segunda-feira, 14 de outubro de 2013

[POL] Hitler e as mulheres

As Mulheres no Terceiro Reich



As mulheres tiveram um papel central no plano de Adolf Hitler em criar uma Comunidade Alemã (Volksgemeinschaft) ideal. Hitler acreditava que uma população maior e mais racialmente pura fortaleceria a força militar da Alemanha e daria colonos em número suficiente para serem assentados nos territórios conquistados da Europa oriental. A agressiva política do Terceiro Reich em relação à população encorajou mulheres “racialmente puras” a parir tantas crianças “arianas” quanto fosse possível.

Antes de 1931, muitas organizações femininas apoiaram o nacionalismo, algumas abertamente defendendo o NSDAP (Partido Nazista) de Hitler. O Movimento Nacionalista Newland de Guida Diehl recrutava mulheres bem educadas da comunidade protestante e escreveu em suas memórias suas primeiras impressões sobre Hitler em meados dos anos 1920: “Sério, afetuoso e natural – ele corre atrás de seus objetivos. Ele não trouxe nada de novo. Apenas um resumo do melhor de nossa tradição nacional. Ele ofereceu uma organização dinâmica onde outros confiavam em política partidária sem inspiração.”

As mulheres católicas eram mais cautelosas, mas há muito tempo já haviam endossado visões social e politicamente conservadoras, e começaram a clamar por uma “democracia autoritária”.

Em 1931, muitas organizações femininas nacionais e nacional socialistas juntaram-se sob a NS Frauenschaft, que mais tarde foi declarada a organização oficial para mulheres no Terceiro Reich. Gertrud Scholtz-Klink liderou este grupo de 1934 até 1945. Ela começou pela organização das mulheres em Baden, um pequeno estado liberal e católico no sudoeste da Alemanha, após ficar viúva em 1928 com seis crianças para cuidar. Como líder das mulheres do Reich (Reichsfrauenfuhrerin), ela regularmente tinha que encarar encontros com o Führer e compartilhar o palanque com ele durante as principais reuniões das mulheres.

Apesar de sofrer grande miséria após a Guerra, inclusive prisão, Scholtz-Klink desapontou e enfureceu um mundo que esperava que ela mostrasse arrependimento por seu passado nazista. Após entrevistar ela em 1987, a autora feminista Claudia Koonz escreveu, “... ela não é uma ex-nazista. Sem um traço de ironia, ela lembrou que ‘se você pudesse ter visto as mulheres de Berlim defendendo sua cidade com suas vidas contra os russos, então você acreditaria o quão profundo as mulheres alemãs amavam nosso Führer.’”

Em 1932, reconhecendo o gênio cinematográfico de Leni Riefenstahl, Hitler marcou um encontro e lhe disse que quando ele assumisse o governo, “você deve fazer os meus filmes.” Após ela completar o documentário Vitória da Fé, ele prometeu-lhe recursos ilimitados e completo controle artístico para o filme da Reunião do Partido em Nuremberg em 1934. O resultado, o famoso O Triunfo da Vontade, ganhou aclamação internacional, incluindo o Prêmio Cinematográfico de Paris de 1937.

Em 1932, cerca de 50% dos votos nos nazistas vieram das mulheres.

Por outro lado, a União das Mulheres Nacional Socialistas e a Agência das Mulheres Alemãs usaram a propaganda nazista para encorajar as mulheres em focar em seus papeis como esposas e mães. Além de aumentar a população, o regime também buscava melhorar sua “pureza racial” através do “melhoramento da espécie”, notavelmente promulgando leis proibindo o casamento entre arianos e não-arianos, e simultaneamente prevenindo que deficientes e portadores de certas doenças pudessem se casar.

Em 1936, os líderes da SS criaram o programa governamental conhecido como Lebensborn (Fonte da Vida)*. Como uma extensão da Ordem de Casamento da SS de 1932, o decreto do Lebensborn de 1936 prescrevia que todo membro da SS deveria gerar quatro filhos, dentro ou fora do casamento. Os lares Lebensborn abrigavam bebês ilegítimos e suas mães, fornecia certidões de nascimento e apoio financeiro, recrutando pais adotivos para as crianças.
No final, contudo, o programa Lebensborn nunca foi promovido agressivamente. Ao invés disso, a política populacional nazista concentrou na família e no casamento. O Estado encorajava o matrimônio através de empréstimos para casamento, dispensava suplementos de renda familiar para cada nova criança, publicamente honrava famílias “ricas em crianças”, agraciava com a Cruz da Honra da Mãe Alemã as mulheres que tivessem quatro ou mais filhos e aumentava as punições para aquelas que cometessem aborto.

Durante a guerra, a necessidade por mão de obra fez com que o Estado arregimentasse mulheres para a força de trabalho (por exemplo, através do Ano do Dever, o plano de serviço compulsório para todas as mulheres). Em 1939, havia excepcionalmente uma alta porcentagem de mulheres trabalhando em comparação com outros países ocidentais: mais de 14 milhões estavam empregadas e quando a escassez de mão de obra apareceu no final da guerra, provou-se difícil levar as mulheres idosas ou mães de muitas crianças para as fábricas. Quando os bombardeios começaram, milhões de mulheres tiveram que abandonar as metrópoles em direção das pequenas cidades e vilarejos, onde elas tomavam conta de escolas locais e faziam trabalhos assistenciais. Em 1945, mais de 50% da força de trabalho nativa era feminina, um nível somente excedido pela União Soviética. Mesmo nas forças armadas, o número de mulheres em funções auxiliares se aproximava de 500.000. Portanto, a afirmação de que as mulheres sob o Terceiro Reich foram excluídas do mercado de trabalho é mito.

As Mulheres que Hitler amou

A primeira mulher na vida de Hitler foi sua mãe Klara. Como seu primogênito, ela direcionou seu amor para ele, mas logo um irmão mais novo, seguido de uma irmã, exigiram também sua atenção. Adolf cresceu segundo um caminho independente e aventureiro, interessado vivamente no mundo ao seu redor. Ele entrou em choque com seu pai por causa de sua escolha de carreira, mas não com sua mãe que permitiu-lhe seguir seu próprio caminho.

Foi a doença da mãe e a morte subsequente por câncer com 46 anos de idade que, somente dois anos após a morte de seu pai, podemos vislumbrar as fortes emoções de Hitler. De acordo com o médico da família, o jovem Adolf, então com 15 anos, deixou a escola em Viena e voltou para casa para acompanhar o estado de saúde dela, aplicando ele mesmo os dolorosos e caros tratamentos, e mesmo ajudando na manutenção da casa. Quando, um pouco antes do Natal, ela morreu, o médico relatou que nunca tinha visto alguém se abater tanto como Adolf Hitler com a perda de sua mãe**.

Foi em 1906 que Hitler ficou obsecado por Stefanie Jansten. Seu interesse pela filha de um funcionário público duraria muitos anos. Com 16 anos, ele decidiu casar-se com ela, escrevendo poemas românticos e mesmo enviando-lhe uma carta detalhando seu casamento iminente. Mesmo assim, os versos de amor permaneceram não lidos e a carta foi postada sem assinatura. Furioso por saber que ela havia dançado com outro rapaz em um baile, ele ameaçou jogar-se no Rio Danúbio. “Você deve saber. Estou apaixonado por ela,” confidenciou para um amigo aquele dia. Mesmo durante a Segunda Guerra, em seu quartel-general Toca do Lobo na Prússia oriental, ele falaria com carinho de seu “primeiro amor”. De Stefanie, ele disse que entre tais “seres humanos excepcionais” não havia necessidade da usual forma de comunicação falada.

Contudo, Hitler teve somente dois relacionamentos sérios na vida, ambos terminando com o suicídio de suas parceiras: sua meia-sobrinha Geli Raubal, que matou-se para não ter que viver um relacionamento marcado pelo ciúmes doentio, e Eva Braun, que envenenou-se no bunker em Berlim ao invés de viver sua vida sem Hitler.

 Geli Raubal e Eva Braun

Angela Maria Raubal nasceu em Linz na Áustria em 4 de junho de 1908, onde ela cresceu com seu irmão Leo e a irmã Elfriede. Seu pai faleceu aos 31 anos, quando Geli tinha apenas dois anos de idade.

Parece que ela só conheceu Hitler aos dezesseis anos, quando ele estava preso na prisão de Landsberg, escrevendo Minha Luta que mais tarde o deixaria muito rico. Geli costumava chamá-lo de “Tio Alf”. Em 1927, os dois iniciaram um relacionamento e Hitler começou a tornar-se gradativamente obcecado.
Herrmann Göring mais tarde diria aos advogados nos julgamentos de Nuremberg que a morte de Raubal devastou Hitler de tal forma que ele mudou suas opiniões e relacionamentos com todas as pessoas***.

Após a Primeira Guerra Mundial, seu primo, William Patrick Hitler, assim descreveu Geli quando a encontrou em Obersalzberg.

Geli parecia mais com uma criança do que com uma moça. Você não podia dizer que ela era bonita exatamente, mas ela tinha um encanto natural. Ela geralmente não usava chapéu e vestia roupas simples, saias amassadas e blusas brancas. Sem jóias, exceto uma suástica dourada dada a ela pelo tio Adolf, que ela chamava de tio Alf.

À medida que Hitler ascendeu como líder do Partido Nazista, ele manteve um controle direto sobre Geli, a qual dividia o tempo entre o apartamento em Munique e a casa de campo em Berghof próxima de Berchtesgaden, onde sua mãe trabalhou como governanta após 1929. Ele não permitia amizades sem seu consentimento e tentou colocar pessoas confiáveis para vigiá-la, acompanhando-a nas compras, no cinema e na ópera. Havia boatos, inclusive, de que ele a mantinha fechada em casa durante o dia, quando não podia vigiá-la. Apesar dos esforços em controlar a garota – e talvez por esse motivo – Geli não retribuiu os sentimentos e tornou-se ligada a Emil Maurice, um dos fundadores da SS e chofer de Hitler. Hitler acabou demitindo-o, porém mais tarde o recontratou e o promoveu. Maurice mais tarde afirmou que Hitler “... a amava, mas era uma afeição estranha que não transparecia.” Se qualquer ressentimento apareceu em Hitler, ele não durou, já que os dois mais tarde se reconciliaram, após Maurice ser enviado durante a Noite das Longas Facas para assassinar Bernhand Stempfle, um ex-padre e ex-prisioneiro de Landsberg, que alguns dizem ter sido um dos editores do livro Minha Luta e conhecedor de detalhes do relacionamento entre Hitler e Geli.

No início dos anos 1930, Hitler estava financeiramente bem, de modo que ele alugou um apartamento em uma região valorizada de Munique, o número 16 da Prinzregentplatz. Este imóvel continha de 9 a 15 cômodos, dependendo dos relatos diferentes registrados de seu espaço. Curiosamente, Hitler mais tarde compraria o bloco inteiro de apartamentos com os direitos do Minha Luta e doações generosas a seu partido.

Em 19 de setembro de 1931, Geli cometeu suicídio com uma pistola, da própria coleção de Hitler. Ela só tinha 23 anos na época. Desde então boatos circularam de que sua morte foi encomendada, já que seu relacionamento com Hitler representaria supostamente um problema. 

Um homem com o qual ela se confidenciou foi Otto Strasser (1897 – 1974), uma figura importante no partido na época. “Você nunca acreditará nas coisas que ele me obriga a fazer,” teria dito ela a Strasser. Isto foi o que Strasser contou a amigos, mas todos sabiam da raiva que os irmãos Strasser sentiam por Hitler+. Otto começou a ser isolado dentro do partido e queria de todas as maneiras manchar a reputação de Hitler nas eleições vindouras.

Por outro lado, mesmo antes da morte de Geli, Hitler envolveu-se com Eva Braun, a mais famosa de suas mulheres. Hitler e Braun tornaram-se amantes em 1932. Ela ficou com ele por 13 anos, até a morte.

Eva Paula Braun nasceu em Munique em 6 de fevereiro de 1912 em uma família católica tradicional. Eva era a segunda filha do professor de escola secundária Friedrich "Fritz" Braun, um protestante não praticante, e Franziska "Fanny" Kronberger, que pertencia a uma respeitada família católica bávara. Sua irmã mais velha, Ilse, nasceu em 1909 e sua irmã mais nova, Margarete, nasceu em 1915. Eva foi educada em um liceu, então por um ano em uma escola de negócios em um convento, onde foi uma aluna regular e com bom desempenho em atletismo. Ela trabalhou por muitos meses como recepcionista num consultório médico e, então, com 17 anos, conseguiu um emprego como assistente de laboratório e modelo para Heinrich Hoffmann, fotógrafo oficial do Partido Nazista. Ela se encontrou com Hitler, 23 anos mais velho, no estúdio de Hoffmann em Munique em outubro de 1929. Ele foi apresentado a ela como “Sr. Wolf” (um apelido que ele usou nos anos 1920 por motivos de segurança). Ela o descreveu para os amigos como “um cavalheiro de certa idade, com um bigode engraçado, um casaco tipo inglês descolorido e carregando um grande chapéu de feltro.” Ele gostou da cor dos olhos dela, que lembravam os de sua mãe. A família de Eva se opôs ao relacionamento e pouco se sabe sobre ele nos dois primeiros anos.

Eva Braun tentou o primeiro suicídio em 1 de novembro de 1932, com a idade de 20 anos, atirando contr si no peito com a pistola de seu pai. Ela tentou suicídio mais uma vez em 28 de maio de 1935, tomando uma overdose de Fanodorm (comprimidos para sono). Após a recuperação de Braun, Hitler tornou-se mais comprometido com ela e conseguiu comprar com os direitos das várias fotografias dele feitas pelo estúdio de Hoffmann uma casa em Munique. Esta renda também garantiu a ela um carro, um motorista e uma empregada.  

Eva sabia que Hitler jamais se casaria, já que o objetivo dele era apenas a Alemanha. Ela passava o dia fazendo exercícios, lendo livros e escrevendo em seu diário, onde ela reclamava da infelicidade por Hitler dispensar pouco tempo a ela.

Mas, de acordo com o criado de Hitler, Heinz Linge, “ele telefonava para ela a cada dois dias. Se seus auxiliares ou (Martin) Bormann viajassem até Munique, ele lhes dava cartas para Eva.” Hitler apresentava Eva a seu círculo íntimo com palavras amáveis. Traudl Junge, a secretária de Hitler de longo tempo, lembrou que ele segurava sua mão, chamando-a de Mein Patscherl.

Uma carta de Hitler para Eva após a tentativa de assassinato de 1944, revela a ligação afetiva que se desenvolveu entre os dois:

Mein Liebes Tschapperl, Não se preocupe comigo. Estou bem, apenas um pouco cansado. Espero ir para casa logo e então descansar em seus braços. Há muito tempo preciso de um descanso, mas meu dever com o povo alemão vem em primeiro lugar acima de tudo. Não se esqueça de que os perigos que encontrei não se comparam àqueles que os soldados enfrentam na linha de frente. Obrigado pela prova de sua afeição e peço-lhe que agradeça ao seu querido pai e à sua graciosa mãe pelos cumprimentos e desejos de boa recuperação. Estou muito orgulhoso da honra – por favor, lhes diga isso – de ter o amor de uma mulher que vem de uma tal família distinta. Estou lhe enviando o uniforme que estava vestindo naquele dia infeliz. É a prova de que a Providência me protegeu e não tenho mais o que temer de nossos inimigos. De todo meu coração. Seu A.H.

A resposta de Eva:

Geliebter, estou for a de mim. Estou morrendo de ansiedade agora que sei que você corre perigo. Volte o mais rápido que puder. Sinto como se fosse ficar louca. O tempo está bonito aqui e tudo parece tão calmo que fico envergonhada disso. Você sabe que sempre lhe disse que morreria se algo te acontecesse. Desde o nosso primeiro encontro, te disse que te seguirei onde quer que você for, mesmo na morte. Você sabe que vivo apenas pelo seu amor. Sua, Eva.

Quando Hitler tornou-se Chanceler da Alemanha, Braun sentava-se na área VIP como secretária, fato que transtornava sua meia-irmã Ângela (mãe de Geli), junto com as esposas de outros ministros. Consequentemente, Ângela ficou proibida de viver próxima de Eva. Em 1936, Braun se mudou para Berghof, mesmo que Hitler passasse pouco tempo lá. Em 1938, Hitler nomeou Eva como sua principal herdeira, recendo uma pensão de 600 libras britânicas na época após sua morte (considerando a inflação desde então, hoje seriam 28.000 libras, ou quase R$ 100.000). Mesmo assim, a influência política de Braun sobre Hitler foi aparentemente mínima. Ela não participava de reuniões políticas ou econômicas. A única vez que ela envolveu-se com uma questão política foi em 1943, logo após a Alemanha adotar a economia de guerra total. Entre outras coisas, isto significava o banimento de cosméticos e outros luxos (que também ocorreu nos países aliados). Hitler é conhecido por ter se oposto ao uso de cosméticos femininos pelo fato deles serem produzidos a partir de material animal (ele era vegetariano) e algumas vezes mencionava isso nas refeições. De acordo com Albert Speer, Braun encontrou-se com Hitler imediatamente indignada com essas medidas, de modo que Hitler pediu a Speer reduzisse a produção de cosméticos ao invés da total interrupção de produção.

Linge escreveu em suas memórias  que Hitler e Eva tinham dois quartos e dois banheiros com portas interconectadas em Berghof e Hitler encerrava a maior parte de suas noites sozinho com ela em seu escritório antes deles irem para a cama. Ela vestiria uma camisola, bebendo vinho enquanto Hitler degustava chá.

Em 15 de abril de 1945, ela voou de Munique para Berlim. Hitler ordenou que ela retornasse a Munique, mas ela se recusou dizendo: “Você acha que eu vou te deixar morrer sozinho?” Nas primeiras horas de 29 de abril, Hitler e Eva se casaram. No mesmo dia, de acordo com Traudl Junge, quando Hitler mandou redigir seu Último Desejo e seu Testamento Político, ele desculpou-se pelos aborrecimentos a ela e pediu “com sua gentileza usual” que todas as necessidades de Eva fossem cumpridas.

Em seu Desejo, Hitler chama Eva de sua esposa três vezes, encerrando com “Eu e minha esposa... escolhemos a morte.”

Hitler e Braun nunca apareceram juntos em público e existe a indicação de que os dois não se casaram no início do relacionamento porque Hitler tinha medo de perder o apoio do eleitorado feminino. O povo alemão nunca soube da relação de Eva com Hitler até após a guerra.

Notas:

* A Trágica História das Crianças do Lebensborn


** O Judeu Favorito de Hitler        


*** Hitler foi o "chefe perfeito", diz ex-criada
 

+ Hitler era um pervertido sexual?


Fontes:





Desmascarando "O Segredo de Hitler"

Todos os Homens do Führer

Walter Reich

The New York Times, 16/12/2001


Lothar Machtan defende em O Segredo de Hitler que ele tem obteve evidência convincente de que Hitler era homossexual e que sua homossexualidade explica muito sobre quem Hitler era e por que ele fez o que fez. Machtan, de fato, tem tal prova? E se Hitler fosse de fato homossexual, isto forneceria a chave para a psicologia do homem ou para os modos no qual era revirou as fundações morais e humanas do século XX? As acusações da homossexualidade de Hitler, ativa ou latente, não são novas. Elas o perseguiram durante sua ascensão ao poder e após ele o ganhar. Elas fizeram parte de inúmeras biografias. E elas são a base de ocasionais imagens suas até hoje. Que Mel Brooks apresenta Hitler como um homossexual exagerado em “Os Produtores” – uma bicha idiota, histérica e revoltada, como o roteiro do musical o faz – não é mera coincidência.

O que Machtan acrescenta ao seu legado de afirmações e especulações é, ele diz, evidência histórica. Ele reconhece que algumas provas são apenas circunstanciais. Mas algumas, ele insiste, não são apenas concretas, mas também novas, pelo menos no modo que ele as desenvolve e defende sua credibilidade.

Machtan, que ensina história na Universidade de Bremen na Alemanha, sugere que Hitler provavelmente teve uma relação homoerótica com seu amigo August Kubizek, com quem ele viveu em Viena em 1908; que ele teve um caso sexual rude com um colega de farda durante a Primeira Guerra Mundial; que ele pode ter tido contatos homossexuais com jovens rapazes em Munique após a guerra; e que ele pode ter se envolvido em atividades homossexuais logo após chegar ao poder em 1933.

Além disso, Machtan argumenta que muito do que Hitler fez no poder foi influenciado não pelas razões que os historiadores geralmente costumam indicar, mas por causa de seu esforço em eliminar provas de sua homossexualidade. Assim, Machtan diz que em 1934 – quando Hitler ordenou o assassinato de, entre muitos outros, seu colega de longo tempo e chefe da organização paramilitar SA, Ernst Röhm, um declarado e bem conhecido homossexual – ele estava motivado principalmente pelo desejo de destruir evidência potencialmente perigosa de seu passado homossexual, e não para se livrar de alguma ameaça política ou militar. E a perseguição do regime nazista aos homossexuais era, diz Machtan, essencialmente causada pelo desejo de Hitler calar ou destruir pessoas de um mundo que ele já havia feito parte, alguns dos quais poderiam “revelar segredos desonrosos” sobre ele. Quanto aos envolvimentos de Hitler com várias mulheres – particularmente Eva Braun e sua meia-sobrinha Geli Raubal – Machtan argumenta que estas mulheres eram camuflagem para sua homossexualidade fundamental. A prova circunstancial da homossexualidade de Hitler que Machtan cita – e que ele constrói com considerável zelo – consiste em grande medida no meio homossexual presumido ou real que Hitler teria freqüentado em várias épocas de sua vida; os homossexuais ou possíveis homossexuais que estiveram associados a ele; e a variedade de fatos que poderiam ser explicados pela homossexualidade de Hitler, como o fato de seus superiores negarem promoção durante a Primeira Guerra Mundial.

A evidência concreta que Machtan apresenta é uma série de documentos que, ele afirma, tem sido injustificadamente ignorados ou dispensados. O principal documento desta categoria é o chamado Protocolo Mend, uma afirmação feita em 1939 por Hans Mend, um mensageiro militar que serviu com Hitler durante a Primeira Guerra Mundial. Mend testemunhou que durante a guerra ele tinha visto Hitler “dormindo á noite com Schmidt – Ernst Schmidt – seu amante.”

Machtan também cita textos deixados por Eugen Dollmann, o interprete de Hitler. Dollmann escreveu que ele ouviu de Otto Von Lossow, um general do Reichswehr em Munique após a Primeira Guerra Mundial, que havia um arquivo policial contendo testemunhos de rapazes em Munique que Hitler havia lhes pago para passar a noite com ele.

Mas a prova circunstancial que Machtan fornece é apenas isso – circunstancial. E a evidência concreta parece muito menos confiável do que ele poderia nos fazer crer. Hans Mend era um mentiroso habitual e chantagista e o general Lossow havia participado na repressão ao putsch de Hitler em 1923. Consequentemente, sua vida estava sendo ameaçada pelos simpatizantes de Hitler, e ele estava desesperado em convencê-los de que ele tinha prova incriminadora contra seu líder. 
Mas o maior problema com o livro de Machtan não é a confiabilidade de suas fontes, mas o seu modo de argumentação. Ele aceita qualquer coisa que se encaixe em sua tese e rejeita aquilo que não se encaixa. Sentimos, algumas vezes, que estamos lendo um relatório interno do FBI da época de J. Edgard Hoover ao invés de um trabalho sério de academicismo no qual o autor está pronto para ser guiado pelos fatos.

Para interpretar a prova do seu meio, Machtan emprega sugestão e insinuação. Ele faz perguntas retóricas planejadas para levar o leitor a respondê-las da maneira que apóie seu argumento, mesmo quando explicações alternativas são ao menos plausíveis. Ele introduz possibilidades que são então assumidas serem probabilidades e, então, certezas. Ao usar pontos de exclamação, ele destaca o que são provavelmente comentários inócuos de modo que eles parecem carregar conteúdo homoerótico. Em outras palavras, ele escreveu um livro tendencioso que é mais um depoimento para a promotoria do que um trabalho sério de história.

Machtan diz que ele quer entender “o Hitler de Auschwitz” e lamenta que saibamos tão pouco sobre o homem que produziu a maior profanação da história humana e da moralidade. Mas ele certamente não chega perto de explicar qualquer destruição de Hitler ao explorar sua sexualidade. Num certo sentido, isto pode na verdade servir para humanizar Hitler. Mas não serve para explicá-lo.  

Lothar Machtan (n. 1949) é um historiador alemão e professor na Universidade de Bremen, nascido em uma família judia em Gelsenkirchen.      

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Judeus são uma “raça”, revelam os genes

Jon Entine

Jewish Daily, 04/05/2012


Em seu novo livro, Legado: Uma história genética do Povo Judeu, Harry Ostrer, um geneticista médico e professor na Faculdade Albert Einstein de Medicina em Nova York, afirma que judeus são diferentes, e as diferenças não são apenas na espessura da pele. Os judeus exibem, ele escreve, uma assinatura genética específica. Considerando que os nazistas tentaram exterminar os judeus baseado em sua suposta distinção racial, tal conclusão pode ser um motivo para preocupação. Mas ele vê isso como central para a identidade judaica.

“Quem é um judeu?” tem sido uma questão fundamental para os judeus ao longo de sua história. Ela evoca um mosaico complexo de identidade complexa constituído de diferentes correntes de crenças religiosas, práticas culturais e conexões sanguineas com a antiga Palestina e o moderno Israel. Mas a questão, com seu determinismo genético, também tem um lado negro.

Os geneticistas estão há muito tempo conscientes de que certas doenças, do câncer do seio até o Tay-Sachs*, desproporcionalmente afetam os judeus. Ostrer, que também é diretor de exames genéticos e genômicos no Centro Médico Montefiore, vai mais longe mantendo que os judeus são um grupo homogêneo com todas as características científicas do que costumamos chamar de “raça”.

Por quase 3.000 anos de história do povo judeu, a noção do que veio a ser conhecido como “excepcionalismo judeu” foi muito controverso. Por causa de nossa história de casamentos intragrupo e isolamento cultural, imposto ou adotado, os judeus foram considerados pelos gentis (e geralmente referenciados para eles próprios) como uma “raça”. Estudiosos de Josephus até Disraeli orgulhosamente proclamavam pertencer “à tribo”.

Ostrer explica como este conceito assumiu significado especial no século XX, quando a genética emergiu como um empreendimento científico viável. A distinção judaica pode na verdade ser medida empiricamente. Em Legado, ele primeiro nos introduz a Maurice Fishberg, um imigrante judeu russo mudando-se para Nova York no fin de siècle. Fishberg abraçou fervorosamente a moda antropológica da época, medindo tamanhos de crânios para explicar por que os judeus pareciam ser atingidos por mais doenças do que outros grupos – o que ele chamou de “peculiaridades da patologia comparada dos judeus.” Acontece que Fishberg e seus frenólogos contemporâneos estavam errados: o formato do crânio fornece uma informação limitada sobre as diferenças humanas. Mas seu estudo foi conduzido em um século de pesquisa que ligava os judeus à genética.

Ostrer divide seu livro em seis capítulos representando os vários aspectos do judaísmo: Parecendo judeu, Fundadores, Genealogias, Tribos, Tratamentos e Identidade. Cada capítulo apresenta um cientista proeminente ou figura histórica que avançou dramaticamente nossa compreensão do judaísmo. Os resumos de biografia iluminam uma densa floresta de algumas pseudociências. A narrativa, que consiste de uma porção de história de qualidade duvidosa, é difícil algumas vezes. Mas para o especialista e qualquer um ligado no eterno debate sobre identidade judaica, este livro é indispensável.

Legado pode causar a seus leitores desconforto. Para alguns judeus, a noção de um povo geneticamente relacionado é um remanescente embaraçoso do Sionismo original que estava em voga no auge da obsessão ocidental com raça, no final do século XIX. Celebrar a ancestralidade sangüinea traz a discórdia, eles afirmam: os autores de “A Curva Bell” foram difamados 15 anos atrás por sugerir que os genes têm um papel importante nas diferenças de QI entre grupos raciais.

Além disso, sociólogos e antropologistas culturais, um número desproporcional dos quais é judeu, ridicularizam o termo “raça”, afirmando que não há diferenças significativas entre os grupos étnicos. Para os judeus, a palavra ainda carrega a associação histórica especialmente odiosa com o nazismo e com as Leis de Nuremberg. Eles argumentam que o judaísmo transformou-se de um culto tribal em uma religião mundial enriquecida por milhares de anos de tradições culturais.

O judaísmo é um povo ou uma religião? Ou ambos? A crença de que os judeus podem ser psicológica e fisicamente distintos permanece uma disputa controvertida na mentalidade gentil e judaica, e Ostrer coloca-se diretamente na linha de fogo. Sim, ele escreve, o termo “raça” carrega associações nefastas com inferioridade e classificação de pessoas. Qualquer coisa que marque os judeus como essencialmente diferente corre o risco de provocar anti- ou filo- semitismo. Mas isto não significa que podemos ignorar a realidade fatual do que ele chama de “a base biológica do judaísmo” e “genética judaica”. Mesmo percebendo que a distinção de judeus é “carregada de perigo”, devemos atacar a evidência dura das “diferenças humanas” se procuramos entender a nova era da genética.

Apesar de reconhecer o papel formador da cultura e do ambiente, Ostrer acredita que a identidade judaica tem múltiplas origens, incluindo o DNA. Ele oferece uma lista de evidências cientificamente convincentes, que servem de como um modelo de controle científico.

“Por um lado, o estudo da genética judia pode ser visto como um esforço elitista, promovendo uma certa visão genética de superioridade judaica,” escreve ele. “Por outro, ele pode fornecer alimento para o antissemitismo ao apoiar evidência de uma base genética para características indesejáveis que estão presentes entre alguns judeus. Estes assuntos desafiarão a visão liberal de que os humanos são criados iguais, mas com obrigações genéticas.”

Os judeus, ele nota, são um dos mais distintos grupos populacionais no mundo por causa de nossa história de endogamia (casamento dentro do próprio grupo social de um indivíduo). Judeus – os asquenaze em particular – são relativamente homogêneos apesar deles estarem espalhados por toda a Europa e ter imigrado desde então para o continente americano e de volta para Israel. A Inquisição dispersou a judiaria sefardista, levando a mais casos de casamento misturado e a um DNA menos distinto.

Ao atravessar esse campo minado da genética de diferenças humanas, Ostrer sustenta sua analise com volumes de dados genéticos, que são a grande força do livro, mas também sua fraqueza. Dois livros complementares sobre este assunto – o meu próprio Os Filhos de Abraão: Raça, Identidade e o DNA do Povo Escolhido e O Legado de Jacob: Uma Visão genética da História Judia pelo geneticista da Universidade de Duke, David Goldstein, que é bem citado tanto em Os Filhos de Abraão como em Legado – são mais narrativos, misturando história com genética e, conseqüentemente, são de leitura mais fácil.

O conceito de “povo judeu” permanece controverso. A Lei do Retorno, que estabelece o direito dos judeus de ir para Israel, é um tema central do Sionismo e um princípio legal fundador do Estado de Israel. O DNA que une firmemente os asquenaze, sefardista e mizrahi, três grupos judaicos proeminentes cultural e geograficamente, poderia ser usado para apoiar as exigências territoriais sionistas – exceto, como Ostrer nota, alguns dos mesmos marcadores que podem ser encontrados nos palestinos, nossos primos genéticos distantes. Os palestinos, compreensivelmente, querem seu próprio direito de retorno.

Este desacordo sobre o significado do DNA também coloca os tradicionalistas judeus contra uma corrente particular de judeus liberais seculares que se uniram aos árabes e muitos não-judeus para defender o fim de Israel como uma nação judia. Seu herói é Shlomo Sand, um historiador israelita austríaco que relançou esta controvérsia complexa com a publicação do livro A Invenção do Povo Judeu em 2008.

Sand desafia aqueles sionistas que afirmam que uma ligação ancestral com os palestinos antigos é história manipulada. Mas ele criou sua tese a partir do livro do escritor Arthur Koestler A Décima Terceira Tribo, de 1976, que fazia parte de uma tentativa dos judeus liberais no pós-guerra de reconfigurar os judeus não como um grupo biológico, mas como uma ideologia religiosa e identidade étnica.

A maioria da população judaica asquenaze, como Koestler, e agora Sand, escreve, não são filhos de Abraão, mas descendentes de europeus orientais pagãos e euroasiáticos, concentrados principalmente no antigo Reino de Kazaria, no que é hoje a Ucrânia e a Rússia Ocidental. A nobreza kazariana converteu-se durante o início da Idade Média, quando a judiaria européia estava se formando.

Apesar de eruditos terem desafiado a manipulação seletiva dos fatos de Koestler e agora de Sand – a conversão foi quase certamente limitada a uma pequena classe dominante e não a uma vasta população pagã – o registro histórico é suficientemente fragmentário para estimular determinados críticos de Israel, que transformaram os livros de Koestler e de Sand em sucessos editoriais estrondosos.

Felizmente, recriar história agora depende não somente de restos de cerâmica, manuscritos fragmentados e moedas desgastadas, mas de algo muito menos ambíguo: DNA. O livro de Ostrer é um impressionante contraponto à duvidosa metodolia histórica de Sand e seus admiradores. E, como co-fundador do HapMap judeu – o estudo de haplótipo**, ou blocos de marcadores genéticos, que são comuns aos judeus ao redor do mundo – ele é bem posicionado para escrever a resposta definitiva.

De acordo com a maioria dos geneticistas, Ostrer rejeita firmemente a rejeição pós-modernista politicamente correta do conceito de raça como ingênuo geneticamente, optando por uma perspectiva mais eclética.

Quando o genoma humano foi mapeado pela primeira vez uma década atrás, Francis Collins, então chefe do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano, disse: “Os americanos, independentemente de seu grupo étnico, são 99,9% idênticos geneticamente.” Acrescentou J. Craig Venter, que na época era cientista-chefe em uma empresa privada que ajudou a seqüenciar o genoma, Celera Genomics, “Raça não tem nenhuma base genética ou científica.” Estas declarações pareciam sugerir que “raça”, ou a noção de grupos genéticos distintos porém interconectados, não tem sentido.

Mas Collins e Veter publicaram respostas a seus comentários mal interpretados. Quase todo grupo minoritário enfrentou, em uma época ou outra, ser considerado racialmente inferior baseado em uma compreensão superficial de como os genes peculiares à sua população trabalham. A inclinação de políticos, educadores e mesmo alguns cientistas para desprezar nossa separação é certamente compreensível. Mas também é equivocada. O DNA garante que somos diferentes não somente como indivíduos, mas também como grupos.

Apesar das diferenças insignificantes (e os geneticistas agora acreditam que elas são significativamente maiores que 0,1%), elas são cruciais. Aquele 0,1% contém cerca de 3 milhões de pares nucleotídeos no genoma humano e estes determinam tais coisas como a cor da pele ou do cabelo e a suscetibilidade para certas doenças. Elas contêm o mapa de nossa arvore genealógica até os primeiros humanos modernos.

Tanto o projeto genoma humano quanto a pesquisa de doenças baseiam-se na premissa de encontrar diferenças distinguíveis entre indivíduos e frequentemente entre populações. Os cientistas cunharam o termo “raça” com toda sua bagagem normativa e adotaram termos mais neutros, como “população” e “região” que possuem quase o mesmo significado. Reduzida à sua essência, raça é igual a “região de origem ancestral”.

Ostrer tem dedicado sua carreira para investigar estas árvores genealógicas estendidas, que ajudam a explicar a base genética de desordens comuns e raras. Hoje, os judeus permanecem identificáveis em grande medida pelas cerca de 40 doenças que eles carregam desproporcionalmente, a consequência inevitável do acasalamento interno. Ele rastreia a história fascinante de numerosas “doenças judaicas”, tais como a Tay-Sachs, Gaucher, Niemann-Pick, Mucolipidiose IV, assim como o câncer do seio e do ovário. De fato, 10 anos atrás, eu fui diagnosticada com três mutações genéticas de câncer do seio e do ovário que marcam minha família e eu como indelevelmente judeus, permitindo-me escrever “Filhos de Abraão”.

Como os asiáticos do extremo oriente, Amish***, islandeses, aborígenes, povo basco, tribos africanas e outros grupos, os judeus permaneceram isolados por séculos por causa da geografia, religião ou práticas culturais. Está marcado em nosso DNA. Como Ostrer explica em detalhes fascinantes, linhas de ancestralidade judaica conectam as comunidades judaicas da América do Norte e da Europa com os Iemenitas e outros judeus do Oriente Médio que foram relocados para Israel, assim como com os negros Lemba da África setentrional e com os judeus cochin da Índia. Mas, por outro lado, a ligação não inclui nem os Bene Israel+ nem os judeus etíopes. Testes genéticos mostram que ambos os grupos são convertidos, contradizendo seus mitos fundadores.  

Por que, então, os judeus não são tão diferentes naaparência, geralmente compartilhando traços das populações vizinhas? Pense nos judeus ruivos, judeus com olhos azuis ou os judeus negros da África. Como qualquer grupo – um termo genético que Ostrer usa no lugar do mais controverso “raça” – os judeus através da história se deslocaram e se infiltraram, apesar da mistura ocorrendo comparativamente com pouca frequência até as últimas décadas. Apesar disso, há variações genéticas identificáveis que são comuns entre os judeus, não somos uma raça “pura”. A máquina do tempo de nossos genes pode mostrar que a maioria dos judeus tem uma ancestralidade compartilhada que data dos antigos palestinos, mas, como toda a humanidade, os judeus são vira-latas.

Cerca de 80% dos machos judeus e 50% das fêmeas judias tem sua ancestralidade no Oriente Médio. O resto entrou no “caldeirão genético judeu” através da conversa ou casamento misto. Aqueles que casaram externamente frequentemente abandonam a fé em uma geração ou duas, com efeito podando a árvore genética judaica. Mas muitos convertidos tornam-se entrelaçados com a linha genealógica judaica. Reflita sobre a convertida icônica, a bíblica Ruth, que casou como Boaz e tornou-se avó do Rei David. Ela começou como uma forasteira, mas nãose pode imaginar algo mais judeu do que a linha hereditária do Rei David!

Para seu crédito, Ostrer também direciona seu terceiro tópico de discussão sobre o judaísmo e raça: a questão da inteligência. Os judeus são recém-chegados na era do pensamento livre. Enquanto o Iluminismo atravessou a Europa Cristã no século XVII, o Haskalá++ não se fortaleceu até o início do século XIX. No início do novo milênio, contudo, os judeus eram considerados como um dos povos mais inteligentes do mundo. Essa visão é mais proeminente na América, que tem a maior concentração de judeus fora de Israel e uma história de tolerância.

Apesar dos judeus serem menos que 3% da população, ele ganharam mais de 25% dos Prêmios Nobel concedidos aos cientistas americanos desde 1950+++. Os judeus também são 20% dos executivos-chefes deste país e fazem 22% dos estudantes da Liga Ivy. Psicólogos e educadores registraram seu QI médio entre 107,5 e 115, com seu QI verbal em mais de 120, um desvio padrão extraordinário acima da média de 100 encontrado naqueles de ancestralidade europeia. Gostem ou não, o debate do QI tornar-se-á uma agenda gradativamente importante no futuro, à medida que médicos geneticistas focam na revelação dos mistérios do cérebro.                           

Muitos judeus liberais mantêm, pelo menos em público, que a pletora de advogados, médicos e comediantes judeus é o produto de nossa herança cultural, mas a ciência conta uma estória mais complexa. O sucesso judeu é o produto de genes judeus tanto quanto das mamães judias. 

É “bom para os judeus” explorar tais assuntos controversos? Não podemos deixar de enfrentar as questões mais desafiadoras na era da genética. Por causa de nossa história de endogamia, os judeus são uma mina de ouro para os geneticistas estudando as diferenças humanas na busca da cura para as doenças. Por causa de nosso comprometimento cultural com a educação, os judeus estão entre os maiores pesquisadores genéticos do mundo.

À medida que a humanidade torna-se mais sofisticada geneticamente, a identidade fica mais fluida e também firme. Os judeus em particular podem encontrar linhas de nossa ancestralidade literalmente em qualquer lugar, confundindo as categorias tradicionais de nacionalidade, etnicidade, crença religiosa e “raça”. Mas tais discussões, no fim, são classificadas pela realidade da ancestralidade comum compartilhada da humanidade. O Legado de Ostrer afirma que – independente dos prós e contras de ser judeu – somos todos, geneticamente, unidos. E, ao fazer isso, ele está certo.  

http://forward.com/articles/155742/jews-are-a-race-genes-reveal/?p=all#ixzz2hPe6rzJL


Notas:

* A doença Tay-Sachs possui 5 mutações, pode ser descoberta na gestação e é consequência de uma mutação recessiva, presente apenas quando se herda genes mutados tanto da mãe quanto do pai. Crianças com Tay-Sachs aparentam uma severa deterioração das habilidades mentais e físicas. Uma forma da doença muito mais rara ocorre em pacientes entre 20 e 30 anos e é caracterizada por andar inconstante e deterioração neurológica progressiva.

** Um haplótipo é uma combinação de alelos em loci (local fixo num cromossomo onde está localizado determinado gene ou marcador genético) adjacentes, que fazem parte do mesmo cromossomo e são transmitidos juntos.

*** Amish é um grupo religioso cristão anabatista baseado nos Estados Unidos e Canadá. São conhecidos por seus costumes conservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis. Como os Mennonitas, os Amish são descendentes dos grupos suíços de anabatistas chamados de Reforma radical. O Anabatistas suíços ou "os irmãos suíços" tiveram suas origens com Felix Manz (ca. 1498-1527) e Conrad Grebel (ca.1498-1526). O nome "Mennonita" foi aplicado mais tarde e veio de Menno Simons (1496-1561). Simons era um padre católico holandês que se converteu ao Anabatismo em 1536. O movimento Amish começou com Jacob Amman (c. 1656 - c. 1730), um líder suíço dos Mennonitas que acreditava que estes estavam se afastando dos ensinos de Simons.

+ Os Bene Israel (Filhos de Israel) são um grupo de judeus originários de Mumbai, Kolkata, Déli e Ahmadabad. Hoje, são em torno de 65.000 pessoas no mundo. A sua linguagem nativa é o judeu-marathi, uma variação do Marathi. Os Bene-Israel dizem ser descendentes dos judeus que escaparam da perseguição na Galileia no século II a.C. Os Bene-Israel mantém alguns costumes dos Maratha não-judeus, como roupas, mas mantém ainda práticas judaicas, como a circuncisão, as leis dietéticas e a observação do Shabat.

++ Haskalá, nome dado ao Iluminismo Judaico, é um movimento surgido no século XVIII. dentro do Judaísmo , e que adotava os valores iluministas, incentivando a integração com a sociedade européia e a valorização da educação secular, aliada ao estudo da história judaica e do hebraico.

+++ Why do Jews win so many Nobels? http://www.haaretz.com/jewish-world/jewish-world-news/.premium-1.551520


Teoria Genética sob ataque por especialista em DNA

Jewish Daily, 07/05/2013

Cientistas geralmente não trocam insultos como “mentiroso” e “fraude”.

Mas é assim que o pesquisador com pós-doutorado na Universidade John Hopkins, Eran Elhaik, descreve um grupo de geneticistas altamente respeitados, incluindo Harry Ostrer, professor de patologia e genética na Faculdade Albert Einstein de Medicina na Universidade Yeshiva e autor do livro Legado: Uma História Genética do Povo Judeu.

Por anos, as descobertas de Ostrer e muitos outros cientistas têm permanecido praticamente livres de desafio sobre a genética dos judeus e a estória que eles contam das origens comuns do Oriente Médio compartilhadas por muitas populações judaicas ao redor do mundo – e dos asquenaze em particular – são de um povo único, de acordo com as descobertas da pesquisa de Ostrer.

Mas agora, Elhaik, um geneticista molecular, publicou uma pesquisa onde ele diz que derruba essa tese. E isto provocou um debate previsível.

A pesquisa dos geneticistas se baseiam no que é conhecido como Hipótese Renânia. De acordo com esta hipótese, os judeus asquenaze descendem de judeus que fugiram da Palestina após a conquista mulçumana no sétimo século e se estabeleceram na Europa setentrional. No final da Idade Média, ele se mudaram para a Europa Oriental a partir da Alemanha, ou Renânia.

“Sem sentido,” disse Elhaik, um israelense judeu de 33 anos de Beersheba que obteve um doutorado em evolução molecular na Universidade de Houston. Filho de um italiano e uma iraniana que se encontraram em Israel, Elhaik, um moreno claro, homem compacto, aceitou uma entrevista em seu pequeno escritório na Hopkins, onde ele trabalha há quatro anos.

Elhaik diz que provou que as raízes dos judeus asquenaze estão no Cáucaso – uma região na fronteira da Europa com a Ásia que se encontra entre os mares Negro e Cáspio – não no Oriente Médio. Eles são descendentes, ele argumenta, dos Kazares, um povo turco que viveu em um dos maiores estados medievais na Eurásia e então migraram para a Europa oriental nos séculos XII e XIII. Os genes asquenaze, acrescenta Elhaik, são muito mais heterogêneos do que Ostrer e outros proponentes da Hipótese Renânia acreditam. Elhaik encontrou um marcador genético do Oriente Médio no DNA dos judeus, mas, ele diz, pode ser do Irã e não da antiga Judéia.

Elhaik escreve que os Kazares se converteram ao judaísmo no oitavo século, apesar de muitos historiadores acreditarem que somente a realeza e alguns membros da aristocracia se converteram. Mas a conversão maciça dos kazares é o único modo de explicar o aumento espetacular da população judaica europeia para 8 milhões no início do século XX em relação ao seu pequeno número na Idade Média.

Elhaik baseia sua conclusão em uma análise de dados genéticos publicados por uma equipe de pesquisadores liderados por Doron Behar, um geneticista de populações e médico sênior no Centro Médico Rambam de Israel, em Haifa. Usando os mesmos dados, a equipe de Bahar publicou em 2010 um artigo concluindo que a maioria dos judeus modernos ao redor do mundo e algumas populações não-judias do Levante, ou Mediterrâneo Oriental, estão relacionadas intimamente.

“É uma premissa não-realista,” disse o geneticista Michael Hammer da Universidade do Arizona, um dos co-autores de Behar, a respeito do artigo de Elhaik. Hammer nota que os armênios têm raízes no Oriente Médio, o que, ele diz, é a razão porque eles parecem ser geneticamente relacionados com os judeus asquenaze no estudo de Elhaik.

Hammer, que também coescreveu o primeiro artigo que mostrou que os cohanim modernos são descendentes de um único ancestral macho, chama Elhaik e outros proponentes da Hipótese Kazariana “povo forasteiro... que possui um ponto de vista minoritário que não é apoiado cientificamente. Acho os argumentos que eles fazem muito fracos e deturpadores do que sabemos.”

Elhaik, que não acredita que Moisés, Aarão ou nas 12 tribos de Israel tenham alguma vez existido, despreza tal crítica.

“Isto é argumento circular,” disse ele a respeito da noção das semelhanças genéticas entre judeus e armênios se devam a ancestrais comuns no Oriente Médio e não na Kazaria, a área onde os armênios vivem. Se você acredita nisso, ele diz, então outras populações não-judias, como os georgianos, que são geneticamente semelhantes aos armênios deveriam ser considerados geneticamente relacionados aos judeus também, “e assim por diante.”

Em um artigo de jornal que acompanha o artigo de Elhaik, Shlomo Sand, professor de história na Universidade de Tel Aviv e autor do livro controverso A Invenção do Povo Judeu, disse que o estudo corrobora suas ideias.

“É tão óbvio para mim,” disse Sand ao jornal. “Algumas pessoas, historiadores e mesmo cientistas, tornam-se cegos para a verdade. Uma vez, dizer que os judeus eram uma raça era antissemita, agora dizer que eles não são uma raça é antissemita. É loucura como a história brinca conosco.”

O artigo tem recebido pouca cobertura da mídia Americana, mas atraiu a atenção de antissionistas e “supremacistas brancos antissemitas”, disse Elhaik. 

Curiosamente, enquanto os blogueiros antissionistas aplaudiram o trabalho de Elhaik, dizendo que ele prova que os judeus modernos não tem direito legítimo sobre Israel, alguns supremacistas brancos o atacaram.

David Duke, por exemplo, está conturbado pela afirmação de que os judeus nãosão uma raça. “comportamento disruptive e confrontador que tem marcado as atividades dos supremacistas judeus ao longo do milênio sugere fortemente que os judeus têm permanecido mais ou menos uniformes geneticamente e têm... desenvolvido uma estratégia de sobrevivência evolucionária grupal baseada em uma unidade biológica comum – algo que milita fortemente contra a teoria Kazar,” escreveu o antigo membro da Ku Klux Klan e ex-parlamentar do estado da Louisiana em seu blog em fevereiro.

Apesar do que seus críticos afirmam, Elhaik diz, ele não quis provar que os judeus contemporâneos não têm conexões com o povo judeu da Bíblia. Sua pesquisa foca na genética das doenças mentais, as quais, ele explica, o levaram a questionar as alegações de que os judeus asquenaze são uma população útil para estudo em virtude de sua homogeneidade.

http://forward.com/articles/175912/jews-a-race-genetic-theory-comes-under-fierce-atta/?p=all#ixzz2hPeqH4Qp

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

[SGM] A Guerra de Bombardeio: Europa 1939-1945

Resenha do livro The Bombing War, Europe 1939-1945, Richard Overy (2013)

Richard J Evans, Jill Stephenson



Entre as guerras, nos diz Richard Overy, os habitantes das cidades européias tornaram-se temerosos com a possibilidade de serem bombardeados. Os alarmistas prediziam milhões de mortos em Londres em um único ataque devastador. A cidade seria inteiramente destruída por bombas explosivas e incendiárias e sua população aniquilada por gás venenoso lançado do ar. A Civilização chegaria ao fim. Em 1908, HG Wells, em seu livro A Guerra no Ar, profetizou que Nova York seria reduzida, em uma questão de horas, a uma “fornalha incandescente da qual não haveria fuga”. Estes receios foram reforçados pela destruição da cidade basca de Guernica por bombardeiros alemães durante a guerra civil espanhola e pelo uso de gás venenoso pela força aérea italiana para destruir os exércitos inimigos em solo durante a invasão da Etiópia.

Entretanto, a realidade, quando chegou, foi muito diferente. Em 1939, era quase universalmente aceito que o poder aéreo seria melhor utilizado em conjunto com invasão terrestre, para neutralizar as forças aéreas inimigas e interromper as comunicações militares em solo. Nenhuma nação beligerante foi à guerra com uma frota totalmente desenvolvida de bombardeiros pesados. Os militares venceram aqueles que achavam que as forças aéreas deveriam agir independentemente. Havia hesitações sobre quebrar as sanções internacionais legalmente acordadas contra o uso de poder aéreo para atacar civis. Hitler explicitamente rejeitou o “bombardeio de terror” e organizou a Luftwaffe para limpar o caminho para a invasão das ilhas britânicas destruindo a RAF – e então, quando o trabalho estivesse feito (como os alemães erroneamente pensavam como seria por meados de setembro), para enfraquecer a economia britânica no apoio ao bloqueio.

Então, o que dizer de Varsóvia? “A campanha aérea na Polônia,” diz Overy, “foi um modelo de guerra aérea operacional elaborada antes de 1939, com as forças aéreas apoiando de maneira próxima as campanhas terrestres.” Missões sobre centros logísticos foram conduzidas, as quais “inevitavelmente envolveram baixas civis”. Talvez nossa visão de que se violou o acordo de que não se deve bombardear civis dependa do nosso entendimento de instalações de suprimento de gás e eletricidade  próximas a zonas industriais sejam um “alvo militar em potencial.” Além disso, Overy menciona mais tarde que “relatórios americanos no início da guerra destacaram a destruição selvagem das cidades polonesas a partir do ar.” Quanto a Roterdã, seu bombardeio “impôs pesadas baixas civis, porque o exército holandês escolheu defender a área ao invés de declara-la “cidade aberta” ou a rendição. É verdade que muitas das baixas em ambos os casos foram causadas pelo fogo de artilharia, mas o bombardeio causou outras. E, por que, em qualquer caso, deveriam os alemães ter bombardeado a cidade? Isto foi claramente uma agressão contra civis. Pode ser que as pequenas e incompetentes missões britânicas sobre a Alemanha em 1940 tenham provocado Hitler a lançar a Blitz, da qual a RAF aprendeu muitas lições para suas campanhas tardias. Mas foi o bombardeio alemão de civis britânicos que levou o Comando de Bombardeiros a permitir aos pilotos cada vez mais discrição no bombardeio de áreas onde havia civis. Isto logo se estenderia para toda a área de bombardeio, cumprindo a exigência de Stalin de que casas assim como fábricas fossem destruídas.

Se a blitz foi a primeira ofensiva de bombardeio estratégico, ela foi seguida logo por uma ofensiva muito maior por parte dos britânicos, onde, excepcionalmente, a doutrina militar favoreceu o uso independente de bombardeiros. A estratégia foi desenvolvida seguindo tentativas de suprimir levantes coloniais, onde as longas distâncias e comunicações pobres tornavam difícil desembarcar forças terrestres eficientemente. O Comando de Bombardeiros, acima de tudo Arthur Harris, tornou-se, nas palavras de Overy, um “aprendiz de feiticeiro”, cujas atividades eventualmente ultrapassaram de longe o controle de seus mestres políticos.

Aqui também os alvos foram supostos ser militares e econômicos; mesmo nas missões altamente destruidoras sobre Hamburgo em 1943, Harris buscou os bairros de trabalhadores da cidade porque a eliminação dos operários prejudicaria a produção de guerra. As missões continuaram até o fim da guerra devido ao medo do alto comando aliado de que os alemães pudessem reconquistar a superioridade aérea com a ajuda de novas armas, como os mísseis terra-ar (um dos quais, o Wasserfall, estava em estágio avançado de desenvolvimento) e os caças a jato (o Me-262 estava em ação bem antes do fim da guerra). Mesmo assim, Harris foi além, atacando a sociedade civil na Alemanha, esperando que a devastação de suas cidades levaria a um levante popular contra o regime. Ele ostentava regularmente a destruição das cidades alemãs pelo Comando de Bombardeiros e por seus aliados americanos, e seu vice chamou os desembarques do Dia-D “uma ‘expedição marítima’ desnecessária” sob a luz do colapso iminente do inimigo sob o peso das missões de bombardeio.

Uma das qualidades deste livro é mostrar que quase todas as expectativas estavam erradas: os comandantes da força aérea sobreestimaram consistentemente o dano que seus aviões causaram. Apesar de milhões de máscaras de gás terem sido distribuídas às populações da Grã-Bretanha e da Alemanha, nenhum ataque de gás foi realizado; ambos os lados temiam as conseqüências, apesar do preparo elaborado, incluindo o fato de que dois países, particularmente os britânicos, construíram um estoque enorme de armas químicas e gás no final da guerra. Os alemães não se revoltaram contra Hitler por causa da campanha de bombardeios; as missões, especialmente aquelas da Operação Gomorra contra Hamburgo em 1943, causaram desmoralização e desilusão generalizadas com o regime. Mas, tal como a sociedade britânica uniu-se sob a blitz, a sociedade alemã também resistiu até o final, apesar de se submeter a um regime gradativamente draconiano de ameaças e punições do partido nazista.

Ele analisa o número de aviões, vôos de reconhecimento e cargas, e os compara com o número de mortos e feridos. Isto o leva a concluir que, por exemplo, o número padrão dado para mortes no bombardeio de Stalingrado em 23 de agosto de 1942, 40.000, “assim como as estatísticas exageradas em Roterdam... não sobrevive ao exame detalhado... Nenhum bombardeio pré-atômico conseguiu em qualquer lugar matar pelo menos 10% da população em um único dia de bombardeio.” Mesmo assim, um número de 18.474 mortes em uma única noite em julho de 1943 em Hamburgo, cerca de metade para a Operação Gomorra, foi extraordinário em sua severidade. O número de mortos por bombardeio na URSS foi cerca de 51.000, comparado a 60.595 na Grã-Bretanha, 53.601 na França, 1.350 na Bulgária, 307 na Dinamarca e 353.000 na Alemanha, entre outros países. O bombardeio alemão da URSS, diferentemente dos bombardeios da Alemanha e Grã-Bretanha entre si, foi em sua maioria para apoio de operações terrestres.

Os efeitos econômicos do bombardeio foram altamente exagerados em ambos os lados: a produção alemã foi detida, mas não destruída. A realocação e dispersão das fábricas de armas para áreas seguras; a camuflagem dos sítios de manufatura (por exemplo, pintando as paredes e tetos de preto para parecer como se eles tivessem sido danificados por ataques incendiários); e a rapidez com a qual as plantas-chaves, tal como a fábrica de rolamentos em Schweinfurt, foram reconstruídas após um ataque, tudo ajudou a garantir que a produção de armas alemã atingiu seu auge quase no final da guerra, em 1944, sob o impacto do programa de racionalização econômica do Ministro dos Armamentos Albert Speer. Quanto à blitz, apesar do bombardeio das docas de Londres, não mais que 5% da produção foi afetada pelas missões. Os efeitos militares da campanha no esforço de guerra alemão foram muito mais importantes, com recursos significativos em mão de obra e equipamento sendo desviados da frente oriental para tentar deter os ataques aéreos.

Para Overy, a característica principal do Comando de Bombardeiros em 1942, foi sua ineficiência. A política foi mal conduzida e executada porcamente, a ambição ultrapassou a capacidade técnica e não havia um plano geral. Para cada dois alemães mortos pelo bombardeio em 1942, um bombardeiro era perdido. Alegações foram feitas sobre a destruição de cidades quando a maioria das bombas havia demonstravelmente caído longe do alvo. Arthur Harris, chefe do Comando de Bombardeiros, mais tarde admitiu que a ofensiva aérea propriamente dita somente havia começado em março de 1943, após a reunião de tripulações, aviões e infraestrutura e aquisição de recursos de navegação eficientes. A Oitava Força Área dos EUA não se saiu muito melhor, apesar de ser em alguns aspectos tecnicamente superior. Os dois comandos permaneceram separados, o que quer que seja o que os americanos tenham dito; como Overy colocou, “Como muitos casamentos de conveniência, os parceiros dormiam em camas separadas.” Os americanos estavam perplexos com o objetivo britânico de dilacerar cidades, vendo a campanha de bombardeio mais como um meio para facilitar a invasão da Europa por forças terrestres.

Como Overy mostra, baixa visibilidade, deterioração rápida das condições climáticas, mau funcionamento dos equipamentos, aeronaves ultrapassadas e lentas, inexperiência dos pilotos ou exaustão da tripulação e ação inimiga variando de baterias anti-aéreas até caças noturnos ou embaralhamento de sinais de navegação, tudo reduziu a eficiência das frotas de bombardeiros. Aviões espatifavam no solo por falta de combustível ou falha do motor com uma freqüência atordoante. Em suas missões sobre a Grã-Bretanha de janeiro a junho de 1941, por exemplo, 216 bombardeiros alemães foram perdidos e 190 danificados; 282 destes foram resultado de acidentes aéreos. A taxa de óbitos entre os tripulantes de bombardeiro era extraordinariamente altos (membros do Comando de Bombardeiro tinham uma chance de sobrevivência de 25% em sua primeira missão, e 10% em sua segunda) mas nem tudo era resultado da ação inimiga. No final de 1941, o Comando de Bombardeiros reconheceu que estava perdendo seis aviões em acidentes para cada um abatido pelo inimigo. Os britânicos e especialmente os americanos poderiam repor essas perdas, e talvez até mais; no final, os poucos recursos da Alemanha significaram que a força aérea alemã estava crescentemente sendo superada.

As frotas de bombardeiros tinham que voar alto para evitar o fogo anti-aéreo do solo, de modo que mesmo que o tempo estivesse limpo, elas eram frequentemente incapazes de localizar seus alvos eficientemente. Em uma missão, Robert Kee, um piloto de bombardeiro que mais tarde se tornou um historiador de sucesso, “bombardeou algumas incendiárias no que esperávamos ser hanover”, mas a maioria das bombas lançadas em concentrações de holofotes porque era tudo o que ele poderia ver através das nuvens. Um relatório, compilado em setembro de 1941, relatou que somente 15% dos aviões estavam bombardeando seus alvos dentro de um raio de 7 km. Nos últimos três meses de 1944, foi reconhecido que somente 5,6% das bombas caíam dentro de 2 km do ponto-alvo se houvesse nuvem, apesar do uso de recursos de navegação eletrônicos. Uma missão em uma planta de petróleo importante viu 87% de suas bombas perdendo seu alvo inteiramente, e somente duas atingiram os prédios.

A conclusão de Overy é que a força aérea dos EUA foi muito mais bem sucedida do que o Comando de Bombardeiros em atingir alvos que conduziram diretamente à derrota alemã – aeródromos e, acima de tudo, reservas de petróleo e sistemas de comunicação. Quase no final, a produção industrial alemã continuou a uma taxa incrível, em parte por causa de uma política de dispersão e também por causa do uso de mão de obra escrava e também parcialmente porque o bombardeio provocou relativamente pouco dano industrial e que este rapidamente foi recuperado. A defesa civil alemã era grande e bem organizada. Em contraste, na URSS e na Grã-Bretanha, as preparações para defesa civil estavam em sua melhor condição quando o ataque principal havia cessado. Na Itália, contudo, havia pouca preparação eficiente, de modo que o resultado do bombardeio, especialmente em 1942, provocou uma crise material e moral. O bombardeio pode ter sido a única razão para a decepção com o regime de Mussolini, mas ele certamente induziu o governo de Pietro Badoglio a pedir a paz.

Em 1944, durante os ataques controversos contra o monastério italiano de Monte Cassino, usado pelos alemães como base militar e de comunicações, o quartel-general do general Oliver Leese, a 5 km da abadia, foi destruído, assim como o quartel-general francês distante 20 km. Levou outros três meses antes que a fortaleza fosse tomada. Um ataque contra o sítio de produção do foguete V-2 ao norte de Haia despejou 67 toneladas de bombas em uma área residencial em 1 de março de 1945, grande parte em virtude do oficial de instruções considerou as coordenadas erradas no mapa. O lançamento maciço de bombas sobre as cidades foi, portanto, o único modo de destruir os alvos militares e econômicos que eles continham.

Sob tais condições, a ideia de bombardear as linhas ferroviárias para Auschwitz para parar o extermínio dos judeus húngaros transportados até lá em 1944 era um pouco mais do que uma fantasia; qualquer ataque provavelmente teria infligido baixas maiores entre os internos do próprio campo. Foi somente nos últimos meses da guerra que a supremacia aérea aliada foi assegurada e a produção militar aliada era tão superior à dos alemães que realmente nenhum dano sério foi infligido – três quartos da carga total de bombas foi despejada sobre a Alemanha durante este período final. A indústria alemã sobreviveu com força suficiente, contudo, para eventualmente fornecer a base para o “milagre econômico” do país após o fim da guerra.

Uma das preocupações principais de Overy é com a moralidade do bombardeio de civis. No início da guerra, todos os lados concordavam que o bombardeio intencional de civis era ilegal e que o bombardeio deveria ser restrito a alvos militares. Mas a situação desesperadora na frente ocidental na primavera de 1940 (ao invés do bombardeio alemão de Roterdam) levou os britânicos a abandonar essa política em favor do bombardeio de alvos na Alemanha para um objetivo militar onde mesmo os civis poderiam estar na linha de fogo. Tanto Winston Churchill quanto Clement Attle eram altamente favoráveis a essa estratégia. Para Overy, um dos muitos mitos da Segunda Guerra Mundial é a de que os alemães foram os primeiros a bombardear civis: em sua visão, os britânicos o fizeram primeiro.

Sobre isto e outros assuntos, a pesquisa magnífica de Richard Overy, baseada em pesquisa extensiva nos arquivos de um grande número de países, deve agora ser lembrada como um trabalho de referência sobre a guerra aérea, não apenas na Grã-Bretanha e Alemanha, mas no resto da Europa também. É provavelmente o livro mais importante publicado sobre a história da Segunda Guerra Mundial neste século e os historiadores terão que revisar muitos de seus fatos e números aceitos a longo tempo.     



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terça-feira, 8 de outubro de 2013

[PGM] Como a Inglaterra ajudou a começar a Grande Guerra

Paul Gottfried
 


Um assunto muito pouco explorado é o papel do governo britânico no início da Primeira Guerra Mundial. Até recentemente, era difícil encontrar estudiosos que duvidassem do julgamento confortável de que a “Alemanha autoritária” causou a Grande Guerra devido à sua arrogância. Supostamente, os britânicos somente se envolveram após os alemães precipitadamente violarem a neutralidade da Bélgica em seu caminho para conquistar a França “democrática”.

Mas o Secretário do Exterior britânico, Sir Edward Grey, tinha feito de tudo ao seu alcance para isolar os alemães e seus aliados austro-húngaros, que estavam corretos em sua preocupação de ficarem cercados por inimigos. A Tríplice Entente, largamente construída pelo governo Grey e que colocou os franceses e russos em uma aliança diversificada, cercaram a Alemanha e a Áustria com parceiros belicistas. Em julho de 1914, os líderes alemães sentiram a necessidade de apoiar seus aliados austríacos em uma guerra contra os sérvios, que eram o Estado fantoche russo. Estava claro então que este conflito exigiria que os alemães lutassem contra a Rússia e a França.

Os militares alemães fatalmente aceitaram a possibilidade da Inglaterra entrar na luta contra eles. Isto poderia ter acontecido mesmo se os alemães não tivessem violado o solo belga para derrotar os franceses antes de enviar seus exércitos para o leste para enfrentar uma invasão russa maciça. Os ingleses eram tudo, menos neutros. No verão de 1914, seu governo estava prestes a assinar uma aliança militar com a Rússia, planejando uma operação conjunta contra a Pomerânia alemã no caso de uma guerra geral. Os britânicos também deram garantias ao ministro do exterior francês, Teófilo Delcassé, que eles estariam ao lado dos franceses e russos (que eram aliados desde 1891) se a guerra eclodisse contra a Alemanha.

Grey rejeitou as tentativas do Chanceler alemão,Teobaldo Von Bethmann-Hollweg, para deixar seu governo fora do alcance de compromissos com os inimigos da Alemanha.

As concessões alemãs em 1912 incluíam:

* A aceitação do domínio britânico na construção de estradas e acessos às reservas de petróleo no que hoje é o Iraque.

* Investimentos conjuntos na África central que claramente beneficiariam mais os ingleses do que os alemães.

* Humildemente seguir a liderança da Inglaterra nas duas Guerras dos Bálcãs, onde o inimigo da Áustria, a Sérvia, quase dobrou seu território.

Os russos e os franceses também estavam expandindo enormemente seu alistamento e ultrapassaram as forças alemãs e austríacas, mas nem as concessões alemã nem os golpes de sabre dos aliados continentais da Inglaterra provocaram uma mudança de direção do governo britânico. Lorde Grey, que permaneceu secretário do exterior até 1916, nunca mudou sua opinião de que a Alemanha era o inimigo mais perigoso da Inglaterra.

Um livro que deixa isto claro é o estudo de Konrad Canis da política externa alemã de 1902 até 1914. Um volume enorme de mais de setecentas páginas ,  O Caminho para o Abismo, é um relato revisionista extraordinário das confusões que levaram à guerra.

Canis revela muitos pontos que não encontraremos no academicismo histórico comum:

1) A política externa do Segundo Império alemão era largamente passiva. Isto era verdade não somente para Bismarck após a unificação de 1871, mas quase totalmente verdadeiro para a política externa alemã a partir de 1902.

2) Os britânicos eram mais hostis aos alemães do que vice-versa. Eles viam a Alemanha como um competidor econômico em ascensão que tinha se estabelecido como a potência militar dominante no continente. Tanto a opinião pública quanto os líderes alemães eram fortemente anglófilos; o Chanceler Bethmann-Hollweg considerava a amizade britânica algo que valia a pena, mesmo que custasse os interesses alemães.

3) O governo alemão e a maioria da imprensa alemã faziam uma distinção clara entre esperar que seu país se tornasse uma potência mundial e aspirar o domínio sobre todos os países. As fontes de Canis sugerem que alemães influentes esperavam tornar-se uma potência “na escala da Inglaterra,” um país que eles respeitavam e não tinham interesse em combater.

Em 1914, a Rússia representava uma ameaça maior à Inglaterra do que a Alemanha ou a Áustria. A Inglaterra estava lutando contra a Rússia pelo domínio da Ásia Central. Ao invés de confirmar suas prioridades geopolíticas, Lorde Grey ofereceu à Rússia uma terceira frente contra os alemães prometendo disponibilizar os navios britânicos para um desembarque no norte da Alemanha. Esta foi a maneira como o governo britânico tentou resolver suas diferenças com a Rússia, já que ambos estavam se expandindo na mesma região. Nestes compromissos britânicos, não está claro se uma distinção ainda é possível entre guerras ofensivas e defensivas.

E então, temos os EUA. Quando o embaixador alemão se aproximou de Teddy Roosevelt para se unir aos alemães em garantir mercado aberto no Vale do Rio Yangtze na China e outras regiões então fechadas pelos britânicos e franceses, TR se recusou. Ele disse que não poderia assinar tal documento antes de consultar primeiro os britânicos. Esta é uma prova para aqueles que acreditam que os EUA eram um estado vassalo da Inglaterra antes da Primeira Guerra Mundial.

O autocrático governo russo, que entrou na guerra pelo leste, não era totalmente “democrático” em 1914, mas na época que Woodrow Wilson jogou-nos no caldeirão europeu,  a Rússia estava envolvida na primeira de duas revoluções, esta uma mudança revolucionária democrática em março de 1917. Assim, os EUA poderiam aliar-se ao aceitável governo provisório russo quando ele pegasse em armas contra os supostos belicistas alemães.

A Aliança Funesta, de Georg e Kennan, e A Origem Russa da Primeira Guerra Mundial, de Sean McMeekin, documentam o papel do governo russo agressivamente expansionista em iniciar a Grande Guerra. Mas tais revelações não são mais surpresa.

O que é mais surpreendente é a descoberta do papel da Inglaterra em criar esta catástrofe.  Esta omissão pode ser atribuída a certas causas óbvias: a visão errada de que a Inglaterra só entrou na guerra por causa da violação da neutralidade belga (isto confunde um pretexto com uma causa); a disposição anglófila das elites apolíticas e acadêmicas americanas; e mais recentemente, a noção tendenciosa de que “democracias jamais lutam entre si.” Infelizmente para esta generalização, os governos da Alemanha e Inglaterra (e certamente suas sociedades) em 1914 eram muito mais semelhantes entre si do que se parecem os atuais regimes americano e canadense.

Canis não defende a decisão final desastrosa em 1914. Os alemães deveriam ter segurado os austríacos mesmo após os agentes sérvios terem matado o arquiduque Ferdinando da Áustria.  A guerra resultante dilacerou a Velha Europa. As indústrias militares que Grey, Churchill e outros de sua laia estavam sustentando não eram o que a população queria. Os falcões da guerra estavam desviando o foco das reformas sociais. Apesar de eu dificilmente ser favorável ao Estado do Bem Estar Social, criar um desses na Inglaterra em 1910 teria sido bem menos prejudicial do que a política externa de Grey.        

http://takimag.com/article/how_england_helped_start_the_great_war_paul_gottfried#axzz26g7PSYu5

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Primeiro passo na Lua completa 44 anos

Terra, 20 de Julho de 2013


Há exatos 44 anos, em 20 de julho de 1969, o astronauta americano Neil Armstrong tornou realidade o sonho mais antigo das civilizações humanas quando se converteu no primeiro homem a caminhar na Lua. Enquanto 500 milhões de pessoas em torno do mundo esperavam ansiosamente aglomeradas junto a rádios e telas de televisão de imagem borrada, Armstrong desceu a escada do módulo sobre a superfície lunar.

"Este é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade", recitou Armstrong com a voz levemente distorcida pela distância e pelos equipamentos de comunicação, uma frase que ficaria gravada para sempre nos livros de história da Terra.

As multidões ovacionaram o momento quando Armstrong foi alcançado por seu companheiro Buzz Aldrin, que descreveu a "magnífica desolação" da paisagem lunar, nunca antes testemunhada em primeiro plano vista da Terra. Apenas 12 terráqueos caminharam desde então pela superfície da Lua, o solitário e misterioso satélite da Terra que alimentou nossos sonhos desde que os primeiros humanos caminharam sobre o planeta.

A União Soviética foi a primeira nação a colocar um satélite em órbita, em 1957, com o lançamento do Sputnik e, em 1961, Yuri Gagarin se converteu no primeiro homem a viajar ao espaço. A corrida espacial se converteu no símbolo da batalha da Guerra Fria pelo domínio entre ideologias enfrentadas e poderes mundiais polarizados.

"Creio que esta nação deve se comprometer em alcançar a meta, antes de terminar esta década, de aterrissar o homem na Lua e trazê-lo de volta à Terra sem perigo", disse então Kennedy. Foi aí que os EUA desenvolvem o programa Apollo, que transformou-se em uma arma bem sucedida na prova de domínio na corrida espacial que culminou com os passos do americano Neil Armstrong na lua durante a missão Apollo 11, em 1969.

Em plena Guerra Fria, o programa Apollo foi usado para provar o domínio americano na corrida espacial. Colocar uma bandeira dos Estados Unidos na superfície da Lua em 1969 marcou pontos muitos importantes em relação à União Soviética. O programa Apollo, que tornou possível seis alunissagens bem sucedidas entre 1969 e 1972, começou oito anos antes, em 1961, quando o presidente John F. Kennedy lançou o desafio ao Congresso de levar o homem à Lua ainda naquela década.

Mas a conquista da Lua não foi o único resultado da corrida espacial. Muitos dos avanços tecnológicos que desfrutamos hoje - como a comunicação mundial instantânea, via satélite e o uso de computadores pessoais - foram criados na época durante pesquisas de aprimoramento das missões espaciais.


Como funcionava a espaçonave Apollo 

Visão geral da espaçonave

Na plataforma de lançamento, o conjunto da espaçonave Apollo e o veículo de lançamento Saturno V era impressionante. O conjunto tinha mais de 121,9 metros de altura e, da base ao topo, consistia nas partes que você confere a seguir.

  • Veículo de lançamento, que era o foguete Saturno V de três estágios em todas as missões Apollo tripuladas. A função do Saturno V era lançar a espaçonave Apollo ao espaço.
  • Havia uma estrutura que parecia um cone com a ponta cortada. Era chamada de adaptador do módulo lunar da espaçonave (AML). Protegia o módulo lunar (ML), que não conseguia suportar a pressão de viajar pela atmosfera terrestre a grande velocidade. O ML foi a parte da espaçonave Apollo que pousou na lua.
  • O módulo de serviço (MS) vinha a seguir. Ele continha muitos sistemas importantes da espaçonave Apollo, incluindo tanques de oxigênio, células de combustível, baterias e motores. Quando a espaçonave se separava do estágio final do Saturno V, o MS dava o empuxo necessário para ajustar a trajetória, arfagem, rolagem e guinada da espaçonave (os movimentos em torno dos três eixos da espaçonave).
  • Acima do MS ficava o módulo de comando (MC), onde os astronautas permaneciam durante a maior parte da missão.
  • Finalmente, no topo do MC ficava o sistema de escape do lançamento (SEL). Era uma estrutura em forma de torre que parecia um pequeno foguete no topo de uma treliça. A finalidade do SEL era permitir que os astronautas escapassem rapidamente no caso de alguma falha no lançamento. Nessa situação, o SEL puxaria o MC para longe do veículo de lançamento utilizando três motores de foguete de propulsor sólido.


Em contrapartida, quando a espaçonave Apollo reentrava na atmosfera terrestre e pousava no oceano, tinha apenas 3,35 metros de altura. Isso porque a NASA pretendia que somente o módulo de comando retornasse à Terra - todo o resto seria descartado sobre o oceano Atlântico ou no espaço.

O custo do programa foi estimado em mais de US$ 25 bilhões, o que significa mais de US$ 100 bilhões hoje [fonte: NASA]. A maior parte desse dinheiro foi gasto no projeto, na construção e no aperfeiçoamento dos complexos sistemas e no maquinário necessários para levar homens à lua e trazê-los de volta em segurança. A NASA destinou o resto do orçamento para o treinamento dos astronautas, sistemas de controle de solo e despesas afins. 

Os módulos de comando e serviço

O módulo de comando era o local onde os astronautas passavam quase todo o tempo e era a única seção da espaçonave projetada para retornar intacta à Terra. Com sua blindagem contra aquecimento, tinha cerca de 3,9 m de altura e pesava 5,5 t. Dentro, os astronautas tinham cerca de 6 metros cúbicos de espaço habitável - o resto do espaço interno do veículo era destinado aos painéis de controle e displays. O MC era tripulado por três astronautas. Durante o lançamento, os três homens se sentavam em uma poltrona, que eles dobravam e guardavam quando entravam no espaço.

Os engenheiros construíram o MC utilizando chapas de alumínio para a estrutura interna. Do lado de fora do MC, havia uma blindagem contra aquecimento de aço inoxidável soldado com latão e revestido com resina. Sem a blindagem contra aquecimento, os astronautas não sobreviveriam à reentrada na atmosfera terrestre no fim da missão.

O módulo de serviço era um cilindro de 7,5 m de altura. Tinha 3,9 m de largura e pesava 23.244 kg no lançamento. O MS era dividido internamente em seis seções, que continham um sistema de propulsão, tanques para combustível e material oxidante, tanques de hélio usados para pressurizar o sistema de combustível, células de combustível e tanques de oxigênio e hidrogênio. As células de combustível forneciam a energia para a maioria das necessidades da tripulação durante a missão, mas o MS e o MC também tinham baterias como um suplemento de energia.


Durante a maior parte do vôo da missão, o MC e o MS permaneciam conectados um ao outro. O MC dependia dos sistemas do MS para a maioria de suas operações. Devido a disso, alguns se referem às duas unidades como sendo uma só: o MCS.

A ponta do MCS tinha uma sonda que os astronautas utilizavam para fixar no ML. Logo que o adaptador do módulo lunar da espaçonave se separava do resto do veículo, a espaçonave Apollo soltava o ML de sua base. Usando motores de controle de reação (MCRs), o MCS ajustava seu alinhamento, de modo que o topo do MC ficasse de frente para um dispositivo em forma de funil no ML chamado de âncora. Os astronautas no MCS alinhariam a sonda, de modo que se acoplasse à âncora do ML. Uma vez fixado, 12 presilhas automáticas prendiam o ML ao topo do MC. Em outras palavras, o ML se movia de trás para a frente do MCS. Os astronautas podiam retirar a sonda e a âncora do interior da espaçonave, permitindo à tripulação se deslocar entre os dois módulos.
Para tornar a viagem espacial possível - e segura - o MCS precisava integrar diversos sistemas complexos de apoio. Continue lendo para saber como os astronautas puderam completar sua missão confiando nesses sistemas.

Sistemas e controles

Os sistemas a bordo do MCS tinham uma variedade de funções, incluindo navegação, direção, comunicação, apoio à vida, energia elétrica, controle de água e propulsão.

A seguir você vê uma rápida descrição dos sistemas do MCS.

  • Sistema de energia elétrica (SEE): consistia em células de combustível e baterias e fornecia eletricidade em correntes contínua e alternada. A maior parte dos SEEs estava no MS, mas o MC possuía três baterias.
  • Sistema de direção, navegação e controle (SDNC): a finalidade desse sistema era medir e controlar posição, inclinação e velocidade da espaçonave. O SDNC incluía subsistemas inercial, óptico e de computador. O subsistema inativo usava acelerômetros para medir a velocidade da espaçonave e seus movimentos em torno dos três eixos. O sistema óptico incluía um telescópio, um sextante e um sistema eletrônico que enviava dados ópticos ao computador da espaçonave para fins de navegação. O sistema de computador analisava dados de outros subsistemas e também dos comandos manuais dos astronautas. Em seguida, o computador enviava os comandos ao sistema de propulsão da espaçonave para fazer as correções de curso. O computador também tinha um piloto automático digital que podia controlar a espaçonave durante todas as fases da missão.
  • Sistema de estabilização e controle (SEC): esse sistema incluía controles e indicadores para a tripulação da Apollo poder controlar manualmente a rotação ou a velocidade da espaçonave. O sistema enviava comando ao sistema de propulsão da espaçonave.
  • Sistema de propulsão de serviço: localizado no MS, esse sistema de propulsão incluía quatro tanques de combustível de hidrazina e oxidante tetróxido de nitrogênio. Essas substâncias são hipergólicas, o que significa que entram em combustão espontaneamente quando misturadas. O sistema usava tanques de hélio para pressurizar as linhas de combustível. O motor de foguete do sistema produzia até 10.250 kg de empuxo. A NASA montou o motor em uma suspensão Cardan, que é um suporte que pode girar. Girando o motor na direção certa, a espaçonave podia manobrar para a inclinação e a trajetória corretas.
  • Sistemas de controle de reação (SCR): o SCR era um sistema de motores e tanques de combustível. Era parcialmente utilizado como um sistema redundante, o que significava que podia controlar os movimentos da espaçonave se o sistema de propulsão principal falhasse. O MC e o MS tinham um SCR independente. O MS tinha quatro quádruplos, que eram grupos de quatro motores de foguete. Cada motor podia fornecer 50 kg de empuxo. O MC tinha dois grupos de seis motores cada, com cada motor sendo capaz de fornecer 46,5 kg de empuxo. O SCR do MC também controlava a espaçonave durante a reentrada.
  • Sistema de telecomunicação: fornecia a intercomunicação entre os astronautas no espaço e o pessoal na Terra, bem como entre os próprios astronautas. Incluía radiotransmissores e receptores de banda S e freqüência muito alta (VHF) e um transponder. Os astronautas usavam o equipamento VHF para comunicação de curta distância e o equipamento de banda S para comunicação através do espaço. Quando um corpo grande - por exemplo, a lua - ficava entre a espaçonave e a tripulação em terra, perdia-se a comunicação.
  • Sistema de controle ambiental (SCA): controlava a pressão atmosférica e a temperatura da espaçonave, além de controlar a água. Ele coletava a água das células de combustível da nave (um subproduto útil). O SCA regulava a temperatura no MCS por meio de um sistema de resfriamento de água e glicol. O sistema bombeava a água e o glicol através de serpentinas de resfriamento para diminuir a temperatura do líquido. Em seguida, bombeava o líquido através de tubos para resfriar a atmosfera e os sistemas elétricos do MCS, semelhante a um sistema de resfriamento de líquido de computador.
  • Sistema de pouso na Terra: alojado no MC, esse sistema consistia em vários pára-quedas prontos para disparo. A NASA projetou a espaçonave Apollo com a intenção de um pouso na água na reentrada. Os pára-quedas diminuíam a velocidade de descida da espaçonave, o suficiente para garantir a segurança da tripulação.

O módulo lunar


O módulo lunar (ML) da Apollo foi o primeiro veículo tripulado projetado para operar completamente fora do ambiente da Terra. Ele permaneceu acoplado ao MCS durante a viagem da Apollo na órbita lunar. Já em órbita, dois dos três homens se transferiram do MCS para o ML. Após vedarem o MCS e o ML, os astronautas desacoplaram os dois veículos e o ML iniciou sua jornada para a superfície da lua.

O ML tinha duas seções. A seção superior era o estágio de subida e compreendia o compartimento da tripulação, indicadores e controles de sistema, antenas de banda S e de radar, um sistema de controle de reação (SCR), tanques de combustível, oxidante e oxigênio. A seção inferior era o estágio de descida e armazenava o equipamento que os astronautas usariam na lua. Tinha também um motor de foguete de descida, trem de pouso e tanques de combustível e oxidante. As duas seções desceram até a lua, com a seção de descida controlando o pouso, mas quando os astronautas deixaram a lua, fizeram-no somente com a seção de subida. A seção de descida serviu como plataforma de lançamento e foi deixada para trás.


O ML tinha radar de pouso que transmitia feixes de microondas para a superfície lunar e media as ondas que a superfície refletia na espaçonave. Calculando-se o tempo entre a transmissão e a recepção e medindo as ondas, o computador do ML podia calcular a proximidade do módulo à superfície e fazer os ajustes.

Após pousar na lua, os dois membros da tripulação preparariam primeiro o estágio de subida do ML para a decolagem. Depois, descansariam e se preparariam para os objetivos de sua missão na superfície da lua. Uma vez que tivessem concluído esses objetivos, retornariam ao ML para a volta. A seção superior do ML se separaria do estágio de descida (mais uma vez usando parafusos explosivos). O SCR do estágio de subida fornecia 1.750 kg de empuxo, suficiente para colocá-lo em órbita lunar.

A NASA projetou a antena de radar do estágio de subida para receber transmissões do transponder no MCS. O transponder transmitia informações referentes à posição e à velocidade do MCS. Com essas informações, as duas seções manobraram, para que pudessem se acoplar. Após o acoplamento, a tripulação do ML transferiu todas as amostras de materiais que coletaram na lua. Vedaram, então, os dois veículos e desacoplaram o ML, enviando-o para um curso de colisão com a lua. Instrumentos deixados na superfície da lua mediriam o impacto como parte de um projeto de pesquisa sísmica.


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