quarta-feira, 20 de novembro de 2013

[POL] Alemães prontos para ver Hitler como humano

Globalpost, 07/12/2010




Quando Suástica foi apresentado no festival de Cannes em 1973, brigas eclodiram na sala de projeção e alguém lançou uma cadeira contra a tela.

“Foi um pandemônio,” disse Philippe Mora, o diretor francês radicado em Los Angeles. “As pessoas gritavam e jogavam coisas. Eventualmente, eles interromperam o filme e um cara saiu da multidão e disse, ‘Senhoras e senhores, isto é o festival de Cannes e não um salão de cervejaria.’”

A razão pela reação furiosa foi que o documentário de Mora parecia humanizar Adolf Hitler. Usando vídeos domésticos inéditos do líder nazista descansando em seu retiro alpino em Obersalzberg, filmados em sua maior parte pela namorada de Hitler, Eva Braun, Suástica destruía a imagem aceita de Hitler como um monstro.

As platéias puderam ver a personificação do Mal brincando com seu cachorro, paparicando crianças e discutindo o filme “E o Vento Levou”. Elas não gostaram e o filme foi proibido na Alemanha.

Mês passado, Suástica foi exibido na Universidade Humboldt de Berlim para uma platéia nova e mais jovem, que estava entre os primeiros alemães a ver o filme. Não somente não atiraram coisas como se sentiram confortáveis o suficiente para rir sarcasticamente nos momentos irônicos e fizeram perguntas educadas durante a sessão de esclarecimento de dúvidas.

Foi um exemplo, Mora notou mais tarde, como a visão da Alemanha de sua própria história nazista está constantemente evoluindo e que perguntas-chaves – incluindo por que tantos alemães comuns apoiaram o regime que perpetrou o Holocausto – ainda estão para serem respondidas.

Até os anos 1980, alemães ocidentais raramente discutiam a era nazista, disse Simone Erpel, co-curadora de uma nova exibição, “Hitler e os Alemães”, parte do mesmo esforço para reexaminar a era nazista junto com a exibição de Suástica. A idéia de Hitler como personagem cinematográfico era um tabu até o final dos anos 1990. Filmes controversos como “A Queda” (2004), que retratava Hitler humanamente e mesmo em algumas vezes de forma simpática, ou “Mein Führer” (2007), que foi uma comédia madura, derrubaram o tabu.

“O filme de Philippe foi feito muito cedo,” diz Erpel após a exibição na Universidade Humboldt, na qual ela participou da sessão de perguntas e respostas. “Muita coisa mudou desde o começo dos anos 1970.”

Sua exibição atual no Museu Histórico Alemão, que mostra como os alemães comuns contribuíram entusiasticamente para a máquina de propaganda nazista, teria encontrado o mesmo destino se tivesse sido realizada em 1973, diz ela.

“Os alemães não estavam preparados para aqueles fatos 30 anos atrás,” diz ela. “Eles criaram lendas que diferenciam o povo alemão dos nazistas. As pessoas diriam, “Meu avô não era nazista e ele não foi um assassino.”

O ultraje que Suástica originalmente recebeu foi mais constrangedor em virtude do enorme trabalho que Mora teve para revelar os vídeos caseiros de Hitler. Era material para um romance de espionagem internacional.

Ele tornou-se um diretor celebrado de filmes como Mad Dog Morgan, com Dennis Hopper, O Retorno do Capitão Invencível, com Alan Arkin, e o filme de ficção científica Communion, com Christopher Walken, sem mencionar os filmes de terror B, The Howling, partes I e II.

Mas quando começou Suástica, Mora era apenas um cineasta de 23 anos explorando a história nazista. Seu próprio pai, que nasceu em Leipzig, foi expulso da Universidade de Humboldt nos anos 1930 porque ele era judeu.

Mora planejou originalmente uma biografia de Albert Speer, o arquiteto nazista e confidente de Hitler que escapou da sentença de morte. Ele passou um dia na casa de Speer em Heidelberg, durante o qual Speer apresentou seus próprios vídeos caseiros dos anos 1930. Em um filme, Eva Braun podia ser vista segurando sua própria câmera no retiro de Oberzalsberg, Berghof.

“Perguntei a Speer, ‘O que aconteceu aos filmes da câmera de Eva Braun?’ Ele disse, “Eles não existem.’ Mas ele estava mentindo.”

Poucas semanas depois, Mora disse, seu parceiro criativo alemão, Lutz Becker, estava numa festa e encontrou um soldado americano que esteve entre os primeiros a pisar em Berghof no final da guerra. Ele perguntou ao soldado se ele havia encontrado qualquer filme e o soldado disse, “Sim, pilhas deles.”        

Mora foi até o Pentágono, onde um funcionário disse que procuraria por eles. Ele realmente não esperava mais receber notícias do funcionário novamente, porém três meses depois, o funcionário o procurou. Eles haviam encontrado os filmes.

“Ficamos simplesmente boquiabertos,” disse Mora, em um almoço em Berlim no mês passado. “Aqui estava um filme incrível que estava escondido porque ninguém havia perguntado sobre ele.”

O produto é um filme estranho e inquietante sem narração e com somente um vago roteiro. Mesmo assim, ele funciona a um nível resumido. Em suas conversas banais com seus companheiros nazistas em Obersalzberg, Hitler se torna completamente humano.

No momento seguinte, o filme corta para o noticiário de Hitler como um semideus em frente à multidões extasiadas que, Mora afirma, poderiam ser “fãs histéricas em um show do Rolling Stones.”

Como plateia, vislumbramos desconfortavelmente como as pessoas entravam na euforia. O filme também tem seu humor negro. Ele termina com algumas imagens chocantes do Holocausto e encerra os créditos finais com a canção satírica de Noel Coward, “Não deixe de ser bestial com os alemães.”

Mora disse que ele nunca quis questionar a maldade de Hitler ou suavizar o período mais sombrio da história alemã, mas ao invés disso fazer os espectadores pensarem de modo diferente.

“O filme foi feito sob a premissa que todo mundo sabia que Hitler era um monstro e um assassino. Não esperava que fosse ser motivo de debate,” ele disse. “Mas ele foi um homem com uma mãe e um pai e irmãs e um cachorro de estimação. E isto perturba as pessoas.”

“Se pensarmos em Hitler como um ser extraterrestre ou um demônio sobrenatural, não perceberemos a vinda do próximo. Mas provavelmente haverá outro.”

Jens Koethner Kaul, 46 anos, um produtor cinematográfico que esteve na exibição na Humboldt, acha que Suástica deveria fazer parte do currículo do ensino médio na Alemanha.

“Crescer na Alemanha significa aprender os fatos dos nazistas e do Holocausto,” ele disse. “Mas o entendimento emocional estava faltando. Havia claramente algo de sedutor ou pelo menos tentador em relação a esses caras que fazia com que as pessoas os seguissem. Você vê isso no filme de Philippe.”

À medida que a Alemanha vai aceitando seu passado, as controvérsias continuarão a crescer. Talvez a fronteira final seja o humor – e de acordo com Simone Erpel, isto está no planejamento dos cineastas mais jovens.

“Visões satíricas e irônicas são um modo de lidar com o passado,” ela disse. “Rir de algo sério é importante. É assim que o humor trabalha. Isto acontecerá nos próximos dez anos.”


 
Trechos de Suástica:




 
A Televisão sob o Nazismo:

As invasões bárbaras

Martha San Juan França

Aventuras na História, 18/01/2013

 
Séculos antes de se ouvir falar em Grécia e Roma, a civilização florescia no Mediterrâneo. Grandes impérios ocupavam a região, com domínio da escrita, exércitos organizados, estados bem estruturados, cidades fortificadas, luxuosos palácios e uma cultura sofisticada, com conquistas cada vez maiores nas artes, matemática e astronomia. O interior da Anatólia e o norte da Síria eram controlados pelo Império Hitita. No Egito, os faraós do Novo Império começaram a erigir os famosos templos de Luxor, Karnak e Abu Simbel. Onde hoje é a Grécia, havia uma confederação de reinos ricos e cidades fortificadas - a chamada civilização micênica. Mas, por volta de 1200 a.C., uma série de eventos catastróficos mudou para sempre a região. Escavações arqueológicas mostram que os grandes foram destruídos ou abandonados. O Império Hitita entrou em colapso e suas cidades foram destruídas e queimadas.

Com rotas comerciais abandonadas, o comércio foi reduzido ao mínimo. A região na foz do Nilo foi atacada, bem como o Levante (a região que vai da Palestina até a Síria). O Egito sobreviveu, mas entrou em declínio. Culturas que antes erguiam monumentos e relatavam suas histórias por meio da escrita se tornaram sociedades de pastores e agricultores analfabetos. Não por acaso, o período de caos que se seguiu foi chamado pelos historiadores gregos da Antiguidade como Idade das Trevas. Os pesquisadores contemporâneos preferem chamar de Colapso da Idade do Bronze. O que teria acontecido?


Destruição vinda do mar

Tudo o que se sabe é baseado em escritos encontrados em tabuletas de argila nas ruínas das cidades da Anatólia e da Síria e em monumentos e papiros do Egito. Diversos povos atacaram pelo norte e ficaram conhecidos como "os povos do mar" - termo que não era usado pelos antigos, mas foi criado em 1881 pelo egiptólogo francês Gaston Maspero. Quem eram esses invasores? "As evidências sobre os povos do mar são poucas, embora haja muitas teorias a seu respeito", afirma o historiador Marcos Davi Duarte da Cunha, do Núcleo de Estudos da Antiguidade da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Uma delas é que invasores do norte ou da Ásia Menor entraram na Anatólia e de lá seguiram para a costa da Síria, pilhando e queimando as cidades do continente e das ilhas até chegar ao Egito. Outros argumentam que eram povos sob jugo dos micênicos, que ganharam espaço para se rebelar após a guerra de Troia.

As paredes do templo mortuário do faraó Ramsés III em Medinet Habu, perto de Luxor, são as mais antigas ilustrações conhecidas de cenas de batalhas navais contra os povos do mar. De acordo com essas inscrições, e também com os templos de Karnak e de papiros egípcios, alguns dos povos do mar já haviam servido como mercenários no exército de Ramsés II. Ao que parece, constituíam grupos isolados que migraram para a costa do Mediterrâneo, provavelmente como resultado da perda de colheitas e da fome mais ao norte, onde hoje é a Europa. Nos textos mais antigos, não pareciam representar grande ameaça: estavam acompanhados de suas famílias em carros de boi e se instalaram a oeste, perto da fronteira com a Líbia.

Mas algo aconteceu no quinto ano do reinado do faraó Merneptah, entre 1236-1226 a.C. Esses povos, de cinco denominações diferentes, se aliaram aos líbios para atacar o Egito. Uma pedra de granito encontrada no templo de Merneptah, em Tebas, divide os povos do mar em cinco nações: Sherden, Lukka, Meshwesh, Teresh, Ekwesh e Shekelesh. As tentativas de identificação associam Ekwesh aos aqueus, ao que se sabe, um dos povos que deu origem à civilização grega clássica. Os Teresh tem relação com os tirrênios, supostos antepassados dos etruscos, da península itálica. Lukka seria um povo litorâneo da Anatólia. OS Sherden, possivelmente tem origem na ilha da Sardenha. Shekelesh viriam da Sicília e os Meshwesh, supõe-se, era uma tribo bérbere. Segundo os egípcios, os povos do mar provinham da Europa ou Ásia Menor, vindos tanto da terra como do mar. Tinham diferentes origens, apesar de serem retratados pelos egípcios com as mesmas características. As inscrições de Merneptah terminam com a vitória dos egípcios.



Mais ou menos 30 anos depois da batalha, por volta de 1177 a.C., o faraó Ramsés III ordenou a construção de seu templo mortuário e residência em Tebas, em cujas paredes foram registrados os eventos bélicos que ocorreram na época. De acordo com essas inscrições, os povos do mar voltaram depois da primeira invasão, desta vez para atacar a costa da Anatólia, Síria, Palestina e a ilha de Chipre.

Na sequência de destruição do Império Hitita, chegaram ao Egito por terra e por mar, sendo derrotados no delta do Nilo e no Levante. As inscrições dizem: "Os países estrangeiros fizeram uma conspiração em suas ilhas. Subitamente, as terras foram surpreendidas e dispersas em combate. Nenhum reino podia fazer frente a suas armas. Hatti, Kode, Karkemich, Arzaua e Alachia foram dizimadas".

Terra arrasada
Ainda segundo o que está em sua tumba, Ramsés III preparou uma armadilha, permitindo que os inimigos penetrassem nas águas rasas do Nilo. Então, as galeras de fundo chato do faraó encurralaram os invasores perto do delta, tornando-os presa fácil dos arqueiros que atiravam de terra. Os povos do mar não puderam reagir adequadamente porque dependiam de espadas e lanças, armas de curto alcance, mais adequadas ao combate corpo a corpo. Seus navios foram afundados e os sobreviventes, aprisionados. Os egípcios venceram, mas a mesma sorte não tiveram povos mediterrâneos, o que demonstram documentos hititas encontrados nas cidades de Ugarit, centro de uma grande rede de comércio que se estendia por toda a Síria, e Hattusa, a capital dos hititas. Hordas de invasores romperam as linhas de defesa e as fortificações do império e marcharam em direção das terras costeiras, destruindo ou subjugando os fenícios e outros povos cananeus, chegando enfim aos egípcios.

Em seu livro The End of the Bronze Age: Changes in Warfare and the Catastrophe ca 1200 B.C. (O Fim da Idade do Bronze: Mudanças na Guerra e a Catástrofe, cerca de 1200 a.C., sem tradução), o historiador Robert Drew fala sobre as razões para o sucesso dos povos do mar por causa da estratégia de combate baseada em unidades de infantaria que rapidamente podiam se mover e mudar de contorno de acordo com a manobra inimiga. Se fosse um ataque de tropas a pé, a formação se fechava numa muralha de escudos e alvejava os adversários com suas lanças. Se o ataque viesse com auxílio de carros de combate, as unidades se posicionavam de forma que entrassem no meio delas, para serem atacadas pelos lados. Possuíam também armas perigosas forjadas com uma metalurgia avançada, nunca antes vista na região - o ferro. "Outro detalhe seria a tenacidade e capacidade de combate aliados à sua estatura possivelmente maior", diz Duarte da Cunha. "Ao passo que um guerreiro do mar possuiria possivelmente 1,80 m, em média, o soldado egípcio comum teria 1,60 m. Num combate corpo a corpo isso contava muito."

Em pouco tempo, os povos do mar dominavam a área que ia da Anatólia até a Palestina, mas não deixaram quase nenhum vestígio. Não se sabe o que aconteceu com eles depois disso - simplesmente não há menção de suas andanças ou de integração às populações locais. A exceção foi na colonização de Canaã, onde os filisteus, apresentados nas figuras egípcias por capacetes com penachos, característicos dos grupos vindos de regiões do Mar Egeu, se fixaram com mulheres e crianças, fundando cidades como Gaza, Ashdod e Ashkelon.

Vencedores ou derrotados, os impérios enfrentaram a anarquia e dissolução. A Idade das Trevas duraria até cerca de 750 a.C., quando a escrita volta a se tornar comum e ressurgem entidades políticas sólidas no Mediterrâneo - é aqui que começa a história da Grécia e Roma clássicas, e também a chamada Idade do Ferro - como os gregos chamavam a era em que viviam, caracterizada pelo uso do ferro em vez do bronze em armas e utensílios. Essa é a era das glórias de Grécia e Roma e dura até outros bárbaros destruírem tudo novamente, no início da Idade Média - também chamada de Idade das Trevas.


Tróia, a vitória que acabou com a Grécia

Narrada na Ilíada e Odisseia, a Guerra de Troia é o conflito entre os gregos e os habitantes de uma cidade na Anatólia, por volta de 1200 a.C.. Era considerada uma narrativa mitológica até o início do século passado, quando escavações arqueológicas demonstraram que, pelo menos em parte, se referiam a eventos reais. Embora a coalizão de cidades-estados micênicas tenha sido vencedora, a guerra acabou contribuindo para seu declínio.

Muitos heróis perderam suas vidas nas batalhas e aqueles que sobreviveram passaram por dificuldades para reassumir sua liderança no retorno porque outros já tinham usurpado seus tronos. Seguiu-se um período histórico de incerteza que culminou com possíveis invasões dos dórios, que vinham da região central da Europa, em que todo o comércio, a escrita e o modo de vida anterior acabaram desaparecendo. "Com o enfraquecimento dos povos que dominavam o mar, os minóicos e depois os micênicos, os protagonistas da Guerra de Troia, se apropriaram das rotas de navegação, tendo como consequência uma espécie de anarquia nos mares", diz o historiador Duarte da Cunha. Assim, o conflito talvez seja a origem do colapso da Idade do Bronze.

domingo, 10 de novembro de 2013

Batalha de Leipzig chocava a Europa 200 anos atrás

Defesanet, 16 de Outubro, 2013

 
Aquele 16 de outubro de 1813 era um dia cinzento, frio e úmido de outono. Somente por volta das 9h, quando a névoa se dissipou, escutaram-se três tiros de aviso anunciando o início da batalha. Estima-se que até 600 mil soldados se enfrentaram nas duas frentes. De um lado estavam Napoleão e seus aliados; do outro, as tropas da Grã-Bretanha, Áustria, Prússia, Rússia e Suécia.

Três dias mais tarde, em 19 de outubro, "foi ganha a grande batalha", escrevia com euforia o general prussiano August von Gneisenau à esposa Ottilie. "Um espetáculo como já não se via há milhares de anos. Mortos e mutilados se espalham ao longo de milhas. Nosso ataque a Leipzig foi muito sangrento."

Um massacre terrível

Nunca tantos haviam perdido antes a vida numa batalha: 120 mil, um quinto dos combatentes, mortos – nas lutas, nos hospitais improvisados ou, quando esses estavam superlotados, literalmente na rua. Johann Christian Reil era professor de Medicina na Universidade de Berlim e um dos mais importantes médicos de sua época. Por encomenda do estadista prussiano barão Heinrich Friedrich vom Stein, ele redigiu um relatório sobre a situação nos hospitais, de forma tão enfática quanto impiedosa.

"Eu encerro meu relatório com o mais hediondo dos espetáculos, que me enregelou os membros e me deixou paralisado. No pátio aberto da escola pública, encontrei um monte, formado por dejetos e cadáveres de meus compatriotas, jazendo nus e sendo comidos por cachorros e corvos, como se fossem malfeitores e incendiários. Assim se descartavam os restos mortais dos heróis que caíram pela pátria!"

Desesperadamente, Reil apelava ao barão Vom Stein para que melhorasse a situação dos doentes. Um mês mais tarde, em 22 de novembro de 1813, o próprio médico morria de tifo. Após a batalha, a epidemia se espalhara, matando, além de soldados, muitos médicos e milhares de civis.

Fim de uma era, começo da conscientização

Quatro dias após o início da batalha sangrenta, Napoleão teve de se dar por vencido. Mas ele perdera mais que uma batalha, pois a derrota de Leipzig marcou o início do fim de seu domínio sobre a Europa. Dado o grande número de mortos, uma conscientização começou a se impor entre os governantes: deveria ser possível solucionar conflitos na mesa de negociações.

"Era a primeira vez que um evento de guerra chocara tanto, que se disse: temos que procurar outras possibilidades de solução", conta o historiador Steffen Poser. Ele é diretor do Museu Memorial da Batalha dos Povos. "Pela primeira vez, fez-se a pergunta: não há uma outra possibilidade? Por fim, o resultado foi o Congresso de Viena, um evento muito criticado pela história, pois teve suas falhas e erros."

Na capital austríaca, de setembro de 1814 a junho de 1815, reuniram-se representantes de toda a Europa, a fim de reorganizar o mapa do continente após a queda de Napoleão. O equilíbrio das cinco potências europeias – Grã-Bretanha, França, Prússia, Áustria e Rússia – foi restabelecido.

Os monarcas aproveitaram o encontro para, em conjunto, suprimir movimentos liberais e revogar conquistas democráticas do período napoleônico. Apesar de todas as suas deficiências, o Congresso de Viena concedeu ao maltratado continente uma pausa de quase 40 anos sem guerras entre as grandes potências.

Diferentes perspectivas

Enquanto na Alemanha, a comemoração do outubro de 1813 goza de grande importância, esse não é o caso entre as outras potências vencedoras. Por exemplo, na Rússia. Embora o império czarista tenha registrado as maiores perdas, com 22 mil soldados mortos, na historiografia russa a vitória de 1812 sobre os franceses invasores ofusca completamente os acontecimentos de Leipzig. E também na Áustria, "o tema não é, de longe, tão valorizado assim", afirmou a especialista austríaca em guerras napoleônicas Alexandra Bleyer.

Na Alemanha, o tema da Batalha dos Povos ainda é tratado de forma mitológica, aponta Sabine Ebert, que pesquisou três anos no local e escreveu um romance histórico com base no material coletado. "Na visão da história, nas mentes de muitas pessoas, é comum ver essa época como de guerras de libertação, uma era do levante do povo contra os ocupadores, em que ele lutou por reformas e pelo progresso."

Uma libertação de todos os povos ocupados pela França da opressão por parte de Napoleão. Mas essa nunca foi a intenção dos governantes. "Eles estavam preocupados com a divisão das terras, com a conquista dos territórios, com a defesa de seus interesses e a multiplicação do poder", desmistifica Ebert.

Mitos falsos e caminhos difíceis

Uma outra lenda também envolve o acontecimento: a de que a batalha teria dado origem à nação alemã da era moderna. Situando historicamente: antes da fundação do Império Alemão, em 1871, a Alemanha era somente uma confederação de pequenos Estados. Os defensores de um Estado alemão unificado tentaram, no século 19, usar as guerras contra Napoleão para seus fins políticos e propagandísticos.

"A tentativa de incorporar ao mito de fundação da Alemanha as Guerras Napoleônicas, com a Batalha de Leipzig no centro, fez com que o significado na Alemanha seja essencialmente diferente de fora do país", avalia Steffen Poser.

Mesmo sem mitos e lendas, os acontecimentos de 200 anos atrás são importantes, não somente para os alemães, mas também para a história europeia. O prefeito de Leipzig, Burkhard Jung, lembra que, em consequência da Batalha dos Povos, a Europa encontrou uma nova ordem.

"Mesmo que Napoleão tenha sido derrotado em Leipzig, as ideias de liberdade, igualdade, fraternidade da Revolução Francesa acabaram encontrando seu caminho através Europa", diz Jung, afirmando ver uma continuidade desde o Congresso de Viena, passando por duas sangrentas guerras mundiais, até o processo de unificação da Europa, nos dias atuais.

Nesse ponto, Poser também registra um legado da Batalha de Leipzig para a atualidade. "É um acontecimento importante de nossa história europeia comum, como um marco num caminho muito pedregoso, rumo a uma sociedade basicamente pacífica, em que podemos viver hoje."



Monumento de Leipzig

http://www.defesanet.com.br/ecos/noticia/12671/Batalha-de-Leipzig-chocava-a-Europa-200-anos-atras/

1813: Napoleão perdia a Batalha das Nações em Leipzig

No dia 19 de outubro de 1813 começava em Leipzig a ofensiva final da Rússia, Prússia, Áustria e Suécia contra a hegemonia de Napoleão na Europa. Era o último dia da famosa Batalha das Nações.

"Casas queimando, fumaça subindo. Em todas as partes há soldados mortos, ou animais, cavalos por exemplo. Há também muitos soldados com fuzis e lanças. Os uniformes são de diversas cores. Num canto, há pessoas mortas e noutro, um canhão."

O cenário, assim descrito num trabalho escolar, refere-se a um fato histórico ocorrido em outubro de 1813 em Leipzig e seus arredores: a famosa Batalha das Nações.

O nome é enganador, pois não houve apenas um grande confronto final, mas sim batalhas dispersas e pequenas escaramuças anteriores. Aproximadamente meio milhão de soldados lutaram em 1813 para determinar o futuro político do continente europeu.

A fim de liquidar a hegemonia de Napoleão, juntaram-se os exércitos da Rússia, da Prússia, da Áustria e da Suécia. Também tchecos, silesianos, italianos e húngaros participaram das lutas, enquanto o rei da Saxônia mantinha seu apoio a Napoleão. As tropas aliadas eram comandadas pelo marechal-de-campo austríaco príncipe Karl-Philipp Schwarzenberg.

Cronologia dos combates

Na manhã de 14 de outubro, Schwarzenberg decidiu iniciar um combate de reconhecimento. As tropas russo-prussianas avançaram. De uma pequena escaramuça, nas proximidades de Markkleeberg, desenvolveu-se logo um grande combate de cavalaria, com sete horas de duração, parte da Batalha das Nações.

No dia 15 de outubro, as tropas continuaram avançando em direção a Leipzig e, na manhã do dia 16, as tropas napoleônicas viram-se diante de quatro colunas dos exércitos de Schwarzenberg. Napoleão acreditava que sairia vencedor e, às 14 horas, mandou tocar os sinos de Leipzig, como sinal do transcurso favorável da batalha.

Mas ele deixou passar, no entanto, o melhor momento para atacar. As tropas aliadas puderam reforçar então os pontos mais fracos da sua linha de ofensiva. Uma trégua foi acertada para o domingo, dia 17 de outubro, e Napoleão tentou em vão negociar.

Em 18 de outubro, Schwarzenberg conseguiu apertar cada vez mais o cerco em torno de Leipzig. As cavalarias da Saxônia e de Württemberg, mais tarde também a infantaria e a artilharia saxônicas, aderiram às tropas aliadas. Para Napoleão, ficou claro então que suas tropas não conseguiriam sobreviver a mais um dia de luta. Por volta das cinco horas da tarde, ele ordenou a retirada em direção ao oeste.

Na manhã de 19 de outubro, começou a ofensiva final dos aliados contra Leipzig. As primeiras tropas invadiram a cidade por volta do meio-dia. Ainda se combatia nas ruas, quando o czar Alexandre, o rei prussiano e o príncipe Schwarzenberg entraram em Leipzig para presenciar a parada da vitória na praça central da cidade.



Os aliados perseguiram o Exército francês de ocupação com pouco entusiasmo e, no início de novembro, as tropas napoleônicas cruzaram o Rio Reno. Com isto, a hegemonia de Napoleão na Europa foi definitivamente destruída.
Quase 100 mil pessoas perderam a vida nos campos de batalha em torno a Leipzig. Mais de meio milhão de soldados lutaram a favor ou contra Napoleão. Ou seja, quase um quinto dos soldados morreu na maior batalha da história da humanidade até então.

Em hospitais militares improvisados, foram tratados inúmeros feridos. Até o ano de 1814, soldados mortos ainda eram sepultados em valas comuns. As lutas devastaram a região de Leipzig. Alguns povoados ficaram em ruínas e, ao arar a terra, os agricultores se deparavam frequentemente com partes de esqueletos de soldados.

O que poderiam pensar foi descrito pelo escritor Erich Loest, natural de Leipzig, no seu romance Monumento da Batalha das Nações: "A uma caveira não se percebe se é de um russo, um sueco, um toscano ou um basco. À exceção de casos raros de tiro na cabeça ou ruptura do crânio, não se pode notar se seu dono foi acertado no peito quando atacava ou nas costas quando fugia. Se estava louco de medo ou de vontade de matar; se morreu de um ferimento inflamado ou de tifo. As caveiras são todas iguais".

domingo, 27 de outubro de 2013

[POL] A Guerra Nazista contra o Câncer

Marc S. Micozzi, Pierre Lemieux

 


A primeira guerra contra o câncer não foi iniciada por Richard Nixon nos Estados Unidos no início dos anos 1970, mas por Adolf Hitler e Joseph Goebbels na Alemanha no início dos anos 1940. Apesar das afirmações por historiadores como Daniel Kevles que os cientistas americanos e britânicos provaram primeiro a ligação entre o tabaco e o câncer de pulmão no início dos anos 1950, Robert N. Proctor, historiador de ciência na Universidade Estadual da Pensilvânia, demonstra que essa ligação foi originalmente estabelecida na Alemanha Nazista, no início dos anos 1930. Apesar dos Estados Unidos terem se beneficiado dos avanços nazistas nos campos da aeronáutica, armamentos e farmacêuticos após a Segunda Guerra Mundial, este feito de saúde pública foi aparentemente ignorado. Em 1995, a Philip Morris criou uma propaganda na Europa intitulada “Quando eles desenharão a linha?”, que identificava os ativistas antifumo como nazistas.

Hitler era conhecido por ser um vegetariano abstêmio de álcool e tabaco e não tolerava o consumo destas substâncias em sua presença (exceto por algumas mulheres). A cultura nazista, nos diz Proctor, era “uma mistura curiosa do moderno e do romântico” – Jeffrey Herf a descreveu como “modernismo reacionário” – e havia uma visão romântica da natureza e outra holística para a saúde. Em agosto de 1933, Hermann Göring anunciou o fim da “tortura insuportável e sofrimento nos experimentos em animais” e ameaçou colocar “aqueles que ainda pensam que podem tratar os animais como propriedade inanimada” em campos de concentração – onde, irônica e tragicamente, humanos seriam logo usados em experimentos médicos.

O governo nazista era conhecido, e admirado, por implementar as políticas de saúde mais progressistas de sua época. Pesquisa estado-da-arte e regulação eram aplicadas a doenças ocupacionais, ambientais e do cotidiano. O câncer foi declarado “o inimigo número um do Estado.” A política nazista favoreceu a comida natural e se opunha à obesidade, açúcar, álcool e estilos de vida sedentários. O movimento de abstinência existente contra o álcool e o fumo tornou-se mais ativo com os nazistas, que estiveram envolvidos no que Proctor chama “criar uma utopia sanitária e segura.”

Não é surpresa que os funcionários americanos dos narcóticos da época admiravam a guerra nazista contra as drogas. Hoje, a admiração provavelmente iria na direção oposta.

O capítulo mais longo do livro de Proctor é dedicado ao tabaco, “um foco justificado,” explica o autor, “pelo fato surpreendente – apesar de desconhecido – que a Alemanha nazista tinha a campanha antifumo mais forte do mundo e a epidemiologia de doenças causadas pelo tabaco mais sofisticada do mundo”. É bem conhecido que o próprio Hitler era um fanático antifumo, mas o movimento antitabaco e as políticas públicas intervencionistas da era nazista eram muito mais do que um reflexo dos caprichos de Hitler. O fumo era atacado como uma “relíquia do estilo de vida liberal” e como uma “masturbação dos pulmões”. Foi na Alemanha nazista que pesquisadores médicos, alguns com fortes conexões nazistas, primeiro estabeleceram uma ligação estatística entre o fumo e o câncer de pulmão. Os cruzados antifumo publicavam revistas como “Em Guarda” (Auf der Wacht) e “Ar Puro” (Reine Luft). Cerca de meio século antes da Agência de Proteção Ambiental associar-se a pseudociência contra o “ambiente enfumaçado do cigarro”, o ativista antifumo Dr. Fritz Lickint cunhou o termo “fumante passivo”. (Ele também achava que o café era cancerígeno!)

Muitos controles antifumo foram realizados por decreto, incluindo restrições à publicidade e banimento do tabagismo em muitos locais de trabalho, escritórios públicos, hospitais e, mais tarde, em todos os trens urbanos e ônibus. As mulheres não podiam comprar cigarros em certos lugares. “Mulher alemã não fuma”, proclamava um cartaz nazista.

Em 1941, o Instituto para Pesquisa dos Danos do Tabaco foi criado sob a direção de Karl Astel. Um nazista dedicado que cometeu suicídio em abril de 1945, Astel achava que a oposição ao tabagismo era uma “tarefa nacional socialista”. Como presidente da Universidade de Jena, ele baniu o fumo em todos os prédios da universidade. É no Instituto de Astel que Proctor busca o trabalho científico mais inovador sobre as relações entre o tabagismo e o câncer.

Proctor fica embaraçado e angustiado pelo fato de que “as iniciativas de saúde pública foram perseguidas não apenas em virtude do fascismo, mas também em consequência dele.” Mas seu livro é fraco na análise desta questão: no capítulo final, onde ele tenta abordá-la, ele não vai mais longe do que dizer que o fascismo alemão era uma mistura complexa de bem e mal. Felizmente, a documentação extensiva existente fornecida pelo autor nos dá o significado de puxar a análise além de onde ele a deixou.

Devemos lembrar que o fascism é baseado na submissão do indivíduo ao coletivo. Como Benito Mussolini escreveu sobre o século vinte, “Se o século XIX foi o século do individualismo, pode-se esperar que este seja o século do coletivismo e, assim, o século do Estado.” (Italian Encyclopedia 1932) O ramo alemão do fascismo, o Nacional Socialismo, foi caracterizado também por crenças racistas (opostamente às crenças puramente nacionalistas). Vamos lembrar também que, em todos os lugares do Ocidente, a doutrina de saúde pública desviou-se das boas preocupações públicas, como o saneamento ou doenças contagiosas, em direção de um ataque frontal às escolhas individuais e aos estilos de vida politicamente incorretos.

A relação entre fascismo e saúde pública é provavelmente mais simbiótica do que Proctor admite. Após ler A Guerra Nazista contra o Câncer, o leitor cuidadoso estará bem posicionado para entender por que o fascismo exige políticas fortes de saúde pública. O Estado fascista precisa de “material humano valioso” – ou como diríamos hoje, “recursos humanos” saudáveis. Os lemas nazistas relatados por Proctor são mais explícitos do que os cruzados atuais ousariam empregar: “Seu corpo pertence à Nação!”, “Você tem a obrigação de ser saudável!”, “Alimentação não é um assunto particular!” Novamente antecipando os fascistas da saúde atuais, o Departamento Nacional de Estatística nazista estabeleceu os assim chamados custos do tabagismo. Erwin Liek, algumas vezes chamado o pai da medicina nazista, achava que a cura do câncer exigia mover-se do “cuidado com o indivíduo” para “prevenção do câncer em larga escala – para a população inteira”.

A mistura de saúde pública torna-se mais poderosa com o ingrediente adicional de racismo fornecido pelo ramo alemão do fascismo. As campanhas de saúde pública contribuem com a preservação não somente da população de contribuintes e recrutados, mas também do “plasma embrionário alemão.” Mas este acréscimo não era realmente necessário, como o coletivismo havia se contentado: “os médicos-führer da Alemanha,” nota Proctor, “estavam menos preocupados com a saúde dos indivíduos do que com o vigor da ‘raça’, a chamada comunidade racial.”

Proctor preocupa-se em distanciar-se dos libertários que veriam as mãos invisíveis do fascismo na repressão atual do tabagismo: “Minha intenção,” ele escreve, “não é argumentar que os esforços antifumo atuais têm raízes fascistas, ou que as medidas de saúde pública são em princípio totalitárias – como alguns libertários parecem querer nos fazer crer.” Isto é apenas lógica: se F (fascismo) implica S (saúde pública), não significa que S implica F. É claro.

Tal conexão é que tanto as políticas fascistas quanto a ideologia de saúde pública exigem um Estado poderoso. Poder de Estado é o denominador comum, e uma condição necessária, tanto do fascismo quanto dos controles fortes de saúde pública. Proctor nos lembra que as preocupações com saúde pública eram bem conhecidas no período de Weimar e que a primeira agência anticâncer mantida pelo Estado foi criada na Alemanha trinta e três anos antes dos nazistas chegarem ao poder. Mas, ele escreve, “o que era novo no período nazista foram políticas aumentadas e poderes legislativos para implantar medidas preventivas abrangentes.” Os poderes de polícia aplicados pelo fascismo permitiam à ideologia de saúde pública mostrar sua verdadeira natureza.

O aparato estatal nazista tinha um “Führer da Saúde do Reich”, cujo departamento o nome de Leonardo Conti, um ativista antifumo dedicado, permanece associado. Sob Conti, registros centrais foram criados para muitas doenças e vícios. A Alemanha nazista era uma sociedade transparente, onde os indivíduos eram prevenidos de esconder suas vidas do Estado – absurdamente ilustrado pelo banimento em 1938 da estocagem de produtos em porões. Milhares de alcoólatras “registrados” tornaram-se vítimas do programa de esterilização sob a Lei para Prevenção de Prole Geneticamente Doente. Enquanto que muitos fascistas da saúde foram processados e condenados em Nuremberg, Conti escapou da condenação enforcando-se em sua cela.

De algum modo, a intolerância social dos movimentos progressistas contemporâneos, tais como direitos dos animais, ativismo antitabagismo, esforços de abstinência e entusiasmo por comidas naturais, pode ser vista de forma semelhante aos aspectos “progressistas” da Alemanha nazista, não somente em seus objetivos, mas crescentemente e de forma alarmante em relação a alguns dos métodos usados para impor soluções coletivas a indivíduos. Por exemplo, alguns cientistas acreditam que apesar dos efeitos nocivos da fumaça de cigarro serem claros, os efeitos secundários em fumantes passivos em relação à morbidez e à mortalidade, apesar de menos claros, tem sido mais poderosos em motivar política pública contra os direitos do indivíduo. Como Proctor afirma, a apreciação dessas complexidades podem abrir nossos olhos para novos tipos de continuidade entre o passado e o presente e podem levar a uma melhor compreensão de como o fascismo triunfou temporariamente.



 
Nota:

Ver o artigo:


Basicamente, a lógica do Reductio ad Hitlerum afirma que TUDO o que vem da Alemanha Nazista não presta ou foi feita com más intenções. É o caso da pesquisa contra o câncer, que foi realizada apenas com o objetivo de criar uma raça superior, ou da campanha antifumo, que se tratava de um assalto às liberdades individuais. Tivessem sido essas pesquisas e políticas criadas nos EUA ou na Grã-Bretanha, seriam celebradas como avanços da sociedade democrática. Mas como foram criadas sob o nazismo...

[POL] O Carisma subestimado de Hitler

Der Spiegel, 11/10/2013

Entrevista com o historiador Volker Ullrich

 
Spiegel: Sr. Ullrich, o quão Hitler era normal?

Ullrich: Ele não era tão louco quanto alguns estudiosos de psicologia tem nos feito acreditar, pelo menos com suas linhas simplistas de argumentação. Ele pode mesmo ter sido mais normal do que poderíamos desejar.

Spiegel: A maioria das pessoas considera Hitler um psicopata. Muitos historiadores também acreditam que alguém capaz de cometer tais crimes não pode ser normal.

Ullrich: Hitler foi, sem dúvida, excepcional em suas ações criminosas. Mesmo assim, sob muitos aspectos, ele não foi de modo algum diferente do comum. Jamais seremos capazes de compreender as coisas terríveis que aconteceram entre 1933 e 1945 se negarmos sempre que Hitler também tinha características humanas, e se falharmos em levar em conta não somente suas energias criminosas, mas também suas qualidades simpáticas. Enquanto continuarmos a vê-lo como um monstro terrível, o fascínio que ele exerceu continuará sendo um enigma.

Spiegel: Joachim Fest publicou uma biografia abrangente de Hitler em 1973 e Ian Kershaw outra, em dois volumes, começando em 1998. Qual foi a sua motivação em produzir uma terceira grande biografia?

Ullrich: Fest analisou Hitler de uma posição de ódio e aversão. Um capítulo central de seu livro é intitulado “Visão de um ignorado”. Kershaw estava basicamente interessado nas estruturas sociais que tornaram Hitler possível, enquanto que a própria pessoa permanece de algum modo em segundo plano em sua análise. Trago o homem para o plano principal. Isto cria não somente uma nova imagem de Hitler, mas uma visão mais complexa e contraditória em relação à qual estamos acostumados.

Spiegel: “Hitler, a pessoa” é o nome de um capítulo que o Sr. descreve como chave em seu livro, que será publicado esta semana. O que foi Hitler como pessoa?

Ullrich: A coisa extraordinária sobre Hitler foi o seu talento para a hipocrisia. Suas habilidades formidáveis como ator são frequentemente subestimadas. Há somente muito poucas situações onde podemos dizer que ele era verdadeiro. Por isso é tão difícil responder à pergunta como ele era como pessoa. Ele podia ser muito agradável, mesmo com pessoas que ele detestava. Por outro lado, ele também era incrivelmente frio mesmo com pessoas próximas a ele.

Spiegel: Em um ponto do livro, o Sr. escreve de um “charme cativante”. Charme não é uma qualidade geralmente associada com o criminoso do século.

Ullrich: Um bom exemplo de sua habilidade em tornar-se agradável é a sua relação com o presidente alemão Paul Von Hindenburg, que inicialmente tinha uma resistência considerável em relação ao “cabo boêmio”, como ele chamava Hitler. Contudo, poucas semanas após ser apontado chanceler, Hitler conseguiu envolver tanto Hindenburg que este último assinaria qualquer coisa que Hitler lhe pedisse. Joseph Goebbels notou frequentemente em seus diários que o ditador não somente poderia bater papo de forma agradável com seus associados, mas sabia absolutamente como ouvi-los também.

Spiegel: Por outro lado, algumas vezes este comportamento tornava-se descontrolado. O menor descuido poderia transformar-se em fúria.

Ullrich: Minha impressão é que a maioria de seus ataques de raiva eram planejados. Ele fazia isto deliberadamente para intimidar as pessoas, quando a conversa com seus adversários políticos não resultavam naquilo que ele queria. Em poucos minutos, ele poderia estar novamente se comportando com controle absoluto e exercendo o papel de anfitrião atencioso.

Spiegel: Há pouco na vida inicial de Hitler que poderia sugerir uma carreira como genocida. Ao invés de realizar o desejo de seu pai de tornar-se um burocrata, Hitler direcionou-se para a pintura e leitura. “Livros eram seu mundo,” disse um amigo de infância.

Ullrich: Hitler era um leitor ávido, uma paixão que permaneceu com ele ao longo de toda sua carreira. Os Arquivos Federais em Berlim têm recibos, mostrando títulos e preços, da livraria de Munique onde Hitler comprava seus livros. Estes mostram a imensa quantidade que ele adquiria, especialmente sobre arquitetura, apesar de biografias e trabalhos filosóficos também lhe interessarem. Hitler lia livros de maneira incrivelmente rápida, mas também seletivamente. Ele somente lia trabalhos que se ajustassem à sua visão de mundo e que poderiam ser utilizados em sua carreira política.

Spiegel: O sr. iria longe o suficiente para chamá-lo de um intelectual das artes?

Ullrich: Seu interesse nas artes era certamente excepcional. Durante uma estadia em casa em setembro de 1918, ele gastou seu tempo não em bordéis, como seus camaradas faziam, mas no Museu Island de Berlim.

Spiegel: Em outras palavras, talvez pudéssemos dizer: O mais zeloso dos artistas na política.           

Ullrich: Esta é uma boa definição. Mas Hitler nunca foi mais do que um artista mediano. Seu grande talento era no jogo da política. É fácil subestimar as qualidades excepcionais e habilidades que ele tinha para se tornar bem sucedido neste campo. No espaço de apenas três anos, ele ascendeu de um veterano de guerra desconhecido para o rei de Munique, enchendo os salões da cidade semana após semana.

Spiegel: Hitler era um lobo solitário. Ele não fumava, não bebia e eventualmente tornou-se vegetariano. O quão a excentricidade tornou-se um atrativo para as massas?

Ullrich: Munique em torno dos anos 1920 era um ambiente ideal para um agitador de extrema direita, especialmente alguém que discursasse tão acaloradamente quanto Hitler fazia. Mas ele também era um tático talentoso, manobrando seus movimentos passo a passo. Ele cercou-se de seguidores que o adoravam devotamente. E ele garantiu o apoio de patronos influentes, especialmente os Bruckmann, um casal respeitado do mundo editorial; a família Bechstein, que fabricava pianos; e, é claro, os Wagner em Bayreuth, que logo começaram a tratá-lo com alguém da família.

Spiegel: Mesmo os relatórios preliminares de Hitler como orador notavam a troca de energia entre ele e seus ouvintes. “Tive uma sensação peculiar,” uma testemunha escreveu em junho de 1919, “como se a excitação da plateia fosse o seu trabalho e, ao mesmo tempo, isso lhe desse uma voz.”

Ullrich: Para entender o poder de Hitler como orador, devemos considerar que ele não era apenas um demagogo de boteco como sempre o representamos, mas, de fato, ele elaborava seus discursos deliberadamente. Ele começava muito calmamente, na base da tentativa, quase que como sentindo o passo adiante e tentando sentir a que grau ele poderia conduzir sua plateia. Não até ele estivesse certo de sua aprovação, ele então aumentaria sua seleção de palavras e gestos, tornando-se mais agressivo. Ele continuava isto por duas ou três horas até atingir o clímax, um pico inebriante que levava lágrimas a muitos ouvintes. Quando assistimos aos vídeos de seus discursos hoje, geralmente estamos vendo somente a conclusão.

Spiegel: O escritor Klaus Mann, que observou Hitler comendo uma torta de morango na cafeteria Carlton de Munique em 1932, escreveu mais tarde, “Você quer ser ditador com este nariz? Não me faça rir.” Isto significa que deveria existir uma certa disposição para ser fascinado por Hitler?

Ullrich: Klaus Mann tinha uma repulsão motivada, instintiva e estética desde o início. Mas também há relatos de pessoas que tinham uma visão negativa de Hitler no início, mas que se converteram assim que tiveram contato com ele. Entre os pertences de Rudolf Hess, que serviu como secretário privado de Hitler a partir de 1925, encontrei cartas nas quais ele descreve para sua noiva as viagens agitadas através da Alemanha. Em uma das cartas, ele fala de uma reunião de líderes empresariais na cidade de Essen em abril de 1927. Quando Hitler entrou na sala, ele encontrou um silêncio indiferente, uma rejeição completa. Após duas horas, houve aplausos ensurdecedores. “Um ambiente como o Circo Krone (Munique),” escreveu Hess.

Spiegel: O fervor escravo dos discursos das reuniões do partido de Hitler ainda hoje chega aos nossos ouvidos. O quão era diferente sua voz na vida privada daquele que ele utilizava em público?

Ullrich: Muito poucas gravações existem na qual Hitler pode ser ouvido falando normalmente. Mas naquelas que existem, é evidente que ele possuía uma voz totalmente calma e morna. É um tom completamente diferente daquilo que ele costumava usar em suas aparições públicas*.

Spiegel: Fest foi uma vez perguntado em uma entrevista, “Hitler era antissemita?”

Ullrich: Sem dúvida. O antissemitismo – em sua forma mais radical, de fato – era o núcleo de sua personalidade. É impossível entender Hitler sem ele. Saul Friedländer o descreveu como “antissemitismo redentor”, que se encaixa muito bem. Hitler via os judeus como a personificação de tudo o que era mau, a raiz da maldade no mundo.

Spiegel: Mas este não foi o caso no início.

Ullrich: Em seu manifesto Mein Kampf, Hitler deixou claro que ele tornou-se um antissemita fanático ainda em Viena. Mas não existem provas de que ele tenha feito qualquer comentário difamatório sobre os judeus antes de se mudar para Munique. Pelo contrário, na pensão masculina onde ele viveu por três anos em Viena, ele manteve contatos amigáveis com judeus. Os negociantes que compararam suas aquarelas por um preço decente eram também judeus.

Spiegel: Ele experimentou algo como uma conversão ao antissemitismo?

Ullrich: Sabemos que Hitler tornou-se um antissemita radical durante a revolução de Munique em 1918-19, que ele presenciou e que alternou da extrema esquerda à extrema direita. A República Soviética de Munique que existiu por breve período incluía muitos judeus nas posições de liderança – Ernst Toller, Eugen Leviné e Erich Mühsam. Isto levou a um antissemitismo que se espalhou na cidade como uma epidemia**.

Spiegel: O Sr. se refere a uma carta previamente desconhecida de agosto de 1920, na qual um estudante de direito de Munique registrou as visões de Hitler após um encontro com ele. Quando o assunto era os judeus, Hitler disse, que ele acreditava que o vírus deve ser erradicado e que a existência do povo alemão estava em jogo. O quão sério Hitler era em tais afirmações naquela época?

Ullrich: O projeto político que nasceu de sua visão de mundo não consistia ainda de extermínio em massa. Apesar de toda sua retórica de destruição, “livrar-se dos judeus” nesta época significava expulsá-los da Alemanha. A chamada “Solução Final”, significando o assassinato sistemático dos judeus europeus, não fez partes dos planos até o início da Segunda Guerra Mundial.

Spiegel: Na época dos pogroms da Kristallnacht em 9 de novembro de 1938, o mais tardar, estava claro que todos aqueles que o regime considerava seus inimigos estavam agora sem direitos ou proteção. O Sr. escreve, de forma correta, que a Alemanha deixou o mundo das nações civilizadas neste ponto. Mas mesmo isso falhou em destruir a popularidade de Hitler.

Ullrich: Não é fácil dizer qual era a visão da população geral em relação aos pogroms. Baseado em fontes como os relatórios da Gestapo sobre o ambiente geral no país, tendo a compartilhar da visão de que a maioria do povo não aprovava esta violência. Curiosamente, a “Kristallnacht” não estava associada a Hitler. Ele conseguiu manter-se nos bastidores, apesar de estar mexendo os pauzinhos, com outros líderes nazistas assumindo a responsabilidade. Esta exoneração é vista nos comentários das pessoas, “se o Führer tivesse sabido disso...”.

Spiegel: Que Hitler deu considerável importância à sua imagem pode também ser vista no modo como ele tratou da questão do dinheiro. Ao mesmo tempo em que ele se apresentava como um líder humilde, em segredo ele sonegava impostos, como o Sr. escreve em seu livro.

Ullrich: Um funcionário exemplar da Receita escreveu em outubro de 1934 que Hitler devia 405.000 marcos em impostos. Qualquer obrigação em pagar estes impostos atrasados foi imediatamente abandonada, declarando Hitler isento a partir daquele momento, e o funcionário que encontrou o problema levou uma advertência.

Spiegel: Começando em 1937, havia mesmo selos mostrando sua imagem, da qual Hitler recebia direitos de imagem.

Ullrich: Hitler sempre gostou da riqueza. Não é coincidência que mesmo nos anos iniciais, ele dirigia os modelos mais novos e caros da Mercedez. Nem o seu apartamento de nove cômodos na Prinzregentenstrasse de Munique exatamente se encaixava na imagem de homem simples do povo, trabalhando até os ossos para o benefício da Alemanha. Também encontrei contas de hotéis onde Hitler ficou com sua equipe antes de 1933. Ele gastou 800 marcos por quatro dias no Kaiserhof de Berlim, por exemplo. Isto é equivalente hoje a €3,500.

Spiegel: O Sr. também dedicou um capítulo inteiro à relação de Hitler com as mulheres. O Sr. não acha isso muito insignificante, perguntando sobre a vida privada do ditador?

Ullrich: Acredito que este é um aspecto que não deveria ser omitido de uma biografia. No caso de Hitler, há também o fato de que ele não manteve uma divisão estrita entre suas esferas privada e pública, mas ao invés disso misturou estas áreas de uma forma muito estranha. Isto foi especialmente evidente em Berghof, onde os espaços privados e de trabalho eram interligados.

Spiegel: O que o Sr. acha da teoria de que Hitler era atraído sexualmente por homens?

Ullrich: Ele também supostamente tinha apenas um testículo, o que o deixava relutante em se despir na frente das mulheres. Mas você pode esquecer tudo isso. Aqui, também, Hitler não revelou muita coisa e pouco sabemos exatamente. Mas estou convencido de ele tinha uma relação muito mais íntima com sua última namorada, a assistente de fotógrafo Eva Braun, do que previamente se sabia***.

Spiegel: Kershaw expressa a teoria de Hitler encontrava seu prazer no êxtase das massas.

Ullrich: Não acredito nisso. Hitler sempre se retratou como um homem que renunciou a toda felicidade pessoal em serviço de seu povo. Não há evidência conclusiva disso, mas acredito que atrás da discrição enevoada, Hitler teve uma relação amorosa normal com Eva Braun.

Spiegel: Sem Hitler não teria havido Nacional Socialismo, mas sem as energias que o impulsionaram adiante não teria havido Hitler. Onde estas forças destrutivas teriam se reunido se esta figura chave não tivesse existido?

Ullrich: Elas teriam encontrado outra saída. Uma possibilidade teria sido um governo autoritário dirigido basicamente pelos militares. Pessoas como os chanceleres Schleicher e Papen mostraram do que seriam capazes após o golpe de 1932 na Prússia, demitindo servidores públicos republicanos e expurgando o governo. Leis antissemitas presumivelmente não teriam sido implementadas sem Hitler.

Spiegel: Sr. Ullrich, obrigado pela entrevista.    


      
Notas:

* Hitler explica a invasão da URSS com suas próprias palavras


** Qual o motivo do ódio de Hitler aos judeus?


*** Hitler e as mulheres


 
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