sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O Império Persa

Vinícius Cherobino,  01/06/2012

 
Um pequeno reino lutava para se livrar de seus opressores, os medos, onde hoje fica o Irã. Poucas décadas depois, seus habitantes, os aquemênidas, dariam início ao maior império conhecido até então, com um ritmo de expansão tão vigoroso que nenhum outro conseguiu se equiparar em toda a Antiguidade. Nada menos do que 8 milhões de km2 de extensão, controlando o Oriente Médio, a Turquia, o Cazaquistão e parte da Índia - o coração da humanidade à época.

Não, não se fala aqui dos romanos. O império de Júlio César, Trajano e tantos outros chegou a "apenas" 6 milhões de km2 de extensão. Os verdadeiros donos do mundo antigo, entre 550 e 336 a.C., foram os persas - e só não se tornaram ainda maiores porque foram barrados pelos gregos quando chegaram à Europa. O segredo do sucesso foi a combinação de excelência militar, grandes inovações de engenharia, descobertas tecnológicas e genialidade na administração pública e na diplomacia. E fazendo tudo, ou quase tudo, de maneira bastante diferente do que faziam os antigos conquistadores: no lugar da política de terra arrasada, os persas cooptavam as elites locais e respeitavam as crenças e os costumes dos povos conquistados...

O surgimento do império

Depois do fim do Império Assírio, a região que vai da Ásia Central ao o norte da África e parte da Europa permaneceu dividida em pequenos reinos. Antigas potências, como o Egito e a Babilônia, não tinham força, paz interna ou interesse para retomar a expansão, situação semelhante a monarquias menores, como os lídios, os urartianos e os medos. Os próprios persas, vivendo perto do planalto da Mesopotâmia, não tinham muita possibilidade de crescer. Pior, viviam controlados com mão de ferro pelos medos, seus vizinhos do norte, que exigiam impostos exorbitantes e os dominavam com violência, segundo conta o historiador clássico grego Heródoto.

Até o surgimento de Ciro 2º, em 590 a.C., o monarca assumiu a liderança dos persas e preparou o contra-ataque. A revolta foi bem-sucedida e Astíages, o rei dos medos, foi derrotado (há uma lenda de que seu exército desertou ao ver o futuro imperador, neto do rei destronado). Ciro logo deu início ao plano de criar um império. Poupou Astíages e o deixou em sua corte como administrador. A decisão mostrava um rei diferente - Ciro 2º não matava indiscriminadamente e também não escravizava os conquistados. Seu modo de governar mantinha as elites locais. Esse modelo, que respeitava as diferenças culturais dos povos conquistados, transformou a Pérsia no primeiro império multicultural da História. A prática foi seguida pelos sucessores de Ciro. E, mais tarde, até pelos inimigos dos persas, como Alexandre, o Grande.

 
Ciro 2º passou a acumular campanhas bem-sucedidas, como a conquista da Lídia, no leste da atual Turquia, e de cidades-estado gregas na Jônia. O ponto alto foi a vitória sobre a Babilônia: Ciro tornou-se um dos raros monarcas estrangeiros a ter seu nome citado na Bíblia de forma positiva. "Foi de Ciro 2º a decisão de libertar os judeus na Palestina depois do exílio na Babilônia. É por isso que os escritores do Velho Testamento se referem ao rei persa como uma ferramenta de Javé", diz Josef Wiesehöfer, da Universidade de Kiel, na Alemanha, autor de Ancient Persia (Pérsia Antiga). Para comemorar a glória do império, Ciro 2º deu início à construção da capital, Pasárgada, mas, ao enfrentar nômades perto do atual Cazaquistão, morreu em batalha. O Império Persa poderia ter acabado aí.

O filho e sucessor de Ciro, Cambises 2º, manteve o que já havia sido anexado e foi além ao realizar o sonho do pai: a conquista do Egito. "A capacidade de absorver o conhecimento dos conquistados ajudou, mas, no final, o fator mais importante para a criação do império foi a liderança de Ciro 2º e de Cambises", diz John W. I. Lee, da Universidade da Califórnia. O traço mais importante do império está na maneira pela qual povos conquistados eram tratados. Ciro e Cambises, claro, poderiam cometer atrocidades como os antigos monarcas - assassinatos em massa ou desmembramentos de rivais faziam parte das conquistas. Heródoto conta que Ciro 2º assassinou Croesus, o rei da Lídia (o segundo grande reino conquistado pelos persas). Pactias, um líder rebelde de lá que se revoltou, foi enviado à Pérsia para ser morto após sofrer uma série de torturas.

O império consolidado

A sucessão familiar garantiu estabilidade, mas teve um efeito colateral nefasto: jogou irmão contra irmão. Depois da vitória no Egito, Cambises descobriu que seu irmão caçula, Bardiya (ou alguém se passando por ele), tinha liderado uma revolta na Pérsia. Voltando da África em disparada, morreu em circunstâncias misteriosas. Bardiya assumiu o trono em 521 a.C., mas mal esquentou o lugar. Foi emboscado por nobres e morto no mesmo ano.

Um dos assassinos, Dario, que pertencia à família real, ascendeu ao trono. No poder, assumiu um perfil diferente dos seus predecessores - em vez de conquistas em série, a consolidação do império. A primeira tarefa era militar: o esmagamento de rebeliões e o controle da imensa fronteira. A segunda era bem mais complexa: aperfeiçoar o sistema político para evitar as revoltas, abrir espaço para novas expansões e mostrar a grandeza dos persas. Nesse papel, ninguém teve tanto sucesso na arte de governar quanto Dario. Construiu duas novas capitais - Persépolis e Susa -, ambas descritas como maravilhas arquitetônicas.

"Susa e Persépolis funcionam como prova da grandeza imperial, como se o rei estivesse dizendo que era capaz de mobilizar trabalhadores, materiais e artistas de todo o mundo para dar expressão arquitetônica, iconográfica e textual à ideia da grandeza persa", afirma Joaquín Muñoz, da Universidade Internacional de La Rioja, na Espanha.

As construções de Dario não são apenas simbólicas. É durante seu reino que se espalha a rota imperial - estradas de pedra com entrepostos com alimentação e hospedagem a cada 29 km, com 2,5 mil km de extensão. A logística que acompanhou a criação das estradas foi revolucionária. Sem contar os benefícios do comércio e para o transporte de cargas e pessoas, a rota imperial auxiliava a comunicação - uma mensagem que antes levava meses passou a circular em dias de uma ponta a outra do gigantesco império. As rotas criaram uma arma militar: tornaram possível a realização de ataques simultâneos em vários fronts.

Dario estabeleceu sátrapas, governadores dos reinos conquistados, nas 23 unidades do império e criou um imposto oficial. Com tais passos, manteve contentes as elites locais com cargos e poder. Esse era um dos motivos pelo qual ele se denominava rei dos reis - epíteto que demonstra tanto a sua grandeza quanto a importância que os persas davam a quem haviam subjugado.

Uma das maiores sacadas de Dario foi se aproveitar das religiões espalhadas pelo império. A estratégia vinculava reis persas com deuses locais. Além de manter os templos intocados e de aceitar títulos religiosos locais, Dario espalhava relevos pelo império. Neles, havia a descrição de batalhas e a história pessoal de Dario em várias línguas - além de um agradecimento à divindade local. Algo como: "Venci essa batalha com ajuda do deus fulano". Quem poderia se revoltar contra um rei que agradecia o mesmo deus que o seu? E ainda recebia bênçãos dele? "Os persas foram muito bem-sucedidos em transformar uma dominação forte em algo tolerável", afirma Josef Wiesehöfer. "Os postos militares mais altos estavam nas mãos dos persas, mas eles facilitaram a colaboração com as elites dos países subjugados, dando uma boa dose de autonomia e vinculando os reis persas aos vários deuses locais."

O reinado de Dario durou 35 anos. Antes de deixar o trono, tentou conquistar a Europa depois de se dirigir à Grécia para acabar com a revolta jônica, apoiada por Atenas e Esparta. Irritado com os gregos, Dario decidiu atacar Atenas. Para cruzar o estreito de Bósforo com seu exército e cavalaria, ordenou um uso heterodoxo para a frota persa - uma ponte de barcos. De acordo com Heródoto, foram emparelhados centenas deles, que suportaram a passagem de 70 mil homens. Dario conquistou a Macedônia, mas não avançou pelo continente. Os gregos venceram aproveitando a armadura mais forte, o escudo e as lanças de bronze dos hoplitas. Depois da derrota, Dario bateu em retirada, mas não chegou a Persépolis. Morreu no trajeto. A morte de Dario abriu caminho para seu filho Xerxes. Diferentemente do que crê a imaginação popular (com a ajuda de Hollywood), Xerxes foi um grande líder militar. E ele não era gigante nem se parecia com Rodrigo Santoro. A Batalha de Termópilas, contra o rei de Esparta, Leônidas, e seus 300 soldados, esteve longe de marcar o fim dos persas. "Do ponto de vista persa, Termópilas foi um gigantesco sucesso militar", diz Amélie Kuhrt, do University College de Londres. "Xerxes foi um rei muito bem- sucedido e o Império Persa continuou a existir com muita saúde por mais 150 anos."

O que garantiu a independência da Grécia foi a batalha naval de Salamina, em que a poderosa frota persa foi derrotada por velozes navios gregos. Pela primeira vez, os planos de expansão dos persas chegaram a um beco sem saída. Nem Xerxes e nenhum outro dos 8 imperadores seguintes conseguiram dominar a Europa. Os gregos ficaram com a fama de terem barrado o avanço e impedido que a civilização ocidental, ainda no berço, tivesse um fim prematuro. O golpe de misericórdia veio em 336 a.C. Alexandre, o Grande, da Macedônia, que havia conquistado as outras cidades-estado gregas, chegou às portas do Império Persa. Cinco anos depois, Persépolis foi incendiada. Mas Alexandre conhecia o relato dos historiadores sobre os reis persas e ampliou suas conquistas absorvendo conhecimentos locais e construindo estruturas de governo apoiadas nas elites derrotadas. Foi o legado dos persas ao Ocidente.



Mistério da morte de Gagarin é desvendado

O Globo, 18/06/13



Quando subiu a bordo da cápsula Vostok 1 em abril de 1961, Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espaço e foi alçado à condição de herói da antiga União Soviética, a personificação do triunfo da ciência da superpotência comunista sobre seus rivais do Ocidente. Assim, as circunstâncias da sua morte em um acidente aéreo em março de 1968 permaneceram décadas envoltas em mistério, mesmo após o esfacelamento da URSS. Agora, no entanto, elas foram reveladas por seu colega cosmonauta Aleksey Leonov, ele mesmo o primeiro homem a fazer uma caminhada espacial, em 1965.

Leonov passou os últimos 20 anos batalhando com as autoridades russas pela divulgação dos detalhes da investigação sobre o acidente, da qual fez parte. Na versão oficial divulgada então, Gagarin e o experiente instrutor Vladimir Seryogin caíram com o MiG-15UTI após se desviarem de um objeto voador não identificado – um balão ou um pássaro. A manobra fez com que seu avião entrasse em parafuso e os dois morreram no impacto com a terra.

- esta conclusão é verossímil para um civil, mas não para um profissional – afirmou Leonov em entrevista à rede de TV Russia Today (RT). - De fato, tudo aconteceu diferente.

De acordo com um relatório finalmente liberado pelo governo russo após os insistentes pedidos de Leonov, um jato SU-15 passou perigosamente perto do avião de Gagarin em um voo não autorizado, precipitando-o rumo ao chão. O ex-cosmonauta contou que naquele fatídico dia 27 de março de 1968 era o responsável pelos treinamentos de saltos de paraquedas. O clima estava ruim, com muita chuva, vento e neve, o que tornava impossíveis os exercícios. Enquanto esperava o cancelamento oficial do treinamento, ele ouviu o barulho de um avião rompendo a barreira do som, seguido de uma explosão um ou dois segundos depois, e então soube que algo tinha dado errado.

- Sabíamos que o SU-15 estava previsto para ser testado naquele dia, mas ele deveria estar voando a uma altitude de 10 mil metros ou mais, e não 450-500 metros. Foi uma violação dos procedimentos de voo – disse Leonov. - Depois que realizou a pós-combustão (necessária para levá-lo à velocidade supersônica) o avião (SU-15) passou perto de Gagarin, virando seu avião e assim jogando-o em parafuso, uma espiral, para ser mais preciso, a uma velocidade de 750 km/h.

Leonov lembra que recebeu ordens de voltar para a base de Chkalovsky, onde soube que o avião de Gagarin deveria ter esgotado seu combustível há 45 minutos. E suas suspeitas de que um acidente tinha ocorrido foram confirmadas após informações de que um local de impacto foi encontrado perto da vila de Novoselovo.

- Enviamos uma equipe que encontrou os destroços do avião e os restos mortais de Seryogin – contou à RT. - Não foram encontrados os restos de Gagarin, só seu mapa e uma bolsa, então a princípio pensamos que ele tinha conseguido se ejetar. Enviamos um batalhão de soldados que procurou por ele na floresta a noite inteira, mas tudo que encontraram foram os restos de um balão. Só no dia seguinte encontramos o corpo de Gagarin. Consegui identificá-lo por uma mancha escura no pescoço que só tinha notado três dias antes.

Encontrados os restos de Gagarin, teve início então a conspiração para esconder que ele tinha morrido por falha humana de outro piloto soviético. Quando conseguiu colocar as mão no relatório décadas depois, Leonov encontrou várias falhas, mas a principal no seu próprio relato, que tinha seu nome, mas foi escrito por outra pessoa com os fatos mudados.

- Quando vi a cópia, de repente notei que ela colocou o intervalo entre os sons entre 15 e 20 segundos no lugar dos dois segundos que relatei. Isso sugeriria que os dois caças estavam separados por não menos de 50 quilômetros.

Com a ajuda de computadores, simulações conseguiram então mostrar como o avião de Gagarin entrou em uma espiral mortal em alta velocidade. Segundo Leonov, a passagem de um avião maior e mais pesado pelas proximidades fez com que o MiG-15 virasse de cabeça para baixo. O nome do piloto do SU-15, hoje com 80 anos e saúde frágil, não foi revelado como condição para a entrevista do ex-cosmonauta.

- Ele era um bom piloto de testes e isso não vai consertar nada – justificou.


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[SGM] Neville Chamberlain estava certo

Nick Baumann



Setenta e cinco anos atrás, em 30 de setembro de 1938, o Primeiro Ministro britânico Neville Chamberlain assinou o Pacto de Munique, cedendo partes da Tchecoslováquia para a Alemanha de Adolf Hitler. Chamberlain retornou à Grã-Bretanha sob aclamação popular, declarando que ele havia assegurado “paz para nossa época”. Hoje, o primeiro ministro é geralmente retratado como um ingênuo que estava errado em tentar “apaziguar” Hitler – uma estória de alerta para qualquer líder ingênuo o suficiente para preferir a negociação ao invés do confronto.

Mas entre os historiadores, esta visão mudou ainda no final dos anos 1950, quando o governo britânico começou a disponibilizar os registros da era Chamberlain aos pesquisadores. “O resultado disto foi a descoberta de todos os tipos de fatores que reduziram as opções do governo britânico em geral e reduziram as opções de Neville Chamberlain em particular,” explica David Dutton, um historiador britânico que escreveu uma recente biografia do primeiro ministro. “A evidência era tão esmagadora,” diz ele, que muitos historiadores chegaram a acreditar que Chamberlain “não podia fazer outra coisa a não ser o que ele fez” em Munique. Com o tempo, diz Dutton, “o peso da historiografia começou a deslocar para uma apreciação muito mais simpática” de Chamberlain.

Primeiro, uma olhada na situação militar. A maioria dos historiadores concorda que o exército britânico não estava preparado para a guerra com a Alemanha em setembro de 1938. Se a guerra tivesse acontecido com a crise tchecoeslovaca, a Grã-Bretanha teria sido capaz de enviar somente duas divisões ao continente – e divisões más equipadas, diga-se de passagem. Entre 1919 e março de 1932, a Grã-Bretanha baseou seu planejamento militar em um “domínio de 10 anos”, que partia do pressuposto de que ela não se envolveria em uma guerra de grandes proporções na próxima década. O rearmamento somente começou em 1934 – e somente numa base limitada. O exército britânico, como existia em setembro de 1938, não estava preparado para uma guerra continental. Nem o rearmamento da Marinha ou da Força Aérea Real completo. O rearmamento naval britânico recomeçou em 1936 como parte de um programa de cinco anos. E, apesar da Luftwaffe de Hitler ter repetidamente dobrado de tamanho no final dos anos 1930, não foi até abril de 1938 que o governo britânico decidiu que sua força aérea poderia comprar tantos aviões quantos pudessem ser fabricados.

Tudo isto construído no que Chamberlain estava escutando de seus altos conselheiros militares. Em março de 1938, os chefes de estado-maior militares britânicos produziram um relatório que concluía que a Grã-Bretanha não poderia possivelmente deter a Alemanha de tomar a Tchecoslováquia. Em geral, os generais britânicos acreditavam que os militares e a nação não estavam preparados para a guerra. Em 20 de setembro de 1938, o então coronel Hastings Ismay, secretário do Comitê de Defesa Imperial, enviou uma nota para Thomas Inskip, ministro para coordenação de defesa, e Sir Horace Wilson, um funcionário público. O tempo estava ao lado da Grã-Bretanha, argumentava Ismay, escrevendo que atrasar o início da guerra daria à Força Aérea Real tempo para adquirir aviões que poderiam contrabalançar a Luftwaffe, o que ele considerava a única chance de derrotar Hitler. Os estrategistas britânicos, incluindo Ismay, acreditavam que seu país poderia ganhar uma guerra longa (desde que tivessem tempo para se preparar para ela). Isto era uma crença comum e sem dúvida construída nos cálculos de Chamberlain.

Os historiadores discordam se a posição militar britânica relativa à Alemanha era objetivamente melhor em 1939 do que ela era em 1938. Os militares britânicos sistematicamente sobreestimaram o poder alemão e subestimaram o seu próprio poder no período que antecedeu a crise da Tchecoslováquia, então mudou para um tom mais otimista nos meses entre Munique e o início da guerra. Seja qual for a situação em jogo, é claro que a confiança dos militares britânicos em suas habilidades estava muito melhor em 1939 do que estava durante a crise de Munique, especialmente por causa do desenvolvimento do radar e dos novos caças. Em 1939, os militares acreditavam que estavam prontos. Em 1938, não.

As opções diplomáticas de Chamberlain eram pequenas também. Na Primeira Guerra Mundial, a declaração de guerra da Grã-Bretanha tinha trazido automaticamente o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia na luta. Mas o status constitucional destes países da Comunidade Britânica mudou no período entre guerras. De acordo com os arquivos britânicos, estava longe de ser claro se Chamberlain poderia contar com a ajuda destes países se a guerra eclodisse com a Alemanha por causa da Tchecoslováquia. “Havia realmente uma sensação de que as chances estavam contra o potencial da Grã-Bretanha ser capaz de prevalecer sobre a Alemanha e potencialmente sobre a Itália e Japão, e com poucos aliados em potencial,” diz Dutton. A Rússia soviética era vista como um inimigo em potencial a ser temido, não um potencial aliado. As leis de neutralidade dos Estados Unidos tornavam improvável de que mesmo um presidente desejoso poderia trazer os Estados Unidos para a luta. Há também muita evidência nos arquivos que o governo britânico tinha quase desprezo total pela estabilidade e habilidades militares da França, seu único aliado principal de porte. A duração média de um governo da Terceira República nos anos 1930 era de nove meses. Quando a guerra eclodiu, as dúvidas de Chamberlain em relação ao poder de mobilização da França provaram ser verdadeiras.

Nem o povo britânico estava preparado para a guerra em setembro de 1938. “É fácil esquecer que isto aconteceu somente 20 anos após o encerramento da última guerra,” explica Dutton. Os políticos britânicos sabiam que o eleitorado não desejava jamais fazer sacrifícios como aqueles feitos na Primeira Guerra. O Somme e Passchendaele haviam deixado cicatrizes que ainda estavam abertas, e poucos, se houvesse algum, dos líderes britânicos estavam preparados para pedir ao seu povo para lutar aquelas batalhas novamente. Muitas pessoas viram a atuação da Luftwaffe na Guerra Civil Espanhola e temiam que o bombardeio aéreo garantiria que uma segunda guerra seria muito mais devastadora do que a primeira.* Qualquer estratégia que afirmasse oferecer uma alternativa a enviar grandes exércitos à Europa encontravam, portanto, simpatizantes em cada nível da sociedade britânica. “Havia uma sensação de que qualquer político sensibilizado exploraria todo caminho possível para evitar a guerra antes de aceitar que ela era inevitável,” diz Dutton.

Se a Grã-Bretanha tivesse que ir à guerra contra a Alemanha de Hitler, a maioria das pessoas não queria fazê-lo por causa da Tchecoslováquia. “As pessoas falavam da Tchecoslováquia como uma criação artificial,” diz Dutton. “A percepção nos anos 1930 era de que havia um problema, era passível de solução pela negociação e que deveríamos tentar. Não era o tipo de coisa que uniria o país como um motivo para ir à guerra.”

Nem é a visão atual de como o ditador nazista era visto no final dos anos 1930. A Blitzkrieg e os campos de concentração não eram ainda parte do imaginário popular. Os britânicos já haviam negociado com um fascista, Benito Mussolini, por anos antes de Hitler assumir o poder, e diplomatas britânicos de alto nível e pensadores militares viam Hitler do mesmo modo como Mussolini – bravateiro ao invés de um homem de ação. Além disso, muitos europeus achavam que as exigências alemãs sobre as conseqüências da Primeira Guerra Mundial eram legítimas. Hoje, vemos as ações de Hitler durante o início e meados dos anos 1930 como parte de uma marcha implacável em direção da guerra. Isto não era o caso na época. O rearmamento alemão e a reocupação da Renânia pareciam inevitáveis, pois manter um grande país como a Alemanha desarmada por décadas era irreal. A união de Hitler da Áustria com a Alemanha parecia ser o que muitos austríacos queriam. Mesmo as exigências por territórios da Tchecoslováquia eram vistas, na época, como não necessariamente desarrazoadas – acima de tudo, muitos alemães viviam naquelas terras.

Assim, quando Chamberlain retornou de Munique com a notícia de que ele havia negociado um acordo de paz, multidões alegres encheram as ruas e a imprensa regozijou-se.

Para o crédito de Chamberlain, suas visões mudaram à medida que as intenções de Hitler tornaram-se mais claras. Quando Hitler tomou Praga e o coração da República Tcheca em março de 1939 – sua primeira invasão de uma área que não tinha nenhuma raiz alemã – Chamberlain disse que temia que isso poderia representar uma “tentativa de dominar o mundo pela força.” Ele duplicou o tamanho do Exército Territorial (a versão britânica da Guarda Nacional) e, em 20 de abril lançou o alistamento em tempos de paz pela primeira vez na história da Grã-Bretanha. Então, em 3 de setembro, cerca de 11 meses após Munique, ele conduziu seu país à guerra.

Os historiadores frequentemente acham-se em posição oposta à opinião pública. No caso de Chamberlain, contudo, o lapso entre a percepção pública e os registros históricos serve para objetivos políticos. A estória que nos é contada de Munique é sobre a futilidade e ingenuidade de buscar a paz. Nos debates políticos americanos, as palavras “apaziguamento” e “Munique” são usadas para rebater os argumentos daqueles que lutam contra a guerra. Mas toda guerra não é a Segunda Guerra Mundial, e todo ditador não é Hitler. Deveríamos culpar Chamberlain por postergar uma luta potencialmente desastrosa que seus conselheiros militares se posicionaram contra, seus aliados não estavam preparados e seu povo não apoiava? “As pessoas deveriam tentar se colocar na posição do chefe do governo britânico nos anos 1930,” diz Dutton. “Teriam elas assumido o aparentemente alto risco de uma guerra que poderia significar o Armageddon por uma causa que ninguém estava convencido?” A estória de Chamberlain é a de um homem que lutou pela paz tanto tempo quanto era possível, e foi à guerra somente quando ela se tornou a última opção disponível. Isso não é um mau epitáfio.        

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

[SGM] Nazistas ofereceram a Churchill deixar Europa Ocidental

The Telegraph, 26/09/2013

 
Um novo livro afirma ter resolvido o enigma do voo à Grã-Bretanha em 1941 de Rudolf Hess, o vice-líder de Adolf Hitler.

A viagem de Hess à Grã-Bretanha em um caça até a Escócia tem sido deixada de lado como sendo a iniciativa individual de um louco.

Mas Peter Padfield, um historiador, descobriu evidência onde ele afirma que, Hess, o vice-Führer, levou consigo um detalhado tratado de paz criado por Hitler, sob o qual os nazistas se retirariam da Europa Ocidental em troca da neutralidade britânica em relação ao iminente ataque à Rússia.

A existência de tal documento foi revelada a ele por um informante que afirma que ele e outros tradutores alemães foram chamados no MI6 para traduzir o tratado para Churchill.

O informante, que não é identificado pelo Sr. Padfield, era um especialista que mais tarde trabalhou numa importante universidade. Ele já é falecido. Antes de sua morte, ele descreveu um relato de como o grupo foi montado na sede da BBC, em Portland Place, Londres, para conduzir a tarefa.

O especialista disse que Hess trazia consigo o proposto tratado de paz, expresso em cláusulas numeradas e datilografado em papel da Chancelaria Alemã. Uma tradução em inglês também foi incluída, mas os britânicos também queriam o original alemão traduzido.

O informante disse que as duas primeiras páginas do tratado detalhavam os objetivos precisos de Hitler na Rússia, seguido de seções detalhando como a Grã-Bretanha poderia manter sua independência, Império e forças armadas, e como os nazistas deixariam a Europa Ocidental. O tratado propunha um estado de “neutralidade bem desejada” (wohlwollende Neutralitat) entre Grã-Bretanha e Alemanha, para que esta última pudesse realizar sua ofensiva contra a URSS. O informante mesmo disse que a data do ataque de Hitler ao leste estava revelada.

O Sr. Padfield, que faz as afimações em um novo livro, Hess, Hitler e Churchill, disse: “Isto não foi uma armação renegada. Hitler enviou Hess e ele trouxe consigo um tratado de paz totalmente desenvolvido para a Alemanha evacuar todos os países ocupados do Ocidente.”

O Sr. Padfield, que anteriormente havia escrito uma biografia de Hess, assim como de Karl Dönitz e de Heinrich Himmler, acredita que o tratado foi suprimido na época, pois teria atrapalhado os esforços de Churchill para colocar os EUA na guerra, destruído sua coalizão de governos europeus exilados e enfraquecido sua posição domesticamente,já que teria sido aceito pelo que o autor acredita ser uma considerável facção de “paz negociada” na Grã-Bretanha na época. Ao mesmo tempo, desde que a missão havia falhado, também ajudou Hitler a se livrar de Hess como um agente embusteiro.

Não há nenhuma menção do tratado em qualquer arquivo oficial que foi tornado público, mas o Sr. Padfield acredita que isto aconteceu para proteger a reputação de figuras poderosas. O autor diz que seu informante interrompeu o contato com ele após ter sido procurado pelos seus antigos empregadores do serviço secreto.

O Sr. Padfield acrescentou: “Se a Família Real estivesse seriamente envolvida em planos planos de paz comprometidos, isto seria muito prejudicial, apesar de que eu acho que é mais provável que Hess tenha trazido a Churchill informações do Holocausto vindouro. Isto poderia estragar as percepções de sua pessoa e di registro de guerra da Grã-Bretanha se isto fosse revelado.”

“Isto foi um ponto de inflexão da guerra. Churchill poderia ter aceitado a oferta, mas ele tomou uma decisão moral. Ele estava determinado que Hitler, que não era confiável, não poderia prosseguir com seus planos. Ele queria os EUA na guerra, e para derrotar Hitler.”

O Sr. Padfield também reuniu outra evidência para apoiar a existência do tratado e de seu conteúdo – assim como o subsequente encobrimento.

Ele estabeleceu que duas listas de artigos foram tomadas de itens transportados por Hess quando ele foi preso após pular de paraquedas de seu avião, um Messerschmidt 110, na noite de 10 de maio de 1941, próximo a Eaglesham, nos arredores de Glasgow. Nenhuma das duas foi liberada.

Ele coletou testemunho de uma mulher vivendo próximo de onde Hess aterrissou, o que indica que a polícia recebeu “ordens para encontrar um documento valioso que estava faltando.” O item, de acordo com a testemunha, foi encontrado “próximo do rastro de fogo no parque.”

O Sr. Padfield também afirma que Hess usou um tradutor especializado do Ministério do Exterior alemão – apesar dele ter usado outro, uma pessoa fluente em inglês – enquanto elaborava os documentos para suas negociações com os britânicos, antes de seu voo. Isto sugere, diz o Sr. Padfield, que aprovação escrita era exigida para os documentos.

Hess foi mantido em prisão na Grã-Bretanha até o fim da guerra quando ele retornou à Alemanha para ser julgado em Nuremberg. Ele foi enviado à prisão de Spandau onde morreu em 1987. As autoridades afirmam que ele cometeu suicídio, mas seu filho e alguns historiadores dizem que o governo britânico ordenou seu assassinato para proteger segredos.         


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[POL] Hitler e a América

Hitler e a América é um livro extraordinário, repleto de evidências e detalhes significativos sobre a complexidade (e, em certo sentido, a dualidade) da consideração de Hitler em relação aos Estados Unidos.

John Lukacs


Em fevereiro de 1942, apenas dois meses após ter declarado guerra aos Estados Unidos, Adolf Hitler elogiou os grandes sucessos industriais da América e admitiu que a Alemanha precisaria de algum tempo para superá-los. Os americanos, ele disse, haviam mostrado o modo de desenvolvimento dos melhores métodos de produção – especialmente em ferro e carvão, que formam a base da moderna civilização industrial. Ele também salientou a superioridade da América no campo dos transportes, particularmente o automóvel. Ele amava carros e via em Henry Ford um grande herói da era industrial. O trem pessoal de Hitler era chamado de “Amerika”.

Em Hitler e a América, o historiador Klaus P. Fisher procura entender mais profundamente como Hitler via a América, a nação que foi decisiva para a derrota da Alemanha. Ele revela a imagem antagônica que Hitler tinha do país: a América e a Amerika. Hitler alardeava os Estados Unidos como um país fraco e, ao mesmo tempo, referia-se a ele como um colosso industrial digno de imitação. Ou ele pensava na América nos termos mais pejorativos ou via as últimas fotos dos Estados Unidos, assistindo a filmes americanos, tornando-se fã dos desenhos animados de Mickey Mouse. A América era o país que Hitler admirava – pelo espírito empreendedor do povo americano, que ele atribuía ao seu sangue nórdico – e invejava – seu enorme território, recursos abundantes e poder político. A Amerika, contudo, era uma nação mestiça, tornada muito rica em pouco tempo e governada por uma elite capitalista com laços estreitos com os judeus. Do outro lado do Atlântico, o presidente Franklin Delano Roosevelt tinha sua própria visão mais realista de Hitler e Fischer compara estes erros e concepções erradas que fizeram com que Hitler, no final, visse somente a Amerika, e não a América, levando à sua derrota.

Como Klaus P. Fischer nota em sua introdução, muitos livros que lidam com a relação entre os Estados Unidos e a Alemanha foram publicados. A maioria destes livros foca na política externa entre as duas nações a partir do ano em que Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha (1933) até a declaração de guerra aos Estados Unidos pela Alemanha Nazista (1941). Logo, qual a utilidade do livro Hitler e a América? O livro de Fischer “explora as origens e desenvolvimentos das visões de Hitler” em relação à América, e discute suas políticas diplomáticas. O autor argumenta que muitas idéias americanas influenciaram as decisões que Hitler tomou e que a América teve um profundo impacto em Hitler. Por exemplo, ao tomar certas decisões, Hitler estava preocupado como “o isolacionismo americano, as atividades dos simpatizantes nazistas na América, a opinião pública americana e as reações da judiaria americana aos acontecimentos antissemitas na Alemanha, e as conexões comerciais teuto-americanas.

No primeiro capítulo, Fischer introduz a imagem antagônica de Hitler dos Estados Unidos. Hitler admirava a América por suas leis de restrição imigratória e o apoio do governo à pesquisa eugênica. Ele queria que a Alemanha fosse tão grande quanto a América tanto no comércio exterior quanto no ramo industrial. Os Estados Unidos eram o líder mundial em produção de aço e carvão. De acordo com Fisher, Hitler “acreditava que a força da América era baseada em dois pilares: sua poderosa capacidade industrial e sua herança genética nórdica.” Entretanto, Hitler também sustentava preconceitos contra a América. Ele achava que dada a falta de leis de proteção ao casamento, muito do sangue nórdico da América foi contaminado. Esta segunda imagem dos Estados Unidos era uma de desconfiança. A Amerika era uma terra que tornou-se corrupta e fraca. Interessantemente, Hitler achava que a Alemanha estava seguindo o mesmo caminho. Se ele não tivesse surgido e corrigido  o rumo do navio, a Alemanha teria terminado como a Amerika. Esta idéia é, em certo sentido, semelhante ao conceito de “modernismo reacionário”, que Fischer pega de Modernismo Reacionário: Tecnologia, Cultura e Política em Weimar e no Terceiro Reich, de Jeffrey Herth (1984). Ele nota que enquanto Hitler via os Estados Unidos como uma nação moderna com grande poder de manufatura, ele também via os efeitos negativos dessas políticas sobre o mundo contemporâneo. Os capítulos que seguem – 2 a 5 – lidam com a política externa americana e alemã nos anos antecedentes da Segunda Guerra Mundial. Algumas vezes, a conexão entre as teses do livro e a informação apresentada nestes capítulos fica perdida. Enquanto torna-se claro que a política externa alemã e americana seja importante para os principais assuntos tratados neste livro e que estas políticas influenciaram Hitler e suas visões da América, algumas vezes as idéias de Fischer perdem-se nos detalhes. O leitor frequentemente tem que interromper o texto e lembrar de qual argumento se trata e como este detalhe influencia no argumento.

De qualquer forma, o livro de Fischer é revisionista em relação a este assunto importante. Infelizmente, Fischer raramente menciona os estudos históricos anteriores contra o que ele está afirmando. Ele simplesmente se refere a “outros historiadores”, mas não os nomeia, não faz referência a seus trabalhos e não apresenta seus argumentos em profundidade. Ao não mencionar quais trabalhos ele está revisando ou quais são os outros argumentos, reduz a eficiência do livro. Enquanto ele é um livro digno de leitura para ajudar na compreensão deste assunto, os leitores deverão ser beneficiados a partir de uma historiografia mais profunda.

Este livro também se encaixa perfeita e facilmente nas novas tendências do academicismo histórico, globalizando a história. Hitler e a América é um livro bem escrito e pesquisado, que conduz o leitor a entender os sentimentos e concepções de Hitler da América.

Muitos historiadores têm afirmado que Hitler dificilmente prestou atenção nos EUA nos anos 1930. Outros acrescentaram que o Führer somente havia desprezado os americanos, os quais ele considerava um povo mestiço, incapaz de uma alta cultura. Estas e outras muitas teorias são demolidas pelo livro, que prova o quão essencial a América era para a política de Hitler.

Os primeiros capítulos mostram que o que Hitler conhecia da América, a imagem antagônica, veio de fontes de segunda mão, de turistas, como Putzi Hanfstängel, de livros de Karl May e de outros autores menos conhecidos, ou do que ele via em filmes, revistas e jornais. Ele também obteve alguma noção sobre a preparação militar dos americanos com a ajuda de Friedrich Von Botticher, adido militar em Washington.

Já que este livro é também sobre o modo como Roosevelt via Hitler, há noções fascinantes deste tópico. FDR soube através de seu embaixador em Berlim que Hitler e seu regime estavam se tornando perigosos no final dos anos 1930, especialmente após a conferência secreta realizada em 5 de novembro de 1937, quando Hitler explicou aos participantes que seus objetivos eram anexar a Áustria e a Tchecoslováquia no sentido de garantir os flancos sul e oriental da Alemanha.

O professor Fischer não dá muita importância à Liga Anglo-germânica, liderada por Fritz Kuhn, que na verdade era desprezado pelo Führer.

Os anos seguintes, pelo menos até dezembro de 1941, foram caracterizados pelos esforços feitos por Roosevelt em aumentar a ameaça nazista, de modo a mudar a posição do povo americano de não-intervencionismo. O presidente afirmava que Hitler queria destruir a América por meio de ações internas, espalhando a semente da discórdia, desconfiança e subversão. Hitler, por sua vez, via Roosevelt como um presidente cercado por judeus, aquele povo que, em sua idéia, seria exterminado após 1941. A evidência disponível sugere que Roosevelt sabia a respeito da Solução Final, mas sem muitos detalhes, nem ele sabia o que fazer a respeito já que sua preocupação principal era ganhar a guerra.* O livro contém ainda uma análise do relacionamento entre Os Três Grandes: Roosevelt, Stalin e Churchill. A conexão entre eles e o modo como Hitler via a América não é sempre claro.

Outro ponto enfatizado no livro se refere às tentativas de Hitler de levar a discórdia entre os Aliados, esperando que Roosevelt e Churchill, por exemplo, pudessem terminar sua amizade. Hitler acreditava que se fosse outro presidente, ele conseguiria manter os Estados Unidos fora da guerra e empregar medidas econômicas mais eficientes para tirar o país da Depressão.

Em contraste, Roosevelt via a guerra como o confronto moral entre os valores humanos da democracia americana e a natureza brutal da tirania nazista. A sua doutrina das quatro liberdades foi uma tentativa de universalizar as doutrinas do Iluminismo no qual a experiência política americana se baseava, enquanto que Hitler tinha uma imagem distorcida da América moldada por fontes questionáveis que ele utilizou para se encaixar em sua própria concepção ideológica. Este é o motivo por que Hitler desprezou a população americana como sendo uma mistura racial de povos.

O nono capítulo do livro conduz o leitor a uma viagem pelos anos de poder de Hitler e Roosevelt e oferece as filosofias de cada um em suas nações opostas. As estratégias diplomáticas também são estudadas neste trabalho durante os anos de guerra com as grandes potências da Rússia, Grã-Bretanha e Japão. Fischer utiliza sua própria pesquisa extensa mais do que citações dos principais atores do período. Semelhanças e diferenças dos dois líderes são discutidas desde o começo e elas são surpreendentes. Ambos chegaram ao poder e morreram no mesmo ano. Ambos possuíam entendimentos inatos das preocupações comuns das pessoas na sociedade e sabiam como motivar as massas. As diferenças eram as seguintes: FDR passou boa parte de sua juventude na Alemanha enquanto que Hitler jamais visitou a América, baseando-se em jornais, filmes e relatórios diplomáticos das células alemãs. Hitler capitalizou o culto alemão das massas, que era superior racial e etnicamente, em contraste com a democracia e os direitos iguais na América. Os alemães acabaram sendo forçados a aceitar as crenças nazistas enquanto que os americanos valorizavam o individualismo, a liberdade e a igualdade. Na Alemanha, o povo era um só; o status individual era virtualmente não existente. Outra distinção importante que Fischer enfatiza é a ascensão ao poder.   

FDR emergiu de posições políticas executivas, com uma boa educação superior e juntou-se a um partido que estava bem estabelecido no outono de 1932. Hitler transformou o Partido dos Trabalhadores Alemães em seu próprio Partido Nazista, além de possuir apenas ensino básico, o qual resultou na sua recusa à Academia Vienense de Artes. A visão de Hitler era uma ideologia obstinada e brutalidade; FDR sustentou seus princípios democráticos promovendo a pás e prosperidade para todos.** Ele também defendia a rendição incondicional da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial e acreditava que as massas jamais pensariam que elas perderam a grande guerra por terem permitido a ascensão de um regime totalitário em 1933. Hitler isolou-se como líder militar raramente levando em consideração o conselho de seus generais e deixando o destino da Alemanha a subordinados da SS criando uma disputa interna frenética. FDR seguiu a constituição ao conduzir suas tarefas administrativas.

Hitler admirava grandemente a empresa Ford de automóveis e era impressionado pelos muitos arranha-céus da cidade de Nova York. De um ponto de vista cultural, ele sentia que a Alemanha superava a América com suas óperas, música e arte. Parte do sucesso americano na indústria e na ciência foi resultado de povos nórdicos que emigraram para lá. Hitler acreditava que a decadência da América seria o resultado da miscigenação dos povos e especialmente dos judeus que manipulavam FDR para que este entrasse na guerra.*** Da perspectiva de Fischer, Hitler não queria que a América entrasse na guerra e rapidamente repeliu quaisquer ações de provocação contra os EUA. Hitler sabia de uma experiência pessoal que a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial levou ao fim das Potências Centrais. É evidente que Hitler temia o poder da América, enquanto que ao mesmo tempo olhava para os americanos como sendo inferiores aos alemães. Mas novamente, na mente de Hitler qualquer um era inferior aos arianos.   

Fischer também enfatiza as reuniões teuto-americanas realizadas em plena Madisnon Square Garden para promover a cultura e ideologia alemãs. É interessante saber que Hitler dava pouca atenção a essas reuniões, de modo que sua visão de mundo se aplicava somente ao povo alemão e não aos alemães vivendo fora do país. Em outras palavras, o nazismo era um clube exclusivo. Como é mencionado em outros livros, Hitler estava comprometido em adquirir espaço vital para o povo alemão, o qual ele planejou viria do leste; estes planos finalmente foram destruídos em Stalingrado. Fischer também nos lembra das muitas oportunidades de paz que Hitler e seus seguidores dispuseram a partir do final de 1941, época em que mesmo Hitler sabia que a guerra não poderia ser vencida. Havia muitos cenários políticos entre Rússia, Grã-Bretanha e os EUA, os dois últimos especialmente temendo que Stalin pudesse fazer um pacto com a Alemanha. Stalin fez o jogo do Ocidente em diversas ocasiões para conseguir equipamentos militares. O autor afirma que Hitler estava ciente das tentativas de acordo de paz em todas as frentes; mas que a guerra estava perdida em virtude de seus erros de cálculo e ilusões de um grande império do futuro que simplesmente não podia ser sustentado pelos atuais recursos alemães.

Hitler nunca levou a sério a possibilidade de negociar a paz, mas escolheu, como Fisher aponta, manter-se firme nas idéias e continuar lutando contra o Comunismo e para as suas políticas nacional socialistas. Ele também apostava que algum dos Aliados deixasse a luta. Ele nunca aceitou a responsabilidade pela derrota iminente, preferindo ao invés disso culpar o povo. Sua deterioração física é descrita por Speer transformando-se num velho isolado num bunker claustrofóbico e dando ordens para manobras militares fictícias e a regimentos do exército que já não existiam mais. Outros têm atribuído suas decisões erradas ao seu ódio e tendências genocidas e outros levam em consideração o fato dele ter sido intoxicado com medicamentos de qualidade duvidosa. Estas opiniões estão descritas vivamente no livro. FDR não viveu o suficiente para ver a rendição incondicional da Alemanha nem completar seu quarto mandato. Seu gênio político, diplomacia e princípios, contudo, ajudaram a assegurar um resultado positivo para os Aliados.

O pensamento e estratégias empregados por ambos os lados são de grande interesse e não são abordados em outros livros deste período, isto é, se Hitler tivesse se alinhado a Stalin eles poderiam conquistar a Europa ou os Estados Unidos jamais tivessem entrado na guerra em virtude do pensamento isolacionista em relação às guerras européias. O autor oferece razões plausíveis, mas não conclusivas, do por quê Hitler ter deixado as forças britânicas partirem de Dunquerque; esta ação demonstra a hesitação e inabilidade de Hitler em implementar planos militares.+  Como muitos especialistas afirmam, ele era um gênio político, mas não militar e rejeitava o conselho dos especialistas militares que o cercavam.++  Sendo o único presidente eleito para quatro mandatos, FDR era um líder eficiente; Hitler chegou como um meteoro, levando todos e tudo consigo em sua trajetória, um homem solitário em uma jornada solitária cujo coração jamais foi revelado inteiramente. Uma indicação do quão dedicado ele era à sua ideologia é como ele poderia ter conquistado a Europa se ele tivesse utilizado todas as pessoas, não-arianas, que ele aprisionou e liquidou; mas tal iniciativa teria sido uma violação de suas políticas e doutrinas.+++


Notas:

*Sobre os boatos a respeito do genocídio dos judeus durante a guerra, ver os artigos

Franklin Roosevelt e os Judeus


A Liderança Imoral de Roosevelt


O Holocausto na Vida Americana


A Primeira vez que Hollywood expôs o Holocausto  


** Neste ponto, o livro ou o autor da resenha deixam de lado o aspecto revisionista e adotam o relato oficial da história da Segunda Guerra Mundial, apresentando Roosevelt como um homem pacifista e cheio de boas intenções e retratando Hitler como o megalomaníaco que construiu seu regime e império sozinho.Nos últimos anos, vários livros têm demolido essa versão dos fatos. Ver os artigos

A Conspiração do Império


Memorandos mostram que EUA encobriram crime Soviético


*** É interessante notar que o analista político norte-americano Patrick Buchanan tenha ressaltado essa decadência do poder político americano em termos étnicos também, embora sem apelar para um discurso racista e segregacionista. Para Buchanan, a decadência da América está intimamente relacionada ao fim da América branca, já que o povo fundador da América republicana era branco e cristão. A chegada de uma leva de imigrantes de países de Terceiro Mundo (africanos, asiáticos, latinos, indianos e árabes) após a Segunda Guerra Mundial e a redução da taxa de natalidade entre os brancos está resultando numa transformação da sociedade americana. O resultado disso é o aumento da presença do Estado na vida americana, em virtude da baixa qualificação e de aspectos culturais desses imigrantes (que geralmente vêm de sociedades paternalistas e assistencialistas), e o fim dos fundamentos cristãos da República. Buchanan foi crucificado por suas idéias sendo atacado por vários setores da sociedade, inclusive a ADL (Liga Anti-Difamação) ligada à comunidade judaica. Coincidência ou não, o fato é que as crises econômicas sucessivas, o intervencionismo militar desastrado e as trapalhadas políticas entre os poderes executivo e legislativo na administração Obama (dificuldades para aprovar o Orçamento) são sintomas da decadência dos EUA. 

+ Na verdade, não havia nada de errado com a idéia de Hitler em interromper o avanço sobre Dunquerque. Os equipamentos precisavam de manutenção e as linhas de abastecimento haviam se alongado muito. Hitler temia que um avanço muito grande, sem interrupção, pudesse resultar num contra-ataque das forças aliadas às forças alemãs esgotadas. Oficialmente, é nos dito que Hitler interrompeu o avanço para demonstrar boa vontade junto à Inglaterra e conseguir um acordo de paz, mas isso parece ser implausível.

++ Hitler dispensava a opinião de muitos de seus generais porque os considerava muito cautelosos. Os sucessos militares na frente ocidental podem ser quase exclusivamente atribuídos a Hitler, já que ele pensou na Blitzkrieg e no uso de tropas aerotransportadas. Na frente oriental, Hitler era movido pelo tempo, ele tinha plena consciência de que uma campanha longa seria morte certa para a Alemanha, por isso jamais aceitou campanhas de retirada. Com o cenário de rendição incondicional imposto por Roosevelt qualquer tentativa de cautela na frente de batalha seria impossível de realizar, era tudo ou nada.

+++ Novamente, o autor comete erros utilizando o relato oficial da Segunda Guerra. Ver os artigos

Os Soldados Não-Arianos de Hitler


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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A campanha frustrada de Napoleão em direção à Rússia

Fabio Marton, 21/11/2012

 
Era um belo dia de sol quando os soldados da França cruzaram o rio Neman, na atual fronteira da Polônia com a Lituânia, aos gritos de "Vive l'Empereur!", na confiança de serem o maior e mais temido exército que o mundo havia visto. Estavam ali para dar uma surra, não para guerrear - o inimigo só tinha um terço de suas forças e estava dividido. E, o mais importante, não tinha Napoleão como líder. Eram 690 mil soldados de várias nacionalidades, dos quais só 300 mil eram franceses. Os demais eram poloneses, austríacos, italianos, prussianos e até 2 mil portugueses, recrutados entre simpatizantes do imperador. Como era comum na época, seguia com eles um cortejo de comerciantes, prostitutas, médicos e até esposas e filhos dos militares. Nem soldados, nem civis, nem Napoleão poderiam imaginar àquela hora, mas apenas um em cada sete deles voltaria vivo daquela campanha.

A Rússia não é para principiantes e isso não era segredo para Napoleão e seus soldados. Pouco mais de um século antes, em 1709, o rei Carlos 12, da Suécia, havia perdido seu exército na Rússia de frio e fome. Por isso, o exército francês invadiu a Rússia no auge do verão, em 24 de junho de 1812. E o verão foi seu primeiro inimigo. As temperaturas frequentemente superam os 30 ºC, enquanto as noites duram apenas 3 horas - foi "aproveitando" esse sol todo que Napoleão fez seus soldados marcharem 112 km nos dois primeiros dias da campanha. A essa velocidade, as carroças de suprimento ficaram para trás. Desidratada pela caminhada e sem alimentos e água, a tropa viu-se forçada a beber dos riachos pantanosos da região, pegando diarreia. As primeiras vítimas tombaram ao lado das fontes de água - e os soldados que vinham atrás também ficaram doentes.

A pressa era justificada pela estratégia. "Napoleão não foi à Rússia para conquistar", diz o historiador César Machado Domingues, editor da Revista Brasileira de História Militar. Ele queria simplesmente aniquilar o exército russo e conseguir uma aliança forçada com o czar Alexandre 1º. O primeiro alvo era a cidade de Vilna, atual capital da Lituânia, onde estava o comando das tropas russas, inclusive o czar. Napoleão entrou na cidade em 28 de junho, mas o comando russo havia se mudado. Não só isso. Também haviam esvaziado armazéns e paióis de pólvora e queimado plantações nos arredores.

Os franceses esperavam fazer o mesmo que em suas guerras anteriores: tomar alimentos das cidades e fazendas pelo caminho. O que sobrava da destruição russa só era aproveitado pelos soldados da frente da coluna - quem vinha atrás passava fome. Um comércio clandestino e gangues de ladrões passaram a agir. Os cavalos, que morriam às centenas, se tornaram o prato principal.

A campanha prosseguiu assim - os russos regredindo e queimando tudo, os franceses sangrando lentamente de doenças, fome, sede, ataques de guerrilha e deserção massiva. "No caminho para Moscou, ainda no verão, os franceses perdiam em média 6 mil soldados por dia", escreveu o médico e historiador Achilles Rose (1839-1916) em seu livro A Campanha de Napoleão na Rússia, Anno 1812.


Após mais uma conquista estéril na cidade de Smolensk, em 18 de agosto, Napoleão decidiu rumar para Moscou. Mas isso os russos não aceitariam e, enfim, Napoleão teve sua batalha. A mais sangrenta de todas as guerras napoleônicas, a Batalha de Borodino, em 7 de setembro - dos 250 mil participantes, 80 mil morreram. Os russos recuaram mais uma vez, mas não foram aniquilados. Em 14 de setembro, Moscou pertencia a Napoleão. "Napoleão deve ter imaginado que havia vencido", diz César Domingues. Ele sentou-se no trono do Kremlin e esperou a rendição do czar. No mesmo dia, começou um incêndio, que os russos jamais admitiram ter causado, que destruiu 75% da cidade em 4 dias.

O tempo ia esfriando, o Exército russo, se recompondo, e o czar não ofereceu paz. Em 18 de outubro, quando os franceses iniciaram a retirada, a temperatura estava por volta de 0 ºC. O plano era voltar pelo sul, mas os russos cortaram o caminho e os militares se viram forçados a voltar por onde vieram, começando pelo campo de Borodino, crivado de homens e cavalos em decomposição da batalha de um mês e meio antes.

Se algo havia sobrado da destruição causada pelos russos, já havia sido consumido pelos franceses na ida. Diante de um frio que chegaria a -40 ºC, ninguém tinha roupas de frio, exceto as roubadas de Moscou - inclusive chapéus, sapatos, mantos e echarpes femininas. Os cavalos não tinham ferraduras adaptadas ao gelo, como as dos russos - escorregavam e quebravam as patas ou simplesmente não conseguiam puxar as cargas.

A tropa se converteu em um bando de desesperados. Cavalos passaram a ser atacados e a carne era comida crua. Em seu livro de memórias, o sargento Adrien Bourgogne relata que um carro-ambulância teve seus cavalos devorados à noite pela tropa. De manhã, os feridos foram largados no caminho. Os soldados também tiravam nacos de carne de animais ainda vivos - amortecidos pelo frio, eles não reagiam. Bourgogne conta que um bando de soldados havia se fechado em um celeiro para evitar o frio. Eles se acumularam na porta para evitar que mais gente entupisse o lugar. Durante a noite, o celeiro pegou fogo. Quando o incêndio acabou, alguns soldados tomaram coragem de avançar para os corpos dos colegas, providencialmente "assados". O soldado alemão Jakob Walters (1788-1864) escreveu que viu um soldado que se aliviava de diarreia à beira da estrada ter suas calças roubadas - a vítima morreu de frio horas depois.

Os franceses fugiam em desespero, mas os russos não haviam se esquecido deles. Em 26 de novembro, as tropas napoleônicas tiveram de atravessar o rio Berezina (na atual Bielorrússia). Os russos descobriram sua posição e atacaram no dia 29, com 60 mil homens, contra 40 mil soldados divididos entre as duas margens. Os franceses conseguiram escapar com seu imperador, destruindo as pontes improvisadas que haviam feito - mas ainda havia muitos deles do outro lado. Entre 25 mil e 45 mil civis e militares morreram ali - 10 mil deles empurrados pelos cossacos para dentro do rio congelado.

Em 14 de dezembro, o esfarrapado exército de Napoleão chegou à Polônia. Sua tropa principal tinha 22 mil soldados, dos 690 mil que entraram na Rússia. O total de sobreviventes é cerca de 100 mil, contando as outras colunas do exército. Pessoas, armas e cavalos podiam ser substituídos, mas o dano irrecuperável foi à reputação de invencível de Napoleão, que acabou deposto e exilado na ilha de Elba (Itália) em 1814.

Não foi apenas Napoleão que não aprendeu com seus antecessores. Em 22 de junho de 1941, Hitler invadiu a União Soviética, também esperando uma campanha fulminante que acabasse antes do inverno. Os nazistas estavam às portas de Moscou em dezembro, mas então veio o inverno, matando 150 mil alemães em poucos dias. Em homenagem aos serviços prestados, os russos deram uma promoção a seu inverno. Lá ele é conhecido como General Moroz - o temido General Inverno.

Bárbaros pelo czar

Os cossacos não costumam entrar na conta do efetivo do Exército russo, mas como adicionais (costuma-se afirmar algo como "100 mil soldados e 20 mil cossacos"). Na verdade, eles nem são exatamente russos. Cossacos são sociedades independentes, democráticas e militaristas, originalmente de povos eslavos, que depois passaram a aceitar aventureiros de qualquer país - particularmente quem falasse línguas, soubesse fazer contas ou simplesmente fosse alfabetizado, talentos raros entre os nascidos entre eles. Os cossacos não eram súditos, mas aliados do czar - e se voltaram contra os russos em algumas ocasiões, como a Revolta de Pugachev, de 1774. Suas tropas tinham sua própria hierarquia e generais. Mas elas eram um tanto indisciplinadas, por isso os russos preferiam usá-los como forma de bagunçar e aterrorizar as linhas inimigas, e não como força de choque ou cavalaria regular. Os cossacos foram integrados à sociedade soviética à força por Josef Stalin, na década de 30, mas os descendentes ainda se orgulham do passado independente e aventureiro.
 
http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/saiba-mais-campanha-frustrada-napoleao-direcao-russia-721625.shtml

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

[ARM] Brasil é o quarto maior exportador de armas leves

Terra, 01 de Outubro de 2013


Os mais de US$ 330 milhões (R$ 735 milhões) que, em 2011, entraram no Brasil graças à exportação de armas leves e munições colocam o país em quarto na lista de maiores exportadores no setor. A sua frente, estão apenas Estados Unidos, Itália e Alemanha, aponta o Mapping Arms Data (MAD), projeto realizado em parceria entre o Instituto Igarapé e o Peace Research Institute Oslo (PRIO). Segundo o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), somente neste ano, o Brasil já exportou mais de US$ 226 milhões em armas e munições. Um relatório de 2010 do Small Arms Survey - o mais recente da instituição - também coloca os brasileiros em quarto no ranking.

O crescimento do país nesse setor é significativo nos últimos anos. Em 2003, era exportado menos da metade do que é hoje: US$ 131 milhões. Desde então, o índice cresceu até atingir o pico de US$ 407,5 milhões em 2009. Nos dois anos seguintes, o MAD apontou uma queda. A produção de armas leves (como são classificadas as portáteis) disparou nos últimos anos. De 2005 a 2010, as indústrias venderam 8.822.720 milhões de unidades, em sua maioria revólveres, pistolas, escopetas e munições. Metade delas foi exportada, segundo levantamento do Exército.

Destinos

Os principais destinos dos armamentos são os Estados Unidos (US$ 148.680.000) e a Europa Ocidental, afirma Robert Muggah, diretor de Pesquisa do Instituto Igarapé. Ainda assim, o sudeste asiático e lugares mais pobres, como Colômbia, Iraque, Paquistão e Zimbábue - país entre os 20 piores Índices de Desenvolvimento Humano - são mercados importantes para a indústria armamentista brasileira. Somente a Taurus, maior empresa do Brasil no ramo, exporta para 70 diferentes países.

O Mapping Arms Data leva em consideração 37 fontes de pesquisa, tendo como base dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e analisando apenas os números relativos a armas leves. Se comparados esses dados aos fornecidos pelo MDIC, há uma certa discrepância, devida, segundo Muggah, à forma como são categorizadas as armas. Em 2011, o Ministério registrou a venda de 785.901 unidades, movimentando US$ 293 milhões, 12% a menos que o levantado pelo MAD. O MDIC apontou ainda US$ 315 milhões em exportação no ano passado. Desde 1997, o país já lucrou quase US$ 3 bilhões de dólares (R$ 6,7 bilhões), com a venda de armas.

Muggah chama a atenção ainda para o grande número de armas em circulação dentro do Brasil, que vai de 16 a 17 milhões (sendo 6 milhões registradas), uma média de uma arma para cada 11 ou 12 pessoas. Para o pesquisador, há um excedente militar de pelo menos 800 mil armas.

Mercado mundial

De acordo com o MAD, os Estados Unidos foram quem mais exportaram armas em 2011: US$ 807,5 milhões (R$ 1,8 bilhão). Na sequência, vêm Itália (US$ 463,6 milhões, ou R$ 1 bilhão) e Alemanha (US$ 313,6 milhões, ou R$ 698,6 milhões). Já o Small Arms Survey coloca a Itália pouco atrás da Alemanha no relatório de 2010.

As dificuldades no registro e controle de armas ficam evidentes nas diferenças entre os valores encontrados pelas diferentes pesquisas. O Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), por exemplo, apontou os Estados Unidos como responsáveis por 30% das exportações, seguidos de Rússia (26%), Alemanha (7%), França (6%) e China (5%), indicando um crescimento da corrida armamentícia asiática. A mesma pesquisa apresenta a Índia como maior importadora (12%), seguida de China, Paquistão, Coreia do Sul e Singapura.

http://economia.terra.com.br/operacoes-cambiais/operacoes-empresariais/brasil-e-o-quarto-maior-exportador-de-armas-leves,7899f3d0f5071410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html