quarta-feira, 7 de agosto de 2013

[POL] O Carrasco de Hitler

Richard J. Evans, Timothy Snyder e Istvan Deak

“Não está longe a época quando a Palestina será capaz de aceitar seus filhos (os judeus) que estiveram perdidos por mais de mil anos. Nossos melhores sentimentos juntamente com nossos desejos oficiais sinceros vão com eles.”

Reinhard Heydrich, no artigo “O Inimigo Visível”, publicado em maio de 1935.  

 
Poucos líderes nazistas têm exercido fascínio tão grande para a posteridade quanto Reinhard Heydrich, chefe do serviço secreto da SS e da Gestapo, e a figura principal, depois de seu chefe Heinrich Himmler, no planejamento e execução do extermínio em massa de 6 milhões de judeus europeus.

O diplomata suíço Carl J. Burckhardt o chamou de “o jovem deus da morte” do Terceiro Reich; um oficial da SS o descreveu após a guerra como “a personalidade mais demoníaca na liderança nazista”; outro falou que sua “inteligência incomum era acompanhada pelos instintos sempre vigilantes de um animal predador” que “tal como numa matilha de lobos ferozes, deveria sempre provar-se o mais forte.” Brutal, sangue-frio e ambicioso, Heydrich é visto por alguns como um tecnocrata do extermínio em massa que tratava a ideologia como uma ferramenta política; para outros, como uma personalidade complexa e autoaversiva cujo fanatismo expressava seu ódio paranoico em relação à sua suposta ancestralidade judaica.

Reinhard Heydrich projetou de forma bem sucedida a imagem de um pai de família ideal e marido, apesar de ele ter se comportado de maneira insensível em relação aos seus pais quando estes passaram dificuldades e tenha traído sua esposa, uma nazista devota, abertamente. Mesmo assim, Heydrich era também um violonista empenhado com um amor sincero e talento para música clássica. Com seu próprio encanto, ele foi bem recebido na alta sociedade. Ele era um grande atleta, um esgrimista soberbo, cavaleiro e campeão de vela. E ele não era covarde: durante a guerra, Heydrich costumava servir voluntariamente como piloto de caça nas horas vagas. O mais importante, contudo, era que ele estava empenhado em sua tarefa autonomeada de construir um império mundial para o seu Führer, um que se moldaria aos seus próprios planos. Isto consistia em colocar um fim violento à mistura étnica na Europa, tudo para o interesse dos povos germânicos e seu próprio poder. Para atingir o objetivo, ele sistemática e metodicamente se empenhou no assassinato de milhões e estava preparando – quando foi morto em 1942 – para matar dezenas de milhões a mais. Mesmo em seu fim violento, Heydrich cumpriu seu papel de anjo da morte: muitos milhares foram executados após seu assassinato por dois agentes tchecos.

Em seu novo livro, Robert Gerwarth ataca estes e outros julgamentos de Heydrich em uma grande biografia, a primeira tentativa séria em uma vida acadêmica. Ele tentou compensar a falta de quaisquer documentos pessoais revirando arquivos através da Europa e nos EUA, conseguindo de forma bem sucedida desmistificar muitos mitos, incluindo, decisivamente, aquele da suposta ancestralidade judaica de Heydrich.

Sua família era católica em um meio protestante, não havendo qualquer problema nisso. Eles faziam parte do Bildungsbürgertum, o extrato mais respeitado da sociedade, que combinava uma profissão honrosa com uma ligação genuína com alta cultura e uma absoluta lealdade ao Reich alemão.

Nascido em 1904, o pai de Heydrich, Bruno, era um compositor respeitado e diretor-proprietário de um conservatório musical na cidade prussiana de Halle; sua mãe era professora de piano; eles lhe chamaram Reinhard em homenagem a um dos personagens da primeira ópera de Bruno. O próprio Reinhard podia tocar as lições de piano de Czerny perfeitamente na idade de 10 anos e tornou-se um exímio violonista, que dizem ter mostrado emoção profunda ao tocar o instrumento.

Certa vez, Bruno Heydrich expulsou um aluno. O jovem vingou-se ao colocar em um dicionário musical que o sobrenome verdadeiro de Heydrich era Süss e que ele era judeu. Bruno entrou com um processo em 1916 e ganhou. O segundo marido de sua mãe era, de fato, chamado Süss, mas o cavalheiro não era nem judeu e nem seu pai. Mas isso não foi o fim. Reinhard experimentou preconceito antissemita na escola e depois na Marinha. Mesmo como diretor da segurança interna da SS nazista, Heydrich teve que se submeter a uma investigação embaraçosa de sua ancestralidade. Mesmo assim – ou talvez por causa disso – a lenda da origem judaica de Heydrich tenha sobrevivido ao homem por décadas.

A Primeira Guerra Mundial, na qual Heydrich era muito jovem para servir, interrompeu a boa vida, assim como os anos turbulentos de Weimar. O Conservatório de Halle fechou e a família ficou reduzida à pobreza. Enquanto isso, havia levantes revolucionários e contra-revolucionários em Halle, nos quais o jovem Reinhard teve um papel modesto no lado contra-revolucionário. Mesmo assim, não há traços de quaisquer antissemitismo ou sentimentos antissocialistas violentos na época.

Ele estava sem dinheiro, e as forças armadas ofereciam a oportunidade para a respeitabilidade. Heydrich escolheu a Marinha alemã, sob a influência de Felix Von Luckner, um capitão lendário da Primeira Guerra Mundial. A carreira naval de Heydrich, contudo, afundou: em 1931, ele enfrentou um tribunal militar de honra após os pais de uma namorada reclamarem que ele a havia seduzido sob a falsa promessa de casamento. Ao invés de assumir a desonra e pedir desculpas, ele arrogantemente culpou a garota, e foi expulso da Marinha.

O julgamento foi motivado pelo casamento de Heydrich com outra jovem, Lina Von Osten, uma já nazista convicta e antissemita aos 19 anos. Com a ajuda de seus pais e da madrinha de Heydrich, Elise Von Eberstein, cujo filho era um proeminente membro da tropa de assalto nazista, ela conseguiu um emprego para ele no serviço secreto da SS. Isto não somente lhe deu um salário numa época de desemprego em massa e uma vida estruturada em um uniforme após uma adolescência e juventude gastas em circunstâncias de instabilidade política, social e econômica, ele também o colocou em contato com Himmler, que ficou impressionado com o jovem. Himmer acabou sendo falsamente informado que Heydrich havia trabalhado na inteligência naval. Heydrich foi capaz de impressionar Himmler com um conhecimento falsificado de espionagem que foi aprendido da leitura de novelas policiais.

Dentro da SS, então uma organização pequena e pouco importante, ele encontrou um propósito e um objetivo. Impressionado por suas habilidades, Himmler ofereceu-lhe a chefia de uma nova unidade interna de inteligência na polícia do Partido Nazista, o Sicherheitsdienst, ou SD. Após o expurgo de Hitler das tropas de assalto na “Noite das Longas Facas” em 1934, a SS ganhou rapidamente poder e importância, e junto com ela Heydrich e o SD. Em 1936, Himmler havia tomado todo o aparato policial alemão, incluindo a Gestapo.

Sensatamente, Gerwarth não vai pegar carona com a visão, tradicional entre alguns historiadores, de que o Terceiro Reich foi “uma ditadura por consenso”, na qual o terror e a intimidação tiveram apenas um papel mínimo. A Gestapo e outras agências do regime repremiram brutalmente a oposição e a dissidência desde o começo. A contribuição de Heydrich, além de organizar a repressão, foi lembrar a luta contra os inimigos do nazismo como uma luta contra os judeus, e fazer com que seus homens pensassem nisso como algo contínuo e duradouro, ao invés de relaxar sua vigilância na crença errada de que o Terceiro Reich estava seguro após a “tomada do poder” em 1933.

Heydrich provou ser um talentoso gerente do terror, indicando homens competentes com personalidade forte e um comprometimento fanático aos princípios e crenças do Nacional Socialismo. Frequentemente, eles eram educados e inteligentes e, de fato, (algo perturbador) quanto mais alto o posto no SD, maior a proporção de oficiais com pós-graduação, inclusive PhDs.

Heydrich não compartilhou as visões nazistas enquanto elas não foram úteis para ele (ele sequer havia lido o Mein Kampf quando foi entrevistado por Himmler), mas quando ele as abraçou o fez com paixão. Sentindo o interesse primário de Hitler na “solução final da questão judaica”, Heydrich treinou-se para tornar-se o maior especialista no assunto. Como Gerwarth explica habilidosamente, enquanto Hitler, Himmler, Göring e Goebbels tomaram algumas decisões finais sobre os judeus, o planejamento e execução das ideias foram em grande parte responsabilidade de Heydrich, seja na questão da Kristallnacht em novembro de 1938, ou a organização da emigração judaica da Alemanha e, em seguida, o Anschluss, na Áustria. Com a ajuda de Adolf Eichmann, seu humilde servo na Gestapo, Heydrich direcionou a partida para o mundo livre da absoluta maioria dos judeus austríacos. Ele também teve papel assíduo no plano louco de forçar milhões de judeus europeus para a ilha de Madgascar. Quando a emigração não foi mais possível, Heydrich desenvolveu planos para a deportação de todos os judeus para além das fronteiras orientais do Reich Alemão em contínua expansão. Isto, incidentalmente, foi o primeiro passo em direção da expulsão maciça de todas as nacionalidades indesejadas da Alemanha e, por conseguinte, da Europa.

 
Ele percebeu em 1939 que a guerra contra a Polônia simplesmente havia adicionado milhões de eslavos e judeus aos domínios da Alemanha sem fornecer um meio plausível de se livrar dessa gente. A guerra contra a União Soviética em 1941, a “guerra da aniquilação”, deveria gerar supostamente o espaço necessário para as deportações radicais. Na época, a guerra deveria estar supostamente acabada e os planos feitos em Wannsee para uma “Solução Final” pan-européia dependiam de uma vitória que estava difícil de chegar. Desde que era sempre compreendido que a deportação para o Leste significava a morte da maioria dos deportados, e desde que a União Soviética ainda resistia, os chamados Einsatzgruppen da SS, sob o comando absoluto de Heydrich, se empenharam em fuzilamentos em massa, primeiro na Polônia e então na Bielorússia, Ucrânia e países bálticos.

O próprio Heydrich não viveu o suficiente para ver este genocídio histórico sem precedente ser conduzido por completo. A indicação dele como Protetor Atuante do Reich ou vice-rei da Boêmia e Morávia em setembro de 1941 não o desviou de seu plano de criar uma Europa Arianizada. Além de ser o chefe da polícia política alemã, ele era agora o soberano absoluto de um país de importância suprema para o esforço de guerra alemão: sem os tanques, aviões e canhões produzidos no Protetorado, a máquina de guerra alemã teria parado. Ele agora tinha um solo fértil para testar suas teorias étnicas e raciais. Para ele, as terras tchecas haviam sido e tornar-se-iam novamente parte do Império Alemão, onde somente alemães e eslavos “germanizados” seriam permitidos viver.

Heydrich estimava que metade da população do Protetorado seria digna do Eindeutschung ou Germanização; o resto seria deportado ou morto. Alguns de seus conselheiros acadêmicos iniciaram o processo vigoroso de medir características cranianas e testar a cor dos olhos dos tchecos, mas a época não era propícia para os experimentos porque a guerra exigia a exploração de toda a força de trabalho no Protetorado. Somente no caso dos judeus a deportação e a morte eram preferíveis às outras soluções.

Heydrich demonstrou seu gênio organizacional quebrando brutalmente toda a oposição nas terras tchecas e oferecendo condições de emprego e de vida fáceis para aqueles que quisessem participar do esforço de guerra. Sua famosa política da cenoura e vara provou ser um grande sucesso. Os trabalhadores tchecos recebiam virtualmente os mesmos salários, e frequentemente melhores alimentos, que suas contrapartes no Velho Reich.

Heydrich não era impopular entre os tchecos; testemunha disso era seu hábito de dirigir até o trabalho no mesmo carro conversível, pela mesma estrada, no mesmo horário e sem guarda-costas ou outra proteção. Alarmado, o governo tcheco no exílio arranjou junto ao governo britânico uma equipe de agentes paraquedistas para descer em Praga e matá-lo. Gerwarth é muito crítico em relação a Hugh Dalton, o ministro da economia britânico, assimo como do presidente tcheco exilado Edvard Benes e do chefe de inteligência tcheco Frantisek Moravec, todos eles por trás do plano para matar Heydrich.

Dalton e Benes queriam ver a indústria de Guerra enfraquecida no Protetorado e tornaram-se impacientes com a extensão da colaboração tcheca, assim como com a fraqueza do movimento de resistência. Eles acreditavam que um ato terrorista por parte de alguns guerrilheiros da resistência tcheca poderia levar à perseguição necessária para fazer com que os tchecos mudassem de lado, finalmente, contra os invasores. Além disso, ao ser capaz de demonstrar resistência ativa em seu país, Benes esperava ganhar a permissão dos Aliados para a expulsão posterior à guerra da minoria alemã da Tchecoslováquia.

Em 27 de maio de 1942, os agentes enviados pela Grã-Bretanha emboscaram o carro conversível de Heydrich e jogaram uma bomba em seu interior. Ele morreu no hospital logo em seguida. Ele tinha 38 anos de idade.

Quanto à Tchecoslováquia e à causa aliada, o assassinato trouxe resultados diferentes: apesar do monstro ter partido, isso também aconteceu com quase todo movimento de resistência tcheco, milhares de seus membros sendo mortos ou enviados a campos de concentração. As fábricas no Protetorado continuaram a produzir armas para o exército alemão até os últimos dias da guerra e dificilmente encontrar-se-ia um lugar mais confortável e seguro para o soldado alemão do que no Protetorado. De qualquer forma, Benes ganhou a permissão dos Aliados para expulsar quase três milhões de alemães étnicos da Tchecoslováquia, processo ao longo do qual milhares de civis foram assassinados.

Quanto ao grande plano de Heydrich, ele provou ser uma falha total: não houve mais expulsões e mortes dos supostos inimigos da Alemanha, e no caso das relações tcheco-germânicas, os alemães acabaram se tornando os perdedores absolutos. Como Chad Bryant mostrou em seu maravilhoso “Praga de Luto: O Domínio Nazista e o Nacionalismo Tcheco” (2007), durante a ocupação alemã os tchecos preservaram seu orgulho nacional assim como se prepararam para uma solução brutal para a “Questão Alemã”. Ao expulsar todos os alemães entre 1945 e 1946, exceto alguns mineiros valiosos, aqueles casados com tchecos étnicos e a maioria dos “mestiços”, as autoridades tchecas voltaram-se para o plano de Heydrich e colocaram um fim a séculos de simbiose tcheco-germânica. O seu plano foi de fato uma das limpezas étnicas mais drásticas e brutais na história europeia.

Outros países europeus orientais reuniram-se ao esforço tchecoeslovaco e, assim, nações que geralmente não ergueram um dedo a favor de seus vizinhos judeus, ou mesmo assistiram de forma crucial a Solução Final, agora voltavam-se com entusiasmo contra seus vizinhos alemães. Tento tomado toda a propriedade dos judeus, os europeus orientais precipitaram-se sobre a propriedade alemã: terras, empregos, escritórios, lojas e imóveis. Isto não é definitivamente o que Reinhard Heydrich tinha em mente, apesar de poder consolar-se em seu túmulo de ter ajudado a resolver a “Questão Judaica” para os europeus orientais. Gerwarth escolheu um assunto ingrato e triste para sua pesquisa; ele merece elogios por ter completado sua tarefa sem sensacionalismo e com grande desembaraço.

Gerwarth soluciona muitos enigmas da vida de Heydrich de forma convincente, mas ele não consegue explicar no final como um homem que ordena a morte de milhões pode chorar enquanto toca uma sonata de Mozart; talvez ninguém consiga.        

Fontes:




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Wannsee: Não foi aqui que a Solução Final Nasceu

domingo, 4 de agosto de 2013

[ARM] Força de Submarinos da Marinha Brasileira - Uma História de Poder

Fernanda Corrêa

Defesanet, 19 de Julho, 2013

Submarino IKL Classe Tupi S34 Tikuna


No último dia 17 de julho, a Força de Submarinos da Marinha do Brasil completou 99 anos. Parabenizo à Força de Submarinos pelos seus 99 anos de História e Poder, os quais contribuíram na defesa incondicional dos interesses brasileiros nas águas jurisdicionais, e aproveito para tornar pública a minha satisfação em ser agraciada Submarinista Honorária pela Força de Submarinos durante a cerimônia militar alusiva ao aniversário da Força.


O submarino nas discussões do século XX

No final do século XIX e início do século XX, as principais teorias de estratégia naval que eram discutidas pelas principais Marinhas do mundo defendiam a aquisição dos grandes encouraçados de aço e atribuíam pouca importância aos submersíveis no contexto das guerras. Apesar de, no Brasil, não ter se construído nenhum tipo de submersível, teve precursores que contribuíram com soluções tecnológicas no aperfeiçoamento dos submersíveis, tais como o maquinista naval Luiz Jacintho Gomes, o engenheiro civil Luis de Mello Marques e o Almirante Emílio Júlio Hess.

Desde 1891, o então Tenente Felinto Perry promovia uma campanha naval para aquisição de submersíveis para o Brasil. Suas publicações nos meios midiáticos da época trouxeram os submersíveis para o centro do debate sobre o reaparelhamento naval da época, despertando o interesse da Marinha, da diplomacia e do Senado brasileiro. Além destes nomes citados, destacaram-se nestes intensos e promissores debates o Almirante Alexandrino Faria de Alencar, o Barão do Rio Branco e o Deputado Laurindo Pitta.

Em 1904, o Ministro da Marinha, Almirante Júlio César de Noronha incluiu três submersíveis no então Programa de Construção Naval. A aprovação deste programa pelo Congresso Nacional deveu-se, em particular, ao empenho do Deputado Laurindo Pitta na Câmara dos Deputados em defesa da reconstituição do Poder Naval Brasileiro. O Programa também incluiu a aquisição de três encouraçados de aço, os quais transformaram a MB, em 1910, na 3ª maior Marinha do mundo em termos de tonelagem.

FORSUB: origem italiana

Em 1911, o então Ministro da Marinha, Almirante Joaquim Marques Baptista de Leão criou a Subcomissão Naval em La Spezia, na Itália, fiscalizar a construção dos três submersíveis encomendados ao Governo daquele país e nomeou como chefe dessa Subcomissão, o já Capitão-de-corveta Felinto Perry. Os submersíveis italianos somente chegaram ao Brasil, em 1914. Os F1, F3 e F5 eram submarinos de patrulha costeira, tinham 370 toneladas, movidos a propulsão diesel-elétrica e tinham dois tubos lança-torpedos. Eles subemergiam cerca de 40 metros e navegavam a até 9 nós submersos.

Em 11 de junho de 1913, Felinto Perry participou da cerimônia de entrega, na Itália, do primeiro submersível construído pelo estaleiro italiano, o F1. Em 1914, os FF, como ficaram conhecidos na História, já se encontravam território nacional e, em 17 de julho deste mesmo ano, foi criada a Flotilha de Submersíveis, subordinada ao Comando da Defesa Móvel, sediada na Ilha de Mocanguê Grande, em Niterói, município do estado do Rio de Janeiro. Assim que foi criada a Flotilha, iniciou-se os preparativos para também criar a primeira Escola de Submersíveis. Felinto Perry também foi o primeiro Comandante da Flotilha de Submersíveis. A primeira turma de oficiais submarinistas foi formada em 1915. Os FF atuaram, principalmente, no treinamento e no adestramento das tripulações. A fim de servir de base de apoio móvel para os submersíveis, em 1917, a Flotilha de Submersíveis incorporou o Tender Ceará. Foi dentro deste tender, então, que as instalações da Escola de Submersíveis foram transferidas neste mesmo ano e lá permaneceu até 1937.

Em 1928, a Flotilha de Submersíveis e a Escola de Submersíveis passaram a se chamar, respectivamente, Flotilha de Submarinos e Escola de Submarinos e, em 1929, o submarino-de-esquadra Humayta, também construído no mesmo estaleiro italiano, cumpriu uma histórica travessia de 5.100 milhas marítimas, em 23 dias, de La Spezia ao Rio de Janeiro, sem escalas.

Em 1933, os FF foram desativados e a Flotilha de Submarinos foi extinta. No entanto, o Tender Ceará e o submarino-de-esquadra Humayta permaneceram em atividade sob a administração do Comando da Defesa Móvel e sob operação do Chefe do Estado-Maior da Armada.

Em 1937, com a incorporação da nova classe italiana, a Flotilha de Submarinos foi reativada. Os submarinos da nova classe eram o Tupy, o Tymbira e o Tamoyo. Com a chegada destes submarinos, a Escola foi transferida, juntamente com a Flotilha, para a Ilha das Cobras. Em 1941, foi criada a Base da Flotilha de Submarinos e a Ilha de Mocanguê Grande passou a ser sua sede. Com a criação desta Base, a Escola de Submarinos voltou a funcionar na Ilha como um departamento daquela Base.

Os submarinos da classe T atuaram no contexto da 2ª Guerra Mundial quando a Flotilha de Submarinos foi incorporada à Força Naval do Nordeste, sediada em Recife. Além de participar intensamente do adestramento de escoltas a comboios, do adestramento de táticas antissubmarinos para unidades de superfície e aeronaves, estes submarinos atuaram junto a 4ª Esquadra dos EUA contra as forças do Eixo.

FORSUB: origem estadunidense

Na década de 1950, além da corveta holandesa Imperial Marinheiro, novos submarinos da classe Fleet-Type, de origem estadunidense, foram incorporados à Flotilha de Submarinos. Estes submarinos haviam sido empregados na 2ª GM. Além do grande raio de ação, os equipamentos e sistemas bem mais avançados que os até então conhecidos pela Flotilha de Submarinos permitiram que houvesse bastantes modificações na estrutura da Flotilha e na formação dos próprios submarinistas. Nesta década, foram adquiridos os submarinos Humaitá e o Riachuelo.

Em 1963, a Flotilha de Submarinos passou a se denominar Força de Submarinos, foi criada a Escola de Submarinos como Organização Militar autônoma na estrutura orgânica do Ministério da Marinha e foram adquiridos mais dois submarinos estadunidenses da classeFleet-Type, o Rio Grande do Sul e o Bahia.

Para a Força de Submarinos, o Bahia foi uma grande aquisição na época, a medida que, após reformas feitas em território nacional, se tornou um recordista em maior profundidade. Quando foi entregue pelos EUA, o Bahia deslocava-se com 1.400 toneladas, depois que passou por reformas no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, ganhou nova estrutura e mais velocidade. Era a primeira vez que um submarino do tipo Fleet-Type passava por reforma fora dos EUA. Em 1966, o submarino Bahia junto com o Humaitá realizaram a primeira transferência em alto mar de pessoas e cargas leves entre as embarcações deste tipo.

Na década de 1970, a Força de Submarinos adquiriu mais sete unidades de submarinos estadunidenses do tipo GUPPY (Greater Underwater Propulsion Power): o Guanabara, o Rio Grande do Sul, o Bahia, o Rio de Janeiro, o Ceará, o Goiás e o Amazonas. Adquiriu também um navio de resgate submarino.

A principal inovação tecnológica dos submarinos do tipo GUPPY foi o emprego do sistema esnórquel. Este sistema, além de permitir recarregar as baterias e os grupos de ar comprimido, renovava o ar ambiente com o submarino subemerso na cota periscópica. O Rio Grande do Sul foi o primeiro submarino brasileiro a operar com o sistema esnórquel.

Neste contexto, houve no seio da Escola de Submarinos os primeiros esforços para a construção de um tanque de treinamento de salvamento e obtenção de um treinador de ataque, o qual foi montado em 1966. Em 1973, a antiga Escola de Submarinos passou a ser denominada Centro de Instrução e Adestramento de Submarinos e Mergulho (CIASM) e, em homenagem ao Almirante Átilla Monteiro Achê, falecido em janeiro de 1978, em maio deste mesmo ano, o CIASM passou a se chamar Centro de Instrução e Adestramento Almirante Átilla Monteiro Achê (CIAMA).

FORSUB: origem inglesa

Da Inglaterra, a FORSUB adquiriu 3 submarinos da classe Oberon: o Humaitá, o Tonelero e o Riachuelo. Esta aquisição permitiu um salto tecnológico imenso para a Força de Submarinos da MB, em especial, na área de detecção acústica e eletromagnética, introduzindo uma série de equipamentos eletrônicos altamente sofisticados, além de um sistema de direção de tiro com computação digital de dados e comando central unificado para as manobras dos lemes vertical e horizontal, conhecido como controle de governo e de profundidade, o CONGOP. Os submarinos da classe Oberon, além de terem permitido a Força de Submarinos adentrar na era da informática, trouxeram um grande avanço operacional.

FORSUB: origem alemã

Com as classes de submarinos anteriores, a Força de Submarinos aprendeu a operá-los. No entanto, os novos tempos exigiam que a Marinha desenvolvesse suas próprias tecnologias. Assim sendo, a MB optou por buscar parceiros europeus dispostos a transferir tecnologia de construção de navios e que atendessem ao perfil operacional e tecnológico desejados.

A Guerra das Malvinas (1982) se tornou palco de observação para as autoridades brasileiras. Nesta Guerra, o submarino argentino San Luis, modelo IKL-209, disparou dois torpedos Special Surface Target(SST) e um MK e navegou em patrulha por 39 dias, dos quais 36 manteve-se submerso no palco de operações navais, trazendo sérias dificuldades para a Marinha Real Britânica em detectá-lo. Com o fim da Guerra, o Governo brasileiro aprovou o investimento da MB na aquisição de submarinos convencionais modelo IKL e a construção do submarino com propulsão nuclear.

Em agosto de 1982, o Brasil propôs ao Consórcio alemão Ferrostaal/ Howaldtswerken Deutsche Werft AG (HDW) a aquisição de dois submarinos convencionais, o primeiro construído em território alemão, no estaleiro da HDW, em Kiel, com acompanhamento de técnicos e engenheiros brasileiros, e o outro construído no Brasil, com supervisão dos alemãs. A escolha do Consórcio foi realizada pela própria MB.

Em 1985, antes mesmo de os dois submarinos encomendados estarem prontos, a MB assinou outro contrato encomendando mais dois submarinos IKL do tipo 209 com 1.400 toneladas. Estes também foram construídos no AMRJ sob supervisão da HDW.

O primeiro submarino brasileiro modelo IKL chegou ao Brasil, em 1988. O nome de batismo da classe foi o mesmo nome deste primeiro submarino IKL incorporado à Força de Submarinos: classe Tupi. O segundo submarino desta classe foi construído no AMRJ e foi batizado como Tamoio. Respectivamente, o terceiro e o quarto submarinos desta classe foram batizados como Timbira e Tapajós. As características deles são: propulsão diesel elétrica, 4 motores de combustão principais acoplados a geradores e um motor elétrico principal de dupla armadura que aciona o eixo propulsor.

Em 1995, a MB assinou um quarto acordo com o Consórcio alemão encomendando um quinto submarino IKL 214 de 1.400 toneladas. Batizado como Tikuna, este novo submarino, de acordo com a MB, pertence a uma nova classe de submarinos, construído no Brasil e dispondo de tecnologias desenvolvidas por empresas e institutos de pesquisas brasileiros.

Submarino nuclear: parceria estratégica França-Brasil

Desde a década de 1970, a MB busca dominar o ciclo completo do combustível nuclear e construir um submarino com propulsão nuclear. A fim de queimar etapas, a MB decidiu buscar parceiros que construíssem submarinos convencionais e nucleares, ao mesmo tempo, e que se dispusessem a transferir tecnologia de projeto de submarinos. Dentre os parceiros, destacaram a França e a Rússia. A França foi a única que aceitou transferir tecnologia de projeto de submarinos para a MB e ofereceu a sua mais moderna linha de produção de submarinos convencionais: a classe scorpène. A previsão da MB é que o primeiro submarino convencional esteja concluído em 2016 e que o submarino com propulsão nuclear esteja concluído em 2025. A estatal francesa DCNS criou uma Escola de Projeto de Submarinos, associou-se em regime de joint venture com a empresa privada brasileira Odebrecht para construir a nova base e o estaleiro de submarinos, no município de Itaguaí, construiu uma indústria de fabricação de estruturas metálicas, está formando engenheiros e técnicos nas imediações da DCNS, em Chebourg, e se comprometeu a oferecer assistência técnica por 15 anos nos contratos de transferência de tecnologia.

As seções 3 e 4 de vante, construídas na França, do primeiro submarino convencional tipo scorpène da MB chegaram no Rio de Janeiro no último mês de junho. As seções foram transportadas do Porto de Sepetiba, por balsa, para o cais da estatal Nuclep e de lá para a Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM), onde já estão sendo construídas as demais partes do submarino.

Dentre as tarefas da estratégia naval, a Estratégia de Defesa Nacional tornou a negação do uso do mar prioritária em relação ao controle marítimo e a projeção de poder. Ao aceitar transferir tecnologia estratégica para a MB, a França está ciente das implicações políticas e estratégicas que seu aceite resultará tanto no Atlântico Sul quanto no sistema internacional.

Costumo dizer que o Brasil já goza do privilégio de ser uma potência hemisférica, pois abaixo da Linha do Equador não há nenhum outro país com a capacidade de dissuadir e de negar o uso do mar ao inimigo na mesma proporção que o Brasil. Um dos lemas dos submarinistas é: “só existem dois tipos de navios: os submarinos e os alvos”. Ciente e compartilhando desta máxima, a Força de Submarinos é, inegavelmente, um dos braços mais fortes da Defesa Nacional e merece o aplauso e a atenção da sociedade brasileira.



[SGM] Há 70 anos, FAB afundava submarino nazista na costa do RJ

Defesanet, 02 de Agosto, 2013

 
 
SSSS. SIGHTED SUB SANK SAME. O código em inglês dizia "Submarino avistado e afundado". No dia 31 de julho de 1943, há exatos 70 anos, o então Aspirante Alberto Martins Torres foi o primeiro brasileiro a transmitir essa mensagem de vitória. O submarino nazista U-199 foi afundado a apenas 87 Km ao sul do Pão de Açúcar, cartão-postal do Rio de Janeiro.

Apelidado de "Lobo Cinzento", o U-199 foi responsável pela morte de pelo menos dez brasileiros. Eles eram tripulantes do navio pesqueiro Shangri-lá, afundado no dia 22 de julho de 1943 com tiros de canhão. O submarino também havia atacado o cargueiro americano Charles Wilson e afundado o navio britânico inglês Henzada, de 4 mil toneladas. Armado com canhões de 37mm e 20mm e capaz de portar 24 torpedos e 44 minas, o U-199 era, na época, uma das joias tecnológicas da máquina de guerra nazista, projetado para ter um alcance suficiente para tentar interromper o fluxo de embarcações no Atlântico.

Enquanto o submarino caçava suas presas, tentava fugir de aviões e navios no seu encalço. E não era um alvo fácil. No dia 3 de julho, o U-199 foi avistado por um hidroavião PBM 3 Martin da Marinha dos Estados Unidos. A aeronave tentou atacar o submarino, mas acabou sendo abatida com tiros dos canhões de 37mm e 24mm. Toda a tripulação americana morreu.

Naquela manhã de 31 de julho, o Aspirante Torres estava no comando de um hidroavião PBY-5 Catalina da Força Aérea Brasileira. Ele sabia que naquele mesmo mês uma aeronave havia sido abatida pelo inimigo, mas não teve dúvidas: após ser alertado pelo rádio, encontrou o U-199 e partiu para o ataque.

"A menos de um quilômetro do submarino podíamos ver nitidamente as suas peças de artilharia e o traçado poligônico de sua camuflagem que variava do cinza claro ao azul cobalto", descreveu posteriormente no seu livro "Overnight Tapachula", lançado em 1985. O brasileiro manteve o mergulho e lançou seu armamento sobre o U-199. "A proa do submersível foi lançada fora d’água e, ali mesmo ele parou, dentro dos três círculos de espuma branca deixadas pelas explosões". Era o fim da linha para o "Lobo Cinzento".

Após voar baixo para evitar qualquer contra-ataque, o Aspirante Torres lançou um bote inflável para os tripulantes. Da tripulação de 61 homens, doze sobreviveram, entre eles o Comandante, o Kapitãnleutnant Hans-Werner Kraus. Eles foram salvos por um navio norte-americano e depois de passarem por uma prisão no Recife foram enviados aos Estados Unidos. O ataque contou ainda com a participação de um A-28A Hudson, pilotado pelo Aspirante brasileiro Sérgio Cândido Schnoor, e por um PBM 3 Martin da Marinha dos EUA.

Desde 1942, quando a Força Aérea Brasileira tinha apenas um ano de existência, vários pilotos brasileiros participaram de ataques a submarinos alemães e italianos. O Aspirante Torres, no entanto, foi o único que comprovadamente afundou uma embarcação desse tipo. O U-199 também foi o primeiro submarino do tipo IXD2 a ser afundado na guerra. Além das medalhas brasileiras, o feito também rendeu uma homenagem do governo dos EUA ao brasileiro, a Distinguished Flying Cross (Cruz de Bravura).

Tendo ingressado na Força Aérea Brasileira para ser Oficial da Reserva, Alberto Martins Torres combateu até o fim da Segunda Guerra Mundial. Após pilotar lentos hidroaviões na caça a submarinos, em 1944 ele foi voluntário para ingressar no 1° Grupo de Aviação de Caça e foi combater nos céus da Itália a bordo de potentes caças P-47 Thunderbolt.

Mais uma vez, ele fez história. O então Tenente Torres é até hoje o piloto de caça brasileiro com maior número de missões reais: 100. Foram 99 voos para atacar alvos na Itália e um único defensivo: a proteção aérea de um jogo de futebol realizado em Florença entre combatentes brasileiros e ingleses. As missões na Itália renderam mais uma Distinguished Flying Cross, uma Air Medal (EUA) e uma La Croix de Guerre Avec Palme (França), além de diversas honrarias brasileiras, com destaque para Ordem do Mérito Aeronáutico.

Após a guerra, Alberto Martins Torres foi promovido ao posto de Capitão e saiu da Força Aérea Brasileira. A carreira na FAB foi uma aventura para o jovem criado por seus pais para ser Diplomata: antes de pilotar aviões, ele estudou no tradicional colégio São Bento e cursou o ensino superior em Filosofia e Direito, além de ser fluente em espanhol, inglês, alemão e turco.

Alberto Martins Torres faleceu no dia 30 de dezembro de 2001, aos 82 anos. Suas cinzas foram jogadas no mar a partir de um avião C-115 Buffalo escoltado, de um lado, por aviões de patrulha marítima P-95 e, do outro, por caças F-5 do 1° Grupo de Aviação de Caça.


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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Revelado discurso da rainha para anunciar 3ª Guerra Mundial em 83

BBC, 01/08/2013

 
Documentos do arquivo do governo britânico revelam que, em 1983, um discurso foi preparado para ser lido pela rainha Elizabeth 2ª em cadeia nacional na eventualidade de uma guerra nuclear.

No script para a transmissão hipotética, a monarca pede que a população britânica "reze" e descreve a ameça que o conflito representa para a "brava nação", que também é "maior do que qualquer outra".

O discurso, escrito por autoridades de Whitehall --região no centro de Londres em que ficam os ministérios de governo-- durante um dos períodos mais sombrios da Guerra Fria, nunca foi ao ar.

O documento, divulgado sob as regras do governo que permitem a liberação de documentos secretos com mais de trinta anos, foi rascunhado como parte de um exercício de guerra realizado na primavera de 83 e que cogitava possíveis cenários de guerra.

Apesar de ser apenas uma simulação, o discurso, escrito como se fosse para ser transmitido no dia 4 de março de 1983, tentava preparar o país para os horrores de uma possível Terceira Guerra Mundial.

Filho amado

O script começa se referindo ao tradicional discurso anual de Natal da rainha, feito meses antes.

"Os horrores da guerra pareciam remotos quando eu e minha família dividimos a alegria do Natal com a família crescente da Commonwealth [países que pertencem à Comunidade Britânica]".

"Agora, esta loucura da guerra está mais uma vez se espalhando pelo mundo e nosso bravo país deve novamente se preparar para sobreviver em meio a grandes incertezas".

"Eu nunca esqueci da dor e do orgulho que senti, ao ouvir junto com a minha irmã em nosso quarto, as palavras inspiradoras de meu pai [rei George 6º] sobre aquele dia fatal em 1939 [início da Segunda Guerra]."

"Em nenhum momento eu poderia imaginar que esta tarefa solene, porém terrível, cairia um dia sobre mim".

Em um tom mais pessoal, ela lembra o papel do filho Andrew na guerra hipotética.

"Meu filho amado Andrew está em ação neste momento e nós rezamos sem parar por sua segurança e de todos os homens e mulheres envolvidos dentro do país e no exterior".

E faz um apelo para que os britânicos ajudem uns aos outros.

"Se as famílias permanecerem unidas, oferecendo abrigo aos mais desprotegidos, a determinação do nosso país em sobreviver não poderá ser quebrada".

Exercício de Guerra

No exercício de Guerra de 1983, forças do bloco Laranja, representando a União Soviética e aliados do Pacto de Varsóvia, lançam um ataque com armas químicas contra a Grã-Bretanha.

As Forças Azuis, representando a Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan), retaliam com uma incursão nuclear, forçando o bloco Laranja a iniciar as negociações de paz.

As manobras aconteceram no ano em que o presidente americano Ronald Reagan causou revolta em Moscou ao denunciar a União Soviética como "império do mal" e divulgou seus planos para um sistema de mísseis balísticos espacial, além do deslocamento de mísseis nucleares americanos para a Europa.

A tensão cresceu quando os soviéticos alvejaram um avião sul-coreano que entrou em seu espaço aéreo, matando todos os 269 passageiros a bordo.

Um exercício militar comandado pela Otan em novembro daquele ano, batizado de Able Archer, quase desencadeou um conflito de verdade depois que líderes de Moscou ficaram convencidos de que se tratava de uma fachada que levaria a um ataque de fato.

Anos mais tarde, a União Soviética e os Estados Unidos negociaram a redução do número de suas armas nucleares e a Guerra Fria chegou ao fim.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

[SGM] Força Aérea Soviética x Luftwaffe

A. D. Harvey

History Today, Vol. 52 nº 1/2002

 
A Rússia soviética, tendo investido profusamente em aviação militar, tornou-se a mais poderosa força aérea do mundo em meados dos anos 1930, tanto em números quanto em excelência técnica.* O Tupolev TB-3, colocado em voo em 1930, foi o primeiro bombardeiro monoplano quadrimotor e o único na época a ser produzido em série; o Polikarpov I-16 foi o primeiro caça monoplano da história a ter trem de pouso retrátil.

A indústria aeronáutica soviética tinha suas fraquezas, notavelmente no desenvolvimento de motores (que baseava-se principalmente na cópia e melhoramento de projetos alemães, franceses e americanos) e nos padrões de fabricação: em 1941, descobriu-se que a pintura final no caça LaGG-3, um dos caças da nova geração que iria substituir o I-16, reduzia a velocidade em pelo menos 10% e a razão de subida em 50%**. Mais importante, contudo, foram as noções erradas de operação e organização. Uma coisa é ter uma grande força aérea, outra é saber como usá-la em guerra. O serviço aéreo soviético (Voenno-Vozdushniye Sily ou VVS), não menos que o Exército, sofreu com o expurgo de Stalin de seu alto comando militar a partir de 1937. Jan Alknis, Chefe do Staff Geral do VVS, um defensor do uso de bombardeiros estratégicos de longo alcance, estava entre os primeiros a serem executados.

Apesar de Alknis ter legado aos seus sucessores o TB-7 (mais tarde redesenhado como Pe-8), um bombardeiro quadrimotor muito superior em desempenho ao TB-3, Stalin não mostrou nenhum interesse em prosseguir em seu desenvolvimento, e os dois homens responsáveis por seu projeto, V.M. Petlyakov e A.N. Tupolev, foram presos em um quartel do NKVD (polícia secreta) até 1940 e 1941, respectivamente. Após o Pacto nazi-soviético de agosto de 1939, Stalin convenceu-se de que não haveria probabilidade para os próximos anos da Rússia entrar em guerra contra a Alemanha, e a Alemanha era o único inimigo poderoso o suficiente para justificar investimento em uma frota de bombardeiros de longo alcance, de modo que simplesmente não havia nenhuma exigência para um bombardeiro moderno quadrimotor.        

O Pacto nazi-soviético foi seguido, entre outras coisas, do ataque soviético contra a Finlândia em novembro de 1939, o qual, tanto no VVS quanto no Exército Vermelho como um todo, mostrou as limitações dos comandantes que foram promovidos para substituir aqueles que Stalin havia eliminado. Missões aéreas sobre Helsinki em 30 de novembro de 1939, o primeiro dia de guerra, matou aproximadamente mil civis, mas não tinha nenhum objetivo estratégico além de anunciar o início das hostilidades; em seguida, a capital finlandesa foi geralmente deixada em paz. Encontros entre o VVS e a muito menor Força Aérea finlandesa foram relativamente raros, em parte por causa das terríveis condições climáticas. Mas a lição que bombardeiros penetrando em espaço aéreo exigiam uma escolta de caças (que os japoneses, por exemplo, aprenderam na China) não foi assimilada pelos russos, mesmo após um piloto finlandês, Jorma Sarvanto, sozinho ter abatido seis dos sete aviões em uma formação de bombardeiros bimotores DB-3F em 6 de janeiro de 1940. De fato, o VVS parece não ter aprendido nada de toda a guerra contra a Finlândia.

Quando Hitler atacou a União Soviética em 22 de junho de 1941, o VVS não estava somente despreparado para ação, ele estava em uma situação que não podia ser colocado de prontidão com antecipação suficiente. Quarenta e três por cento dos oficiais estavam servindo há menos de seis meses; 91% dos comandantes de formação estavam no comando há menos de seis meses. Menos de um quarto dos caças do VVS eram os modernos MiG-3 e LaGG-3; mais de um quarto dos restantes eram biplanos, mesmo mais velhos do que os obsoletos I-16, que eram os tipos de avião mais numerosos em uso. As táticas de caças eram antiquadas e ineficientes. No primeiro dia do assalto nazista, o VVS perdeu 336 aeronaves em combate aéreo contra somente 59 perdas na Luftwaffe.

Mais séria ainda foi a perda, em algumas poucas horas, de 800 aeronaves destruídas em solo durante as missões de bombardeio da Luftwaffe contra os aeródromos soviéticos. Este foi o primeiro exemplo de uma força aérea alcançando uma vitória significativa sobre outra por meio de um ataque preventivo contra suas bases. Quando a Luftwaffe tentou isto na Polônia em setembro de 1939 e na França em maio de 1940, os resultados foram desapontadores; mais tarde tais ataques foram utilizados pelos japoneses contra as forças britânicas e americanas no Extremo Oriente. Os ataques contra as bases aéreas soviéticas, a superioridade dos pilotos da Luftwaffe em combate e a perda de centenas de aviões danificados, porém recuperáveis, que foram abandonados nos aeródromos durante a fuga com o avanço alemão juntos significaram que, pelo final da primeira semana da invasão alemã, o VVS estava próximo da morte como organização militar.

Quase, mas não totalmente. Pilotos deram seus próprios relatos. Imperfeições técnicas poderiam ser compensadas por fanatismo ou coragem cega. Algumas vezes, aviões soviéticos derrubaram seus oponentes golpeando-os. Um piloto, V.V. Talalikhin, destruiu cinco aviões por este método entre 7 de agosto e 27 de outubro de 1941. Os inadequados MiG-3 e LaGG-3, e logo o esperado Yak-1, começaram a sair em grandes números das fábricas. Um pouco depois, os caças britânicos e americanos fornecidos no programa de empréstimo Lend-Lease alcançaram as linhas de frente. Os russos tendiam a ser um pouco mordazes sobre o agora fora de moda Hawker Hurricane (a principal contribuição britânica), mas Boris Safonov, o principal ás da Marinha Soviética, alcançou pelo menos metade de suas trinta vitórias aéreas com o americano Curtiss P-40E. Mais tarde, o Bell P-39, considerado pelo Exército Americano quase inútil em combate aéreo, chegou a ser avaliado pelos pilotos russos como um dos melhores caças disponíveis para eles, e ele foi o avião com o qual quatro dos sete maiores ases soviéticos conseguiram a maior parte de suas vitórias.  

Mas os suprimentos do Lend-Lease representavam somente um oitavo das aeronaves fornecidas ao VVS no total. O LaGG-3 foi modificado substituindo-se seu motor (sendo designado agora como La-5), enquanto que o Yak-3, introduzido em 1943, foi o melhor caça leve da Segunda Guerra Mundial. A superioridade da Luftwaffe sobre o VVS em relação à qualidade técnica de seus equipamentos durou apenas uma questão de meses.

Analogamente, a vantagem inicial que os pilotos da Luftwaffe tinham em suas experiências de combate tornou-se cada vez menor. Tomando o período 1941-45 como um todo, os alemães não foram significativamente mais habilidosos como pilotos do que os russos. Em todas as forças aéreas durante a Segunda Guerra Mundial – na RAF e na Força Aérea do Exército Americano, assim como na Luftwaffe e no VVS – novatos eram jogados em combate antes que tivessem tempo de aprimorar suas habilidades de voo. De fato, o treinamento das tripulações e pilotos da Luftwaffe era mais rústico e inadequado do que no VVS.

Uma impressão errada é estabelecida pelas estatísticas extraordinárias de um punhado de pilotos da Luftwaffe no front oriental. Durante seis dias em agosto de 1943, Erich Hartmann, que eventualmente acumulou um total de 352 vitórias aéreas, derrubou 24 aviões soviéticos em 20 missões; Günter Scheel abateu 71 aeronaves soviéticas em 70 missões; e Wilhelm Batz destruiu 222 aviões soviéticos no espaço de 12 meses. Estes números, contudo, foram parcialmente uma função do número excessivo de aviões soviéticos encontrados e dos longos períodos de missões múltiplas em dias sucessivos. Do primeiro ao último dia, a força aérea soviética tinha mais aviões que a Luftwaffe, e isto foi um fator para estabelecer as estatísticas de pilotos rivais.         

Aliás, alguns pilotos de caça soviéticos eram muito bons. O ás da Luftwaffe Gerd Barkhorn, que acabou sendo conhecido por ter abatido 301 aviões soviéticos, uma vez teve um combate duro de 41 minutos com um LaGG-3. “Suor estava escorrendo pelo meu corpo que parecia que eu tinha ficado debaixo de um chuveiro,” ele lembrou: apesar de possuir um avião mais rápido, ele simplesmente foi incapaz de dobrar o russo. Seis ases soviéticos receberam crédito por derrubar 50 ou mais aviões alemães, mas eles poderiam ter tido uma contagem maior se houvessem mais aeronaves alemãs no caminho. Por exemplo, Aleksandr Konstantinovich Gorovets, voou 73 missões entre junho de 1942 e 5 de julho de 1943, encontrando aviões alemães dez vezes, derrubando dois e compartilhando a destruição de outros seis – um recorde perfeitamente respeitável. Em 6 de julho de 1943, em sua septuagésima quarta missão, ele separou-se de seus camaradas no setor  , foi em direção de uma formação de 20 bombardeiros de mergulho Junkers Ju-87 alemães (Stuka) e derrubou nove em dez minutos. Geralmente, grandes formações alemãs eram difíceis de se encontrar.

 
 
O caça, é claro, era essencialmente uma arma defensiva de curto alcance. Inicialmente, ele estava presente somente no sul, contra o aliado romeno da Alemanha, que o VVS era capaz de combater em território inimigo. A partir de 23 de junho de 1941 em diante, pequenas formações dos bombardeiros bimotores Ilyushin IL-4 soviéticos atacaram Bucareste, os campos de petróleo de Ploesti e o porto de Constanta. Os bombardeiros soviéticos não tinham escolta de caças já que eles estavam operando além do raio de ação de 250 milhas com o qual o Polikarpov I-16 estava limitado devido à sua capacidade de combustível, e eles tiveram pesadas perdas contra os caças alemães e romenos deslocados para interceptá-los. (Entre os caçlas romenos incidentalmente estavam Hawker Hurricanes comprados da Grã-Bretanha pouco antes da guerra eclodir.) Os russos decidiram reviver uma técnica testada em meados dos anos 1930 e em 1º. De agosto de 1941, Constanta foi bombardeada por quatro caças Polikarpov I-16, cada um carregando duas bombas de 550 lb, que foram transportadas sob as asas de dois velhos e lentos TB-3 a partir de Odessa. Em 10 de agosto e novamente três dias depois, o mesmo método foi usado para atacar o viaduto rodoviário em Czernavoda, que foi levemente danificado.

Enquanto isso, os russos conduziram suas primeiras missões contra Berlim. Em poucas horas de 8 de agosto de 1941, pelo menos três IL-4 da Frota Báltica do Estandarte Vermelho, voando a partir das bases na ilha Sarema na boca do Golfo de Riga, penetraram no centro da capital alemã, danificando 20 vagões de passageiros na Estação Ferroviária de Stettin, destruindo uma fábrica de margarina e matando seis civis. Em noites subsequentes, os caças navais receberam a companhia de bombardeiros quadrimotores Pe-8, a maioria dos quais falhou em achar seus alvos. Os alemães rapidamente identificaram as bases que estavam sendo usadas para bombardear Berlim: estas foram atacadas, mas de qualquer forma elas haviam sido abandonadas por causa do avanço das tropas terrestres alemãs.

Um ano depois, quando os russos decidiram retomar as missões contra Berlim, os voos foram realizados a partir de bases a sudeste, a quase 2.000 km de seus alvos: em sua maioria, foram usados IL-4, tornando estas missões as mais longas de toda a guerra para bombardeiros bimotores; elas também envolviam os voos mais longos jamais feitos com carga total sobre território controlado pelo inimigo. “A cidade merece tudo o que está para acontecer,” escreveu um piloto soviético que participou da missão sobre Berlim em 27 de agosto de 1942: “Amanhã, o mundo inteiro saberá sobre esta missão. Milhões de pessoas sofrendo tormentos indescritíveis nas mãos dos açougueiros nazistas respirarão com alívio. Mães que perderam seus filhos nos saudarão como vingadores e combatentes de uma causa justa.”

Na missão, apenas 20 casas em Berlim sofreram vários graus de destruição; ninguém ficou ferido. Três noites depois, os russos planejaram destruir uma fábrica de lingüiça. Nesta vitória simbólica, dois civis morreram. Uma missão sobre Budapeste em 4 de setembro foi levemente mais eficiente: oito civis mortos, 21 feridos.

As autoridades soviéticas estavam cientes, contudo, do impacto de propaganda de missões muito mais pesadas conduzidas pela RAF a partir do ocidente. Prisioneiros de guerra alemães feitos em Stalingrado foram interrogados em relação ao efeito no moral dos civis da ofensiva da RAF contra as cidades alemãs. Em abril de 1943, os soviéticos começaram um programa de ataques em alvos na Prússia Oriental, usando tanto o Il-4 quanto o Pe-8; na ocasião alguns destes últimos foram carregados com bombas de cinco toneladas, a maior arma usada na guerra até esta época, apesar da RAF estar desenvolvendo uma bomba de 12.000 lb que entraria em serviço em setembro do mesmo ano. Em 20 de abril de 1943, o The Times em Londres anunciou:

...a Força Aérea Soviética conduziu uma missão maciça contra Tilsit. Objetivos militares e industriais na cidade foram submetidos a um bombardeio devastador, que causou muitos incêndios. Mais tarde, os incêndios espalharam-se formando uma vasta conflagração, o brilho da qual foi observada a quase 200 km de distância.

Não foi tão espetacular como descrito, apesar de 104 pessoas terem morrido aquela noite em Tilsit, 113 casas destruídas e 158 severamente danificadas. Dada a grande eficiência das precauções alemãs contra bombardeios aéreos, isto foi um ataque mais eficiente do que a maioria das missões de destruição conduzidas contra centros civis pelos italianos (112 mortos em Tel Aviv em 9 de setembro de 1940) e japoneses (mais de mil fatalidades em Singapura em 8 de dezembro de 1941), apesar de bem longe do que os britânicos, americanos e dos próprios alemães conseguiram.

Grandemente encorajadas, as autoridades soviéticas anunciaram que eles tinham empregado não menos que 200 bombardeiros em um ataque contra Insterburg (hoje  Chernyakovsk , distrito de Kalaningrado). “Ao final da missão, a cidade inteira estava em chamas,” reportou o The Times. Em Insterburg, os próprios cidadãos sequer sabiam que um ataque aéreo havia acontecido. (Os russos acobertaram isso queimando boa parte da cidade após ela ter sido ocupada em janeiro de 1945.) O Escritório de Informação Soviético nesta época anunciou que a produção em massa de bombardeiros quadrimotores havia começado alguns meses antes em “uma série de novas plantas industriais de aviões nos Montes Urais”. De fato, Tilsit e Insterburg eram os pontos altos da “ofensiva estratégica de bombardeiros” soviética. Todas as aeronaves envolvidas nas missões na Prússia Oriental foram logo realocadas para missões contra alvos táticos próximos da linha de frente. O último dos ataques espetaculares de longo alcance do VVS foi um ataque malsucedido contra o encouraçado Tirpitz em Tromso Fjord, no norte da Noruega em fevereiro de 1944.

No final, menos que uma centena de Pe-8 quadrimotores foram construídos – algumas fontes afirmam 79. Em comparação, 36.163 aviões monomotores Ilyushin Il-2 para ataque terrestre foram produzidos – mais do que qualquer outro tipo de aeronave na história – tantos quanto o Hurricane e o Spitfire juntos.  Foi a ênfase soviética no Il-2 que pareceu justificar a declaração de oficiais da RAF visitantes que o VVS “é essencialmente uma arma tática de curto alcance que foi desenvolvida com um único objetivo e visão – o apoio ao Exército Vermelho.” Entretanto, é questionável se o Il-2 foi algo mais do que uma arma prática ganhadora da guerra do que o Pe-8.

Lento e desajeitado, o Il-2 em sua forma original de um assento era vulnerável a um ataque pela cauda. A montagem de uma metralhadora de 12,7 mm operada por um atirador preso em uma cinta de lona num cockpit traseiro improvisado ajudou a reduzir as perdas consideravelmente: entre aqueles que foram derrubados por um atirador atento do Il-2 foi Otto Kittel, um dos quatro ases alemães com 267 vitórias na época de sua morte no Dia de São Valentim (14 de fevereiro) em 1945. A principal característica do Il-2 era que, enquanto a metade traseira da fuselagem era principalmente de madeira, a metade dianteira consistia de uma espécie de banheira de aço niquelado de uma polegada de espessura impenetrável à muniçaõ das armas automáticas de infantaria abaixo. Mesmo assim, durante 1943, os Il-2 foram derrubados a uma taxa de 1 para 26: um total de 12.400 foram perdidos em ação contra o inimigo.

A carga de bombas de 1.323 lb do Il-2 não era muito mais que a metade do que poderia ser transportado por um muito mais rápido bombardeiro de mergulho Petlyakov Pe-2 ou pelo americano Douglas A-20 fornecido no Lend-Lease. O armamento normal eram duas metralhadoras de 7.62 mm e dois canhões de 23 mm capazes de penetrar uma blindagem de 25 mm a uma distância de 400 m. Desde que os tanques alemães somente tinham tal blindagem fina em superfícies horizontais e o Il-2, não tendo freios de mergulho, somente poderia atacar em mergulhos rasos, de modo que este equipamento era somente eficiente contra veículos de transporte alemães. Em julho de 1943, uma variação do Il-2 com dois canhões Nudelman de 37 mm fizeram sua estreia na Batalha de Kursk e as autoridades soviéticas divulgaram resultados extraordinários – 270 tanques da 3ª. Divisão Panzer foram destruídos em duas horas, e assim por diante. Na verdade, a 3ª. Divisão Panzer só perdeu 9 tanques na batalha inteira. O Il-2 armado com o Nudelman foi eliminado da produção logo em seguida: o canhão não era confiável e seu volume e peso – e especialmente seu recuo quando disparado – tornava o avião quase incontrolável. No final da guerra, o ás soviético do Il-2 era Aleksandr Nikolayevich Yefimov, que recebeu crédito por ter destruído 126 tanques, 85 aviões em solo (mais dois em combate aéreo), 30 locomotivas ferroviárias, 193 canhões de artilharia e 43 canhões antiaéreos. Outros sete pilotos soviéticos receberam crédito por ter destruído entre 63 e 70 tanques cada um. (Para variar, os alemães se saíram melhor, Hans Ulrich Rudel afirmou ter abatido 519 tanques, 800 veículos e o navio de guerra Marat ao longo de incríveis 2.530 missões de combate.) É claro, contudo, a partir da experiência do front ocidental, que as estatísticas fornecidas pelos pilotos contra tanques eram grandemente exageradas. Em 7 de agosto de 1944, por exemplo, o Comando Nº 121 da RAF, equipado com Hawker Typhoon armados com foguetes, afirmou ter destruído mais de 80 tanques alemães da 1ª. Divisão Panzer SS “Leibstandarte Adolf Hitler” próximo a Mortain. Nas semanas seguintes, duas equipes de especialistas da Pesquisa Operacional, trabalhando por oito dias, foram capazes de encontrar somente 32 tanques alemães destruídos pela ação dos Aliados, dos quais somente sete mostraram algum sinal de terem sido atingidos por foguetes.

À medida que avançava, recuperando o território perdido em 1941 e 1942, e passando por posições que foram bombardeadas e destruídas pelos Il-2, o Exército Vermelho foi capaz de ver com seus próprios olhos como poucos tanques alemães foram destruídos por ataques aéreos, e é difícil acreditar que o enorme programa de construção de I1-2s e treinar suas equipes foi o resultado de uma completa incompreensão quanto à sua eficácia.

O efeito moral nas tropas terrestres de serem atingidas do ar foi notado desde 1917. “É maravilhoso que um pequeno avião pode fazer para assustar as tropas que não estão cobertas,” lembrou um piloto de caça da Primeira Guerra Mundial. “A velocidade da máquina, o barulho que ela faz quando se aproxima, o estrondo enquanto passa pelas cabeças – combinam para fazer os homens a correr e se jogar no chão antes que eles sejam atingidos.”

Analogamente, o impulso psicológico que veio do conhecimento de que os aviões passando em voo rasante sobre as cabeças dos aliados e de vê-los atacando posições inimigas, foi incomensurável. O avanço implacável do Exército Vermelho primeiro rumo à fronteira alemã e em seguida para Berlim envolveu perdas horríveis. Uma das coisas que mantiveram as tropas russas em avanço foi o senso de que elas estavam sendo apoiadas pelos recursos técnicos e industriais da União Soviética. Enquanto elas se agachavam sob o fogo cerrado de posições alemãs bem guardadas, elas eram mantidas firmes pelo conhecimento de que praticamente toda vez que olhavam para o céu viam um avião de seu país sobre suas cabeças. No final, batalhas são ganhas por homens no solo e os generais de Stalin sem dúvida apreciavam que o Il-2 fez mais para fortalecer o espírito de luta da infantaria russa e das unidades blindadas do que fez para enfraquecer a capacidade de defesa dos alemães.

Notas:

* Isso contrasta com o relato oficial da Segunda Guerra Mundial, que afirma que Stalin fez o Pacto com Hitler em 1939 porque precisava de tempo para preparar-se para uma possível agressão alemã. De fato, as forças armadas soviéticas eram as maiores do mundo e mesmo sofrendo as terríveis perdas no início da Operação Barbarossa, elas foram capazes de virar o jogo em menos de dois anos.

** Razão de subida é a componente vertical do vetor velocidade do avião. Um avião voando com uma razão de subida de 500 pés por minuto, em 10 minutos aumentará sua altitude em 5.000 pés.