quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A Guerra do Sr. Lincoln: Um Conflito Irrepreensível?

Patrick Buchanan, 13/02/2009

 
A Guerra Civil foi a maior tragédia que atingiu a nação. Irmão lutou contra irmão. Seiscentos mil dos melhores e mais corajosos americanos morreram por armas e doenças. O Sul foi sangrado até a morte, invadido, destruído pelos exércitos da União, ocupado por uma dúzia de anos. Sob as baionetas federais, sua ordem política e social foi arrancada pela raiz e os 11 estados que lutaram para ser livres da União foram reconstruídos pela mesma União. O sul da América necessitaria de um século para se recuperar.

Treze décadas após Appomattox[1], as perguntas permanecem: Foi um conflito irrepreensível? Foi uma guerra necessária? Foi, como Churchill escreveu, o mais nobre e evitável dos grandes conflitos que se tem registro? Foi uma guerra justa? O que aconteceu com a grande questão tarifária que dividiu e estremeceu a nação juntamente com a escravidão nas décadas antes da guerra? Existem lições para nós nesta maior das tragédias onde todos os mortos foram americanos?

Após tal guerra, é o vitorioso que escreve a história. Isto é certamente correto para a Guerra Civil. Entre os grandes mitos ensinados para as crianças americanas tem sido que o "“Grande Emancipador”, Abraham Lincoln, foi eleito para libertar os escravos, que a Guerra Civil Americana foi lutada para terminar com a escravidão nos Estados Unidos.

Isto é fábula. Mesmo o nome dado a esta guerra terrível está errado. Uma guerra civil é uma luta pelo poder dentro de uma nação, como a Guerra das Rosas[2], ou a guerra horrível entre os bolchevistas e czaristas na Rússia, Vermelhos e Brancos após a Revolução de Outubro de Lênin. Os combatentes de 1861 a 1865 não estavam lutando por quem governaria os Estados Unidos. O sul nunca contestou a eleição de Lincoln. O sul apenas queria ser livre da União.

A guerra não era sobre quem governaria em Washington, mas quem governaria na Carolina do Sul, Georgia e os cinco estados do Golfo que tinham se separado na época do Forte Sumter[3]. Do ponto de vista do Norte, esta era uma Guerra de Secessão do Sul, uma Guerra para preservar a União. Para o Sul, esta era uma Guerra de independência.

O Nascimento de um Mito

Na dedicatória da Batalha de Gettysburg, em 19 de novembro de 1863, três anos após a eleição de Lincoln, o Grande Mito nasceu. Lá, Abraham Lincoln declarou que a guerra era, acima de tudo, por igualdade.

Oitenta e sete anos atrás, nossos pais trouxeram a este continente uma nova nação, concebida na Liberdade, e se dedicaram ao propósito de que todos os homens são criados iguais.

Agora, estamos envolvidos em uma grande guerra civil, testando se aquela nação, ou qualquer nação assim concebida e dedicada, pode sobreviver.

Mas oitenta e sete anos antes de Lincoln falar era 1776. A nova nação pode ter sido concebida em 1776, mas não foi somente até 1788 após os nove estados terem ratificado a Constituição. Na Constituição, homens livres, brancos e negros, eram iguais. Mas a escravidão, a antítese da igualdade, foi protegida. Por iniciativa de Benjamin Franklin, escravos seriam considerados como três quintos de uma pessoa para objetivo de representação no Congresso. Por mais duro que seja, é mais correto dizer que a escravidão, a essência da desigualdade, foi incluída na Constituição da nova nação.

Além disso, ao voltar a 1776, Lincoln invocou, em defesa de uma guerra para esmagar uma rebelião, o mais poderoso declaração em nome da rebelião. A Declaração de Independência não é sobre preservar a união. É uma declaração de secessão; é sobre o Direito do Povo de alterar ou abolir uma forma de governo e instituir um novo Governo, estabelecendo sua Fundação em tais Princípios, e organizar seus Poderes em tal forma, no sentido de garantir sua segurança e felicidade. É sobre o direito de uma pessoa em dissolver os laços políticos que conectaram um ao outro e assumir, entre os poderes da Terra, a Estação separada e igual a que as leis da natureza e do Deus da natureza lhes dá direito.

As palavras de Lincoln, eloquentes como elas são, são uma absoluta audácia. Como Garry Wills escreve apropriadamente, Lincoln, em Gettysburg,

desempenhou um dos atos mais audaciosos ao ar livre jamais presenciados pelos inocentes. Todos naquela multidão de milhares estavam tendo seus bolsos intelectuais roubados. A multidão partiu com uma nova coisa em sua bagagem intelectual, que a nova constituição que Lincoln havia substituído por uma que eles levaram lá com eles. Eles partiram, daquelas sepulturas curvas na encosta, sob um céu alterado, em uma América diferente. Lincoln revolucionou a Revolução, dando às pessoas um novo passado com que viver que mudaria seu futuro indefinidamente.

Ao ler o discurso de Lincoln, muitos, norte e sul, ficaram impressionados. Ao sugerir que a guerra terrível era sobre igualdade, o que estava fazendo o presidente? Citando a Constituição ao lado do Presidente, o Chicago Times acusou Lincoln de trair ambos o sagrado documento que ele jurou defender e os homens que haviam morrido por ele:

Foi para defender esta Constituição, e a União criada por ela, que nossos oficiais e soldados deram suas vidas em Gettysburg. Como ele se atreve, então, de pé sobre as suas sepulturas, deturpar a causa pela qual eles morreram, e difamar os estadistas que fundaram o governo?

Mesmo que Lincoln falasse, a escravidão era ainda legal em Washington, a sede de governo, assim como em Maryland, Missouri, Kentucky, Virgínia do Oeste, Delaware e as áreas do Tenesse que permaneceram leais.

A Proclamação de Emancipação de 1º. de janeiro de 1863, libertou somente os escravos naqueles estados que ainda estavam em rebelião. Todos os outros escravos permaneceram propriedade protegida de seus mestres. O Primeiro Ministro Palmerston notou com deleite que Lincoln aboliu a escravidão onde ele não tinha o poder de fazê-lo, enquanto protegia a escravidão onde ele tinha o poder de destruí-la. De fato, quando emitiu a proclamação, Lincoln confessou a seu secretário que ele só havia feito isso como uma “necessidade militar” após a Primeira e Segunda Batalha de Manassas, a campanha do Vale de Jackson, a Batalha dos Sete Dias, Chancellorsville, Fredericksburg e o atoleiro de Antietam:

As coisas tinham ido de ruim para o pior, até que senti que precisávamos alcançar o fim da corda no plano de operação que estávamos perseguindo; que tínhamos que jogar nossa última carta, e assim mudar nossa tática, ou perder o jogo. Estou agora determinado a adotar a política de emancipação.

Longe de ser uma celebração universal, a Proclamação de Emancipação foi lembrada por muitos, mesmo na Inglaterra aboliscionista, como uma arma de guerra cínica e terrível, estabelecida por Lincoln em desespero. Como Sheldon Vanauken afirma em A Ilusão Deslumbrante: A Simpatia Inglesa pela Confederação do Sul (1989):     

Os estados confederados deveriam ganhar a guerra. Somente alguns dias antes, Lee tinha derrotado Burnside em Fredericksburg. A proclamação libertou todos os escravos dentro das linhas confederadas. Estes escravos foram agrupados em plantações isoladas, controladas na maior parte por mulheres, já que seus maridos estavam alistados. O único efeito resultante da proclamação seria a insurreição servil de horror (para a qual John Brown foi enforcado por incitar). Tanto um levante escravo ou nada. Então, os ingleses viram isso. A falsidade de Lincoln foi lembrada como prova de duas coisas: sua negação inicial de qualquer direito ou desejo de libertar os escravos; e, especialmente, sua negação em libertar os escravos no Kentucky leal e outras áreas dos Estados Unidos ou mesmo em áreas confederadas ocupadas pelas tropas dos Estados Unidos, tais como Nova Orleans. Deve ter sido lembradas que (na Inglaterra) os horrores do mutim indiano, assim como o levante escravo em São Domingo, estavam na cabeça de todos.

O efeito da proclamação sobre muitos nas fileiras da União foi o mesmo. Eles tinham ido à guerra não para libertar os escravos, mas para preservar a nação! Como James McPherson escreve em Pelo que eles lutaram, 1861 – 1865,

Muitos soldados acreditavam que a proclamação tinha mudado o propósito da guerra. Eles se sentiram traídos. Eles queriam arriscar suas vidas pela União, eles diziam, mas não pelos negros libertos. As taxas de deserção aumentaram de forma alarmante. Muitos soldados culparam a Proclamação de Emancipação.

Fechando seu discurso, Lincoln falou da responsabilidade imposta aos americanos por aqueles que tinham morrido na grande batalha. “Estamos aqui resolutos,” ele disse, em suas palavras imortais, “que estes mortos não tenham morrido em vão, que esta nação, sob Deus, deve ter um novo nascimento de liberdade e que o governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareça da terra.” Se os sulistas acharam isto incrível, é totalmente compreensível.

Os confederados nunca tentaram provocar a morte do Governo dos Estados Unidos. Foi a União que procurava matar a Confederação e os governos dos 11 estados sulistas. Tivesse o Sul desejado a morte do governo, o exército confederado teria marchado para a capital de Lincoln após a Primeira Batalha de Manassas em junho de 1861, quando o exército da União tinha sido colocado na estrada para Washington em retirada total. O sul não queria isto; o sul queria ser apenas livre.

Enquanto que Lincoln certamente sabia que suas palavras eloquentes seriam notadas, e lembradas, ele não poderia ter sabido que suas breves palavras tornar-se-iam o discurso mais famoso da história americana. Nem existe evidência que Lincoln, neste momento, deliberadamente aumentou os objetivos da guerra da União. Mas em Gettysburg, os objetivos da guerra da União foram aumentados, dramaticamente. Naquele discurso, eles foram além de qualquer coisa que Lincoln tinha anunciado antes da guerra começar. De fato, se a igualdade racial era agora o objetivo de Lincoln e da União, então o próprio Lincoln havia mudado. Para o Abraham Lincoln de 1861 não havia o campeão da igualdade social e racial.

Nós não podemos torná-los iguais

O Lincoln que os americanos conhecem, a figura paterna com a sabedoria e inteligência maravilhosa, que veio de Illinóis para libertar os escravos e acreditava na igualdade racial, que marcharia com Martin Luther King Jr. seria irreconhecível para seus contemporâneos. Mesmo que Lincoln ainda em 1854 tivesse condenado a escravidão como “uma monstruosa injustiça”, e bravamente tenha tomado o lado antiescravagista nos debates do Senado com Stephen A. Douglas, aqui está o candidato republicano ao Senado dos Estados Unidos em campanha política em Charleston, Illinóis, em 18 de setembro de 1858 após ter sido atraído pelo “gigante pequeno” para explicar qual sua opinião sobre o casamento entre raças, e sobre a igualdade social e política:

Direi então que não sou, nem nunca fui, a favor de realizar a igualdade social e política das raças branca e negra, que não sou e nunca fui a favor de tornar jurados ou eleitores os negros, nem qualificá-los para serviços administrativos, nem no casamento interacial com o povo branco; e direi além disso que existe uma diferença física entre as raças branca e negra que acredito proibirá para sempre que duas raças vivendo juntas em termos de igualdade social e política. E na medida em que elas não podem assim viver, e tanto quanto qualquer outro homem, sou a favor de ter uma posição superior garantida para a raça branca.     

Quatro anos antes, em Peoria, em 16 de outubro de 1854, Lincoln confessou sua ambivalência com relação ao que deveria ser feito com a escravidão, e com os negros libertos se a escravidão fosse abolida:

Se todo o poder terreno fosse dado a mim, não saberia o que fazer, quanto à instituição existente. Meu primeiro impulso seria libertar todos os escravos, e enviá-los para a Libéria, para sua própria terra nativa. (Mas libertá-los) e fazê-los politica e socialmente nossos semelhantes? Meus próprios sentimentos não admitem isso; e se os meus seriam assim, sabemos bem que aqueles da grande maioria do povo branco não será. Um sentimento universal, sendo bem ou mal fundado, não pode ser seguramente negligenciado. Não podemos, então, torna-los iguais.

Três anos depois, em junho de 1857, em Springfield, Lincoln ainda pensava na ideia de repatriar os escravos libertos a seu continente nativo:

Tal separação, se efetuada, deve ser feita pela colonização; o que a colonização mais precisa é um desejo de coração. Deixe-nos acreditar que é moralmente certo transferir os africanos para sua terra natal, e deveremos encontrar um meio de fazê-lo, por maior que seja essa tarefa.

Ao sugerir a colonização, Lincoln estava ecoando o pensamento de homens com maior nível de educação, como Jefferson e Madison. Em 1829, o autor da Constituição tornou-se presidente da Sociedade de Colonização Americana, fundada por John Rundolph e Henry Clay após a guerra de 1812, na crença de que este plano de retornar os escravos para a África representava o modo mais justo de se livrar daquela crise longa purulenta. Clay, o ídolo de Lincoln, defendeu o retorno dos escravos para a África ao longo de toda a sua carreira. Ao homenagear Clay em Springfield em 6 de julho de 1852, Lincoln celebrou sua longa associação heroica com a Sociedade de Colonização Americana, e citou o discurso de Clay de 1827 àquela sociedade:

Há uma conveniência moral na ideia de retornar para a África suas crianças, cujos ancestrais foram arrancados dela pela mão cruel da fraude e violência. Colocados em uma terra estrangeira, eles vão levar para sua terra natal os frutos da religião, civilização, lei e liberdade.

Em aprovação sentimental às palavras de Clay, Lincoln declarou:

A sugestão da possível redenção total da raça africana e do continente africano foi feita vinte e cinco anos atrás. Todo ano que passou desde então acrescentou força à esperança desta realização. Que ela seja realizada! 

A gradual repatriação e retorno de todos os escravos para a África, disse Lincoln nas palavras de encerramento de seu longo elogio, seria uma consumação gloriosa para a grande contribuição ao seu país.

As palavras de Lincoln na década anterior à sua presidência são chocantes aos ouvidos modernos. Mas tudo o que elas dizem é isso: em termos de igualdade racial, Lincoln em 1858 era um homem de sua época e lugar. Como quase todos os homens brancos de sua idade, ele acreditava que as raças deveriam viver em separado. Isto é confirmado pelo seu admirador ardente, o general Don Piatt, que considerava Lincoln a grande figura histórica surgindo em nossa história. Após encontrar-se com o presidente eleito em Springfield, Piatt escreveu na partida de Lincoln para Washington:

Expressando nenhuma simpatia pelo escravo, (Lincoln) riu dos abolicionistas. Não estávamos longe de chegar à verdade, e a razão para isso, no homem diante de nós. Descendente de brancos pobres de um Estado escravagista, por muitas gerações, ele herdou o desprezo, se não o ódio, desta classe pelo negro.

Um homem deve ser medido em relação à sua época. Como o próprio Lincoln disse em seu segundo discurso inaugural: “Não julgue o que não pode ser julgado.” A posição de Lincoln sobre a escravidão, que era má, que ele não seria parte disso era a de um político corajoso de princípios. Quanto às suas visões sobre igualdade racial, elas eram as visões de quase todos os seus compatriotas. Mas se Lincoln não fosse à guerra para tornar os homens iguais, ele teria ido à guerra para libertá-los para acabar com a maldade da escravidão? Para responder a essa questão, esta foi uma guerra justa? Temos que compreender por que os dois lados lutaram.

As Concessões de Lincoln ao Sul

Diferentemente do Lincoln no campo de Gettysburg em 1863, o Lincoln que entrou em Washington disfarçado na calada da noite no inverno de 1861 não tinha nenhuma intenção de libertar quaisquer escravos. Nem tinha o Sul qualquer razão para temer que Lincoln aboliria, ou pudesse abolir, a escravidão. A Suprema Corte era dominada por sulistas, liderada pelo Juiz Roger Taney da decisão de Dred Scott de 1857[4]. Não havia qualquer ameaça à escravidão naquela época. E, durante a campanha de 1860, Lincoln repetidamente garantiu ao sul que ele não faria nenhuma tentativa de extinguir a escravidão.

Apreensão parece existir entre os povos dos Estados sulistas, que pela ascensão de uma Administração Republicana, sua propriedade e sua paz e segurança pessoal estão em perigo. Nunca houve qualquer motivo razoável para tal apreensão. De fato, a evidência mais ampla do contrário sempre existiu, e esteve aberta para sua inspeção. É encontrado em quase todos os discursos publicados da pessoa que vos fala agora. Eu cito um desses discursos quando declaro que não tenho nenhuma pretensão, direta ou indiretamente, em interferir com a instituição da escravidão nos Estados onde ela existe. Acredito que não tenho nenhum direito legal de fazê-lo, e não tenho nenhuma intenção mesmo. Aqueles que me indicaram e votaram em mim o fizeram com conhecimento total de que eu fiz isso, e muitas outras declarações semelhantes, e nunca me retratei delas.

A plataforma do seu partido, disse Lincoln, garantia o direito inviolável de cada estado controlar suas próprias instituições domésticas. Em uma crítica contundente à incursão de John Brown, Lincoln notou em seu discurso inaugural que, em sua plataforma de 1860, os republicanos denunciaram a invasão ilegal por força armada do solo de qualquer Estado ou território, não interessando qual pretexto, como um crime grave.

A Carolina do Sul havia se separado, alegando que os Estados Unidos não estavam conseguindo manter o fornecimento de escravo fugitivos da Constituição. Mas Lincoln assegurou aos sulistas que seus escravos fugitivos seriam retornados:

Há muita controvérsia sobre a entrega de fugitivos do serviço ou trabalho. A cláusula que agora leio está claramente escrita na Constituição assim como outra de suas provisões: Nenhuma pessoa mantida em serviço ou trabalho em um Estado, sob as leis publicadas, escapando para outro deve, em consequência de qualquer lei ou regulamento, ser liberada de tal serviço ou trabalho, mas sim entregue à parte para quem tal serviço ou trabalho ela deve.

Lincoln está chamando aqui uma nova lei federal para fugitivos para reforçar a obrigação constitucional do Congresso de que escravos fugitivos devem ser entregues aos seus mestres. Ao capturar e retornar escravos fugitivos, disse Lincoln, alguns observadores favorecem a autoridade do estado, outros a autoridade do governo federal. Mas ele perguntou: Qual é a diferença? Se o escravo deve ser rendido, haverá pouca consequência para ele qual autoridade foi.

A questão na qual os republicanos estavam unidos era que a extensão da escravidão a novos estados deveria ser interrompida. Lincoln não recuou desta posição no seu discurso inaugural. Mas ele ofereceu uma garantia ao Sul que onde a escravidão existia, poderia ser feito uma instituição permanente, por uma nova emenda constitucional.

Uma parte de nosso país acredita que a escravidão é certa, e deve ser estendida, enquanto os outros acreditam que ela é errada, e não deve ser estendida. Esta é a única disputa substancial. Compreendo que uma emenda proposta à Constituição passou pelo Congresso, para efeito de governo federal, que ele não deve nunca intervir nas instituições domésticas dos Estados, incluindo aquelas de pessoas mantidas em serviço. Para evitar erro de entendimento do que falei, parto de minha proposta de não falar de emendas particulares, tanto quanto dizer que, mantendo tal provisão para agora implicará em lei constitucional, não tenho nenhuma objeção para a sua adopção expressa e irrevogável. 

Assim, nesta concessão final, Lincoln diz que ele não se oporá a uma emenda constitucional para tornar a escravidão permanente nos 15 estados onde ela existia. As primeiras treze emendas da Constituição que Abraham Lincoln endossou, então, não acabaram com a escravidão, mas sim a teriam autorizado para sempre. Qualquer abolicionista deve ter ficado horrorizado com o discurso inaugural de Lincoln.

Existe uma defesa moral da oferta de Lincoln para tornar permanente uma instituição que todos hoje concordam ser odiosa e má? Somente isto: se não foi errado para os Fundadores aceitar a escravidão como o preço de uma constituição para estabelecer os Estados Unidos, não pode ser errado para Lincoln reafirmar a concessão dos Fundadores para reparar e restaurar seu país fragmentado. Ao apaziguar o Sul com a escravidão, Lincoln estava sendo fiel à sua missão como presidente em unir sua nação dividida. Ele também estava sendo sincero à sua crença que se a escravidão ficasse restrita onde ela existia, então ela encolheria e morreria.

Na dedicatória do Monumento do Homem Liberto em Washington em 1876, uma escultura mostrando um escravo de joelhos olhando em gratidão para a face benevolente do Grande Emancipador, Frederick Douglas assombrou uma plateia, incluindo o presidente Ulysses S. Grant, ao dizer que Lincoln era o presidente dos brancos, inteiramente devotado ao bem estar do povo branco. Olhando do ponto de vista da abolição, Frederick Douglass continuou, "O Sr. Lincoln parecia atrasado, frio, sem graça e indiferente, mas medindo-o pelo sentimento de seu país, ele foi rápido, zeloso, radical e determinado." Uma avaliação não injusta.

A escravidão provocou a guerra? Em 1927, os historiadores Charles e Mary Beard produziram seu primeiro e famoso estudo aprofundado da história americana, A Ascensão da Civilização Americana. Ele atraiu a atenção de acadêmicos e juristas. Após examinar cuidadosamente os fatos relacionados à escravidão e à Guerra Civil, eles concluíram:

Desde que, portanto, a abolição da escravidão nunca apareceu na plataforma de qualquer grande partido político, desde que o único apelo jamais feito ao eleitorado em relação a isso foi rejeitado desdenhosamente, desde que o porta-voz dos republicanos (Lincoln) declarou enfaticamente que seu partido jamais pretendia interferir na escravidão nos estados de qualquer forma, parece razoável assumir que a instituição da escravidão não foi a questão fundamental durante a época precedente ao bombardeio do Forte Sumter.       

Para aqueles que ainda acham que Lincoln e a União foram à guerra para tornar homens livres, como eles respondem ao fato que quando a guerra começou, com os tiros contra o Forte Sumter, havia mais escravos nos estados da União (oito) do que na Confederação (sete)? Quatro Estados sulistas, Virgínia, Carolina do Norte, Tennesse e Arkansas permaneceram leais. Eles não queriam se separar; eles só o fizeram depois que Lincoln reuniu 75.000 voluntários para um exército para invadir e subjugar o extremo sul. Este exército teria que passar pelo sul superior, o qual teria que se juntar a uma guerra contra seus conterrâneos. O sul superior não faria isso. Foi o chamado para a guerra de Lincoln contra os já separados estados do extremo sul que fez com que Virgínia, Carolina do Norte, Tennesse e Arkansas deixassem a União na qual eles queriam permanecer.


Antes do Forte Sumter, a Confederação enviou emissários para Washington para discutir um compromisso. Lincoln se recusou a encontrar-se com eles, porque ele se recusava a conferir legitimidade a uma conferência sobre a separação. Contra o conselho do chefe do exército general Winfield Scott, do Secretário de Estado William H. Seward, do Secretário de Guerra Simon Cameron e do Secretário da Marinha Gideon Welles, todos que defendiam a evacuação do Forte Sumter, ele enviou o navio Estrela do Mar para recarregar o forte com suprimentos. Vendo isto como uma provocação, os sulistas atiraram contra o forte e a bandeira americana, e a grande guerra estava a caminho.

E os sulistas talvez não estivessem errados em sua crença de que Lincoln tinha provocado o conflito. Como o presidente escreveu com total satisfação para o Secretário Assistente da Marinha Gustavus Fox, comandante da expedição ao Forte Sumter, em 1º. de maio de 1861:

Você e eu antecipamos que a causa do país seria conseguida ao fazer a tentativa de abastecimento do Forte Sumpter (sic), mesmo se falhasse; e não é menos consolador agora sentir que nossa antecipação é justificada pelo resultado.

Tal como Polk antes dele e Wilson e Franklin Roosevelt após, Lincoln manobrou seu inimigo para atirar primeiro.

O Sul tinha o direito de se separar?

Na era moderna, lemos mais e mais que os grandes líderes sulistas eram traidores. Robert E. Lee, Thomas J. Stonewall Jackson e Jefferson Davies, todos heróis da Guerra Mexicana, contudo, eram não mais nem menos traidores que Washington, Adams e Jefferson em relação à Grã-Bretanha. Na Academia militar de West Point, que George E. Pickett, Stonewall Jackson e Joe Johnston estudaram, o livro jurídico constitucional que todos os três generais confederados estudaram, Uma Visão da Constituição dos Estados Unidos de William Rawle, um abolicionista da Filadélfia e juiz da Suprema Corte, ensinava que os estados tinham o direito de se separar: negar esse direito seria inconsistente com o princípio no qual todos os nossos sistemas políticos são baseados, qual seja, que as pessoas têm em todos os casos o direito de determinar como querem ser governados.

Os oficiais da União também estudaram Rawle. De fato, a ideia de supremacia do estado, de direitos dos estados para anular leis federais, e de um direito de se separar se o assunto fosse realmente grave, tinham uma longa e notável história na América. Nas Resoluções do Kentucky e da Virgínia de 1798 e 1799, Jefferson e Madison, autores respectivamente da Declaração de Independência e da Constituição, enfurecidos com a prisão dos editores sob os Atos de Estrangeiros e Sedição, argumentaram que os estados tinham um direito de anular lei federal claramente inconstitucional[5].

Entre 1800 e 1815, três tentativas sérias foram feitas pelos federalistas da Nova Inglaterra em se separar na época da compra da Louisiana em 1803, no Ato de Embargo de Jefferson de 1807 e na Guerra de Madison de 1812. O líder separatista era um herói de guerra revolucionário e membro do Gabinete de Washington, o senador do Massachusetts Timothy Pickering. Os federalistas se espelharam nas causas da Carolina do Sul: o que eles viam era um regime intolerável, interferência com o comércio, incompatibilidade com os povos estrangeiros (alemães e irlandeses-escoceses), e uma convicção de que a União estava sendo governada em benefício do Sul. Disse Pickering em 1803: “Anteciparei uma nova confederação, longe da influência corrupta e corruptora dos democratas aristocráticos do Sul.”

Por uma ironia do destino, o rival de Jefferson, Alexander Hamilton, que tornou Jefferson presidente em 1801 ao persuadir seus aliados a abandonar Aaron Burr na Casa dos Representantes na eleição apertada de 1800, provavelmente salvou a União. Os federalistas tinham conspirado com Burr em 1804 para apoiá-lo para governador, se Burr liderasse Nova York a uma Confederação da Nova Inglaterra. Mas o ultraje de Burr por Hamilton, como um mercenário, corrupto, ditatorial e perigoso, persuadiu os novaiorquinos, por 7.000 votos, a rejeitá-lo. Burr desafiou Hamilton a um duelo e o matou. A revolta contra a morte do estadista patriota abortou o plano dos federalistas.

Por que o Sul se separou?

Se Lincoln não tivesse ameaçado a escravidão, por que, então, o extremo sul se separaria? Resposta: em 1861, a América havia se tornado duas nações e dois povos. O sul tinha evoluído para uma civilização separada e desejava ser um país separado. Enquanto moderados como Lee queriam permanecer na União, os militantes sulistas concluíram que, com a eleição de Lincoln, o norte tinha ganho a grande guerra para o controle do destino nacional.

O sul havia eleito a maior parte dos presidentes da União, seus juízes da Suprema Corte, seus porta-vozes do Congresso. Mas, o sul jamais determinaria o destino da nação novamente. O primeiro presidente republicano não tinha recebido um único voto nos estados sulistas; em dez estados sulistas ele não teve nenhum voto. Lincoln não devia nada ao sul; mas ele devia tudo aos seus inimigos, aos admiradores de John Brown, aos industriais nortistas que conseguiram o comprometimento de Lincoln com tarifas protecionistas que o sul acreditava ameaçar seus negócios.

Após décadas de um casamento tumultuado e infeliz, para o extremo sul a eleição de Lincoln foi a gota d´agua. Eles decidiram, irrevogavelmente, pelo divórcio. Assim, seis semanas após a eleição de Lincoln, em 2 de dezembro de 1860, a Carolina do Sul se separou. Em 1º. De fevereiro, um mês antes da posse de Lincoln, a Carolina do Sul foi seguida para fora da União pela Georgia, Flórida, Alabama, Mississipi, Lousiana e Texas. Nestes estados, fortes federais, correios, comércio e quartéis foram ocupados. Empregados federais e tropas foram aprisionados. Mesmo assim, no dia da posse de Lincoln, quatro meses após sua eleição, não havia guerra. Por que não?

Porque o presidente James Buchanan não acreditava que o governo federal tinha o direito de usar força militar para forçar estados a permanecer dentro da União. Se a União não fosse voluntária, não era uma União verdadeira. Para o nosso 15º. Presidente, coerção era inconstitucional. Como o professor Woodrow Wilson escreveu em Divisão e Reunião, Buchanan acreditou e declarou que a secessão era ilegal; mas concordou com o Procurador Público que não havia nenhum meio constitucional ou garantia de forçar um Estado a cumprir seu papel sob a lei. Tal, de fato, na época, parecia ser a opinião geral do país. A maior parte dos jornais nortistas concordou.

Ainda em 13 de novembro de 1860, o Daily Union em Bangor, Maine, defendeu o direito do Sul de se separar, dizendo que uma União verdadeira depende para sua continuação do consentimento livre e do desejo do povo soberano de cada estado. Quando o consentimento e desejo acabam em cada parte, sua União acabou. Se a força militar é usada, então um estado só pode ser mantido como uma província submetida e nunca pode ser um membro igual da União americana.

Muitos nortistas e abolicionistas estavam alegres de ver o extremo sul partir. O editor abolicionista William Lloyd Garrison falou por muitos quando escreveu que a Constituição original, protegendo a escravidão, tinha sido um pacto com a Morte e um acordo com o Inferno. Em abril de 1861, Greeley escreveu que nove entre dez pessoas no Norte se opunham a usar a força para retornar a Carolina do Sul para a União. O General Scott, herói da Guerra Mexicana e comandante do exército americano, disse dos irmãos separatistas “deixe-os ir em paz.” Ironicamente, os irmãos separatistas eram como escravos fugitivos. Eles estavam tentando se livrar da Casa do Pai Abraham, mas ele nãos os deixaria ir embora.

Sem Abraham Lincoln, não haveria guerra. Mas sem Lincoln, não haveria igualmente Estados Unidos hoje. Diferentemente de Buchanan, o novo presidente aceitaria a guerra, levantaria um exército de um milhão de homens e lutaria a guerra mais sangrenta jamais ocorrida no continente americano, ao invés de deixar o Sul ir embora. Os tiros confederados no Forte Sumter podem ter sido a faísca que deflagrou o conflito, mas a causa real da guerra foi a vontade de ferro de Abraham Lincoln. Assim como a Guerra Mexicana foi a guerra de Jimmy Polk, esta era a guerra do Sr. Lincoln.

Para ganhá-la, o presidente assumiria poderes ditatoriais, suspenderia o direito constitucional do habeas corpus, passaria por cima das legislaturas estaduais eleitas, prenderia e manteria sem julgamento milhares de prisioneiros políticos, fecharia jornais oposicionistas e ordenaria exército após exército em direção do sul para dar à nação um novo “nascimento de liberdade”, e um novo batismo de sangue e fogo.

Nenhum mais duro, mais resoluto jamais ocupou a Casa Branca. Como os historiadores Samuel Eliot Morison e Henry Steele Commager escreveram, Abraham Lincoln foi

Um ditador do ponto de vista da lei constitucional americana e prática; e mesmo a segurança da República não pode justificar certos atos cometidos sob sua autoridade. Um prefeito leal de Baltimore, suspeito de simpatias pelo Sul, foi preso e confinado em uma fortaleza por mais de um ano; um juiz de Maryland que havia reunido um júri para julgar atos ilegais de funcionários do governo foi preso por soldados, surrado, arrastado ensanguentado de seu banco e preso.

A Primeira Proclamação de Emancipação

Preservar a União e não terminar com a escravidão era a agenda de Lincoln torna-se evidente no primeiro ano de guerra. No verão de 1861, o general John C. Fremont, candidato republicano para presidente em 1856, estava no comando no Missouri. Em uma manobra desafiante, Fremont desenhou uma linha através do estado, separando a região pró-Confederação do lado da União, e emitiu uma ordem: qualquer civil portando arma ao norte da linha seria fuzilado. Qualquer homem ajudando a causa separatista teria todos os seus escravos emancipados.

Um herói nacional instantâneo para abolicionistas e membros do partido Free Soiler nos Estados Unidos e Grã-Bretanha, o general enviou suas ordens para a aprovação presidencial. Mas Lincoln, desesperado em manter o Kentucky pró-escravidão na União, disse a Fremont para desistir disso. Fremont se recusou, insistindo que ele não cumpriria a menos que Lincoln emitisse uma ordem direta. Lincoln emitiu a ordem.

A esposa do general, a impulsiva e tensa Jessie Benton Fremont, que casou com Fremont quando tinha 16 anos, partiu para uma viagem até Washington, carregando um apelo escrito de seu marido. Quando ela chegou na capital, exaurida após dias de viagem ininterrupta em uma carroça suja por estradas duras, ela enviou uma nota curta para a Casa Branca. Uma resposta chegou bem tarde à noite: “Agora, rápido. A. Lincoln.”

Quando Lincoln a recebeu no Salão Vermelho, Jessie Fremont discursou sobre a dificuldade de conquistar o Sul somente pelas armas. Ela clamou a Lincoln para apelar à nação britânica e ao mundo declarando a emancipação ser a causa da União.

“A senhora é uma política muito esperta,” respondeu um irritado Lincoln.

A Sra. Fremont saiu da Casa Branca e escreveu em seu diário:

Expliquei que o general desejava tanto ter sua atenção à carta enviada que a trouxe pessoalmente de modo que ela o alcançasse. Ele (Lincoln) não respondeu a isso, mas como o tema estava tomando conta de sua cabeça, que era uma guerra para uma grande ideia nacional, a União, e que o general Fremont não deveria ter arrastado os negros para dentro dela.

O Chicago Tribune denunciou Lincoln por deturpar a proclamação de emancipação do general Fremont. As ações de Lincoln tira a penalidade para a rebelião, acusou o Tribune em 16 de setembro. “Quantas vezes,” perguntou James Russell Lowell, “devemos salvar o Kentucky e perder nossa autoestima?” No Connecticut, a indignação transformou-se em fúria. O senador Ben Wade de Ohio escreveu em execração amarga: “O presidente não se opõe ao general Fremont tirar a vida dos proprietários de escravos, quando do lado rebelde, mas confiscar sua propriedade e emancipar seus escravos ele acha monstruoso.”

Mas a política de Lincoln não era a emancipação. Era retornar o Sul para a União, mesmo que isso significasse apaziguar os sulistas com a escravidão. Como Lincoln escreveu a Greeley em sua famosa carta de 22 de agosto de 1862, “meu maior objetivo nesta luta é salvar a União, e isso não significa necessariamente salvar ou destruir a escravidão. Se pudesse salvar a União sem libertar qualquer escravo eu o faria.”

Lincoln, contudo, já havia determinado emitir a Proclamação de Emancipação e informou ao seu gabinete.

As Tarifas provocaram a Guerra?

Em Pelo Bem e Mal: O impacto dos Impostos sobre o Curso da Civilização, o historiador Charles Adams relembra o alerta de 1832 de John Calhoun sobre a grande divisão regional que este estava vislumbrando no horizonte:

As leis de impostos de importação eram, na visão de Calhoun, legislação classista contra o Sul. Taxação pesada sobre o Sul levantou fundos que foram gastos no Norte. Isto era injusto. Calhoun argumentou além disso que altas taxas de importação forçaram os sulistas a pagar tanto preços excessivos a bens nortistas quanto taxas excessivas. A competição da Europa estava arruinando, assim dando aos nortistas um monopólio sobre os mercados sulistas. A taxação federal tinha o efeito econômico de desviar riqueza do Sul para o Norte, nem um pouco diferente do que as nações da OPEC têm feito com as nações consumidoras de petróleo desde 1973.

Após a eleição de Lincoln, a Carolina do Sul, Georgia, Flórida, Alabama, Mississipi, Louisiana e Texas não esperaram para ver como ele governaria. Todos se separaram antes de sua posse. Eles sabiam o que viria pela frente. Assim, mesmo antes de Lincoln fazer o juramento no início de março, a primeira das tarifas Morrill[6] foi aprovada e assinada por Buchanan, elevando as taxas tarifárias a níveis não vistos em décadas.

Consideremos a situação do Sul: como o sul comprava dois terços das importações da nação, e as tarifas eram a principal fonte da renda dos impostos, o Sul já estava carregando uma parte desproporcionalmente grande da carga federal de impostos. Ao elevar as tarifas, o Congresso, sob o ponto de vista sulista, estava saqueando o Sul. As importações sulistas custariam mais, enquanto que a renda do aumento das tarifas seria enviada ao norte para ser gasta pelos republicanos que insultavam o Sul. A alternativa do sul: comprar mais produtos das fábricas do norte ao invés dos britânicos. De qualquer maneira, a riqueza do sul estava sendo direcionada para o norte.

Acreditando ser uma região explorada em um país onde os novos donos do poder republicanos a desprezavam, os estados confederados decidiram partir. Mas havia um motivo poderoso para o norte industrializado não permitir isso. A Confederação de livre comércio havia escrito em sua Constituição uma proibição permanente contra todas as tarifas protecionistas: "
nem quaisquer direitos ou impostos sobre as importações de países estrangeiros devem ser estabelecidas para promover qualquer ramo da indústria."

Para os industriais do norte, um sul em livre comércio soava ruim. As importações poderiam ser desviadas de Baltimore, Nova York e Boston onde elas enfrentavam a Tarifa Morrill para Charleston, Savannah e Nova Orleans onde elas poderiam entrar sem taxas. Os estados ocidentais usariam os portos sulistas de tarifa zero para importar bens da Europa. Assim como muitos nortistas. Um pouco antes da guerra, em 18 de março de 1861, o Boston Transcript escreveu:

Se a Confederação sulista for permitida conduzir uma política pela qual somente , não resta dúvidas de que os negócios das principais cidades nortistas será seriamente prejudicado. A diferença é tão grande entre a tarifa da União e aquela dos estados Confederados, que o noroeste inteiro deverá ver com vantagem comprar seus bens importados em Nova Orleans ao invés de Nova York. Além disso, o interesse manufatureiro do país sofrerá com o aumento das importações resultando em baixa arrecadação.

Adams descreve a crise política e econômica que o norte teria enfrentado, vivendo lado a lado com uma Confederação de livre comércio:

Isto faria com que o Norte criasse uma rede de estações de alfândega e patrulhas de fronteira do Oceano Atlântico até o Rio Missouri, e mais. Os nortistas exigiriam comprar bens livres de impostos do Sul. Isto seria um desastre para os industriais nortistas. A Secessão oferecia ao sul não somente a liberdade da carga tributária do Norte, mas também uma oportunidade para transformar-se de oprimido a opressor. Os Yankees iriam se contorcer agora!

A Dependência fatal do Sul

Apesar de a abolição da escravidão não ser o motivo pelo qual Lincoln ter ido à guerra, a escravidão e a dependência do sul em relação ao comércio de necessidades da vida nacional foram a ruína da Confederação naquela guerra. A escravidão havia mantido o sul na época do mercantilismo. Oitenta anos após Yorktown, o sul ainda estava despachando matérias primas para a Grã-Bretanha para a fabricação de bens manufaturados. Tivesse a escravidão abolida, o extremo sul teria sido forçado a abdicar de sua dependência do algodão, fumo e arroz. Dados os recursos naturais, a capacidade de seu povo, negro e branco, o sul teria se desenvolvido lado a lado com o norte e o Oeste. Ao invés disso, era no Norte que estava concentrado 90% da manufatura, onde navios de guerra eram construídos, canhões forjados, locomotivas eram construídas e a maioria das ferrovias eram estabelecidas. Do ponto de vista militar, a posição do Sul em relação ao Norte era como a das colônias em relação à Grã-Bretanha na época da Revolução.

Com sua frota, o Norte rapidamente impôs um bloqueio naval e dividiu a Confederação em duas no Mississipi. Dependente do comércio, o sul viu seu tabaco e algodão ficarem retidos nos armazéns, e seus negócios secaram. Os escravos do sul, diferentemente do trabalho imigrante do norte, não podiam ser usados para produzir armas. Escravidão e o caráter agrário do sul ligava-os à terra.

Os sulistas estavam ligados a um sistema que eles herdaram no nascimento. Pelo fato do sistema depender de três milhões e meio de escravos, o Sul tinha que submeter ao abuso moral dos nortistas, os quais ignoravam a exploração do trabalho imigrante e se importavam ainda menos com a situação dos escravos. Eventualmente, o sul deixaria a União que seus pais ajudaram a construir e lutariam até sua derrota e ruína em uma luta de independência quase impossível de vencer.

A Causa era Justa?

A grande guerra foi uma guerra justa?

Para o Sul, a questão se resume a uma simples pergunta: o sul tinha o direito de se separar da União? Assim, se o sul tinha o direito de se separar, como as colônias tinham o direito legal de romper com o Império Britânico, então o sul tinha o direito de lutar por sua independência e a resistir a uma invasão da União.

Para a primeira questão, o Sul em 1861 tinha pelo menos um exemplo de secessão nos Federalistas da Convenção Hartford, ou o ex-presidente John Quincy Adams, que ameaçou o presidente John Tyler com a secessão se o Texas fosse admitido na União. Pelo teste jeffersoniano, que, para ser legítimo, um governo deve se basear no consentimento do governado, a Confederação tinha legitimidade na época do Forte Sumter. O que a União tomou de volta em 1865 não eram homens livres e estados soberanos, mas rebeldes derrotados e províncias conquistadas.

Em 1861 era uma questão aberta se um estado tinha o direito de se separar. A questão estava submetida ao julgamento da espada e foi respondida em Appomattox. Mas, de todas as guerras que a América já lutou, “interesses vitais” estiveram envolvidos na Guerra Civil. Tivesse a Carolina do Sul, Georgia e os estados do Golfo rompido, os britânicos e franceses teriam se movimentado para explorar a zona de livre comércio para enfraquecer as indústrias do norte e afastar o Oeste da União. De fato, durante a guerra, Napoleão III instalou um regime fantoche no México em violação à Doutrina Monroe[7], e os britânicos deslocaram tropas para o Canadá.

Com a partida do extremo sul, os Estados Unidos teriam perdido um quarto de seu território, sua janela para o Caribe e o Golfo, sua fronteira com o México e seus portos de Nova Orleans, a saída para o mar dos bens do Missouri, Illinóis, Iowa e do Oeste Central. O Sul teria começado a competir pela fidelidade do Novo México e Arizona; de fato, rebeliões surgiram nestas áreas e foram desmembradas pelas tropas da União.

Para Lincoln, a secessão significava uma amputação de seu país que teria destruído seu impulso e moral. A desunião era intolerável. Onde Jackson disse diretamente “Desunião é traição” e “a preservação da União” a lei mais alta, Lincoln usou seus poderes retóricos para elevar a causa para uma de valores universais. Mas seu objetivo era o mesmo que o de Jackson.

Lincoln foi o homem indispensável que salvou a União. Ele aceitou a guerra e pode ter provocado a guerra para restaurar a União. No final, aquela guerra libertou os escravos. “Por fim, após a fumaça do campo de batalha ter varrido a forma horrível que tinha lançado sua sombra sobre todo o continente havia desaparecido e foi embora para sempre,” escreveu John Bright. Mas foi necessário uma guerra para libertar os escravos, quando todas as outras nações no hemisfério, exceto o Haiti, libertou seus escravos pacificamente, sem uma guerra total que Lincoln e seus generais lançaram contra o Sul? Para Lincoln, então, pertence o crédito que toda boa guerra tem e a responsabilidade total por todos os seus custos.

Notas:

[1] Appomattox é uma cidade localizada no estado norte-americano de Virginia e onde o General Robert Edward Lee, se rendeu ao General Grant, pondo fim à Guerra Civil Americana em 1865.

[2] A Guerra das Rosas ou Guerra das Duas Rosas foi uma série de lutas dinásticas pelo trono da Inglaterra, ocorridas ao longo de trinta anos (entre 1455 e 1485) de forma intermitente, durante os reinados de Henrique VI, Eduardo IV e Ricardo III.

[3] O Forte Sumter era um forte localizado em Charleston, Carolina do Sul, Estados Unidos. É conhecido nacionalmente como o palco da primeira batalha da Guerra Civil Americana, que resultou na vitória dos Estados Confederados da América.

[4] O Caso Dred Scott (também conhecido por Dred Scott v. Sandford ou Decisão Dred Scott, sob registro 60 U.S. 393) é o nome pelo qual ficou conhecida uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos da América de 1857, que sentenciou serem as pessoas de ascendência africana, importadas para o país e mantidas como escravas, ou os seus descendentes, quer fossem ou não escravos, não estavam protegidos pela Constituição dos Estados Unidos e nunca poderiam se tornar cidadãos daquele país.

[5] Os Atos de Estrangeiros e Sedição foram quatro decretos que passaram pelos Federalistas no Quinto Congresso dos Estados Unidos e transformados em leis pelo presidente John Adams em 1798 como consequência da Revolução Francesa e durante uma guerra naval não declarada contra a França. Os atos aumentaram a exigência de residência para se conseguir a cidadania americana de 5 para 14 anos e permitiu que o presidente ordenasse a prisão ou deportação de estrangeiros que fossem considerados "perigosos para a paz e segurança dos Estados Unidos". Eles também restringiram a liberdade de expressão, a qual era crítica para o governo federal.

[6] A Tarifa Morrill de 1861 era uma taxa altamente protetora nos Estados Unidos, adotada em 2 de março de 1861, durante a administração do presidente James Buchanan, um democrata. Ela foi um elemento chave da plataforma do novo Partido Republicano, e apelava para industriais e operários como um meio de atingir um rápido crescimento industrial limitando a competição das indústrias de baixo custo na Europa. Ela foi combatida pelos plantadores de algodão do sul.

[7] A Doutrina Monroe foi uma política dos Estados Unidos, introduzida em 2 de dezembro de 1823. Ela dizia que quaisquer esforços adicionais por parte dos europeus em colonizar terras ou interferir com os estados nas Américas do Sul e do Norte seriam vistos como atos de agressão, exigindo uma intervenção americana.

http://buchanan.org/blog/pjb-mr-lincolns-war-an-irrepressible-conflict-1440

"Fiz coisas mais importantes na vida", diz militar que capturou Che Guevara

Marcel Vincenti

UOL, 09/01/2014

 
Na madrugada do dia 8 de outubro de 1967, ao receber a denúncia de que guerrilheiros andavam pela região da Quebrada del Yuro, o capitão da 8ª divisão do Exército boliviano, Gary Prado, não pensou duas vezes: arregimentou rapidamente 50 de seus melhores homens e os conduziu até o topo do cânion no qual, de fato, encontravam-se Che Guevara e parte de seu grupo armado, que havia quase um ano tentavam implantar um foco revolucionário no coração da América do Sul.

Após intensa troca de tiros, Che foi preso e conduzido por Prado ao vilarejo de La Higuera, onde foi executado a mando do então presidente da Bolívia, René Barrientos.

Hoje com 74 anos, o agora general reformado ainda parece uma pessoa de prontidão para o combate – seja ele feito com armas ou palavras. Preso há mais de 30 anos a uma cadeira de rodas, devido a um projétil que destruiu sua espinha durante um evento militar (em um acidente nunca esclarecido), ele mostra-se um homem frio e de consciência tranquila: descreve com humor a ocasião em que, em 1968, quase foi assassinado por um grupo esquerdista no Rio de Janeiro (que queria vingar o guerrilheiro argentino) e rejeita com um sorriso irônico a "maldição do Che", à qual é atribuída a morte violenta de vários militares envolvidos na captura do revolucionário.

A mesma atitude é adotada na hora de explicar a atual acusação que pesa sobre ele: a de participar de um complô em 2009, organizado por membros da elite de Santa Cruz (que supostamente buscavam separar a província da Bolívia), para matar o atual presidente boliviano, Evo Morales. "Não tive nada a ver com isso, e o governo fica me chamando de terrorista".

Prado exibe diversas condecorações do Exército boliviano e já foi embaixador do país no México e na Inglaterra. Na parede de sua casa na cidade de Santa Cruz de la Sierra, aparece em uma foto dando a mão para o papa João Paulo 2º. "Fiz coisas mais importantes na vida do que capturar Che Guevara", afirma ele.

Qual foi a reação de Che Guevara no momento em que ele se viu capturado?

Eu tenho duas imagens do Che neste momento. A primeira é a de um homem acabado, que se rendia. Muita gente me pergunta: o que você sentiu quando se viu na frente do Che? E eu digo: me deu pena. Era um homem em péssimo estado físico, com a roupa suja, e seu estado de ânimo não era melhor. Ele estava totalmente deprimido. Nas horas em que combateu nossos soldados, Guevara viu morrer vários de seus companheiros e, quando já estava sob nosso controle, me disse: "isso está acabado". Porém, curiosamente, ao perceber que o tratávamos bem, seu estado de ânimo melhorou. Foi nesse momento em que ele começou a se preocupar com seu futuro e a perguntar o que iríamos fazer com ele. Nesse momento não havia nenhuma instrução do que não deveríamos fazer com os prisioneiros e minha resposta foi simples: você será julgado em Santa Cruz de la Sierra, que é a sede do comando da divisão que o capturou. Ele provavelmente imaginou que seu julgamento se transformaria em uma causa célebre. São essas as duas imagens que tenho dele naqueles instantes: o homem deprimido logo após a captura e uma pessoa mais otimista em La Higuera.

Como foi a última vez em que o senhor viu Che Guevara vivo?

Foi manhã do dia 9 de outubro, quando chegou a La Higuera de helicóptero o comandante da minha divisão, o coronel Joaquín Zenteno. Eu lhe entreguei meus dois prisioneiros [Che Chevara e o boliviano Simeón "Willy" Sanabria] e os materiais capturados na operação. Zenteno me pediu para levá-lo até a zona em que havíamos prendido os guerrilheiros. Após observar a área, ele me disse que tinha que falar com La Paz e voltou a La Higuera. Eu fiquei perto da Quebrada del Yuro, pois tinha que fazer uma varredura para acabar com os guerrilheiros que ainda restavam na zona. Matamos mais dois guerrilheiros em um combate e então regressamos a La Higuera. Quando chegamos ao vilarejo, um major veio até mim: "o Che foi executado. Ordens de La Paz". Durante todo o dia, havia um helicóptero transportando corpos de soldados e guerrilheiros entre La Higuera e Vallegrande, e a ordem do coronel Zenteno era que o corpo de Che fosse levado na última viagem. O cadáver dele já estava sendo amarrado aos patins do helicóptero. Eu me aproximei do corpo e amarrei meu lenço em volta de sua mandíbula, para que seu rosto não deformasse. Ele ficou parecendo com uma pessoa com dor de dente. Essa é a última imagem que eu tenho dele, o momento em que ele partia no helicóptero.

O senhor acredita na "maldição do Che", que teria ocasionado a morte de várias pessoas envolvidas em sua captura [como o coronel Joaquín Zenteno, assassinado em Paris em 1976, e o próprio presidente René Barrientos, morto em um acidente aéreo em 1969]?

[Sorrindo e balançando a cabeça negativamente] Isso é um disparate.

E o que o exatamente aconteceu no Rio de Janeiro em 1968, quando um grupo armado de esquerda assassinou um militar alemão pensando que era o senhor?

Em 1967, eu havia recebido uma bolsa para fazer um curso na Escola de Estado Maior do Brasil, na Praia Vermelha. Eu vivia em Copacabana e estudava com oficiais de vários países, como argentinos, paraguaios, portugueses, italianos. E havia um alemão, que vivia perto de mim. Um dia, vestidos como civis, pegamos o ônibus juntos. Eu desci primeiro e ele desceu umas duas quadras depois. O que sabemos é que, no momento em que ele se aproximava de sua casa, dois homens apareceram entre os carros e dispararam diversos tiros contra ele.

Quando souberam da história, os oficiais da Escola Maior foram até minha casa para me levar para um lugar seguro. Uma das possibilidades levantadas foi a de que os assassinos o tinham confundido comigo, que o atentado deveria ser feito contra mim. Mas isso nunca foi comprovado e minha vida continuou relativamente normal. De qualquer modo, eu tive uma vantagem, pois comecei a morar dentro do edifício militar da Praia Vermelha, junto com oficiais brasileiros, o que me fez poupar pelo menos três anos de aluguel no Brasil.

Recentemente, em 1999, um colega me ligou dizendo: "O 'Fantástico', da Rede Globo, está mostrando uma reportagem sobre as pessoas que tentaram te matar e haviam se enganado". Ele me mandou uma gravação e lá estavam os caras que tentaram me matar, que supostamente pertenciam a uma célula comunista.

Hoje o senhor é um general reformado com uma longa carreira no Exército e no governo boliviano. O senhor gosta de ser recordado principalmente como o homem que capturou Che Guevara?

Na minha vida, fiz coisas mais importantes do que capturar Che. Mas isso é algo com que eu tenho que me acostumar a viver, certo? Neste escritório [apontando para dezenas de retratos nas paredes], sempre ouço a mesma pergunta: 'mas como você não tem nenhum foto do Che aqui?'. E a minha resposta é a mesma: por que vou ter uma foto do Che aqui? Fiz coisas mais importantes na minha vida. Mas tenho muitos livros publicados sobre ele, como referência.

Como seriam a Bolívia e a América do Sul caso a guerrilha de Guevara tivesse tido êxito?

Um governo dessa natureza não teria sobrevivido na Bolívia, que não tem saída para o mar e na época estava rodeada de ditaduras militares [de direita]. É impossível pensar que uma guerrilha de esquerda conseguiria tomar o poder na Bolívia. Nossas fronteiras e espaço aéreo seriam fechados, ninguém mais iria entrar aqui. Era uma utopia, um sonho complicado. Por outro lado, o que Cuba fez com o Che foi uma traição: o abandonaram. O governo de Fidel Castro o mandou para a Bolívia para se livrar dele. Em 1965, Fidel leu publicamente a carta em que Che se despedia de Cuba e renunciava a seus cargos no governo da ilha. Naquele momento, Che estava conduzindo uma guerrilha na República Democrática do Congo e li [em um relato escrito pelo guerrilheiro cubano Daniel Alarcón Ramírez, que acompanhava Che na empreitada], que Guevara ficou furioso ao saber da publicação de sua carta. Ele queria que essa carta só fosse publicada caso ele fosse morto no Congo, para que Cuba fosse isentada de qualquer responsabilidade de intervenção no país africano. Isso fechou seu caminho de volta a Cuba, pois ele havia renunciado a tudo. E a mesma coisa aconteceu quando ele chegou a Bolívia: ele teve pouquíssimo suporte de Cuba para conduzir sua guerrilha.

Escolher o Sudeste da Bolívia como área de operação da guerrilha foi um erro?

A população dessa região já era dona de suas terras e nunca havia sido oprimida como o foram os mineiros bolivianos, por exemplo, que se encontram em outras regiões da Bolívia. Além disso, é uma área que concentrava muitos ex-combatentes da Guerra do Chaco [conflito territorial sangrento ocorrido entre Bolívia e Paraguai de 1932 a 1935], todos extremamente nacionalistas e zelosos de seu território. O Che não iria conseguir nunca recrutar essa gente para sua guerrilha. Além disso, a partir de 1964, o presidente René Barrientos conduzia um programa chamado "Ação Cívica", em que o Exército fazia diversos trabalhos sociais para a gente do campo. Os camponeses gostavam do Exército e viraram delatores do movimento guerrilheiro.

Matar Che Guevara foi a melhor decisão?

Nesse momento [após ele ser capturado] não me pareceu a melhor decisão. Mas foi algo compreensível. Em 1976, o general Alfredo Ovando [que comandava o Exército da Bolívia em 1967] me contou como foi a reunião com o presidente Barrientos que decidiu o destino de Guevara. Eles consideraram um julgamento, mas logo descartaram a ideia, pois seria um show midiático. Além disso, em um julgamento, Guevara teria que ser condenado a pelo menos a 30 anos de prisão, pois ele tinha invadido a Bolívia e matado diversos soldados bolivianos. E onde prendê-lo? Na época, as cadeias na Bolívia mal tinham paredes, só ficava preso quem queria. Seguramente iríamos ter que lidar com diversas tentativas para libertá-lo. Seria um fator de agitação permanente. Assim que a conclusão do alto poder foi a seguinte: era necessário executá-lo.

Mas isso também criou um mártir...

O procedimento da execução foi errado. Nós [diversos oficiais presentes em La Higuera] não fomos consultados sobre qual era a melhor forma de sair daquele impasse. Não tínhamos ordem para matar Che no momento em que o capturássemos e diversos camponeses o viram saindo vivo da Quebrada del Yuro e caminhando em direção a La Higuera. O governo quis informar que Che havia sido morto em uma troca de tiros, mas todos já sabiam que isso não tinha acontecido. Ter sido capturado em combate e morto em uma escolinha em um lugar isolado da Bolívia contribuiu para a criação do mito em torno dele.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A Revolta da Chibata

Defesanet, 22 de Novembro, 2013




Em 22 de novembro de 1910, um grupo de marinheiros do Rio de Janeiro promoveu uma das mais importantes rebeliões da história do Brasil: a Revolta da Chibata.

Liderados pelo marinheiro negro João Cândido Felisberto, os marujos tomaram três encouraçados na Baía de Guanabara e ameaçaram disparar os canhões contra a então capital da República. O que eles queriam? O fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil e melhores condições de alimentação e de trabalho. Foi um ato de coragem contra as Forças Armadas, que naquele momento contavam com uma das mais modernas frotas navais do planeta.

Planejado por cerca de dois anos e que culminou com um motim que se estendeu de 22 até 27 de novembro de 1910 na baía de Guanabara, na ocasião, rebelaram-se cerca de 2400 marinheiros contra a aplicação de castigos físicos a eles impostos (as faltas graves eram punidas com 25 chibatadas), ameaçando bombardear a cidade.

Durante o primeiro dia do motim foram mortos marinheiros infiéis ao movimento e cinco oficiais que se recusaram a sair de bordo, entre eles o comandante do Encouraçado Minas Geraes, João Batista das Neves.

Na manhã do dia 23, o emissário do governo, o deputado federal e capitão-de-mar-e-guerra José Carlos de Carvalho esteve a bordo do encouraçado São Paulo, onde lhe foi determinado que se dirigisse ao Minas Geraes para falar com o líder da revolta, João Cândido, dando-se assim início às negociações entre o governo e os revoltosos.

José Carlos de Carvalho levou para o Congresso a impressão que teve da força dos marinheiros e um Manifesto com exigências, sendo a principal o fim da chibata. O Manifesto, que tinha sido escrito durante as reuniões preparatórias, citava todos os oficiais presos nos navios e relacionava todos os navios sob o controle dos marinheiros. Isso demonstra que os revoltosos acreditavam que poderiam fazer a revolta sem mortes, e que a adesão à revolta seria total, quando a realidade era diferente disso.

Os navios que não aderiram à revolta, na maioria contratorpedeiros, entraram em prontidão para torpedear os revoltosos. No dia 25 de Novembro, o então Ministro da Marinha, almirante Joaquim Marques Batista de Leão expediu a ordem: "hostilize com a máxima energia, metendo-os a pique sem medir sacrifícios." No mesmo dia, entretanto, o Congresso Nacional aprovou a anistia para os revoltosos. Há versões de que o encouraçado Deodoro chegou a receber tiros dos contratorpedeiros, que logo cessaram fogo e voltaram para a orla.

Quatro dias depois do motim, a 26, o governo do presidente Marechal Hermes da Fonseca declarou aceitar as reivindicações dos amotinados, abolindo os castigos físicos e anistiando os revoltosos que se entregassem. Estes, então, depuseram armas e entregaram as embarcações. Entretanto, dois dias mais tarde, a 28, foi feito um novo decreto, que permitia que fossem expulsos da Marinha aqueles elementos "inconvenientes à disciplina".

A chamada "segunda revolta"

Duas semanas depois de os rebeldes terem se rendido e terem desarmado os navios, obtendo do governo um decreto de Anistia, eclodiu o que a Marinha denomina de "segunda revolta". Em combate, num arremedo de motim num dos navios que não aderiram à Revolta pelo fim da Chibata, morreram mais um oficial e um marinheiro. Esta "segunda revolta" desencadeou uma série de mortes de marinheiros indefesos, ilhados, detidos em navios e em masmorras, além da expulsão de dois mil marinheiros, atos amparados pelo estado de sítio que a "segunda revolta" fez o Congresso Brasileiro aprovar.

No Congresso, parlamentares levantaram a possibilidade de esta "segunda revolta" ter sido encomendada, ou no mínimo fomentada pelo Governo Federal (Presidente, Marinha, Exército e simpatizantes no Congresso), pois foi o Governo o maior beneficiado, com o estado de sítio, que não somente lhe permitiu excluir 2.000 marinheiros (eram 2379 os revoltados) e matar um número incerto mas estimado em duas centenas de marinheiros, como também afastar os adversários políticos, que ficaram a favor da Anistia dos marinheiros rebeldes, como o candidato à presidência derrotado, Rui Barbosa, isolando-o em São Paulo.

Apesar de se declarar contra a "segunda revolta", e até mesmo ter atirado (graças a uma culatrinha de canhão que um dos marinheiros havia escondido dos oficiais) contra os fuzileiros, companheiros seus da Marinha, para provar lealdade ao Governo Federal que havia dado a Anistia e garantido o fim da chibata, João Cândido também foi preso e expulso da Marinha, sob a acusação de ter favorecido os fuzileiros rebeldes. Entre os detidos na Ilha das Cobras, dezoito foram recolhidos à cela n° 5, escavada na rocha viva.

Ali foi atirada cal virgem, na véspera de Natal, 24 de Dezembro de 1910. Após vinte e quatro horas, estavam mortos asfixados 16 homens; apenas João Cândido e o soldado naval João Avelino, conhecido como "Pau de Lira" sobreviveram na cela 5. Numa outra cela morreram mais dois.

Mais vindita aconteceu: cento e cinco marinheiros foram desterrados para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia, tendo sido onze destes fuzilados nesse trânsito . Além disso, testemunhas, entre elas João Cândido e Marcelino Rodrigues(o chicoteado na véspera da revolta), demonstram que vários marinheiros foram mortos nos quartéis e nas ruas. Sem contar o massacre da Ilha das Cobras do dia 10, à qual não foi permitido o acesso da Imprensa a partir do dia 10.

Estima-se que havia na Ilha 300 presos (somando anteriores à Revolta e após 26 de Novembro, fim da revolta e do decreto da anistia) e 300 fuzileiros navais. Quando estalou a "segunda revolta", 350 fugiram entre a noite do dia 9 e a manhã do dia 10. Destes 250 marinheiros e fuzileiros restantes, houve notícia de 60 sobreviventes encontrados após o cessar-fogo. Os números reais das mortes comandadas pelo governo, exército e marinha, nas dependências do Estado nacional, rendidos, nunca foram oficialmente divulgados.

A estimativa de duas centenas é bastante conservadora. Duzentos mortos e dois mil expulsos após a revolta. Barbaridade que não se compara às 6 mortes de marinheiros e 6 mortes de oficiais em situação de combate no dia 22 de Novembro e no dia 09 de Dezembro. Matar homens amarrados, rendidos, por vingança, realmente uma mancha na imagem da Marinha de 1910. Uma época felizmente superada.

O Almirante Negro, como foi chamado pela imprensa, um dos sobreviventes à detenção na ilha das Cobras, foi internado no Hospital dos Alienados em Abril de 1911, como louco e indigente. Ele e nove companheiros só seriam julgados e absolvidos das acusações dois anos mais tarde, em 1 de dezembro de 1912.

João Cândido, o Almirante Negro, apelido dado pela imprensa da época. Desde a infância numa fazenda na divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai, passando pela liderança da Revolta da Chibata até internação como louco, ele enfrentou muitas dificuldades, que se seguiram até o fim da sua vida, em 1969. Herói pouco conhecido, morreu na miséria e no esquecimento.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Calígula: O louco que foi sem nunca ter sido

Vinícius Cherobino

Aventuras na História, nº 95, junho 2011

Esqueça a imagem do tirano pervertido e insano. O imperador era, sim, um hábil populista. Acontece que sua história foi escrita pelos inimigos.

 
Psicopata, narcisista, assassino, depravado. Segundo Suetônio escreveu no século 2 em A Vida dos Doze Césares, era simplesmente um monstro. As comemorações pela indicação de Calígula como autoridade suprema teriam levado à degola 60 mil prisioneiros em cerca de três meses. Mas aquilo era só o começo – Roma nunca havia presenciado tamanha perdição. O imperador tratava abertamente a irmã Drusilla como esposa. Servia-se também das outras irmãs, Livilla e Agripina, e as prostituía. Costumava promover banquetes e orgias que culminavam com a tortura e execução de prisioneiros. Obrigava, inclusive, as esposas dos auxiliares mais próximos a participar das festas. “Quase não houve mulher, por menos ilustre que fosse, que ele não tivesse desrespeitado”, diz Suetônio. Para o historiador romano Cássio Dio, “não havia homem mais libidinoso”.

Perdulário, suas extravagâncias incluíam pérolas banhadas em vinagre como aperitivo. Gastava tanto dinheiro que a dada hora se viu obrigado a confiscar propriedades e a criar impostos sobre tudo, até a prostituição.

Atribuía a si mesmo qualidades divinas. Encomendou da Grécia uma estátua de Júpiter Olímpico, mandou cortar a cabeça e a substituiu por uma inspirada na sua própria. Num templo dedicado a ele, ostentava uma estátua de ouro em tamanho natural, vestida todos os dias com uma cópia de seus trajes.

Líder incompetente, humilhava com frequência seus pares, na indiscrição dos banquetes ou na política. Nomeou o cavalo Incitatus magistrado superior de Roma. O animal era mantido num luxuoso estábulo dentro do palácio imperial. E Calígula exigia que os senadores despachassem com o colega equino.

Um crápula completo, certo? Errado. Calígula não é tão diferente dos demais imperadores romanos. E, até pelo pouco tempo que permaneceu no poder, quatro anos, conseguiu feitos importantes. Mas a fama de maníaco atravessou os séculos intacta – que o diga o filme Calígula, de 1979. Mas por que sua imagem foi tão deturpada?

Um olhar atento sobre os autores das histórias originais a respeito do imperador ajuda a esclarecer as distorções. Como autoridade política, Calígula trabalhou sobretudo para concentrar poder, confrontando o Senado e a aristocracia romana. Os historiadores da época dependiam ou eram representantes do Senado. “É como tentar entender a história do século 21 e tudo o que sobrou foi o tabloide National Enquirer (uma espécie de Notícias Populares americano)”, diz Anthony Barrett, professor de história romana na Universidade da Columbia Britânica. “É uma fonte importante, mas não pode ser tomada como totalmente verdadeira. Os fatos demandam análise crítica e é preciso tentar corroborá-los com evidências arqueológicas.”

O filósofo Sêneca, o Jovem, fez um dos poucos relatos contemporâneos ao governo. Ele era rival da dinastia Júlio-Claudiana, à qual pertencia o imperador. Acabou exilado em 41. Suetônio, conhecido por abordar seus personagens sob o viés mais pitoresco possível, escreveu sete décadas após a morte do governante. Já Cássio Dio o fez quase 200 anos depois. Dos Anais de Tácito sobre Calígula, uma das narrativas mais confiáveis da Roma antiga, apenas algumas referências são encontradas hoje. “São textos literários, com pretensões retóricas, e não científicas”, diz Paulo Sergio de Vasconcellos, professor de letras da Unicamp.

A revisão desses textos confrontados com investigações arqueológicas e o estudo de moedas do período, está longe de reproduzir um maluco desvairado.

Está claro que o imperador se relacionava com a sua família de maneira diferente que os outros fizeram. As irmãs eram presença constante ao seu lado nos eventos públicos e foram imortalizadas em moedas. Mas nada disso significa que havia uma orgia em família. “O incesto foi uma criação posterior da historiografia”, diz Fábio Faversani, historiador da Universidade Federal de Ouro Preto. Há ainda uma explicação política. Como não tinha grandes conquistas militares, Calígula precisava se provar merecedor do posto pela linhagem que remontava a Augusto. Ao homenagear os familiares, justificava a própria posição.

Ele foi acusado de levar Roma à falência. Mas realizou grandes construções. Concluiu projetos iniciados por Tibério e iniciou outros. Na área militar, ele não teve nada de brilhante, mas sua atuação foi positiva. Iniciou a conquista da Britânia, atual Inglaterra. Antes, indicam as evidências arqueológicas, criou uma estrutura de fortes e armazéns, preparando-se para a conquista do território, efetivada por seu sucessor, Cláudio.

Mas a característica mais marcante de Calígula está na sua adoração pelo entretenimento. Em contraste com a severidade de Tibério, abraçou as aparições públicas e a realização de festivais, que incluíam combates de gladiadores e com feras selvagens, corridas de cavalos e peças teatrais. Mandou reduzir as armaduras dos lutadores, o que o fez ser ainda mais adorado pela plebe, especialmente nas ocasiões em que distribuía comida e dinheiro.

Essa gastança poderia ter destruído as finanças públicas e iniciado uma espiral inflacionária. E Cláudio teria pago o pato. Mas não, não há registro de problemas financeiros no governo dele. Isso não quer dizer que a economia foi perfeita sob Calígula. Serve,  porém, como indício de que ele talvez não fosse o perdulário inconsequente que os historiadores clássicos pintaram. Definir sua figura por estereótipos, como os fatos demonstram, está longe de apresentar uma noção satisfatória de quem foi Calígula.
 
 
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sábado, 4 de janeiro de 2014

[POL] Os discursos de Churchill foram superestimados e alguns “se deram mal”

Jasper Copping

The Telegraph, 20/08/2013

 
Eles são pensados como tendo unido a nação durante sua hora mais sombria, e ajudado a plantar as sementes da vitória final sobre os nazistas. Mas o impacto dos discursos de guerra de Winston Churchill tem sido superestimado e eles foram pobremente recebidos por muitos, um estudioso afirma.

O professor Richard Toye conduziu uma pesquisa sobre o impacto dos discursos do então Primeiro Ministro analisando as respostas para eles a partir daquele momento.

Em suas descobertas, ele desafiou a visão aceita de que os discursos foram recebidos entusiasticamente e se tornaram uma influência decisiva no desejo da nação em lutar contra Hitler.

Ao invés disso, ele afirma, os trabalhos geraram mais controvérsia e críticas de que os historiadores pensavam previamente.

O professor Toye, da Universidade de Exeter, descobriu que muitos ouvintes pensaram mesmo que Churchill estava bêbado durante o seu discurso da “Hora mais nobre”, um de seus mais conhecidos, proferido em 18 de junho de 1940, na época da queda da França.

A pesquisa, apresentada em um novo livro, O Rugido do Leão, cobriu as dezenas de discursos dados por Churchill durante a guerra. Alguns foram transmitidos por rádio, enquanto outros foram impressos em jornais.

O professor Toye avaliou as reações aos discursos estudando diários coletados pelo grupo de pesquisa social Observação Popular, que objetivava registrar a vida diária pedindo aos voluntários para registrar suas opiniões e experiências, assim como daquelas pessoas próximas a eles.

Ele também analisou os relatórios “Inteligência Doméstica” do Ministério da Informação, que monitorava aspectos do moral público, incluindo reações ao modo como os políticos apresentavam o progresso da guerra.

O professor Toye disse que os discursos de Churchill tornaram-se a partir de então parte de um mito nacional idolatrado, e que isto tem escondido o fato de que eles frequentemente causaram desapontamento e críticas.

O estudioso descobriu que uma pesquisa conduzida logo após o primeiro discurso transmitido por Churchill como Primeiro Ministro, “Sejam Homens de Valor”, em 19 de maio de 1940, foi considerado inspirador por metade dos entrevistados e depressivo pela outra metade.

“Tem sido muito uma parte da estória nacional pelas pessoas olhar para isso proximamente,” ele disse. “As pessoas têm tirado conclusões erradas sobre o impacto dos discursos, sem muita evidência. Um grande número se sentiu inspirado pelos seus discursos, mas uma parcela ainda maior da população teve uma reação diferente. Esta estória de quase unanimidade nas reações aos seus discursos é incorreta. As pessoas acham que todo mundo ficou inspirado e estava pronto para pegar em armas e sair lutando contra os alemães. De fato, havia mais críticos do que podemos suspeitar.”

Ele acrescenta: “Muitas pessoas acharam que ele estava bêbado durante seu famoso discurso transmitido ‘A Hora mais nobre’ e há pouca evidência de que os discursos fizeram uma diferença decisiva ao desejo do público britânico em lutar. Os discursos não eram tão motivadores. Alguns se deram muito mal.”

Parte da razão disto, afirma o professor Toye, foi devido ao fato de que Churchill estava dando uma avaliação honesta da guerra e da duração dela, do que a população havia sido informada anteriormente e que isto era uma mensagem dura para se dar.

Entretanto, o historiador também argumenta que havia uma parcela significativa da população que era crítica da liderança de Churchill. Apesar das pesquisas de opinião da época mostrarem um grande apoio para o Primeiro Ministro, o professor Toye argumenta que os diários da Observação Popular, em particular, dão uma reflexão mais verdadeira das atitudes.

“Havia uma pressão coletiva nas pesquisas de opinião, para dar o que pensamos ser uma resposta socialmente aceitável,” ele acrescenta.

O professor Toye disse que a resposta ambígua aos discursos de Churchill ajudam a explicar sua derrota na Eleição Geral de 1945.

“Existe essa suposição que todo mundo achava que ele era um brilhante líder de guerra, mas ninguém o queria na paz. De fato, havia mais críticas de sua liderança na época da guerra do que pensamos hoje.”

Uma das respostas mais intensas a um discurso encontrado nos arquivos foi escrito por um jornalista que se juntou ao Exército e registrou os comentários de seu amigo George, 24 anos, da região sul de Londres. Enquanto George escutava o discurso de Churchill sobre a queda de Singapura em fevereiro de 1942, ele disse: “Que desgraçado. Vamos logo com isso. Que merda de encobrimento. Qualquer pessoa normal vê que ele está jogando areia em nossos olhos.”

Apesar de Churchill ter escrito seus próprios discursos, ele frequentemente recebia conselhos dos departamentos governamentais que algumas vezes o levavam a abaixar o tom ou fazer ajustes.

O professor Toye disse que o discurso “Devemos lutar contra eles nas praias” de junho de 1940 foi influenciado por William Philip Simms, o editor estrangeiro pró-britânico da cadeia de jornais americanos Scripps-Howard. Havia uma preocupação de que os EUA não entrassem na guerra, de modo que Simms deu algumas sugestões na linguagem necessária para maximizar as simpatias dos americanos pelos britânicos.

A pesquisa do professor Toye descobriu que para estabelecer a crença de que os Aliados não poderiam mais ser punidos, Simms argumentou que o Primeiro Ministro deveria dizer algo como: “Pretendemos lutar esta guerra em direção de um fim e de uma vitória, por mais tempo que tome. Aconteça o que acontecer, a Grã-Bretanha não cederá. Nós, aqui, sabemos muito bem dos tempos difíceis que estão por vir. Temos tomado a medida de nosso inimigo. Sabendo de tudo isso, estamos dentro e estamos para ficar. A proposta é simples: é se o estilo de vida que conhecemos na Escandinávia, Países Baixos, Grã-Bretanha e nas Américas deve sobreviver ou se a maior parte do progresso feito pela humanidade desde a Idade das Trevas deve ser varrida do mapa. De sua parte, a Grã-Bretanha pretende lutar até o poder do mal da Alemanha seja derrotado. Desistir – jamais.” Simms sabia que Churchill usaria sua própria fraseologia.

O professor Toye disse que em termos de estrutura, as semelhanças entre esta passagem e a do discurso de Churchill – com a repetição de “Nós devemos” – era gritante. O discurso “Lutar contra eles nas praias” foi dado na Casa dos Comuns, disse o professor Toye.

“Ele nunca foi transmitido via rádio, apesar de ter sido relatado na BBC por um anunciador e citado na imprensa. Entretanto, as pessoas afirmam lembrar de ter ouvido este discurso famoso de junho de 1940, mesmo que eles não tenham ouvido. Ele foi gravado para a posteridade junto com outros de seus discursos de guerra nove anos depois.”        



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