sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Europa e a Defesa comum

Gilles Lapouge, 23 de dezembro de 2013

 


A pergunta é: onde estão todos os soldados que os países europeus deveriam enviar à Republica Centro-Africana para apoiar os 1,6 mil dos franceses que tentam restabelecer a ordem em meio ao caos e a razão em meio ao delírio? Esquadrinhamos mares e ares com grandes lunetas, mas nada, não vimos nada no horizonte.

E não foi por falta dos regimentos europeus serem anunciados. Na terça-feira o chanceler francês, Laurent Fabius, deu a boa notícia. No dia seguinte, o ministro dos Assuntos Europeus forneceu detalhes: alemães e britânicos enviariam tropas à República Centro-Africana. O que foi retificado por outro ministro. Não. Seriam soldados poloneses e belgas.

E o que restou desse vasto Exército europeu? Nada. Um Exército de fantasmas. E os militares franceses continuarão a combater sozinhos.

Podemos multiplicar as explicações: egoísmo dos Estados, efeitos da crise, recusa obstinada da Grã-Bretanha a qualquer embrião de Defesa comum europeia. No fundo, observamos um movimento: a Europa, que durante séculos foi o continente da guerra, está farta. E uma estranha mudança ocorre: enquanto o mundo se rearma, a Europa, tranquilamente, se desarma.

Dois países ainda dispõem de uma força militar vigorosa: França e Grã-Bretanha. Mas, mesmo nestes países, os Exércitos se contraem. Depois da atuação medíocre no Iraque e no Afeganistão, os britânicos reduziram seu orçamento militar em 8% para 2013.

A França ainda mantém boa imagem. Seu Exército brilhou no Mali e mostra-se exemplar na República Centro-Africana, mas não tenhamos ilusões. Ela possui alguns regimentos muito ágeis, mas o resto é vazio. A cada ano o Exército perde subsídios, homens e material. Corre uma piada que diz que o Exército francês inteiro pode ser alojado num estádio de futebol.

A Alemanha continua resolutamente pacifista. O chefe do Estado Maior da Suécia acabou de declarar que, em caso de guerra, seu Exército poderá resistir por uma semana, mas não duas.

O contraste é espetacular com outros continentes. Nem é preciso lembrar a força em termos de material e homens dos americanos. A China tem um Exército enorme e vem modernizando suas forças armadas.

A Rússia rearma um Exército a serviço de uma diplomacia cada vez mais intransigente. O Paquistão vem reforçando sua força nuclear. Índia e Indonésia se armam.

Claro que a Europa tem a vantagem (ou o inconveniente) de ser apoiada militarmente pelos EUA desde o fim da 2ª Guerra. Sabemos que Obama recompôs os destinos do mundo sobre um novo mapa: na sua cabeça, a Europa não está mais no centro. A Ásia expulsou-a.

Tudo se passa como se a Europa, cansada de lutar, enojada com os rios de sangue que derramou, preferisse depor armas e conservar seu posto, mas em outras bases que não a militar. Um desejo que podemos compreender, mas é ilusório. A força econômica, a força política e a militar caminham juntas.

[POL] Raízes Místicas do Nazismo

Fernando G. Sampaio

 
A Alemanha está inserida no contexto de uma reação contra o racionalismo, que marcou o final do século XIX, pelo menos, em sua metade e que tem o nome de Movimento Romântico.

O Romantismo se expressou de variadas formas em toda a Europa, mas alcançou uma posição notável dentro da cultura germânica, por uma série de razões históricas bem conhecidas, em que se destaca o impacto produzido sobre o nacionalismo alemão durante o ciclo das Guerras Napoleônicas.

Este movimento antiracionalista surgido logo após a tormenta revolucionária e napoleônica, devemos considerá-lo como a expressão de uma inquietude... aparece como pessimista, aristocrático, impregnado de religiosidade e nostalgia tradicionalista.

Observamos, que já temos um quadro geral da questão das raízes místicas do nazismo:

1º - o descontrole nervoso do corpo político-social alemão vai se dar pela derrota na 1º Guerra Mundial, pela destruição do Império e abdicação da figura do Imperador, considerada uma enorme perda psicológica e oral e pela posterior crise econômica geral que grassou por todo o mundo, o crack de 30 e que foi fortemente sentido na Alemanha;

2º - este descontrole geral, com causas econômicas, sociais, políticas e militares, foi precedida por uma forte crise de identidade cultural que fez aflorar de forma notável um sentimento romântico que era místico, mágico e antiracionalista;

3º - esta atmosfera de derrota mais irracionalismo vai preparar o ambiente cultural em que vão se formar as mentalidades culturais da liderança do Partido Nazista, em especial de Hitler e de seu grupo de apoio pessoal.

Portanto, o nazismo não é um fenômeno, conforme avaliamos, exclusivamente do século XX ou resultado direto de uma derrota militar. O nazismo foi o coroamento de um processo de formação de mentalidades e de cultura que acompanhou, lateralmente, a formação cultural da Alemanha, desde o final do século XVIII.

Além do conhecido pré-romantismo e do romantismo, que existiu em toda a Europa, mas teve o seu apogeu na Alemanha, podemos observar o desenvolvimento, ao longo destes períodos históricos, na Europa e na Alemanha, dos seguintes fatores:

1. Surgimento do Orientalismo (e do misticismo);

2. Surgimento do folclore;

3. Surgimento da arqueologia e da pré-história;

4. Impacto da Teoria da Evolução (evolucionismo social ou social-darwinismo)

Orientalismo

O orientalismo é um sistema, adotado no século XIX, e hoje abandonado, que atribuía as origens da civilização europeia, suas artes, filosofia e ciências, às antigas culturas do Oriente, em particular, O Egito, a Pérsia e a Índia. O orientalismo teve grande influência nas artes e na literatura e era uma verdadeira mixórdia de estudos variados com a busca pela sabedoria ou os chamados segredos das ciências ocultas das antigas civilizações.

Folclore

Os irmãos Jacob e Wilhe Grimm são considerados os fundadores do Folclore científico, em especial as coletâneas de contos, canções e lendas germânicas, enfeixadas em “A Mitologia Alemã” (1835). Mas, já por 1812-1815 tinham lançados pequenos trabalhos sobre as lendas e sobre as Runas Alemãs e, aos poucos, vão criando o arcabouço sobre a qual vai ser erigida a veneração pelo passado heróico post-Império Romano dos guerreiros alemães e, também, pelo heróico Império, o Sacrum Romanum Imperium Nationis Germanicae – 962-1806. É a recuperação folclórica que trouxe à tona o famoso poema épico alemão “Der Nibelung Not (a desgraça dos Nibelungen), mais conhecido, porém, como Niebelungenlied (canção dos Niebelungen), datado de 1250 a 1260, onde é exaltado o paganismo germano, a figura do herói, meio homem, meio deus, que não foge, jamais ao destino a que estão submetidos homens e deuses. De enorme forma trágica, com violência e vingança mas também com amor apaixonado e cortesão, é considerado mito nacional germânico. A versão de Wagner, que serviu para sua monumental tetralogia operística é baseado, porém, numa versão nórdica (das Eddas), com adaptações próprias e não segue este manuscrito do folclore medieval.

Arqueologia

A Arqueologia alemã, como não podia deixar de ser, contribuiu poderosamente para uma mitologia toda especial que influenciou as mentalidades da época. Gustav Kossima (1858 – 1931), arqueólogo e pré-historiador, deliberadamente dispôs-se a provar a importância e a grandeza dos germanos através da pré-história. Expandiu a cronologia de maneira que tudo parecesse ter começado na Alemanha e se espalhado dos Germanos Superiores para os inferiores ao redor... Kossima queixava-se que a Arqueologia alemã se estava concentrando nas terras clássicas e se preparava, portanto, implícita ou explicitamente, para descrever os antigos germanos como bárbaros. Insistia que era errado só Ter grandes coleções para Egito Grécia, etc. e afirmava que: “uma nação que não mantém contato com seu passado está pronta a secar como uma árvore com as raízes amputadas.”

Evolucionismo

Não podemos esquecer que a obra básica de Darwin surge em 1859 e causa profunda impressão em todo o mundo culto. Mas vai dar origem, também ao social-darwinismo, isto é a uma doutrina da sobrevivência dos mais aptos, que seriam os mais fortes, isto é, aqueles que faziam a guerra melhor e ganhavam nos conflitos bélicos, por serem superiores e, com isto, subjulgavam os perdedores, que seriam seres fracos e inferiores.

A sobrevivência dos mais aptos não tem nada a ver com isto e os mais aptos podem até ser (como parece) os mais hábeis em se esconderem e não serem, assim, caçados pelos mais fortes. Esta, pelo menos, é a visão mais correta, atualmente, sobre a proliferação dos hominídeos...

A publicação, na Alemanha, por Nietzche, em 1866, de “Além do Bem e do Mal” ia vulgarizar, porém, a visão de uma força impulsora da vontade humana como sendo “a vontade de Poder”, que instituía duas moralidades, a do senhor e a do escravo.

Todas estas ideias iriam convergir, de uma forma ou de outra, para a formação de uma ideia central, isto é, que existiam diferenças entre os povos e que estas diferenças tornavam uns povos dominadores e outros povos dominados, portanto, uns inferiores e outros superiores.

Estas noções são abstratas e, mesmo, mágicas e vão terminar por contaminar toda a maneira de pensar de mais de uma geração, levando, inclusive, ao nascimento de sociedades secretas e diferentes agrupamentos e grêmios, dedicados ao estudo do passado em geral e particularmente ao passado germânico, que terminam num obscurantismo místico, do qual, a elite do partido nazista fazia parte, no que, entretanto, não era diferente das elites em geral e das classes médias.

Como não existiam entretanto, nada mais do que especulações, os interessados na afirmação destas ideias são obrigados a criar, gradativamente, uma falsa ideologia, baseada em um passado também falsificado. E, para isto, começam a basear suas afirmativas em lendas, mitologias e, igualmente, em falso folclore, que começa a surgir dentro das sociedades ocultistas, em especial as chamadas sociedades teosóficas.

Hitler, mesmo, é quem afirma:

“A lenda não pode ser extraída do nada, não é uma construção do espírito puramente gratuita, Nada nos impede de supor, e creio mesmo que temos interesse em o fazer, que a mitologia constitui um reflexo de coisas que existiram e de que a humanidade conservou uma vaga recordação... O espírito humano mesclou estas imagens com noções elaboradas pela inteligência, e foi assim que as igrejas constituíram a armação ideológica que ainda hoje assegura a sua força”.

Thule, Atlântida, Catástrofes e Mundos Perdidos

Em Leipzig, em 1912, é fundada uma Germanen-Thule-Sekte, que antecipa a Germanen Orden de 1913 e a Thulegesellchaft de 1918 da qual deriva diretamente o Partido Nazista.

A sociedade Thule organiza um grupo de combate, da qual faz parte Rudolf Hess e tenta um contra-golpe, na Baviera, em 1919. Estas sociedades e, em especial, a Germanem-Ordem celebram, já então, a velha festa nórdica do solstício de inverno e é nela que se redige o programa original do partido social-alemão de Alfred Brunner, ao qual irá se filiar, depois, Adolf Hitler, que reorganiza o movimento.

Thule, uma terra de felicidade, para lá do norte, faz parte do ciclo lendário da Hyperbórea e data do tempo dos romanos, quando um explorador chamado Pítea, saiu de Marselha para explorar a rota de fornecimento de âmbar e outras especiarias, que chegavam até a Europa Central e Mediterrânea desde o distante norte.

Este “país ao norte” foi tomado como sendo uma espécie de centro mágico, onde sobreviveram restos da cultura e da sabedoria daquela civilização de fantasia, que teria sido destruída há dez mil anos atrás. E foi desta terra e da Hyperbórea, que vieram os ancestrais dos Arianos, marcahdno desde os planaltos do Himalaia, onde tinham se refugiado do Dilúvio.

Assim, os ancestrais dos arianos não seriam os povos extintos, mas teriam tido uma iniciação mágica junto aos povos extintos, aos últimos sábios, conhecidos com “Superiores Desconhecidos”, onde teriam aprendido a língua “superior”, formando a “mentalidade superior”, que tornou os ancestrais dos germanos, uma espécie de “raça eleita”, não só por receber a sabedoria dos antigos, como também por estar dotada, por está mesma sabedoria, do destino de dominar os povos inferiores e criar um império universal.

É curioso observar que algumas das sociedades místicas que existiam na Alemanha (mas não só de lá...), diziam que entre os ensinamentos legados pelo povo extinto na guerra ou catástrofe de dez mil anos atrás, estava o segredo do chamado Vrill, uma poderosa fonte energética, segundo alguns, de ordem mental, com o que se podia operar milagres.

Esta ideia de Vrill, entretanto, como muitas outras, é a mais pura fantasia.

Ela foi descrita como uma força, é verdade, de um povo antigo, é também verdade, mas por um famoso romancista, Sir Edward George Bulwer-Litton (1803-1873), que chegou a ocupar um cargo de Secretário das Colônias da Inglaterra e fazia parte da famosa sociedade secreta ocultista “As Aurora Dourada”, com ramos nos Estados Unidos, na Alemanha e na Grã-Bretanha.

Em seu romance “A Raça que se Seguirá” ( ou que vira, datado de 1871) ele apresenta uma raça que vive em um mundo subterrâneo, dotada de grandes qualidades morais e espirituais, que eram alimentados por uma estranha força-sustentadora de energia vital, chamada Vrill. O romance previa que esta “raça perdida”, viria a voltar para a superfície e teria a ascendência sobre todo o planeta... Bulwer-Litton é lembrado, até hoje, pelo seu clássico de 1834, “Os últimos dias de Pompéia” e, em sua época, foi um importante defensor do ocultismo, da mágica e das “forças ocultas”.

Profecias do Salvador

Nesta atmosfera, nada mais natural que surgissem, igualmente, profecias, que preparavam o terreno, de forma mágica, para a vinda do Salvador. Em 1922 o escritor Kurt Hesse publicou em sua novela “O Marechal Psicológico” que:

Assim, um dia virá em que se anunciará Aquele que todos nós aguardamos cheios de esperança: centenas de milhares de cérebros carregam sua imagem no seu âmago, milhões de vozes invocam-no incessantemente, toda a alma alemã o procura... De onde virá? Ninguém sabe. Talvez de um palácio de príncipes, talvez de uma cabana de operários. Mas, cada um sabe: é ele, o Führer. Cada um o aclamará; cada um lhe obedecerá. E por que? Porque um poder extraordinário emana de sua pessoa: é o diretor das almas. Daí porque o seu nome será: o Marechal Psicológico.

Observamos que Hitler ou outra figura que tivesse as características semelhantes, correspondia a um ideal mágico, a busca de um salvador, que – misticamente – reconduziria a Alemanha para uma epopeia de glórias, em que o Império Universal, sonho do antigo pangermanismo da casa dos Kaisers, se tornaria, finalmente, realidade.

O primeiro biógrafo de Hitler, Konrad Heiden, já escrevia em “Hitler: a vida de um bárbaro”:

O homem Adolf Hitler é comparável a um médium que faz desprender de si o fenômeno... O Fuhrer é um filho das massas. E que espécie de massa é essa! É a do povo alemão empobrecido, derrotado, inanido... Por esse motivo esse lutador que veio à tona, saindo da insignificância, é o predileto e modelo da massa em luta com sua desesperança.

De parte da elite agitadora, existe a ideia que é possível, pela guerra, fazer a Alemanha uma potência mundial, novamente. Para isto, todos concordam, é necessário um Salvador, um Líder, (o Fuhrer), que magicamente, tornará humilhação em triunfo e derrota em vitória. Não existisse esta raiz mística profunda, todo o fenômeno do nazismo não teria sido possível.

Conclusão

Diz o escritor François Perroux, escrevendo na época, para tentar compreender e divulgar na França as ideias do nazismo:

O nacional-socialismo ofereceu uma pseudo-religião, sem paraíso inacessível, que o povo alemão confusamente solicitava. Divinizou a própria raça germânica, isto é, a totalidade dos arianos nórdicos concebidos como depositários de toda a verdade, de toda a bondade e de toda a beleza. Em torno do dogma da raça, congregou as multidões por meio de ritos, procissões, juramentos, autos de fé, saudações, hinos e cânticos.

Pretendeu ensinar-lhes uma moral própria: a moral dos germanos, diferente do resto da humanidade. Afirmou não a comunhão dos santos, mas a comunhão dos Heróis, quer dizer, dos arianos nórdicos, isto é, dos homens de sangue alemão. Nesses homens incute o sentimento de serem o povo eleito, o sal da terra. Não é por acaso que o nazismo se choca violentamente com as Igrejas autênticas. Ele próprio é um Estado que se quer constituir uma Igreja... essa interpretação do nacional-socialismo como Ersatz de religião mostra claramente como a Alemanha se move num mundo de pensamentos totalmente diverso daquele que sugere o contraste marxista: capitalismo versus anticapitalismo. Ela explica as exclusões e as interdições que a mística hitlerista tem lançado contra as doutrinas econômicas tradicionais.

E que doutrinas econômicas teria o nazismo? Comenta o mesmo autor:

Uma escola preconiza o regresso deliberado às formas de produção e de troca pré-capitalistas. Quando reinavam estás fórmulas, a comunidade nacional era mais unida, a nação demograficamente mais forte e mais independente. Uma Nova Idade Média, tal é, portanto, com todas as conseqüências que comporta, moderação das necessidades, disciplina de técnica, renovação dos costumes corporativistas, a senha que lançam alguns economistas, entre eles Werner Sombart. Aliás é a essa tendência a política de reorganização e proteção aos componeses, praticada pelo IIIº Reich e de que Walter Darré é o profeta, o criador, o ensaiador... Tersemarcher, diz, explicitamente que a restauração de forças econômicas herdadas de uma passado longínquo encontram seu fundamento natural na Terra e no Sangue... O camponês, que não é um tipo de humanidade surgido do capitalismo, deverá viver livre e feliz em seu campo. Feudalismo, mas aperfeiçoado e centralizado, onde nenhum dos senhores vassalos contesta os direitos do grande suserano, Hitler, o Führer... Há uma hostilidade fundamental à ideia de contrato, substituída por laço de fidelidade pessoal... O diretor da fábrica será assessorado por um círculo de “homens de confiança” e tribunais de honra estão encarregados de reprimir as infrações.

Oswald Dutch, no famoso trabalho da época, “Os doze Apóstolos de Hitler”, já lembrava:

O sangue alemão deve desembaraçar-se, o mais rápido possível de toda ideia de pecado. A noção de sangue e honra deve formar a alma alemã. A beleza grega reina sobre as formas do corpo, a beleza germânica determina a formação da alma. Uma significa o equilíbrio exterior, a outra a lei interior... Os casamentos dos membros do Partido Nacional-Socialista não foram mais celebrados na igreja, nem na pretoria, mas debaixo do carvalho de Wotan segundo os ritos pagãos. Quase toda a juventude e todas as formações militares do Partido adotaram, imediatamente, o paganismo de Rosenberg*, empreendendo, ao mesmo tempo, uma luta encarniçada contra o cristianismo. Esta luta anticristã está vinculada ao movimento antissemita, pois Rosenberg lembra que os católicos são de uma religião de origem judaica e adoram os mesmos deuses que os judeus.

O nazismo poderia ser entendido como algo mais do que um fundamentalismo ideológico religioso. Enquanto os fundamentalistas de hoje tentam travar o futuro, o nazismo ia além: com pitadas de um passado mítico, ele pretendia criar um Bravo Novo Mundo, com uma super-raça, baseado no mito do puro-sangue, parte da lenda do Santo Graal, que nada mais é do que uma mitologia do século XII, que, em última análise, trata de preservação do sangue perfeito, o sangue de um deus. Hitler e o nazismo, portanto, podem ser explicados e até entendidos, não só por causas econômicas, mas por uma filosofia que vinha determinando este caminho particular para aquele momento histórico de há muito e muito tempo.

Nota:

* Alfred Rosenberg (1893 – 1946), intelectual do Partido Nazista e autor de “O Mito do Século XX”

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

[POL] A Política de Drogas do Terceiro Reich

Jonathan Lewy

 


Biologia, herança e melhoramento das futuras gerações fascinaram os nazistas ao ponto do estabelecimento de uma política. A busca da higiene racial, a luta contra os comportamentos antissociais e contra os indivíduos e raças “deficientes biológicos” eram o cerne da visão de mundo nacional socialista e encontraram suas bases nos códigos penais e nos tribunais do Reich. Aqueles que sofriam de doenças hereditárias, judeus, ciganos, deficientes físicos e antissociais tinham um defeito biológico segundo os olhos dos nazistas, e, portanto, foram perseguidos. Mas a biologia influenciou a política nazista em relação às drogas, viciados e crimes de narcotráfico?

Apesar de ser costume hoje em dia chamar o tabagismo e o álcool de “drogas”, fazer isso na Alemanha nos anos 1930 não seria menos do que um anacronismo. Muitos alemães distinguiam entre drogas (Rauschgifte ou Betäubungsmitteln), tabaco e álcool e assim também o fazia a lei. O regime nacional socialista tornou as coisas ainda mais claras, diferenciando viciados de alcoólatras extremos. Os últimos foram esterilizados, ainda que em pequeno número.

Antes da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha possuía um monopólio virtual das drogas manufaturadas, ou aqueles fármacos que exigem conhecimento químico e capacidade industrial para produzir. A morfina, um alcaloide encontrado no ópio, o qual é melhor conhecido por seu efeito analgésico, foi o produto principal da indústria farmacêutica alemã. O alcaloide foi isolado primeiramente por um químico alemão na primeira década do século XIX, e foi logo patenteado pela Merck em Darmstadt. Outras drogas, especialmente os opiáceos (narcóticos) também tinham origem alemã. Apesar de um químico britânico ter originalmente sintetizado a diacetilmorfina em 1874, a droga não impactou o mercado mundial até quando foi redescoberta e produzida em massa pela Bayer em Leverkusen em 1898.

Tanto a morfina quanto a heroína eram consumidas na Alemanha durante os anos de Weimar e do Terceiro Reich, apesar de que a morfina era muito mais popular do que o seu primo mais potente, talvez explicando a decisão da Merckel de encerrar seu programa de diacetilmorfina. O número de viciados na Alemanha é difícil de saber. Como muitas estatísticas de drogas, os números relatados de viciados são meros chutes ao invés de números confiáveis, principalmente porque é quase impossível diferenciar viciados de usuários.

O funcionário governamental superior (Oberregierungsrat) Erich Hesse, um alto funcionário no Departamento de Saúde do Reich nos anos 1930 e 1940, relatou que de 1913 até 1922 houve um aumento de viciados em opiáceo (isto é, morfina e heroína) na Prússia, de 282 para 682; o número de viciados aumentou com o surgimento de soldados feridos no campo de batalha, e em 1928, havia 6.356 viciados em morfina na Alemanha, dos quais 560 eram médicos. Em 1931, Hesse relatou que a taxa de vício na Alemanha era significativamente mais baixa, com 0,3 viciado por 10.000 homens e 0,1 viciado por 10.000 mulheres, produzindo um resultado aproximado de 1.200 viciados na Alemanha. Os caminhos misteriosos das estatísticas e estimativas de drogas não podem ser explicados, mas certamente estes números são somente tão úteis quanto as impressões de qualquer leigo.

A única informação significativa que poderia ser coletada do estudo de Hesse é que pelo final da terceira década do século XX, um em cada cem médicos era identificado como um viciado. As autoridades sabiam que médicos e farmacêuticos, os profissionais com maior acessos às drogas, eram o ponto fraco da política de controle de drogas do Reich. Para corrigir a situação, regulamentos restritivos foram impostos a médicos e comerciantes farmacêuticos, como vendedores e farmacistas; mas o governo foi cuidadoso para não antagonizar esses dois grupos, procurando incluí-los nos esforços de controle, ao invés de levá-los à ilegalidade. Em 10 de outubro de 1937, o juiz Dr. Baier de Berlim, afirmou que era mais fácil para um médico viciado prescrever narcóticos para pacientes do que para médicos não-viciados. A polícia, compartilhando este sentimento, agiu de acordo e apertou seu controle sobre os médicos. Um estudo diferente conduzido pelo Dr. Kurt Pohlisch, um psiquiatra na Universidade Bonn e um participante ativo na esterilização de pacientes que sofriam de doenças hereditárias, afirmou que o número de viciados em opiáceos na Alemanha que consumiam mais do que 0,1 grama de morfina por dia era exatamente 3.500; destes, somente 237 consumiam mais do que um grama e cerca de um terço consumia em média 0,2 grama por dia. Como poderia se esperar, Berlim era a principal fonte de vício com 1,91 viciados em cada 10.000 pessoas. Apesar da óbvia discrepância entre estes estudos, as autoridades alemãs consideraram as estimativas de Pohlisch confiáveis e continuaram a usá-las até pelo menos 1937.

Diferentemente das estimativas anteriores de Hesse e Pohlisch, o delegado (Kriminalkommissar) Werner Thomas, chefe da unidade antinarcotráfico alemã dentro do Departamento de Polícia Criminal do Reich, relatou que o vício em morfina estava crescendo e que havia cerca de 1.500 viciados em morfina registrados em 1932. Somente quatro anos separam o estudo de Hesse das atividades policiais de Thomas, sugerindo o tipo de mágica estatística usada para determinar os números do vício. Em 1942, o delegado Erwin Kosmehl, sucessor de Thomas, relatou que havia 2.384 viciados registrados em morfina na Alemanha. Em comparação, o delegado Harry Anslinger do Escritório Federal Americano de Narcóticos relatou em 1931 que havia algo entre 120.000 e 140.000 viciados nos Estados Unidos. Outros eram ainda mais liberais, afirmando que no final dos anos 1920, os Estados Unidos tinham algo entre um quarto e um milhão de viciados. A população dos Estados Unidos na época era cerca de 122 milhões; portanto, se levarmos em conta as estimativas conservadoras de Anslinger, a taxa de vício era cerca de 1,4 viciados por 1.000 habitantes. Na Alemanha, se considerarmos as estimativas generosas de Hesse, a taxa de vício era 0,09 por 1.000 habitantes. Se confiarmos em tais números, a Alemanha aparentemente tinha um problema de opiáceo menor do que os Estados Unidos.

A noção de que tropas que retornavam do front constituíam a maior parte dos viciados na Alemanha foi reforçada por um estudo conduzido pelo Ministério do Trabalho do Reich em 1931 descrevendo, entre outras coisas, o tratamento dos soldados viciados. Apesar da asserção de que usuários podem consumir drogas por anos sem tornarem-se viciados, o paradigma era claro: guerras criam viciados em drogas, tanto por causa dos soldados feridos que recebem tratamento com opiáceos quanto pela baixa moral. A primeira possibilidade, e não a última, foi explorada no relatório, com o objetivo de encontrar uma cura, ao invés de encontrar os viciados para colocá-los na prisão. Em 14 de outubro de 1942, o Dr. Leonard Conti, o líder dos médicos no Reich, declarou que a Alemanha não tinha o problema de drogas, mas que ela deveria se preparar para isso após o fim da guerra. Conti atribuiu os sucessos do regime nazista no combate ao fenômeno do vício em drogas após a Primeira Guerra Mundial a várias leis antidrogas que foram promulgadas e às várias medidas de bem estar dos trabalhadores. Ele esqueceu de mencionar, contudo, que a principal lei antidrogas, a  Opiumgesetz foi criada em 1929, quatro anos antes dos nazistas assumirem o poder. Seu alerta era claro; o medo de uma onda de soldados “doidões” viciados voltando das trincheiras de uma nova guerra mundial, mas esta nova onda nunca chegou. O uso de drogas na Alemanha permaneceu baixo até o final dos anos 1960.

Nem todas as drogas na Alemanha eram opiáceos. A cocaína, talvez a segunda droga mais popular nos anos Weimar, também tinha origens alemãs, ou pelo menos raízes no mundo de língua alemã. Isolada originalmente por químicos alemães a partir das folhas de coca, a cocaína foi popularizada por dois médicos vienenses de origem judaica. Provavelmente, o mais influente dos dois na época era o Dr. Karl Koller, um oftamologista que emigrou para os Estados Unidos em 1888 e introduziu a cocaína como anestésico local na cirurgia do olho em setembro de 1884. O segundo foi o Dr. Sigmund Freud, que publicou seu ensaio “Sobre a Coca” em julho de 1884. Os dois médicos incitaram a imaginação de muitos médicos tanto na Alemanha quanto no exterior, ajudando a popularizar a droga. Apesar dos cuidados com a indicação da droga, logo ela começou a ser receitada por médicos universitários nos Estados Unidos. A partir daí, o caminho para banir a droga foi aberto. O entusiasmo alemão pela droga continuou até os anos 1890, quando uma série de publicações manchou a reputação da droga. Alguns enalteciam a cocaína, outros a amaldiçoavam e o governo não se via capaz de salvar a regulação da utilidade de todas as drogas. O consumo de cocaína só disparou após a Primeira Guerra Mundial, à medida que os estoques militares foram lançados no mercado civil, apesar de algumas vezes estar diluída em ácido bórico, novocaína e outros substitutos. De acordo com uma estimativa, “o uso de cocaína em hospitais universitários aumentou de uma média de 1,75% para 10% em 1921.” Nos anos após a guerra, os usuários queriam recreação e algumas vezes adquiriam drogas de vendedores ilegais.

Com a imagem popular de cabarés, e festas boêmias agitadas, Berlim era conhecida como a cidade do pó. Os traficantes de cocaína infestavam os lugares mais conhecidos da cidade, do Zoológico à Postdamerplatz em Wittenbergplatz. De fato, o delegado Ernst Engelbrecht de Berlim afirmou em 1924 que a cocaína tornou-se mais popular entre as mulheres e os homossexuais masculinos. Para ele, a cocaína não era o problema; ela havia se tornado uma epidemia. Mesmo assim, de acordo com estimativas da época, a cidade de Karlsruhe reinava suprema como o centro para o consumo de cocaína com 1,44 gramas por 1.000 habitantes, enquanto Berlim permanecia em segundo lugar com um grama por 1.000 habitantes, que não é um consumo particularmente alto.  

Nada dura para sempre. À medida que o governo republicano ganhou força a partir do seu nascimento revolucionário, a lei e a ordem foram restaurados gradativamente por toda a Alemanha. Regulações em relação à estocagem de cocaína e à venda da droga segundo a legislação de 1921, e apesar de alguns debates para separar a cocaína dos opiáceos, ela foi incluída nos controles restritivos impostos às farmácias. Após 1924, a venda da cocaína em pó foi proibida nas farmácias. Foi estimado que o consumo de cocaína atingiu seu pico em 1927, e rapidamente caiu em seguida. Em 29 de dezembro de 1932, apenas um mês antes da tomada de poder pelos nazistas, o chefe do Departamento de Saúde do Reich no Ministério do Interior escreveu, “Para o conhecimento do Departamento de Saúde do Reich, não há comércio ilegal de drogas (nem opiáceos nem cocaína) em Berlim em uma quantidade considerável que possa colocar em risco a saúde pública. As circunstâncias em relação a isto mudaram completamente nos últimos anos.”

Apesar das afirmações de uma “epidemia de cocaína” em Berlim, o número de viciados deve ter sido baixo. Desde que números para este período são raros de se conseguir, podemos somente deduzir a taxa de consumo obtida da informação coligida após a chegada dos nazistas ao poder. Em 10 de outubro de 1937, o delegado Thomas relatou em um discurso feito em Stettin que havia 300 viciados em cocaína registrados na Alemanha; seu número não havia crescido desde 1932. A afirmação de Thomas recebeu alguns reforços da opinião do delegado Kosmehl que até 1942, havia somente 465 casos conhecidos de vício. Considerando que massas de viciados em drogas não desaparecem nem foram miraculosamente curadas destro de um período de apenas cinco anos, podemos concluir que apesar da onda de cocaína nos meados dos anos 1920, o vício permaneceu baixo. Se houvesse um programa governamental que sumisse com ou curasse os viciados, ele não passaria despercebido.

Nem todas as drogas populares na Alemanha tinham origens alemãs. O Dr. Nagayoshi Nagai, um químico japonês, sintetizou primeiramente a metamfetamina em 1888 e publicou suas descobertas em 1893; em 1940, havia 24 tipos de metamfetaminas disponíveis no mercado asiático. A companhia alemã Temmler-Werke em Berlim produziu esta droga pela primeira vez em 1938, e garantiu seu domínio no mercado internacional através da patente da droga na Grã-Bretanha, França e Alemanha sob o nome de “pervitin” (fenilmetilaminopropano). Em 1942, Kosmehl notou que havia 84 viciados em pervitin nos registros policiais. A Alemanha nazista foi provavelmente o primeiro país do mundo a regular a metamfetamina, mas nunca a baniu. As tropas, especialmente pilotos e tripulações de tanques, recebiam a droga sob várias formas para melhorar seu desempenho sob condições de pressão. À medida que a guerra tornou-se mais violenta, as autoridades alemãs perceberam os perigos da droga e impuseram mais controles. Um debate seguiu-se entre os especialistas em relação aos efeitos do pervitin e, em 25 de outubro de 1941, o serviço médico da Luftwaffe estabeleceu que o pervitin estivesse entre as drogas “mantidas sob extrema vigilância.” A droga, entretanto, continuou sendo usada pelos pilotos e tropas terrestres antes de missões perigosas.

Os historiadores frequentemente afirmam que os nazistas conduziam experimentos em prisioneiros com drogas ilegais. Isto é um anacronismo, já que o pervitin era legal na época. O crime não foi o uso de drogas ilegais nos experimentos, mas experimentá-las em seres humanos sem o seu consentimento, independentemente delas serem legais ou não. Os nazistas fizeram experimentos com drogas, e mesmo obrigaram prisioneiros dos campos de concentração a participar destes experimentos; contudo, as razões destes experimentos dificilmente tinham a ver com a ideologia, e sim por motivos forenses. A escolha das cobaias, os internos do campo, para experiências com o pervitin era certamente guiada por ideias biológicas ou de higiene racial, mas o objetivo da pesquisa não tinha nada a ver com a visão de mundo do nacional socialismo.

As leis de fármacos alemãs eram divididas em dois grupos: aquelas que governavam o tráfico de drogas e comércio, e aquelas que governavam a prescrição de drogas. As primeiras eram geralmente empregadas contra traficantes ou regulavam a distribuição comercial legal, enquanto que as últimas eram empregadas contra usuários ou comércio regulado. O consumo de qualquer droga era legal, mas a posse sem prescrição era proibida. Isto explica por que quando o serviço de segurança nazista (SD) prendeu um trabalhador búlgaro em Halle por tráfico de haxixe, ele foi acusado de contrabando e não por outro motivo. Embora o uso de drogas nunca tenha sido considerado um crime, a posse era e tinha um considerável peso no status legal dos usuários de drogas e viciados no Terceiro Reich.

A regulação em relação à venda era baseada nos antiquados procedimentos de prescrição emitidos em 1872, permitindo que os farmacêuticos vendessem drogas em suas lojas por motivos médicos com prescrição médica. O sistema legal não era de modo algum coerente, já que certas drogas eram reguladas sob leis farmacêuticas, algumas eram reguladas sob leis de tóxicos e outras ainda eram controladas pela lei pertencente ao comércio de fármacos; mas ela continuou a funcionar até a Primeira Guerra Mundial. Apesar de sua incoerência, o sistema funcionava. O país não tinha uma epidemia de drogas. Farmacêuticos, ao invés de serem caçados pelas autoridades, tornaram-se altamente profissionais e a indústria alemã prosperou.

Após a guerra, a Alemanha sofreu inflação séria acompanhada de escassez de materiais, mas as companhias farmacêuticas não tinham capacidade produtiva que absorvesse a demanda doméstica. Consequentemente, o contrabando de drogas na Alemanha era um problema sério durante os anos da República de Weimar. O representante britânico para o Comitê de Consulta do Ópio, Sir Malcolm Delevigne, escreveu em 1926: “A Alemanha está longe de ter controle na questão do tráfico ilícito de drogas; mas o uso de rótulos forjados em uma escala maciça (muitos deles parecem provir de fontes japonesas) dá ao governo e fabricantes alemães um meio de defesa.”

Durante o Império e a República que o substituiu, as cortes alemãs somente podiam condenar os usuários de drogas e viciados por estarem de posse de quantidades de drogas acima das quantidades recomendadas por prescrição, falsificação ou roubo de receitas médicas ou possuir drogas sem prescrições. Houve casos em que médicos foram condenados por prescrever excesso de drogas para si mesmos e para pacientes, assim prejudicando sua própria saúde e a de seus pacientes; porém, a droga permaneceu legal. Nenhuma lei jamais foi aprovada proibindo o uso de qualquer droga na Alemanha.

Entre 1919 e 1928, cinco leis antidrogas e decretos foram aprovados. Em 1928, um guia para as leis de narcóticos foi publicado na Alemanha por Louis Lewin e pelo jurista Wenzel Goldbaum no qual eles diziam que o uso ilegal de drogas ou o mau uso de receitas médicas conduziam à punição máxima de três anos na cadeia e uma multa. Os dois insistia, contudo, que viciados eram doentes e não criminosos; portanto, eles tinham a proteção do código penal, que lidava com a culpabilidade criminal. Viciados, de acordo com Lewin e Goldbaum, não eram responsáveis por suas ações enquanto estivessem sob a ação dos narcóticos e poderiam receber tratamento ao invés de uma sentença de cadeia. Os juízes frequentemente concordavam com esta posição, mas foram incapazes de obrigar o tratamento e ficaram conhecidos por libertar criminosos despreparados para enfrentar um tribunal. A proteção de bêbados e criminosos não-viciados existia no Código Penal alemão desde a sua criação. Uma demanda por uma reforma penal foi sentida na virada do século e tentativas foram feitas de dar aos juízes melhores ferramentas jurídicas para lidar com tais casos. Tais reformas falharam em serem implementadas nos anos da República de Weimar.

Em 20 de maio de 1933, Wilhelm Frick, o Ministro do Interior nazista, enviou uma carta a Hitler clamando por uma legislação para a segunda emenda da Lei do Ópio, em virtude da recente descoberta de tráfico ilegal de benzilmorfina de Hamburgo para a Europa Oriental. Frick notou que ele ordenaria à polícia para tratar do problema em Hamburgo com severidade no sentido de mostrar ao mundo que não havia conexão entre a indústria farmacêutica alemã com o contrabando ilegal de drogas.

Após a ascensão dos nazistas ao poder, a Lei do Ópio recebeu dezesseis emendas, acrescentando novas drogas às listas tanto por lei quanto por decreto. Os fundamentos da Lei de 1929 permaneceram e nenhuma droga foi banida, ou seu uso restrito mais do que já era aceitável no decreto de prescrição de 1930. Nenhuma das leis antidrogas ou emendas carregavam qualquer traço da ideologia nazista. As políticas raciais falharam em se infiltrar nas leis antidrogas, mas a retórica da higiene racial se infiltrou na reforma do código penal, que influenciou a política de drogas no Terceiro Reich.

Desde que não existe nada mais comum do que viciados consumindo suas drogas preferenciais, é lógico que viciados foram enviados a campos de concentração à vontade; mas não existem registros deste fato. De fato, vício em drogas nunca foi relatado em qualquer campo de concentração ou prisão. Apesar do fato de que a polícia recebeu carta branca para se livrar dos viciados, ela se recusou a fazê-lo. Por quê? Uma resposta poderia ser encontrada naquilo que pareceria ser um simples argumento semântico. O uso de drogas nunca foi um crime na Alemanha; assim, os habituais usuários, ou viciados, não eram criminosos. Portanto, eles não eram considerados criminosos habituais e não poderiam ser enviados aos campos de concentração.  

A criação da unidade antidrogas do Reich coincidiu com uma grande reforma burocrática nazista, centralizando a autoridade policial em Berlim sob a responsabilidade de agências centrais contra crimes específicos. Ao todo, eram onze unidades, mas somente uma tinha a palavra “transgressão” (Vergehen) em seu nome, ao invés de crime (Verbrechen), a agência central do Reich para combate da transgressão das drogas. Após um atraso, a nova unidade foi oficialmente criada em 21 de novembro de 1935, com dezenove estações de coleta de dados e 64 postos de inteligência, com mais dois acrescentados durante a guerra. No quartel-general havia provavelmente onze policiais e funcionários administrativos. A função da nova unidade era reunir informações das várias estações policiais, manter um fichário de todos os viciados e criminosos conhecidos, coordenar esforços contra o tráfico de drogas (incluindo aí a troca de informações com outras policiais em vários países) e garantir o cumprimento da lei do Ópio de 1929 e o Decreto das Prescrições de 1930. Mas, de fato, a unidade agia mais como um parasita nas delegacias da polícia normal, extraindo informações de seus arquivos.         

Gerhart Feuerstein, pertencente ao grupo de combate às drogas, erroneamente disse em uma conferência que aconteceu em Stettin em 10 de outubro de 1937 que a Lei das Medidas de Proteção e Correção permitiam aos tribunais impor a hospitalização de viciados por até três anos em um sanatório ou seis meses em um programa de reabilitação. De fato, os tribunais poderiam enviar um viciado a um sanatório por tempo indeterminado, dependendo de julgamento profissional, se o viciado estava curado ou não. Entretanto, a maioria dos sanatórios liberava seus pacientes após um tratamento de seis meses. O escritório do promotor público era responsável por manter vigilância sobre o viciado se ele retornou ou não aos velhos hábitos. Se a recaída aconteceu, não havia necessidade de uma ordem judicial adicional. De acordo com os regulamentos do escritório do promotor público, a vigilância era encerrada após cinco anos desde a última visita do paciente ao sanatório, apesar de que o escritório encerrava em geral essa atividade muito mais cedo. Estes sanatórios não eram apenas clínicas. Em algumas alas, aqueles que não se ajustariam a uma vida normal eram exterminados ou deixados para morrer de fome; mas ainda está para ser provado que os viciados eram enviados para esses locais de extermínio*.        

Jonathan Lewy é professor do Centro Richard Koebner para História Alemã na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Nota:

* Na falta de provas materiais, assume-se que os nazistas matavam seus prisioneiros.


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A Guerra Nazista contra o Câncer

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Guerra Hispano-Americana: os novos donos do mar

Ricardo Bonalume Neto

 

A Guerra Hispano-Americana de 1898 sinalizou de vez a decadência espanhola como potência mundial e catapultou os Estados Unidos para o primeiro plano das disputas políticas globais. A Espanha tinha perdido quase todas as suas colônias na primeira metade do século 19; restavam apenas alguns poucos lugares do antigo império onde “o Sol nunca se punha”, como as Filipinas, Cuba ou Porto Rico. Já os Estados Unidos, depois de uma devastadora Guerra Civil entre 1861 e 1865, continuaram sua vertiginosa expansão econômica, mas mantinham em grande parte um isolamento político das questões mundiais. Isso mudaria radicalmente com a guerra.

Foi então que um dos mais influentes pensadores militares da história escreveu um livro seminal: A Influência do Poder Naval na História, 1660-1783, do capitão Alfred Thayer Mahan (1840-1914). Nesse livro, publicado em 1890, encontram-se as sementes intelectuais da guerra de 1898, das guerras japonesas contra chineses e russos logo em seguida e da corrida naval entre britânicos e alemães antes da Primeira Guerra Mundial. Para Mahan, o país que tivesse uma esquadra poderosa poderia derrotar uma frota rival e, com isso, controlar as rotas marítimas e bloquear a economia do inimigo. Ele defendia a busca dessa batalha naval decisiva para decidir o conflito.

Foi o que aconteceu em 1898, quando a renascente Marinha americana derrotou fragorosamente sua rival espanhola nas batalhas da Baía de Manila, nas Filipinas, e da Baía de Santiago, em Cuba. Com o domínio do mar, os americanos puderam projetar seu poder em terra e vencer as tropas inimigas.

Dos navios envolvidos nessas batalhas, o cruzador USS Olympia é o único remanescente que ainda flutua. Foi a nave-capitânia do almirante George Dewey (1837-1917) na batalha da Baía de Manila e encontra-se hoje preservado como navio-museu em Filadélfia, ao lado de um submarino da Segunda Guerra, o USS Becuna. Visitar o Olympia é voltar mais de um século no tempo e ajuda a entender como eram as batalhas navais da época da segunda Revolução Industrial.

A evolução dos navios

No começo do século 19, os navios eram de madeira, de propulsão a vela e armados com canhões de carregar pela boca com balas esféricas. No meio do século, surgem os navios encouraçados com ferro, movidos a vapor, embora ainda com velas como meio de propulsão auxiliar, e armados com canhões que disparam granadas explosivas. Assim eram os navios da Guerra Civil americana e da Marinha brasileira na Guerra do Paraguai.

A partir da década de 1880, uma nova revolução na engenharia naval se traduz em navios feitos de aço. As velas desaparecem de vez e começa a haver maior padronização dos tipos de navio de guerra. O principal deles passa a ser um couraçado de aço armado com canhões de grande calibre e uma bateria secundária de outros de calibre menor. Os cruzadores são versões menores, menos blindadas, porém mais rápidas.

A partir de 1883, o Congresso dos EUA decide iniciar a construção de navios modernos para substituir os velhos cascos da época da Guerra Civil. O país já estava no caminho de se tornar a maior potência industrial do planeta. Mas a situação da Marinha americana no começo da década de 1880 era tão ruim que até mesmo os navios adquiridos por marinhas sul-americanas causavam preocupação. Segundo o historiador naval John Roberts, era particularmente preocupante não haver então, na Marinha americana, couraçados equivalentes em poderio aos brasileiros Riachuelo e Aquidaban, nem ao cruzador chileno Esmeralda, todos fabricados no Reino Unido.

O USS Olympia foi autorizado em 1888, lançado ao mar em 1892 e entrou em operação em 1895. Era, portanto, um navio novo e moderno em 1898. Apesar de ser a maior embarcação presente na batalha, o USS Olympia hoje impressiona por ser um navio pequeno. Com pouco mais de cem metros de comprimento, ele é mais curto que uma fragata de hoje. Apesar disso, tinha quatro canhões poderosos para um cruzador da época, de calibre 8 polegadas, em duas torres avante e a ré.

Estopim do conflito

O estopim para a guerra foi justamente o afundamento em Havana de um dos navios dessa nova Marinha, o pequeno couraçado USS Maine, em 15 de fevereiro de 1898. Tudo indica que a explosão foi acidental, seja nos depósitos de carvão, seja nos paióis de munição. Mas não poderia haver momento ou lugar pior para o acidente.

Os EUA pressionavam a Espanha para ceder a independência da ilha aos rebeldes cubanos, que a opinião pública americana defendia como “combatentes da liberdade”. Muitos se convenceram de que o Maine fora afundado por uma mina espanhola, como o então influente secretário-assistente da Marinha, Theodore Roosevelt Junior (1858-1919), amigo pessoal e fã das teses do capitão Mahan – e futuro presidente americano.

A imprensa popular americana, especialmente os jornais das cadeias de William Hearst (1863-1951) e Joseph Pulitzer (1847-1911), comprou a tese e iniciou forte campanha pela declaração de guerra. Hearst foi o principal modelo de Cidadão Kane, clássico filme de Orson Welles.

Roosevelt acreditava na iminente declaração de guerra e começou os preparativos assim que soube do afundamento do USS Maine. Ainda em fevereiro ele telegrafou ao então comodoro George Dewey para reunir em Hong Kong os navios do esquadrão asiático americano e preparar-se para eventualmente atacar as Filipinas. Roosevelt também despachou outro cruzador, o USS Baltimore, para reforçar a frota e completar seu suprimento de munição.

Um relatório apressado da Marinha americana afirmou no mês seguinte que o Maine tinha sido afundado por mina, mesmo sem provas. A pressão pela guerra passou a ser irresistível. O presidente William McKinley Junior (1843-1901) foi autorizado pelo Congresso em 19 de abril a usar força armada para retirar Cuba da autoridade espanhola. Em 25 de abril, o Congresso declarou guerra.

Dewey comprou dois mercantes, o Nanshan e o Zafiro, para transportar carvão extra, e partiu rapidamente de Hong Kong rumo às Filipinas com quatro cruzadores, duas canhoneiras e um navio auxiliar. Já em 30 de abril, a frota avista a ilha filipina de Luzón. Os americanos descobrem que a frota espanhola do contra-almirante Patricio Montojo y Pasarón (1839-1917) deixara a Baía de Subic e se concentrara em Manila. O esquadrão espanhol ancora perto da fortaleza de Cavite. Com navios menos poderosos, o almirante espanhol queria aproveitar a defesa adicional dos canhões dos fortes que protegem a capital da colônia.

A frota americana aproxima-se durante a noite e troca tiros com os fortes na entrada da baía. Mas o comandante americano prefere atacar de dia, na manhã de 1º de maio. A batalha começa às 5h10. O USS Olympia está em primeiro na fila de navios; em seguida vêm os USS Baltimore, Raleigh, Petrel, Concord e Boston. O auxiliar McCulloch e os carvoeiros mantêm-se a distância. Dewey espera chegar mais perto dos navios espanhóis ancorados antes de começar a atirar. Só às 5h40 que ele dá a famosa ordem ao capitão do Olympia, Charles Vernon Gridley (1844-1898): “Pode disparar quando estiver pronto, Gridley”. As duas frotas estavam então a meros 4,5 quilômetros de distância uma da outra.

Tiro ao alvo

A batalha foi um exercício de tiro ao alvo – e mal realizado. A pontaria americana é péssima, mas a espanhola é infinitamente pior. Análises depois da batalha nos navios espanhóis destruídos indicaram, por exemplo, que dos 635 disparos dos canhões de calibre 6 polegadas, apenas sete (1%) atingiram o alvo (veja quadro na página anterior).

A munição começa a faltar e Dewey faz uma original pausa no combate para o café-da-manhã da tripulação. Depois de três horas fora da baía, a frota americana retorna ao combate. Apenas um navio espanhol, a pequena canhoneira Don Antonio de Ulloa, sai ao encontro do inimigo e termina afundada com a perda de toda a tripulação. Por volta das 12h30, os espanhóis rendem-se, depois de perderem 381 homens mortos e todos os principais navios. Apenas nove tiros atingiram os navios americanos, provocando danos leves e ferindo sete marinheiros, mas sem matar nenhum. “O estarrecedor índice de acertos, particularmente contra alvos estacionários em Manila, e quando o fogo de resposta era desprezível, foi a lição mais conspícua”, segundo o historiador e engenheiro naval britânico David K. Brown.

A principal razão das perdas espanholas foi o fogo. Ainda havia muita madeira a bordo dos navios espanhóis, e nos trópicos ela tende a ficar bem seca e vulnerável a incêndios. A frota espanhola era “uma coleção de navios antigos, obsoletos e com ruim manutenção, de escasso ou nulo potencial de combate”, afirmou o historiador espanhol Antonio Carrasco Garcia, justificando a derrota.

A Espanha coleciona depois outras derrotas no mar e em terra, e a guerra termina em agosto, com um tratado de paz assinado no final do ano.

Os EUA saem do conflito como uma verdadeira potência colonial, de posse das Filipinas, Guam e Porto Rico e um quase-protetorado na independente Cuba.

O Futuro da Guerra Aérea

Vianney Riller

Defesanet, 17 de Julho, 2013

 
USS CVN77 George H.W. Bush, na costa da Virgínia - Ao se fazer um breve exercício de futurologia no campo do Poder Aéreo, poderíamos tomar dentre tantos, dois pontos de partida aparentemente óbvios. Primeiro: o que de mais avançado se desenvolve na aviação de combate, sofre maior ou menor influência do modelo operacional da Força Aeronaval Americana. Segundo: um porta-aviões é uma “base aérea” de dimensões definiUdas e limitadas. E em que esses dois pontos podem parametrizar uma linha de raciocínio sobre o futuro da guerra no ar, ao avaliarmos a velocidade e ao sucesso com que os testes com o X-47B têm acontecido?

A Nova Unidade Aérea

O mais claro e dedutível efeito, tendo por base um CVBG - Carrier Battle Group, grupo de combate de porta-aviões (que pelas suas características de mobilidade na projeção de poder aéreo, influencia por consequência as forças continentais), é que para cada comissionamento de uma aeronave-de-combate-não-tripulada (cujas dimensões são aproximadas a de um F/A-18 Super Hornet) haverá o “desembarque” de um caça tripulado, em razões óbvias das próprias limitações físicas. Se avançarmos na análise das doutrinas de emprego, em particular dos drones da Marinha Americana, que diferentemente daqueles utilizados pela Força Aérea dos Estados Unidos (que se valem de pilotagem humana), são operados exclusivamente por pré-programação e elementos de inteligência artificial, deduzimos que a estrutura de unidade aérea embarcada será drasticamente remodelada. Uma aeronave tripulada deverá liderar de dois a quatro UCAVs - Unmanned Combat Air Vehicle, em um primeiro modelo de esquadrilha, uma formação que visa manter o poder de decisão a nível do homem ao mesmo tempo que reduz sua exposição às defesas inimigas.

Invisibilidade, Ataque à Distância, Precisão... e Robotização!

O emprego da arma aérea tem avançado, por intermédio das novas tecnologias, em busca de novos trunfos. A invisibilidade permite uma penetração mais profunda no ambiente hostil sob um risco menor de detecção e interceptação. O emprego de armamento guiado (Laser, TV, IR, GPS/INS), permite ataques Standoff - a uma distância segura do inimigo. A precisão, por conseguinte, tem sido aumentada pela “inteligência” das armas em conjunção com a melhoria de radares e sensores, o que reduz os nocivos efeitos colaterais, muitas vezes determinantes no resultado da missão.

O X-47B, apelidado “Robot” pelos militares da US Navy, é o UCAV de geometria stealth (furtiva), demonstrador de tecnologia da Northrop Grumman, que objetiva reunir todas estas características em uma aeronave-não-tripulada baseada em porta-aviões. Ele se notabiliza pela automação do voo. “O modelo da US Navy é diferente do da US Air Force”, nas palavras do próprio Comandante da Força Aeronaval do Atlântico, Rear Admiral Ted Branch. “Nós não temos alguém ativamente voando a máquina com o manche na mão. Nós a voamos com um mouse e um teclado”. Na nomenclatura militar americana, a Força Aérea tem drone pilots, a Marinha, drone operators.




Um Novo Perfil para (poucos) Pilotos

O ano é 2035. Declarado com capacidade operacional em 2019, após um custo de desenvolvimento acima dos US$ 1,4 trilhões, o JSF F-35 se tornará em breve um dos poucos caças tripulados da Força Aeronaval Americana. Os novos pilotos designados para estas aeronaves são selecionados por critérios diferentes dos adotados há vinte e dois anos antes. A agressividade tão requisitada, e ilustrada no clássico “No Guts, No Glory!” do Maj Gen Frederick Blesse, cede espaço à habilidade de gerenciamento de dados em rede. Devido a cortes orçamentários, exercícios com foco na perícia do piloto, como Red Flag, tem sua frequência e importância reduzidas, perdendo campo ao novo Linked Flag, e outros mais, com foco no processamento de informações e gestão de armamentos remotos em ambientes integrados. Full-LinkedWar é o fundamento a ser aperfeiçoado.

Afinal, os novos pilotos provavelmente nunca verão um caça inimigo durante um combate, a não ser pela tela multifuncional que exibe via link, imagens repassadas pelo sistema IR/eletro-óptico dos UCAVs avançados. Tampouco enfrentariam um cenário onde tivessem necessidade de se expor à kill zone das armas de seus opositores. O Piloto de Caça como o conhecemos, é mais do que nunca uma espécie em grave mutação.


Redesenhando Missões

De volta ao presente, o Robot é um UCLASS - Unmanned Carrier Launched Airborne Surveillance and Strike System, cujas demonstrações bem sucedidas revelam a velocidade com que se avança no desenvolvimento deste tipo de arma aérea. Sua data prevista de entrada em serviço - inicialmente 2019 - pode ser antecipada (sem falar no cronograma mais imediato dos ultrassecretos programas black ops). Pelas capacidades projetadas para cumprir missões de vigilância e ataque, o provável padrão operacional será de CAPs - Combat Air Patrol, realizadas inteiramente por drones, em zonas de menor complexidade e níveis de alerta mais baixos. Elevando-se o nível de ameaça ou em ações específicas de ataque, um caça tripulado assumiria o comando destas missões, nas proporções de 1 para 2, 1 para 3, ou 1 para 4, dependendo das doutrinas produzidas durante o atual período de desenvolvimento e aprendizado; e obviamente, do tipo de missão.

O caça tripulado como nós conhecemos hoje, cada vez mais exigirá um perfil de piloto apto a desempenhar as funções de FAC - Forward Air Controller. Com a progressiva introdução dos drones, sua principal missão será a de designar objetivos e movimentações táticas aos UCAVs sob seu comando. A fusão de dados de radares e sensores, e o compartilhamento de informações de consciência situacional de um por todos - via link entre drones, caças e mesmo armas (mísseis e bombas inteligentes), terá a capacidade de estender os olhos e garras do piloto à distâncias consideráveis. O engajamento entre o piloto do futuro e seu alvo seria cada vez mais “remoto”.

Modelando o Emprego da Arma Aérea no Mundo

Uma vez que, pela mobilidade de cada um dos seus atuais dez porta-aviões, a Força Aeronaval Americana pode projetar seu poder sobre todos os continentes, é razoável assumir que seu modelo operacional e tipo de aeronaves influenciará de uma forma ou de outra, a estrutura das forças aéreas nacionais em todo o globo. Neste caso em específico, a composição caça tripulado e UCAVs pode ser adotada por outros países. Em uma cooperação europeia, SAAB AB da Suécia, EAB da Grécia, RUAG Aerospace da Suíça, EADS CASA da Espanha e Alenia da Itália, lideradas pela Dassault da França, obtiveram sucesso com os testes de seu nEUROn, o demonstrador de tecnologia para uma aeronave de combate stealth autônoma (não-tripulada), prevista para 2020.

O Reino Unido, por meio da BAE Systems desenvolve o seu Taranis (cujo primeiro voo está programado para ainda este ano, na Austrália). Dentre as potências emergentes é forte a aposta nos UCAVs. Na Rússia o protótipo do Mig Skat servirá de base para o recém assinado contrato de pesquisa e desenvolvimento celebrado entre a empresa e o Ministério da Indústria e Comércio. Na Índia o DRDO AURA deve voar pela primeira vez em 2015. Mesmo a hermética China, com seu Shenyang/Hongdu Lijian (espada afiada) está próxima dos primeiros ensaios em voo, segundo fontes daquele país.

Os modelos de interação dos drones com as aeronaves tripuladas (especialmente no que se refere aos diferentes níveis de automação do voo) estão sendo estudados e levam em conta diversas questões, como por exemplo, o emprego conjunto com caças mono ou biplaces. Se por um lado a França emprega seu Dassault Rafale biposto exatamente em missões de maior complexidade em cenários de alta oposição e hostilidade, a Suécia e Suíça parecem avançar resolutas na adoção apenas do SAAB Gripen E - monoplace. A Espanha, Itália e Reino Unido com seu Eurofighter Typhoon, e Rússia e Índia desenvolvendo o Sukhoi/HAL T-50, devem optar por apenas um tripulante.

Tanto embora a US Navy seja a mais experimentada na configuração de aeronaves de combate com duplas de tripulantes, a introdução do F-35 e as capacidades de voo autônomo projetadas para seus UCAVs, devem permitir que apenas um piloto opere tanto os sistemas de seu próprio caça, como também lidere um grupo de drones sob seu comando.

Realidade e Futuro

A importância dos drones já é hoje amplamente reconhecida, principalmente no que diz respeito à missões que exijam muitas horas dentro do teatro de operações, em que a fadiga humana possa representar um fator limitante do desempenho. Neste quesito também pesam fatores como a exposição à certos níveis de radiação e frequências de onda, que fatais ao ser humano e danosas aos sistemas de um caça, não comprometeriam a missão de um UCAV.

O temor de que pilotos sejam substituídos por robôs é compartilhado tanto por aspirantes à aviação de combate, como também, pelos atuais aviadores com menos tempo de serviço, que pelo tempo necessário à implantação destas novas armas, deverão ser os mais afetados pelos cortes de posições ofertadas à tripulantes. Curiosamente, um dos principais argumentos quando da idealização dos UCAVS pode torna-se a principal ameaça ao programa: o custo. O que inicialmente se justificava por, além de diminuir a exposição do piloto ao risco, reduzir os altos valores envolvidos na produção e operação de um caça tripulado de última tecnologia, tem se revelado tão ou mais caro quanto o que se gasta nos aviões em uso na atualidade.

O ápice das incertezas (quanto a prazos, quantidades e formas de atuação dos UCAVs) sustenta ainda a delicada balança das questões éticas. A possibilidade de robotização do combate pode conduzir à falsa impressão de um distanciamento da guerra. Uma virtualização das consequências mortais das batalhas. E isso, desperta respeitáveis reflexões em tempos de conflitos frequentemente assimétricos. Neste particular, um preocupante efeito colateral do uso dos drones é a possibilidade de aumento das ações terroristas em retaliação à operação dos “robores aéreos”. Em razão da não exposição direta de seus operadores ao risco de ferimento ou morte, aflora o pensamento de uma ética de guerra onde “aquele que reclama o direito de matar, tem que sangrar primeiro”.
Em previsões cada vez mais sujeitas a reviravoltas, especialmente pelo feroz incremento das incertezas econômicas mundiais, tentar vislumbrar o futuro pode facilmente ir de um acerto iluminado a um ridículo retumbante. Assim sendo, o Flight Deck - convoo, dos porta-aviões da US Navy, permanece como uma das melhores “bolas de cristal” ao se tentar ver o que vem pela frente.

Nota DefesaNet

Atualizando à data de hoje:

O X-47B apresentou problemas técnicos no dia 15 de julho, durante voo onde executaria a quarta missão de pouso completo no porta-aviões americano USS George H.W Bush (CVN-77). Os oficiais envolvidos no programa de testes decidiram abortar o pouso antes da aeronave aproximar-se do navio.

No dia 10 de julho o X-47B executou dois pousos e decolagens no mesmo CVN-77 navegando a 70km da costa de Virgínia Beach. O evento foi considerado um anúncio do futuro da aviação naval. Um terceiro pouso previsto para aquele dia, também foi abortado devido a uma falha em um dos três computadores de navegação do drone.

Opinião DefesaNet

Na contramão do mundo o Brasil não tem visão aeronáutica alinhada com o futuro, ao mesmo tempo que o F-X2 vai para o "Comando do Nada" deixando o país desguarnecido de uma defesa de sua soberania do espaço aéreo.

A realidade de não-tripulados (algo muito inferior aos drones) brasileiros se resume a 6 equipamentos (4 FAB e 2 PF) designados para desempenho da função primária de uma aeronave desta natureza, a vigilância, para um território de 8.515.767,049 km² e 15.179 km de fronteiras.