domingo, 27 de outubro de 2013

[POL] O Carisma subestimado de Hitler

Der Spiegel, 11/10/2013

Entrevista com o historiador Volker Ullrich

 
Spiegel: Sr. Ullrich, o quão Hitler era normal?

Ullrich: Ele não era tão louco quanto alguns estudiosos de psicologia tem nos feito acreditar, pelo menos com suas linhas simplistas de argumentação. Ele pode mesmo ter sido mais normal do que poderíamos desejar.

Spiegel: A maioria das pessoas considera Hitler um psicopata. Muitos historiadores também acreditam que alguém capaz de cometer tais crimes não pode ser normal.

Ullrich: Hitler foi, sem dúvida, excepcional em suas ações criminosas. Mesmo assim, sob muitos aspectos, ele não foi de modo algum diferente do comum. Jamais seremos capazes de compreender as coisas terríveis que aconteceram entre 1933 e 1945 se negarmos sempre que Hitler também tinha características humanas, e se falharmos em levar em conta não somente suas energias criminosas, mas também suas qualidades simpáticas. Enquanto continuarmos a vê-lo como um monstro terrível, o fascínio que ele exerceu continuará sendo um enigma.

Spiegel: Joachim Fest publicou uma biografia abrangente de Hitler em 1973 e Ian Kershaw outra, em dois volumes, começando em 1998. Qual foi a sua motivação em produzir uma terceira grande biografia?

Ullrich: Fest analisou Hitler de uma posição de ódio e aversão. Um capítulo central de seu livro é intitulado “Visão de um ignorado”. Kershaw estava basicamente interessado nas estruturas sociais que tornaram Hitler possível, enquanto que a própria pessoa permanece de algum modo em segundo plano em sua análise. Trago o homem para o plano principal. Isto cria não somente uma nova imagem de Hitler, mas uma visão mais complexa e contraditória em relação à qual estamos acostumados.

Spiegel: “Hitler, a pessoa” é o nome de um capítulo que o Sr. descreve como chave em seu livro, que será publicado esta semana. O que foi Hitler como pessoa?

Ullrich: A coisa extraordinária sobre Hitler foi o seu talento para a hipocrisia. Suas habilidades formidáveis como ator são frequentemente subestimadas. Há somente muito poucas situações onde podemos dizer que ele era verdadeiro. Por isso é tão difícil responder à pergunta como ele era como pessoa. Ele podia ser muito agradável, mesmo com pessoas que ele detestava. Por outro lado, ele também era incrivelmente frio mesmo com pessoas próximas a ele.

Spiegel: Em um ponto do livro, o Sr. escreve de um “charme cativante”. Charme não é uma qualidade geralmente associada com o criminoso do século.

Ullrich: Um bom exemplo de sua habilidade em tornar-se agradável é a sua relação com o presidente alemão Paul Von Hindenburg, que inicialmente tinha uma resistência considerável em relação ao “cabo boêmio”, como ele chamava Hitler. Contudo, poucas semanas após ser apontado chanceler, Hitler conseguiu envolver tanto Hindenburg que este último assinaria qualquer coisa que Hitler lhe pedisse. Joseph Goebbels notou frequentemente em seus diários que o ditador não somente poderia bater papo de forma agradável com seus associados, mas sabia absolutamente como ouvi-los também.

Spiegel: Por outro lado, algumas vezes este comportamento tornava-se descontrolado. O menor descuido poderia transformar-se em fúria.

Ullrich: Minha impressão é que a maioria de seus ataques de raiva eram planejados. Ele fazia isto deliberadamente para intimidar as pessoas, quando a conversa com seus adversários políticos não resultavam naquilo que ele queria. Em poucos minutos, ele poderia estar novamente se comportando com controle absoluto e exercendo o papel de anfitrião atencioso.

Spiegel: Há pouco na vida inicial de Hitler que poderia sugerir uma carreira como genocida. Ao invés de realizar o desejo de seu pai de tornar-se um burocrata, Hitler direcionou-se para a pintura e leitura. “Livros eram seu mundo,” disse um amigo de infância.

Ullrich: Hitler era um leitor ávido, uma paixão que permaneceu com ele ao longo de toda sua carreira. Os Arquivos Federais em Berlim têm recibos, mostrando títulos e preços, da livraria de Munique onde Hitler comprava seus livros. Estes mostram a imensa quantidade que ele adquiria, especialmente sobre arquitetura, apesar de biografias e trabalhos filosóficos também lhe interessarem. Hitler lia livros de maneira incrivelmente rápida, mas também seletivamente. Ele somente lia trabalhos que se ajustassem à sua visão de mundo e que poderiam ser utilizados em sua carreira política.

Spiegel: O sr. iria longe o suficiente para chamá-lo de um intelectual das artes?

Ullrich: Seu interesse nas artes era certamente excepcional. Durante uma estadia em casa em setembro de 1918, ele gastou seu tempo não em bordéis, como seus camaradas faziam, mas no Museu Island de Berlim.

Spiegel: Em outras palavras, talvez pudéssemos dizer: O mais zeloso dos artistas na política.           

Ullrich: Esta é uma boa definição. Mas Hitler nunca foi mais do que um artista mediano. Seu grande talento era no jogo da política. É fácil subestimar as qualidades excepcionais e habilidades que ele tinha para se tornar bem sucedido neste campo. No espaço de apenas três anos, ele ascendeu de um veterano de guerra desconhecido para o rei de Munique, enchendo os salões da cidade semana após semana.

Spiegel: Hitler era um lobo solitário. Ele não fumava, não bebia e eventualmente tornou-se vegetariano. O quão a excentricidade tornou-se um atrativo para as massas?

Ullrich: Munique em torno dos anos 1920 era um ambiente ideal para um agitador de extrema direita, especialmente alguém que discursasse tão acaloradamente quanto Hitler fazia. Mas ele também era um tático talentoso, manobrando seus movimentos passo a passo. Ele cercou-se de seguidores que o adoravam devotamente. E ele garantiu o apoio de patronos influentes, especialmente os Bruckmann, um casal respeitado do mundo editorial; a família Bechstein, que fabricava pianos; e, é claro, os Wagner em Bayreuth, que logo começaram a tratá-lo com alguém da família.

Spiegel: Mesmo os relatórios preliminares de Hitler como orador notavam a troca de energia entre ele e seus ouvintes. “Tive uma sensação peculiar,” uma testemunha escreveu em junho de 1919, “como se a excitação da plateia fosse o seu trabalho e, ao mesmo tempo, isso lhe desse uma voz.”

Ullrich: Para entender o poder de Hitler como orador, devemos considerar que ele não era apenas um demagogo de boteco como sempre o representamos, mas, de fato, ele elaborava seus discursos deliberadamente. Ele começava muito calmamente, na base da tentativa, quase que como sentindo o passo adiante e tentando sentir a que grau ele poderia conduzir sua plateia. Não até ele estivesse certo de sua aprovação, ele então aumentaria sua seleção de palavras e gestos, tornando-se mais agressivo. Ele continuava isto por duas ou três horas até atingir o clímax, um pico inebriante que levava lágrimas a muitos ouvintes. Quando assistimos aos vídeos de seus discursos hoje, geralmente estamos vendo somente a conclusão.

Spiegel: O escritor Klaus Mann, que observou Hitler comendo uma torta de morango na cafeteria Carlton de Munique em 1932, escreveu mais tarde, “Você quer ser ditador com este nariz? Não me faça rir.” Isto significa que deveria existir uma certa disposição para ser fascinado por Hitler?

Ullrich: Klaus Mann tinha uma repulsão motivada, instintiva e estética desde o início. Mas também há relatos de pessoas que tinham uma visão negativa de Hitler no início, mas que se converteram assim que tiveram contato com ele. Entre os pertences de Rudolf Hess, que serviu como secretário privado de Hitler a partir de 1925, encontrei cartas nas quais ele descreve para sua noiva as viagens agitadas através da Alemanha. Em uma das cartas, ele fala de uma reunião de líderes empresariais na cidade de Essen em abril de 1927. Quando Hitler entrou na sala, ele encontrou um silêncio indiferente, uma rejeição completa. Após duas horas, houve aplausos ensurdecedores. “Um ambiente como o Circo Krone (Munique),” escreveu Hess.

Spiegel: O fervor escravo dos discursos das reuniões do partido de Hitler ainda hoje chega aos nossos ouvidos. O quão era diferente sua voz na vida privada daquele que ele utilizava em público?

Ullrich: Muito poucas gravações existem na qual Hitler pode ser ouvido falando normalmente. Mas naquelas que existem, é evidente que ele possuía uma voz totalmente calma e morna. É um tom completamente diferente daquilo que ele costumava usar em suas aparições públicas*.

Spiegel: Fest foi uma vez perguntado em uma entrevista, “Hitler era antissemita?”

Ullrich: Sem dúvida. O antissemitismo – em sua forma mais radical, de fato – era o núcleo de sua personalidade. É impossível entender Hitler sem ele. Saul Friedländer o descreveu como “antissemitismo redentor”, que se encaixa muito bem. Hitler via os judeus como a personificação de tudo o que era mau, a raiz da maldade no mundo.

Spiegel: Mas este não foi o caso no início.

Ullrich: Em seu manifesto Mein Kampf, Hitler deixou claro que ele tornou-se um antissemita fanático ainda em Viena. Mas não existem provas de que ele tenha feito qualquer comentário difamatório sobre os judeus antes de se mudar para Munique. Pelo contrário, na pensão masculina onde ele viveu por três anos em Viena, ele manteve contatos amigáveis com judeus. Os negociantes que compararam suas aquarelas por um preço decente eram também judeus.

Spiegel: Ele experimentou algo como uma conversão ao antissemitismo?

Ullrich: Sabemos que Hitler tornou-se um antissemita radical durante a revolução de Munique em 1918-19, que ele presenciou e que alternou da extrema esquerda à extrema direita. A República Soviética de Munique que existiu por breve período incluía muitos judeus nas posições de liderança – Ernst Toller, Eugen Leviné e Erich Mühsam. Isto levou a um antissemitismo que se espalhou na cidade como uma epidemia**.

Spiegel: O Sr. se refere a uma carta previamente desconhecida de agosto de 1920, na qual um estudante de direito de Munique registrou as visões de Hitler após um encontro com ele. Quando o assunto era os judeus, Hitler disse, que ele acreditava que o vírus deve ser erradicado e que a existência do povo alemão estava em jogo. O quão sério Hitler era em tais afirmações naquela época?

Ullrich: O projeto político que nasceu de sua visão de mundo não consistia ainda de extermínio em massa. Apesar de toda sua retórica de destruição, “livrar-se dos judeus” nesta época significava expulsá-los da Alemanha. A chamada “Solução Final”, significando o assassinato sistemático dos judeus europeus, não fez partes dos planos até o início da Segunda Guerra Mundial.

Spiegel: Na época dos pogroms da Kristallnacht em 9 de novembro de 1938, o mais tardar, estava claro que todos aqueles que o regime considerava seus inimigos estavam agora sem direitos ou proteção. O Sr. escreve, de forma correta, que a Alemanha deixou o mundo das nações civilizadas neste ponto. Mas mesmo isso falhou em destruir a popularidade de Hitler.

Ullrich: Não é fácil dizer qual era a visão da população geral em relação aos pogroms. Baseado em fontes como os relatórios da Gestapo sobre o ambiente geral no país, tendo a compartilhar da visão de que a maioria do povo não aprovava esta violência. Curiosamente, a “Kristallnacht” não estava associada a Hitler. Ele conseguiu manter-se nos bastidores, apesar de estar mexendo os pauzinhos, com outros líderes nazistas assumindo a responsabilidade. Esta exoneração é vista nos comentários das pessoas, “se o Führer tivesse sabido disso...”.

Spiegel: Que Hitler deu considerável importância à sua imagem pode também ser vista no modo como ele tratou da questão do dinheiro. Ao mesmo tempo em que ele se apresentava como um líder humilde, em segredo ele sonegava impostos, como o Sr. escreve em seu livro.

Ullrich: Um funcionário exemplar da Receita escreveu em outubro de 1934 que Hitler devia 405.000 marcos em impostos. Qualquer obrigação em pagar estes impostos atrasados foi imediatamente abandonada, declarando Hitler isento a partir daquele momento, e o funcionário que encontrou o problema levou uma advertência.

Spiegel: Começando em 1937, havia mesmo selos mostrando sua imagem, da qual Hitler recebia direitos de imagem.

Ullrich: Hitler sempre gostou da riqueza. Não é coincidência que mesmo nos anos iniciais, ele dirigia os modelos mais novos e caros da Mercedez. Nem o seu apartamento de nove cômodos na Prinzregentenstrasse de Munique exatamente se encaixava na imagem de homem simples do povo, trabalhando até os ossos para o benefício da Alemanha. Também encontrei contas de hotéis onde Hitler ficou com sua equipe antes de 1933. Ele gastou 800 marcos por quatro dias no Kaiserhof de Berlim, por exemplo. Isto é equivalente hoje a €3,500.

Spiegel: O Sr. também dedicou um capítulo inteiro à relação de Hitler com as mulheres. O Sr. não acha isso muito insignificante, perguntando sobre a vida privada do ditador?

Ullrich: Acredito que este é um aspecto que não deveria ser omitido de uma biografia. No caso de Hitler, há também o fato de que ele não manteve uma divisão estrita entre suas esferas privada e pública, mas ao invés disso misturou estas áreas de uma forma muito estranha. Isto foi especialmente evidente em Berghof, onde os espaços privados e de trabalho eram interligados.

Spiegel: O que o Sr. acha da teoria de que Hitler era atraído sexualmente por homens?

Ullrich: Ele também supostamente tinha apenas um testículo, o que o deixava relutante em se despir na frente das mulheres. Mas você pode esquecer tudo isso. Aqui, também, Hitler não revelou muita coisa e pouco sabemos exatamente. Mas estou convencido de ele tinha uma relação muito mais íntima com sua última namorada, a assistente de fotógrafo Eva Braun, do que previamente se sabia***.

Spiegel: Kershaw expressa a teoria de Hitler encontrava seu prazer no êxtase das massas.

Ullrich: Não acredito nisso. Hitler sempre se retratou como um homem que renunciou a toda felicidade pessoal em serviço de seu povo. Não há evidência conclusiva disso, mas acredito que atrás da discrição enevoada, Hitler teve uma relação amorosa normal com Eva Braun.

Spiegel: Sem Hitler não teria havido Nacional Socialismo, mas sem as energias que o impulsionaram adiante não teria havido Hitler. Onde estas forças destrutivas teriam se reunido se esta figura chave não tivesse existido?

Ullrich: Elas teriam encontrado outra saída. Uma possibilidade teria sido um governo autoritário dirigido basicamente pelos militares. Pessoas como os chanceleres Schleicher e Papen mostraram do que seriam capazes após o golpe de 1932 na Prússia, demitindo servidores públicos republicanos e expurgando o governo. Leis antissemitas presumivelmente não teriam sido implementadas sem Hitler.

Spiegel: Sr. Ullrich, obrigado pela entrevista.    


      
Notas:

* Hitler explica a invasão da URSS com suas próprias palavras


** Qual o motivo do ódio de Hitler aos judeus?


*** Hitler e as mulheres


 
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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

[SGM] Partida de Futebol da SGM sobrevive ao tempo

The New York Times, 23/06/2012

 
Há poucas coisas impressionantes sobre o Start Stadium exceto suas ruínas. Arquibancadas de madeira no setor da torcida, como dentes mal cuidados, estão em sua maioria faltando ou quebradas. Atrás da pequena área das cadeiras, porém, uma coluna robusta ascende e apóia a estátua. Ela mostra um homem nu, musculoso, heroicamente chutando uma bola no bico de uma águia derrubada.

Setenta anos atrás, em 9 de agosto de 1942, o stadium tornou-se o local de um dos jogos de futebol mais infames e disputados, o chamado “Jogo da Morte”. Com Kiev sob ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de jogadores ucranianos derrotou um time militar de alemães formados possivelmente por pessoal da artilharia, talvez de unidades da Luftwaffe.

De acordo com a lenda, os alemães alertaram o time local de antemão ou na véspera do jogo que seria melhor perder a partida, e quando os ucranianos ignoraram a ameaça e venceram, os principais jogadores do time foram fuzilados.

O placar final foi 5 a 3. Isto parece todo mundo concordar. E quatro dos cinco jogadores ucranianos morreram nos próximos seis meses após o jogo, de acordo com vários relatos. Eles foram mortos porque ganharam o jogo? Acredita-se que todos os participantes estejam mortos. A verdade permanece elusiva. Um jogador que popularizou a lenda parece ter contado tantas versões da estória quanto foram os gols da partida, tanto dando um brilho no mito quanto desacreditando-o.

Aquele jogo antigo está ganhando atenção renovada à medida que a Ucrânia serve como co-participante da Euro Copa 2012. A partida cresceu além de uma disputa esportiva em direção de um mito e folclore, imortalizado em monumentos nos arredores de Kiev e em artigos, livros, documentários e filmes, mesmo uma versão estrelada por Sylvester Stallone. O último filme, chamado Partida e produzido pelos russos, estreou antes da Copa e recebeu críticas por retratar os ucranianos como simpatizantes nazistas.

Alguns acreditam que o jogo de 1942 foi, ou deve ter sido, um jogo fatal. Muitos pesquisadores e jornalistas descartam a lenda como propaganda da era soviética e tem resistido a refutá-la. Outros ainda parecem despreocupados com a verdade. Eles abraçam o mito como um símbolo duradouro do patriotismo e desafio ucranianos em um país onde entre 8 e 10 milhões de cidadãos morreram durante a guerra, um país onde rações mínimas incluíam cascas de árvores e estrume de vaca, um país cujo museu nacional da Segunda Guerra Mundial mostra uma máquina usada pelos nazistas para transformar ossos humanos em fertilizante.

“Os fatos dizem que a partida realmente aconteceu, mas não foi um jogo da morte,” diz Marina Shevchenko, uma historiadora que trabalha no Museu Nacional de História da Grande Guerra Patriótica em Kiev, como a Segunda Guerra Mundial era conhecida na antiga União Soviética. “As pessoas querem suas lendas, como Robin Hood.”

Se o jogo e sua lenda não existiram, disse Alexander Doyzhenko, um diretor cinematográfico da primeira metade do século XX, “Então teríamos que inventá-lo.”

Sob Ocupação

Em 19 de setembro de 1941, os nazistas ocuparam Kiev. Dias depois, mais de 33.000 judeus foram mortos em Babi Yar, uma planície nas redondezas da dilacerada capital. Como resultado da invasão alemã, a temporada de futebol ucraniana foi cancelada. Mas em junho de 1942, um tipo de torneio de futebol foi aparentemente organizado, recebendo dois times ucranianos e representantes da Alemanha, Hungria e Romênia.

O melhor time, F.C. Start, estava invicto. Ele era composto de padeiros, a maioria dos quais haviam jogado ou deveriam jogar pelo poderoso clube de Kiev Dynamo, que mais tarde venceria 13 campeonatos da liga soviética. Como diz a estória, o proprietário da padaria, também descrita como uma fábrica de pães, era um grande fã do Dynamo. Ele pensou na idéia de formar um time amador, fornecendo rações extras de comida aos jogadores e tempo para treinar.

Em 6 de agosto de 1942, o Start é dito ter vencido um time alemão Flakelf por 5 a 1. Flankelf traduzido para Flak 11 sugere que o time alemão era composto principalmente por aqueles que estavam envolvidos com canhões antiaéreos ao redor de Kiev. Uma revanche contra um time alemão reforçado foi realizada no final da tarde três dias depois. Uma cópia do pôster anunciando o jogo de 9 de agosto está exposto no museu da Segunda Guerra Mundial.

Cerca de 2.000 espectadores, pagando cinco rublos pelo bilhete, estiveram presentes na revanche no Start Stadium, então conhecido como Estádio Zênite. Segundo alguns relatos, o estádio estava repleto de soldados, oficiais da SS e cães policiais, apesar de outros relatos dispensarem isto. Makar Gomcharenko, uma estrela do Start, disse em 1985 num relato oral que algumas pessoas desconhecidas alertaram que poderia ser arriscado jogar contra e derrotar os alemães em uma revanche.

“Todos nos disseram: ‘O que vocês estão fazendo? É um perigo real,’” disse Goncharenko, registrado pelos funcionários do museu, que também traduziu a entrevista do russo para este artigo.

Os jogadores do Start escutaram, mas decidiram finalmente continuar com o jogo.

“Esporte é esporte,” disse Goncharenko. “Não queríamos perder.”

Ele também disse que um oficial da Gestapo visitou o time antes da partida, apresentando-se como árbitro e disse aos jogadores que eles deveriam estender seus braços direitos e fazer a saudação nazista no campo antes do jogo. Os jogadores concordaram sem a intenção de cumprir, disse Goncharenko. No final, eles recusaram a ordem, ele disse, e ao invés disso deram um popular grito esportivo, “Preparação, cultura, hurra!”

De acordo com este relato de 1985, o jogo começou brutalmente e o artilheiro do Start, Nikolai Trusevich, foi derrubado. Água foi jogada sobre ele para reacordá-lo, mas enquanto ele continuou desmaiado, os alemães fizeram três gols. Durante o intervalo, o Start decidiu jogar por um empate, acreditando que o árbitro nunca permitiria os ucranianos vencerem. Mas os instintos competitivos venceram. E após o jogo ficar empatado em 3 a 3, Goncharenko disse que ele marcou os dois gols finais para dar a vitória ao Start por 5 a 3.

Em uma entrevista de 1992 a uma estação de rádio de Kiev, Goncharenko deu outra versão da partida, que é o relato mais romantizado. Nesta versão, o Start obteve inspiração de seu artilheiro atingido na cabeça e ficou abobado, ganhando por um placar de 3 a 1 até o intervalo. É neste ponto que o oficial da SS entrou no vestiário e cumprimentou a qualidade dos jogadores. Mas, de uma forma polida e resoluta, ele também disse que eles deveriam saber das conseqüências da vitória, dando a entender que eles deveriam entregar o jogo para o time Flakelf.

Tal alerta parece plausível, diz Andy Dougan, um professor no Conservatório Real da Escócia, uma universidade de artes em Glasgow, e autor de um livro sobre o jogo, Dynamo: Triunfo e Tragédia na Kiev ocupada pelos Nazistas.

Os alemães naquela altura devem ter se arrependido da revanche, diz Dougan.

“Tornou-se um pesadelo porque eles deram ao povo algo para se reunir,” disse Dougan. “Estou muito certo que haveria um alerta, que eles tinham tido sua diversão.”

Mesmo assim, o Start não sucumbiu. O relato de uma testemunha no livro de Dougan disse que um jogador ucraniano, Alex Klimenko, driblou os alemães no final, então na cara do gol chutou a bola para fora como um ato final de humilhação aos ocupantes.

O mito mais extremo diz que os jogadores do Start foram fuzilados imediatamente após a partida, alinhados no campo ou colocados contra uma parede. Isto certamente não é verdade. Goncharenko disse em 1985 que os jogadores do Start estavam “um pouco nervosos,” mas tomaram banho e foram para casa.

De acordo com uma fotografia altamente divulgada, os jogadores de ambos os times ficaram juntos para uma foto do pós-jogo, alguns deles sorrindo. (Apesar de, como muito deste conto, mesmo a fotografia ser questionada; alguns acreditam que ela foi feita antes do jogo ou em outra partida no mês anterior.)

 
Também não é verdade que os jogadores do Start fugiram em massa, como mostrado no filme Vitória de 1981, refilmado na Alemanha e França com prisioneiros de guerra aliados e estrelando Stallone, Michael Caine, Pelé e uma trupe de jogadores profissionais.

“Hollywood,” disse rindo Sergey Mikhaylenko, presidente do fã Clube do Dynamo, “Final feliz.”

Conseqüências

O que de fato aconteceu após a partida permanece tão obscuro em muitos aspectos quano o que aconteceu durante ela.

Segundo muitos relatos, o F.C. Start jogou novamente em 16 de agosto, vencendo outro time ucraniano, o Rukh, por 8 a 0. Mas em sua história oral de 1985, Goncharenko disse que os jogadores do Start foram presos pela Gestapo na padaria que eles trabalhavam em 10 de agosto, no dia seguinte à revanche contra o time Flakelf. Os agentes da Gestapo carregavam um pôster ou folheto com os nomes  de outros jogadores do Dynamo – o time pré-ocupação para muitos atletas do Start – e queriam saber onde eles estavam, disse Goncharenko.

Ele não mencionou, mas o Dynamo era mantido pela polícia. Talvez a Gestapo suspeitasse que os jogadores eram membros do NKVD, a polícia secreta precursora da KGB. Os jogadores foram separados e torturados por mais de três semanas, disse Goncharenko, antes de serem levados para o campo de concentração de Syrets, no limite de Kiev e próximo à planície de Babi Yar.

Outros relatos dizem que os jogadores do Start foram presos em 18 de agosto, logo após a partida contra o Rukh. Há várias razões possíveis para sua prisão: eles podem ter irritado o novo regime de ocupação em Kiev e destruído a ideia da superioridade alemã vencendo todas as partidas. Eles podem ter sido traídos por Georgi Shvetsov, o dono do Rukh, que teria dito a algumas pessoas estar ciumento do sucesso do Start. Eles podem ter sido suspeitos de ter ligações com o NKVD. Um jogador, Mykola Korotkikh, é dito ter sido morto várias semanas após a partida por ser suspeito de servir na força de segurança de Stalin. Alguns relatos dizem que uma fotografia dele vestindo um uniforme do NKVD foi encontrada e ele foi dedurado sob coação de sua irmã.

Seis meses e meio após o jogo, em 24 de fevereiro de 1943, três jogadores do Start foram fuzilados, conforme relato: Trusevich, Klimenko e Ivan Kuzmenko. Em 23 de fevereiro, uma fábrica onde os alemães faziam a manutenção de lagartas motorizadas é dita ter sido sabotada em um incêndio provocado por partisans.  Na mesma época, uma brigada de trabalhadores do campo de Syrets também foi acusada de estar tentando contrabandear salsichas; um dos trabalhadores deve ter tentado atacar o comandante do campo ou seu pastor alemão no momento da prisão. Em retaliação, os alemães fuzilaram os três prisioneiros da brigada.

Dougan, o autor escocês disse acreditar que os jogadores do Start foram mortos deliberadamente. “Pode bem ter sido uma chance real, mas estes caras não eram apenas três jogadores, mas três dos melhores,” ele disse. “Acho que as chances são muito grandes.”

Promotores em Hamburgo, Alemanha, investigaram o episódio. Mas eles encerraram o caso em 2005, dizendo que não encontraram nenhuma prova de que os jogadores do Start foram assassinados por derrotar o time do Flakelf naquele final de tarde em 1942.

Uma Lenda Distorcida

Este fato dificilmente foi mantido sem ser embrulhado com lenda. No final de 1943 e no início de 1944, uma vez Kiev libertada pelos soviéticos, artigos de jornal começaram a aparecer descrevendo detalhes que se encaixariam num mito contraditório conhecido como Jogo da Morte.

Inicialmente, as autoridades soviéticas estavam hesitantes em promover a lenda, preocupadas de que os jogadores fossem colaboracionistas nazistas por terem participado de uma série de jogos em 1942, de acordo com Tetiana Bykova, uma historiadora da Academia de Ciências da Ucrânia que estudou o chamado Jogo da Morte.

Mas artigos foram publicados e “o gênio foi liberado da garrafa,” diz Bykova. “Se você não pode apagar a estória, então você deve contá-la de modo que lhe traga a maior vantagem política possível.”

A solução soviética foi eliminar os outros jogos e embelezar a ideia da partida mortal, diz Bykova. Começando no início dos anos 1950, com a publicação de um artigo de jornal de Kiev e um livro chamado O Duelo Final e filmes subsequentes produzidos pela União Soviética e Hungria, a partida serviu tanto como uma fonte do orgulho ucraniano quanto como propaganda soviética.

“É como O Homem que matou o facínora*,” diz Dougan. “Quando a lenda é melhor do que a verdade, publique a lenda.”

Inicialmente, os jogadores do Start estavam relutantes em discutir o jogo. Uma boa razão para isso era o medo, como disseram Dougan e outros. Medo de serem vistos como colaboradores nazistas. Medo de estarem ressentidos por ter vivido sob condições menos duras do que os outros e por terem escapado do serviço militar. Medo de contradizer um conto de heroísmo soviético contra as atrocidades nazistas.

Isto ajuda a explicar por que Goncharenko deu versões conflitantes ao longo dos anos. E por que, em seu relato de 1985, ele ter dito que antes de Trusevich, o goleiro, ter sido fuzilado após seis meses da partida, suas palavras finais foram, “Vida longa a Stalin, vida longa ao esporte soviético!” De acordo com Dougan, Goncharenko “estava muito assustado.”

Quando a União Soviética caiu, relatos mais prosaicos da partida foram dados. Georgi Kuzmin, um jornalista ucraniano que cobriu o futebol por mais de 40 anos, disse que Goncharenko lhe contou em 1991 que ninguém pediu para os jogadores do Start não jogarem e que Goncharenko não acreditava que os jogadores foram deliberadamente assassinados por terem ganho a partida. Goncharenko deu um relato semelhante a um jornal ucraniano em 1996, dizendo que foi um jogo normal. Ele faleceu naquele ano.

Quando os antigos jogadores do Start receberam medalhas cerca de duas décadas após a partida, um deles, Mikhail Putisin, recusou a sua, dizendo mais tarde que ele não participaria de uma mentira, diz Kuzmin.

Bykova, a historiadora, disse que a evidência é que os alemães jogaram limpo e não machucaram o goleiro, pelo menos não propositalmente. Foram os ucranianos que se tornaram mais agressivos enquanto o jogo corria, ela disse. Ela também acredita que um relato mais honesto do jogo poderia ter se tornado mais poderoso do que o mito.

Hoje, o Start Stadium promove os jogos de verão para equipes amadoras e semiprofissionais, cujos jogadores nem sempre esperam até o apito final para fortalecer seu corpo com cerveja e cigarros. As crianças andam de bicicleta e patins em uma pista asfaltada em torno do campo bem aparado. E a estátua atrás das arquibancadas mal cuidadas perpetua a lenda do Jogo da Morte.

“Era propaganda,” disse Kuzmin, cuja história do futebol ucraniano, O que aconteceu e o que não aconteceu, foi publicada em 2010. “Os soviéticos poderiam mostrar que as pessoas poderiam morrer pelo bem da ideologia soviética. E as pessoas de Kiev gostavam da estória. É um bom conto de fadas. Mas todos devem saber a verdade.”

Para alguns, a verdade não é tudo.

No estádio do Dynamo em Kiev, há um monumento honrando os quatro jogadores do Start que morreram nas semanas e meses seguintes à partida de 1942. Os jogadores estão nus, segurando as mãos, fisicamente fortes. Viagens de turismo ao estádio e ao monumento não são incomodadas pelo debate. Ambos são celebrações, não investigações.

“Nenhum documento pode provar qualquer destas coisas,” disse Kirill Boyko, chefe do fã clube do Dynamo. “Somos patriotas pelo nosso país e time. Acreditamos na lenda.”


Nota:

* "The Man Who Shot Liberty Valance" (título original), 1962. Um senador que tornou-se famoso por matar um fora-da-lei conhecido retorna à cidade para o funeral de um velho amigo e conta a verdade sobre o que aconteceu.

Mais de um cérebro por trás de E = mc2

Spacedaily, 28/01/2013


Dois físicos americanos ressaltaram o papel desempenhado pelo físico austríaco Friedrich Hasenohrl em estabelecer a proporcionalidade entre energia (E) e a quantidade de matéria com sua massa (m) em um orifício cheio de radiação.

Em um artigo a ser publicado na EPJ H (European Physical Journal Historical Perspectives http://epjh.epj.org/), Stephen Boughn da Faculdade Haveford na Pensilvânia e Tony Rothman da Universidade Princeton em Nova Jersey argumentam como o trabalho de Hasenohrl, pelo qual ele agora recebe pouco crédito, pode ter contribuído para a famosa equação E = mc2

 Friedrich Hasenohrl

De acordo com o filósofo da ciência Thomas Kuhn, a natureza do progresso científico ocorre através de desvios de paradigma, que depende das circunstâncias culturais e históricas de grupos de cientistas. Contribuindo com esta idéia, os autores acreditam que a noção de que a massa e a energia deveriam estar relacionadas não se originou somente com Hasenohrl.

Nem ela surgiu repentinamente em 1905, quando Einstein publicou seu artigo, como a mitologia popular apresenta. Dada a falta de reconhecimento pela contribuição de Hasenohrl, os autores examinaram o trabalho original do físico austríaco sobre radiação do corpo negro em um orifício com paredes perfeitamente reflexivas.

Este estudo busca identificar a razão pela qual o físico austríaco chegou a uma relação energia/massa com o fator errado, precisamente a equação E = (3/8) mc2.

O erro de Hasenohrl, eles acreditam, foi em falhar em considerar a massa perdida pelo corpo negro enquanto emite a radiação.

Antes que Hasenohrl focasse na radiação de cavidade, outros físicos, incluindo o matemático francês Henri Poincare e o físico alemão Max Abraham mostraram a existência de uma massa inercial associada com energia eletromagnética.

Em 1905, Einstein deu a correta relação entre massa inercial e energia eletromagnética, E = mc2. Mesmo assim, não foi somente até 1911 que o físico alemão Max Von Laue generalizou-a para incluir todas as formas de energia.  


Biografia detalhada de Friedrich Hasenöhrl


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[SGM] Ativistas Ucranianos chamam a atenção para tragédia pouco conhecida

Radio Free Europe, 23/08/2013

Em 1941, à medida que as tropas alemãs atravessavam a Ucrânia da era soviética, a polícia secreta de Josef Stalin explodiu uma usina hidroelétrica na cidade meridional de Zaporizhzhya no sentido de deter o avanço nazista.

A explosão inundou as vilas ao longo das margens do Rio Dniper, matando milhares de civis.

Quando a Europa registra seu Dia da Lembrança pelas Vítimas do Stalinismo e Nazismo em 23 de agosto, um grupo de cidadãos de Zaporizhzhya está lutando pelo reconhecimento da tragédia pouco conhecida da guerra.

O dia, que também é conhecido como Dia da Banda Preta fora da Europa, coincide com o aniversário do Pacto Molotov-Ribbentrop de 1939 de não-agressão entre a Alemanha Nazista e a União Soviética.

A Ucrânia sofreu perdas pesadas durante a Segunda Guerra Mundial e sob o domínio de Stalin.

Os eventos de Zaporizhzhya aconteceram em agosto de 1941. Enquanto as tropas nazistas se aproximavam da cidade, Moscou enviou agentes do NKVD, o predecessor da KGB, para explodir a planta hidroelétrica DniproHES da cidade.

A equipe conduziu sua missão de maneira bem sucedida – que os historiadores afirmam ter sido ordenada pelo próprio Stalin – provocando um buraco na estrutura e temporariamente isolando parte da cidade dos invasores.

Mas a explosão também inundou vilas e assentamentos ao longo do Rio Dniper.

O grande vazamento matou milhares de civis inocentes, assim como soldados do Exército Vermelho que estavam atravessando o rio.


Já que nenhuma estatística de mortes foi liberada ma época, o número estimado de vítimas varia enormemente. A maioria dos historiadores estima entre 20.000 e 100.000, baseados no número de pessoas então vivendo nas áreas afetadas.
   
“As pessoas gritavam”

O sobrevivente Oleksiy Dotsenko diz que o Dniper tornou-se vermelho aquele dia.

Seu relato, registrado quatro anos atrás pelo canal de TV 1+1, é um dos últimos testemunhos remanescentes da tragédia.

“As pessoas gritavam por ajuda. O gado mugia, os porcos gritavam. As pessoas subiam nas árvores,” ele lembra.

Muitos cidadãos de Zaporizhzhya, contudo, não conhecem o desastre.

Historiadores locais e ativistas dos direitos civis acusam as autoridades municipais de perpetuar os esforços da era soviética de encobrir a verdade ao se recusar em homenagear as vítimas.

Funcionários reconhecem que civis inocentes morreram, mas defendem que a destruição da usina foi necessária para salvar vidas incontáveis.

“Não havia ninguém na época para defender Zaporizhzhya,” diz Oleksiy Baburin, chefe da sede local do Partido Comunista Ucraniano. “Tínhamos poucos soldados. Não havia quase tropas do NKVD ou regimentos militares que pudessem ter parado os alemães. Por isso é que explodir a DniproHES permitiu que a evacuação continuasse.”

Mas uma parte dos historiadores rejeita tais afirmações, insistindo que a operação foi porcamente conduzida e as tropas nazistas não tinham planos imediatos de tomar a cidade.

Nenhum reconhecimento oficial

O historiador Vladsyslav Moroko diz que os homens encarregados da missão, Boris Epov e Aleksandr Petrovsky, apressaram a explosão da usina por temer Stalin.

“Na realidade, Epov e seus subordinados estavam menos preocupados com a possível invasão alemã de Zaporizhzhya do que com o fato de que eles não pudessem ser capazes de conduzir as ordens de Stalin,” diz Moroko. “Eles temiam que DniproHES fosse capturada e que eles não seriam capazes de cumprir a ordem de Stalin.”

Um monumento próximo da hidroelétrica, que ainda existe, presta homenagem às tropas que defenderam a instalação durante a Segunda Guerra Mundial.

Um grupo de residentes locais este ano instalou uma cruz de madeira em Zaporizhzhya em 18 de agosto, o aniversário da tragédia de DniproHES.

Mas ainda não existe nenhum monumento oficial ou placa na cidade para homenagear suas vítimas.

Moroko e outros escreveram uma carta aberta exigindo às autoridades municipais para corrigir este erro. A carta ainda não foi respondida.

“Esta petição era pública. As organizações civis e cidadãos responderam a ela e expressaram seu apoio,” diz Moroko. “Mas o governo está agindo como se nada tivesse ocorrido.”


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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

[POL] Hitler e as mulheres

As Mulheres no Terceiro Reich



As mulheres tiveram um papel central no plano de Adolf Hitler em criar uma Comunidade Alemã (Volksgemeinschaft) ideal. Hitler acreditava que uma população maior e mais racialmente pura fortaleceria a força militar da Alemanha e daria colonos em número suficiente para serem assentados nos territórios conquistados da Europa oriental. A agressiva política do Terceiro Reich em relação à população encorajou mulheres “racialmente puras” a parir tantas crianças “arianas” quanto fosse possível.

Antes de 1931, muitas organizações femininas apoiaram o nacionalismo, algumas abertamente defendendo o NSDAP (Partido Nazista) de Hitler. O Movimento Nacionalista Newland de Guida Diehl recrutava mulheres bem educadas da comunidade protestante e escreveu em suas memórias suas primeiras impressões sobre Hitler em meados dos anos 1920: “Sério, afetuoso e natural – ele corre atrás de seus objetivos. Ele não trouxe nada de novo. Apenas um resumo do melhor de nossa tradição nacional. Ele ofereceu uma organização dinâmica onde outros confiavam em política partidária sem inspiração.”

As mulheres católicas eram mais cautelosas, mas há muito tempo já haviam endossado visões social e politicamente conservadoras, e começaram a clamar por uma “democracia autoritária”.

Em 1931, muitas organizações femininas nacionais e nacional socialistas juntaram-se sob a NS Frauenschaft, que mais tarde foi declarada a organização oficial para mulheres no Terceiro Reich. Gertrud Scholtz-Klink liderou este grupo de 1934 até 1945. Ela começou pela organização das mulheres em Baden, um pequeno estado liberal e católico no sudoeste da Alemanha, após ficar viúva em 1928 com seis crianças para cuidar. Como líder das mulheres do Reich (Reichsfrauenfuhrerin), ela regularmente tinha que encarar encontros com o Führer e compartilhar o palanque com ele durante as principais reuniões das mulheres.

Apesar de sofrer grande miséria após a Guerra, inclusive prisão, Scholtz-Klink desapontou e enfureceu um mundo que esperava que ela mostrasse arrependimento por seu passado nazista. Após entrevistar ela em 1987, a autora feminista Claudia Koonz escreveu, “... ela não é uma ex-nazista. Sem um traço de ironia, ela lembrou que ‘se você pudesse ter visto as mulheres de Berlim defendendo sua cidade com suas vidas contra os russos, então você acreditaria o quão profundo as mulheres alemãs amavam nosso Führer.’”

Em 1932, reconhecendo o gênio cinematográfico de Leni Riefenstahl, Hitler marcou um encontro e lhe disse que quando ele assumisse o governo, “você deve fazer os meus filmes.” Após ela completar o documentário Vitória da Fé, ele prometeu-lhe recursos ilimitados e completo controle artístico para o filme da Reunião do Partido em Nuremberg em 1934. O resultado, o famoso O Triunfo da Vontade, ganhou aclamação internacional, incluindo o Prêmio Cinematográfico de Paris de 1937.

Em 1932, cerca de 50% dos votos nos nazistas vieram das mulheres.

Por outro lado, a União das Mulheres Nacional Socialistas e a Agência das Mulheres Alemãs usaram a propaganda nazista para encorajar as mulheres em focar em seus papeis como esposas e mães. Além de aumentar a população, o regime também buscava melhorar sua “pureza racial” através do “melhoramento da espécie”, notavelmente promulgando leis proibindo o casamento entre arianos e não-arianos, e simultaneamente prevenindo que deficientes e portadores de certas doenças pudessem se casar.

Em 1936, os líderes da SS criaram o programa governamental conhecido como Lebensborn (Fonte da Vida)*. Como uma extensão da Ordem de Casamento da SS de 1932, o decreto do Lebensborn de 1936 prescrevia que todo membro da SS deveria gerar quatro filhos, dentro ou fora do casamento. Os lares Lebensborn abrigavam bebês ilegítimos e suas mães, fornecia certidões de nascimento e apoio financeiro, recrutando pais adotivos para as crianças.
No final, contudo, o programa Lebensborn nunca foi promovido agressivamente. Ao invés disso, a política populacional nazista concentrou na família e no casamento. O Estado encorajava o matrimônio através de empréstimos para casamento, dispensava suplementos de renda familiar para cada nova criança, publicamente honrava famílias “ricas em crianças”, agraciava com a Cruz da Honra da Mãe Alemã as mulheres que tivessem quatro ou mais filhos e aumentava as punições para aquelas que cometessem aborto.

Durante a guerra, a necessidade por mão de obra fez com que o Estado arregimentasse mulheres para a força de trabalho (por exemplo, através do Ano do Dever, o plano de serviço compulsório para todas as mulheres). Em 1939, havia excepcionalmente uma alta porcentagem de mulheres trabalhando em comparação com outros países ocidentais: mais de 14 milhões estavam empregadas e quando a escassez de mão de obra apareceu no final da guerra, provou-se difícil levar as mulheres idosas ou mães de muitas crianças para as fábricas. Quando os bombardeios começaram, milhões de mulheres tiveram que abandonar as metrópoles em direção das pequenas cidades e vilarejos, onde elas tomavam conta de escolas locais e faziam trabalhos assistenciais. Em 1945, mais de 50% da força de trabalho nativa era feminina, um nível somente excedido pela União Soviética. Mesmo nas forças armadas, o número de mulheres em funções auxiliares se aproximava de 500.000. Portanto, a afirmação de que as mulheres sob o Terceiro Reich foram excluídas do mercado de trabalho é mito.

As Mulheres que Hitler amou

A primeira mulher na vida de Hitler foi sua mãe Klara. Como seu primogênito, ela direcionou seu amor para ele, mas logo um irmão mais novo, seguido de uma irmã, exigiram também sua atenção. Adolf cresceu segundo um caminho independente e aventureiro, interessado vivamente no mundo ao seu redor. Ele entrou em choque com seu pai por causa de sua escolha de carreira, mas não com sua mãe que permitiu-lhe seguir seu próprio caminho.

Foi a doença da mãe e a morte subsequente por câncer com 46 anos de idade que, somente dois anos após a morte de seu pai, podemos vislumbrar as fortes emoções de Hitler. De acordo com o médico da família, o jovem Adolf, então com 15 anos, deixou a escola em Viena e voltou para casa para acompanhar o estado de saúde dela, aplicando ele mesmo os dolorosos e caros tratamentos, e mesmo ajudando na manutenção da casa. Quando, um pouco antes do Natal, ela morreu, o médico relatou que nunca tinha visto alguém se abater tanto como Adolf Hitler com a perda de sua mãe**.

Foi em 1906 que Hitler ficou obsecado por Stefanie Jansten. Seu interesse pela filha de um funcionário público duraria muitos anos. Com 16 anos, ele decidiu casar-se com ela, escrevendo poemas românticos e mesmo enviando-lhe uma carta detalhando seu casamento iminente. Mesmo assim, os versos de amor permaneceram não lidos e a carta foi postada sem assinatura. Furioso por saber que ela havia dançado com outro rapaz em um baile, ele ameaçou jogar-se no Rio Danúbio. “Você deve saber. Estou apaixonado por ela,” confidenciou para um amigo aquele dia. Mesmo durante a Segunda Guerra, em seu quartel-general Toca do Lobo na Prússia oriental, ele falaria com carinho de seu “primeiro amor”. De Stefanie, ele disse que entre tais “seres humanos excepcionais” não havia necessidade da usual forma de comunicação falada.

Contudo, Hitler teve somente dois relacionamentos sérios na vida, ambos terminando com o suicídio de suas parceiras: sua meia-sobrinha Geli Raubal, que matou-se para não ter que viver um relacionamento marcado pelo ciúmes doentio, e Eva Braun, que envenenou-se no bunker em Berlim ao invés de viver sua vida sem Hitler.

 Geli Raubal e Eva Braun

Angela Maria Raubal nasceu em Linz na Áustria em 4 de junho de 1908, onde ela cresceu com seu irmão Leo e a irmã Elfriede. Seu pai faleceu aos 31 anos, quando Geli tinha apenas dois anos de idade.

Parece que ela só conheceu Hitler aos dezesseis anos, quando ele estava preso na prisão de Landsberg, escrevendo Minha Luta que mais tarde o deixaria muito rico. Geli costumava chamá-lo de “Tio Alf”. Em 1927, os dois iniciaram um relacionamento e Hitler começou a tornar-se gradativamente obcecado.
Herrmann Göring mais tarde diria aos advogados nos julgamentos de Nuremberg que a morte de Raubal devastou Hitler de tal forma que ele mudou suas opiniões e relacionamentos com todas as pessoas***.

Após a Primeira Guerra Mundial, seu primo, William Patrick Hitler, assim descreveu Geli quando a encontrou em Obersalzberg.

Geli parecia mais com uma criança do que com uma moça. Você não podia dizer que ela era bonita exatamente, mas ela tinha um encanto natural. Ela geralmente não usava chapéu e vestia roupas simples, saias amassadas e blusas brancas. Sem jóias, exceto uma suástica dourada dada a ela pelo tio Adolf, que ela chamava de tio Alf.

À medida que Hitler ascendeu como líder do Partido Nazista, ele manteve um controle direto sobre Geli, a qual dividia o tempo entre o apartamento em Munique e a casa de campo em Berghof próxima de Berchtesgaden, onde sua mãe trabalhou como governanta após 1929. Ele não permitia amizades sem seu consentimento e tentou colocar pessoas confiáveis para vigiá-la, acompanhando-a nas compras, no cinema e na ópera. Havia boatos, inclusive, de que ele a mantinha fechada em casa durante o dia, quando não podia vigiá-la. Apesar dos esforços em controlar a garota – e talvez por esse motivo – Geli não retribuiu os sentimentos e tornou-se ligada a Emil Maurice, um dos fundadores da SS e chofer de Hitler. Hitler acabou demitindo-o, porém mais tarde o recontratou e o promoveu. Maurice mais tarde afirmou que Hitler “... a amava, mas era uma afeição estranha que não transparecia.” Se qualquer ressentimento apareceu em Hitler, ele não durou, já que os dois mais tarde se reconciliaram, após Maurice ser enviado durante a Noite das Longas Facas para assassinar Bernhand Stempfle, um ex-padre e ex-prisioneiro de Landsberg, que alguns dizem ter sido um dos editores do livro Minha Luta e conhecedor de detalhes do relacionamento entre Hitler e Geli.

No início dos anos 1930, Hitler estava financeiramente bem, de modo que ele alugou um apartamento em uma região valorizada de Munique, o número 16 da Prinzregentplatz. Este imóvel continha de 9 a 15 cômodos, dependendo dos relatos diferentes registrados de seu espaço. Curiosamente, Hitler mais tarde compraria o bloco inteiro de apartamentos com os direitos do Minha Luta e doações generosas a seu partido.

Em 19 de setembro de 1931, Geli cometeu suicídio com uma pistola, da própria coleção de Hitler. Ela só tinha 23 anos na época. Desde então boatos circularam de que sua morte foi encomendada, já que seu relacionamento com Hitler representaria supostamente um problema. 

Um homem com o qual ela se confidenciou foi Otto Strasser (1897 – 1974), uma figura importante no partido na época. “Você nunca acreditará nas coisas que ele me obriga a fazer,” teria dito ela a Strasser. Isto foi o que Strasser contou a amigos, mas todos sabiam da raiva que os irmãos Strasser sentiam por Hitler+. Otto começou a ser isolado dentro do partido e queria de todas as maneiras manchar a reputação de Hitler nas eleições vindouras.

Por outro lado, mesmo antes da morte de Geli, Hitler envolveu-se com Eva Braun, a mais famosa de suas mulheres. Hitler e Braun tornaram-se amantes em 1932. Ela ficou com ele por 13 anos, até a morte.

Eva Paula Braun nasceu em Munique em 6 de fevereiro de 1912 em uma família católica tradicional. Eva era a segunda filha do professor de escola secundária Friedrich "Fritz" Braun, um protestante não praticante, e Franziska "Fanny" Kronberger, que pertencia a uma respeitada família católica bávara. Sua irmã mais velha, Ilse, nasceu em 1909 e sua irmã mais nova, Margarete, nasceu em 1915. Eva foi educada em um liceu, então por um ano em uma escola de negócios em um convento, onde foi uma aluna regular e com bom desempenho em atletismo. Ela trabalhou por muitos meses como recepcionista num consultório médico e, então, com 17 anos, conseguiu um emprego como assistente de laboratório e modelo para Heinrich Hoffmann, fotógrafo oficial do Partido Nazista. Ela se encontrou com Hitler, 23 anos mais velho, no estúdio de Hoffmann em Munique em outubro de 1929. Ele foi apresentado a ela como “Sr. Wolf” (um apelido que ele usou nos anos 1920 por motivos de segurança). Ela o descreveu para os amigos como “um cavalheiro de certa idade, com um bigode engraçado, um casaco tipo inglês descolorido e carregando um grande chapéu de feltro.” Ele gostou da cor dos olhos dela, que lembravam os de sua mãe. A família de Eva se opôs ao relacionamento e pouco se sabe sobre ele nos dois primeiros anos.

Eva Braun tentou o primeiro suicídio em 1 de novembro de 1932, com a idade de 20 anos, atirando contr si no peito com a pistola de seu pai. Ela tentou suicídio mais uma vez em 28 de maio de 1935, tomando uma overdose de Fanodorm (comprimidos para sono). Após a recuperação de Braun, Hitler tornou-se mais comprometido com ela e conseguiu comprar com os direitos das várias fotografias dele feitas pelo estúdio de Hoffmann uma casa em Munique. Esta renda também garantiu a ela um carro, um motorista e uma empregada.  

Eva sabia que Hitler jamais se casaria, já que o objetivo dele era apenas a Alemanha. Ela passava o dia fazendo exercícios, lendo livros e escrevendo em seu diário, onde ela reclamava da infelicidade por Hitler dispensar pouco tempo a ela.

Mas, de acordo com o criado de Hitler, Heinz Linge, “ele telefonava para ela a cada dois dias. Se seus auxiliares ou (Martin) Bormann viajassem até Munique, ele lhes dava cartas para Eva.” Hitler apresentava Eva a seu círculo íntimo com palavras amáveis. Traudl Junge, a secretária de Hitler de longo tempo, lembrou que ele segurava sua mão, chamando-a de Mein Patscherl.

Uma carta de Hitler para Eva após a tentativa de assassinato de 1944, revela a ligação afetiva que se desenvolveu entre os dois:

Mein Liebes Tschapperl, Não se preocupe comigo. Estou bem, apenas um pouco cansado. Espero ir para casa logo e então descansar em seus braços. Há muito tempo preciso de um descanso, mas meu dever com o povo alemão vem em primeiro lugar acima de tudo. Não se esqueça de que os perigos que encontrei não se comparam àqueles que os soldados enfrentam na linha de frente. Obrigado pela prova de sua afeição e peço-lhe que agradeça ao seu querido pai e à sua graciosa mãe pelos cumprimentos e desejos de boa recuperação. Estou muito orgulhoso da honra – por favor, lhes diga isso – de ter o amor de uma mulher que vem de uma tal família distinta. Estou lhe enviando o uniforme que estava vestindo naquele dia infeliz. É a prova de que a Providência me protegeu e não tenho mais o que temer de nossos inimigos. De todo meu coração. Seu A.H.

A resposta de Eva:

Geliebter, estou for a de mim. Estou morrendo de ansiedade agora que sei que você corre perigo. Volte o mais rápido que puder. Sinto como se fosse ficar louca. O tempo está bonito aqui e tudo parece tão calmo que fico envergonhada disso. Você sabe que sempre lhe disse que morreria se algo te acontecesse. Desde o nosso primeiro encontro, te disse que te seguirei onde quer que você for, mesmo na morte. Você sabe que vivo apenas pelo seu amor. Sua, Eva.

Quando Hitler tornou-se Chanceler da Alemanha, Braun sentava-se na área VIP como secretária, fato que transtornava sua meia-irmã Ângela (mãe de Geli), junto com as esposas de outros ministros. Consequentemente, Ângela ficou proibida de viver próxima de Eva. Em 1936, Braun se mudou para Berghof, mesmo que Hitler passasse pouco tempo lá. Em 1938, Hitler nomeou Eva como sua principal herdeira, recendo uma pensão de 600 libras britânicas na época após sua morte (considerando a inflação desde então, hoje seriam 28.000 libras, ou quase R$ 100.000). Mesmo assim, a influência política de Braun sobre Hitler foi aparentemente mínima. Ela não participava de reuniões políticas ou econômicas. A única vez que ela envolveu-se com uma questão política foi em 1943, logo após a Alemanha adotar a economia de guerra total. Entre outras coisas, isto significava o banimento de cosméticos e outros luxos (que também ocorreu nos países aliados). Hitler é conhecido por ter se oposto ao uso de cosméticos femininos pelo fato deles serem produzidos a partir de material animal (ele era vegetariano) e algumas vezes mencionava isso nas refeições. De acordo com Albert Speer, Braun encontrou-se com Hitler imediatamente indignada com essas medidas, de modo que Hitler pediu a Speer reduzisse a produção de cosméticos ao invés da total interrupção de produção.

Linge escreveu em suas memórias  que Hitler e Eva tinham dois quartos e dois banheiros com portas interconectadas em Berghof e Hitler encerrava a maior parte de suas noites sozinho com ela em seu escritório antes deles irem para a cama. Ela vestiria uma camisola, bebendo vinho enquanto Hitler degustava chá.

Em 15 de abril de 1945, ela voou de Munique para Berlim. Hitler ordenou que ela retornasse a Munique, mas ela se recusou dizendo: “Você acha que eu vou te deixar morrer sozinho?” Nas primeiras horas de 29 de abril, Hitler e Eva se casaram. No mesmo dia, de acordo com Traudl Junge, quando Hitler mandou redigir seu Último Desejo e seu Testamento Político, ele desculpou-se pelos aborrecimentos a ela e pediu “com sua gentileza usual” que todas as necessidades de Eva fossem cumpridas.

Em seu Desejo, Hitler chama Eva de sua esposa três vezes, encerrando com “Eu e minha esposa... escolhemos a morte.”

Hitler e Braun nunca apareceram juntos em público e existe a indicação de que os dois não se casaram no início do relacionamento porque Hitler tinha medo de perder o apoio do eleitorado feminino. O povo alemão nunca soube da relação de Eva com Hitler até após a guerra.

Notas:

* A Trágica História das Crianças do Lebensborn


** O Judeu Favorito de Hitler        


*** Hitler foi o "chefe perfeito", diz ex-criada
 

+ Hitler era um pervertido sexual?


Fontes:





Desmascarando "O Segredo de Hitler"

Todos os Homens do Führer

Walter Reich

The New York Times, 16/12/2001


Lothar Machtan defende em O Segredo de Hitler que ele tem obteve evidência convincente de que Hitler era homossexual e que sua homossexualidade explica muito sobre quem Hitler era e por que ele fez o que fez. Machtan, de fato, tem tal prova? E se Hitler fosse de fato homossexual, isto forneceria a chave para a psicologia do homem ou para os modos no qual era revirou as fundações morais e humanas do século XX? As acusações da homossexualidade de Hitler, ativa ou latente, não são novas. Elas o perseguiram durante sua ascensão ao poder e após ele o ganhar. Elas fizeram parte de inúmeras biografias. E elas são a base de ocasionais imagens suas até hoje. Que Mel Brooks apresenta Hitler como um homossexual exagerado em “Os Produtores” – uma bicha idiota, histérica e revoltada, como o roteiro do musical o faz – não é mera coincidência.

O que Machtan acrescenta ao seu legado de afirmações e especulações é, ele diz, evidência histórica. Ele reconhece que algumas provas são apenas circunstanciais. Mas algumas, ele insiste, não são apenas concretas, mas também novas, pelo menos no modo que ele as desenvolve e defende sua credibilidade.

Machtan, que ensina história na Universidade de Bremen na Alemanha, sugere que Hitler provavelmente teve uma relação homoerótica com seu amigo August Kubizek, com quem ele viveu em Viena em 1908; que ele teve um caso sexual rude com um colega de farda durante a Primeira Guerra Mundial; que ele pode ter tido contatos homossexuais com jovens rapazes em Munique após a guerra; e que ele pode ter se envolvido em atividades homossexuais logo após chegar ao poder em 1933.

Além disso, Machtan argumenta que muito do que Hitler fez no poder foi influenciado não pelas razões que os historiadores geralmente costumam indicar, mas por causa de seu esforço em eliminar provas de sua homossexualidade. Assim, Machtan diz que em 1934 – quando Hitler ordenou o assassinato de, entre muitos outros, seu colega de longo tempo e chefe da organização paramilitar SA, Ernst Röhm, um declarado e bem conhecido homossexual – ele estava motivado principalmente pelo desejo de destruir evidência potencialmente perigosa de seu passado homossexual, e não para se livrar de alguma ameaça política ou militar. E a perseguição do regime nazista aos homossexuais era, diz Machtan, essencialmente causada pelo desejo de Hitler calar ou destruir pessoas de um mundo que ele já havia feito parte, alguns dos quais poderiam “revelar segredos desonrosos” sobre ele. Quanto aos envolvimentos de Hitler com várias mulheres – particularmente Eva Braun e sua meia-sobrinha Geli Raubal – Machtan argumenta que estas mulheres eram camuflagem para sua homossexualidade fundamental. A prova circunstancial da homossexualidade de Hitler que Machtan cita – e que ele constrói com considerável zelo – consiste em grande medida no meio homossexual presumido ou real que Hitler teria freqüentado em várias épocas de sua vida; os homossexuais ou possíveis homossexuais que estiveram associados a ele; e a variedade de fatos que poderiam ser explicados pela homossexualidade de Hitler, como o fato de seus superiores negarem promoção durante a Primeira Guerra Mundial.

A evidência concreta que Machtan apresenta é uma série de documentos que, ele afirma, tem sido injustificadamente ignorados ou dispensados. O principal documento desta categoria é o chamado Protocolo Mend, uma afirmação feita em 1939 por Hans Mend, um mensageiro militar que serviu com Hitler durante a Primeira Guerra Mundial. Mend testemunhou que durante a guerra ele tinha visto Hitler “dormindo á noite com Schmidt – Ernst Schmidt – seu amante.”

Machtan também cita textos deixados por Eugen Dollmann, o interprete de Hitler. Dollmann escreveu que ele ouviu de Otto Von Lossow, um general do Reichswehr em Munique após a Primeira Guerra Mundial, que havia um arquivo policial contendo testemunhos de rapazes em Munique que Hitler havia lhes pago para passar a noite com ele.

Mas a prova circunstancial que Machtan fornece é apenas isso – circunstancial. E a evidência concreta parece muito menos confiável do que ele poderia nos fazer crer. Hans Mend era um mentiroso habitual e chantagista e o general Lossow havia participado na repressão ao putsch de Hitler em 1923. Consequentemente, sua vida estava sendo ameaçada pelos simpatizantes de Hitler, e ele estava desesperado em convencê-los de que ele tinha prova incriminadora contra seu líder. 
Mas o maior problema com o livro de Machtan não é a confiabilidade de suas fontes, mas o seu modo de argumentação. Ele aceita qualquer coisa que se encaixe em sua tese e rejeita aquilo que não se encaixa. Sentimos, algumas vezes, que estamos lendo um relatório interno do FBI da época de J. Edgard Hoover ao invés de um trabalho sério de academicismo no qual o autor está pronto para ser guiado pelos fatos.

Para interpretar a prova do seu meio, Machtan emprega sugestão e insinuação. Ele faz perguntas retóricas planejadas para levar o leitor a respondê-las da maneira que apóie seu argumento, mesmo quando explicações alternativas são ao menos plausíveis. Ele introduz possibilidades que são então assumidas serem probabilidades e, então, certezas. Ao usar pontos de exclamação, ele destaca o que são provavelmente comentários inócuos de modo que eles parecem carregar conteúdo homoerótico. Em outras palavras, ele escreveu um livro tendencioso que é mais um depoimento para a promotoria do que um trabalho sério de história.

Machtan diz que ele quer entender “o Hitler de Auschwitz” e lamenta que saibamos tão pouco sobre o homem que produziu a maior profanação da história humana e da moralidade. Mas ele certamente não chega perto de explicar qualquer destruição de Hitler ao explorar sua sexualidade. Num certo sentido, isto pode na verdade servir para humanizar Hitler. Mas não serve para explicá-lo.  

Lothar Machtan (n. 1949) é um historiador alemão e professor na Universidade de Bremen, nascido em uma família judia em Gelsenkirchen.