima das frentes de combate. A Legião Condor alemã escolheu-a como alvo por razões puramente táticas. Guernica tinha uma ponte e uma importante interseção de estradas que eram vitais para a retirada da maioria dos 23 batalhões do exército basco, localizado a leste de Guernica, e no processo de evacuação para as linhas fortificadas próximas a Bilbao. A interseção de estradas, dois batalhões do exército basco estacionados na cidade, e a preocupação dos nacionalistas que os bascos pudessem fortificar a cidade tornaram legítima sua seleção como alvo para ataque aéreo.

Os alemães atacaram a cidade com 43 bombardeiros e caças e despejaram entre 40 e 50 toneladas de bombas de alto explosivo e incendiárias, que destruíram metade da cidade e infligiram grandes baixas. A incursão foi absolutamente típica da Guerra Civil Espanhola. Devido à baixa precisão dos bombardeios contra alvos pontuais, as tripulações consideravam as vilas como sendo melhores alvos. O raciocínio foi revelado em um relatório da Legião Condor de 1938: “Temos tido resultados notáveis em atingir alvos próximos do front, especialmente no bombardeio de vilas que mantém reservas e o quartel-general do inimigo. Temos tido grande sucesso porque estes alvos são fáceis de encontrar e podem ser destruídos totalmente pelo bombardeio geral.” A liderança nacionalista estava totalmente ansiosa sobre o bombardeio de pequenas cidades próximas das linhas de combate. Mesmo as histórias oficiais da Guerra Civil espanhola contém fotografias e relatos do bombardeio de pequenas cidades ocupadas por legalistas pela Força Aérea Nacionalista.

Correspondentes estrangeiros escrevendo para o Times de Londres e o New York Times em conjunto com os membros do governo basco, entretanto rapidamente classificaram o bombardeio de Guernica como “ataque terrorista”. Um correspondente escreveu: “O objetivo do bombardeio parece ter sido a desmoralização da população civil e a destruição do legado da raça basca.” A estória tornou-se gradativamente mais embelezada. Os jornais de Nova York e Londres escreveram extensivamente sobre o ataque. O New York Post publicou uma charge sobre Guernica mostrando pilhas de corpos de civis mortos na “Cidade Santa de Guernica” com Hitler pairando sobre a cidade arrasada com uma espada coberta de sangue que foi nomeada como “incursões aéreas”. O Registro Congressista americano mesmo indicou o uso de gás venenoso em Guernica – um evento que jamais ocorreu. No Parlamento britânico, discursos foram feitos denunciando o ataque e imprecisamente descrevendo Guernica como “cidade aberta” que não continha nenhum alvo militar. O relato do governo basco de 1.654 mortos e 889 feridos foi aceito sem críticas pela imprensa mundial. De fato, a impressão foi dada que Guernica era uma metrópole ao invés de uma pequena cidade e que a Luftwaffe de 1937 já possuía a capacidade de apagar cidades inteiras do mapa – algo que estava muito além da capacidade da força aérea alemã na época. Acima de tudo, a imprensa já estava condicionada a esperar a destruição de cidades inteiras pelo ar e a seleção de alvos civis seria a primeira consequência das guerras vindouras. Parecia que o futuro havia chegado.

Em Guernica, todos os principais componentes deste estudo chegaram em foco prematuro, porém nítido. Os governos republicanos espanhol e basco tinham todos os motivos para exagerar nas baixas civis em Guernica para efeitos propagandísticos. De fato, a versão do ataque que foi disseminada teve grande efeito na causa republicana. Simultaneamente, a imprensa, o público e a liderança política foram condicionados a aceitar números exagerados para as baixas civis. Mesmo assim, outro elemento é a persistência da estória original. Poucos historiadores tem se interessado em examinar criticamente os eventos de Guernica, e décadas mais tarde, o número original de 1.654 mortos é ainda citado em textos históricos.

Portanto, o número oficial de baixas em Guernica merece uma análise mais detalhada. Se os números oficiais estão corretos, então o bombardeio da Legião Condor de Guernica resultou em 41 fatalidades por tonelada de bomba (1654 mortos para 40 toneladas de bomba aproximadamente). Este é um número extraordinário quando comparamos Guernica com os ataques aéreos mais devastadores da Segunda Guerra Mundial. Na incursão de Hamburgo de julho de 1943, a RAF despejou 4.644 toneladas de bombas produzindo cerca de 7,5 fatalidades por tonelada de bombas. No bombardeio anglo-americano de Dresden em fevereiro de 1945, as forças aéreas aliadas despejaram 3.431 toneladas de bombas produzindo entre 7,2 a 10,2 fatalidades por tonelada. Em contraste com as incursões de bombardeiros contra cidades na Segunda Guerra Mundial, o número de baixas de Guernica parece simplesmente inacreditável. Hoje, é impossível obter um número exato para as baixas de Guernica já que os nacionalistas espanhóis afirmam que a cidade nunca foi atacada por ar e os republicanos dinamitaram a cidade para uso propagandístico. O número chutado foi mantido oficialmente durante a ditadura de quarenta anos de Francisco Franco e, presumivelmente, a polícia secreta de Franco eliminou qualquer evidência sólida (atestados de óbito, registros de hospitais e igrejas, etc.) do bombardeio conduzido sob ordens nacionalistas. Entretanto, mesmo uma estimativa realista considerando uma alta taxa de eficiência (7 a 12 fatalidades por tonelada de bomba) conduziria a um número de fatalidades entre 300 e 400 em Guernica. Certamente, trata-se de um evento sanguinário, mas relatar que uma pequena cidade teve algumas centenas de mortos não tem o mesmo efeito que dizer que uma metrópole bombardeada teve quase 1.700 mortos.

Os relatórios do bombardeio de Guernica tiveram o efeito de confirmar as previsões dos teóricos do poder aéreo em relação às baixas civis. No gabinete francês durante as sessões de estratégia de 1938, estimativas extravagantes foram feitas a respeito da capacidade alemã em infligir baixas na população francesa por bombardeio. O general francês da força aérea, Dentz, previu na época da crise dos Sudetos em 1938 que as cidades francesas tornar-se-iam ruínas. Um membro do gabinete francês disse a respeito do possível bombardeio aéreo alemão das cidades francesas que “nossas cidades serão varridas, nossas mulheres e crianças serão massacradas.” Durante a Crise de Munique em 1938, cerca de um terço da população parisiense abandonou a cidade para evitar o bombardeio alemão.

Na Grã-Bretanha, durante os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, as atitudes e estatísticas dos efeitos do bombardeio aéreo foram praticamente os mesmos. O cientista britânico Lorde J.B.S. Haldane escreveu um livro sobre defesa contra incursões aéreas em 1938 que postulava uma fórmula de 20 fatalidades para cada tonelada de bomba despejada sobre Londres. Ele previu que uma força de bombardeiros alemães de 270 aviões poderia despejar 400 toneladas de bombas e provavelmente matar 8.000 pessoas e ferir mais de 15.000. Ele esclareceu que isso poderia ser feito diversas vezes por dia e que o “golpe explosivo” poderia matar entre 50.000 e 100.000 londrinos. O staff da RAF disse ao governo nos anos 1930 esperar cerca de 20.000 baixas por dia se os alemães atacassem. No início da guerra, o governo esperava fornecer 750.000 leitos para os hospitais para receber o número esperado de vítimas. De fato, mesmo nos dias mais sombrios da Blitz, não mais que 6.000 leitos foram necessários. Como Harold McMillam  mais tarde lembrou sobre as percepções daquela época, “Pensávamos na guerra aérea em 1938 como as pessoas pensam hoje da guerra nuclear.”

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quarta-feira, 10 de julho de 2013

[POL] “Reductio ad Hitlerum”

K. R. Bolton

 
A “erudição” no estudo do Terceiro Reich é medida em relação a um axioma de facto que está centrado em torno do Holocausto, assim como com as discussões concomitantes sobre experimentos médicos e outros aspectos da suposta brutalidade nazista única. Qualquer coisa menor do que isso é rotulada por estudiosos como Deborah Lipstadt como “relativizar o Holocausto”, o que é aparentemente mesmo pior do que o “revisionismo do Holocausto”.

Redutcio ad Hitlerum é a técnica de arruinar um debate acusando o oponente de ser um nazista. Leo Strauss, um filósofo judeu, criou o termo em 1951, explicando-o em 1953:

"Na sequência deste movimento em direção ao seu fim nós inevitavelmente deveremos alcançar um ponto além do qual a cena é obscurecida pela sombra de Hitler. Infelizmente, isso não será feito sem dizer que, na nossa análise, é preciso evitar a falácia que nas últimas décadas tem sido frequentemente utilizada em substituição ao reductio ad absurdum: o reductio ad Hitlerum. Uma opinião não é refutada pelo fato de ocorrer que ela tenha sido compartilhada por Hitler."

A pesquisa informativa “A Falácia ordena” dá um exemplo de reductio ad Hitlerum:

“As ideias de ecologistas de espécies invasivas – espécies forasteiras como elas são frequentemente chamadas – parecem semelhantes à retórica anti-imigração. Os temas verdes como escassez e pureza e invasão e proteção têm ecos totalmente na direita. As ideias de Hitler sobre ambientalismo vieram, acima de tudo, da pureza.”

A citação acima por uma “feminista radical”, Betsy Hartmann, é parte de um lamento sobre o suposto “controle direitista” do movimento ecológico, cujos proponentes têm, aparentemente, defendido restrições à imigração, que é semelhante ao nazismo para aqueles que empregam compulsivamente o reductio ad Hitlerum em seu discurso intelectual. Como evidência disso, Hartmann cita a edição do jornal acadêmico População e Meio-Ambiente pelo professor Kevin McDonald, junto com o falecido J. Philip Rushton, que pertencia à diretoria editorial, ambos considerados “racistas”.

“A Falácia ordena” explica o reductio ad Hitlerum:
 
 
Apesar do termo reductio ad Hitlerum ter sido cunhado por Strauss ainda em 1951 na edição da primavera do jornal Medida, ele é muito útil. O Dr. Thomas Fleming, membro do movimento Católico Conservador Americano, presidente do Instituto Rockford e editor do Crônicas, definiu convincentemente o reductio ad Hitlerum:

“Leo Strauss o chamou reductio ad Hitlerum. Se Hitler gostava de arte neoclássica, isto significa que o classicismo é, em toda forma, nazista; se Hitler queria fortalecer a família alemã, isto torna a tradicional família (e seus defensores) nazista; se Hitler falava da ‘nação’ ou do ‘povo’, então qualquer evocação de nacionalidade, afiliação étnica, ou mesmo atributo popular é nazista.”

Por exemplo, o lobby “pró-armamento” argumenta que Hitler – como ditador – estabeleceu um confisco em massa de armas particulares no Terceiro Reich e, portanto, os defensores do “controle de armas” estão adotando uma postura como a de Hitler. Isto, como tudo mais que se passa como verdade nos meios acadêmicos, é superficial, na melhor das hipóteses. Entretanto, esta é uma indicação do quão o reductio ad Hitlerum pode ser totalmente distorcido, de modo que é o lobby pró-armamento que pode ser encarado como sendo mais hitlerista, pois como o comentarista liberal Chris Miles mostrou, quando Hitler assumiu o poder, a quantidade de armas privadas era aquela imposta pelo Tratado de Versalhes. Citando o professor Bernard Harcourt da Universidade de Chicago, sobre o Ato de Armamento alemão de 1938, que os anti-nazistas pró-armamento também citam como prova de que Hitler queria desarmar a população, “As revisões de 1938 desregularam completamente a aquisição e transferência de rifles e armas curtas, assim como munição.” Restrições que foram mantidas somente envolviam armas de fogo portáteis, que pessoas corretas poderiam portar se elas mostrassem uma boa razão para isso. Miles continua:

“O grupo de pessoas que eram privilegiadas com a aquisição do porte de armas expandiu-se. Caçadores profissionais, servidores públicos e membros do Partido Nazista não estavam mais sujeitos a restrições do porte de armas. Antes da lei de 1938, somente funcionários do governo central, dos estados e empregados da Reichsbahn (Rodovia) alemã eram privilegiados. As permissões aumentaram de um para três anos. Tanto no ato de 1928 quanto no de 1938, os fabricantes de armas e comerciantes eram obrigados a manter registros com informações sobre os compradores e o número de série das armas. Estes registros deveriam ser entregues à autoridade policial para inspeção no final de cada ano.”

Foi sob o regime da autoridade aliada de ocupação que os alemães foram completamente desarmados entre 1945 e 1956.

Avanços Sociais no Terceiro Reich Suprimidos

É em relação a este ponto de vista que os “horrores do nazismo” têm sido usados para esconder e suprimir os avanços do regime em um espectro de assuntos que afetam o mundo contemporâneo. Por causa da visão dogmática de que tudo é hitlerista, algumas descobertas e avanços importantes têm sido escondidos sob uma pilha de corpos figurativa, que previne o mundo de uma análise acadêmica racional de avanços em áreas como a saúde, ecologia e sistema financeiro, ou, alternativamente, como mencionado, colocam alternativas sérias para os problemas na defensiva ao compará-las com o nazismo.

É notável que alguns avanços do Terceiro Reich foram tomados e desenvolvidos quando serviram a interesses poderosos. O exemplo mais aparente está na área de foguetes e outros armamentos avançados criados pelo Terceiro Reich, quando havia uma luta entre a União Soviética e os EUA para sequestrar “cientistas nazistas” após a guerra. Detalhes disso são incontestáveis, embora ainda estejam obscuros:

A Operação Clipe de Papel foi o nome sob o qual a inteligência americana e os serviços militares levaram cientistas embora da Alemanha durante e após os estágios finais da Segunda Guerra Mundial. O projeto era originalmente chamado de Operação Overcast e é, algumas vezes, conhecido como Projeto Paperclip.

De interesse particular foram os cientistas especializados em aerodinâmica e foguetearia (como aqueles envolvidos nos projetos da V-1 e da V-2), armas químicas, tecnologia da propulsão a jato e medicina. Estes cientistas e suas famílias foram secretamente levados aos Estados Unidos, sem a aprovação do Departamento de Estado; seus serviços para o Terceiro Reich de Hitler, sua associação com o Partido Nazista ou com a SS, assim como a classificação de muitos como criminosos de guerra ou ameaças à segurança também os desqualificavam para obter o visto de entrada. Um objetivo da operação era capturar equipamento antes dos soviéticos. O Exército americano destruiu parte do equipamento alemão para prevenir que fosse capturado pelo Exército Soviético durante seu avanço.

A maioria dos cientistas, cerca de 500, foi deslocada para o Campo de Testes de White Sands, Novo México, Forte Bliss, Texas e Huntsville, Alabama, para trabalhar em mísseis guiados e tecnologia de mísseis balísticos. Isto, por sua vez, resultou na criação da NASA e do programa de ICBMs americano.

Muito da informação sobre a Operação Clipe de Papel ainda é secreta.

Muito mais que o Paperclip foi o esforço para capturar os segredos nucleares alemães, equipamentos e pessoal (Operação Alsos). Outro projeto americano (TICOM) reuniu os especialistas alemães em criptografia.

O Departamento de Minas dos EUA empregou sete cientistas alemães especialistas em combustível sintético em uma planta da Fischer-Tropsch em Louisiana, Missouri, em 1946.

Supressão da Pesquisa contra o Câncer

A Alemanha hitlerista foi pioneira em muitos programas de saúde pública e bem-estar e no estudo da prevenção de doenças, a relação entre o cigarro e o câncer, etc. De fato, o regime estava décadas adiante em relação aos atuais estados democráticos, os quais orgulham-se de serem “progressistas”.

A mãe de Adolf Hitler morreu de câncer*. Com os lucros do livro “Minha Luta” (Mein Kampf), ele doou 100.000 marcos para a pesquisa de câncer que ele mesmo encomendou à Universidade de Jena. A campanha anti-tabagismo na Alemanha nazista foi a pioneira no mundo. Graças a ela:

* O fumo foi proibido nos escritórios da Força Aérea e do Serviço Postal;

* O fumo foi banido dos departamentos de polícia;

* Os restaurantes e cafés foram proibidos de vender cigarros a mulheres;

* Cupons de cigarro foram proibidos a mulheres grávidas;

* O fumo entre menores de 18 anos foi tornado ilegal; e

* Propagandas de cigarros foram severamente controladas.
 

Campanha antitabagista na Alemanha nazista
 
A supressão da pesquisa de saúde alemã é uma das grandes tragédias do modo como o reductio ad Hitlerum impactou em muitas vidas. Com tal mentalidade, Peter Dunne, o único membro do Parlamento neozelandês do Partido do Futuro Unido, descreveu os lobistas para as restrições ao cigarro em 2003 como “nazistas da saúde.” Uma notícia detalhou o caso:

O líder da Coalizão Livre do Cigarro está questionando o quão o Futuro Unido é amigo da família. O líder do partido Peter Dunne atacou os simpatizantes do Livre do Cigarro como “nazistas da saúde” e fanáticos de olho gordo. Leigh Sturgiss diz que tal linguagem é inapropriada e horrorosa. Ela diz que os proponentes do controle do cigarro querem SALVAR vidas, e não destruí-las. Ela diz que Peter Dunne tem um histórico de votar contra o controle do tabagismo, que é uma contradição aos valores de seu próprio partido.

É notável que entre aqueles que foram selecionados pelos EUA na Operação Clipe de Papel estivesse o pesquisador de câncer, Dr. Kurt Blome, vice-líder da Saúde do Reich (Reichsgesundheitsführer) e Plenipotenciário para Pesquisa contra o Câncer no Conselho de Pesquisa do Reich. O Dr. Blome foi capturado e conduzido aos EUA, segundo um documento que descrevia sua relevância:

Em 1943, Blome estava estudando guerra bacteriológica, apesar de que oficialmente ele estivesse envolvido em pesquisas contra o câncer, a qual era, contudo, somente uma camuflagem. Blome também serviu como vice-ministro do Reich. Gostariam de enviar isso aos investigadores?

Notemos que o interesse no Dr. Blome não foi motivado por sua pesquisa contra o câncer mas como desenvolvedor de armas biológicas. Além disso, o relatório americano se refere à pesquisa do câncer somente incidentalmente como uma cobertura para a pesquisa nazista em guerra bacteriológica. A implicação deste relatório é que a pesquisa sobre o câncer no Reich de fato não existia; era uma farsa para esconder experimentos médicos abomináveis com o objetivo de desenvolver armas biológicas.

O Dr. Blome, como diz o relatório, foi salvo da masmorra, tendo sido acusado pelos americanos de experimentar vacinas nos prisioneiros do campo de concentração de Dachau, e em 1951, ele foi contratado pelo Corpo Químico do Exército Americano para trabalhar na guerra química.

O que isto indica é que foram os EUA que tiveram o interesse particular nas descobertas alemãs da guerra química e não tiveram nenhum interesse nas descobertas alemãs em relação ao câncer, dando a impressão que não havia nenhuma pesquisa sobre este assunto na Alemanha. Tais controvérsias servem para esconder os avanços sob o Nacional Socialismo. A erudição precisa de objetividade e isto não é possível enquanto os estudos sobre o Terceiro Reich estiverem sendo feitos a priori segundo um absolutismo moral do tipo dualidade zoroastriana, que necessariamente rotula qualquer coisa e tudo a ver com o Terceiro Reich como sendo inerentemente má, inclusive a pesquisa sobre câncer, ecologia, Autobahns (autopistas) e reforma bancária.

Assim, o que o professor Robert N. Proctor relata em seu livro, “A Guerra Nazista contra o Câncer”, somente pode ser analisada através das lentes distorcidas da propaganda de guerra, isto é, de que tal medicina social pioneira foi realizada com más intenções. O mesmo pode ser dito a respeito dos trabalhos públicos no programa Autobahn, de modo que seu objetivo era permitir uma rede de estradas capazes de mobilizar militarmente de forma rápida a Alemanha. Ocasionalmente, a verdade emerge de forma incidental dos próprios estudos ortodoxos: por exemplo, o Dr. Frederic Spotts, em seu livro “Hitler e o Poder da Estética”, escreve que as Autobahans eram admiradas no mundo inteiro como um “avanço inovador, bem sucedido e brilhante.”

Suas rodovias divididas, de extensão generosa, engenharia soberba, sensibilidade ambiental, harmonia com o interior do país, paisagens maravilhosas, entradas e saídas em trevo, viadutos e trincheiras uniformes, estações de serviço modernas, instalações de restaurantes e hotéis eram os mais avançados em relação a qualquer outro lugar e se apresentavam como um modelo para o mundo.

Enquanto a Autobahn é convencionalmente retratada como um exemplo da preparação militar da Alemanha, o Dr. Spotts teve a coragem de mostrá-la de outra maneira: “O que não é popularmente apreciado é que Hitler considerava estas autopistas acima de tudo como monumentos estéticos.” Pela primeira vez, as estradas não eram construídas sob o ponto de vista utilitário, mas sim trabalhos de arte duradouros, comparáveis às pirâmides.” O Dr. Spotts continua:

As Autobahns foram, portanto, criadas não somente para facilitar as idas e vindas de automóveis, mas também para mostrar a beleza natural e arquitetônica do país. As rotas eram escolhidas para atravessar áreas atraentes sem perturbar a harmonia das montanhas, vales e fazer com que a própria rodovia desse voltas, apesar dos custos adicionais, para oferecer uma visão particularmente impressionante. Grande esforço foi feito na construção de modo a minimizar o dano ao meio ambiente.

O modo como o Dr. Spotts se afasta de seu relato positivo dos avanços ecológicos e técnicos do Reich é revelado ao descrever a estética de Hitler como apenas “outro exemplo de autoindulgência megalomaníaca.” Assim, mesmo com este avanço notável, como tantos outros no Terceiro Reich, devemos ser lembrados que tudo no final repousa na maldade difundida de um único homem. Sendo assim, independentemente dos motivos de Hitler, tal reducionismo previne uma consideração racional e objetiva de tais avanços. Tivesse o Dr. Spotts descrito os avanços da construção de estradas nos EUA e na Inglaterra durante os anos 1930, por exemplo, o leitor ficaria com a impressão duradoura de um governo que havia alcançado muito das necessidades atuais. Entretanto, desde que um avanço notável foi feito por Hitler, ele é reduzido, mesmo pelo Dr. Spotts, a outro exemplo de megalomania de uma única pessoa má. Mas o Dr. Spotts detona um dos grandes mitos daquela era, qual seja, de que a Autobahn foi primariamente criada com objetivos militares. Falando sobre Todt, chefe do projeto, Spotts afirma que enquanto os argumentos de Todt para a Autobahn incluíam objetivos militares, “Hitler jamais se sensibilizou com essa noção. De fato, as rotas não percorriam linhas de frente, as superfícies eram muito finas para suportar tanques e por aí vai. Longe de serem úteis à Wehrmacht, as estradas, com a suas superfícies brancas brilhantes, provaram ser úteis às aeronaves inimigas ao fornecer pontos de orientação, de modo que elas tiveram que ser cobertas de tinta.”

 

Hitler começa os trabalhos da primeira autopista da Áustria em 7 de abril de 1938
 
Assim, enquanto a Autobahn, sendo um triunfo da ecologia e da engenharia, pode ser relegada ao reino da megalomania, a lição explicada pelo livro do Dr. Proctor sobre a pesquisa contra o câncer e outras pesquisas médicas no Terceiro Reich é, de acordo com o crítico do The Washington Post, “um conceito próximo do perturbador – a “banalidade do bem.”

A pesquisa do Terceiro Reich ligando o tabagismo com o câncer torna-se, portanto, banal, estúpido, trivial e outras palavras associadas com “banalidade”. Tivessem os EUA interessados em tais pesquisas, tanto quanto estavam interessados nos armamentos alemães, muitos milhões de pessoas teriam agradecido por tal pesquisa, independentemente do regime sob o qual ela foi conduzida. Entretanto, quando o público em geral ouve a respeito das pesquisas médicas alemãs é sobre os alegados abusos em prisioneiros e “racialmente inferiores”, conduzidas por indivíduos como o Dr. Joseph Mengele, que é descrito realizando alguns experimentos médicos abomináveis, apesar de ser um grande geneticista.

O que esta “banalidade do bem” – nas palavras do critico do Washington Post sobre o livro de Proctor – incluía era um esforço persistente para estabelecer uma população sadia. Naturalmente, os motivos para isto seriam criar uma “Raça Mestre” para conquistar o mundo, mas independente dos motivos, os resultados poderiam ter beneficiado a humanidade se não tivessem sido suprimidos em virtude de sua associação com o Terceiro Reich.

Proctor afirma que mais de mil dissertações de doutorados na área médica examinaram o câncer durante os doze anos do domínio nacional socialista. Pela primeira vez, registros da doença foram feitos, medidas de saúde pública preventiva foram tomadas, havia leis contra adulteração de alimentos e medicamentos, proibição do fumo e campanhas alertando contra o uso de cosméticos com componentes cancerígenos. Proctor faz a pergunta se estas e outras medidas de saúde pública resultaram na baixa incidência de câncer entre os alemães durante os anos 1950. Isto coloca um dilema moral porque significa que “um dos regimes mais assassinos na história” poderia ter sido bem sucedido em reduzir as taxas de câncer. Outras campanhas, que somente em anos recentes foram feitas nos países ocidentais, alertaram as mulheres sobre a necessidade de realizar exames de câncer anuais ou bianuais, e as mulheres foram instruídas a fazer o exame do seio, de modo que a Alemanha foi aparentemente o primeiro país a adotar essa postura. Os efeitos da poluição e do amianto foram estudados com grande ênfase. Proctor diz que a Alemanha tornou-se o líder em documentar “a conexão entre o câncer de pulmão e o amianto” como doença ocupacional. Advogados americanos trabalhistas se basearam nessas pesquisas para defender suas causas.



"Mães evitam álcool e nicotina", diz o cartaz
 
Com a derrota da Alemanha, Karl Astel, chefe do Instituto de Pesquisa dos Males do Tabaco, que promoveu a proibição do fumo em locais públicos – algo realizado na Nova Zelândia há poucos anos atrás – cometeu suicídio. O Líder de Saúde do Reich, Leonardo Conti, enforcou-se com sua calça enquanto estava sob detenção dos Aliados. O presidente do Departamento de Saúde do Reich, Hans Reiter, serviu muitos anos na prisão, após o que ele trabalhou em uma clínica particular, mas nunca mais voltou à vida pública. Fritz Sauckel, responsável pelo trabalho de mão de obra estrangeira, e responsável pela legislação antitabaco de Astel, foi executado em 1946. Proctor comenta: “Não é de se surpreender que muito da motivação do movimento antifumo da Alemanha foi retirada.” Mesmo assim, outros cientistas foram levados pelos EUA a trabalhar em projetos militares durante a Guerra Fria.

Mesmo hoje, o movimento antifumo alemão não superou o ativismo e a seriedade dos anos de auge entre 1939 e 1941. A pesquisa de saúde sobre o tabaco está muda, e não é difícil de imaginar que as memórias do ativismo daquela geração mais velha ajudaram a perpetuar o silêncio. A memória popular da abstinência nazista ao cigarro pode bem ter destruído o movimento antifumo alemão do pós-guerra. Parece ter moldado como lembramos a história da ciência envolvida: o mito de que cientistas americanos e ingleses foram os primeiros a mostrar as causas tabagistas do câncer de pulmão, muito conveniente – tanto para os estudiosos dos países vencedores quanto para os alemães tentando esquecer seu passado recente.

Proctor também se agarra ao método do reductio ad Hitlerum ao suprimir as iniciativas antitabagistas, um exemplo disto sendo os comentários de Peter Dunne na Nova Zelândia. Proctor diz: “Os defensores do tabagismo começaram a agir de acordo com os nazistas,” falando de “niconazistas” e “fascismo tabagista”. Proctor se refere à Philip Morris da Europa publicando propaganda ofensiva nas revistas, a qual identifica fumantes como os judeus presos nos guetos e os não-fumantes como nazistas.

Estranhamente, Proctor rejeita a ideia de que se a pesquisa médica nazista não tivesse sido suprimida vidas teriam sido salvas. Ele diz que os Aliados tiveram muito interesse na pesquisa científica nazista, mas procede com o foco rapidamente na tecnologia militar. Onde os pesquisadores médicos nazistas sequestrados após a guerra foram empregados para ajudar nas causas do câncer, os efeitos do amianto, os benefícios de uma dieta saudável? Como descrito previamente, eles estavam mortos, na prisão ou relegados à obscuridade, enquanto os cientistas aeroespaciais estavam trabalhando diligentemente nos mísseis da Guerra Fria, antes de serem denunciados após ficarem velhos.

A Oposição à Usura era intrinsecamente Nazista?

O reductio ad Hitlerum está sendo usado para suprimir e cobrir outra questão importante: aquela das alternativas ao sistema de dívida bancária. Pouco é compreendido sobre o sistema das finanças dos regimes fascistas, e é geralmente dito que a Alemanha em particular alcançou a recuperação econômica pelo gasto com armamentos. Mesmo se aceitarmos essa ideia, ela explica pouco.

Uma diferença significativa entre aquela época e os tempos atuais é que, após a Primeira Guerra Mundial, muitas pessoas compreenderam a necessidade de mudar o sistema bancário e grandes movimentos reformistas como o Crédito Social em Alberta e o Partido Trabalhista na Nova Zelândia chegaram ao poder por sua plataforma pela reforma bancária. Pelo fato dos três principais países do Eixo também emitirem crédito estatal, controlarem o sistema bancário e conduzirem suas nações à prosperidade, esta importante questão também foi submetida ao reductio as Hitlerum.

Uma vítima importante desta tática foi Stephen M. Goodson, um economista sul-africano que trabalhou muitos anos (2003 – 2012) como diretor do Banco Central Sul-Africano. Goodson é também um ardoroso defensor da reforma bancária e fundador do Partido pela Abolição da Usura e Taxa de Juros. Pior ainda, ele não se inibiu ao descrever os sistemas bancários do Japão e Alemanha nos anos 1930 como exemplos de grandes estados que alcançaram o sucesso ao romper com a agiotagem bancária. (N. do T.: Goodson também deu declarações públicas contestando o Holocausto). Goodson foi rotulado de “negador do Holocausto”, mas foi sua declaração sobre os sistemas bancários do Eixo que causaram sua demissão.

O economista chinês, executivo do Grupo de Investimentos Liu localizado em Nova York, Henry C. K. Liu, que escreveu exaustivamente sobre as políticas econômicas do Terceiro Reich, foi poupado até agora da associação com os supremacistas brancos, e é ainda capaz de escrever colunas para o The Huffington Post e o Asia Times, etc. Liu escreveu um artigo detalhado sobre a política bancária do Terceiro Reich dizendo:

De fato, a recuperação econômica alemã precedeu e mais tarde permitiu o rearmamento alemão, ao contrário da economia americana, onde os obstáculos constitucionais criados pela Corte Suprema em relação ao New Deal atrasaram a recuperação econômica até que a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial colocou a economia de mercado em passos largos. Enquanto esta observação não é uma apologia à filosofia nazista, a eficácia da política econômica alemã neste período, parte da qual foi iniciada na última fase da República de Weimar, é inegável.

Notem que Liu repudia qualquer noção de que o sucesso “inegável” da política econômica do Reich é “uma apologia à filosofia nazista”, e que ele dispensa o clichê da recuperação econômica da Alemanha como sendo resultante do rearmamento. Liu descreve os Títulos de Criação de Trabalho (WCB, sigla em ingês) emitidos pelo Reich, comentando: “Mas o princípio dos WCBs pode ser aplicado aos EUA ou à China ou qualquer outro país atualmente para combater os altos níveis de desemprego. Aliás, esta ideia de bom senso recebe forte oposição de teorias obscuras de inflação na maioria dos países.”

Conclusão

O reductio ad Hitlerum é uma cria da confusão semântica que tem sido usada pelas forças convencionalmente chamadas de Esquerda, Direita e Centro. A metodologia tem sido usada para rotular os proponentes da saúde pública como “nazistas da saúde” e “niconazistas”. Os ecologistas têm sido chamados de “econazistas”. Um blog da internet chamado de “A Ralé Climática” “prova” que a ecologia é “nazista” ao mostrar vistas aéreas de uma floresta plantada durante o Terceiro Reich, na qual certas árvores foram plantadas de modo a formar uma suástica. O discurso “rios de sangue” de Enoch Powell em 1968 sobre a imigração da Nova Comunidade Britânica na Grã-Bretanha foi condenado por causa de alusões a Auschwitz, e o espectro do neonazismo ainda é evocado quando alguém questiona a imigração do Terceiro Mundo. O líder do Partido Trabalhista Tony Benn disse sobre o discurso de Powell: “A bandeira do racialismo que foi hasteada em Wolverhampton está começando a parecer com aquela que tremulava 25 anos atrás em Dachau e Belsen,” e assim permanece...

Agora, no meio de uma crise de dívida global, onde há uma luz – ainda assim pouco visível – de ressurgimento de ações alternativas à usura e à dívida, o reductio ad Hitlerum é lançado contra os defensores da reforma bancária. O método é uma perversidade social que ofusca soluções para os desafios atuais, ao negar a legitimidade de políticas que foram testadas e aprovadas.               


* Nota: ver tópico “O Judeu Favorito de Hitler”
 
 

domingo, 30 de junho de 2013

[POL] Hitler, um perfil do poder

Ian Kershaw


Como tema de um perfil de poder, Hitler é, tanto quanto seja possível conceber, um caso notável. Em seus primeiros trinta anos de vida foi um João-ninguém. Nos vinte e seis anos restantes de sua existência, deixou uma marca indelével na história, como ditador da Alemanha e instigador de uma guerra genocida. Como pôde tal figura, mesmo que por curtos anos, chegar a dirigir os destinos de uma das nações econômica e culturalmente mais desenvolvidas e avançadas do mundo?

É comum, hoje em dia, considerar-se que as abordagens se enquadram em duas categorias principais, que passaram a ser denominadas de “intencionalista” e “estruturalista” (ou funcionalista). No grupo “intencionalista” presume-se que a história do nazismo é a da implementação programada e consecutiva das intenções ideológicas de Hitler. Isto é, ele é concebido como uma clássica personificação do poder num Estado totalitário.

A abordagem contrastante, por outro lado, destacou o condicionamento das decisões políticas pelas pressões “estruturais”, tais como as limitações econômicas ou pelo “funcionamento” específico de alguns componentes-chaves do domínio nazista. À luz disso, Hitler foi retratado como preocupado com a manutenção de seu prestígio e de sua autoridade pessoal. Longe de ser um líder de poder pessoal irrestrito, Hitler poderia ser encarado como sendo um ditador fraco.

O “poder” pode ser abstratamente definido como “a probabilidade de que um ator, dentro de uma relação social, fique em condições de exercer sua própria vontade a despeito da resistência encontrada.” Uma chave para a compreensão da expansão gradativa do poder de Hitler pode ser encontrada em outro conceito de Max Weber: o de “dominação carismática”. Esse conceito se baseia nas percepções – por parte de um “séquito” de adeptos – de heroísmo, grandiosidade e de uma “missão” num “líder” proclamado. Tende a emergir em situações de crise e está sujeita a ruir em virtude da impossibilidade de atender às expectativas ou por se “rotinizar” num sistema capaz de se reproduzir somente através da eliminação da essência “carismática”.

Os aspectos específicos da variação alemã da “dominação carismática” decorrem da interação da crise generalizada que se vivenciou na Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial (e particularmente nos início dos anos trinta) com alguns traços específicos da cultura política alemã.

No início da década de trinta, estava à mão um pleiteante que era apoiado por uma organização que trazia todas as marcas de uma “comunidade carismática”. Ela abrangia o séquito imediato na elite da liderança nazista. Seu relacionamento com Hitler era determinado por vínculos de lealdade pessoal de um tipo arcaico, quase feudal. Outros defensores e exploradores cruciais do “carisma” de Hitler eram os líderes e funcionários das organizações estatais – dentro das quais a mais importante era a SS. Além deles, havia a massa de “adeptos de Hitler” na população em geral.

O “carisma” da personalidade de Hitler enraizava-se no poder que fluía – para os que lhe eram receptivos – de sua “ideia”, seu credo político, juntamente com a notável habilidade de agitar as massas.

Em termos de aparência física, Hitler era inexpressivo. Os hábitos pessoais eram rotineiros e conservadores. Embora seus conhecimentos fossem incompletos, unilaterais e dogmaticamente inflexíveis, ele era inteligente e sagaz. Gostava da companhia das mulheres, especialmente quando eram bonitas. Sabia fazer rir os que o cercavam e tinha um forte senso de lealdade. Entretanto, essas características pessoais teriam sido insuficientes para chamar a atenção para Hitler. Mas seu credo político e a convicção com que o expressava transformaram-no numa personalidade efetivamente extraordinária.

A essência da visão pessoal do mundo de Hitler compreendia a crença na história como uma luta racial, o antissemitismo radical, a conquista do “Lebensraum” (espaço vital) à custa da Rússia e uma luta de vida ou morte, até o fim, contra o marxismo – personificado, de maneira concreta, no “bolchevismo judaico” da União Soviética. Em meados da década de 1920, portanto, Hitler havia desenvolvido uma filosofia bem acabada, que lhe oferecia uma visão completa do mundo, de seus males e de como superá-los.

Hitler via a si mesmo como a mais rara das combinações: o “idealizador” e o “político” – o executor da ideia. Foi a combinação de “profeta” e propagandista que deu a vantagem de Hitler sobre todos os outros pretendentes potenciais à liderança na elite suprema do Partido Nazista. Faltavam a outros nazistas destacados a combinação do seu brilho demagógico, sua capacidade de mobilização e a unidade e “força explicativa” universal de sua visão ideológica. Rudolf Hess era introvertido. Julius Streicher não passava de um demagogo racista. Herrmann Göring era mais um homem de ação do que de ideias. Ernst Röhm era militar e organizador capaz, mas faltavam-lhe visão ideológica e talento retórico. Heinrich Himmler era um bom administrador, mas dotado de personalidade fria e desprovido de atrativos populares. Hans Frank era um tipo fraco e hesitante, emotivo e subserviente. Todos esses líderes nazistas se juntaram ao Movimento quando ele estava no ostracismo político, muito antes de chegar perto de conquistar o poder. Dificilmente se pode considerar o oportunismo político como a principal motivação de seu compromisso com a causa nazista. Na verdade, central para esse núcleo da “comunidade carismática” foi o poder da personalidade de Hitler.

A questão de como pôde um candidato tão improvável chegar ao poder tem sido formulada desde que Hitler foi nomeado Chanceler do Reich em 30 de janeiro de 1933. Foi como propagandista, agitador e demagogo incomumente talentoso que Hitler, a princípio, atraiu as atenções. Foi Hitler que anunciou o programa do Partido em 24 de fevereiro de 1920. O número de membros atingiu 2.000 no final de 1920 e 3.300 em agosto de 1921. Foram as garantias financeiras de Dietrich Eckardt, um dos mentores intelectuais de Hitler, somadas a uma contribuição de 60.000 marcos de um fundo do Reichswehr, obtida por Ernst Röhm e Karl Mayr, que permitiram ao Partido comprar seu próprio jornal, o “Völkisher Beobachter”, no início de 1921. O Partido continuou a se expandir rapidamente. Em fins de 1922, havia aproximadamente 20.000 membros e, na época do Putsch, cerca de 50.000.

Hitler roubou a cena durante seu julgamento, em fevereiro e março de 1924, dando a ele o direito de ser encarado como a nova figura de proa do movimento. Depois de sua libertação do presídio e da refundação do Partido em fevereiro de 1925, todo o poder sobre as decisões relacionadas com questões ideológicas e organizacionais residia na pessoa de Hitler. Nesse período, o culto a Hitler institucionalizou-se plenamente. Um símbolo externo expressivo da supremacia de Hitler foi a introdução da saudação “Heil Hitler” como uma forma compulsória de cumprimento entre os membros do Partido.

A força da posição de Hitler dentro do Partido remonta, principalmente, aos anos de “ostracismo” de 1925-28. Na época em que começou a onda eleitoral do nazismo no outono de 1929, a natureza do NSDAP como um “Partido do Führer”, no qual a ideia e a organização eram inseparáveis de seu líder, estava firmemente estabelecida.

O atrativo do líder “carismático” para as massas tem apenas uma relação indireta com a verdadeira personalidade e as atribuições de caráter desse líder. Provavelmente para a maioria dos que acabaram votando nos nazistas as questões prosaicas do “feijão com arroz” ou até o sentimento de que Hitler não poderia sair-se pior do que os demais predominaram sobre o fervor ideológico. Depois de 1929-30, a multiplicidade de grupos de interesse que atuavam fora do Movimento Nazista considerou o nazismo uma proposta atraente. Não obstante, uma vez expostos ao nazismo, todos os adeptos potenciais ficaram também inevitavelmente expostos à imagem “carismática” de Hitler. Este último inspirou, nos milhões que se deixaram atrair, a convicção de ele, e somente ele, apoiado por seu Partido, poderia por fim ao sofrimento vigente e conduzir a Alemanha a uma nova grandeza. O texto nu e cru de seus discursos os revela como um catálogo de banalidades e obviedades. Mas o clima, o cenário previamente montado e a aura mística de grandeza messiânica em torno de Hitler tornavam eletrizantes suas palavras para as plateias de massa.

Hitler observou a propaganda como sendo, de longe, a tarefa mais importante do Partido Nazista. Toda propaganda, de acordo com ele, tem que restringir seu nível intelectual à compressão do membro mais estúpido de sua plateia. O tema tem que ser explosivo. É agitar a raiva e a paixão e atiçar o fogo até que a multidão se enfureça.

As técnicas de propaganda de Hitler para conquistar as massas teriam pouco êxito, entretanto, sem as condições externas – Depressão, o agravamento da crise de governo e a desintegração dos partidos. Sem esse “mercado”, Hitler teria continuado a ser uma preferência minoritária insignificante. Sua plena conquista das massas veio somente após os nazistas silenciarem a opinião pública oposicionista e adquirirem controle completo dos meios de comunicação de massa. Acima de tudo, a imagem que a propaganda nazista retratava reiteradamente era a do poder, da força, do dinamismo e da juventude – uma marcha inexorável para o triunfo, um futuro a ser conquistado pela confiança no Führer.

Nota: Este texto compreende uma síntese dos capítulos 1 e 2 do livro homônimo de Kershaw. Para um entendimento mais completo do poder de Hitler sugere-se a leitura do livro.


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Hitler, além da maldade e da tirania


A Formação do Pensamento Político de Adolf Hitler  

sexta-feira, 28 de junho de 2013

[HOL] Poderia haver algo mais distorcido do que estes mentirosos do Holocausto?

Guy Walters

Daily Mail, 21/06/13

 


Apenas quatro dias antes do fim da guerra na Europa, uma unidade de soldados canadenses estava avançando por uma densa floresta a nordeste da Holanda. Acompanhando-os estava um membro da Unidade de Serviço Especial altamente secreta, um homem chamado Joe Corry.

Para todos os efeitos, Corry tinha tido uma guerra memorável. Ele havia matado um cientista nazista com uma besta, assistido ao Dia-D de uma casa nas praias de desembarque, resgatado o cientista nuclear J. Robert Oppenheimer (o conhecido pai da bomba atômica) da Holanda, instalou minas em submarinos, foi náufrago em Newfoundland e mesmo trabalhou com o futuro criador de James Bond, Ian Fleming, ele próprio um oficial da inteligência.

Mas, apesar de tudo o que ele viu, nada poderia preparar Corry para o que ele testemunharia aquele dia. Dentro da floresta havia um “campo de extermínio experimental” nazista, a visão do qual permaneceria com ele pelo resto da vida.

“A evidência viva e morta do horror e brutalidade além da imaginação de qualquer um estava lá,” escreveu Corry anos depois. “As pessoas estavam deitadas, rastejando e agonizando, numa lama que chegava aos joelhos e em excremento humano.”

Uma menina se aproximou dele, clamando por ajuda, mas não havia muita coisa que Corry pudesse fazer. Um rabino então aproximou-se e beijou a palma da mão de Corry, resmungando o que Corry supôs ser uma oração.

Enquanto Corry atravessou o campo, ele foi apresentado a visões gradativamente mais horripilantes, incluindo pilhas de corpos e colunas de “esqueletos vivos” entulhados em barracas de alvenaria.

Poucos dias depois, ele voltou e viu dois internos pegando carne da carcaça de um cavalo e “engolindo grandes pedaços”.

O que Corry viu aquele dia quase sete décadas atrás era um exemplo vívido do Holocausto, no qual seis milhões de judeus foram assassinados sob as ordens de Adolf Hitler.

Não é de estranhar que no início deste ano, a editora Simon & Schuster pegou a oportunidade para relançar esta memória extraordinária, publicada originalmente sem muito alarde em 1990.

A nova edição, para sair em 2014, foi descrita pelo editor de Corry como “tudo o que você queria ler em uma memória da Segunda Guerra Mundial – um relato emocionante como uma montanha-russa sobre bravura e voluntarismo que também inclui um golpe poderoso e emocional.”

Só tem um problema: simplesmente não é verdade.

Não havia tais “campos de extermínio experimentais” na Holanda, e os campos de concentração em solo holandês haviam sido descobertos bem antes de 4 de maio – o dia da rendição alemã na Holanda.

De fato, quase todas as afirmações de Corry sobre suas experiências de guerra são inventadas. Não havia uma “Unidade de Serviço Especial”; o professor Oppenheimer permaneceu nos EUA durante toda a guerra; não havia soldados britânicos escondidos em casas na orla das praias do Dia-D.

A lista de mentiras é atordoante e espalhafatosa. Sem surpresa que Mike Jones, diretor editorial da Simon & Schuster, agora diz: “Publicamos uma vasta lista de não-ficção, e adquirimos o livro com base no que nos foi dito. Não há nada neste mundo que nos faça publicar um livro que é inexato e fabricado. Agora que isto nos foi trazido à atenção por um especialista, devemos analisar estes fatos e conversar com o autor e o seu agente.”

Infelizmente, o conto de Corry é parte de um problema crescente dentro da indústria editorial, que é a venda ao público de um número crescente de “memórias” do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial que deveriam estar na verdade sendo vendidas na seção de “ficção”.

Este assunto foi abordado novamente por uma publicação recente da memória do Holocausto emocionante – e genuína – “Garoto 30529: Uma Memória”.

Infelizmente, o professor Weinberg, que ensinou por muitos anos no Imperial College em Londres, morreu antes que seu livro chegasse às livrarias em abril, mas ele deixou não apenas um grande número de documentos, mas também um ataque contra os inescrupulosos “sobreviventes” e seus editores. “Sempre evitei a literatura do Holocausto,” ele escreveu, “e achei alguns dos recentes relatos ficcionais, mascarados como estórias reais, algo profundamente perturbador.”

“Isto é equivalente a profanar os túmulos de guerra. Devemos pelo menos mostrar (aos mortos) respeito suficiente para abster-se das falsas estórias sobre como suas vidas terminaram.”

Um dos primeiros exemplos de uma falsa estória sobre o Holocausto foi um livro chamado “Fragmentos: Memórias de uma Criança durante a Guerra”, publicada por um músico chamado Binjamin Wilkomirski na Alemanha em 1995. (N do T.: dois após o filme “A Lista de Schindler” fazer sucesso nos cinemas.)

Como muitos de seus amigos mentirosos, Wilkomirski manteve seu relato de vida em campos como Auschwitz e Majdanek de maneira vaga e apresentou suas experiências – como o título do livro sugere – de uma maneira fragmentária.

Chocantes e poderosas, como as memórias do Holocausto tendem a ser, o livro foi aclamado criticamente por especialistas e público e vendeu em pelo menos 11 países.

Entretanto, em 1998, Wilkomirski foi exposto como sendo um mentiroso por um jornalista suíço, que revelou que o autor nunca esteve nos campos nazistas; ele era de fato chamado Bruno Gosjean e havia sido criado num orfanato.

Após a revelação de “Fragmentos”, poderíamos pensar que os editores teriam mais cuidado em analisar os manuscritos, mas isto não foi o caso.

Acima de tudo, os anos 1990 foram a década na qual as “memórias da miséria” tornaram-se moda e um conto do Holocausto é a memória da miséria por excelência.

Em 1996, Herman Rosenblat apareceu no programa de Oprah Winfrey com uma estória inacreditável para contar.

Quando menino, Rosenblat foi encarcerado em um campo de concentração chamado Schlieben, que era um sub-campo do infame Buchenwald.

Todos os dias, por sete meses, Rosenblat recebia maças e pão pela cerca do campo jogadas por uma menina judia chamada Roma – comida que o manteve vivo.

Então, Rosenblat foi enviado para outro campo, e ele achou que jamais veria Roma novamente.

Nos anos 1950, Rosenblat estava vivendo no Brooklyn nos estados Unidos, e um dia em 1957, ele começou a namorar uma jovem atraente. Surpreendentemente, a namorada era Roma e – como acontece em Hollywood – eles se casaram.

Curiosamente, levou muito tempo para a estória de Rosenblat atrair a atenção dos editores, mas finalmente, em 2008, ela foi vendida por uma soma desconhecida à Berkley Books, uma filial da Penguin, recebendo o título de “Um Anjo na Cerca” e programada para ser publicada no ano seguinte.

Além disso, um filme com orçamento de U$20 milhões foi planejado para iniciar as filmagens em março. Rosenblat estava a ponto de ficar milionário.

Mas então o livro chamou a atenção de pesquisadores do Holocausto e dos sobreviventes de Schlieben.

Eles não acreditavam que fosse possível para Roma e Rosenblat terem se encontrado na cerca do campo.

A estrada próxima do campo estava fechada e os prisioneiros só poderiam se aproximar dela com risco de morte. Não havia simplesmente nenhum modo da estória do anjo ter acontecido.

Em dezembro de 2008, o livro foi retirado do planejamento de publicação.

“Queria levar felicidade às pessoas,” disse Rosenblat de maneira pouco convincente. “Levei esperança a uma porção de pessoas. Minha motivação era fazer o bem para o mundo.”

Infelizmente, falsificar memórias do Holocausto para ganhar dinheiro faz tudo menos o bem.

Ainda em dezembro de 2007, a conhecida historiadora americana Deborah Lipstadt, doutora em Estudos Modernos Judeus e Holocausto na Universidade Emory em Atlanta, disse que a estória de Rosenblat “tem tantos furos que sequer sabemos por onde começar.”

Tais memórias, ao distorcer o registro histórico, têm um efeito reverso perverso. “Não somente precisamos ser exatos historicamente pelo simples bem da história,” ela disse, “mas acima de tudo, este tipo de material é combustível para os negadores do Holocausto.”

Este é um ponto-chave. Os negadores do Holocausto amam as memórias falsas, já que eles podem usá-las como “prova” de que a maioria das memórias do Holocausto é falsa.

Quando Misha Defonseca publicou em 1997 sua totalmente falsa “Misha: Uma memória dos Anos do Holocausto”, na qual ela afirmava ter sobrevivido o gueto de Varsóvia e ter sido criada por lobos, os negadores tiveram sua vez.

Dificilmente ajudou quando Defonseca embelezou sua justificativa burlesca para suas ações de que “não é a realidade verdadeira, mas é a minha realidade.”

Infelizmente, apesar de todos estes exemplos, os editores ainda estão ansiosos em vender memórias suspeitas baseadas no Holocausto e na guerra.

Em 2011, mostrei como as afirmações de Denis Avey de ter entrado em Auschwitz em seu livro “O Homem que venceu Auschwitz” eram baseadas em tantas discrepâncias que perguntas sérias foram levantadas sobre sua estória.

O que tornou particularmente suspeito foi uma entrevista que ele deu na qual ele lembrou tentando encontrar um australiano que trabalhava no crematório onde os corpos dos judeus mortos eram colocados. Aquela lembrança parece falsa, já que o australiano se chamava Donald Watt, que publicou um livro de memórias em 1995 sobre suas experiências do Holocausto que foram reveladas totalmente mentirosas.

Para os historiadores, livros como os de Avey e Watt parecem ser “lixo histórico” – páginas que saciam o apetite, mas não fornecem qualquer alimentação histórica.

Toda vez que eu leio uma memória escrita por um ex-combatente em seus anos de crepúsculo, encontro passagens que me fazem desconfiar.

Consideremos o exemplo do recente “Sobrevivente da Longa Marcha: Cinco anos como PdG, 1940-1945” por Charles Waite. Em um ponto, Waite lembra como ele presenciou um bebê judeu sendo arrancado de sua mãe por um guarda. “O bebê começou a chorar,” escreve Waite, “e ele jogou-o no chão e começou a chutá-lo como se fosse uma bola de futebol ao longo do trajeto.” A mãe histérica levou então um tiro na nuca, e o beb~e deixado morto no chão.

Esta estória pode ser verdadeira? É possível, mas somente temos a palavra de Waite para ela, e ele morreu ano passado.

Há tantas estórias sobre guardas matando bebês (geralmente, como no caso do livro de Avey, suas cabeças são esmagadas), e indubitavelmente algumas são reais.

Infelizmente, estamos agora entrando em uma situação onde quase toda memória do Holocausto apresenta tal cena. É quase uma mania compulsória – apesar de que, na verdade, tais eventos eram extremamente raros, pelo simples motivo de que matar bebês na frente de seus pais não é a melhor maneira de pacificar um trem cheio de prisioneiros.

Além disso, a maioria dos guardas não deseja matar crianças – uma das razões pelas quais as câmaras de gás foram criadas era para poupar os carrascos de presenciar a realidade do assassinato.

Entretanto, a frequência gradativamente maior na qual tais estórias terríveis de infanticídio estão começando a aparecer, após muitas décadas depois da guerra, sugere que alguns relatos são invenções, ou falsas memórias geradas por aqueles que estiveram submetidos a uma sobrecarga da literatura do Holocausto.

Outra mania nas memórias do Holocausto é a figura sinistra do doutor da SS Josef Mengele. Novamente, quase toda memória escrita por um sobrevivente de Auschwitz lembrará de Mengele durante uma “seleção”, determinando quem será enviado para as câmaras de gás. Geralmente, ele está cantarolando uma ária wagneriana e usando uma capa perfeitamente branca.

Na verdade, Mengele era apenas um dos muitos “médicos” empregados no campo, e ele não estava presente em todas as seleções.

Mês passado, uma outra memória levanta muitas questões. O livro “Os pássaros ainda cantam no Inferno?” conta a estória de um soldado britânico chamado Horace Greasley, que “escapou mais de 200 vezes de uma prisão alemã para ver a garota que ele amava.”

Assim como muitos outros destes relatos, o livro pode se tornar um filme.

Misteriosamente, o registro de PdG de Greasley mantido nos Arquivos Nacionais não faz nenhuma menção a essas 200 “fugas”.      

Campos de trabalho para soldados como Greasley não eram locais rigidamente vigiados evocados pela nossa imaginação coletiva, que está desacostumada a imagens de Colditz e de “Fugindo do Inferno” (The Great Escape, título do filme em inglês). De fato, dormir fora do campo para confraternizar com garotas locais não era incomum, e certamente não “escapar” no sentido que a maioria de nós o entende.

Sem dúvida, haverá mais livros deste tipo. Com as editoras lutando para vender o último conto de bravura da Segunda Guerra Mundial, ou da miséria do Holocausto, parece ser difícil que esse gênero morrerá.

Mesmo assim, existe algo de profundamente repugnante sobre esta distorção e exploração das memórias vacilantes de idosos para conseguir alguns tostões.

Alguém lendo estes livros poderia parar e perguntar-se se o que ele tem em suas mãos é, de fato, verdade.


 
Alguns livros do Holocausto publicados no Brasil nos últimos anos
  • Paisagens da Memória. Ruth Klüger.
  • O Filho do Holocausto. Jorge Mautner.
  • Holocausto, uma História. Deborah Dwork
  • Os Desaparecidos. Daniel Mendelsohn.
  • Holocausto: crime contra a humanidade. Maria Luiza Tucci Carneiro.
  • Eu, filha de sobreviventes do Holocausto. Berenice Bernstein
  • Anjos e Safados no Holocausto. Roberto Lopes.
  • Nazismo – Política, Cultura e Holocausto. Maria Mansor D´Alessio.
  • O Colecionador de Lágrimas. Augusto Cury.
  • Baú de Lágrimas. Nonna Banister.
  • Holocausto. Angela Gluck Wood.
  • O Holocausto. Martin Gilbert.
  • O caso Sonderberg. Elie Wiesel.
  • Liquidação. Imre Kertesz.
  • A História de Eva. Eva Schloss
  • Sob o fantasma do Holocausto. Rebecca Boehling.
  • A Busca. Gilberto Dimenstein.
  • Comédia em tom menor. Hans Keilson.
  • Quem escreverá nossa história? Samuel Kassow.
  • A lista de Schindler. Thomas Keneally.
  • Maus. Art Spiegelman.
  • Jakob, o mentiroso. Jureck Becker.
  • O Diário de Mary Berg. Mary Berg.
  • Mestres da Morte: a invenção do Holocausto pela SS Nazista. Richard Rhodes.