quinta-feira, 3 de outubro de 2013

[SGM] Nazistas ofereceram a Churchill deixar Europa Ocidental

The Telegraph, 26/09/2013

 
Um novo livro afirma ter resolvido o enigma do voo à Grã-Bretanha em 1941 de Rudolf Hess, o vice-líder de Adolf Hitler.

A viagem de Hess à Grã-Bretanha em um caça até a Escócia tem sido deixada de lado como sendo a iniciativa individual de um louco.

Mas Peter Padfield, um historiador, descobriu evidência onde ele afirma que, Hess, o vice-Führer, levou consigo um detalhado tratado de paz criado por Hitler, sob o qual os nazistas se retirariam da Europa Ocidental em troca da neutralidade britânica em relação ao iminente ataque à Rússia.

A existência de tal documento foi revelada a ele por um informante que afirma que ele e outros tradutores alemães foram chamados no MI6 para traduzir o tratado para Churchill.

O informante, que não é identificado pelo Sr. Padfield, era um especialista que mais tarde trabalhou numa importante universidade. Ele já é falecido. Antes de sua morte, ele descreveu um relato de como o grupo foi montado na sede da BBC, em Portland Place, Londres, para conduzir a tarefa.

O especialista disse que Hess trazia consigo o proposto tratado de paz, expresso em cláusulas numeradas e datilografado em papel da Chancelaria Alemã. Uma tradução em inglês também foi incluída, mas os britânicos também queriam o original alemão traduzido.

O informante disse que as duas primeiras páginas do tratado detalhavam os objetivos precisos de Hitler na Rússia, seguido de seções detalhando como a Grã-Bretanha poderia manter sua independência, Império e forças armadas, e como os nazistas deixariam a Europa Ocidental. O tratado propunha um estado de “neutralidade bem desejada” (wohlwollende Neutralitat) entre Grã-Bretanha e Alemanha, para que esta última pudesse realizar sua ofensiva contra a URSS. O informante mesmo disse que a data do ataque de Hitler ao leste estava revelada.

O Sr. Padfield, que faz as afimações em um novo livro, Hess, Hitler e Churchill, disse: “Isto não foi uma armação renegada. Hitler enviou Hess e ele trouxe consigo um tratado de paz totalmente desenvolvido para a Alemanha evacuar todos os países ocupados do Ocidente.”

O Sr. Padfield, que anteriormente havia escrito uma biografia de Hess, assim como de Karl Dönitz e de Heinrich Himmler, acredita que o tratado foi suprimido na época, pois teria atrapalhado os esforços de Churchill para colocar os EUA na guerra, destruído sua coalizão de governos europeus exilados e enfraquecido sua posição domesticamente,já que teria sido aceito pelo que o autor acredita ser uma considerável facção de “paz negociada” na Grã-Bretanha na época. Ao mesmo tempo, desde que a missão havia falhado, também ajudou Hitler a se livrar de Hess como um agente embusteiro.

Não há nenhuma menção do tratado em qualquer arquivo oficial que foi tornado público, mas o Sr. Padfield acredita que isto aconteceu para proteger a reputação de figuras poderosas. O autor diz que seu informante interrompeu o contato com ele após ter sido procurado pelos seus antigos empregadores do serviço secreto.

O Sr. Padfield acrescentou: “Se a Família Real estivesse seriamente envolvida em planos planos de paz comprometidos, isto seria muito prejudicial, apesar de que eu acho que é mais provável que Hess tenha trazido a Churchill informações do Holocausto vindouro. Isto poderia estragar as percepções de sua pessoa e di registro de guerra da Grã-Bretanha se isto fosse revelado.”

“Isto foi um ponto de inflexão da guerra. Churchill poderia ter aceitado a oferta, mas ele tomou uma decisão moral. Ele estava determinado que Hitler, que não era confiável, não poderia prosseguir com seus planos. Ele queria os EUA na guerra, e para derrotar Hitler.”

O Sr. Padfield também reuniu outra evidência para apoiar a existência do tratado e de seu conteúdo – assim como o subsequente encobrimento.

Ele estabeleceu que duas listas de artigos foram tomadas de itens transportados por Hess quando ele foi preso após pular de paraquedas de seu avião, um Messerschmidt 110, na noite de 10 de maio de 1941, próximo a Eaglesham, nos arredores de Glasgow. Nenhuma das duas foi liberada.

Ele coletou testemunho de uma mulher vivendo próximo de onde Hess aterrissou, o que indica que a polícia recebeu “ordens para encontrar um documento valioso que estava faltando.” O item, de acordo com a testemunha, foi encontrado “próximo do rastro de fogo no parque.”

O Sr. Padfield também afirma que Hess usou um tradutor especializado do Ministério do Exterior alemão – apesar dele ter usado outro, uma pessoa fluente em inglês – enquanto elaborava os documentos para suas negociações com os britânicos, antes de seu voo. Isto sugere, diz o Sr. Padfield, que aprovação escrita era exigida para os documentos.

Hess foi mantido em prisão na Grã-Bretanha até o fim da guerra quando ele retornou à Alemanha para ser julgado em Nuremberg. Ele foi enviado à prisão de Spandau onde morreu em 1987. As autoridades afirmam que ele cometeu suicídio, mas seu filho e alguns historiadores dizem que o governo britânico ordenou seu assassinato para proteger segredos.         


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[POL] Hitler e a América

Hitler e a América é um livro extraordinário, repleto de evidências e detalhes significativos sobre a complexidade (e, em certo sentido, a dualidade) da consideração de Hitler em relação aos Estados Unidos.

John Lukacs


Em fevereiro de 1942, apenas dois meses após ter declarado guerra aos Estados Unidos, Adolf Hitler elogiou os grandes sucessos industriais da América e admitiu que a Alemanha precisaria de algum tempo para superá-los. Os americanos, ele disse, haviam mostrado o modo de desenvolvimento dos melhores métodos de produção – especialmente em ferro e carvão, que formam a base da moderna civilização industrial. Ele também salientou a superioridade da América no campo dos transportes, particularmente o automóvel. Ele amava carros e via em Henry Ford um grande herói da era industrial. O trem pessoal de Hitler era chamado de “Amerika”.

Em Hitler e a América, o historiador Klaus P. Fisher procura entender mais profundamente como Hitler via a América, a nação que foi decisiva para a derrota da Alemanha. Ele revela a imagem antagônica que Hitler tinha do país: a América e a Amerika. Hitler alardeava os Estados Unidos como um país fraco e, ao mesmo tempo, referia-se a ele como um colosso industrial digno de imitação. Ou ele pensava na América nos termos mais pejorativos ou via as últimas fotos dos Estados Unidos, assistindo a filmes americanos, tornando-se fã dos desenhos animados de Mickey Mouse. A América era o país que Hitler admirava – pelo espírito empreendedor do povo americano, que ele atribuía ao seu sangue nórdico – e invejava – seu enorme território, recursos abundantes e poder político. A Amerika, contudo, era uma nação mestiça, tornada muito rica em pouco tempo e governada por uma elite capitalista com laços estreitos com os judeus. Do outro lado do Atlântico, o presidente Franklin Delano Roosevelt tinha sua própria visão mais realista de Hitler e Fischer compara estes erros e concepções erradas que fizeram com que Hitler, no final, visse somente a Amerika, e não a América, levando à sua derrota.

Como Klaus P. Fischer nota em sua introdução, muitos livros que lidam com a relação entre os Estados Unidos e a Alemanha foram publicados. A maioria destes livros foca na política externa entre as duas nações a partir do ano em que Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha (1933) até a declaração de guerra aos Estados Unidos pela Alemanha Nazista (1941). Logo, qual a utilidade do livro Hitler e a América? O livro de Fischer “explora as origens e desenvolvimentos das visões de Hitler” em relação à América, e discute suas políticas diplomáticas. O autor argumenta que muitas idéias americanas influenciaram as decisões que Hitler tomou e que a América teve um profundo impacto em Hitler. Por exemplo, ao tomar certas decisões, Hitler estava preocupado como “o isolacionismo americano, as atividades dos simpatizantes nazistas na América, a opinião pública americana e as reações da judiaria americana aos acontecimentos antissemitas na Alemanha, e as conexões comerciais teuto-americanas.

No primeiro capítulo, Fischer introduz a imagem antagônica de Hitler dos Estados Unidos. Hitler admirava a América por suas leis de restrição imigratória e o apoio do governo à pesquisa eugênica. Ele queria que a Alemanha fosse tão grande quanto a América tanto no comércio exterior quanto no ramo industrial. Os Estados Unidos eram o líder mundial em produção de aço e carvão. De acordo com Fisher, Hitler “acreditava que a força da América era baseada em dois pilares: sua poderosa capacidade industrial e sua herança genética nórdica.” Entretanto, Hitler também sustentava preconceitos contra a América. Ele achava que dada a falta de leis de proteção ao casamento, muito do sangue nórdico da América foi contaminado. Esta segunda imagem dos Estados Unidos era uma de desconfiança. A Amerika era uma terra que tornou-se corrupta e fraca. Interessantemente, Hitler achava que a Alemanha estava seguindo o mesmo caminho. Se ele não tivesse surgido e corrigido  o rumo do navio, a Alemanha teria terminado como a Amerika. Esta idéia é, em certo sentido, semelhante ao conceito de “modernismo reacionário”, que Fischer pega de Modernismo Reacionário: Tecnologia, Cultura e Política em Weimar e no Terceiro Reich, de Jeffrey Herth (1984). Ele nota que enquanto Hitler via os Estados Unidos como uma nação moderna com grande poder de manufatura, ele também via os efeitos negativos dessas políticas sobre o mundo contemporâneo. Os capítulos que seguem – 2 a 5 – lidam com a política externa americana e alemã nos anos antecedentes da Segunda Guerra Mundial. Algumas vezes, a conexão entre as teses do livro e a informação apresentada nestes capítulos fica perdida. Enquanto torna-se claro que a política externa alemã e americana seja importante para os principais assuntos tratados neste livro e que estas políticas influenciaram Hitler e suas visões da América, algumas vezes as idéias de Fischer perdem-se nos detalhes. O leitor frequentemente tem que interromper o texto e lembrar de qual argumento se trata e como este detalhe influencia no argumento.

De qualquer forma, o livro de Fischer é revisionista em relação a este assunto importante. Infelizmente, Fischer raramente menciona os estudos históricos anteriores contra o que ele está afirmando. Ele simplesmente se refere a “outros historiadores”, mas não os nomeia, não faz referência a seus trabalhos e não apresenta seus argumentos em profundidade. Ao não mencionar quais trabalhos ele está revisando ou quais são os outros argumentos, reduz a eficiência do livro. Enquanto ele é um livro digno de leitura para ajudar na compreensão deste assunto, os leitores deverão ser beneficiados a partir de uma historiografia mais profunda.

Este livro também se encaixa perfeita e facilmente nas novas tendências do academicismo histórico, globalizando a história. Hitler e a América é um livro bem escrito e pesquisado, que conduz o leitor a entender os sentimentos e concepções de Hitler da América.

Muitos historiadores têm afirmado que Hitler dificilmente prestou atenção nos EUA nos anos 1930. Outros acrescentaram que o Führer somente havia desprezado os americanos, os quais ele considerava um povo mestiço, incapaz de uma alta cultura. Estas e outras muitas teorias são demolidas pelo livro, que prova o quão essencial a América era para a política de Hitler.

Os primeiros capítulos mostram que o que Hitler conhecia da América, a imagem antagônica, veio de fontes de segunda mão, de turistas, como Putzi Hanfstängel, de livros de Karl May e de outros autores menos conhecidos, ou do que ele via em filmes, revistas e jornais. Ele também obteve alguma noção sobre a preparação militar dos americanos com a ajuda de Friedrich Von Botticher, adido militar em Washington.

Já que este livro é também sobre o modo como Roosevelt via Hitler, há noções fascinantes deste tópico. FDR soube através de seu embaixador em Berlim que Hitler e seu regime estavam se tornando perigosos no final dos anos 1930, especialmente após a conferência secreta realizada em 5 de novembro de 1937, quando Hitler explicou aos participantes que seus objetivos eram anexar a Áustria e a Tchecoslováquia no sentido de garantir os flancos sul e oriental da Alemanha.

O professor Fischer não dá muita importância à Liga Anglo-germânica, liderada por Fritz Kuhn, que na verdade era desprezado pelo Führer.

Os anos seguintes, pelo menos até dezembro de 1941, foram caracterizados pelos esforços feitos por Roosevelt em aumentar a ameaça nazista, de modo a mudar a posição do povo americano de não-intervencionismo. O presidente afirmava que Hitler queria destruir a América por meio de ações internas, espalhando a semente da discórdia, desconfiança e subversão. Hitler, por sua vez, via Roosevelt como um presidente cercado por judeus, aquele povo que, em sua idéia, seria exterminado após 1941. A evidência disponível sugere que Roosevelt sabia a respeito da Solução Final, mas sem muitos detalhes, nem ele sabia o que fazer a respeito já que sua preocupação principal era ganhar a guerra.* O livro contém ainda uma análise do relacionamento entre Os Três Grandes: Roosevelt, Stalin e Churchill. A conexão entre eles e o modo como Hitler via a América não é sempre claro.

Outro ponto enfatizado no livro se refere às tentativas de Hitler de levar a discórdia entre os Aliados, esperando que Roosevelt e Churchill, por exemplo, pudessem terminar sua amizade. Hitler acreditava que se fosse outro presidente, ele conseguiria manter os Estados Unidos fora da guerra e empregar medidas econômicas mais eficientes para tirar o país da Depressão.

Em contraste, Roosevelt via a guerra como o confronto moral entre os valores humanos da democracia americana e a natureza brutal da tirania nazista. A sua doutrina das quatro liberdades foi uma tentativa de universalizar as doutrinas do Iluminismo no qual a experiência política americana se baseava, enquanto que Hitler tinha uma imagem distorcida da América moldada por fontes questionáveis que ele utilizou para se encaixar em sua própria concepção ideológica. Este é o motivo por que Hitler desprezou a população americana como sendo uma mistura racial de povos.

O nono capítulo do livro conduz o leitor a uma viagem pelos anos de poder de Hitler e Roosevelt e oferece as filosofias de cada um em suas nações opostas. As estratégias diplomáticas também são estudadas neste trabalho durante os anos de guerra com as grandes potências da Rússia, Grã-Bretanha e Japão. Fischer utiliza sua própria pesquisa extensa mais do que citações dos principais atores do período. Semelhanças e diferenças dos dois líderes são discutidas desde o começo e elas são surpreendentes. Ambos chegaram ao poder e morreram no mesmo ano. Ambos possuíam entendimentos inatos das preocupações comuns das pessoas na sociedade e sabiam como motivar as massas. As diferenças eram as seguintes: FDR passou boa parte de sua juventude na Alemanha enquanto que Hitler jamais visitou a América, baseando-se em jornais, filmes e relatórios diplomáticos das células alemãs. Hitler capitalizou o culto alemão das massas, que era superior racial e etnicamente, em contraste com a democracia e os direitos iguais na América. Os alemães acabaram sendo forçados a aceitar as crenças nazistas enquanto que os americanos valorizavam o individualismo, a liberdade e a igualdade. Na Alemanha, o povo era um só; o status individual era virtualmente não existente. Outra distinção importante que Fischer enfatiza é a ascensão ao poder.   

FDR emergiu de posições políticas executivas, com uma boa educação superior e juntou-se a um partido que estava bem estabelecido no outono de 1932. Hitler transformou o Partido dos Trabalhadores Alemães em seu próprio Partido Nazista, além de possuir apenas ensino básico, o qual resultou na sua recusa à Academia Vienense de Artes. A visão de Hitler era uma ideologia obstinada e brutalidade; FDR sustentou seus princípios democráticos promovendo a pás e prosperidade para todos.** Ele também defendia a rendição incondicional da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial e acreditava que as massas jamais pensariam que elas perderam a grande guerra por terem permitido a ascensão de um regime totalitário em 1933. Hitler isolou-se como líder militar raramente levando em consideração o conselho de seus generais e deixando o destino da Alemanha a subordinados da SS criando uma disputa interna frenética. FDR seguiu a constituição ao conduzir suas tarefas administrativas.

Hitler admirava grandemente a empresa Ford de automóveis e era impressionado pelos muitos arranha-céus da cidade de Nova York. De um ponto de vista cultural, ele sentia que a Alemanha superava a América com suas óperas, música e arte. Parte do sucesso americano na indústria e na ciência foi resultado de povos nórdicos que emigraram para lá. Hitler acreditava que a decadência da América seria o resultado da miscigenação dos povos e especialmente dos judeus que manipulavam FDR para que este entrasse na guerra.*** Da perspectiva de Fischer, Hitler não queria que a América entrasse na guerra e rapidamente repeliu quaisquer ações de provocação contra os EUA. Hitler sabia de uma experiência pessoal que a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial levou ao fim das Potências Centrais. É evidente que Hitler temia o poder da América, enquanto que ao mesmo tempo olhava para os americanos como sendo inferiores aos alemães. Mas novamente, na mente de Hitler qualquer um era inferior aos arianos.   

Fischer também enfatiza as reuniões teuto-americanas realizadas em plena Madisnon Square Garden para promover a cultura e ideologia alemãs. É interessante saber que Hitler dava pouca atenção a essas reuniões, de modo que sua visão de mundo se aplicava somente ao povo alemão e não aos alemães vivendo fora do país. Em outras palavras, o nazismo era um clube exclusivo. Como é mencionado em outros livros, Hitler estava comprometido em adquirir espaço vital para o povo alemão, o qual ele planejou viria do leste; estes planos finalmente foram destruídos em Stalingrado. Fischer também nos lembra das muitas oportunidades de paz que Hitler e seus seguidores dispuseram a partir do final de 1941, época em que mesmo Hitler sabia que a guerra não poderia ser vencida. Havia muitos cenários políticos entre Rússia, Grã-Bretanha e os EUA, os dois últimos especialmente temendo que Stalin pudesse fazer um pacto com a Alemanha. Stalin fez o jogo do Ocidente em diversas ocasiões para conseguir equipamentos militares. O autor afirma que Hitler estava ciente das tentativas de acordo de paz em todas as frentes; mas que a guerra estava perdida em virtude de seus erros de cálculo e ilusões de um grande império do futuro que simplesmente não podia ser sustentado pelos atuais recursos alemães.

Hitler nunca levou a sério a possibilidade de negociar a paz, mas escolheu, como Fisher aponta, manter-se firme nas idéias e continuar lutando contra o Comunismo e para as suas políticas nacional socialistas. Ele também apostava que algum dos Aliados deixasse a luta. Ele nunca aceitou a responsabilidade pela derrota iminente, preferindo ao invés disso culpar o povo. Sua deterioração física é descrita por Speer transformando-se num velho isolado num bunker claustrofóbico e dando ordens para manobras militares fictícias e a regimentos do exército que já não existiam mais. Outros têm atribuído suas decisões erradas ao seu ódio e tendências genocidas e outros levam em consideração o fato dele ter sido intoxicado com medicamentos de qualidade duvidosa. Estas opiniões estão descritas vivamente no livro. FDR não viveu o suficiente para ver a rendição incondicional da Alemanha nem completar seu quarto mandato. Seu gênio político, diplomacia e princípios, contudo, ajudaram a assegurar um resultado positivo para os Aliados.

O pensamento e estratégias empregados por ambos os lados são de grande interesse e não são abordados em outros livros deste período, isto é, se Hitler tivesse se alinhado a Stalin eles poderiam conquistar a Europa ou os Estados Unidos jamais tivessem entrado na guerra em virtude do pensamento isolacionista em relação às guerras européias. O autor oferece razões plausíveis, mas não conclusivas, do por quê Hitler ter deixado as forças britânicas partirem de Dunquerque; esta ação demonstra a hesitação e inabilidade de Hitler em implementar planos militares.+  Como muitos especialistas afirmam, ele era um gênio político, mas não militar e rejeitava o conselho dos especialistas militares que o cercavam.++  Sendo o único presidente eleito para quatro mandatos, FDR era um líder eficiente; Hitler chegou como um meteoro, levando todos e tudo consigo em sua trajetória, um homem solitário em uma jornada solitária cujo coração jamais foi revelado inteiramente. Uma indicação do quão dedicado ele era à sua ideologia é como ele poderia ter conquistado a Europa se ele tivesse utilizado todas as pessoas, não-arianas, que ele aprisionou e liquidou; mas tal iniciativa teria sido uma violação de suas políticas e doutrinas.+++


Notas:

*Sobre os boatos a respeito do genocídio dos judeus durante a guerra, ver os artigos

Franklin Roosevelt e os Judeus


A Liderança Imoral de Roosevelt


O Holocausto na Vida Americana


A Primeira vez que Hollywood expôs o Holocausto  


** Neste ponto, o livro ou o autor da resenha deixam de lado o aspecto revisionista e adotam o relato oficial da história da Segunda Guerra Mundial, apresentando Roosevelt como um homem pacifista e cheio de boas intenções e retratando Hitler como o megalomaníaco que construiu seu regime e império sozinho.Nos últimos anos, vários livros têm demolido essa versão dos fatos. Ver os artigos

A Conspiração do Império


Memorandos mostram que EUA encobriram crime Soviético


*** É interessante notar que o analista político norte-americano Patrick Buchanan tenha ressaltado essa decadência do poder político americano em termos étnicos também, embora sem apelar para um discurso racista e segregacionista. Para Buchanan, a decadência da América está intimamente relacionada ao fim da América branca, já que o povo fundador da América republicana era branco e cristão. A chegada de uma leva de imigrantes de países de Terceiro Mundo (africanos, asiáticos, latinos, indianos e árabes) após a Segunda Guerra Mundial e a redução da taxa de natalidade entre os brancos está resultando numa transformação da sociedade americana. O resultado disso é o aumento da presença do Estado na vida americana, em virtude da baixa qualificação e de aspectos culturais desses imigrantes (que geralmente vêm de sociedades paternalistas e assistencialistas), e o fim dos fundamentos cristãos da República. Buchanan foi crucificado por suas idéias sendo atacado por vários setores da sociedade, inclusive a ADL (Liga Anti-Difamação) ligada à comunidade judaica. Coincidência ou não, o fato é que as crises econômicas sucessivas, o intervencionismo militar desastrado e as trapalhadas políticas entre os poderes executivo e legislativo na administração Obama (dificuldades para aprovar o Orçamento) são sintomas da decadência dos EUA. 

+ Na verdade, não havia nada de errado com a idéia de Hitler em interromper o avanço sobre Dunquerque. Os equipamentos precisavam de manutenção e as linhas de abastecimento haviam se alongado muito. Hitler temia que um avanço muito grande, sem interrupção, pudesse resultar num contra-ataque das forças aliadas às forças alemãs esgotadas. Oficialmente, é nos dito que Hitler interrompeu o avanço para demonstrar boa vontade junto à Inglaterra e conseguir um acordo de paz, mas isso parece ser implausível.

++ Hitler dispensava a opinião de muitos de seus generais porque os considerava muito cautelosos. Os sucessos militares na frente ocidental podem ser quase exclusivamente atribuídos a Hitler, já que ele pensou na Blitzkrieg e no uso de tropas aerotransportadas. Na frente oriental, Hitler era movido pelo tempo, ele tinha plena consciência de que uma campanha longa seria morte certa para a Alemanha, por isso jamais aceitou campanhas de retirada. Com o cenário de rendição incondicional imposto por Roosevelt qualquer tentativa de cautela na frente de batalha seria impossível de realizar, era tudo ou nada.

+++ Novamente, o autor comete erros utilizando o relato oficial da Segunda Guerra. Ver os artigos

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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A campanha frustrada de Napoleão em direção à Rússia

Fabio Marton, 21/11/2012

 
Era um belo dia de sol quando os soldados da França cruzaram o rio Neman, na atual fronteira da Polônia com a Lituânia, aos gritos de "Vive l'Empereur!", na confiança de serem o maior e mais temido exército que o mundo havia visto. Estavam ali para dar uma surra, não para guerrear - o inimigo só tinha um terço de suas forças e estava dividido. E, o mais importante, não tinha Napoleão como líder. Eram 690 mil soldados de várias nacionalidades, dos quais só 300 mil eram franceses. Os demais eram poloneses, austríacos, italianos, prussianos e até 2 mil portugueses, recrutados entre simpatizantes do imperador. Como era comum na época, seguia com eles um cortejo de comerciantes, prostitutas, médicos e até esposas e filhos dos militares. Nem soldados, nem civis, nem Napoleão poderiam imaginar àquela hora, mas apenas um em cada sete deles voltaria vivo daquela campanha.

A Rússia não é para principiantes e isso não era segredo para Napoleão e seus soldados. Pouco mais de um século antes, em 1709, o rei Carlos 12, da Suécia, havia perdido seu exército na Rússia de frio e fome. Por isso, o exército francês invadiu a Rússia no auge do verão, em 24 de junho de 1812. E o verão foi seu primeiro inimigo. As temperaturas frequentemente superam os 30 ºC, enquanto as noites duram apenas 3 horas - foi "aproveitando" esse sol todo que Napoleão fez seus soldados marcharem 112 km nos dois primeiros dias da campanha. A essa velocidade, as carroças de suprimento ficaram para trás. Desidratada pela caminhada e sem alimentos e água, a tropa viu-se forçada a beber dos riachos pantanosos da região, pegando diarreia. As primeiras vítimas tombaram ao lado das fontes de água - e os soldados que vinham atrás também ficaram doentes.

A pressa era justificada pela estratégia. "Napoleão não foi à Rússia para conquistar", diz o historiador César Machado Domingues, editor da Revista Brasileira de História Militar. Ele queria simplesmente aniquilar o exército russo e conseguir uma aliança forçada com o czar Alexandre 1º. O primeiro alvo era a cidade de Vilna, atual capital da Lituânia, onde estava o comando das tropas russas, inclusive o czar. Napoleão entrou na cidade em 28 de junho, mas o comando russo havia se mudado. Não só isso. Também haviam esvaziado armazéns e paióis de pólvora e queimado plantações nos arredores.

Os franceses esperavam fazer o mesmo que em suas guerras anteriores: tomar alimentos das cidades e fazendas pelo caminho. O que sobrava da destruição russa só era aproveitado pelos soldados da frente da coluna - quem vinha atrás passava fome. Um comércio clandestino e gangues de ladrões passaram a agir. Os cavalos, que morriam às centenas, se tornaram o prato principal.

A campanha prosseguiu assim - os russos regredindo e queimando tudo, os franceses sangrando lentamente de doenças, fome, sede, ataques de guerrilha e deserção massiva. "No caminho para Moscou, ainda no verão, os franceses perdiam em média 6 mil soldados por dia", escreveu o médico e historiador Achilles Rose (1839-1916) em seu livro A Campanha de Napoleão na Rússia, Anno 1812.


Após mais uma conquista estéril na cidade de Smolensk, em 18 de agosto, Napoleão decidiu rumar para Moscou. Mas isso os russos não aceitariam e, enfim, Napoleão teve sua batalha. A mais sangrenta de todas as guerras napoleônicas, a Batalha de Borodino, em 7 de setembro - dos 250 mil participantes, 80 mil morreram. Os russos recuaram mais uma vez, mas não foram aniquilados. Em 14 de setembro, Moscou pertencia a Napoleão. "Napoleão deve ter imaginado que havia vencido", diz César Domingues. Ele sentou-se no trono do Kremlin e esperou a rendição do czar. No mesmo dia, começou um incêndio, que os russos jamais admitiram ter causado, que destruiu 75% da cidade em 4 dias.

O tempo ia esfriando, o Exército russo, se recompondo, e o czar não ofereceu paz. Em 18 de outubro, quando os franceses iniciaram a retirada, a temperatura estava por volta de 0 ºC. O plano era voltar pelo sul, mas os russos cortaram o caminho e os militares se viram forçados a voltar por onde vieram, começando pelo campo de Borodino, crivado de homens e cavalos em decomposição da batalha de um mês e meio antes.

Se algo havia sobrado da destruição causada pelos russos, já havia sido consumido pelos franceses na ida. Diante de um frio que chegaria a -40 ºC, ninguém tinha roupas de frio, exceto as roubadas de Moscou - inclusive chapéus, sapatos, mantos e echarpes femininas. Os cavalos não tinham ferraduras adaptadas ao gelo, como as dos russos - escorregavam e quebravam as patas ou simplesmente não conseguiam puxar as cargas.

A tropa se converteu em um bando de desesperados. Cavalos passaram a ser atacados e a carne era comida crua. Em seu livro de memórias, o sargento Adrien Bourgogne relata que um carro-ambulância teve seus cavalos devorados à noite pela tropa. De manhã, os feridos foram largados no caminho. Os soldados também tiravam nacos de carne de animais ainda vivos - amortecidos pelo frio, eles não reagiam. Bourgogne conta que um bando de soldados havia se fechado em um celeiro para evitar o frio. Eles se acumularam na porta para evitar que mais gente entupisse o lugar. Durante a noite, o celeiro pegou fogo. Quando o incêndio acabou, alguns soldados tomaram coragem de avançar para os corpos dos colegas, providencialmente "assados". O soldado alemão Jakob Walters (1788-1864) escreveu que viu um soldado que se aliviava de diarreia à beira da estrada ter suas calças roubadas - a vítima morreu de frio horas depois.

Os franceses fugiam em desespero, mas os russos não haviam se esquecido deles. Em 26 de novembro, as tropas napoleônicas tiveram de atravessar o rio Berezina (na atual Bielorrússia). Os russos descobriram sua posição e atacaram no dia 29, com 60 mil homens, contra 40 mil soldados divididos entre as duas margens. Os franceses conseguiram escapar com seu imperador, destruindo as pontes improvisadas que haviam feito - mas ainda havia muitos deles do outro lado. Entre 25 mil e 45 mil civis e militares morreram ali - 10 mil deles empurrados pelos cossacos para dentro do rio congelado.

Em 14 de dezembro, o esfarrapado exército de Napoleão chegou à Polônia. Sua tropa principal tinha 22 mil soldados, dos 690 mil que entraram na Rússia. O total de sobreviventes é cerca de 100 mil, contando as outras colunas do exército. Pessoas, armas e cavalos podiam ser substituídos, mas o dano irrecuperável foi à reputação de invencível de Napoleão, que acabou deposto e exilado na ilha de Elba (Itália) em 1814.

Não foi apenas Napoleão que não aprendeu com seus antecessores. Em 22 de junho de 1941, Hitler invadiu a União Soviética, também esperando uma campanha fulminante que acabasse antes do inverno. Os nazistas estavam às portas de Moscou em dezembro, mas então veio o inverno, matando 150 mil alemães em poucos dias. Em homenagem aos serviços prestados, os russos deram uma promoção a seu inverno. Lá ele é conhecido como General Moroz - o temido General Inverno.

Bárbaros pelo czar

Os cossacos não costumam entrar na conta do efetivo do Exército russo, mas como adicionais (costuma-se afirmar algo como "100 mil soldados e 20 mil cossacos"). Na verdade, eles nem são exatamente russos. Cossacos são sociedades independentes, democráticas e militaristas, originalmente de povos eslavos, que depois passaram a aceitar aventureiros de qualquer país - particularmente quem falasse línguas, soubesse fazer contas ou simplesmente fosse alfabetizado, talentos raros entre os nascidos entre eles. Os cossacos não eram súditos, mas aliados do czar - e se voltaram contra os russos em algumas ocasiões, como a Revolta de Pugachev, de 1774. Suas tropas tinham sua própria hierarquia e generais. Mas elas eram um tanto indisciplinadas, por isso os russos preferiam usá-los como forma de bagunçar e aterrorizar as linhas inimigas, e não como força de choque ou cavalaria regular. Os cossacos foram integrados à sociedade soviética à força por Josef Stalin, na década de 30, mas os descendentes ainda se orgulham do passado independente e aventureiro.
 
http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/saiba-mais-campanha-frustrada-napoleao-direcao-russia-721625.shtml

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

[ARM] Brasil é o quarto maior exportador de armas leves

Terra, 01 de Outubro de 2013


Os mais de US$ 330 milhões (R$ 735 milhões) que, em 2011, entraram no Brasil graças à exportação de armas leves e munições colocam o país em quarto na lista de maiores exportadores no setor. A sua frente, estão apenas Estados Unidos, Itália e Alemanha, aponta o Mapping Arms Data (MAD), projeto realizado em parceria entre o Instituto Igarapé e o Peace Research Institute Oslo (PRIO). Segundo o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), somente neste ano, o Brasil já exportou mais de US$ 226 milhões em armas e munições. Um relatório de 2010 do Small Arms Survey - o mais recente da instituição - também coloca os brasileiros em quarto no ranking.

O crescimento do país nesse setor é significativo nos últimos anos. Em 2003, era exportado menos da metade do que é hoje: US$ 131 milhões. Desde então, o índice cresceu até atingir o pico de US$ 407,5 milhões em 2009. Nos dois anos seguintes, o MAD apontou uma queda. A produção de armas leves (como são classificadas as portáteis) disparou nos últimos anos. De 2005 a 2010, as indústrias venderam 8.822.720 milhões de unidades, em sua maioria revólveres, pistolas, escopetas e munições. Metade delas foi exportada, segundo levantamento do Exército.

Destinos

Os principais destinos dos armamentos são os Estados Unidos (US$ 148.680.000) e a Europa Ocidental, afirma Robert Muggah, diretor de Pesquisa do Instituto Igarapé. Ainda assim, o sudeste asiático e lugares mais pobres, como Colômbia, Iraque, Paquistão e Zimbábue - país entre os 20 piores Índices de Desenvolvimento Humano - são mercados importantes para a indústria armamentista brasileira. Somente a Taurus, maior empresa do Brasil no ramo, exporta para 70 diferentes países.

O Mapping Arms Data leva em consideração 37 fontes de pesquisa, tendo como base dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e analisando apenas os números relativos a armas leves. Se comparados esses dados aos fornecidos pelo MDIC, há uma certa discrepância, devida, segundo Muggah, à forma como são categorizadas as armas. Em 2011, o Ministério registrou a venda de 785.901 unidades, movimentando US$ 293 milhões, 12% a menos que o levantado pelo MAD. O MDIC apontou ainda US$ 315 milhões em exportação no ano passado. Desde 1997, o país já lucrou quase US$ 3 bilhões de dólares (R$ 6,7 bilhões), com a venda de armas.

Muggah chama a atenção ainda para o grande número de armas em circulação dentro do Brasil, que vai de 16 a 17 milhões (sendo 6 milhões registradas), uma média de uma arma para cada 11 ou 12 pessoas. Para o pesquisador, há um excedente militar de pelo menos 800 mil armas.

Mercado mundial

De acordo com o MAD, os Estados Unidos foram quem mais exportaram armas em 2011: US$ 807,5 milhões (R$ 1,8 bilhão). Na sequência, vêm Itália (US$ 463,6 milhões, ou R$ 1 bilhão) e Alemanha (US$ 313,6 milhões, ou R$ 698,6 milhões). Já o Small Arms Survey coloca a Itália pouco atrás da Alemanha no relatório de 2010.

As dificuldades no registro e controle de armas ficam evidentes nas diferenças entre os valores encontrados pelas diferentes pesquisas. O Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), por exemplo, apontou os Estados Unidos como responsáveis por 30% das exportações, seguidos de Rússia (26%), Alemanha (7%), França (6%) e China (5%), indicando um crescimento da corrida armamentícia asiática. A mesma pesquisa apresenta a Índia como maior importadora (12%), seguida de China, Paquistão, Coreia do Sul e Singapura.

http://economia.terra.com.br/operacoes-cambiais/operacoes-empresariais/brasil-e-o-quarto-maior-exportador-de-armas-leves,7899f3d0f5071410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

As armas nucleares de Israel

Estadão, 30 de Setembro, 2013

 
O recente acordo entre Estados Unidos e Rússia envolvendo as armas químicas da Síria deixou claro o que há muito tempo deve ser um fato óbvio: os esforços do presidente Barack Obama para fazer valer as normas internacionais que proíbem armas de destruição em massa no Oriente Médio envolverão Washington numa confusão diplomática e estratégica muito maior do que a discussão sobre o arsenal químico sírio.

O presidente Bashar Assad insiste que a finalidade do seu arsenal químico sempre foi para fazer frente às armas nucleares de Israel. Se a Síria de fato destruí-lo, o que será do arsenal de Egito e de Israel? Os Estados Unidos se calam estranhamente sobre o estoque de armas químicas do Egito. O Cairo aponta para Israel. Que, naturalmente, afirma ter suas próprias armas químicas para dissuadir Síria e Egito e não pretende se desfazer delas.

Uma manchete do diário israelense Haaretz, há alguns dias, dizia: "Israel inflexível quanto a não ratificar o tratado de armas químicas diante de vizinhos hostis".

Esses três países também não aderiram à Convenção sobre Armas Biológicas e Israel não assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), embora mantenha um arsenal nuclear formidável, que, em breve, deverá se tornar tema central neste drama - os Estados Unidos gostem ou não.

Poder nuclear.
 
Um obstáculo que os próprios americanos criaram tem impedido amplas negociações sobre armas de destruição em massa no Oriente Médio. Enquanto o mundo continua sua discussão eterna sobre a capacidade nuclear do Irã e a possibilidade de o país criar um arsenal atômico, dificilmente alguém nos Estados Unidos menciona o poderio nuclear de Israel.

Obama, como seus predecessores, finge que não tem conhecimento do fato. O tabu tem impedido discussões a respeito, tanto em Washington quanto no plano internacional, e desencoraja os EUA a pressionarem Egito e Síria para retificarem as convenções sobre armas biológicas e químicas.

Porque, se insistir, imediatamente, serão levantadas objeções quanto à aceitação americana do arsenal nuclear de Israel.

O que sustenta essa atitude dissimulada é o mito de que os Estados Unidos se obrigam a esconder o fato de Israel possuir armas atômicas em razão de um acordo firmado em 1969 entre o presidente, Richard Nixon, e a primeira-ministra israelense, Golda Meir.

O objetivo de Nixon era conseguir o apoio israelense na Guerra Fria. Ele e Golda Meir viram a necessidade de desencorajar os soviéticos a fornecerem armas nucleares para seus aliados árabes. Se o arsenal nuclear israelense fosse revelado, haveria pressão por parte de Moscou. No entanto, as razões para os Estados Unidos continuarem calados não existem mais.

Todos sabem que os israelenses possuem bombas atômicas. Hoje, como principal efeito dessa ambiguidade, negociações regionais sérias sobre o controle de armas ficam muito mais complicadas.

Todos os outros países da região aderiram ao TNP, mas há questões que ainda não foram solucionadas. Em 2007, descobriu-se que a Síria estava construindo um reator nuclear ilícito, que Israel rapidamente bombardeou.

Assad não permitiu até hoje que inspetores da ONU realizem uma plena investigação do local do reator destruído. E o Irã, aliado da Síria, é suspeito de desenvolver seu próprio programa nuclear para desafiar o monopólio israelense na área. Na verdade, muitos analistas acreditaram que a decisão de Obama de estabelecer uma "linha vermelha" proibindo o uso de armas químicas na Síria foi motivada pela necessidade de mostrar sua disposição a usar a força contra o Irã se o país avançasse com seus planos de fabricar armamento nuclear.

Mudança.
 
O imbróglio explosivo deveria ser objeto de uma conferência internacional, decidida em 2010 por votação unânime dos membros do TNP, incluindo os Estados Unidos. No entanto, tal conferência jamais foi realizada, em parte por causa da ambivalência da Casa Branca sobre como ela poderia afetar Israel.

Em abril, o secretário adjunto de Estado encarregado dos assuntos de não proliferação e segurança internacional. Thomas Countryman, disse esperar que a conferência seja realizada ainda este ano. No início do mês, o chanceler russo, Sergei Lavrov, insistiu para que fosse determinada uma data para a conferência "o mais rápido possível". Ele acrescentou que da reunião deveriam tomar parte Israel e Irã. A Rússia tentou inserir o encontro no acordo da semana passada, mas o secretário de Estado, John Kerry, resistiu.

Se Washington deseja que as negociações sobre armas de destruição em massa no Oriente Médio avancem - ou simplesmente para que os EUA não caiam no ridículo -, Obama deve começar a ser mais franco. O presidente não pode esperar que os países que participarem da conferência levem Washington a sério se a Casa Branca continuar fingindo não saber que Israel possui armas nucleares, ou que Egito e Israel possuem armas biológicas e químicas.

Se a política de Israel neste campo é tão inflexível que é impossível mudar, Obama e o governo dos Estados Unidos precisam ser honestos quanto ao arsenal israelense e agir com base neste fato, para o bem dos EUA e de Israel.

domingo, 29 de setembro de 2013

[SGM] Graf Spee, o navio fantasma da marinha de Hitler

José Francisco Botelho & Ricardo Lacerda, 10/05/2013

 


A 7 km da costa do Uruguai, no Rio da Prata, jaz o esqueleto do encouraçado Graf Spee - um dos orgulhos da marinha de Hitler, afundado não por torpedos inimigos, mas por ordem de seu capitão. Antes de encontrar seu destino nas profundezas, a embarcação protagonizou a última batalha naval à moda antiga da história: um duelo entre navios, baseado na habilidade e astúcia de seus comandantes, sem o uso de força aérea, submarinos ou radares. Isso aconteceu nos últimos meses de 1939. A Batalha do Rio da Prata foi o único combate da Segunda Guerra na América do Sul. A odisseia do Graf Spee encerrou uma era na história das guerras marítimas - meses mais tarde, novas tecnologias revolucionariam as batalhas navais, pondo fim aos duelos entre marujos.

O protagonista dessa história era um sujeito que parece saído das páginas de um romance de aventuras: o capitão Hans Langsdorff. Ele conduziu o Graf Spee em uma jornada secreta por dois oceanos. Descrito até por seus inimigos como um cavalheiro, era bem diferente da ideia que se tem de um oficial nazista: em vez de trucidar prisioneiros, preferia lhes oferecer charutos, bebidas e banhos de sol. Antes de afundar um navio, Langsdorff preferia apertar a mão do capitão adversário - e pedir desculpas, com a mais extrema e meticulosa cortesia. Seu navio foi ao mar dias antes do início da Segunda Guerra. Em 20 de agosto, o Graf Spee partiu de Wilhelmshaven, na Alemanha, com 1,2 mil homens, encarregado de uma missão secreta. O objetivo era estrangular as linhas de comércio da Inglaterra no Atlântico Sul. Para isso, devia afundar navios mercantes nos mares do Brasil, Uruguai e Argentina -evitando entrar em conflito com armadas inimigas. Ou seja: devia agir como um navio fantasma, aparecendo do nada e sumindo com idêntica rapidez - para ressurgir a várias milhas de distância.

O Graf Spee foi considerado o navio ideal para a tarefa. Segundo a propaganda alemã, era "mais forte que o mais veloz, mais veloz que o mais forte". O Bismarck, maior navio da armada de Hitler, tinha 250 m de comprimento. Com 185 m, o Graf Spee era o mais avançado e bem-equipado dos "encouraçados de bolso" (o apelido era referência a seu tamanho e agilidade). "Um navio assim podia alcançar uma velocidade de 28 nós (55 km/h), enquanto outros encouraçados não passavam dos 23 nós", escreveu o historiador uruguaio Federico Leicht em Graf Spee: de Wilhelmshaven al Río de la Plata (sem tradução). "Os encouraçados de bolso foram os primeiros a usar diesel como combustível e navegavam mais de 8 mil milhas marítimas sem abastecer - três vezes mais do que um encouraçado comum."

O maior trunfo, porém, eram as táticas de pirataria de seu capitão. Carregado com latas de tinta, para pintar e repintar o casco, o navio trocava de cor ou de nome - em alto-mar. As torres com canhões eram cobertas por lonas - e Langsdorff mandou instalar, nos mastros, sinalizadores utilizados por navios mercantes. Isso permitia que o Graf Spee se aproximasse dos inimigos quase incógnito - mostrando as garras quando a armadilha já estava fechada.

Nas sombras, o navio fantasma alemão navegou do mar do Norte ao sul do Atlântico - até fazer sua primeira vítima um mês após o início da viagem, a pouco mais de 50 milhas do litoral de Pernambuco. Em 31 de setembro, o navio brasileiro Itatinga encontrou botes lotados de marinheiros ingleses - tripulantes do Clement, que viajava entre Nova York e Rio de Janeiro e fora afundado na véspera pelos alemães. Sem desfraldar a bandeira nazista, pintado de verde-escuro, ele se passara por navio mercante até o último segundo. Durante os três meses seguintes, sob camuflagens variadas, voltaria a aparecer e sumir diversas vezes no sul do Atlântico: afundou mais oito barcos mercantes sem matar um único inimigo.


Ao serem resgatados, os ingleses relataram o método cavalheiresco utilizado por Langsdorff. Com seus canhões apontados para o Clement, o capitão enviou um bote para trazer o comandante inglês a bordo do Graf Spee. O britânico foi recebido com um caloroso aperto de mãos. "Peço que me desculpe", disse-lhe Langsdorff, em inglês impecável. "Sinto muito, realmente, mas vou ter de afundar o seu navio".

Nascido em 1894, em Düsseldorf, Langsdorff havia servido como tenente na armada imperial do kaiser Guilherme II. Na Primeira Guerra, foi condecorado com a Cruz de Ferro. "De todas as forças armadas alemãs, a marinha era a mais tradicional e possuía, em enormes quantidades, oficiais que não eram ligados ao nazismo. Langsdorff não era filiado ao partido", diz o historiador militar Carlos Roberto Daróz, da Universidade do Sul de Santa Catarina. A bordo do Graf Spee, os prisioneiros ficavam soltos - desde que jurassem não tentar escapar nem sabotar os equipamentos. E costumavam ser desembarcados em segurança em algum porto neutro.
 
Entre setembro e dezembro de 1939, o Alto Comando britânico empreendeu uma caça desesperada à embarcação alemã. Três encouraçados e 14 cruzadores foram enviados ao sul do Atlântico, em grupos separados, em busca do Graf Spee. Por três meses, o Graf Spee despistou os perseguidores, mas no dia 13 de dezembro, a 500 km da cidade uruguaia de Punta del Este, na boca do Rio da Prata, foi encurralado. Por volta das 6 horas, três cruzadores o cercaram. O navio foi alvejado 19 vezes e Langsdorff sofreu uma concussão craniana, ao ser atingido por estilhaços. Apesar dos danos, o capitão conseguiu conduzi-lo para dentro do Rio da Prata - e rumou para Montevidéu.

O Uruguai era uma nação neutra, mas seu governo não simpatizava com o Terceiro Reich. Quando o navio ancorou, milhares de pessoas acorreram às avenidas à beira-rio para avistá-lo - o Graf Spee ainda tinha munição suficiente para bombardear Montevidéu. Apesar do receio, o governo do Uruguai anunciou que concederia apenas 72 horas para que os alemães consertassem os danos no casco e enterrassem os 37 mortos na batalha contra os ingleses. Depois disso, o barco teria de zarpar. Circulavam boatos de que a Inglaterra enviara uma grande frota para vigiar a foz do Prata. Para Langsdorff, o estuário havia se transformado em um beco sem saída.

Langsdorff, além de ferido, estava exausto. Havia indícios de que começava a se desiludir com Hitler: no funeral dos marinheiros, foi a única autoridade que não fez a saudação nazista. No dia 18 de dezembro, o navio zarpou pela última vez. A 7 km da costa, o capitão ordenou que a tripulação abandonasse a embarcação. Depois, instalou cargas explosivas. Faltavam 10 minutos para as 21 horas quando uma labareda gigantesca lançou uma coluna de fumaça negra para o céu. Mais três explosões se seguiram. Em Montevidéu, jornalistas começaram a tagarelar afoitos para suas respectivas estações de rádio, enquanto o Graf Spee, destroçado por seu próprio capitão, desaparecia sob as águas do Prata.


Após esse desfecho digno de uma ópera de Wagner, a tripulação alemã buscou refúgio em Buenos Aires - alguns voltaram à Europa para continuar a guerra. Dois dias após afundar o Graf Spee, Langsdorff vestiu o uniforme e deitou em sua cama, no City Hotel, em Buenos Aires. Enrolou-se em uma bandeira - não a suástica nazista, mas a cruz negra, insígnia da antiga Frota de Alto-Mar da Alemanha Imperial. Então, deu um tiro na cabeça com sua pistola Mauser 7.65.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

[SGM] Os Alemães na Normandia

Resenha do livro The Germans in Normandy, Richard Hargreaves, Stackpole Books, 2008.

 

Hargreaves afirma que a estória da Normandia de 1944 tem sido registrada “quase que exclusivamente” do ponto de vista Aliado. Pessoalmente, acho isso de certa forma exagerado; relatos como os de Seis Exércitos na Normandia, de Max Hastings, e Invasão: Eles estão Chegando!, de Paul Carell, incluem testemunhos dos alemães, e, é claro, temos também os tipos de David Irving cujos trabalhos, independentemente do que pensamos sobre sua confiabilidade no plano político, inclui um caminhão de entrevistas com os comandantes alemães, por exemplo, seu livro sobre Rommel. Mesmo assim, Hargreaves afirma ter trabalhado por 15 anos em seu livro, analisando não somente as histórias, mas também diários e cartas.

Os Alemães na Normandia se propõe a focar no combatente comum alemão ao invés de ser uma história da campanha, uma afirmação que é de fato impossível de se alcançar, já que qualquer exame do assunto deve incluir o contexto da própria campanha. Não obstante, há uma impressionante lista de vozes representadas no livro, dos bem conhecidos (Rommel, Von Rundstedt, Kurt Meyer e Michael Wittman) até os postos mais baixos da Wehrmacht. Extraordinariamente, Hargreaves também inclui o pessoal da Luftwaffe e da Kriegsmarine, apesar dos poucos relatos, já que o número de equipamentos aeronáuticos e navais disponíveis para os alemães não era grande, mesmo após o reforço na força aérea.

O livro começa com um olhar nas atitudes dos alemães em relação à iminente invasão da França pelos Aliados em 1944, que era um “segredo aberto”. Uma das principais surpresas do livro e pontos de interesse é que muitos alemães, de Hitler até os defensores na praia, estavam impacientes com a chegada dos Aliados, de modo que para o soldado comum a apreensão pela espera terminaria e para Hitler havia a possibilidade de destruir os exércitos ocidentais e voltar ao combate na Frente Oriental com força máxima. Esta atitude de antecipação ansiosa era aparentemente comum também na Alemanha (o livro discute as atitudes variadas da população, como mostrada nas pesquisas de opinião do SD durante a campanha). Apesar de a Kriegsmarine e a Luftwaffe (a última comandada no Ocidente pelo indolente Sperrle) não poderem dar muita contribuição, Dönitz exortou às tripulações dos U-boats a darem o seu máximo, mesmo que enviando U-boats que não haviam ainda sido convertidos ao mecanismo Schorkel* contra os navios Aliados fosse equivalente ao suicídio. O Exército, por outro lado, acreditava firmemente em sua paridade, senão superioridade, em relação à qualidade de seus homens e armamentos – e isto era certamente verdade que tanques como o Tiger e o Panther eram superiores a qualquer coisa do arsenal Aliado.

Qualquer superioridade tática que os alemães pudessem ter, pelo menos com seus equipamentos e unidades de primeira linha tais como as divisões panzer e as tropas aerotransportadas, era infelizmente para eles anulada pelo quadro estratégico. Aniquiladas na frente oriental, as forças armadas ainda estavam lutando para recuperar suas perdas em homens e materiais, resultando no emprego de homens que normalmente teriam sido rejeitados para o serviço militar pesado, tais como georgianos, poloneses e russos recrutados dos campos de prisioneiros, ou homens idosos e sem forma física nas fracas divisões de defesa costeira. Apesar de sua impressionante organização no papel, as unidades novas ou reformadas como a 116ª. e a 21ª. Panzer ainda aguardavam por blindados ou se viravam com veículos obsoletos. Mais sério ainda, o bombardeio Aliado das áreas de desembarque francesas e da Alemanha levaram prontamente a uma escassez de materiais e dificuldades de transporte de qualquer coisa que estivesse disponível na frente de batalha. As supostas fortificações pesadas da Muralha do Atlântico, como apresentadas nas fotografias de propaganda alemãs mostrando artilharia pesada protegida, eram na realidade poucas e longe entre si: apesar da fúria de Rommel no trabalho nos primeiros meses de 1944, as defesas ainda não haviam sido concluídas em 6 de junho. Finalmente, a inteligência alemã falhou em discernir precisamente tanto as intenções dos Aliados quanto suas formações, e a estrutura de comando estranha e contraditória criada por Hitler, efetivamente deixando os principais comandantes às escuras entre si e tornando-o o juiz supremo, destruíram a capacidade de tomada de decisões.

Esta confusão no comando alemão ficou evidenciada nas primeiras 24 horas da invasão, quando mesmo o pouso de paraquedistas não convenceu o comando nazista de que mais do que uma simulação estava acontecendo, e quando um comandante de alto posto não conseguiu liberar os blindados porque Hitler estava dormindo. Não obstante, o desembarque em Omaha, como ele é conhecido, foi um verdadeiro banho de sangue para as tropas americanas pois elas encontraram a 352ª. Divisão de Infantaria razoavelmente em boas condições e o desembarque quase fracassou. Juno também ofereceu uma resistência dura até os tanques chegarem. Em Utah e nas praias britânicas a estória foi diferente, contudo, já que elas estavam com as defesas incompletas, com poucos canhões antitanque e pouca barreira. Um comandante de reconhecimento alemão relatou ver milhares de tropas aliadas desembarcando na praia. Portanto, em face à pesada artilharia naval e superioridade aérea aliadas, seria impossível interromper o avanço aliado. A confiança inicial alemã de que seus blindados pudessem empurrar o inimigo de volta para o mar evaporou-se rapidamente à medida que a realidade do ataque aéreo constante tornou-se aparente, um tema que percorre o texto inteiro como uma sinfonia completa.

Contrariamente à impressão geral algumas vezes dada, a Luftwaffe e a Kriegsmarine tentaram intervir contra os desembarques. Entretanto, a imensa rede protetora criada pelos caças aliados à frente dos exércitos americanos e britânicos tornou praticamente impossível à Luftwaffe atacar alvos terrestres, pelo menos durante o dia, e de modo similar a atualmente desenvolvida tática de cobertura aeronaval e de superfície tornou Brest, a base dos U-boats, uma viagem ao inferno. Nenhum avião aliado foi perdido em 6 de junho no enfrentamento com a Luftwaffe, e à noite 175.000 soldados aliados já estavam a salvo em solo francês. Além disso, apesar de sua confiança inicial, parece que alguns alemães sentiam que a batalha balançava numa corda, senão já totalmente perdida, somente pela superioridade esmagadora de materiais pelos Aliados. O que segue no resto do livro é a tragédia homérica das vidas dos homens sendo desperdiçadas numa causa perdida e odiosa, a derrota estratégica se aproximando cada vez mais apesar dos sucessos táticos em Bocage, na Montanha 112 (próximo a Caen) e contra as Operações Epsom e Goodwood.

Em seu uso de testemunhos de combatentes individuais, Hargreaves não despreza a política da situação, baseando-se também nos diários de Goebbels e declarações de comandantes de alta patente. Dos últimos, parece que somente Rommel estava ciente das restrições práticas que seriam impostas pela superioridade aérea e material dos Aliados, mas seus colegas e sucessores logo compartilhariam esse pensamento. De fato, outro tema interessante ao longo do livro é a transformação do otimismo em pessimismo por parte de homens como Kluge e Model que seguiram após Rommel na linha de frente com Hitler pressionando-os por resultados. Na verdade, somente Model, um favorito de Hitler, foi capaz de finalmente convencer o ditador que a França à oeste do Sena deveria ser abandonada. Hitler, é claro, é mostrado como vivendo fora da realidade, mas mesmo assim sua estranha habilidade em influenciar pessoas é mencionada em sua conferência com Rommel e Von Rundstedt, que deixou o último temporariamente mais otimista apesar de seus medos terem se tornado realidade. A bomba voadora V-1, que esperava-se matar britânicos em número suficiente para derrotar a Grã-Bretanha ou pelo menos levá-la à mesa de negociações, inicialmente elevou o moral alemão mas após o fiasco delas como armas de destruição em massa, ele despencou no front e no país. Um elemento interessante e satisfatório são os obstáculos que as publicações de propaganda nazista tiveram que superar para retratar a situação sob um ponto de vista positivo, mesmo quando cidades como Cherbourg e Paris caíram. À medida que a campanha avançava, homens como Rommel e Von Rundstedt foram obrigados a se submeter à verdade em relação à Frente Ocidental, e finalmente sugerir que era tempo para a política entrar em jogo – uma sugestão de Rommel que foi bruscamente rejeitada por Hitler. Ao invés disso, a falha da tentativa de assassinato de Hitler em 20 de julho levou ao fim da independência do Exército, ao suicídio de Von Kluge (que estava em cima do muro em relação ao plano) e ao Rommel mais tarde e a rigidez da Alemanha não seria quebrada até a morte do Führer. É digno lembrar, contudo, que muitos soldados e civis alemães da época ficaram indignados contra os conspiradores e ainda colocavam fé nos poderes de Hitler e das novas armas.

Os capítulos finais do livro registram a esperança e o desespero alternados dos combatentes alemães, muitos dos quais foram feitos prisioneiros ou mortos em ação. Juntamente à esperança com as novas armas estava o desespero do desmoronamento do front, a falta de reposição de tropas e o aparente poder ilimitado dos Aliados. Em Falaise, milhares de alemães foram cercados e mortos ou capturados em uma carnificina terrível que impressionou e trouxe compaixão mesmo em seus inimigos; formações sobreviventes atravessaram o Sena onde era possível, uma sombra do que já haviam sido, com apenas um punhado de tanques e poucas centenas de homens cada uma. Assim, o maior desejo era atravessar a fronteira e voltar à Alemanha. Como Rommel mencionou em um de seus últimos escritos, “O céu sobre a Alemanha tornou-se cinzento.”

http://www.cyberlizard.plus.com/Books/books_germansnormandy.html


Nota:

* Um snorkel (Schnorkel) submarino é um dispositivo que permite a um submergível operar sob a água enquanto capta ar acima da superfície. Pessoal da Marinha geralmente se refere a ele como snort. Até o advento da energia nuclear, os submarinos eram projetados para operar na superfície a maior parte do tempo e submergir somente para evasão ou ataque diurno. Em 1940, à noite, um U-boat estava à salvo mais na superfície  do que debaixo d´agua porque o sonar ASDIC podia detectar embarcações submersas, mas era quase inútil contra um navio de superfície. Entretanto, com o melhoramento contínuo nos métodos de radar à medida que a guerra avançava, os U-boats foram forçados a gastar mais tempo sob a água utilizando motores elétricos que davam velocidades de apenas alguns poucos nós e com pouca capacidade de duração.

A Kriegsmarine olhou o snorkel primeiramente como um meio de jogar ar fresco dentro dos submarinos, mas não viu necessidade de desenvolver motores diesel para aplicações submarinas. Entretanto, em 1943 mais U-boats foram perdidos, de modo que o snorkel foi adaptado às classes VIIC e IXC e projetado para os novos tipos XXI e XXIII.

O primeiro submarino da Kriegsmarine a ser readaptado com um snorkel foi o U-58, que experimentou o equipamento no Mar Báltico durante o verão de 1943. As embarcações começaram a usá-lo operacionalmente no início de 1944 e por volta de junho cerca de metade dos submarinos estacionados nas bases francesas tinham snorkels adaptados.

Nos U-botas do tipo VII, o snorkel era lançado para frente e estava armazenado em uma escotilha lateral do convés, enquanto que nos tipos IX, o encaixe estava no lado do estibordo. Os tipos XXI e XXIII tinham ambos mastros telescópicos que erguiam verticalmente da torre de observação próximos do periscópio.


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