quinta-feira, 19 de setembro de 2013

[HOL] Meu pai achava que poderia convencer Hitler contra extermínio de judeus, diz filho de Wächter

Folha, 19/09/2013

 
O trem de Viena a Frättingsdorf balança suavemente pelos trilhos, embala o sono dos passageiros. Na manhã fria de abril, com resquícios de um inverno que passou dos limites, o aquecimento do vagão gera um torpor irresistível. Pela ampla janela, as fazendas e seus casarões de pedra se multiplicam a perder de vista. A viagem, nessa sensação de câmara lenta, dura cerca de uma hora.

Pontualmente às 9h42, Horst von Wächter estaciona seu carro em frente à estação. O castelo onde mora, na vila de Haggenberg, fica a quatro quilômetros dali, no silêncio profundo do interior da Áustria. Sem descer, ele abre a porta do passageiro e recebe a reportagem de Opera Mundi com uma pergunta incisiva: “Então você quer saber mais sobre meu pai? Por quê?”

A desconfiança é inevitável. Horst von Wächter, 74 anos, é o quarto dos seis filhos de Otto Wächter, comandante austríaco da SS nazista, o alto escalão paramilitar de Adolf Hitler. Seu pai foi governador do distrito da Cracóvia, na Polônia, e da Galícia, hoje noroeste da Ucrânia, durante a invasão alemã na Segunda Guerra Mundial. É um dos responsáveis diretos pela construção do gueto de Cracóvia e ratificou o uso de câmaras de gás para matar judeus. Fugitivo, não foi julgado no Tribunal de Nuremberg, apesar de ter sido citado diversas vezes.

Apesar do papel determinante na Segunda Guerra, há pouco ou nada sobre Otto Wächter no Arquivo Nacional da Áustria e nas pastas do Centro de Documentação de Berlim, que concentra milhões de papéis sobre o nazismo. O homem que tentou caçá-lo após a guerra, Simon Wiesenthal, considerava-o “o mais odiado entre todos os nazistas fugitivos”, mas conseguiu compilar uma única pasta apenas, hoje parte de seu arquivo, em Viena.

Diante de tão pouco às claras, Horst dispôs-se a falar abertamente sobre o pai. Sua recente abertura para tratar do tema - ele passou a estudar a história da família há poucos anos - é fato raríssimo entre filhos de nazistas proeminentes. Seu esforço, afirma, é por fazer “justiça” ao pai, “corrigir” erros em sua biografia e relativizar os crimes que ele cometeu, separando a ação da SS, responsável pelo Holocausto, da administração civil do território invadido.

À vontade em seu quarto, no Castelo Haggenberg, Horst revelou, em entrevista exclusiva, fatos inéditos da vida de seu pai, dado como morto em condições suspeitas em 1949 (leia aqui o perfil de Otto Wächter). Assim como outros nazistas do alto escalão, do porte de Adolf Eichmann, Franz Stangl e Josef Mengele, Wächter estudou uma fuga para a América do Sul e considerava o Brasil sua melhor opção. Uma carta, datada de 10 de maio de 1948, à qual Opera Mundi teve acesso (leia mais aqui), comprova a tentativa de emigrar.

A entrevista tem duas partes. Na primeira, cuja íntegra está abaixo, Horst fala sobre a carreira política de seu pai, definida pela adesão ao NSDAP (o partido nazista alemão) em 1923 e a participação direta no Putsch (golpe de Estado) na Áustria, em 1934. A segunda parte, que será publicada amanhã, trata de aspectos pessoais da vida do general da SS até ser dado como morto em Roma, escondido e sob identidade falsa, supostamente nos braços do bispo Alois Hudal, notório por acobertar e facilitar a fuga de nazistas.

Opera Mundi: O sr. disse querer “corrigir” a história de seu pai. O sr. poderia dizer o que isso significa e o que exatamente gostaria de corrigir?

Hosrt Wächter: Eu quero fazer justiça a ele. Eu quero deixar claro quem ele era, qual seu caráter e o porquê de suas ações. É para que as coisas sejam compreendidas, sabe? Esse quadro é de meu avô [aponta para um retrato de Josef Freiherr von Wächter, pai de Otto Wächter, sobre a cabeceira de sua cama], que foi um oficial bastante condecorado na Primeira Guerra Mundial, e também foi ministro da Defesa [da Áustria]. Ele foi um dos 30 oficiais mais condecorados da guerra. Essas pessoas queriam fazer o bem às outras. Eles não são o que todo mundo diz hoje do Terceiro Reich, que todos na SS eram criminosos [a SS foi banida da Alemanha em 1945 e classificada como organização criminosa no Tribunal de Nuremberg], o que não pode ser verdade. Sempre há gente que quer fazer o melhor, apenas fazer seu trabalho.

OM: Seu pai foi membro do Partido Nazista desde o início.


HW: Sim, ele foi primeiro da SA [o primeiro exército paramilitar de Hitler, em 1923]. Mas o evento mais importante da vida de meu pai foi a Primeira Guerra Mundial. Sua família era da Boêmia, onde havia uma forte oposição nacionalista entre os alemães e os checos. Ele terminou a escola em Budweis, no sul da Boêmia, onde havia um ginásio alemão, e entrou nesse conflito quando ainda era jovem. Ele estava tentando fazer algo e resolver os problemas. Então ele, claro, entrou no movimento nacionalista desde o início. Foi através do esporte. Meu pai era um esportista, foi campeão austríaco de remo na década de 1920. Ele não veio da universidade. Muitos surgiram desse lado [acadêmico], mas ele veio da área esportiva.

OM: O senhor tem detalhes sobre o que aconteceu a ele n período? Sobre suas visões políticas ou participação política?

HW: Havia um clube esportivo alemão - e tudo era para ser alemão. Nem tanto austríaco, mas tudo estava baseado no “ser alemão”. De fato, a Áustria foi forçada à independência após a Primeira Guerra, porque na verdade todos queriam se juntar à Alemanha. Esse era o grande sonho: a reunificação com a Alemanha. Por isso ele viu com bons olhos a Anschluss [anexação da Áustria, em 1938], porque era isso o que pessoas sonhavam. Elas queriam fazer parte da “grande nacionalidade alemã”, e isso aconteceu. Mas havia as ideias de Hitler sobre - especialmente - os povos eslavos, os tchecos, a quem ele tratava como Untermensch [subespécie]. Eles não estavam “à altura” dos alemães e essa foi a razão pela qual a guerra deu errado. Tenho certeza que a União Soviética teria caído 50 anos antes se os alemães tivessem compreendido a situação e buscado a independência de Ucrânia e das outras nações orientais. É o que elas esperavam, a liberação do regime comunista. Meu pai sempre defendeu que era preciso respeitar as pessoas e nunca tratá-las como animais.

OM: Seu avô e seu pai seguiram carreira na advocacia.


HW: Sim, meu avô tornou-se ministro da Defesa [da Áustria] em 1921 - desde 1890 ele era do partido Großdeutsche [Volkspartei, extinto partido nacionalista austríaco]. Foi quando eles se mudaram para Viena e ele se tornou advogado. E, claro, com sua ligação ao nacionalismo, ele começou a defender nazistas nos tribunais. Meu pai também, ele era diplomado e se tornou aquilo que se classificava como “advogado independente” [entre 1932-1934]. Em Viena ele conheceu um grupo de pessoas que trabalhava para forçar a Áustria a se tornar parte da Alemanha. [Ele foi mais tarde advogado do partido nazista e da SS.]

OM: Seu pai foi governador geral da Cracóvia. O que há para ser “corrigido” na versão corrente da história da administração dele?

HW: Hoje as pessoas não fazem mais distinções entre o governo civil e a SS. Dizem que o governo civil foi responsável por tudo o que aconteceu lá pelas mãos da SS. Isso é um grande mal-entendido. Ele viviam em disputas internas. É preciso esclarecer que existia esse dualismo, proposto e assinado por Hitler. Quando ele estabeleceu a base legal para a instituição do governo geral, ele disse que havia o governo civil e a polícia, que por sua vez não estava subordinada ao governo. Ela era independente. Por isso, havia disputas internas praticamente todos os dias. E também por isso meu pai tem essa má reputação de criminoso. Ele morreu em julho de 1949. A data de sua morte está sempre colocada errada. Em setembro de 1949 uma jornalista em Roma descobriu sobre sua morte. Os jornais, com grandes manchetes, colocaram-no como o “assassino de [Engelbert] Dollfuß [chanceler da Áustria assassinado na tentativa de golpe de 1934]”. Depois veio uma sequência de três dias de manchetes em jornais vienenses. Isso criou sua má reputação e por isso ele sempre foi tratado como criminoso.

OM: Mas seu pai também é reponsável pela decisão de usar câmaras de gás para matar judeus. Como o senhor vê isso?

HW: A principal reputação de meu pai está relacionada diretamente com Simon Wiesenthal. Porque Wiesenthal escreveu que viu meu pai no dia 15 de agosto de 1942 em Lemberg, quando ele e sua mãe foram colocados no trem. Ele escreveu também [no livro Os Assassinos entre Nós] que meu pai mandou 800 mil judeus para a câmara de gás e que era o homem que ele mais odiava entre todos os nazistas. Mas eu consigo provar que nesta data ele não estava em Lemberg. Tenho uma carta que ele escreveu para minha mãe no dia 15, em que ele estava em uma assembleia partidária na Cracóvia. Ele não estava em Lemberg. Simon Wiesenthal confundiu-o com Fritz Katzmann, que era o chefe da SS em Lemberg. Ele o confundiu porque meu pai costumava usar o uniforme da SS, porque com esse uniforme ele teria mais autoridade. Isso também é mencionado no diário de [Hans] Frank [governador geral dos territórios invadidos]. Ou seja, ele está completamente equivocado. O problema é que Simon Wiesenthal disse isso e é muito difícil contradizê-lo. 

OM: Onde o senhor estava e o que sentiu ao saber do que Wiesenthal afirmava?

HW: Eu não me ocupava disso. Eu achava que precisava ficar mais velho. Mas sempre tive uma sensação ruim sobre Simon Wiesenthal. Tenho 800 cartas trocadas entre meus pais, e cartas bastante importantes. O que quero provar que ele era totalmente contra a SS. Ele era contra, apesar de usar o uniforme da SS.

OM: Então ele tinha inimigos na SS?

HW: Havia um superior chamado [Friedrich-Wilhelm] Krüger na Cracóvia, o chefe [da SS] em todo o governo geral, que tentou eliminar meu pai.

OM: Politicamente ou fisicamente?

HW: Ele queria mandar meu pai para Waffen SS [tropa de elite de Hitler], que era como um esquadrão suicida, dado o número de mortes. Se ele tivesse entrado para a Waffen SS, certamente teria morrido. Depois disso, meu pai foi o responsável por montar divisões de ucranianos, e depois de Stalingrado [a batalha durou de agosto de 1942 a fevereiro de 1943] eles mudaram... meu pai também foi um grande amigo de [Andrey Andreyevich] Vlasov, sabe? Ele foi um dos mais fortes generais de Stálin que depois tentou montar seu próprio exército russo para lutar contra o próprio Stálin. Os alemães o aprisionaram, por cerca de 2 anos, até que [Heinrich] Himmler [comandante da SS] entendeu que eles queriam lutar contra os comunistas e poderiam ajudar os alemães. Então, claro, meu pai ficou cada vez mais importante, porque tinha conexões com grupos eslavos. Até que se tornou chefe das divisões eslavas na Reichssicherheitshauptamt [o serviço de inteligência nazista] em Berlim. Ele teria de supervisionar todos os exércitos que lutavam pelos alemães.

OM: Qual era o objetivo principal dele nesse cargo?

HW: Era construir exércitos contra Stálin. Era a ideia dele, bastante simples. Começou em 1943. Himmler estava bastante cético, mas então perceberam que havia muitos voluntários. Como meu pai estava no governo civil, que não tinha nada a ver com o exército, ele buscou uma solução política. Se ele conseguisse convencer essas pessoas a lutar contra o bolchevismo, eles teriam ganhado a guerra. Em maio de 1945, ele deixou Berlim e se juntou a essa divisão ucraniana na Áustria. Essa divisão foi a única que não foi entregue a Stálin pelo povo. Ele tinha conexões e também padres. Era a única divisão da SS que tinha seu próprio padre. Meu pai trabalhou diretamente com o arcebispo de Lemberg, que era uma personalidade venerada.

OM: Seu pai era partidário de uma ligação próxima com a Igreja Católica.

HW: Sim, sem dúvida. Por isso ele conseguiu que essa divisão não sucumbisse ao tratado de Yalta [em 1945], que ordenava que todos os soldados deveriam ser entregues a Stálin. Em Yalta, Stálin disse que queria a divisão do meu pai, já que ele a considerava a mais perigosa, com poloneses e ucranianos. Os ucranianos sempre quiseram ser independentes da Rússia, o que acabou acontecendo.

OM: Seu pai teve uma carreira proeminente no partido nazista. Consta nos arquivos que ele era bastante expansivo, proativo e tinha presença.

HW: Ele tinha bom humor, deixava uma boa impressão, tinha bons modos. Ele era bem-sucedido nessa figura do caráter alemão. Ele obteve sucesso em convencer as pessoas. Ele não era um fanático, um primitivo.

OM: Ele era classificado como “inteligente”.

HW: Mas não era um intelectual. Era um homem prático. Ele conseguiu fazer com que as pessoas trabalhassem rápido e encontrassem as melhores saídas. Ele era um funcionário do Estado muito bom. Em 1938 ele disse à minha mãe, antes de entrar no governo alemão: “Eu posso ser um bom advogado e ganhar muito dinheiro ou um bom político e tentar fazer algo para todos no país. O que faço?” Claro que minha mãe respondeu que a escolha era dele, que ele poderia fazer o que quisesse. Mas seu destino político, claro, já estava selado desde o Putsch [tentativa de golpe fracassada do partido nazista na Áustria, em 1934] e ele nunca mais poderia mudar ou deixar a vida política pela advocacia. Já me perguntaram: por que ele não largou tudo na Polônia [em virtude do Holocausto]? [Ludwig] Losacker [seu braço-direito] escreveu que eles se sentiam responsáveis pelas pessoas lá. E se deixassem o governo, a SS ficaria mais forte.

OM: Como ele tratava as minorias? Que informações o sr. tem a respeito disso?

HW: Tenho uma carta de Lemberg, onde ele tinha uma casa grande, com empregados. Havia uma cozinheira que era uma nazista fanática e xingava os funcionários poloneses. Eles avisaram que não trabalhariam mais por causa dela. Meu pai tentou explicar a ela que não pode tratar as pessoas assim e que deveria mostrar superioridade no trabalho, no comportamento e na qualidade do tratamento que oferecia aos outros.

OM: Mas ele tomou alguma medida em defesa dessas pessoas como governador?

HW: Ele tomou medidas restritivas em Cracóvia contra os judeus, para construir o gueto [em março de 1941]. Isso leva sua assinatura. Ninguém sabia como encontrar uma solução. Ninguém sabia como as coisas estavam se desenvolvendo. Meu pai sempre achou que poderia encontrar Hitler e convencê-lo de mudar suas políticas.

OM: O senhor se refere à Solução Final [extermínio de todos os judeus].

HW: Sim, com relação a judeus, poloneses e a todos os povos eslavos. Só depois ele soube que não poderia fazer nada. Mas sempre disse: “Se eu pudesse ir a Hitler e explicar que isso está errado. Que isso nos trará ainda mais inimigos. Que devemos tratar esses povos como seres humanos.” Ele tinha certeza que poderia convencer Hitler, mas nunca foi recebido.

OM: Eles nunca se encontraram?

HW: Encontraram-se apenas durante a Anexação da Áustria [em 1938]. Durante a guerra, não. Nem no bunker, nem no quartel-general.

OM: Como o senhor vê hoje a carreira do seu pai?

HW: Acho que ele não tinha escolha. Ele nasceu nesse tempo de ideias nacionalistas, confusão, fanatismo. Ele, como um homem que queria fazer algo positivo, mudar as pessoas, resolver coisas, automaticamente estava fadado a dar esses passos que deu. Ele obteve sucesso porque seus grandes inimigos no governo, como Krüger e Katzmann, foram enviados para outras regiões em 1943. Ele obteve sucesso, mas claro que a coisa toda não tinha futuro. Estava tudo fadado a desmoronar. A ideia de nacionalismo e de superioridade racial é nonsense.

OM: Como era a relação de seu pai com Heinrich Himmler, chefe da SS?

HW: Himmler ficou bastante bem impressionado com ele, com seu comportamento e como ele se apresentava. Com seu caráter. Himmler era um burocrata, um tipo Schreibtisch (escrivaninha, em alemão). Ele ficou impressionado com meu pai. Foi Himmler quem o deu o posto na SS. Himmler distribuía esses postos como presentes, para tornar a pessoa dependente dele. Ele dava presentes ao meu pai, a todos os filhos que ele teve - o objetivo era ter o maior número possível de filhos -, uma medalha. Por outro lado, meu pai não aceitava as políticas de Himmler e da SS, mas ele só conseguiu construir a divisão na Ucrânia por ter esse contato direto.

OM: Ele era um protegido de Himmler.

HW: Sim. Quando os russos conquistaram a Galícia e Krüger ordenou que meu pai entrasse no exército, Himmler disse: “Não, o Dr. Wächter será enviado à Itália.” Isso porque ele foi criado em escolas italianas, em Trieste, e falava o idioma muito bem. Ele faria parte do governo militar a partir de agosto de 1945. 


De campeão de remo ao Holocausto

 
Bei meiner division SS [Junto da minha divisão SS]”, diz a legenda da foto, guardada no sótão do Castelo Haggenberg, na Áustria. Nela aparecem juntos, lado a lado, Karl Otto Gustav Freiherr von Wächter, então governador da Galícia (hoje noroeste da Ucrânia), Heinrich Himmler, comandante-geral da SS, e Hans Frank, governador geral da Polônia invadida.

Esse retrato, com três dos principais responsáveis pelo Holocausto, simboliza o auge da carreira política de Wächter dentro do partido nazista, como comandante da SS e governador. O menino vienense, nascido no dia 8 de julho de 1901, cumpria ali funções que mais tarde o tornariam parte do grupo dos maiores criminosos do século 20, com papel crucial na Segunda Guerra Mundial.

Quando garoto, durante a Primeira Guerra Mundial, Wächter seguiu as mudanças de país de seu pai, o general austríaco Josef Freiherr von Wächter, membro do extinto partido nacionalista austríaco Großdeutsche Volkspartei, ou Partido da Grã-Alemanha. Sua infância foi construída sob o ideal de uma sólida identidade alemã.

No mesmo álbum de fotos empoeirado, e até hoje inédito, mais imagens recriam sua juventude em Trieste, na Itália, onde cursou o primário e aprendeu italiano, e em Budweis, então parte do reduto alemão na República Tcheca. Era o mais jovem de três filhos do ministro. Tinha duas irmãs.

Após chegar a Viena, embebido em um nacionalismo galopante, entrou para a “Reserva Alemã” (Deutsche Wehr). Entre 1919 e 1922, foi duas vezes campeão austríaco de remo, mas praticava também natação, escalada e esqui na neve. Entrou para o curso de direito na Universidade de Viena e, em oito semestres, tornou-se advogado.

No dia 1º de abril de 1923, aos 21 anos, Otto Gustav von Wächter, ou apenas Otto Wächter, deu um passo crucial em sua carreira. Nessa data, ele assinou sua filiação ao então proibido partido nazista da Áustria, o "Nationalsozialistische Partei Deutscheösterreiches", ou Partido Nacional Socialista da Áustria Alemã.

Cadastrado sob o número 301.093, o jovem vienense passara a fazer parte da SA, ou "Sturmabteilung", o grupo paramilitar que sustentou a ascensão de Adolf Hitler ao poder na década de 1920 até sua eleição a chanceler, em 1933. Seu destino, a partir daquele ponto, já estava selado e culminaria com a invasão da Polônia e o início da Segunda Guerra Mundial.

Personalidade e ascensão

Documentos oficiais do partido nazista, analisados por Opera Mundi no arquivo do ativista Simon Wiesenthal em Viena, descrevem com elogios a personalidade de Wächter. Ele era de um “caráter expansivo” e tinha “força de vontade” para “aplicar decisões”. Foi classificado como “muito inteligente”, “justo” e “vigoroso”. Bebia moderadamente e era não fumante.

No álbum de fotos, o recém-admitido nazista aparece atlético, frequentando clubes esportivos. Em uma de suas viagens para esquiar na neve, em 1929, quando quebrou uma perna, conheceu Charlotte Bleckmann, filha de um industrial, com quem se casaria em 1932 e teria seis filhos - dois meninos e quatro meninas.

Apenas dois anos depois, em 1934, Wächter participaria diretamente da tentativa de golpe (Putsch), que falhou, mas vitimou o então chanceler austríaco Engelbert Dollfuss, aliado de Benito Mussolini, que, com suas pretensões fascistas tornara ilegal o Partido Comunista e dissolvera o Parlamento Austríaco. A trama, apesar de não ter dado resultados imediatos, abriu caminho para o processo de anexação da Áustria, a chamada "Anschluss", em 1938.

O distanciamento da vida familiar era inevitável. Em meio à convulsão política, Wächter se refugiou em Berlim, onde cumpriria funções como advogado do partido nazista. Seus retratos seguintes seriam, em grande parte, relacionados à ascensão na hierarquia militar até ingressar na SS, ou "Schutzstaffel", o Esquadrão de Proteção a Hitler, liderado por Heinrich Himmler.

No período em que conquistou suas principais promoções na SS, e foram várias de 1935 até o final da guerra, Wächter guardou tempo para ensaios fotográficos. Orgulhoso das novas posições na carreira, posava em diversos ângulos. Nas legendas das páginas, fazia anotações sobre a escalada na hierarquia militar, como em 1938, quando se tornou SS-Standartenführer, patente máxima de um oficial de campo e equivalente a coronel.

Guerra e gueto



Naquele ano, o mesmo da entrada de Hitler na Áustria, Wächter já tinha dois filhos - teria ainda outros quatro, seguindo a ideologia nazista de ter a maior prole possível. Típico burocrata disciplinado, ganhara a confiança de Himmler e partiria para as funções mais decisivas de sua carreira em 1939, quando tornou-se governador da Cracóvia, na Polônia recém-invadida, e decretou a perseguição os judeus.

“Todos os judeus acima de 12 anos no distrito da Cracóvia devem, a partir do dia 1º de dezembro de 1939, colocar em suas casas uma marca visível...Os judeus que não o fizerem devem sofrer uma punição severa...”, ordenou ele, assim como outras medidas para obrigar poloneses ao trabalho forçado. Em 1941, decretaria também a criação do Gueto de Cracóvia.

Wächter foi questionado por seu próprio pai, em carta, sobre as políticas nazistas em relação aos judeus. O documento está guardado nos arquivos do filho, Horst, no Castelo Hagenberg. Em resposta, de 22 de abril de 1941, ele lamentou e afirmou que “as medidas eram de interesse da nação como um todo.” Meses depois, em uma reunião de governo no dia 20 de outubro de 1941, Wächter diria que a “solução radical à questão judaica é inevitável.”

Galícia e Wiesenthal*

Em janeiro de 1942, Wächter era nomeado governador do distrito da Galícia em Lemberg, hoje Lviv, na Ucrânia. Sete meses depois, ele receberia ordens da SS para a erradicação dos judeus do gueto da cidade. Suas ações no cargo o tornariam “o nazista mais odiado” pelo ativista e escritor judeu Simon Wiesenthal, que morava em Lviv durante a invasão alemã.

No dia 15 de agosto de 1942, relata Wiesenthal em seu livro, "Os Assassinos entre Nós", Wächter fiscalizou pessoalmente o transporte de quatro mil judeus para campos de extermínio - entre eles, estava sua mãe, que nunca mais foi vista. Wiesenthal também seria enviado para campos de trabalho, mas sobreviveu e dedicou sua vida a caçar nazistas no pós-guerra. “Wächter matou pelo menos 800 mil judeus”, escreveu ele. O filho de Wächter, Horst, contesta as informações.

No final de seu período à frente da adminstração da Galícia, Wächter investiu em laços com Andrey Andreyvitch Vlasov, notório opositor de Josef Stálin, e, em 1945, já no final da guerra, foi transferido para o Reichssicherheithauptamt, o departamento responsável, entre outras coisas, pela inteligência do Reich, em Berlim, onde encabeçou a criação de exércitos de voluntários para combater ao lado dos nazistas. O projeto de guerrilha não frutificou. A guerra estava já próxima do fim.

Derrota e fuga

O dia 8 de abril de 1945 deu início à fase mais atribulada e, até agora, pouco documentada da vida de Wächter. As correspondências entre ele e a mulher, Charlotte Bleckmann, reunidas no arquivo de Horst Wächter, no Castelo Hagenberg, são as únicas fontes de informações sobre o que estava por vir.

Com a guerra próxima do fim, o ex-governador da Galícia telefonou para Charlotte, que morava em Zell am See (a cerca de 400 km de Viena). Logo em seguida, ela enterrou as jóias da família e queimou arquivos referentes ao seu governo - possivelmente o Arquivo Wächter, considerado importantíssimo por Wiesenthal para esclarecer a atuação nazista na Cracóvia e na Galícia.

“Minha mãe ficou desesperada e não sabia o que fazer”, afirmou Horst a Opera Mundi. Na época, ele tinha apenas seis anos, mas lembra com clareza os primeiros passos da família no pós-guerra. O pai era fugitivo, fez visitas esporádicas e era tratado como “um tio da América do Sul”.

A partir de 1946, enquanto seu tutor, Himmler, era julgado e condenado à forca no Tribunal de Nuremberg**, Wächter adotou uma identidade falsa - circulava sob o nome de Alfredo Reinhardt - e então escapou para Roma, sob o zelo de Alois Hudal, bispo da igreja Santa Maria Dell’Anima, perto da Piazza Navona.

O templo, com laços germânicos, foi o trampolim de nazistas que, munidos de passaportes falsos oferecidos pela Cruz Vermelha, fugiram para o anonimato em diversos países e continentes. Wächter tentou, mas não conseguiu o documento antes de morrrer. Em cartas trocadas com um amigo que já vivia na Argentina, citou o Brasil como o destino mais fácil e seguro de entrar, mesmo sem passaporte.

Morte súbita

Pouco depois de obter informações sobre as rotas de fuga, em maio de 1949, Wächter foi dado como morto. A data de falecimento, que consta nos documentos da família, é o dia 15 de julho daquele ano. Alois Hudal, bispo que notoriamente ajudou nazistas, ficou encarregado de dar a extrema-unção. A causa foi uma icterícia grave, que ele teria contraído ao nadar nos canais da capital italiana.

“Eu lamento que o nacional-socialismo não tenha chegado a um entendimento com a igreja. Muitas coisas seriam diferentes na Alemanha e na Europa de hoje. O poder do bolchevismo teria sido destruído”, teria dito Wächter a Hudal, antes de morrer. O corpo seria enterrado no cemitério Verano, em Roma.

A morte do “nazista mais odiado” só chegaria aos jornais dois meses depois, em setembro de 1949, quando foi classificado como “assassino de Dolfuss”, por sua participação no Putsch de 1934. Wiesenthal nunca acreditou na versão de Hudal e buscou, até 1987, sem sucesso, informações sobre o Arquivo Wächter, que teria sido queimado por Charlotte.

Somente 22 anos depois, em 1971, seu restos mortais voltariam à Áustria sob sigilo e de forma ilegal, em uma manobra feita por sua mulher. Munida de um documento de transporte da ossada para Palermo, na Sicília, ela conseguiu levá-lo ao cemitério Pfarrkirche Fieberbrunn, no Tirol. Em 1985, Charlotte morreu e foi enterrada ao seu lado.

Desde então, a família se absteve de buscar ou divulgar informações sobre a história do patriarca, Otto Wächter. A última foto, com todos reunidos, data da primavera de 1949, meses antes de ser dado como morto. O assunto tornou-se tabu até que Horst decidiu revisar os documentos que tinha em casa. Eles contam em detalhes essa história, ainda ausente da bibliografia da Segunda Guerra Mundial.

Nota:
 
* Já foi provado que Simon Wiesenthal era um grande mentiroso. Para saber mais sobre ele, ver o artigo "Por que acho que Simon Wiesenthal é uma fraude".
 
** Himmler não foi julgado em Nuremberg, mas sim suicidou-se quando foi feito prisioneiro pelos britânicos. É nisso que dá entregar a redação de artigos históricos para jornalistas.

[HOL] “Ele foi o homem mais doce do mundo”, diz Brigitte Höss

Daily Mail, 08/09/2013

 


Estas são fotos nunca antes vistas da filha do comandante de Auschwitz como uma jovem modelo antes de se mudar para os EUA, onde ela teve sucesso em manter em segredo seu passado familiar obscuro por 40 anos.

Brigitte Höss, cujo pai Rudolf estava no comando do mais mortal dos campos de concentração do regime nazista, sorri para a câmera durante o que é pensado ter sido o início de sua carreira de modelo em Balenciaga.

Hoje, com 80 anos e em fase terminal de câncer, ela revelou a extensão total do que é uma estória extraordinária em sua primeira grande entrevista.

Vivendo em aposentadoria anônima na Virgínia do Norte, Höss, que deu uma entrevista ao The Washington Post, teme por sua vida se sua identidade for revelada.

De fato, Brigitte era tão envergonhada do papel de seu pai no Holocausto que ela ficou surpresa quando a dona judia da loja de departamentos que ela trabalhava a perdoou quando ela confessou, bêbada, sua árvore genealógica, compreendendo que ela não deveria ser responsabilizada.

O mais incrível é o fato de que a desconhecida dona da loja – cujo comércio atendia as esposas de deputados e senadores – fugiu da Alemanha Nazista em 1938.

Confrontada pelas memórias de seu pai, que foi responsável pela morte de 1,1 milhão de judeus e dezenas de milhares de ciganos e prisioneiros políticos, Brigitte mantém até hoje que seu pai “era o homem mais doce do mundo”.

Uma das condições para a entrevista do Post acontecer era a de que o nome de casada não fosse usado, de modo que nenhum detalhe pudesse potencialmente levar à sua identificação.

“Há loucos lá fora. Eles podem queimar minha casa ou atirar em alguém,” diz ela em um sotaque levemente alemão ao entrevistador, Thomas Harding.

Rudolf Höss foi enforcado em 1947 após o fim da guerra e Brigitte, junto com sua mãe Hedwig e dois irmãos e duas irmãs, ficaram na extrema pobreza.

Com 80 anos e recentemente diagnosticada com câncer, ela consumiu muito dos últimos 40 anos trabalhando numa loja de departamentos que serve proeminentes cidadãos de Washington, incluindo as esposas de deputados e senadores.

Chegando em Washington com seu marido irlandês em 1972, ele trabalhou em cargo gerencial em uma companhia de transporte.

Incapaz de falar inglês fluente, Brigitte disse ao The Washington Post como ela conseguiu um emprego de meio período em uma loja de departamentos onde ela encontrou seu futuro chefe, uma senhora judia.

As duas se acertaram e ela pediu a Brigitte para trabalhar com ela num butique em Washington.

Uma noite após muita bebida, Brigitte confessou a ela que seu pai era Rudolf Höss. Sua chefe judia disse que isto não importava para ela, apesar de ter fugido da Alemanha Nazista após os ataques da Kristallnacht em 1938*.

Por toda sua vida, se as pessoas perguntassem sobre seu pai, ela diria prontamente que ele morreu durante a Segunda Guerra Mundial, afirmou The Washington Post.

Nascida Inge-Brigitt Höss em 18 de agosto de 1933, seus primeiros anos foram gastos mudando-se de um campo de concentração para outro, enquanto seu pai escalava postos na SS de Hitler.

Dos sete aos onze anos, ela viveu em uma vila além de Auschwitz, onde sua família vivia uma boa vida.

Eles eram servidos por uma equipe – muitos deles prisioneiros – e sua casa era decorada com objetos e arte roubados de prisioneiros após terem sido selecionados para as câmaras de gás.

Eles podiam mesmo ver os prédios dos prisioneiros e o velho crematório da janela do sótão, mas Brigitte lembra-se apenas de visitar os cavalos e ovelhas no campo.

 
Em abril de 1945, com a guerra claramente perdida, a família fugiu para onorte. Eles esperaram até o momento certo para fugir para a América do Sul, mas em março de 1946, Hanns Alexander, o tio-avô judeu de Harding, encontrou-os e os capturou. Após testemunhar em Nuremberg, Höss foi enforcado próximo ao crematório de Auschwitz.

Vivendo no ostracismo por causa de sua conexão com o regime nazista, Brigitte e sua família gastaram os anos seguintes em extrema pobreza.

Durante os anos 1950, ela deixou a Alemanha para tentar uma nova vida na Espanha, onde ela trabalhou como modelo por três anos com a badalada agência Balenciaga.

Em 1961, ela casou-se com um engenheiro irlandês trabalhando em Madri. Quando ela confessou a ele seu passado, ele aceitou e acreditou que ela era “tão vítima quanto qualquer outra pessoa.”

Ambos concordaram ema fazer um “acordo não verbal e não escrito” em não falar a ninguém sobre o passado familiar.

O trabalho do marido os levou para a Libéria, Grécia, Irã e Vietnã antes deles se mudarem – junto com seu casal de filhos – para Washington em 1972.

Inicialmente, Brigitte lutou para se adaptar á sua nova vida, mas ajudou quando ela conseguiu um emprego de meio período numa loja de departamentos.

Não muito tempo após ter sido contratada, ela confessou seu passado familiar para sua empregadora. Felizmente, para Brigitte, a proprietária, disse-lhe que entendia que ela não tinha cometido nenhum crime, de modo que ela permaneceu no mesmo emprego por 35 anos.

Brigitte divorciou-se de seu marido em 1983 e sua filha já é falecida, mas seu filho vive com ela. Ela vê seus netos com frequência, mas até hoje não conseguiu discutir seu segredo sombrio porque ela não os quer ver magoados.

Ela disse ao The Washington Post que sua mãe costumava visitá-la em Washington dos anos 1960 até o final dos anos 80, quando ela faleceu. Ela foi enterrada em algum lugar da Virgínia do Norte.

Seus outros irmãos vivem na Alemanha, embora um deles já seja falecido. Um membro da família que tornou pública sua relação com Höss foi seu sobrinho Rainer, que falou certa vez para Harding: “Se soubesse onde meu avô está enterrado iria até lá e mijaria no seu túmulo.”

Brigitte gastou boa parte de sua vida evitando falar sobre seu pai e mesmo sabendo que o que ele fez foi terrivelmente errado, ela tem boas lembranças dele.

“Ele foi o homem mais doce do mundo,” diz ela. “Ele era muito bom para nós.”

Ela também disse a Harding que seu pai era infeliz.

Ela mantém que seu pai foi obrigado a fazer uma porção de coisas e não tinha escolha.

“Ele tinha que fazer. Sua família era ameaçada. Nós éramos ameaçados se ele não fizesse. E ele era um dos muitos na SS. Havia outros que fariam se ele não fizesse.”
 
 
Brigitte não nega que as atrocidades em Auschwitz e outros campos aconteceram, mas ela questiona o número de vítimas.

“Como pode haver tantos sobreviventes se tantos foram mortos?”

Quando é dito que seu pai confessou ser o responsável pela morte de mais de um milhão de judeus, ela diz que os britânicos “arrancaram a confissão sob tortura.”   

Nota:

* Até o início dos anos 1970, o Holocausto não tinha o apelo emocional que possui hoje. De fato, o assunto era pouco discutido nos meios acadêmicos e Holywood sequer pensava no Holocausto em sua agenda. O martírio judaico só ganhou a atenção do mundo ocidental após o seriado da rede NBC “O Holocausto” (1978) que foi um enorme sucesso. A partir daí, as produções cinematográficas, livros e documentários exploraram o assunto à exaustão. Se Brigitte tivesse confessado isso hoje, provavelmente teria sido denunciada e perdido o emprego.


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Como a Grã-Bretanha torturou Prisioneiros de Guerra nazistas

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

[POL] Rudolf Hess foi morto por agentes britânicos, diz investigação da época

Daily Mail, 07/09/2013

 


Acusações de que Rudolf Hess foi supostamente morto sob ordens dos britânicos para impedir-lhe de revelar segredos de guerra foram colocadas em um relatório policial que somente apareceu após 25 anos.

De acordo com os documentos, um médico militar, que trabalhava na prisão de Spandau e tratou o ex-líder do Partido Nazista, forneceu à Scotland Yard os nomes de dois agentes britânicos que eram os suspeitos do assassinato, mas a organização foi aconselhada a interromper a investigação.

O relatório do Detetive-chefe Howard Jones, que agora foi liberado graças ao Ato de Liberdade de Informação, fornece detalhes da investigação das acusações de Hugh Thomas.

Ele foi escrito dois anos após a morte de Hess em 1987 após a organização ser convocada devido à afirmação do Sr. Thomas, qual seja, de que o homem enviado pelos nazistas em 1941 não era Hess, mas um impostor.

As autoridades aliadas disseram que Hess enforcou-se com um cabo elétrico em sua cela em Spandau em 17 de agosto de 1987, aos 93 anos de idade.

Mas o Sr. Thomas disse que o Hess verdadeiro foi de fato morto por dois agentes britânicos disfarçados com uniformes americanos no meio de uma especulação de que ele estava para ser libertado após a concordância da União Soviética.

O relatório cita como o Sr. Thomas “concedeu confidencialmente” os nomes de dois possíveis suspeitos que ele havia recebido de um antigo membro do SAS.

O Sr. Jones escreveu: “(O Sr. Thomas) recebeu informação de que dois assassinos foram enviados pelo governo britânico para matar Hess no sentido dele não ser libertado e expor segredos em relação ao plano de derrubada do governo de Churchill.”

Apesar de não encontrar “muita coerência” nas acusações de assassinato, o Sr. Jones ordenou uma investigação.

De acordo com o jornal The Independent, o Serviço de Promotoria da Coroa recebeu uma cópia do relatório em 1989.

Após seis meses, o Diretor de Promotoria Pública na época, Sir Allan Green, aconselhou que a investigação fosse interrompida.

Hess foi um dos primeiros seguidores de Hitler, que ditou muito de seu manifesto infame Mein Kampf para ele enquanto esteve preso durante os anos 1920.

Ele eventualmente ascendeu e tornou-se vice-líder do Partido Nazista, sendo capturado em 1941 durante um voo solitário à Escócia em uma missão de paz aparentemente não autorizada.

Mais tarde, ele foi julgado em Nuremberg após o término da Segunda Guerra Mundial.

No julgamento de Nuremberg, Hess foi considerado inocente de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, mas sentenciado a prisão perpétua por crimes contra a paz e conspiração para cometer crimes contra a paz. A partir de 1966 em diante, Hess – cujos guardas aliados da prisão eram obrigados a se referir a ele como Prisioneiro Sete – era o único prisioneiro na prisão de 600 celas.

Sua chegada à Grã-Bretanha em 1941 tem sido objeto de muito debate ao longo dos anos.

Em março do ano passado, um relatório tornado público revelou pela primeira vez a cena completa na qual Hess supostamente cometeu suicídio e sua suposta carta de despedida.

Mas o relatório da investigação sobre a morte de Hess, liberado ano passado sob a Liberdade de Informação, somente aumentou o mistério em torno de seus últimos momentos, quando fotografias da cela onde ele morreu mostraram a pouca distância – cerca de 1,5 metro – entre a corda e o chão.

Seu filho, Wolf, insistiu anteriormente que a altura era insuficiente para seu pai, encurvado pela artrite, enforcar-se e adicionou ao exame pós-morte evidência de que um laço completo foi colocado em torno de seu pescoço.

Apesar do veredito oficial pelo Departamento de Investigações Especiais da Polícia Militar Britânica ser de que Hess cometeu suicídio e ninguém mais esteve envolvido, historiadores afirmaram que as imagens liberadas lançam dúvidas nesta versão dos fatos.

sábado, 14 de setembro de 2013

[SGM] A Mentira de Hiroshima

John V. Denson, 02/08/2006

 


Todo ano, durante as primeiras duas semanas de agosto, os meios de comunicação de massa e muitos políticos nacionais arrotam o mito político “patriota” de que o lançamento das duas bombas atômicas sobre o Japão em agosto de 1945 provocou sua rendição, e assim salvou a vida de 500 mil a um milhão de soldados americanos que não invadiram a ilha. Pesquisas de opinião nos últimos cinquenta anos mostram como os cidadãos americanos em sua esmagadora maioria (entre 80 e 90%) acreditam nesta falsa estória, que, é claro, deixa-os mais confortáveis em acreditar que a matança de centenas de milhares de civis (a maioria mulheres e crianças) salvou vidas americanas e ajudou a terminar a guerra.

O melhor livro em minha opinião a explorar este mito é “A Decisão de Usar a Bomba”, de Gar Alperovitz, pois ele não somente explica as reais razões das bombas terem sido lançadas, mas também fornece uma história detalhada de como e por que este mito foi criado para justificar o massacre de civis inocentes e, portanto, ser moralmente aceitável. O problema essencial começa com a política de rendição incondicional do Presidente Franklin Roosevelt, que foi relutantemente adotada por Churchill e Stalin e a qual foi adotada pelo Presidente Truman quando ele sucedeu Roosevelt em abril de 1945. Hanson Baldwin foi o principal correspondente do New York Times durante a Segunda Guerra Mundial e escreveu um livro importante imediatamente após a guerra intitulado “Grandes Erros da Guerra”. Baldwin conclui que a política de rendição incondicional “... foi talvez o maior erro político da guerra... rendição incondicional foi um convite aberto para a resistência incondicional; ela desencorajou a oposição a Hitler, provavelmente alongou a guerra, custou-nos vidas e ajudou a trazer o atual estado de paz abortada.”

A dura verdade é que os líderes japoneses, tanto militares quanto civis, incluindo o Imperador, desejavam se render em maio de 1945 se ele pudesse permanecer no cargo e não fosse submetido a um tribunal de crimes de guerra após esta terminar. O fato chegou ao conhecimento do Presidente Truman ainda em maio. A monarquia japonesa era uma das mais antigas em toda a história, datando de 660 a.C. A religião japonesa tinha como crença que todos os imperadores eram descendentes diretos do deus Sol, Amaterasu. O imperador Hirohito era o 124º. Na linha direta de descendência. Após as bombas terem sido lançadas em 6 e 9 de agosto de 1945, e sua rendição logo após, foi permitido aos japoneses manter seu imperador no trono e ele não foi submetido a nenhum julgamento. O imperador Hirohito chegou ao trono em 1926 e continuou em sua posição até sua morte em 1989. Já que o presidente Truman, com efeito, aceitou a rendição condicional oferecida pelos japoneses em maio de 1945, podemos perguntar: “Por que então as bombas foram lançadas?”

O autor Alperovitz nos dá uma resposta em grande detalhe que somente pode ser resumida aqui, mas ele afirma, “Notamos uma série de japoneses ansiosos pela paz na Suíça que o chefe do OSS William Donovan relatou a Truman em maio e junho (de 1945). Isto sugeria, mesmo neste ponto, que a exigência americana para rendição incondicional era o único obstáculo sério para a paz. No centro disso, como vimos, estava Allen Dulles, chefe das operações da OSS na Suíça (e depois diretor da CIA). Em seu livro de 1966, “A rendição secreta”, Dulles lembrou que ‘em 20 de julho de 1945, sob ordens de Washington, fui à Conferência de Postdam e relatei lá ao Secretário (da Guerra) Stimson o que eu havia obtido de Tóquio – eles aceitavam a rendição desde que pudessem manter o imperador e sua constituição como forma de manter a ordem no Japão após as notícias devastadoras da rendição tornarem-se conhecidas do povo japonês.’” Alperovitz mostra que Stimson relatou este fato diretamente a Truman. Alperovitz afirma ademais que a prova documental que todo conselheiro civil e militar presidencial, com exceção de James Byrnes e o Primeiro-Ministro Churchill e sua liderança militar, pediu a Truman para revisar a política de rendição incondicional de modo aos japoneses renderem-se e manter seu imperador. Todo este conselho foi dado a Truman antes da Proclamação de Postdam, que ocorreu em 26 de julho de 1945. Esta proclamação fez uma exigência final sobre o Japão para render-se incondicionalmente ou sofrer consequências drásticas.

Outro fato incrível sobre a conexão militar entre o lançamento da bomba é a falta de conhecimento por parte do general MacArthur sobre a existência da bomba e se ela havia sido lançada. Alperovitz afirma que “MacArthur não sabia nada sobre o plano de utilização da bomba atômica até quase o último minuto. Nem ele estava envolvido pessoalmente na cadeia de comando com esta conexão; a ordem veio diretamente de Washington. De fato, o Departamento de Guerra esperou até cinco dias antes de bombardear Hiroshima mesmo para notificar MacArthur – o comandante supremo do Exército americano no Pacífico – da existência da bomba atômica.”

Alperovitz deixa bem claro que a principal pessoa que aconselhava Truman, enquanto ignorava todas as advertências de seus conselheiros civis e militares, era James Byrnes, o homem que virtualmente controlava Truman desde o começo de sua administração. Byrnes era uma das mais experientes figuras políticas em Washington, tendo servido por mais de trinta anos tanto no Congresso quanto no Senado. Ele também trabalhou no Supremo tribunal Federal e, a pedido do presidente Roosevelt, demitiu-se de sua posição e aceitou um cargo na administração Roosevelt na área de gestão de economia doméstica. Byrnes foi à Conferência de Yalta com Roosevelt e então recebeu a responsabilidade de convencer o Congresso e o povo americano a aceitar os acordos de Yalta.

Quando Truman tornou-se senador em 1935, Byrnes imediatamente tornou-se seu amigo e mentor e permaneceu próximo a Truman até que este tornou-se presidente. Truman jamais esqueceu isto e imediatamente chamou Byrnes para ser seu número dois na nova administração. Byrnes esperava ser nomeado candidato a vice-presidente para substituir Wallace e ficou desapontado quando Truman recebeu a indicação, ainda que os dois permanecessem próximos. Byrnes também era muito chegado a Roosevelt, enquanto Truman foi mantido na obscuridade pelo presidente durante a maior parte do tempo em que serviu como vice-presidente. Truman pediu a Byrnes imediatamente em abril, para tornar-se seu Secretário de Estado, mas eles prorrogaram o anúncio oficial até 3 de julho de 1945, de modo a não ofender o ocupante do cargo. Byrnes também havia aceitado uma posição no comitê que cuidava da política da bomba atômica e, assim, em abril de 1945 tornou-se o principal conselheiro de política externa de Truman, em especial do uso da bomba atômica. Foi Byrnes que encorajou Truman a postergar a Conferência de Postdam e seu encontro com Stalin até que eles pudessem saber, na conferência, se a bomba atômica havia sido testada com sucesso. Enquanto na Conferência de Postdam, os experimentos foram realizados com sucesso e Truman alertou Stalin de que uma nova arma de destruição em massa estava nas mãos da América, o que, esperava Byrnes, faria com que Stalin recuasse de exigências excessivas no período do pós-guerra.

Truman secretamente deu as ordens em 25 de julho de 1945 de que as bombas fossem lançadas em agosto, enquanto ele voltava para a América. Em 26 de julho, ele emitiu a Proclamação de Postdam, ou ultimato, ao Japão para se render, deixando no lugar a política de rendição incondicional, na certeza de que os termos não seriam aceitos pelo Japão.

A conclusão que podemos chegar, com a evidência apresentada, é que Byrnes é o homem que convenceu Truman a manter a política de rendição incondicional e não aceitar a rendição do Japão de modo a ter uma desculpa para lançar as bombas e demonstrar aos russos que a América tinha um novo líder, um “novo xerife em Dogde City” que, diferentemente de Roosevelt, seria duro com os russos em termos de política externa e que estes deveriam “ficar na sua” no período que ficou conhecido como “Guerra Fria”. Uma razão secundária foi que o Congresso seria informado agora por que eles tornaram secreto o Projeto Manhattan e gastaram uma fortuna mostrando que não somente as bombas funcionavam, mas também elas trouxeram um fim para a guerra, fizeram os russos recuar e tornaram a América a maior potência militar do mundo.

Se a rendição japonesa tivesse sido aceita entre maio e o final de julho de 1945 e o imperador tivesse sido mantido no cargo, como de fato ele permaneceu após o bombardeio atômico, isto teria mantido a Rússia fora da guerra. A Rússia concordou em Yalta a entrar em guerra contra os japoneses três meses após a rendição alemã. De fato, a Alemanha rendeu-se em 8 de maio de 1945 e a Rússia anunciou em 8 de agosto (exatamente três meses depois) que estava abandonando sua política de neutralidade em relação ao Japão e entrou na guerra. A entrada na guerra da Rússia por seis dias permitiu-lhes ganhar poder e influência extraordinários na China, Coréia e outras áreas importantes da Ásia. Os japoneses morriam de medo do Comunismo e se a proclamação de Postdam indicava que a América aceitaria a rendição condicional permitindo ao imperador permanecer no cargo e informasse os japoneses de que a Rússia entraria na guerra se eles não se rendessem, então isto certamente apressaria a rendição japonesa.

A segunda questão que Alperovitz responde na segunda metade do livro é como e por que o mito de Hiroshima foi criado. A estória do mito começa com a pessoa de James B. Conant, o presidente da Universidade Harvard, que foi um cientista proeminente, tendo inicialmente estabelecido sua reputação como químico criador de gás venenoso durante a Primeira Guerra Mundial. Durante a Segunda Guerra, ele foi chefe do Comitê de Pesquisa de Defesa nacional do verão de 1941 até o fim da guerra e ele foi uma das figuras centrais no Projeto Manhattan. Conant começou a se preocupar com o futuro de sua carreira acadêmica, assim como com suas posições na indústria privada, pois várias pessoas começaram a questionar o motivo do lançamento das bombas. Em 9 de setembro de 1945, o almirante William F. Halsey, comandante da Terceira Frota, foi citado publicamente como dizendo que a bomba atômica foi usada porque os cientistas tinham “um brinquedo e queriam testá-lo...” Ele complementou, “a primeira bomba atômica foi um experimento desnecessário... foi um erro tê-la lançado.” Albert Einstein, um dos principais cientistas mundiais, que também teve uma conexão importante com o desenvolvimento da bomba atômica, respondeu e suas palavras apareceram na primeira página do New York Times: “Einstein lamenta o uso da Bomba Atômica”. A reportagem escreveu que Einstein afirmou “a grande maioria dos cientistas se opôs ao uso repentino da bomba atômica.” No julgamento de Einstein, o lançamento da bomba foi político – uma decisão diplomática ao invés de uma decisão militar ou científica.

Provavelmente, a pessoa mais próxima de Truman do ponto de vista militar era o Chefe do Grupo de Líderes de Staff, o almirante William Leahy e existem boatos de que ele também lamentou o uso da bomba e havia aconselhado Truman a não usá-la, alertando-o para revisar a política de rendição incondicional de modo que os japoneses pudessem se render e manter o imperador. As visões de Leahy foram mais tarde relatadas por Hanson Baldwin em uma entrevista que Leahy “achava que o lance de reconhecer a continuação do Imperador era um detalhe que podia ter sido resolvido facilmente.” A secretária de Leahy, Dorothy Ringquist, relatou que Leahy lhe disse no dia em que a bomba de Hiroshima foi lançada, “Dorothy, lamentaremos esse dia. Os Estados Unidos sofrerão, porque a guerra não deve ser feita contra mulheres e crianças.” Outra voz naval importante, o comandante em chefe da Frota americana e chefe das Operações Navais, Ernest J. King, afirmou que o bloqueio naval e o bombardeio anterior do Japão em março de 1945, haviam deixado os japoneses sem outra opção e o uso da bomba atômica foi desnecessária e imoral. Analogamente, a opinião do Almirante Chester W. Nimitz foi relatada em uma conferência de imprensa em 22 de setembro de 1945 como sendo “o Almirante aproveita a oportunidade de juntar-se àquelas vozes que insistem que o Japão fora derrotado antes do bombardeio atômico e da entrada da Rússia na guerra.” Em um discurso subsequente no Monumento de Washington em 5 de outubro de 1945, o Almirante Nimitz disse que “os japoneses já tinham, de fato, implorado por paz antes da era atômica ser anunciada ao mundo com a destruição de Hiroshima e antes da entrada russa na guerra.” Foi sabido também que em 20 de julho de 1945, o general Eisenhower havia pedido a Truman, em uma visita pessoal, para não usar a bomba atômica. O argumento de Eisenhower foi “não é necessário atingi-los com esta coisa terrível... usar a bomba atômica, matar e aterrorizar civis, sem qualquer tentativa (de negociações) foi um duplo crime.” Eisenhower também disse que não era necessário a Truman sucumbir a Byrnes.

James Conant chegou à conclusão que alguma pessoa na administração deveria vir a público para mostrar que o lançamento das bombas era uma necessidade militar, assim salvando a vida de centenas de milhares de soldados americanos, de modo que ele se aproximou de Harvey Bundy e seu filho, McGeorge Bundy. Foi acordado por eles que a pessoa mais importante para criar este mito era o Secretário da Guerra, Henry Stimson. Foi decidido que Stimson escreveria um longo artigo a ser amplamente divulgado nas revistas nacionais mais conhecidas. Este artigo foi revisado repetidamente por McGeorge Bundy e Conant antes de ser publicado na revista Harper de fevereiro de 1947. O longo artigo tornou-se assunto de primeira página e editorial no New York Times e no editorial estava escrito, “Não há dúvidas que o presidente e o Sr. Stimson estão certos quando eles mencionam que a bomba provocou a rendição japonesa.” Mais tarde, em 1949, o presidente Truman endossou especificamente esta conclusão, incluindo a ideia de que ela salvou a vida de um milhão de soldados. Este mito tem sido renovado anualmente pela mídia e por vários políticos desde então (N. do T.: até para justificar as políticas imperialistas do governo americano ao redor do globo) .

É interessante notar que em suas memórias Henry Stimson, chamada “Em Serviço Ativo em Paz e na Guerra”, ele escreva “infelizmente, vivi o suficiente para saber que a história não é geralmente o que de fato aconteceu, mas o que é registrado nela.”

Para trazer este assunto em foco sob um ponto de vista da tragédia humana, recomendo a leitura do livro de um sobrevivente de Hiroshima, “Diário de Hiroshima: O Registro de um Médico Japonês”, de Michiko Hachiya, o registro diário de um médico sobre as mulheres, crianças e idosos que ele tratou no hospital. O médico estava muito ferido, mas se recuperou o suficiente para ajudar is outros e seu relato das tragédias pessoais de civis inocentes que foram queimados ou morreram como resultado da bomba coloca a questão moral em uma perspectiva clara.

Agora que vivemos na era nuclear e há armas nucleares suficientes espalhadas pelo mundo para destruir a Civilização, precisamos enfrentar o fato de que a América é o único país a ter usado esta arma terrível e que foi desnecessário fazê-lo. Se os americanos pudessem reconhecer esta realidade, ao invés de acreditar no mito, poderia ser motivo de uma revolta moral que poderia levar o mundo a perceber que as guerras no futuro poderão ser nucleares, e portanto todas as guerras devem ser evitadas a qualquer custo.   

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Cientistas da Nasa tentam determinar se viagem mais rápida do que a luz é possível

Folha, 03/09/2013

 
Na sede do Centro Espacial Johnson, Harold White e outros engenheiros da Nasa vêm redesenhando diversos instrumentos --um laser, uma câmera e pequenos espelhos-- com o objetivo de usá-los para distorcer a trajetória de um fóton, alterando a distância que ele percorre em determinada área.

Tralhando em um laboratório imune a vibrações, construído especialmente para esse fim, a equipe está tentando determinar se uma viagem mais rápida do que a luz poderia ser possível. Dobra espacial. Como em "Star Trek".

"O espaço vem se expandindo desde o Big Bang, há 13,7 bilhões de anos", disse White, 43, físico e engenheiro de propulsão avançada que dirige o projeto de pesquisa. "Sabemos, ao examinar alguns modelos cosmológicos, que houve períodos iniciais do Universo em que ocorreu uma inflação explosiva, onde dois pontos teriam se afastado mutuamente a velocidades muito elevadas."

"A natureza é capaz de fazer isso. Então a pergunta é se podemos fazer o mesmo."

"Não excederás a velocidade da luz", postulou Einstein, o que basicamente significa impor um limite galáctico de velocidade.

Mas, em 1994, o cientista mexicano Miguel Alcubierre teorizou que velocidades superiores à da luz seriam possíveis sem contradizer Einstein.

A teoria de Alcubierre envolvia o aproveitamento da expansão e da contração do espaço. Sob essa hipótese, uma nave continuaria sem poder exceder a velocidade da luz numa região específica do espaço. Mas um sistema teórico de propulsão que ele esboçou manipulava o espaço-tempo ao gerar uma "bolha de dobra" que expandiria o espaço num lado da nave e o contrairia no lado oposto.

"Dessa forma, a nave espacial será empurrada pelo próprio espaço-tempo para longe da Terra e puxada na direção de uma estrela distante", escreveu ele.

Mas o estudo de Alcubierre era puramente teórico e sugeria obstáculos intransponíveis. Ele dependia, entre outras coisas, de enormes quantidades de um tipo de "matéria exótica" que violasse as leis típicas da física.

White acredita que os avanços obtidos por ele e por outros tornaram menos implausível o conceito de dobra espacial. Entre outras coisas, ele redesenhou a nave espacial teórica capaz de viajar nessas dobras --e em especial o anel ao seu redor, que é crucial para o sistema de propulsão-- de uma forma que ele acredita que reduziria grandemente as exigências energéticas.

Ele se apressa em apresentar ressalvas, dizendo que sua pesquisa está apenas tentando provar que uma microscópica bolha de dobra pode ser detectada em um laboratório. "Não estamos atrelando isso a uma nave espacial."

Teoricamente, uma dobra espacial poderia reduzir o tempo de viagens interestelares de dezenas de milhares de anos para semanas.

"Minha opinião pessoal é de que essa ideia ainda é maluca", disse Edwin Taylor, ex-editor da revista "The American Journal of Physics" e pesquisador sênior do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. "Confira comigo daqui a alguns séculos."

Mas o físico Richard Obousy, presidente da ONG Icarus Interstellar, composta por voluntários que colaboram no projeto de uma nave espacial, disse que não se trata de um simples devaneio. "Tendemos a superestimar o que podemos fazer em curtas escalas de tempo, mas acho que subestimamos enormemente o que podemos fazer em escalas temporais mais prolongadas", disse ele sobre o trabalho de White, que é seu amigo e colaborador da Icarus.

O astrofísico Neil deGrasse Tyson, do Museu Americano de História Natural, disse que a viabilidade das viagens interestelares dependeria de algum salto para além da nossa atual tecnologia.

"Na minha leitura", disse ele, "a ideia de uma dobra espacial que funcione continua sendo inconcebível, mas o importante é que as pessoas estão pensando a respeito -lembrando a todos nós que a ânsia por explorar continua correndo fundo na nossa espécie".


 
Propulsão Alcubierre

A Propulsão de Alcubierre (ou Dobra Espacial) é um modelo matemático teórico para uma forma de viagem espacial mais rápida que a luz, utilizada na série de ficção científica Jornada nas Estrelas.

Em 1994, o físico mexicano Miguel Alcubierre propôs um método de alongamento do espaço em uma onda que, em teoria, poderia fazer com que o tecido do espaço à frente de uma nave espacial se contraia, enquanto que o tecido que está atrás da nave se expanda. A nave se deslocaria surfando esta onda dentro de uma região conhecida como bolha de dobra, onde as características normais do tecido espaço-tempo se manteriam inalteradas. Uma vez que a nave não estaria se movendo dentro desta bolha, mas transportada junto com ela, os efeitos de dilatação do tempo previstos pela Teoria da Relatividade Especial não se aplicariam à nave, mesmo com a altíssima velocidade de deslocamento em relação ao espaço normal em volta da nave. Além disso, esse método de viagem não implica realmente em se deslocar mais rápido que a luz, uma vez que no interior da bolha, a luz continuaria a ser mais rápida que a nave.

Assim, a Propulsão Alcubierre não contradiz a alegação tradicional da relatividade que proíbe que um objeto com massa seja mais rápido que a luz. No entanto, não se conhecem métodos para criar uma bolha de dobra em uma região do espaço, ou de deixar a bolha, uma vez lá dentro, de modo a Propulsão Alcubierre continua a ser um conceito teórico.

A Medida Alcubierre define a chamada propulsão de dobra espacial. Esta é um tubo de Lorentzian que, se interpretada no contexto da relatividade geral, apresenta características parecidas com a dobra espacial de Jornada nas Estrelas: uma bolha de dobra aparece no anteriormente plano tecido do espaço-tempo e se move a velocidade superluminal de forma efetiva. Os habitantes da bolha não sentem efeitos inerciais. Os objetos dentro da bolha não viajam (localmente) mais rápida do que a luz, em vez disso, o espaço à sua volta se move para que os objetos cheguem ao seu destino mais rápido do a luz viajaria, caso a viagem se fizesse em espaço normal.

Para aqueles familiarizados com os efeitos da relatividade especial, tal como a dilatação do tempo, a métrica Alcubierre aparentemente tem alguns aspectos peculiares. Em particular, Alcubierre demonstrou que, mesmo quando a nave espacial está acelerando, ela viaja em queda livre. Em outras palavras, uma nave usando a dobra para acelerar e desacelerar estará sempre em queda livre, e a tripulação não teria nenhuma sensação de aceleração. Enormes forças gravitacionais estarão presentes junto à fronteira da bolha de dobra, devido à grande curvatura do espaço lá, mas de acordo com a especificação da medida, estas seriam muito pequenas dentro do volume ocupado pela nave.

A forma original da teoria de dobra, e as variações mais simples dela, foram escritas com o formalismo de Arnowitt, Deser e Misner, que é frequentemente utilizado em discutir a forma inicial da relatividade geral. Isto pode explicar o equívoco generalizado de que este espaço-tempo é uma solução da equação de campo relatividade geral. Métricas escritas dentro do formalismo ADM são adaptadas a uma determinada família de observadores inerciais, mas os observadores não são fisicamente distinguíveis das outras famílias. Alcubierre interpretou esta "bolha de dobra" em termos de contração do espaço à frente da bolha e expansão atrás. Mas essa interpretação pode ser ilusória, uma vez que a contração e expansão atualmente se referem ao movimento relativo próximo de observadores do tipo da família ADM.

Na relatividade geral, primeiramente se especifica uma distribuição de matéria e energia de forma plausível, e em seguida se verifica a geometria do espaço-tempo associado. Mas também é possível solucionar as equaçõs de campo de Einstein na outra direção: primeiro especificando uma medida e, em seguida, encontrando um tensor associado a ela. Foi isso que Alcubierre fez. Esta forma significa que a solução pode violar diversas condições de energia e requerer matéria exótica. A necessidade de matéria exótica leva à questão de se é realmente possível encontrar uma forma de ditribuir a matéria em um espaço-tempo inicial onde não exista uma "bolha de dobra", de forma a criar essa bolha posteriormente. Mas ainda existe outro problema, de acordo com Serguei Krasnikov, pode ser impossível criar a bolha sem que se force a matéria exótica a se mover mais rápido que a luz, o que implicaria na existência de táquions. Alguns métodos têm sido sugeridos para evitar o problema da movimento taquiônico, mas provavelmente iriam gerar uma singularidade nua na frente da bolha.


 
Dobra espacial

No universo ficcional de Star Trek, a dobra espacial (ou warp drive em inglês) é uma forma de propulsão mais rápida que a luz (FTL). Geralmente, ela é representada como sendo capaz de impulsionar uma espaçonave ou outros objetos a muitos múltiplos da velocidade da luz, ao mesmo tempo que evita os problemas associados a dilatação do tempo. Ela também é apresentada no jogo de computador Stars! e no filme Starship Troopers, bem como nos jogos de computador StarCraft e Eve Online. Não é capaz, via de regra, de criar uma viagem instantânea entre dois pontos a velocidade infinita, como tem sido sugerido em outras obras de ficção científica usando tecnologias teóricas tais como hiperdrive, salto hiperespacial e Motor de Improbabilidade Infinita. Ela é denominada FTL (Faster Than Light) nos romances Titan. Uma diferença entre a dobra espacial (ou warp drive) e o hiperespaço é que, diferentemente do hiperespaço, a nave não entra num universo ou dimensão diferente, ela cria uma pequena "bolha" de tempo-espaço normal ao seu redor. Naves em dobra podem interagir com objetos no espaço normal.

Para executar a dobra espacial, um propulsor de dobra criaria uma espécie de funil, estreito à sua frente e largo à suas costas, e logo depois dilataria sua frente, comprimindo suas costas, pelo qual passaria a espaçonave envolta em sua bolha de dobra. Para quem estivesse dentro dessa bolha, a nave estaria viajando a uma velocidade comum (inferior à da luz), mas para quem estivesse fora, ela deslocar-se-ia a uma velocidade milhares ou mesmo milhões de vezes maior do que a da luz.

Um exemplo seria um tubo de 1,0 metro de diâmetro que se afunila para 0,5 metro, o fluido que corre forçado pelo seu interior a, digamos, 100 unidades de força, passaria bem mais rápido pelo diâmetro menor. E se houver outros afunilamentos sucessivos até às medidas nanômicas, esse fluido (agora teria que ser um superfluido, como o Condensado de Bose-Einstein) estaria transitando a velocidades espantosas, principalmente se a força que o empurra fosse aumentada para 1.000.000.000 de unidades de força, e o diâmetro do tubo voltar a ser igual ou maior de 1 metro ao final.

Nesta hipótese, a nave se achataria e afunilaria até se transformar em um fio do diâmetro de alguns átomos, atingindo um comprimento de alguns anos luz, ou seja, todos os átomos da nave, inclusive os dos seus tripulantes, se ordenariam em fila indiana até o limite permitido de todas as suas ligações quânticas, se comportando como um superfluido, isso em alguns segundos, alcançando estrelas facilmente apenas pelo tamanho que se transformou o fio.

A possibilidade de comprimir átomos num pequeno espaço é o que se vê nos buracos negros.

No universo ficcional de Star Trek, o warp drive é o meio de propulsão usado para se atingir outras estrelas e planetas na nossa galáxia. Em tal universo, a velocidade da nave estelar é dada em "factores Warp", iniciando-se em Warp 1 até 9,99 (sendo que o máximo ficcional, Warp 10, exigiria energia infinita para ser atingido).

Em todo o enredo de TOS (The Original Serie - A Série Original), a velocidade de Warp é regida pela equação: v = c x Warp ^ (10/3), v é a velocidade da nave e c a Constante velocidade da luz e Warp é a velocidade de dobra desejada. Ou seja, quando o capitão Kirk ordena dobra 6, significa que a nave viajará a cerca de 392 vezes a velocidade da luz:
 
 
No episódio "The Changeling", de TOS, quando a USS Enterprise é invadida por uma sonda alienígena auto-consciente, esta faz alterações nos motores da nave, fazendo com que essa atinja warp 12 (3.956 C).
 
Para evitar velocidades absurdas, os produtores criaram um hipotético limite para a velocidade Warp, conhecido como "Barreira Warp 10".
 
Esse limite é explicado pelo fato que quanto mais se desdobra o continnum espaço-tempo, mais o espaço normal é dobrado (aproximando-se um ponto no espaço a outro), maior é o gasto de energia da nave, o que por si só é um limite para velocidade. Por outro lado, nesse limite hipotético, a nave estaria em todos os lugares do universo ao mesmo tempo, ocupando o espaço de toda a matéria existente no universo, o que tornaria impossível fisicamente essa velocidade (velocidade infinita).
 
Para manter a integridade da história e regulamentar essa velocidade limite, os produtores de Jornada, criaram o conceito hipotético de "transdobra", isto é, um jeito de vencer o limite da dobra 10 sem barrar-se no conceito de velocidade infinita. Ainda que implicitamente, uma nova equação de dobra foi criada: v / c = Warp ^ (10 / 3) + (10 - Warp) ^ (-11 / 3). Na próxima cronologia Trekker, o incidente provocado no epsódio citado, fez com que os cientistas da Federação percebessem que a equação de Warp estava incompleta. E, que a velocidade atingida pela USS Enterprise, Warp 12, na verdade seria Transdobra 2, porém, "apenas" Warp 9,87227 pela equação revista.
 
Nesse caso específico, houve um sério risco de destruição da nave, pois a USS Enterprise original não teria como suportar por muito tempo essa velocidade sem a destruição da nave.
As pesquisas para criar uma nave capaz de suportar tal velocidade de modo sustentável, terminaram com o desenvolvimento da nave USS Excelsior, que acabou se tornando um grande fracasso.
 
Nas séries seguintes (com exceção de Enterprise), essa nave capaz de se sustentar em transdobra ainda não foi completada. As naves do final do séc XXIV, são capazes apenas de suportar tal velocidade (acima de dobra 9.9, pela equação revista) apenas por alguns minutos. Por exemplo: A USS Voyager é capaz de atingir dobra 9,975 (transdobra 47) por apenas 15 minutos. Isso permite que ela cubra uma distância de cerca de 20 anos-luz, porém o gasto de energia seria tal, que ela teria que ser abastecida imediatamente.
Boa parte do enredo do século XXIV, tem como base o sonho da federação atingir a capacidade de chegar a outras galáxias ou mesmo conseguir atravessar a galáxia de forma rápida e segura.