segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A Revolta da Chibata

Defesanet, 22 de Novembro, 2013




Em 22 de novembro de 1910, um grupo de marinheiros do Rio de Janeiro promoveu uma das mais importantes rebeliões da história do Brasil: a Revolta da Chibata.

Liderados pelo marinheiro negro João Cândido Felisberto, os marujos tomaram três encouraçados na Baía de Guanabara e ameaçaram disparar os canhões contra a então capital da República. O que eles queriam? O fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil e melhores condições de alimentação e de trabalho. Foi um ato de coragem contra as Forças Armadas, que naquele momento contavam com uma das mais modernas frotas navais do planeta.

Planejado por cerca de dois anos e que culminou com um motim que se estendeu de 22 até 27 de novembro de 1910 na baía de Guanabara, na ocasião, rebelaram-se cerca de 2400 marinheiros contra a aplicação de castigos físicos a eles impostos (as faltas graves eram punidas com 25 chibatadas), ameaçando bombardear a cidade.

Durante o primeiro dia do motim foram mortos marinheiros infiéis ao movimento e cinco oficiais que se recusaram a sair de bordo, entre eles o comandante do Encouraçado Minas Geraes, João Batista das Neves.

Na manhã do dia 23, o emissário do governo, o deputado federal e capitão-de-mar-e-guerra José Carlos de Carvalho esteve a bordo do encouraçado São Paulo, onde lhe foi determinado que se dirigisse ao Minas Geraes para falar com o líder da revolta, João Cândido, dando-se assim início às negociações entre o governo e os revoltosos.

José Carlos de Carvalho levou para o Congresso a impressão que teve da força dos marinheiros e um Manifesto com exigências, sendo a principal o fim da chibata. O Manifesto, que tinha sido escrito durante as reuniões preparatórias, citava todos os oficiais presos nos navios e relacionava todos os navios sob o controle dos marinheiros. Isso demonstra que os revoltosos acreditavam que poderiam fazer a revolta sem mortes, e que a adesão à revolta seria total, quando a realidade era diferente disso.

Os navios que não aderiram à revolta, na maioria contratorpedeiros, entraram em prontidão para torpedear os revoltosos. No dia 25 de Novembro, o então Ministro da Marinha, almirante Joaquim Marques Batista de Leão expediu a ordem: "hostilize com a máxima energia, metendo-os a pique sem medir sacrifícios." No mesmo dia, entretanto, o Congresso Nacional aprovou a anistia para os revoltosos. Há versões de que o encouraçado Deodoro chegou a receber tiros dos contratorpedeiros, que logo cessaram fogo e voltaram para a orla.

Quatro dias depois do motim, a 26, o governo do presidente Marechal Hermes da Fonseca declarou aceitar as reivindicações dos amotinados, abolindo os castigos físicos e anistiando os revoltosos que se entregassem. Estes, então, depuseram armas e entregaram as embarcações. Entretanto, dois dias mais tarde, a 28, foi feito um novo decreto, que permitia que fossem expulsos da Marinha aqueles elementos "inconvenientes à disciplina".

A chamada "segunda revolta"

Duas semanas depois de os rebeldes terem se rendido e terem desarmado os navios, obtendo do governo um decreto de Anistia, eclodiu o que a Marinha denomina de "segunda revolta". Em combate, num arremedo de motim num dos navios que não aderiram à Revolta pelo fim da Chibata, morreram mais um oficial e um marinheiro. Esta "segunda revolta" desencadeou uma série de mortes de marinheiros indefesos, ilhados, detidos em navios e em masmorras, além da expulsão de dois mil marinheiros, atos amparados pelo estado de sítio que a "segunda revolta" fez o Congresso Brasileiro aprovar.

No Congresso, parlamentares levantaram a possibilidade de esta "segunda revolta" ter sido encomendada, ou no mínimo fomentada pelo Governo Federal (Presidente, Marinha, Exército e simpatizantes no Congresso), pois foi o Governo o maior beneficiado, com o estado de sítio, que não somente lhe permitiu excluir 2.000 marinheiros (eram 2379 os revoltados) e matar um número incerto mas estimado em duas centenas de marinheiros, como também afastar os adversários políticos, que ficaram a favor da Anistia dos marinheiros rebeldes, como o candidato à presidência derrotado, Rui Barbosa, isolando-o em São Paulo.

Apesar de se declarar contra a "segunda revolta", e até mesmo ter atirado (graças a uma culatrinha de canhão que um dos marinheiros havia escondido dos oficiais) contra os fuzileiros, companheiros seus da Marinha, para provar lealdade ao Governo Federal que havia dado a Anistia e garantido o fim da chibata, João Cândido também foi preso e expulso da Marinha, sob a acusação de ter favorecido os fuzileiros rebeldes. Entre os detidos na Ilha das Cobras, dezoito foram recolhidos à cela n° 5, escavada na rocha viva.

Ali foi atirada cal virgem, na véspera de Natal, 24 de Dezembro de 1910. Após vinte e quatro horas, estavam mortos asfixados 16 homens; apenas João Cândido e o soldado naval João Avelino, conhecido como "Pau de Lira" sobreviveram na cela 5. Numa outra cela morreram mais dois.

Mais vindita aconteceu: cento e cinco marinheiros foram desterrados para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia, tendo sido onze destes fuzilados nesse trânsito . Além disso, testemunhas, entre elas João Cândido e Marcelino Rodrigues(o chicoteado na véspera da revolta), demonstram que vários marinheiros foram mortos nos quartéis e nas ruas. Sem contar o massacre da Ilha das Cobras do dia 10, à qual não foi permitido o acesso da Imprensa a partir do dia 10.

Estima-se que havia na Ilha 300 presos (somando anteriores à Revolta e após 26 de Novembro, fim da revolta e do decreto da anistia) e 300 fuzileiros navais. Quando estalou a "segunda revolta", 350 fugiram entre a noite do dia 9 e a manhã do dia 10. Destes 250 marinheiros e fuzileiros restantes, houve notícia de 60 sobreviventes encontrados após o cessar-fogo. Os números reais das mortes comandadas pelo governo, exército e marinha, nas dependências do Estado nacional, rendidos, nunca foram oficialmente divulgados.

A estimativa de duas centenas é bastante conservadora. Duzentos mortos e dois mil expulsos após a revolta. Barbaridade que não se compara às 6 mortes de marinheiros e 6 mortes de oficiais em situação de combate no dia 22 de Novembro e no dia 09 de Dezembro. Matar homens amarrados, rendidos, por vingança, realmente uma mancha na imagem da Marinha de 1910. Uma época felizmente superada.

O Almirante Negro, como foi chamado pela imprensa, um dos sobreviventes à detenção na ilha das Cobras, foi internado no Hospital dos Alienados em Abril de 1911, como louco e indigente. Ele e nove companheiros só seriam julgados e absolvidos das acusações dois anos mais tarde, em 1 de dezembro de 1912.

João Cândido, o Almirante Negro, apelido dado pela imprensa da época. Desde a infância numa fazenda na divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai, passando pela liderança da Revolta da Chibata até internação como louco, ele enfrentou muitas dificuldades, que se seguiram até o fim da sua vida, em 1969. Herói pouco conhecido, morreu na miséria e no esquecimento.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Calígula: O louco que foi sem nunca ter sido

Vinícius Cherobino

Aventuras na História, nº 95, junho 2011

Esqueça a imagem do tirano pervertido e insano. O imperador era, sim, um hábil populista. Acontece que sua história foi escrita pelos inimigos.

 
Psicopata, narcisista, assassino, depravado. Segundo Suetônio escreveu no século 2 em A Vida dos Doze Césares, era simplesmente um monstro. As comemorações pela indicação de Calígula como autoridade suprema teriam levado à degola 60 mil prisioneiros em cerca de três meses. Mas aquilo era só o começo – Roma nunca havia presenciado tamanha perdição. O imperador tratava abertamente a irmã Drusilla como esposa. Servia-se também das outras irmãs, Livilla e Agripina, e as prostituía. Costumava promover banquetes e orgias que culminavam com a tortura e execução de prisioneiros. Obrigava, inclusive, as esposas dos auxiliares mais próximos a participar das festas. “Quase não houve mulher, por menos ilustre que fosse, que ele não tivesse desrespeitado”, diz Suetônio. Para o historiador romano Cássio Dio, “não havia homem mais libidinoso”.

Perdulário, suas extravagâncias incluíam pérolas banhadas em vinagre como aperitivo. Gastava tanto dinheiro que a dada hora se viu obrigado a confiscar propriedades e a criar impostos sobre tudo, até a prostituição.

Atribuía a si mesmo qualidades divinas. Encomendou da Grécia uma estátua de Júpiter Olímpico, mandou cortar a cabeça e a substituiu por uma inspirada na sua própria. Num templo dedicado a ele, ostentava uma estátua de ouro em tamanho natural, vestida todos os dias com uma cópia de seus trajes.

Líder incompetente, humilhava com frequência seus pares, na indiscrição dos banquetes ou na política. Nomeou o cavalo Incitatus magistrado superior de Roma. O animal era mantido num luxuoso estábulo dentro do palácio imperial. E Calígula exigia que os senadores despachassem com o colega equino.

Um crápula completo, certo? Errado. Calígula não é tão diferente dos demais imperadores romanos. E, até pelo pouco tempo que permaneceu no poder, quatro anos, conseguiu feitos importantes. Mas a fama de maníaco atravessou os séculos intacta – que o diga o filme Calígula, de 1979. Mas por que sua imagem foi tão deturpada?

Um olhar atento sobre os autores das histórias originais a respeito do imperador ajuda a esclarecer as distorções. Como autoridade política, Calígula trabalhou sobretudo para concentrar poder, confrontando o Senado e a aristocracia romana. Os historiadores da época dependiam ou eram representantes do Senado. “É como tentar entender a história do século 21 e tudo o que sobrou foi o tabloide National Enquirer (uma espécie de Notícias Populares americano)”, diz Anthony Barrett, professor de história romana na Universidade da Columbia Britânica. “É uma fonte importante, mas não pode ser tomada como totalmente verdadeira. Os fatos demandam análise crítica e é preciso tentar corroborá-los com evidências arqueológicas.”

O filósofo Sêneca, o Jovem, fez um dos poucos relatos contemporâneos ao governo. Ele era rival da dinastia Júlio-Claudiana, à qual pertencia o imperador. Acabou exilado em 41. Suetônio, conhecido por abordar seus personagens sob o viés mais pitoresco possível, escreveu sete décadas após a morte do governante. Já Cássio Dio o fez quase 200 anos depois. Dos Anais de Tácito sobre Calígula, uma das narrativas mais confiáveis da Roma antiga, apenas algumas referências são encontradas hoje. “São textos literários, com pretensões retóricas, e não científicas”, diz Paulo Sergio de Vasconcellos, professor de letras da Unicamp.

A revisão desses textos confrontados com investigações arqueológicas e o estudo de moedas do período, está longe de reproduzir um maluco desvairado.

Está claro que o imperador se relacionava com a sua família de maneira diferente que os outros fizeram. As irmãs eram presença constante ao seu lado nos eventos públicos e foram imortalizadas em moedas. Mas nada disso significa que havia uma orgia em família. “O incesto foi uma criação posterior da historiografia”, diz Fábio Faversani, historiador da Universidade Federal de Ouro Preto. Há ainda uma explicação política. Como não tinha grandes conquistas militares, Calígula precisava se provar merecedor do posto pela linhagem que remontava a Augusto. Ao homenagear os familiares, justificava a própria posição.

Ele foi acusado de levar Roma à falência. Mas realizou grandes construções. Concluiu projetos iniciados por Tibério e iniciou outros. Na área militar, ele não teve nada de brilhante, mas sua atuação foi positiva. Iniciou a conquista da Britânia, atual Inglaterra. Antes, indicam as evidências arqueológicas, criou uma estrutura de fortes e armazéns, preparando-se para a conquista do território, efetivada por seu sucessor, Cláudio.

Mas a característica mais marcante de Calígula está na sua adoração pelo entretenimento. Em contraste com a severidade de Tibério, abraçou as aparições públicas e a realização de festivais, que incluíam combates de gladiadores e com feras selvagens, corridas de cavalos e peças teatrais. Mandou reduzir as armaduras dos lutadores, o que o fez ser ainda mais adorado pela plebe, especialmente nas ocasiões em que distribuía comida e dinheiro.

Essa gastança poderia ter destruído as finanças públicas e iniciado uma espiral inflacionária. E Cláudio teria pago o pato. Mas não, não há registro de problemas financeiros no governo dele. Isso não quer dizer que a economia foi perfeita sob Calígula. Serve,  porém, como indício de que ele talvez não fosse o perdulário inconsequente que os historiadores clássicos pintaram. Definir sua figura por estereótipos, como os fatos demonstram, está longe de apresentar uma noção satisfatória de quem foi Calígula.
 
 
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sábado, 4 de janeiro de 2014

[POL] Os discursos de Churchill foram superestimados e alguns “se deram mal”

Jasper Copping

The Telegraph, 20/08/2013

 
Eles são pensados como tendo unido a nação durante sua hora mais sombria, e ajudado a plantar as sementes da vitória final sobre os nazistas. Mas o impacto dos discursos de guerra de Winston Churchill tem sido superestimado e eles foram pobremente recebidos por muitos, um estudioso afirma.

O professor Richard Toye conduziu uma pesquisa sobre o impacto dos discursos do então Primeiro Ministro analisando as respostas para eles a partir daquele momento.

Em suas descobertas, ele desafiou a visão aceita de que os discursos foram recebidos entusiasticamente e se tornaram uma influência decisiva no desejo da nação em lutar contra Hitler.

Ao invés disso, ele afirma, os trabalhos geraram mais controvérsia e críticas de que os historiadores pensavam previamente.

O professor Toye, da Universidade de Exeter, descobriu que muitos ouvintes pensaram mesmo que Churchill estava bêbado durante o seu discurso da “Hora mais nobre”, um de seus mais conhecidos, proferido em 18 de junho de 1940, na época da queda da França.

A pesquisa, apresentada em um novo livro, O Rugido do Leão, cobriu as dezenas de discursos dados por Churchill durante a guerra. Alguns foram transmitidos por rádio, enquanto outros foram impressos em jornais.

O professor Toye avaliou as reações aos discursos estudando diários coletados pelo grupo de pesquisa social Observação Popular, que objetivava registrar a vida diária pedindo aos voluntários para registrar suas opiniões e experiências, assim como daquelas pessoas próximas a eles.

Ele também analisou os relatórios “Inteligência Doméstica” do Ministério da Informação, que monitorava aspectos do moral público, incluindo reações ao modo como os políticos apresentavam o progresso da guerra.

O professor Toye disse que os discursos de Churchill tornaram-se a partir de então parte de um mito nacional idolatrado, e que isto tem escondido o fato de que eles frequentemente causaram desapontamento e críticas.

O estudioso descobriu que uma pesquisa conduzida logo após o primeiro discurso transmitido por Churchill como Primeiro Ministro, “Sejam Homens de Valor”, em 19 de maio de 1940, foi considerado inspirador por metade dos entrevistados e depressivo pela outra metade.

“Tem sido muito uma parte da estória nacional pelas pessoas olhar para isso proximamente,” ele disse. “As pessoas têm tirado conclusões erradas sobre o impacto dos discursos, sem muita evidência. Um grande número se sentiu inspirado pelos seus discursos, mas uma parcela ainda maior da população teve uma reação diferente. Esta estória de quase unanimidade nas reações aos seus discursos é incorreta. As pessoas acham que todo mundo ficou inspirado e estava pronto para pegar em armas e sair lutando contra os alemães. De fato, havia mais críticos do que podemos suspeitar.”

Ele acrescenta: “Muitas pessoas acharam que ele estava bêbado durante seu famoso discurso transmitido ‘A Hora mais nobre’ e há pouca evidência de que os discursos fizeram uma diferença decisiva ao desejo do público britânico em lutar. Os discursos não eram tão motivadores. Alguns se deram muito mal.”

Parte da razão disto, afirma o professor Toye, foi devido ao fato de que Churchill estava dando uma avaliação honesta da guerra e da duração dela, do que a população havia sido informada anteriormente e que isto era uma mensagem dura para se dar.

Entretanto, o historiador também argumenta que havia uma parcela significativa da população que era crítica da liderança de Churchill. Apesar das pesquisas de opinião da época mostrarem um grande apoio para o Primeiro Ministro, o professor Toye argumenta que os diários da Observação Popular, em particular, dão uma reflexão mais verdadeira das atitudes.

“Havia uma pressão coletiva nas pesquisas de opinião, para dar o que pensamos ser uma resposta socialmente aceitável,” ele acrescenta.

O professor Toye disse que a resposta ambígua aos discursos de Churchill ajudam a explicar sua derrota na Eleição Geral de 1945.

“Existe essa suposição que todo mundo achava que ele era um brilhante líder de guerra, mas ninguém o queria na paz. De fato, havia mais críticas de sua liderança na época da guerra do que pensamos hoje.”

Uma das respostas mais intensas a um discurso encontrado nos arquivos foi escrito por um jornalista que se juntou ao Exército e registrou os comentários de seu amigo George, 24 anos, da região sul de Londres. Enquanto George escutava o discurso de Churchill sobre a queda de Singapura em fevereiro de 1942, ele disse: “Que desgraçado. Vamos logo com isso. Que merda de encobrimento. Qualquer pessoa normal vê que ele está jogando areia em nossos olhos.”

Apesar de Churchill ter escrito seus próprios discursos, ele frequentemente recebia conselhos dos departamentos governamentais que algumas vezes o levavam a abaixar o tom ou fazer ajustes.

O professor Toye disse que o discurso “Devemos lutar contra eles nas praias” de junho de 1940 foi influenciado por William Philip Simms, o editor estrangeiro pró-britânico da cadeia de jornais americanos Scripps-Howard. Havia uma preocupação de que os EUA não entrassem na guerra, de modo que Simms deu algumas sugestões na linguagem necessária para maximizar as simpatias dos americanos pelos britânicos.

A pesquisa do professor Toye descobriu que para estabelecer a crença de que os Aliados não poderiam mais ser punidos, Simms argumentou que o Primeiro Ministro deveria dizer algo como: “Pretendemos lutar esta guerra em direção de um fim e de uma vitória, por mais tempo que tome. Aconteça o que acontecer, a Grã-Bretanha não cederá. Nós, aqui, sabemos muito bem dos tempos difíceis que estão por vir. Temos tomado a medida de nosso inimigo. Sabendo de tudo isso, estamos dentro e estamos para ficar. A proposta é simples: é se o estilo de vida que conhecemos na Escandinávia, Países Baixos, Grã-Bretanha e nas Américas deve sobreviver ou se a maior parte do progresso feito pela humanidade desde a Idade das Trevas deve ser varrida do mapa. De sua parte, a Grã-Bretanha pretende lutar até o poder do mal da Alemanha seja derrotado. Desistir – jamais.” Simms sabia que Churchill usaria sua própria fraseologia.

O professor Toye disse que em termos de estrutura, as semelhanças entre esta passagem e a do discurso de Churchill – com a repetição de “Nós devemos” – era gritante. O discurso “Lutar contra eles nas praias” foi dado na Casa dos Comuns, disse o professor Toye.

“Ele nunca foi transmitido via rádio, apesar de ter sido relatado na BBC por um anunciador e citado na imprensa. Entretanto, as pessoas afirmam lembrar de ter ouvido este discurso famoso de junho de 1940, mesmo que eles não tenham ouvido. Ele foi gravado para a posteridade junto com outros de seus discursos de guerra nove anos depois.”        



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[SGM] Os Soldados Judeus de Hitler

Jerry Klinger

 
Em 1940, o suboficial Dieter Bergmann escreveu para sua avó judia, Elly:

Não percebe o quanto tenho raízes profundas na Alemanha? Minha vida seria muito triste sem minha pátria, sem a maravilhosa arte alemã, sem a crença no passado poderoso da Alemanha e do futuro glorioso que a espera? A senhora acha que posso me afastar tudo isso do meu coração? A senhora acha que não tenho uma obrigação com meus pais, com meu irmão que mostrou seu amor pela pátria morrendo como herói no campo de batalha? Algum dia, quero ser um alemão entre alemães e não um cidadão de segunda classe somente porque minha adorável mãe é judia.

As Leis de Nuremberg, criadas para definir quem era judeu e quem era ariano continham muitos erros. Elas estavam erradas não apenas por causa da separação “racial” que elas pretendiam criar entre judeus e não-judeus, mas porque elas falharam em tornar claro o que fazer com os Mischlings*.

A palavra Mischling significa “mestiço” ou “híbrido”. O termo foi aplicado originalmente a pessoas com pai ou mãe branco ou negro nas colônias africanas da Alemanha. Alguns alemães na época chamavam estas crianças de “bastardos de Rehoboth”** Nos anos 1920,quando soldados coloniais franceses tiveram relação com mulheres nos territórios da Alemanha que eles ocuparam, as crianças resultantes foram chamadas de Mischelings. Hitler acreditava que os judeus trouxeram esses franceses negros para a Alemanha para infectar a “raça branca”.

Em 1935, as Leis de Nuremberg criaram duas novas categorias “raciais”: o meio-judeu (Mischeling de primeiro grau) e o quarto-judeu (Mischeling de segundo grau). Um meio-judeu tinha dois avós judeus; o quarto-judeu tinha apenas um. Desde que a política racial nazista declarava qualquer membro da religião judaica um judeu completo, independentemente da ancestralidade, a maioria era por definição cristãos.

Os nazistas estavam confusos sobre os Mischlings, desde que eles eram tanto judeus quanto alemães. Adolf Eichmann, o tenente-coronel da SS e chefe do Departamento de Evacuação Judaica da Gestapo, ciente da posição racial ambígua do Mischling, temporariamente os protegeu. Para os nazistas, Mischlings eram também metade ou três quartos alemão e, assim, 50 ou 75% valiosos.

O status confuso dos Mischlings resultou em respostas ainda mais confusas. Werner Eisner, um meio-judeu e severamente ferido veterano da Wehrmacht foi deportado para Auschwitz por ter mantido relações com uma mulher ariana. O Dr. Hans Serelman, um judeu alemão, também foi enviado a um campo de concentração. Seu crime foi ter doado sangue para um paciente não-judeu.

Na prática, a cidadania alemã dos Mischlings foi retirada. Era-lhes negado acesso a certas universidades para cursos mais concorridos como Direito e Medicina. Eles também foram recusados em retiros de férias e empregos públicos, além de posições de chefia sobre arianos. Eles foram excluídos de algumas igrejas, mesmo quando fossem cristãos batizados. Eles eram socialmente esquecidos.

Ser 50% judeu, ou semente 25%, não protegia os Mischlings. Restrições “raciais” crescentes gradativamente criaram um futuro incerto para eles. O repentino agrupamento dos Mischling com os judeus logicamente deveria ter criado um laço comum de simpatia e apoio mútuo entre eles, mas não foi isso o que aconteceu.

A maioria dos Mischlings não se identificava com a comunidade judaica. Muitos cresceram como cristãos batizados e mesmo alguns eram eles próprios antissemitas. Eles preferiam pensar em si próprios como normais, como parte de todo o tecido social alemão, como parte do povo (Volk). Sua língua, sua cultura, as relações sociais e vida escolar tinham todas sido alemãs. Mesmo para aqueles que cresceram sabendo que eles tinham um pai ou mãe judeu, eles preferiam não ser identificados como judeus. Eles ansiavam, trabalhavam e faziam qualquer coisa dentro de seus limites para provar que eram membros bons e leais dos povos germânicos. Eles precisavam mostrar ao mundo alemão que seu sangue alemão era a força dominante que fluía por suas veias.

Muitos judeus serviram nos exércitos alemão e austríaco durante a Primeira Guerra Mundial. Dezenas de milhares morreram no conflito, dando suas vidas ao Kaiser e ao Imperador. Um grande número de judeus alcançaram postos superiores, especialmente no exército austríaco. Milhares de judeus, em ambos os exércitos, foram condecorados por bravura com as mais altas honras. O serviço nas forças armadas, durante a Primeira Guerra Mundial, tornou-se um meio de ganhar aceitação, oportunidade e uma chance para provar sua lealdade às coisas germânicas.

À medida que as máquinas de guerra e de propaganda política nazistas se infiltravam na vida e no rearmamento, somente 15 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, a existência para os judeus e para os Mischlings tornou-se mais ameaçadora e tênue. Para o judeu, pouco se podia fazer em virtude da onda racista. Os Mischlings, contudo, enfrentavam um paradoxo. Durante a guerra, muitos se sentiram compelidos a pertencer à comunidade, recuperar o orgulho perdido e protegerem-se a si mesmos e às suas famílias através do serviço militar e, portanto, servir a Hitler.

O serviço na Wehrmacht, nos anos iniciais da guerra, protegeu-os da Gestapo. Ilse Korner escreveu de seu falecido marido, o meio-judeu e tenente Hans Joachim Korner, “Ele queria distinguir-se por meio da bravura e desejo de lutar como um soldado e, assim, escapar da perseguição dos nazistas.”

A maioria acreditava que seu serviço meritório convenceria seus camaradas e a sociedade a aceitá-los como “normais”. Os Mischlings arriscavam suas vidas no campo de batalha desproporcionalmente e muitos foram condecorados com as mais altas honras militares da Alemanha Nazista, incluindo 20 que receberam a Cruz de Ferro de Primeira Classe***.    

A mãe do soldado da Wehrmacht Helmut Kruger era judia. “Ele fez tudo o que podia para provar sua lealdade à Alemanha ao mostrar sua bravura no campo de batalha. Ele ganhou as Cruzes de Ferro de Segunda e Primeira Classes e a Medalha de Ouro de Ferido.” Seu irmão, Reinhardt, afirmava que ele foi um soldado corajoso apenas porque era um MIschling e tinha medo de ser chamado de “judeu covarde”. O paradoxo irônico; Kruger afirmou que se não fosse por sua mãe judia, ele teria se filiado ao Partido Nazista e à SS.

Os Mischlings, com a ajuda de suas famílias, tentaram mudar a oficial classificação de quem eles eram. Eles queriam ser reconhecidos como alemães. Um dos métodos era obter isenções legais (Genehmigungs), garantidas pelo oficialato alemão – uma tolerância de seus status de Mischlings por causa de seu serviço e benefício ao Reich. A solução legal mais procurada para desqualificação Mischling era por meio da revisão legal e determinação de sangue puro, desvinculando-se racialmente do sangue judeu (Deutschblutigkietserkarung).

Herrmann Göring dizia que ele decidia quem era judeu ou não. A realidade, a decisão final de quem era judeu somente era decidida por Adolf Hitler. Hitler revisava cada situação pessoalmente. Com o uso de meios legais, Mischlings classificados previamente eram despojados de sua contaminação judaica. Assim, eles poderiam galgar altas posições administrativas e militares.

Em 1933, Frau Clara Milch procurou se afilhado, Fritz Heinrich Hermann, presidente da polícia de Hagen e depois general da SS, e lhe deu uma declaração afirmando que seu tio falecido, Carl Brauer, ao invés de seu marido judeu Anton Milch, era o pai de seus seis filhos. Após o coronel da SA (Tropa de Choque do Partido Nazista) denunciar Erhard Milch para Göring, este levou o testemunho da mãe de Milch para Hitler. Em 1935, Hitler aceitou a declaração de Clara e instruiu Göring a pedir ao Dr. Kurt Meyer, chefe do Centro de pesquisa Genealógica do Reich, a emitir toda a documentação. Em 7 de agosto de 1935, Göring escreveu a Meyer para mudar o pai de Milch em seus documentos e emitir nova documentação certificando sua ascendência pura ariana. Após a guerra, de acordo com um dos interrogadores de Göring, John E. Dolibois, Göring estava orgulhoso de sua ação em ajudar o meio-judeu Milch a permanecer na Luftwaffe. Milch acabou se tornando o Marechal de Campo que conduziu a Luftwaffe em termos de planejamento, produção e estratégia. A filha de Milch era casada com um general da SS.

 
Um grande número de antigos Mischlings alcançou altos postos nas forças armadas: 2 marechais de campo, 15 generais, 8 generais de Corpo e 5 generais de divisão. Antigos Mischlings foram membros do partido nazista – 4 eram judeus, 15 meio-judeus e 7 um quarto judeus.

Dos estimados 150.000 Mischlings, meio-judeus e um quarto judeus, nas forças armadas, a maioria jamais alcançou os postos de oficiais.

O soldado da Wehrmacht Joachim Lowen contou sua estória. “Meu próprio irmão (Heinz) foi à Gestapo e afirmou que minha mãe era uma vagabunda e tinha sido uma prostituta. A Gestapo revisou nosso caso e nos declarou de sangue alemão (Deutschblutig).” Mamãe ficou arrasada – Heinz morreu no front russo, ele era primeiro-sargento (oberscharfürher) da Waffen-SS.

Mesmo assim, alguns Mischlings e suas famílias se recusaram a abandonar suas raízes, porém foram abandonados pelo mundo judeu. Das muitas ironias da vida na existência de 12 anos da Alemanha  Nazista e até no período pré-nazista, as atitudes dos judeus em relação ao Mischlings foram igualmente confusas. O historiador Brian Mark Rigg em seu livro As Crianças de Hitler entrevistou 1.671 Mischlings, 60% eram judeus halachá+. Ele comentou sobre eles e quem tinha identificação com o judaísmo:

Meio-judeus com pais judeus eram mais propensos a sentir uma conexão com o judaísmo do que aqueles com mães judias, que pelo Halachá eram judeus. Este fato mostra que o Halachá estava fora de sincronia em muitos aspectos com a realidade social – ou seja, que as convicções religiosas do pai influenciavam a educação da criança mais do que a da mãe. Talvez isto acontecesse por causa da natureza patriarcal da maioria dos lares alemães. Isto foi corroborado pelo fato de que a maioria neste estudo que foi circuncidada tinha pais judeus.

O tradicionalismo judaico franzia a testa em relação ao casamento interracial.

Helmut Kopp lembrou como, em algumas ocasiões em que viu seu avô nos anos 1920, Louis Kaulbars, bateu nele com um chicote e o chamou de gói (não-judeu ou gentio). Apesar de ter uma mãe judia, seu avô não o considerava judeu. Um dia, sua avó reclamou deste tratamento, dizendo ao seu marido, “Ele é filho de nossa Helena!” O avô replicou, “Não, ele é filho do gói Wilhelm!” Kopp disse em 1995, “Minha alma estava destruída.” A mãe morreu em 1925, e ele foi viver com seus tios judeus. Ele foi educado em uma escola ortodoxa e teve o bris milá++. Ele entrou na Wehrmacht em 1941.

Como os recursos para ajudar os judeus na Alemanha se tornaram restritos, as respostas judias tornaram-se também distorcidas.

Quando a jovem Hannah Klewansky procurou a Gestapo na manhã seguinte à Kristallnacht para saber onde estava seu pai, um funcionário informou que o Centro da Comunidade Judaica estava processando esses pedidos. Ela foi lá e enfrentou uma longa fila de pessoas ansiosas procurando seus familiares e amigos. Quando chegou sua vez, o secretário judeu pegou o arquivo de sua família. “Seu pai é cristão?,” perguntou o funcionário. Ela disse que ele era convertido ao judaísmo. Então, o funcionário perguntou se ela era judia. Ela então respondeu que sua mãe não era judia e ela tinha sido educada como cristã. O secretário mandou Hannah embora dizendo, “Não fazemos nada por gente do seu tipo.” Ela voltou à Gestapo, foi conduzida a uma sala e estuprada por dois membros da polícia política.

Após a guerra, os Mischlings voltaram para casa. Todos eles, assim como a população em geral da Alemanha e da Europa, afirmaram não saber nada do Holocausto. Muitos dos Mischlings conheciam boatos e estórias. Eles deveriam saber alguma coisa, enquanto suas famílias eram exterminadas. De maneira uniforme, eles escolheram ignorar o fato. Nenhum admitiu estar envolvido em atrocidades contra os judeus, mas alguns Mischlings de altas patentes estavam cientes dos crimes e mesmo ajudaram administrativamente na logística do processo.

Os Mischlings tentaram aprender sobre sua ancestralidade judaica. Alguns lutaram por Israel na Guerra da Independência. Alguns converteram-se, muitos visitaram Israel. O filho do meio-judeu Werner Eisner, Michael, não somente emigrou para Israel como também serviu no exército israelense. O Mischling Hanns Rehfeld disse a Riggs:

Tenho sido discriminado em minha vida por três coisas que estavam fora do meu controle. Primeiro, meus parentes judeus me discriminaram por ter uma mãe cristã. Segundo, os alemães me discriminaram por ter um pai judeu. E, depois da guerra, fui discriminado por ser alemão.

O legado e o pensamento nazista ainda continuam a influenciar a visão de alguns Mischlings sobre os judeus. Walter Schonewald disse, “o judaísmo é apenas uma religião, o resto é Hitler, todo o resto é racismo.” Schonewald afirmou que Israel tem suas próprias leis raciais nos tribunais rabínicos que previnem casamentos de judeus com não-judeus e não reconhecem os movimentos reformistas ou conservadores.

Riggs nota que alguns judeus ortodoxos receberam bem as Leis de Nuremberg, já que elas preveniam o casamento interracial e a assimilação.

Em virtude de suas experiências com alguns judeus ortodoxos, muitos Mischlings culpam os judeus pelo antissemitismo. O um quarto judeu Fritz Binder afirmou que os judeus ortodoxos , ao sustentar que eles são os escolhidos, que seu estilo de vida é o melhor, tornaram-se parecidos com os nazistas. O meio-judeu Bergmann disse, “O fato de que os ortodoxos rezam todos os dias agradecendo a Deus por não tê-los tornado gentios é revoltante.” O um quarto judeu Horst Von Oppenfeld, descendente da família judia Oppenheim, que foi capitão da Wehrmacht e ajudante do coronel Stauffenberg disse que os judeus enfrentam muitos problemas por não se assimilarem. “O problema é que eles querem ser diferentes. Assim, muitos Mischlings evitam contatos com eles,” disse ele.    


Notas:

* Leis de segregação racial não foram criadas pelos nazistas, como muita gente supõe. Nos EUA, medidas de segregação racial foram tomadas logo após a Guerra Civil, ainda no século XIX. Em 1913, o presidente Woodrow Wilson (o mesmo que colocou os EUA na Primeira Guerra Mundial), decretou a segregação no serviço público federal. Os nazistas copiaram essas leis e as aplicaram aos judeus, já que estes eram o grupo minoritário de maior importância. As leis de segregação racial nos EUA só acabaram em 1964.

** Rehoboth é uma cidade da Namíbia, fundada por um missionário alemão em 1845 e habitada por mestiços de colonizadores holandeses e mães africanas a partir de 1870.

*** ver artigo “A Cruz de Ferro”


+ Halachá é o nome do conjunto de leis da religião judaica, incluindo os 613 mandamentos que constam na Torá e os posteriores mandamentos rabínicos e talmúdicos relacionados aos costumes e tradições, servindo como guia do modo de viver judaico.

++ Bris milá é o nome dado à cerimônia religiosa dentro do judaísmo na qual o prepúcio dos recém-nascidos é cortado ao oitavo dia como símbolo da aliança entre Deus e o povo de Israel.

Tópico Relacionado:

Os Soldados não-Arianos de Hitler

http://epaubel.blogspot.com.br/2013/03/sgm-os-soldados-nao-arianos-de-hitler.html

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

[HOL] O Mito do Gueto de Varsóvia

Eli Gat

Haaretz, 23/12/2013

 

Como muitos sobreviventes do Holocausto, sempre me senti desconfortável sobre o modo como a memória do Holocausto foi construída. O mito do Levante do Gueto de Varsóvia é um exemplo excelente.

O Levante do Gueto de Varsóvia – o nome bonito é enganador. Os judeus do gueto de Varsóvia nunca se revoltaram. No verão de 1942, cerca de 300.000 judeus do gueto foram enviados a Treblinka e assassinados. Cerca de 50.000 pessoas foram deixadas no gueto; eles foram poupados na época porque eles eram pessoas qualificadas que trabalhavam nas fábricas alemãs tanto dentro quanto fora do gueto. Estas pessoas nunca pensaram em se revoltar, elas pensavam em sobreviver.

Somente um pequeno grupo de jovens rebelou-se, cujo tamanho e esforços foram inflacionados a proporções míticas em Israel após o Estado ser criado em 1948. Mais importante, o levante, que começou em 19 de abril de 1943, contradisse a estratégia de sobrevivência das massas de judeus que permaneceram no gueto.

A ideia da revolta e uso de armas se encaixava com o caráter da comunidade judaica na Palestina e com o da jovem nação. Ele foi exagerado por ativistas do movimento trabalhista – o partido Ahdut Ha'avoda e seu movimento afiliado do kibutz – que também reivindicou o levante enquanto repremia a memória de outros movimentos que fizeram parte, como os Bundistas*, comunistas e revisionistas de extrema direita.

Em virtude da pressão desta parte do movimento trabalhista, o dia da memória para a destruição da judiaria europeia foi chamado de Dia da Lembrança do Holocausto e do Heroísmo, como se houvesse qualquer comparação entre as duas partes da frase. O Ahdut Ha'avoda atacou David Bem Gurion e Mapai – outro precursor do Partido Trabalhista – e acenou sua bandeira de ativismo militar: em Israel o Palmach, no Holocausto os guerrilheiros do gueto.

O levante também foi aumentado por uma indefinição de números: o número de baixas alemãs, o número de guerrilheiros do gueto e a extensão do levante. Nos primeiros trabalhos após o Holocausto, escritores falavam em centenas de alemães mortos. Mas os relatórios diários enviados pelo comandante que destruiu i gueto mais tarde foram revelados. Baseados nestes relatórios do General da SS Jurgen Stroop, o qual ninguém questiona, 16 alemães foram mortos no combate. Após estes relatórios serem revelados, os textos originais do levante foram arquivados e nunca mais mencionados.

O segundo número obscuro é a quantidade de pessoas que participou do levante, no qual duas organizações de controle participaram. Uma era a Organização Judaica de Combate (ZOB), de esquerda, que incluía grupos de movimentos com ligações socialistas e comunistas, tanto sionistas quanto não-sionistas. A segunda consistia de pessoas do Beitar de direita, que operava dentro da União Militar Judaica (ZWW).

Yitzhak (Antek) Zuckerman (Icchak Cukierman) foi um líder ZOB e uma figura central na construção da imagem do levante em Israel após a guerra. Ele afirmava que cerca de 500 guerrilheiros tomaram parte na revolta. Outro participante no levante, Stefan Grayek, colocou o número em 700.

Entre os historiadores, o professor Yehuda Bauer da Universidade Hebraica de Jerusalém conclui (sem dar detalhes) que havia algo entre 750 e 1.000 guerrilheiros, enquanto o professor Israel Gutman, que participou do levante e escreveu um livro após fazer uma pesquisa independente, colocou o número em somente 350. Nenhum destes números – exceto o de Bauer – inclui os guerrilheiros das organizações de extrema direita dos quais nenhum sobrevivente ficou vivo para testemunhar e cuja contribuição permaneceu em silêncio por muitos anos.

O testemunho mais confiável em muitos pontos sobre o levante, incluindo o número de participantes, foi dado por um de seus líderes, Mark Edelman. Ele, um bundista, permaneceu na Polônia após a guerra e portanto tornou-se um intocável à medida que as instituições que organizaram a lembrança em Israel estavam preocupadas.

Edelman colocou o número de guerrilheiros ZOB em cerca de 220. Quando perguntado em que base ele apresentava este número, ele respondia: “Eu estava lá e conhecia todo mundo. Não é difícil esquecer de 220 pessoas.” Quanto à diferença entre este número e o de Zuckerman, Edelman disse: “Antek tinha motivos políticos e eu não.”

Assumindo que o número de combatentes na organização de extrema direita – para a qual não há números claros – fosse menor, é razoável pensar que o número total de participantes na revolta era menor do que 400, em relação às quase 50.000 pessoas que moravam no gueto.

Apenas dois dias de Combate duro

Os números da extensão do combate real também foram inflacionados. Gutman acredita que o levante durou um mês. Mas segundo os relatórios de Stroop, assim como o testemunho dos líderes do levante, mostram que as batalhas reais aconteceram em somente dois dias. Isto porque os planos de combate do ZOB nunca foram conduzidos em sua totalidade. Seu objetivo era tomar posições nas janelas, atirar e lançar granadas e então assumir novas posições.

No início da revolta em 19 de abril, os alemães foram pegos de surpresa pela resistência armada e se retiraram do gueto. Mas após se reorganizarem, eles não tinham a intenção de perseguir os judeus de casa em casa, ao invés disso eles decidiram destruir o gueto inteiro e colocá-lo em chamas.

Os membros do ZOB que achavam que o destino dos judeus no gueto já estava decidido – morrer – planejaram lutar e morrer com as granadas em suas mãos. Mas eles acabaram se escondendo e tentando uma fuga da destruição pelas chamas. No final, eles foram obrigados a fugir e seguir com os moradores do gueto, em oposição aos seus planos originais.

Zivia Lubetkin, uma líder da revolta, escreveu sobre isso assim: “Estávamos todos desamparados, chocados pelo constrangimento. Todos os nossos planos estavam arruinados. Sonhamos com uma última batalha na qual sabíamos que seríamos destruídos pelo inimigo, mas eles pagariam o preço com sangue. Todos os nossos planos estavam arruinados e sem outra ideia em debate a decisão foi tomada: Deixaríamos o lugar. Não era mais possível lutar.”

Zuckerman escreveu: “Conhecíamos as saídas muito bem, todas as passagens pelos telhados. Se a guerra tivesse continuado, sem lança-chamas, milhares de soldados teriam sido enviados à batalha para nos derrotar.”

O primeiro grupo de combatentes ZWW deixou o gueto em 20 de abril, o segundo dia da revolta, através de tuneis preparados antecipadamente. Um segundo grupo foi embora em 22 de abril e um último grupo em 26 de abril. A maioria, senão todos, foram mortos quando foram descobertos no lado polonês.

Os guerrilheiros ZOB, que não tinham intenções de deixar o gueto, não preparou rotas de fuga. Somente graças aos túneis de esgoto e ajuda do lado polonês eles puderam deixar o gueto. Em 28 de abril um primeiro grupo abandonou o local. Em 8 de maio, Mordechai Anielewicz , o comandante do ZOB, suicidou-se após seu esconderijo ser descoberto.Em 9 de maio, os sobreviventes do ZOB deixaram o gueto. Todos disseram, cerca de 100 guerrilheiros ZOB escaparam.

Em poucos dias, as duas organizações militares deixaram (ou fugiram) o gueto bombardeado e em chamas e seus 50.000 habitantes, deixando os residentes para sofrer a terrível vingança dos alemães. Acredita-se que os alemães mataram 10.000 moradores; eles enviaram o resto para campos próximo a Lublin.

Arruinando uma estratégia de sobrevivência

O levante interferiu, assim, na estratégia de sobrevivência das massas de judeus no gueto. Para entender isto, devemos primeiro compreender a mudança na situação entre os transportes em massa em 1942, quando a vasta maioria dos judeus na Polônia foi exterminada em um curto período de tempo, e a situação em 1943.

Nesta época aconteceu a reviravolta na Segunda Guerra Mundial. Em novembro de 1942, os russos romperam as linhas em Stalingrado e no início de fevereiro de 1943, todo o Sexto Exército alemão se rendeu. Simultaneamente, os alemães foram derrotados em El Alamein no deserto egípcio, e os Aliados desembaraçaram na África do Norte francesa.

Estes acontecimentos trouxeram esperança de uma derrota relativamente rápida da Alemanha. Mesmo as esperanças dos judeus foram impulsionadas. Se eles pudessem de alguma forma aguentar mais um dia, talvez pudessem ser salvos.

Houve até mesmo uma mudança na política alemã em relação aos judeus. A destruição de todos eles ainda era uma alta prioridade, mas a urgência diminuiu um pouco após a maior parte do objetivo ter sido alcançada e à urgência das necessidades econômicas. Os alemães precisavam de trabalhadores para suas fábricas após a força de trabalho alemã ser direcionada para os campos de batalha. Mão de obra escrava foi usada por toda a Europa.

Os 50.000 judeus que permaneceram no Gueto de Varsóvia após os transportes de 1942 tinham sobrevivido, assim como em outros guetos na Polônia ocupada, principalmente porque eles trabalhavam em fábricas para a Alemanha. Muitas destas fábricas eram de propriedade e administradas por alemães, que negociavam com as autoridades e com a SS para manter seus trabalhadores.

À luz de tudo isso, a crença dos judeus cresceu ao ponto de acreditar que eles poderiam sobreviver. Eles tinham duas péssimas opções: fugir do gueto para o lado hostil polonês ou continuar trabalhando nas fábricas alemãs. Ambas as opções significavam viver dia após dia na esperança de que a guerra terminasse o mais rápido possível.

No final da guerra, centenas de milhares de judeus sobreviveram na Polônia e Alemanha. Em Varsóvia somente o número de sobreviventes é estimado em 25.000. A morte em combate, como os guerrilheiros do gueto planejavam, não batia com as intenções da vasta maioria dos judeus sobreviventes.           

Muitos historiadores do Holocausto e do levante vieram de um campo político usado para objetivos políticos. Sua influência no museu do Holocausto Yad Vashem era grande. Eles escreveram nossa história e moldaram nossas lembranças do Holocausto.

Sua influência em seus estudantes e seguidores ainda hoje é grandemente sentida. Assim, a questão que nunca foi levantada: Com que direito um pequeno grupo de pessoas decidiu pelo destino dos 50.000 judeus do Gueto de Varsóvia?

Nota:

* Bundismo é um movimento judeu socialista e secular que se originou da Liga Trabalhista Judaica fundada no Império Russo em 1897. O termo vem de Bund (“liga” ou “União” em alemão).

[PGM] O Circo Voador do Barão Vermelho

René Peyrolle

História Viva, Ano VII nº 81

 
No início da Primeira Guerra Mundial, os aviões ainda não eram usados como arma de combate. Só a partir de 1915 os alemães passaram a utilizar aeronaves para abater seus adversários nos céus.

A guerra ganhou uma nova dimensão, e o ar se tornou um campo de batalha inesperado, onde um homem passou a reinar absoluto: com seu avião todo pintado de vermelho, Manfred Von Richtofen se transformou no terror dos pilotos britânicos e franceses. Para os inimigos, ele não era um ser de carne e osso, mas uma lenda. Ele era o Barão Vermelho.

Nascido em 1892 no seio de uma poderosa família aristocrática alemã, aos 11 anos ele entrou para a escola de cadetes (Kadettschule) de Wahlstadt, na região da Silésia, e se revelou um aluno absolutamente mediano em todas as disciplinas. Destacava-se apenas nos exercícios físicos.

Manfred passou seis longos anos na escola de Wahlstadt e mais dois na Academia Militar de Lichterfede, na região de Postdam, de onde saiu com o título de oficial da cavalaria em 1911. No final de 1912, uniu-se ao primeiro regimento de cavaleiros ulanos Kaiser Alexander III, que estava baseado na Alemanha oriental no momento da declaração de guerra em 1914.

Participou, então, da invasão da Rússia, mas os combates no leste não duraram muito. Manfred, assim como os demais cavaleiros, foi desmobilizado e enviado para as trincheiras no oeste, mas não suportou o “serviço mortalmente entediante” e pediu transferência para as tropas aéreas.

Richtofen mergulhou de cabeça nos cursos de aviação, mas novamente se revelou um aluno medíocre. Seu instrutor só permitiu que pilotasse sozinho após 25 saídas realizadas em menos de uma semana. Em 10 de outubro de 1915 ele finalmente fez o seu primeiro voo desacompanhado e... sofreu um acidente na aterrissagem.

Esse fracasso e a aparente falta de habilidade, porém, não desanimaram Richtofen. Ele estava determinado a pôr em prática o que havia aprendido com um oficial que conhecera durante seu treinamento, Oswald Bölcke, que lhe apresentou a pilotagem de caça. A partir daquele encontro, o futuro Barão Vermelho se deu conta de que o avião não precisava ser apenas um instrumento de reconhecimento. O aparelho poderia ser uma poderosa arma de combate.

Richtofen logo superou os problemas dos primeiros voos e dominou seu avião. Terminou o treinamento no dia de Natal de 1915 e pouco tempo depois pilotava um Albatroz da segunda esquadrilha de combate alemã sobrevoando o front de Verdun.

Nessa época, a superioridade dos ingleses e franceses nos céus era incontestável, e Bölcke foi encarregado de organizar uma esquadrilha de elite alemã para desafiar esse domínio. O lugar-tenente Richtofen foi escolhido para integrar a equipe. O grupo, formado por 12 pilotos, lançou-se em uma dura batalha contra os Aliados. Em seis semanas, seis pilotos foram mortos, um gravemente ferido e outros dois caíram em depressão. Aqueles combates aéreos em verdadeiras provações físicas e morais para os homens dos dois campos, mas Richtofen sempre estava ali, colecionando vitórias.

Em 28 de outubro de 1916, depois de abater 40 adversários, Oswald Bölcke morreu ao se chocar com um avião britânico na região de Pas-de-Calais.

A guerra continuava e a popularidade de Richtofen só aumentava. No dia 16 de junho de 1917 ele recebeu a Cruz do Mérito*, mais alta condecoração militar alemã, e o governo do seu país mandou distribuir milhares de fotografias do herói. Pouco tempo depois, ele foi escolhido para comandar sua esquadrilha, a Jasta II.

Fim de junho de 1917. Manfred, com 56 aviões destruídos, é dali em diante o maior ás da Primeira Guerra Mundial. Seu Albatroz, que tinha uma velocidade ascensional notável e que chegava facilmente a 500 metros de altitude, dava à sua esquadrilha uma superioridade de manobra perante os aviões aliados. Ele foi então promovido a capitão.

Como seus companheiros o convenceram de que o vermelho fazia de sua máquina um alvo facilmente identificável para os adversários, Richtofen ordenou que todos os seus homens pintassem seus respectivos aviões de cores vivas. O do líder permaneceu inteiramente escarlate, enquanto os outros foram cobertos com cores diferentes em cada parte da fuselagem. Assim nasceu o “Circo Voador” de Richtofen, cujos aparelhos, em tons gritantes, formaram uma nova unidade, a Jagdgeschwader I.


Réplica do Triplano Fokker Dr. I utilizado por Richtofen

Início de 1918. O “Circo Voador” de Richtofen continuava no front. A base aérea se encontrava em Cappy, na região do Somme, na França. Aquele 21 de abril prometia ser um belo dia. O céu estava limpo e os homens alegres: seu capitão acaba de obter a 80ª. vitória. O ás dos ases absoluto!

Richtofen levantou-se de bom humor. De repente, foi surpreendido pela notícia de que aviões britânicos se aproximavam do front. Imediatamente os pilotos se enfiaram em seus aparelhos. Vinte aviões Fokker e Albatroz alemães alçaram voo.

O “Circo Voador” de Richtofen ultrapassou Cerisy por volta das 10h40min. Logo, um pouco mais ao sul e mais para o alto, o capitão canadense Roy Brown e seus oito Camel foram ao encontro dos alemães.

Brown, do alto, percebeu rápido as manobras desordenadas de um Camel, pilotado pelo inexperiente Wilfred R. May, de apenas 19 anos, ao mesmo tempo que avistou o triplano escarlate se aproximando de seu jovem protegido. O capitão canadense arremeteu imediatamente sobre o Fokker, e eis que começou uma perseguição infernal entre os três aviões.

Entregue a esse duelo mortal, o ás alemão aparentemente não se deu conta de que sobrevoava as linhas australianas e neozelandezas. De repente, ouviu os tiros disparados pelas metralhadoras antiaéreas. O triplano vermelho perdeu a estabilidade e entrou em parafuso, descontrolado. Minutos depois, o avião explodiu contra o chão. Era a última batalha do Barão Vermelho.

O pequeno cemitério de Bertangles, situado perto do local de combate, e base aérea britânica, recebeu seus restos mortais em 22 de abril de 1918. Manfred Von Richtofen foi enterrado com honras militares pelos britânicos, em uma cerimônia que não teve paralelo durante toda a Primeira Guerra Mundial. Na noite de 23 de abril, pilotos aliados lançaram no aeródromo alemão mensagens do Royal Flying Corps britânico: “O capitão Richtofen teve um ferimento mortal em combate aéreo e foi enterrado com todas as honras militares.”

domingo, 29 de dezembro de 2013

As Razões da Guerra dos Cem Anos

Xavier Hélary

História Viva, Ano VII nº 79

 
Tradicionalmente, a Guerra dos Cem Anos começou em 1337, quando o rei da Inglaterra reivindicou a Coroa da França, e terminou em 1453, ano em que os ingleses foram definitivamente expulsos do território francês. O embate, no entanto, começou muito antes, mais exatamente em 1066.

Em 14 de outubro daquele ano, Guilherme, o Conquistador (1066 – 1087), arrasou o exército anglo-saxão em Hastings e se tornou o rei da Inglaterra. Guilherme era duque da Normandia, região situada no noroeste da França, e com a anexação do novo território ele fundou um poderoso Estado dos dois lados do canal da Mancha.

Apesar do intercâmbio cultural, França e Inglaterra não eram iguais no plano político. Como duques da Normandia, os reis ingleses eram vassalos do soberano francês e deviam lhe prestar homenagem.

O equilíbrio de poder entre os dois reinos começou a mudar quando a dinastia fundada por Guilherme, o Conquistador, chegou ao fim, em 1135. Naquele ano, o último filho do líder normando, Henrique I Beauclerc, morreu sem deixar herdeiros homens. A crise de sucessão levou ao poder o neto de Henrique I, que assumiu o trono em 1153 com o nome de Henrique II e se tornou o primeiro rei de uma nova dinastia, a dos Plantagenetas.

Quando Henrique II finalmente faleceu, em 1189, seu filho Ricardo ficou com toda a herança: sua ousadia lhe valeu o apelido de Coração de Leão. Em 1199, porém, Ricardo morreu e foi sucedido pelo irmão, João sem Terra. Aproveitando-se da fraqueza de João e das prerrogativas que o direito feudal lhe conferia, Felipe Augusto, sucessor do rei francês Luis VII, confiscou os domínios continentais do rei da Inglaterra entre 1204 e 1206.

Os direitos da França sobre os antigos domínios de Henrique II foram oficializados em 1259, quando o rei Henrique III assinou o Tratado de Paris com o rei Luis IX, reconhecendo as anexações de terra promovidas por Felipe Augusto. O monarca inglês conservou apenas o ducado de Aquitânia em território francês.

O acordo assinado em 1259 inaugurou um período de 35 anos de paz entre os dois reinos, mas as hostilidades foram retomadas em 1294. Naquele ano, o rei francês Felipe, o Belo, confiscou o ducado da Aquitânia sob o pretexto de resolver rixas entre marinheiros locais e de La Rochelle.

Em 1303, a paz foi restabelecida entre os dois reinos, e ficou acertado que a filha do rei francês, Isabelle, se casaria com o filho mais velho do rei da Inglaterra, o futuro Eduardo II.

Nenhum dos dois lados imaginava que os dois reinos em breve entrariam em uma guerra interminável. A causa imediata do conflito foi puramente conjuntural: um a um, os três filhos de Felipe, o Belo – Luis X, Felipe V e Carlos IV -, morreram prematuramente. Nenhum deles deixou filhos homens, o que era uma situação inédita desde que Hugo Capeto fundara a dinastia que governava a França desde 987.

Os barões da França, reunidos após a morte de Carlos IV, se decidiram por Felipe, primo germano dos três filhos de Felipe, o Belo, e filho de Carlos de Valois, único irmão germano do monarca francês.

Segundo as crônicas tradicionais, o estopim da guerra foi aceso por um nobre francês de sangue real chamado Roberto de Atois. Preterido por Felipe de Valois na disputa pelo condado de Artois, Roberto se exilou na corte de Eduardo III, onde teria incitado o rei inglês a atacar a França.

A responsabilidade imputada a Roberto de Artois, porém, foi um tanto exagerada. Os negócios entre a Inglaterra e o condado de Flandres tiveram um papel muito mais importante. As poderosas cidades flamengas, com seus ricos burgueses e tecelões, queriam autonomia política em relação à França. Elas reclamavam de ter de se submeter à autoridade dos agentes do conde dde Flandres, um homem próximo de Felipe de Valois. Como dependiam da lã inglesa, os flamengos estavam naturalmente dispostos a buscar a ajuda de Eduardo III.

O apoio inglês às reivindicações dos comerciantes flamengos foi visto por Felipe de Valois como um ato de traição de um de seus vassalos, o rei Eduardo III. Sob o pretexto de punir um súdito real, Felipe decretou o confisco do ducado da Aquitânia em 1337. Eduardo respondeu, então, reivindicando o trono francês, já que era mais próximo dos últimos reis da dinastia capetíngea que Felipe de Valois.

No dia 1º de novembro de 1337, um enviado do rei da Inglaterra comunicou a Felipe de Valois o desafio lançado por Eduardo III. Era o início da Guerra dos Cem Anos.

Oficialmente, o confronto durou 116 anos, mas a rivalidade entre França e Inglaterra estava longe de ser superada no fim do século XV. Os ingleses continuaram a ser os “inimigos hereditários” dos franceses pelo menos até 1904, quando os dois países se uniram pela primeira vez, na chamada “Entente Cordiale”, contra a Alemanha.