quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

[SGM] A Segunda Guerra Mundial ainda é “A Boa Guerra”?

Adam Kirsh

NY Times, 27/05/2011

 
Em fevereiro, o último veterano americano sobrevivente da Primeira Guerra Mundial morreu. É difícil imaginar o dia quando diremos adeus ao último sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, de tão grande “a boa guerra” e “a grande geração” ainda ocupa a imaginação nacional. Mas o calendário e as estatísticas não mentem. Cerca de 16 milhões de americanos serviram nas forças armadas durante a Segunda Guerra. No sexagésimo aniversário do ataque a Pearl Harbor em 2001, cerca de 5,5 milhões ainda estavam vivos. Este ano, enquanto nos preparamos para relembrar o septuagésimo aniversário, o número está próximo do 1,5 milhão, e cai quase mil por dia.

A passagem do tempo não apenas transforma a vida em história; ela também muda os contornos da própria história. Nos últimos anos, historiadores, filósofos e outros começaram a repensar a Segunda Guerra de uma forma desafiadora e perturbadora, refletindo a crescente distância entre o país que lutou a guerra e o país que lembra dela. Como sempre, quando a história é debatida, os limites não são apenas o passado, mas o presente e futuro também. Mesmo que as longas guerras no Iraque e Afeganistão tenham tornado os americanos menos confiantes na forma como usamos nosso poder militar, a luta contra o Eixo permanece o exemplo clássico do poder americano colocado a serviço de objetivos virtuosos. O presidente Obama tinha esta história em mente quando explicou sua decisão de intervir na guerra civil líbia: “Deixar de lado a responsabilidade da América como líder e – mais profundamente – nossas responsabilidades com nossos irmãos humanos sob tais circunstâncias teriam sido uma traição de quem somos,” disse Obama. “Algumas nações podem ser capazes de fazer vista grossa às atrocidades em outros países. Os Estados Unidos da América são diferentes.” Mesmo hoje, a Segunda Guerra Mundial ajuda a subscrever nossa afirmação para esta diferença moral.

As estórias favoritas da Segunda Guerra Mundial sempre foram aquelas do heroísmo democrático de soldados comuns; este tipo de história popular nunca desapareceu e provavelmente jamais desaparecerá. O livro Inquebrável (2010) de Laura Hillenbrand, que permaneceu por meses próximo ao topo dos Best-sellers, conta a estória de Louis Zamperini, um ex-maratonista campeão convertido em piloto aéreo, cujo avião foi derrubado no Pacífico e que sobreviveu semanas à deriva numa balsa e passou por privações ainda maiores em um campo de prisioneiros japonês. Como o título sugere, Zamperini é o típico herói de guerra, por causa de sua grandeza em sua recusa em se entregar, não sua habilidade em quebrar os outros – uma parte do trabalho do soldado que é de longe menos aprazível de ler. Zamperini era piloto de um bombardeiro B-24, e na época em que ele estava sendo torturado pelos japoneses, outros pilotos, tão bons ou ruins quanto ele, realizavam a “Operação Gomorra” – as missões semanais sobre Hamburgo, Alemanha, que em julho de 1943 mataram cerca de 40.000 civis e destruíram virtualmente a cidade inteira. Podemos festejar estórias desse tipo, e outras parecidas com essa, em nossa memória da Segunda Guerra Mundial? E se o fizermos, podemos manter nosso orgulho da “boa guerra”?

Estas são perguntas a serem respondidas na nova onda das histórias da Segunda Guerra Mundial. Estes livros não são “revisionistas”, no sentido pejorativo: eles não sugerem uma equivalência moral entre o Eixo e os Aliados, ou minimizar os crimes nazistas, ou negar o Holocausto. Ao invés disso, eles são trabalhos intelectuais de historiadores profissionais, que estão menos interessados em reescrever os fatos da guerra do que reconsiderar suas implicações morais. Americanos que aprenderam sobre a guerra na Europa a partir de livros como Band of Brothers de Stephen Ambrose (1992), por exemplo, podem ser perdoados por achar que a derrota da Alemanha foi trabalho de soldados americanos durões. Assim, em Uma Vitória dura: a Segunda Guerra Mundial na Europa, 1939 – 1945, o historiador britânico Norman Davies começa da premissa que “o esforço de guerra das potências ocidentais” foi “um tipo de espetáculo secundário” A América perdeu 143.000 soldados na luta contra a Alemanha, Davies esclarece, enquanto que a União Soviética perdeu 11 milhões.

E se o principal espetáculo era a guerra entre Hitler e Stalin, ele pondera, não foi a Segunda Guerra Mundial um confronto entre tiranos quase equivalentes? “Alguém realmente comprometido com a liberdade, justiça e democracia é militante da condenação dos dois grandes regimes totalitários sem medo ou benevolência,” ele concluí. Como historiador da Polônia, Davies é especialmente informado sobre o que poucos americanos lembram: que a Segunda Guerra Mundial começou pela invasão conjunta nazi-soviética daquele país. Durante os dois primeiros anos da guerra, Hitler e Stalin eram aliados; o fato deles terem se voltado um contra o outro, quando Hitler invadiu a União Soviética em junho de 1941, não altera a equação moral. “Se olhamos dois bandidos lutando entre si, não existe validade moral nenhuma se aproximar de um deles para derrotar o outro. O único teste válido é se eles merecem ou não o título de bandidos.”

O livro deliberadamente provocativo de Davies teve uma recepção mista, em parte por causa de seu relato da guerra na Europa Oriental parecer minimizar a importância do Holocausto. Nenhuma objeção pode ser feita em relação ao livro moralmente escrupuloso Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Stalin (2010) de Timothy Snyder[1], que centraliza também a Europa Oriental – em particular a região compreendida entre os Bálcãs, Ucrânia, Bielorússia, Rússia Ocidental e Polônia que Snyder denomina “as terras de sangue”, pois elas foram o maior campo de massacres da Segunda Guerra Mundial. Este foi o local das batalhas titânicas entre a Wehrmacht e o Exército Vermelho: ele foi também o palco das 14 milhões de mortes de não-combatentes entre 1933 e 1945. Este número compreende 10 milhões de civis e prisioneiros de guerra mortos pelos nazistas – incluindo os seis milhões de judeus mortos no Holocausto – e quatro milhões de civis e prisioneiros de guerra mortos pelos soviéticos.

Ao agrupar as baixas alemãs e soviéticas juntas, Snyder está sugerindo uma questão implícita. A União Soviética era o aliado americano, a Alemanha nosso inimigo; mas ambos os regimes foram culpados de matar milhões de pessoas por motivos ideológicos. Não foram os três milhões de ucranianos levados à inanição por Stalin em 1932-33 vítimas deliberadas da agressão estatal e do terror ideológico não menos do que os três milhões de prisioneiros de guerra levados à inanição por Hitler em 1941-42? “Somente uma aceitação ousada das semelhanças entre os sistemas soviético e nazista permite uma compreensão de suas diferenças,” mantém Snyder.

Se Stalin permanece em nossa memória como um tirano igual a Hitler, Winston Churchill é possivelmente o estadista estrangeiro mais amado pelos americanos. Por esta simples razão, entretanto, Churchill tem sido assunto de algumas das mais apaixonadas tentativas de revisar nossa compreensão da Segunda Guerra Mundial. O subtexto desse debate, e talvez a principal razão para a sua veemência, tem a ver com o papel simbólico descomunal que Churchill chegou a ter nos debates de política externa norte-americanos após o 11 de setembro. Quando o presidente Bush aludiu à retórica da época de guerra de Churchill em seu discurso ao Congresso após os ataques, Norman Podhoretz escreveu em A Quarta Guerra Mundial (2007) que ele “inequivocamente e sem qualquer ambiguidade colocou a guerra contra a ‘rede terrorista global’ em direta sucessão à Segunda Guerra Mundial.” Foi amplamente divulgado que Bush mantinha um busto de Churchill no Salão Oval – e que Obama o removeu.

Não é de surpreender, então, que os historiadores começariam a ver Churchill, por bem ou por mal, através do prisma da política atual. O historiador conservador Paul Johnson, para pegar um exemplo, escreveu uma pequena biografia, Churchill (2009), cuja premissa é que “de todas as grandes figuras do século 20, tanto boas como más, Winston Churchill era a mais valiosa para a humanidade.” Simultaneamente, relatos altamente críticos de Churchill proliferaram: A Loucura de Churchill: Como Winston Churchill criou o Iraque moderno (2004), Sangue, Suor e Arrogância: e os Mitos da Guerra de Churchill (2006). Não-historiadores com suas agendas políticas também entraram em cena. O romancista Nicholson Baker escreveu um relato revisionista da Segunda Guerra Mundial, Fumaça Humana: O começo da Segunda Guerra Mundial, o fim da Civilização (2008), no qual Churchill torna-se tão responsável pela Segunda Guerra quanto Hitler. Enquanto isso, Pat Buchanan escreveu Churchill, Hitler e a Guerra Desnecessária: Como a Grã-Bretanha perdeu seu Império e o Ocidente perdeu o mundo (2008), culpando Churchill por conduzir a Grã-Bretanha numa guerra contra a Alemanha acima de tudo. Esta lição isolacionista foi direcionada, disse explicitamente Buchanan, ao “culto a Churchill” que convenceu Bush, “um presidente inculto”, que libertar o Iraque de Saddam Hussein era parecido como libertar a Europa de Hitler.

Em um período que viu historiadores como Niall Ferguson recomendar o Império Britânico como um modelo para o exercício do poder americano no exterior, a conexão entre o imperialismo de Churchill e seu preconceito racial tornou-se um grande problema. Isso foi abordado com mais veemência em O Império de Churchill (2010), de Richard Toye, que explorou de forma honesta as razões do “humanitarismo não significa numa crença em igualdade racial” de Churchill. Toye frequentemente escreve de forma admirada sobre Churchill, mas não deixa de se envergonhar com a feiura de alguns de seus pontos de vista – como a confissão de que “odeio pessoas com olhos puxados e tranças nos cabelos,” ou sua nostalgia pelas “pequenas guerras contra os povos bárbaros.”

Mais sério que as declarações racistas é a acusação feita a Churchill em um livro de Madhusree Mukerjee, A Guerra Secreta de Churchill: O Império Britânico e a Devastação da Índia durante a Segunda Guerra Mundial. Mukerjee coloca a responsabilidade pela epidemia de fome em Bengala em 1943, que resultou na morte de cerca de três milhões de pessoas, nas costas de Churchill. Ela aguça seu ponto fazendo analogias provocantes entre os ingleses e os nazistas. No auge da epidemia, ela escreve, alguns restaurantes populares em Bengala estavam oferecendo uma ração de apenas 400 calorias de arroz por dia, “no nível mais baixo da escala na qual, simultaneamente, os internos de Buchenwald eram alimentados.”

Críticos têm desafiado as conclusões de Mukerjee sobre a divisão de culpa pela fome entre os britânicos, a invasão japonesa, clima inclemente em Bengala e acumulação. Mas A Guerra Secreta de Churchill é convincente em um ponto fundamental. Churchill se recusou em desviar recursos alimentícios dos britânicos para os indianos porque, seguindo a lógica do imperialismo, ele dava um valor mais alto às vidas britânicas do que às indianas. O número de bengalenses que morreram em 1943 rivaliza com o número de ucranianos que, como Timothy Snyder mostra, foram deliberadamente mortos por inanição por Stalin em 1932-33. Isto significa que uma atrocidade comparável deve ser colocada contra a posição moral da Grã-Bretanha e seus aliados na Segunda Guerra Mundial?

Ou a maior atrocidade dos Aliados cometida foi contra a própria Europa? Os horrores dos bombardeios aéreos britânicos e americanos nas cidades alemãs nunca foram segredo; O Matadouro Cinco (1969) de Kurt Vonnegut, com sua evocação terrível do bombardeio de Dresden, permanece como um dos romances de guerra americanos mais populares. Mas os debates americanos sobre a moralidade do bombardeio tem tradicionalmente se centrado na bomba atômica, uma arma única que levanta questões únicas.

O que torna os novos textos sobre o bombardeamento da Alemanha especialmente significativos é que eles têm sido influenciados por aqueles que o vivenciaram. Em um ensaio brilhante, Guerra Aérea e Literatura, o romancista alemão W. G. Sebald se pergunta por que o bombardeio aliado – que matou meio milhão de civis e devastou a maioria das cidades alemãs – “parece ter deixado poucos traços de dor na consciência coletiva.” Uns poucos anos antes, como se fosse uma resposta, o historiador alemão Jörg Friedrich publicou O Incêndio: O Bombardeamento da Alemanha, 1940 – 1945. Friedrich descreve o tipo de cena que aconteceu nas ruas alemãs após os bombardeios: por exemplo, “um homem arrastando um saco com cinco ou seis protuberâncias nele como se estivesse carregando cabeças de repolho. Eram as cabeças dos membros de sua família, uma família inteira, que ele encontrou na adega.”

Friedrich foi acusado, na Alemanha e em outros lugares, de usar linguagem que implicitamente igualava o bombardeio aliado aos crimes de guerra nazistas. Mas sua conclusão sobre a lição da Segunda Guerra Mundial – “civis não mostram piedade a civis... a guerra total consome o povo totalmente, e seu senso de humanidade é a primeira coisa a ir embora” – desafia a memória anglo-americana da guerra em modos que são impossíveis de ignorar. Em Entre as Cidades Mortas: A História e o Legado Moral do Bombardeio de civis na Alemanha e Japão na Segunda Guerra Mundial (2006), o filósofo inglês A. C. Grayling estende o desafio, perguntando: “Deveríamos nós, descendentes dos Aliados que ganharam a vitória na Segunda Guerra Mundial, responder ao desafio moral dos descendentes dasquelas cidades que foram almejadas pelos bombardeiros aliados?”

Grayling está certo de que ele, como todos na Inglaterra e América (e na atual Alemanha também), lembra a Segunda Guerra Mundial como “apenas uma guerra entre inimigos moralmente criminosos.” Mesmo assim, ele concluí que a prática do bombardeio de área – no qual o Comando de Bombardeiros da Força Aérea Real, em particular, bombardeou indiscriminadamente áreas urbanas na esperança de infligir danos morais e econômicos à Alemanha – foi “um crime moral”: “Qual é a diferença moral entre bombardear mulheres e crianças e atirar nelas com uma pistola?... O anonimato do ato de matar a uma altitude de 20.000 pés?” No final, Grayling é carregado pela força de seu próprio argumento em direção de um veredito ultrajante: “Assim, vemos que existe pouca diferença entre a Operação Gomorra da RAF, ou os ataques atômicos da Força Aérea americana a Hiroshima e Nagasaki, e a destruição do World Trade Center em Nova York pelos terroristas... Todos estes ataques terroristas são atrocidades.”

Os Aliados como a Al-Qaeda: está é a conclusão para a qual uma reavaliação da Segunda Guerra Mundial deve nos levar? Se for assim, não admira que alguns historiadores estejam impacientes com o novo projeto. O título do historiador inglês Michael Burleigh Combate Moral: Bem e Mal na Segunda Guerra Mundial, que foi publicado mês passado, resume sua resposta aos descrentes: sim, foi realmente uma combate moral. Em sua introdução, Burleigh tenta garantir que havia ambiguidades morais envolvidas, mesmo dizendo que ele não tenta “desculpar os crimes de guerra aliados.” Mesmo assim, quando ele discute o bombardeio aliado, é sob o cabeçalho do capítulo “Os raios do Rei são justos” – o lema do 44º. Esquadrão de Bombardeiros da RAF. E enquanto Burleigh tem consciência de que Arthur Harris, o chefe do Comando de Bombardeiros, era “obcecado por devastar as cidades alemãs,” ele fica mais irritado com aqueles que julgam Harris após o ocorrido. Visando Grayling, talvez, Burleigh fulmina, “Guerras não são conduzidas de acordo com deliberações dissecadas de um seminário filosófico repleto de velhas senhoras.”

Isto é bruto e mal-humorado, mas o impulso defensivo de Burleigh é compreensível. Se perdermos nossa habilidade de sentirmos orgulho da vitória sobre Hitler, ficaremos privados de um de nossos nortes morais mais garantidos. Mesmo assim, o patriotismo, sacrifício e bravura que lemos em um livro como Band of Brothers não podem ser anulados pelo conhecimento da guerra na qual eles apareceram. De fato, o melhor das novas histórias da Segunda Guerra Mundial pode ser encarado como uma tentativa de nos dar, em 2011, um senso mais completo e autêntico do que realmente foi a guerra para aqueles que a lutaram.


Nota:

[1] Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Stalin


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domingo, 26 de janeiro de 2014

[SGM] O Holocausto esquecido de Winston Churchill

Chandak Sengoopta

The Independent, 03/09/2010

 
“Não me tornei o Primeiro Ministro do Rei para comandar o fim do Império Britânico,” declarou pomposamente Winston Churchill em 1942. A paixão pelo império não se refletiu, contudo, na missão de proteger as vidas dos súditos distantes do Rei, especialmente os indianos, “um povo bestial com uma religião bestial.” Em 1943, enquanto milhões estavam morrendo de fome em Bengala, Churchill não somente se recusou a ajudar mas preveniu outros de fazê-lo, comentando que os indianos “se reproduzem feito coelhos.” Os defensores de Churchill, mais interessados na dentadura do grande estadista do que em seus crimes de guerra, têm feito de tudo para manter essa estória estarrecedora em total silêncio.

As narrativas populares da Segunda Guerra Mundial publicadas na Europa e na América do Norte tendem a focar nas aventuras heroicas das nações aliadas enquanto elas lutavam contra a ameaça do fascismo. Todos os anos, editoras lançam dezenas de livros sobre a Batalha da Inglaterra, El-Alamein, Dia-D, Iwo Jima e outros episódios militares dramáticos da guerra. As narrativas centradas em batalhas tendem a diminuir, ou mesmo apagar, os efeitos duradouros da guerra já que são vistos como acontecendo longe dos principais teatros de conflito, especialmente nas colônias.

Muito tem sido escrito sobre a fome em Bengala na Índia e América, mas a maioria se concentra em fatores locais. A Guerra Secreta de Churchill, de Madhusree Mukerjee, direciona o desastre em seu contexto imperial, mostrando como a estória da fome está conectada com a história do movimento “Libertem a Índia” de Gandhi e com as atitudes e prioridades de Churchill e seu gabinete de guerra. Ele mostra como Churchill e seus associados poderiam ter facilmente impedido a fome com poucos envios de grãos, mas se recusou, apesar dos apelos repetidos de dois vice-reis sucessivos, do próprio Secretário de Estado de Churchill para a Índia e mesmo do presidente dos Estados Unidos.

Epidemias de fome, que nunca foram vistas na Índia, tornaram-se gradativamente letais durante o Raj[1] por causa da exportação de grãos e a substituição de safras de alimentos por índigo ou juta. A Segunda Guerra tornou as coisas piores, especialmente após as forças japonesas ocuparem a Birmânia em 1942, cortando as importações indianas de arroz. Então, um ciclone destrutivo atingiu a costa de Bengala justamente quando as colheitas de inverno cruciais estavam amadurecendo e o arroz remanescente foi destruído por doença. Funcionáris do Raj, temendo uma invasão japonesa, confiscaram tudo que poderia ajudar a força invasora – barcos, mapas, veículos motorizados, elefantes e, mais crucial, todo arroz disponível. Os japoneses nunca invadiram, mas um público em pânico – e muitos empresários – imediatamente começou a estocar arroz e a comida popular desapareceu dos mercados.

Os estoques estatais foram liberados, mas somente para o povo de Calcutá, especialmente empresários britânicos e seus empregados, trabalhadores de ferrovias e portos e funcionários do governo. Lojas controladas foram abertas para cidadãos menos importantes de modo que a população urbana de Calcutá não sofreu muito. As massas rurais, contudo, foram deixadas às moscas. Isto aconteceu quando Churchill poderia ter feito a diferença ao enviar trigo ou arroz para Bengala, e não seria preciso grandes quantidades. O objetivo seria acumular produtos pouco lucrativos e, como o vice-rei Lorde Linlithgow percebeu, “o mero conhecimento das importações iminentes” teria baixado o preço do arroz.

Churchill e seu gabinete de guerra, entretanto, decidiram reservar o embarque reserva disponível para levar comida à Itália no caso dela cair nas mãos aliadas. O nacionalista indiano Shbhas Chandra Bose, então lutando ao lado das forças do Eixo, ofereceu enviar arroz da Burma, mas os censores britânicos sequer cogitaram relatar essa oferta. A Austrália e o Canadá estavam ansiosos para enviar trigo, mas virtualmente todos os navios mercantes localizados no Oceano Índico moveram-se para o Atlântico no sentido de levar comida para a Grã-Bretanha, que já possuía uma situação confortável de estoques.

Assim, centenas de milhares morreram nas vilas de Bengala e, em meados de 1943, hordas de pessoas famintas fluíam para Calcutá, a maioria morrendo nas ruas, frequentemente em frente às lojas ou restaurantes servindo refeições saborosas. O clima da metrópole, um jornalista notou, estava cheio daquele “odor ácido característico que as vítimas exalam quando estão próximas do fim.”

Em Londres, o conselheiro adorado de Churchill, o naturalista Frederick Alexander Lindemann (Lorde Cherwell) era impassível. Um crente convicto da teoria malthusiana da população, ele culpava a alta taxa de nascimento indiana pela fome – enviar mais comida pioraria a situação ao encorajar os indianos a se reproduzir mais. O Primeiro Ministro compartilhava da mesma opinião e a expressou de forma tão doce que Leo Amery, Secretário de Estado para a Índia, explodiu de raiva, comparando sua atitude à de Hitler.

Os simpatizantes de Churchill sempre negaram que seu ídolo tivesse tido condições de aliviar a fome em Bengala. O embarque, eles afirmam, era raro e não era possível enviar comida para Bengala. Mukerjee detona esta “inexatidão terminológica” com precisão. Havia possibilidade de embarque no verão e outono de 1943, graças à transferência de navios cargueiros americanos para o controle britânico. Churchill, Lindemann e seus associados próximos simplesmente não consideraram as vidas indianas dignas de serem salvas.

Mukerjee pesquisou este holocausto esquecido com grande cuidado e rigor forense. Pesquisando uma grande variedade de fontes, ela não somente lança luz sobre a responsabilidade imperial na questão da fome, mas em uma série de assuntos relacionados, tais como o florescimento do nacionalismo nos distritos atingidos pela fome, a fúria de Churchill sobre o crédito financeiro que a Índia estava conseguindo em Londres ou a situação terrível nas vilas mesmo após a epidemia de fome estar tecnicamente encerrada. Seu relato emocionante da brutalidade imperial envergonhará os admiradores do Maior dos Bretões e assustar todos os outros.   

Nota do tradutor: estima-se o número de vítimas entre 1,4 e 4 milhões de pessoas.


Nota:

[1] período de dominação britânico, 1858 – 1947

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sábado, 25 de janeiro de 2014

[POL] Cartas de Himmler desaparecidas são reveladas

Die Welt, 24/01/2014

 
Heinrich Himmler foi um dos mais poderosos líderes nazistas dentro do círculo íntimo de Adolf Hitler. Ele foi o organizador cruel do Holocausto, chefe da Waffen-SS, Gestapo e da polícia – responsável pelos campos de concentração e pela morte de milhões de pessoas. Os documentos privados de Himmler estiveram perdidos por décadas. Somente agora, centenas de cartas particulares, notas e fotos da coleção particular do homem que teve o papel decisivo no extermínio em massa dos judeus foram reveladas.

O Die Welt obteve cópias dos documentos previamente desconhecidos que foram guardados na casa de um judeu israelense por um longo tempo. Eventualmente, elas foram parar em um arquivo particular e agora estão guardadas em um cofre de banco em Tel Aviv. Além das cartas que Himmler escreveu para sua esposa Margarethe (Marga) de 1927 até cinco semanas antes de seu suicídio em 1945, há muitas fotografias previamente desconhecidas, o espólio do filho adotivo de Himmler e outros documentos, tais como livro de receitas.

De acordo com a avaliação de especialistas do Arquivo Federal Alemão (Bundesarchiv) há evidência concreta de que os documentos são autênticos. O presidente Michel Hollmann disse ao Die Welt: “Estamos certos sobre estes documentos.” Na opinião da instituição mais importante do mundo que estuda o legado escrito do Terceiro Reich, ela diz: “Não há razão para duvidar da autenticidade dos documentos em Tel Aviv.”

Existe prova conclusiva que rastreia o material até suas origens. As cartas são frequentemente assinadas como “Dein Heini” (seu Heini) ou “Euer Pappi” (seu papai) e a caligrafia bate perfeitamente com documentos conhecidos de Himmler. Suas cartas também complementam exatamente as cartas de sua esposa, que estão mantidas no Arquivo Federal alemão por muitos anos.

O historiador e especialista em nazismo berlinense Michael Wildt descreve o achado como “um corpo denso de documentos privados. Não há nada como isso por parte de outros membros da liderança nazista.” Adolf Hitler e seu vice oficial Hermann Göring não deixaram virtualmente nenhum registro pessoal. O ministro da propaganda Joseph Goebbels, o quarto no escalão, deixou um inventário volumosos de diários manuscritos e ordens diárias. Mas eles são quase, sem exceção, material para propaganda futura e não realmente documentos íntimos.

As centenas de páginas da correspondência particular entre Heinrich Himmler e Marga parecem ser somente mundanas à primeira vista. Especialmente nos primeiros anos de sua relação, quando Himmler ainda não fazia parte do alto escalão nazista, eles escreveram muitas cartas de amor aparentemente comuns. Mas de vez em quando apareciam sinais do imenso antissemitismo de Himmler e de sua obcessão nestas primeiras cartas dos anos de 1927 e1928. Os documentos não mudam a imagem conhecida do reino do terror nazista, mas elas certamente acrescentam inúmeros detalhes desconhecidos e ajudam a dar uma ideia melhor de que tipo de pessoa era o líder da SS, sua vida diária e seu círculo de amigos.

Himmler nasceu em outubro de 1900, como o filho do meio de um professor secundário bávaro. Como soldado, Himmler tentou desesperadamente servir na frente de batalha da Primeira Guerra Mundial. Ele nunca conseguiu isso e compensou a “oportunidade perdida” com um comprometimento radical com os círculos nacionalistas bávaros: ele se filiou ao partido nazista como membro número 42.404. Durante o golpe do salão da cervejaria em novembro de 1923[1], Himmler serviu como guarda em um obstáculo colocado em frente ao Ministério da Guerra bávaro em Munique. Após a tentativa de golpe falhar, o agrônomo começou a divulgar suas ideias nacionalistas por meio de um alto-falante. Após o restabelecimento do partido nazista e de suas subdivisões no começo de 1925, ele tornou-se membro do ramo paramilitar do NSDAP (SA) mas logo mudou-se para a menor SS, a organização paramilitar de segurança. Ele se filiou com o número 168.

Como funcionário integral mal pago, Himmler encontrou a enfermeira divorciada Margarete Siegroth, que comandava um pequeno asilo em Berlim. Através de suas cartas para Marga, é possível pela primeira vez compreender como sua relação se desenvolveu até eventualmente eles se casarem em 3 de julho de 1928. A correspondência contém muitos detalhes desconhecidos sobre a ascensão de Himmler como funcionário e porta-voz nazista, assim como sua indicação de vice-chefe da SS em 1927 a Reichsführer SS (comandante supremo) em 1929.

Há grandes lacunas na correspondência nos anos 1930 e o destino destes documentos é desconhecido. Entretanto, o diário de Marga lança uma luz sobre a vida privada nada glamorosa  da família Himmler. Himmler manteve praticamente sua família fora dos holofotes públicos. Isto é um contrate com Hermmann Göring, que casou com a atriz Emmy Sonnemann em 1935 com grande pompa e Joseph Goebbels, cuja esposa Magda era a “Primeira Dama” da Alemanha de Hitler.

 
As cartas também mostram o casal se distanciando. De 1938 em diante, o líder da SS teve um caso com sua secretária particular. Contrariamente à crença dos biógrafos de Himmler, as cartas mostram claramente que o Reichsführer SS manteve contato próximo com sua esposa e filha de 1941 a 1945.

À medida em que ficou claro que o Terceiro Reich sofreria uma derrota desastrosa na Segunda Guerra Mundial, Himmler ainda manteve firme sua crença numa “vitória final” contra adversários superiores. Ele acreditava nisso mesmo quando tentava garantir sua sobrevivência entrando em contato confidencialmente com os Aliados ocidentais.

Mas isso nunca aconteceu: Himmler fugiu pouco antes da rendição, arrumou um nome falso e tornou-se prisioneiro de guerra em 20 de maio de 1945, como um soldado regular. Ele se revelou e cometeu suicídio três dias depois com uma cápsula de veneno enquanto era revistado em busca de pílulas de suicídio. Neste momento, os soldados americanos ocupando a casa da família Himmler em Gmund am Tegemsee já tinham confiscado seus documentos particulares. Quase sete décadas depois grande parte daquele material está agora acessível ao público pela primeira vez.


Nota:

[1] As Origens do NSDAP e o Golpe no Salão da Cervejaria   


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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A nova natureza da guerra

Estadão, 19 de janeiro de 2014

 


As mudanças na natureza da guerra moldam profundamente tanto a maneira como o Estado é organizado quanto as leis. Um exemplo disso é como a adoção da pólvora no campo de batalha e o surgimento de pequenos exércitos permanentes ajudaram a produzir as monarquias absolutistas dos séculos 16 e 17. O recrutamento em larga escala pelos Exércitos revolucionários de Napoleão, por sua vez, ajudou a explicar o começo do fim dessas monarquias. A necessidade de construir e sustentar forças cada vez maiores levou também à criação dos aparatos do Estado moderno, como censo, tributação universal e educação básica.

Estamos num outro ponto de inflexão importante, no qual a tecnologia está reformulando a maneira como as guerras são travadas. O futuro da guerra será moldado pelo papel de aviões não tripulados cada vez menores, robôs no campo de batalha, capacidade de guerra cibernética, capacidades extraordinárias de vigilância tanto no campo de batalha quanto de indivíduos particulares, maior dependência de forças especiais em conflitos não convencionais, a militarização do espaço e o avanço tecnológico no campo da biotecnologia - que tem implicações importantes para a construção de armas de destruição em massa.

Cientistas já podem fabricar organismos vivos, incluindo novos vírus. Essas inovações são úteis para cientistas, mas também, potencialmente, para terroristas e Estados inescrupulosos.

No caso dos drones, eles permitem assassinar indivíduos a grande distância por controle remoto e estão se proliferando de maneiras inesperadas. O breve monopólio que EUA, Grã-Bretanha e Israel detiveram já se evaporou. A China surpreendeu os EUA em 2010 quando anunciou 25 modelos de drones numa feira aeronáutica, alguns deles capacitados a disparar mísseis. No ano passado, os chineses anunciaram que haviam planejado assassinar um notório chefão da droga que estava escondido numa área remota de Mianmar com um drone armado, mas acabaram optando pela sua captura.

Do mesmo modo como o governo americano justifica os ataques com drones no Paquistão e no Iêmen, com o argumento de que estão em guerra com organizações terroristas como a Al-Qaeda, pode-se imaginar a China atacando separatistas uigures, chineses exilados no Afeganistão, sob o mesmo pretexto. O Irã - que alega possuir drones armados - poderia atacar nacionalistas baluchi ao longo de sua fronteira com o Paquistão.

Ainda assim, o Pentágono, com sua característica mentalidade de curto prazo e com enfoque excessivo na "prontidão" e não suficiente na "prevenção", parece recuar de uma adoção plena dos drones, cortando gastos neles apesar de continuar dedicando bilhões de dólares a aviões de guerra tripulados.

Já o "cerco cibernético" é uma técnica em potencial no novo mundo da guerra, como determina Sascha Meinrath, da New America Foundation. Atualmente, concebemos a maioria dos ataques de hackers como oportunistas, significando que eles se concentram nos alvos mais desprotegidos. Entretanto, Meinrath prevê que um inimigo que elimine funcionalidades básicas de nossos sistemas de computadores pode prejudicar nossa sociedade, cada vez mais dependente da tecnologia, e isso conduziria então a um ciberataque mais invasivo e de longo alcance.

A fabricação científica de vida, a proliferação de drones e a crescente oportunidade de cercos cibernéticos são apenas a ponta do iceberg. A evolução de tecnologias de vigilância, de armas espaciais e de sistemas não tripulados autônomos de todos os tipos também está transformando a guerra.

Novas tecnologias também democratizaram a violência, permitindo que atores não estatais usem e ameacem usar força letal numa escala anteriormente associada somente a Estados. Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 abalaram o pressuposto confortável de que os EUA só teriam de enfrentar adversários convencionais. Desde o 11 de Setembro, os EUA lutaram em conflitos de vários tipos contra uma variedade de redes como a Al-Qaeda e seus aliados no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão, na Somália e no Iêmen.

Tomadas em conjunto, as mudanças recentes tanto nos equipamentos tecnológicos da guerra como nos inimigos apagaram as fronteiras entre o que consideramos tradicionalmente como "guerra" e "paz", militar e civil, estrangeiro e doméstico, nacional e internacional.

Essas alterações borraram as linhas entre a lei militar e a legislação penal, fazendo os EUA entrarem em conflito sobre a forma ideal de processar membros da Al-Qaeda que são parte de uma organização criminosa que, ao mesmo tempo, está em guerra contra os EUA e seus aliados.

Borraram as linhas entre papéis militares e civis, como o fornecimento de ajuda e desenvolvimento. Considere o caso dos membros das equipes de reconstrução provincial em zonas de guerra como o Afeganistão, onde eles são basicamente assistentes sociais armados.

Borraram as linhas entre público e privado. Empreiteiros privados agora lidam com um número considerável de funções militares que anteriormente seriam de funcionários públicos. Isso suscita questões legais e contábeis espinhosas. Por exemplo, um funci0nário terceirizado envolvido no programa de drones da CIA pode ser acusado de assassinato se um civil for morto num ataque com esse avião?

Borraram as linhas entre os militares e a comunidade de inteligência. Quase não se comenta mais que a CIA virou uma espécie de organização paramilitar que, por estimativas conservadoras, matou cerca de 3 mil pessoas com ataques de drones no Paquistão e no Iêmen apenas durante o governo do presidente Barack Obama.

Borraram as linhas entre interno e externo. A agência de espionagem mais bem financiada do Pentágono, a NSA, foi montada para conter as ameaças de uma União Soviética com armas nucleares.

Essas mudanças corroeram conceitos tradicionais de soberania. Com cada vez mais Estados desenvolvendo tecnologias que lhes permitem "chegar ao interior" de outros Estados com um risco pequeno (seja usando tecnologias de drones, sistemas de vigilância ou ferramentas cibernéticas), a natureza e significado de soberania está mudando.

Como observou o historiador Charles Tilly: "A guerra fez o Estado, e o Estado fez a guerra". Se a guerra está mudando, o Estado mudará e também as organizações não estatais que desafiam cada vez mais esses Estados e as organizações internacionais que buscam canalizar o comportamento do Estado. Como evoluirão essas mudanças é difícil de prever, mas elas provavelmente serão tão profundas quanto a transformação do mundo pré-Vestfaliano no mundo moderno de Estados-nação.

sábado, 18 de janeiro de 2014

[SGM] Dormindo com o Inimigo

Daily Mail, 17/07/2008


Paris no mês de maio estava repleta de exuberância afrodisíaca.

As garotas desfilavam pelas avenidas com suas saias curtas e estampadas, seus cabelos fluindo vigorosamente para trás.

No rádio, o cantor Tino Rossi – a versão francesa de Rodolfo Valentino – apresentava seu último sucesso romântico.

Porém, poucas semanas depois, em 14 de junho de 1940, o exército alemão marchou sobre a capital e a ocupou por quatro anos.

A França jamais esqueceu essa humilhação – ou seu espanto – em ter que se ajustar a uma vida íntima com seu velho inimigo, com todo o ressentimento, culpa e, o pior de tudo, os segredos.

Todos ficaram surpresos que os altos e loiros invasores não partiram para a violência sexual contra a população. Ao invés disso, eles trouxeram pão e tortas.

Além disso, eles eram mais simpáticos e bravos do que os soldados franceses beberrões que se renderam durante o combate.

Logo, toda criança francesa queria ser alemã, enquanto que toda garota francesa procurava os invasores, vistos como aliados e não inimigos, oferecendo-lhes laranjas e observando o interior luxuoso de suas limusines.

E as donas de casa francesas, privadas de companhia enquanto seus maridos soldados eram mantidos prisioneiros, ficavam felizes em dormir com o inimigo.

Os franceses por muito tempo tentaram esconder estes aspectos da ocupação, afirmando que atos heroicos de resistência durante o período foram realizados quando, na verdade, eles não eram mais do que colaboradores.

Agora, com uma coragem incomum, Patrick Buisson, diretor do Canal de História da França, TF1, escreveu um livro, cujo título excitante - 1940 – 1945: Os Anos Eróticos – mostra a extensão na qual seus queridos compatriotas na verdade apreciaram sua experiência de guerra.

A revelação vem numa época em que Paris está sendo questionada por causa de uma série de memórias perturbadoras da era.

Uma exibição de fotografias em exibição na Biblioteca de História da cidade apresenta os parisienses como apreciando imensamente a vida durante a ocupação – e algumas pessoas ficaram distintamente irritadas.

De fato, o vice-prefeito de Paris disse que ele preferia ficar doente a ter que ver fotos de cidadãos bem vestidos fazendo compras em um mercado repleto de frutas e vegetais, confrontando com a imagem que a França vende de que os anos de guerra foram difíceis.

Uma fotografia mostra apostadores se reunindo em clubes noturnos. Outras mostram mulheres vestindo maiôs brincando à beira de piscinas, ou usando chapéus elegantes em pistas de corridas.

Tudo dá a impressão de que, longe se ser uma época de fome, medo e resistência, a vida durante a guerra era uma grande festa.

E, apesar de uma foto mostrar dois judeus vestindo a obrigatória Estrela de David amarela, tornada obrigatória pelo governo de Vichy em 1941, não existe consciência de que os franceses enviaram 76.000 judeus para a morte enquanto seus compatriotas estavam se divertindo.

O exemplo para este comportamento, de acordo com o livro de Buisson, veio do alto.

O idoso Marechal Petain, que comandava o governo de Vichy, foi preso por colaboração após a guerra, mas ele foi autorizado a dar à sua libido de 84 anos controle total, vergonhosamente seduzindo sua equipe mais jovem, enquanto recomendava o lema “trabalho, família, país” para o resto da nação.

Buisson afirma que as esposas deixadas para trás na Paris ocupada tiveram uma atitude semelhante.

Elas não se cansavam dos bárbaros nórdicos, e muitos fatores conspiraram para ajudá-las.

Primeiro, havia um toque de recolher entre as 23:00 e as 05:00, obrigando todo mundo a ficar em casa.

Além disso, Paris foi imediatamente mergulhada no verão alemão, que – junto com o blecaute e o racionamento da energia elétrica – garantiu que ela ficava no escuro duas horas antes do que o usual.

Então houve o rigor particular do primeiro inverno após a ocupação, quando a cama era o melhor lugar para ficar.

Mas foi mais complicado que isto. As duas nações usaram o sexo tanto como arma de guerra quanto meio de sobrevivência.

Na Renânia, prisioneiros franceses apreciavam casos com garotas locais como uma forma de vingança, enquanto que em casa suas esposas e namoradas faziam amizade íntima com oficiais alemães, ou com qualquer um que pudesse dar-lhes suprimento de comida, calor e roupas quando havia escassez.

De acordo com Buisson, jovens garotas francesas casamenteiras provavelmente sucumbiriam à tentação de se envolver com seus chefes, vizinhos ou mesmo o verdureiro se elas lhes devessem dinheiro e se tornassem adeptas da fuga dos olhos vigilantes de suas madrastas ou qualquer outro bisbilhoteiro de seus prazeres ilícitos na comunidade.

Muitos destes ocorriam nas salas de cinema. Durante os quatro anos de ocupação, o país inteiro estava indo ao cinema pelo menos uma vez por semana em números surpreendentes, deixando as crianças por sua própria conta em casa.

Logo, o número de espectadores estava atingindo novos recordes – 224 milhões de ingressos foram vendidos em 1941, atingindo 310 milhões em 1943 enquanto os franceses se agarravam ao escapismo, a tepidez e as aventuras eróticas que o cinema oferecia.

Era muito mais barato que um quarto de hotel e mais privado que em casa. Mesmo o metrô oferecia uma oportunidade para o sexo durante o blecaute. Não é de surpreender que estes foram chamados “os anos sombrios”.

Naturalmente, houve consequências inevitáveis. Enquanto a taxa de nascimento caiu durante os dias sombrios da Blitz, a taxa de nascimento francesa elevou-se após a chegada dos alemães, apesar do fato de que mais de dois milhões de homens franceses estivessem presos em campos de prisioneiros de guerra.

Até 30% dos nascimentos eram ilegítimos em algumas partes de Paris. Isto deu às autoridades francesas uma dor de cabeça particular. Por um longo tempo, eles lamentaram que a França estava subpovoada; agora, eles não sabiam se ficavam alegres ou deploravam cada novo parto.

E não somente houve um aumento robusto nos nascimentos, mas também nos abortos ilegais – em 1941, quase 20% de corpos femininos chegaram ao necrotério criminal em Paris em virtude de intervenções ilegais.

A análise de Buisson da vida sexual ativa de seus compatriotas enquanto a Europa estava em combate dificilmente emociona seus leitores franceses, mas seu academicismo de 500 páginas está repleto de evidência comprobatória.

Paris mudou assim que os alemães chegaram e plantaram em todos os velhos pontos conhecidos, incluindo hotéis luxuosos como o Crillon e o Ritz, a bandeira nazista.

As primeiras pessoas a tirar vantagem dos recém-chegados foram as prostitutas. Logo, mesmo a intelectual Simone de Beauvior não podia ignorar sua presença em locais previamente sobrevalorizados no intelectual La Rive Gauche (n. do t.: margem sul do rio Sena).

Mesmo assim, nem todas as mulheres oferecidas eram prostitutas antes da guerra. Algumas eram respeitáveis donas de casa e mães, e afirmavam que elas estavam se prostituindo apenas para comer.

Para os alemães, este comportamento só podia ser esperado. Em sua imaginação popular, a França era imoral, libertina e devassa – e no final de seu primeiro verão em Paris, eles estavam certos de tal reputação.

Os recém-chegados trouxeram seu formidável talento para a organização, incluindo as avaliações médicas e o tratamento compulsório para doenças venéreas nos mais famosos bordéis da cidade, incluindo o favorito de Eduardo VII (n. do t.: rei da Inglaterra, 1901 – 1910), o Le Chabanais, próximo do Louvre.

Enquanto isso, seus oficiais frequentavam entusiasticamente os clubes noturnos e cabarés mais famosos, enquanto os nativos reagiam frequentando salões de dança ilegais que se espalharam em garagens e atrás dos bares.

Uma das primeiras coisas que os franceses aprenderam dos alemães foi o culto à juventude e ao corpo.

Seu símbolo mais conhecido para isto era o tenista e campeão de Wimbledon Jean Borota (sempre lembrado neste lado do Canal como “o Basco limitado”).

Ele foi recrutado para uma campanha publicitária estimulando a nação francesa a vestir roupas esportivas e fazer os bons exercícios alemães – natação, corrida e salto – de modo que os educadores tradicionais começaram a reclamara de que as escolas francesas estavam abandonando seus padrões intelectuais em favor da força física.

Podemos pensar que um país sob o domínio da força teria reagido contra ao excesso de veneração ao herói da mente masculina, mas os franceses foram surpreendentemente arrastados para os atributos masculinos, enquanto embarcavam em uma viagem pela busca de sua alma, perguntando-se se um homem derrotado poderia ainda ser um homem.

Seu exército havia desistido de lutar, mas o país estava cheio de movimentos juvenis tentando imitar as características da Juventude Hitlerista.

Por outro lado, as mulheres não tinham tais crises de identidade. Intoxicadas entre as guerras pela cultura americana, elas fumavam, vestiam desafiadoramente saias curtas e acreditavam na libertação da mulher.

Com outra guerra, elas ficaram na delas, usando toda sua inventividade para apresentarem-se glamorosamente ao mundo, mesmo quando as roupas finas estavam racionadas.

“As mulheres francesas nunca vestiram tão pouco quanto elas fizeram nos anos da guerra, e elas nunca estiveram tão lindas,” observou um comentarista.

Logo, com seus homens longe, elas também invadiram os guarda-roupas masculinos, vestindo as calças de seus maridos, dando a si mesmas poderes para viver como homens e de forma bem sucedida derrubando os decretos da Igreja Católica Romana e do governo contra modismos masculinos – e liberaram o comportamento que vinha com isso.

Os jovens também, privados em muitas famílias da mão firme da orientação paterna, aproveitaram a oportunidade para quebrar as regras – e aparentemente não havia nada que pudesse ser feito.

Um pai que castigou suas duas filhas por terem dormido fora de casa no sul da França foi condenado por um juiz pela sua atitude excessiva e ordenou que ele pagasse uma fiança elevada. Mesmo as autoridades, isso parece, não podiam esperar para se libertar delas.

Entre os rebeldes mais espetaculares estavam os “zazous”, os jovens boêmios unisex.

Distintos pelo seu senso de moda extravagante, que consistia em casacos de pelúcia para os homens, usados ​​com sapatos de sola grossa e cabelo comprido oleoso, e saias curtas e meias listradas para as mulheres, acompanhadas de grandes óculos de sol, cabelo loiro tingido e batom vermelho, eles foram inspirados pelo jazz e pela música swing dos EUA, que muitas pessoas ainda achavam decadente.    

O “zazous” emprestou seu nome e senso de moda do estilo de roupa do músico afro-americano Cab Calloway (n. do t.: traje com ombros largos, paletó muito comprido, calças amplas, mas muito estreitas embaixo) e sua famosa canção Zah Zuh Zah. Eles assombravam as avenidas e cafés de St. Germain, vivendo um estilo de vida hedonista que desapareceu da história.

O campeão do movimento era o cantor Charles Trenet, que mais tarde compôs o sucesso Beyond the Sea, eternizado na voz de Bobby Darin (1936 – 1973).

Gay numa época quando os homossexuais eram agressivamente perseguidos pelos nazistas – embora a prática tenha se tornado conhecida na França como “o vício alemão” por aqueles que viam a invasão como uma metáfora para penetração sexual – ele escondeu suas preferências casando-se com a herdeira americana do tabaco Doris Duke, entre outras.

Muitas outras personalidades gays protegiam-se por meios mais duvidosos. O escritor ganhador do Prêmio Nobel Andre Gide, que havia sido apresentado ao homossexualismo por Oscar Wilde, não se incomodava em esconder sua orientação sexual.

Ao invés disso, ele viveu no sul da França, bem longe do avanço da Wehrmacht, afirmando abertamente que estava encantado por Hitler.

Ele achava que o Führer terminaria como líder da Europa, trazendo grande progresso e que a única falha de sua política – sua atitude em relação aos judeus – era perdoável.

Ironicamente, muitos dos cineastas e artistas que atravessaram a tênue linha entre a colaboração e a resistência são os nomes que o mundo agora se lembra.

Enquanto os outros estavam lutando, a França estava trilhando um caminho alternativo, que seria retomado após a guerra em Nova York e Londres – especialmente quando as novas ideias foram tornadas respeitáveis pelos filósofos Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre, que tornaram digno o modo de vida “vale tudo” como o novo credo definitivo: existencialismo.

Como o próprio Sartre disse após ele ser libertado de um campo de prisioneiros por motivos de saúde, ele nunca se sentiu tão livre quanto nos anos de guerra, enquanto que de Beauvoir considerou o sexo como uma obrigação positiva que ajudava as pessoas a se sentirem vivas quando todo o mundo ao redor estava se destruindo. Isto, de fato, foi o início da época moderna.


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