segunda-feira, 3 de março de 2014

“Contra sua Vontade” olha para as crianças usadas em testes nos EUA


Pergunta: Indique um internato público onde as crianças foram usadas em experimentos médicos por um período de mais de 20 anos, no qual elas foram alimentadas sem saber com uma dieta contaminada por isótopos radioativos, sujeitas a retiradas regulares de sangue e colocadas em confinamento solitário se elas se recusassem a colaborar.

Resposta: A Escola pública Walter E. Fernald  em Waltham em meados do século XX.

Infelizmente, como  Allen Hornblum, Judith Newman, e Gregory Dober descrevem dolorosamente em seu novo livro, Contra sua vontade: A História Secreta do Uso Científico de Crianças na América da Guerra Fria, Fernald não era a única instituição no país, ou mesmo no Estado, onde crianças eram alistadas em alguns experimentos médicos fatais. Estes eram conduzidos por médicos e cientistas ambiciosos cuja crença no que eles estavam tentando atingir frequentemente os cegava para as consequências potencialmente terríveis de suas ações.

Até o final do século XX, os médicos experimentavam rotineiramente nos chamados retardados, imbecis e débeis mentais dos orfanatos e hospitais da América para testar vacinas e procedimentos. Internados em locais como a Escola de Massachusetts para a Juventude Retardada e Débil Mental, os “geneticamente incapazes” tornaram-se prontamente cobaias para pesquisadores do MIT, Harvard e outras universidades.

Contra sua Vontade é um trabalho extraordinário, um apelo à ética humanista na ciência e na medicina contra a conveniência política e econômica. Ele nos leva a lugares ainda mais sombrios descritos no livro anterior de Hornblum, já que ele examina a longa história de experimentos antiéticos feito em crianças na América. Hornblum e seus coautores investigam as práticas hediondas de usar crianças, mesmo bebês e mulheres grávidas, como cobaias, seguindo a ideologia dos eugenistas do início do século 20.

A publicação do livro best seller de Paul De Kruif, Caçadores de Micróbios (1926) e outros livros admiráveis, glorificava os pesquisadores médicos e convenceu o público que os médicos não podiam errar. O movimento eugênico ensinava o desprezo pelos fracos e foi institucionalizado. No final, os débeis mentais tornaram-se cobaias convenientes para experimentos antiéticos. Muitos pesquisadores, incluindo dermatologistas, dentistas e psicólogos, estavam motivados para causas nobres; outros procuravam fama e riqueza. Como policiais confirmando o “código azul do silêncio”[1], o sistema médico olhou para o outro lado, conhecendo completamente bem que os experimentos envolvendo radiação e lobotomias eram danosas e conduzidas sem o consentimento da família.

Ostensivamente praticando ciência no molde heroico – a ciência deveria curar todas as doenças da humanidade – médicos e cientistas se voltaram para a juventude internada em orfanatos, abrigos e hospitais como cobaias aptas para experimentos médicos e outras experiências. As crianças, que não podiam dar nenhum consentimento, eram rotuladas frequentemente de “débeis mentais”, ou eram crianças com Síndrome de Down ou paralisia cerebral, ou eram apenas muito pobres e analfabetas para fazer algum rebuliço. Seus pais frequentemente não eram notificados dos experimentos, ou eles eram publica ou sutilmente coagidos a dar consentimento.

O resultado foi uma série de experimentos em hospitais e abrigos – como Vineland, Willowbrook ou Wrentham – buscando curas ou tratamentos para pelagra, infecções cutâneas, hepatite, difteria e outras doenças. Mas os experimentos causaram estragos incalculáveis ainda não relatados nas crianças envolvidas. Uma criança submetida aos testes que foi entrevistada pelos autores anos depois como adulto insistiu que algumas vítimas na Escola Pública de Fernald em Massachusetts foram “enterradas como indigentes... Eles as mataram.” Alguns dos experimentos envolviam controle da natalidade, incluindo o uso de esterilização forçada ou castração.

As crianças usadas como cobaias experimentais eram frequentemente e deliberadamente infectadas com doenças, e então submetidas a tratamentos experimentais (muitos totalmente perigosos), ou mesmo sem nenhum tratamento, para melhor observar o curso natural da doença para o bem da ciência. O Dr. Albert Kligman, uma figura-chave no livro Acres de Pele, reaparece neste novo livro, deliberadamente introduzindo fungos em ferimentos induzidos experimentalmente em crianças retardadas e evitando o tratamento para observar o desenvolvimento da doença.

Entre os experimentos inspirados pela eugenia inicial e o uso subsequente de crianças como cobaias experimentais, o exemplo monstruoso da ciência nazista e experimentos médicos bizarros e mortais lançam uma sombra ao longo das décadas seguintes. Hornblum e outros descrevem a ascensão e rápida queda dos protocolos de Nuremberg, que eram geralmente ignorados pelos médicos e cientistas americanos. Estes profissionais estriparam os comandos éticos em torno do consentimento informado. Um médico, associado ao Departamento Epidemiológico do Exército, é citado criticando o “espectro de Nuremberg”, que se opõe a “aproximações racionais” no uso de crianças como cobaias humanas em pesquisa médica.

Mas, como o título do livro sugere, eram as exigências da Guerra Fria que deram aos pesquisadores médicos e científicos carta branca para conduzir experimentos em crianças (e prisioneiros, pacientes idosos e mesmo clientes de prostitutas), e tudo em nome da segurança nacional e proteção contra o Comunismo. Hornblum e seus coautores fazem um excelente trabalho em explicar essa história complexa e mostrando como o Departamento de Defesa, o Comitê de Energia Atômica e a CIA financiaram esses experimentos, incluindo o uso de choque elétrico e LSD.

O livro descreve o trabalho de uma pesquisadora conhecida de crianças, Lauretta Bender, conhecida por seu famoso Teste Bender Gestalt, ensinado para gerações de psicólogos, que usavam tanto o choque elétrico quanto LSD em crianças afetadas por esquizofrenia ou desordem comportamental. Muitos destes experimentos foram relatados em revistas médicas ou psicológicas e discutidos em conferências públicas. No ambiente de Guerra Fria que existia, poucos se davam conta do uso de crianças nestes experimentos. Poucos criticaram que eles representavam uma população vulnerável.

Os autores repetidamente mostram que estes tipos de experimentos não eram exemplos isolados de  má conduta médica ou científica, mas eram parte da cultura principal da ciência. Um experimento radioativo em crianças conduzido na Escola Pública de Wrentham para “débeis mentais” e “garotos defeituosos” em Massachusets, onde crianças eram infectadas com iodo radioativo, “era coordenado por pesquisadores da Escola Médica de Harvard, pelo Hospital Geral de Massachusets e pela Escola de Medicina da Universidade de Boston, e era apoiada pela Divisão de Saúde Radiológica do Serviço de Saúde Pública dos EUA.” Por trás da Guerra Fria e da razão eugenista, os autores mostram que ambições carreiristas e narcisismo teimoso foram causas contribuintes para a triste história que é relatada.

As revelações cercando tais casos celebrados de experimentação médica – especialmente os experimentos de sífilis em homens negros e experimentos radioativos – levou ao surgimento de salvaguardas éticas e à revisão dos procedimentos, e algumas das piores práticas caíram em desuso. Mesmo assim, os autores documentaram o uso de experimentos médicos ou psicológicos em crianças mesmo nos anos 1990. Eles alertam que muitos experimentos em crianças foram levados para outros países, onde existem leis menos rigorosas e estão longe do olhar vigilante da mídia americana.

Existe um mito alegre propagado por educadores e pela mídia. Ele começa com os horrores da medicina nazista – de Mengele e dos médicos dos campos de concentração, da eutanásia e dos experimentos desumanos – e termina com a justiça em Nuremberg, e a criação de protocolos éticos humanos reconhecidos por toda a humanidade. A verdade, contudo, é tristemente diferente. A anistia dos EUA aos médicos da Unidade 731 do Japão, os experimentos descritos por Hornblum conduzidos nas prisões, hospitais públicos e orfanatos americanos ou a revelação recente de que o Serviço de Saúde Pública dos EUA conduziu experimentos de sífilis em mulheres analfabetas da Guatemala mostram que estamos longe de ser um mundo humano civilizado.       

Nota:

[1] Código azul do silêncio é uma regra não escrita entre os policiais nos EUA em não relatar erros, má conduta ou crimes de um colega da corporação. 

Fontes:      




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[HOL] Nenhuma novidade nos diários de Rosenberg

Richard A. Widmann


Em junho de 2013, a mídia estava em polvorosa com o anúncio da descoberta do diário de Alfred Rosenberg pelo Grupo de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) e pelo Investigações de Segurança da Pátria (HSI). Os relatórios iniciais anunciaram que o diário “poderia oferecer novos conhecimentos sobre o Holocausto.” Conferências de imprensa foram convocadas com funcionários do Departamento de Segurança da Pátria, do Departamento de Justiça e do Museu Memorial do Holocausto dos EUA (USHMM). Em uma mensagem na internet, o USHMM declarou:

Sua descoberta dará aos estudiosos indubitavelmente novos conhecimentos sobre a política dos líderes nazistas e completará o comprometimento do museu em resgatar evidência dos perpetradores do Holocausto.

O jornal israelense Haaretz destilou veneno considerável sobre Rosenberg chamando-o de “um idiota pretensioso” e “grotesco”. Mas o Haaretz acabou antecipando grandes revelações em relação ao Holocausto no diário. Eles conjecturaram,

De fato, Rosenberg pode ter plantado algumas das sementes que no final se transformaram nas decisões aparentemente irracionais de Hitler em desviar os recursos necessários da guerra para o assassinato de judeus, mesmo com o exército alemão mantendo suas perdas no front.

Em dezembro, a mídia novamente foi inundada com notícias de Rosenberg e seu diário. O diário agora havia sido transferido para o USHMM. O jornal inglês Mail On-line estampou a notícia: “400 páginas escritas por Alfred Rosenberg, um líder nazista que teve um papel central no extermínio de milhões de judeus, são doadas para museu na capital.” A cobertura dos jornais ao redor do mundo foi basicamente a mesma. Curiosamente, a cobertura do The Washington Post incluiu vários comentários que deveriam ter sido a notícia real:

… detalhes dos grandes planos nazistas para o genocídio e dominação brutal estão ausentes nas páginas.

O Post continua no relatório que Jürgen Matthäus, diretor de pesquisa aplicada no Centro do USHMM para Estudos Avançados do Holocausto, comentou, “(Rosenberg) não viu nenhuma razão para elaborar os objetivos fundamentais nazistas, já que ele os via como autoevidentes.” Matthäus continuou:

Se estamos procurando por revelações chocantes sobre a era nazista, não encontraremos elas. Seu diário frequentemente parece mudo, senão calado, sobre tópicos cruciais e eventos importantes, incluindo a perseguição aos judeus.

Finalmente, Matthäus concluiu, “Isto não é a arma fumegante. Isto não é a bala de prata.”[1]

Mas qual “arma fumegante”? Por que o Museu precisa de uma “bala de prata”? O que ou quem era o lobo que eles estavam procurando para matar? Para os desinformados, as perguntas permaneceram não respondidas. Mas para o leitor atento, as questões revelam um pouco do desapontamento e frustração dos guardiões da história “oficial”.

A Wikipédia define o termo “arma fumegante” como “basicamente uma referência a um objeto ou fato que serve como evidência conclusiva de um crime ou ato similar.” Este era um reconhecimento que a evidência conclusiva do Holocausto precisava? A percepção do público, moldada por anos de declarações de várias fontes de que o Holocausto é o crime mais bem documentado da história mundial, é claramente falsa. O professor Arno Meyer de Princeton reconheceu que “fontes para o estudo das câmaras de gás são até agora raras e não confiáveis.”

Mas como poderia um programa orquestrado para o assassinato de milhões ser conduzido sem ordens, sem planos, sem documentos, sem mesmo comentários privados? Havia não somente uma grande conspiração para exterminar os judeus da Europa, mas também uma conspiração ainda maior para encobrir o crime? Ou, como todas as conspirações, o relato do Holocausto foi construído sobre mentiras, vingança e propaganda?

Parece que a “arma fumegante” deveria ter sido a evidência conclusiva, um comentário ou pelo menos um reconhecimento de uma ordem de extermínio dos judeus por Hitler ou qualquer outro membro da liderança nacional socialista. Diferentemente do público geral, historiadores e funcionários no USHMM compreendem que não somente uma ordem está faltando, mas as correspondências privadas, diários e outros documentos deixados por aqueles líderes em nenhum momento confirmam um programa coordenado para extermínio em massa.

E o que dizer da “bala de prata” que o Museu esperava encontrar? No folclore popular, uma bala de prata é frequentemente a única arma que é eficiente contra um lobisomem ou outro monstro. Não há muita dúvida que mesmo uma evidência mínima teria sido usada como uma “bala de prata” direcionada ao coração dos negadores do Holocausto e aqueles que questionam o relato das câmaras de gás, a base sobre a qual o USHMM foi construído.

Deveríamos aceitar a lógica básica do USHMM e outros que esperam encontrar uma “arma fumegante”. Houvesse mesmo um programa para exterminar os judeus da Europa, então Alfred Rosenberg deveria tê-lo comentado em seu diário. Tivesse Rosenberg comentado um programa de extermínio em massa, o lobisomem revisionista poderia finalmente ter sido erradicado.

Relatos da imprensa se referem a Rosenberg como “um líder da elite nazista que tinha influência sobre Adolf Hitler,” um “colaborador de Hitler,” um “nazista influente”e um “confidente de Hitler.” Mas quem era Alfred Rosenberg e por que ele deveria ter conhecimento do Holocausto?

Rosenberg, que nasceu em 12 de janeiro de 1893 em Reval na Estônia, é melhor lembrado como o autor de “O Mito do Século 20” (Der Mythus des 20. Jahrhunderts), um trabalho que deu ao Nacional Socialismo uma teoria definitiva de história em função da raça. Rosenberg tornou-se um dos primeiros membros do NSDAP, tendo se juntado ao partido em 1919. Em 1921, ele assumiu o cargo de editor do jornal do partido, “O Observador Popular”.

Rosenberg assumiu muitas atividades do partido enquanto Hitler e Hess estavam presos em Landsberg em 1924. Com o tempo, ele tornou-se chefe do departamento de política externa do partido. Ele também ficou responsável por definir a política do partido em relação ao ensino médio e superior.

Rosenberg comandou uma equipe especial com a responsabilidade de coletar e guardar os tesouros artísticos dos territórios ocupados do leste europeu. Em 1941, Rosenberg assumiu a responsabilidade de estabelecer a administração civil dos territórios bálticos e da Rússia ocupados e serviu como Ministro do Reich para os Territórios Ocupados do Leste (Reichsminister für die besetzten Ostgebiete).

Após o término da guerra, Rosenberg foi arrastado para o tribunal de Nuremberg para julgamento. Quando o julgamento aliado terminou, Rosenberg foi considerado culpado dos seguintes crimes: (1) conspiração para cometer crimes em outros territórios; (2) crimes contra a paz; (3) Crimes de guerra; (4) Crimes contra a humanidade.

Parte do julgamento contra Rosenberg afirma:

Rosenberg tem uma grande responsabilidade pela formulação e execução das políticas de ocupação nos territórios ocupados do leste. Ele foi informado por Hitler em 2 de abril de 1941, de um ataque vindouro contra a União Soviética, e concordou em ajudar como “Conselheiro Político”... Em 17 de julho de 1941, Hitler apontou Rosenberg como Ministro do Reich para os Territórios Ocupados do Leste e publicamente encarregou-o da responsabilidade pela administração civil... Ele ajudou a formular as políticas da germanização, exploração, trabalho forçado, extermínio de judeus e oponentes do jugo nazista, e estabeleceu a administração que foi responsável por isso... Suas diretivas forneceram a segregação dos judeus, finalmente em guetos. Seus subordinados se envolveram no extermínio em massa de judeus, e seus administradores civis consideraram que a limpeza étnica dos territórios ocupados era necessária.

Rosenberg foi condenado à forca.

É natural que a descoberta do diário de Rosenberg, que estava desaparecido desde a época de Nuremberg, tenha excitado as pessoas que acreditam na narrativa do Holocausto. De fato, tivesse o Holocausto ocorrido da maneira como é descrito em livros, filmes e museus, o diário de Rosenberg deveria conter uma riqueza de detalhes e uma defesa filosófica das políticas que levaram ao extermínio em massa.

Mas o diário não contém tal evidência. Não há justificativas da política brutal; de fato, não há menção a uma ordem de extermínio em massa. Não há menção a câmaras de gás. Não há nenhuma sugestão de que Rosenberg estivesse ciente de tais políticas. Algumas pessoas podem argumentar que Rosenberg era esperto e propositalmente deixou de fazer comentários incriminadores em seu diário pessoal – mesmo numa época em que a vitória alemã parecia assegurada. Muitos escritores e psicólogos gostam de escrever sobre a “banalidade do mal”, assumindo que o assunto parece tão trivial que não há necessidade de mencioná-lo. E, é claro, existe a opção de que os eventos não ocorreram da forma como estão relatados em nossos livros de história.

G. M. Gilbert, que serviu como psicólogo de prisão nos julgamentos de Nuremberg, recolheu muitos dos pensamentos e comentários privados dos réus. Gilbert comentou que os réus “estavam mais do que ansiosos para expressarem-se a um psicólogo e ao único oficial americano na prisão que falava alemão.” Gilbert foi cuidadoso em nunca tomar nota em frente aos homens, mas ao invés disso gravá-los secretamente seguindo suas entrevistas particulares. Ele mais tarde reuniria suas notas e as publicaria em seu livro O Diário de Nuremberg em 1961.

Do livro de Gilbert sabemos dos primeiros pensamentos e comentários de Rosenberg após assistir aos filmes de atrocidade durante a realização do julgamento. Gilbert registrou a reação de Rosenberg às “recentes revelações” da seguinte maneira:

Certamente, é terrível – incompreensível, a coisa toda. Eu nunca sonhei que isso pudesse assumir tal proporção – não sei. – terrível!

Mais tarde, em uma das entrevistas particulares de Gilbert:

Não sei. Suponho que tenha sido ordenada por ele (Hitler). Não contemplamos a matança de ninguém no começo; posso te assegurar disso. Sempre defendi uma solução pacífica. Fiz um discurso diante de 10.000 pessoas que mais tarde foi reproduzido em papel e largamente distribuído, defendendo uma solução pacífica. – Apenas retirando os judeus de suas posições políticas influentes, isto é tudo. Tipo, ao invés de ter 90% dos médicos em Berlim sendo judeus, reduzi-los a 30%, ou algo parecido – o que teria sido uma cota liberal na época. – Não tinha nem ideia que isso poderia levar a coisas terríveis como o assassinato em massa. Apenas queríamos resolver o problema judaico de forma pacífica. Inclusive, deixamos que 50.000 judeus intelectuais atravessassem a fronteira.

Rosenberg continuou com a ideia da deportação dos judeus:

Bem, eu sabia que eles estavam sendo transportados para o Leste, e entendia que eles estavam sendo colocados em campos com sua própria administração, e eventualmente se assentariam em algum lugar no Leste. – Não sei. Não tinha ideia de que isto levaria a um extermínio em qualquer sentido literal. Só os queríamos longe da vida política alemã.

Enquanto o USHMM foi incapaz de encontrar uma “arma fumegante” que apoia a narrativa ortodoxa, os pesquisadores deveriam examinar os documentos pela evidência da verdade dos eventos destes anos. O que o diário revela sobre os programas de deportação em massa? O que ele diz sobre as epidemias que atingiram os campos de concentração? Existe evidência de que a liderança nazista combateu essas epidemias?

Espero que uma investigação honesta conduza a uma revisão correta desta época sombria em nossa história recente. E somente corrigindo o relato desta época podemos nos mover adiante para entender os eventos de nossa história moderna dos últimos 70 anos.

Nota:

[1] arma fumegante (smoking gun) é sinônimo de provas incontestáveis. Bala de prata (Silver bullet) é um termo médico usado geralmente para se referir a algum tipo de "cura milagrosa".  


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[PGM] Na Iminência da Guerra

Harold Evans

NY Times, 09/05/2013

Resenha dos livros Os Sonâmbulos: Como a Europa foi à guerra em 1914 e 1914: Contagem regressiva para a guerra.


Ninguém na época chamou o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand em Sarajevo em 28 de junho de 1914 “um tiro que rodou o mundo.” A frase, cunhada por Ralph Wald Emerson, resume um julgamento que se cristalizou somente com os horrores que se seguiram. Alguns membros da comunidade internacional não perceberam isso. A América continuava calma em seu isolamento e prosperidade. “Para o mundo ou para uma nação,” declarou o jornal Grand Forks do Dakota do Norte, “um arquiduque a menos não fará diferença.” O presidente Wilson, atravessando os corredores solitários da Casa Branca estava perturbado com a luta pela vida da Primeira Dama. Paris estava ocupada com um julgamento de crime passional que levou a um escândalo político. Londres estava obcecada com a soberania da Irlanda para manter o interesse até próximo da meia-noite.

Desde o início houve uma falha em perceber que o assassinato do herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro por um jovem terrorista treinado na Sérvia expansionista poderia ser “uma coisa tola nos Bálcãs” que Otto Von Bismarck em 1888 previu que um dia deflagraria uma guerra europeia. Em Os Sonâmbulos, Christopher Clark, um professor de história europeia moderna em Cambridge, descreve como dentro de 10 dias os ministros da Rússia czarista tinham criado um relato para justificar a mobilização da Rússia por seus “irmãozinhos sérvios” se a Áustria-Hungria os atacasse. O arquiduque morto era retratado como uma marionete do imperador alemão Guilherme II e um belicista (algo que não era). A intenção era deslocar o ônus moral do perpetrador para a vítima. A França caiu no estratagema e a Inglaterra continuou mais ou menos na sua, sendo os três ligados pela Tripla Entente de 1907. A Áustria-Hungria, por sua vez, enviou por trem na noite de 4 de julho um enviado a Berlim, onde o Kaiser havia acabado de reprovar uma pedido de calma oficial: “Parem com esta insensatez! Já era tempo de se dar um jeito nos sérvios.” Assim, a Áustria-Hungria recebeu seu famoso “cheque em branco”, e 37 dias após Sarajevo as Potências Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria, um ano depois a Turquia e em seguida a Bulgária) estavam em guerra contra as Potências da Entente (Rússia, França, Império Britânico e também o Japão, e nos meses seguintes Itália e Romênia).

A historiografia da Primeira Guerra Mundial é enorme, mais de 25.000 volumes e artigos mesmo antes de seu aniversário. Mesmo assim, Clark e Sean McMeekin, em Julho de 1914, oferecem novas perspectivas. A realização mais importante de Os Sonâmbulos é a pesquisa em um único volume de Clark da história europeia que levou à guerra. Isso pode parecer maçante. Pelo contrário, é como se uma luz tivesse iluminado o palco de personagens sombrios lutando entre si sem nenhuma razão. Ele levanta a cortina às 2 horas da manhã em 11 de junho de 1903, 11 anos antes de Sarajevo. Vemos 28 oficiais do exército sérvio abrindo seu caminho para o Palácio Real em Belgrado. O Rei Alexandar e a Rainha Draga, traídos e indefesos, se escondem em um armário de roupas da rainha. Eles são encontrados, massacrados, crivados de balas, esfaqueados com uma baioneta; seus corpos são cortados com um machado e os corpos mutilados são lançados pela sacada do palácio.

Clark defende uma conexão direta entre os assassinos de Belgrado e Sarajevo. Através do regicídio – e o assassinato de um Primeiro Ministro repressor na mesma noite – resultou em uma democracia parlamentar mais genuína, a rede de conspiradores prosseguiu, sua paixão mortal era agora direcionada para a decadente Áustria-Hungria. O principal instigador do plano de Belgrado, o tenente Dragutin Dimitrijevic, chamado de Apis por sua mente violenta, tornou-se chefe da inteligência militar sérvia e foi fundamental na criação das redes terroristas Mão Negra que organizaram o assassinato do arquiduque. Eles sonhavam com uma grande Sérvia englobando os sérvios na Península balcânica. A região era terreno fértil para o desafeto: duas raças não-eslavas, austríacos e húngaros, controlando milhões de sérvios, eslovacos, tchecos, croatas e poloneses, entre outros.

Clark nos apresenta um entendimento abrangente e um relato inteligível da polarização no continente. É uma pena que com tantos personagens e nomes desconhecidos, seus editores tenham falhado em fornecer uma lista dos envolvidos e da cronologia: isto é feito na obra de McMeekin.

Professor americano que leciona em Istambul, McMeekin escolheu ampliar o panorama. Ele inicia com uma reconstrução fragmentada, porém vívida do duplo assassinato sob a luz do Sol em Sarajevo, então se concentra totalmente em desvendar a coreografia diária, à medida que os monarcas hereditários em seus palácios convocam seus ministros e generais e os ministros convocam seus assistentes para escrever e codificar os telegramas para seus embaixadores em Viena e Berlim, Belgrado e São Petersburgo. Paris e Londres reúnem toda sua eloquência e astúcia para seguir com suas próprias interpretações sobre a corrente de ameaças, promessas e súplicas de seus governantes.

Os monarcas imperiais eram parentes – a Rainha Vitória morreu nos braços de seu neto, o imperador Guilherme II – mas eles também foram consumidos pelas rivalidades entre as grandes potências e sua autoridade individual era refratada através dos espelhos retrovisores da burocracia. Temos uma indicação das ambiguidades no ponto crucial na noite de 29 de julho. O Czar Nicolau II, tendo concordado com a mobilização geral, recebe um telegrama  apelando para que não faça isso. O telegrama para “Nicky” veio de seu primo em Berlim, o Kaiser “Will”. Nicky imediatamente desfaz a ordem: “Não serei o responsável por uma carnificina monstruosa.” Menos de 24 horas depois, o parentesco e a prudência cedem lugar para a retórica patriótica e para a estimativa inflacionada do poderio austríaco.

Ambos os autores destroem a narrativa conhecida de que a Alemanha mobilizou suas forças primeiro de modo a garantir a guerra preventiva que seus generais há muito tempo defenderam. Não foi isso. Clark mostra como os líderes políticos e militares de Berlim se agarravam alegremente à ideia de que qualquer conflito podia ser localizado. A mobilização da Rússia, ele diz, foi “uma das decisões mais momentâneas da crise de julho. Ela foi a primeira das mobilizações gerais.” McMeekin diz que o crime da Rússia foi primeiramente aumentar a escaramuça local ao encorajar a Sérvia a resistir contra a Áustria-Hungria e então acelerar o passo em direção da guerra. Ele culpa Barbara Tuchman em seu clássico livro Os Canhões de Agosto por colocar a data de mobilização da Rússia dois dias depois que ela foi ordenada. Ele não é, contudo, um apologista da Alemanha. Em O expresso Berlim-Bagdá (2010), ele acusou o Kaiser de ser um jidahista amalucado ao incitar os mulçumanos contra os interesses anglo-franceses no decadente Império Otomano, mas seu livro de 2011 As Origens russas da Primeira Guerra Mundial faz jus ao título.

Clark empresta autoridade ao citar falsificações russo-francesas de documentos. Os russos alteraram datas e reescreveram documentos nos registros. Os franceses foram mais criativos, fabricando um telegrama que relatava seis dias de preparação para a guerra pela Alemanha que, de fato, não ocorreu. Nas palavras de Clark, tanto a Rússia quanto a França estavam angustiadas, na época e mais tarde, para tornar Berlim “a responsável moral pela crise.”

McMeekin pretende direcionar a culpa para os homens e nações que ele considera culpados. Ele poderia ter intitulado o livro de “J´accuse”. É o terceiro com um apelo polêmico. Clark recusa a se unir a McMeekin no que ele chama “o jogo da acusação”, pois havia muitos participantes. Ele argumenta que tentar identificar o culpado em um único líder ou nação assume que deve haver uma culpa compartilhada e isto, ele mantém, distorce a história e a converte numa narrativa judicial que carece da natureza essencialmente multilateral das trocas, enquanto que subestima o fervor étnico e nacionalista de uma região. “O início da guerra em 1914,” escreve ele, “não é um drama de Agatha Christie no final do qual descobriremos o culpado ao lado de um corpo no salão com a pistola ainda fumegando.” Não ter um vilão a quem culpar é ainda mais frustrante, mas Clark faz questão de mostrar a guerra como uma tragédia, e não como um crime: em seu relato há uma pistola fumegando na mão de cada personagem principal.  

Mesmo assim, sua objetividade não significa neutralidade branda. Através de uma análise rigorosa linha a linha dos termos do ultimato de 48 horas da Áustria à Sérvia e a resposta servia, Clark demole a visão tradicional de que a Áustria tenha sido muito dura e que a Sérvia acatou as ordens de maneira bovina. A Áustria exigiu ação sobre as células terroristas na Sérvia. Teria sido uma intervenção na soberania, sim, mas a tolerância servia com as redes terroristas e sua resposta branda aos assassinos de Sarajevo, impede que tenhamos simpatia por sua posição. Clark descreve o ultimato da Áustria como “um grande acordo meigo” ao invés de um ultimato, como foi o da OTAN contra a Sérvia-Iugoslávia em março de 1999. Quanto à resposta servia, por muito tempo vista como conciliadora, Clark mostra que a maior parte dos pontos políticos era uma rejeição educada e oferecia incrivelmente pouco para a Áustria – uma “obra-prima do equívoco diplomático.”

O brilhantismo da história de Clark é que somos capazes de discernir o quanto o passado foi genuinamente prólogo. Os participantes eram condicionados a se manter andando em direção de um precipício, certos de sua retidão moral, mas impelidos inconscientemente por uma interação complexa de culturas enraizadas, patriotismo e paranoia, sedimentos de história e memória popular, ambição e intriga. Eles eram, nas palavras de Clark, “sonâmbulos, vigilantes mas sem ver, assombrados por sonhos, mesmo estando cegos à realidade do horror que eles estavam para trazer a este mundo.”                    


 
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sábado, 8 de fevereiro de 2014

Varsóvia, 1920

Denis MacShane, Christopher Silvester

Resenha do livro Varsóvia 1920: A Conquista da Europa por Lênin que falhou, de Adam Zamoyski

 
Em 1920, Lênin ordenou a invasão e ocupação da Polônia como um prelúdio para exportar a revolução russa para o coração da Europa, Alemanha. Trotsky mandou imprimir panfletos em alemão já que ele acreditava que trabalhadores e camponeses poloneses e alemães saudariam seus libertadores soviéticos. Em uma guerra desesperada na primavera e verão, os poloneses seguraram os muito maiores exércitos russos, culminando na Batalha de Varsóvia em agosto de 1920. As ambições militares de Lênin foram destruídas e a Europa foi salva de uma onda de ditaduras comunistas, que acabaram chegando na Europa oriental após 1945.

Lênin achava que grandes números de soldados que ele pudesse reunir seriam suficientes para assustar os poloneses. Exércitos de cavalaria gigantes partiram em direção de Varsóvia. Os russos inventaram uma nova arma – uma metralhadora montada sobre um carrinho puxado por cavalos. Estes atravessavam os campos de batalha com efeito devastador. Mas as linhas de comunicação aumentavam mais e mais, e os poloneses foram capazes de cortá-las e esmagar os vários exércitos vermelhos.

Esta guerra olhou para frente e para trás. Notável para a mobilidade das formações de tropas em um teatro de grande extensão, ela antecipou a estratégia de ataques em profundidade e batalhas de cerco que seriam travadas pelos tanques na Segunda Guerra Mundial. A batalha de Czesniki, por outro lado, foi um resquício da era napoleônica. Ela foi, diz Zamoyski, “uma luta épica de um tipo não presenciado na Europa por mais de um século, e o maior envolvimento de cavalarias na história do continente.”

O subtítulo de Zamoyski é importante. Poucos têm consciência de que Lênin desejava conquistar a Polônia para criar uma revolução na Alemanha; menos gente ainda compreende que ele escreveu para Stalin, o comissário-chefe político ligado ao Exército Vermelho na Ucrânia, sugerindo um ataque simultâneo à Romênia, Tchecoslováquia e Hungria, para provocar revolução na Itália. Stalin respondeu que “seria uma pena” não tentar.

Pilsudski, o chefe de estado e comandante-em-chefe polonês, em seus cinquenta anos, não era especialista em estratégia militar. Ele foi torturado pela dúvida, mesmo assim provando a si mesmo ser um mestre das circunstâncias. Sua contraparte, Tukhachevsky[1], tinha somente 27 anos, um nobre que se imaginava um Napoleão no estilo de ser e um niilista que odiava judeus, cristãos, capitalistas e socialistas. Ele mais tarde foi fuzilado nos expurgos de Stalin, assim como todos os comandantes superiores do Exército Vermelho que falharam em tomar Varsóvia em 1920.

O exército polonês foi apressadamente montado com soldados que haviam servido em forças estrangeiras. Um observador descrevendo os seis regimentos da Primeira Cavalaria, disse que eles eram “como muitas crianças nascidas de uma única mãe, mas concebidas por pais diferentes.”

Mesmo assim, a cavalaria polonesa estava bem treinada e equipada. A cavalaria do Exército Vermelho estava equipada de forma diferente e frequentemente uniformizada de forma excêntrica – um cavaleio foi visto usando um chapéu-coco – mas atuou inicialmente como a horda cruel mongol. Em contraste com a disciplinada infantaria polonesa, os infantes do Exército Vermelho estavam descalços e sustentavam sua moral através de uma política de estupros e pilhagem.

A Guerra Polonesa-Soviética foi suja, brutal e curta. Começando com um ataque preventivo pela Polônia contra as forças soviéticas na Ucrânia no final de abril de 1920, que resultou na vitória soviética, foi encerrada em meados de outubro, quando então o exército polonês expulsou os russos e exigiu boa parte da Bielorrússia e Ucrânia.

Com o Exército Vermelho no Vístula, nos arredores da capital polonesa, o contrataque decisivo de Pilsudski foi o envio de cinco divisões do sul, para dividir os exércitos russos ao longo da linha do front norte-sul. Nas palavras de Zamoyski, era “como lançar um forcado sobre os exércitos russos lateralmente: tendo sido o impulso suficientemente forte,o pânico e o caos preveniu sua reunião novamente.”

Foi isto o que aconteceu, e tudo porque, nas palavras de um jovem conselheiro francês, Charles de Gaulle, “o soldado polonês é um soldado de extraordinária resistência.”

Os poloneses também quebraram todos os códigos russos e foram capazes de escutar sua comunicação. O treino provou ser vital duas décadas depois quando criptologistas e a resistência poloneses capturaram a máquina codificadora Enigma da Wehrmacht e a repassaram para Londres, de modo que esta ficou sabendo dos planos de guerra alemães.

As perdas russas (mortos, feridos, capturados e presos) foram acima de 200.000. Seu exército de cavalaria do norte, o Konkorpus, foi esmagado; sua contraparte no sul escapou como uma sombra de si mesmo.

A qualidade de um grande historiador militar não é somente fazer descrições do campo de batalha e explicar suas táticas, mas dar o contexto político e trazer as pessoas dos comandantes de volta à vida. Zamoyski consegue tudo isso em um relato conciso e eletrizante de uma guerra esquecida e argumenta que, longe de ser irrelevante, a vitória polonesa trouxe “duas décadas de liberdade”.

Nota:

[1] Mikhail Nikolayevich Tukhachevsky (16/02/1893 — 12/06/1937) foi um comandante militar soviético e chefe do Exército Vermelho. Foi um dos vários comandantes do Exército Vermelho acusado de colaborar com os nazistas durante o Grande Expurgo, sendo condenado e executado pelos Processos de Moscou.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

[SGM] A Segunda Guerra Mundial ainda é “A Boa Guerra”?

Adam Kirsh

NY Times, 27/05/2011

 
Em fevereiro, o último veterano americano sobrevivente da Primeira Guerra Mundial morreu. É difícil imaginar o dia quando diremos adeus ao último sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, de tão grande “a boa guerra” e “a grande geração” ainda ocupa a imaginação nacional. Mas o calendário e as estatísticas não mentem. Cerca de 16 milhões de americanos serviram nas forças armadas durante a Segunda Guerra. No sexagésimo aniversário do ataque a Pearl Harbor em 2001, cerca de 5,5 milhões ainda estavam vivos. Este ano, enquanto nos preparamos para relembrar o septuagésimo aniversário, o número está próximo do 1,5 milhão, e cai quase mil por dia.

A passagem do tempo não apenas transforma a vida em história; ela também muda os contornos da própria história. Nos últimos anos, historiadores, filósofos e outros começaram a repensar a Segunda Guerra de uma forma desafiadora e perturbadora, refletindo a crescente distância entre o país que lutou a guerra e o país que lembra dela. Como sempre, quando a história é debatida, os limites não são apenas o passado, mas o presente e futuro também. Mesmo que as longas guerras no Iraque e Afeganistão tenham tornado os americanos menos confiantes na forma como usamos nosso poder militar, a luta contra o Eixo permanece o exemplo clássico do poder americano colocado a serviço de objetivos virtuosos. O presidente Obama tinha esta história em mente quando explicou sua decisão de intervir na guerra civil líbia: “Deixar de lado a responsabilidade da América como líder e – mais profundamente – nossas responsabilidades com nossos irmãos humanos sob tais circunstâncias teriam sido uma traição de quem somos,” disse Obama. “Algumas nações podem ser capazes de fazer vista grossa às atrocidades em outros países. Os Estados Unidos da América são diferentes.” Mesmo hoje, a Segunda Guerra Mundial ajuda a subscrever nossa afirmação para esta diferença moral.

As estórias favoritas da Segunda Guerra Mundial sempre foram aquelas do heroísmo democrático de soldados comuns; este tipo de história popular nunca desapareceu e provavelmente jamais desaparecerá. O livro Inquebrável (2010) de Laura Hillenbrand, que permaneceu por meses próximo ao topo dos Best-sellers, conta a estória de Louis Zamperini, um ex-maratonista campeão convertido em piloto aéreo, cujo avião foi derrubado no Pacífico e que sobreviveu semanas à deriva numa balsa e passou por privações ainda maiores em um campo de prisioneiros japonês. Como o título sugere, Zamperini é o típico herói de guerra, por causa de sua grandeza em sua recusa em se entregar, não sua habilidade em quebrar os outros – uma parte do trabalho do soldado que é de longe menos aprazível de ler. Zamperini era piloto de um bombardeiro B-24, e na época em que ele estava sendo torturado pelos japoneses, outros pilotos, tão bons ou ruins quanto ele, realizavam a “Operação Gomorra” – as missões semanais sobre Hamburgo, Alemanha, que em julho de 1943 mataram cerca de 40.000 civis e destruíram virtualmente a cidade inteira. Podemos festejar estórias desse tipo, e outras parecidas com essa, em nossa memória da Segunda Guerra Mundial? E se o fizermos, podemos manter nosso orgulho da “boa guerra”?

Estas são perguntas a serem respondidas na nova onda das histórias da Segunda Guerra Mundial. Estes livros não são “revisionistas”, no sentido pejorativo: eles não sugerem uma equivalência moral entre o Eixo e os Aliados, ou minimizar os crimes nazistas, ou negar o Holocausto. Ao invés disso, eles são trabalhos intelectuais de historiadores profissionais, que estão menos interessados em reescrever os fatos da guerra do que reconsiderar suas implicações morais. Americanos que aprenderam sobre a guerra na Europa a partir de livros como Band of Brothers de Stephen Ambrose (1992), por exemplo, podem ser perdoados por achar que a derrota da Alemanha foi trabalho de soldados americanos durões. Assim, em Uma Vitória dura: a Segunda Guerra Mundial na Europa, 1939 – 1945, o historiador britânico Norman Davies começa da premissa que “o esforço de guerra das potências ocidentais” foi “um tipo de espetáculo secundário” A América perdeu 143.000 soldados na luta contra a Alemanha, Davies esclarece, enquanto que a União Soviética perdeu 11 milhões.

E se o principal espetáculo era a guerra entre Hitler e Stalin, ele pondera, não foi a Segunda Guerra Mundial um confronto entre tiranos quase equivalentes? “Alguém realmente comprometido com a liberdade, justiça e democracia é militante da condenação dos dois grandes regimes totalitários sem medo ou benevolência,” ele concluí. Como historiador da Polônia, Davies é especialmente informado sobre o que poucos americanos lembram: que a Segunda Guerra Mundial começou pela invasão conjunta nazi-soviética daquele país. Durante os dois primeiros anos da guerra, Hitler e Stalin eram aliados; o fato deles terem se voltado um contra o outro, quando Hitler invadiu a União Soviética em junho de 1941, não altera a equação moral. “Se olhamos dois bandidos lutando entre si, não existe validade moral nenhuma se aproximar de um deles para derrotar o outro. O único teste válido é se eles merecem ou não o título de bandidos.”

O livro deliberadamente provocativo de Davies teve uma recepção mista, em parte por causa de seu relato da guerra na Europa Oriental parecer minimizar a importância do Holocausto. Nenhuma objeção pode ser feita em relação ao livro moralmente escrupuloso Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Stalin (2010) de Timothy Snyder[1], que centraliza também a Europa Oriental – em particular a região compreendida entre os Bálcãs, Ucrânia, Bielorússia, Rússia Ocidental e Polônia que Snyder denomina “as terras de sangue”, pois elas foram o maior campo de massacres da Segunda Guerra Mundial. Este foi o local das batalhas titânicas entre a Wehrmacht e o Exército Vermelho: ele foi também o palco das 14 milhões de mortes de não-combatentes entre 1933 e 1945. Este número compreende 10 milhões de civis e prisioneiros de guerra mortos pelos nazistas – incluindo os seis milhões de judeus mortos no Holocausto – e quatro milhões de civis e prisioneiros de guerra mortos pelos soviéticos.

Ao agrupar as baixas alemãs e soviéticas juntas, Snyder está sugerindo uma questão implícita. A União Soviética era o aliado americano, a Alemanha nosso inimigo; mas ambos os regimes foram culpados de matar milhões de pessoas por motivos ideológicos. Não foram os três milhões de ucranianos levados à inanição por Stalin em 1932-33 vítimas deliberadas da agressão estatal e do terror ideológico não menos do que os três milhões de prisioneiros de guerra levados à inanição por Hitler em 1941-42? “Somente uma aceitação ousada das semelhanças entre os sistemas soviético e nazista permite uma compreensão de suas diferenças,” mantém Snyder.

Se Stalin permanece em nossa memória como um tirano igual a Hitler, Winston Churchill é possivelmente o estadista estrangeiro mais amado pelos americanos. Por esta simples razão, entretanto, Churchill tem sido assunto de algumas das mais apaixonadas tentativas de revisar nossa compreensão da Segunda Guerra Mundial. O subtexto desse debate, e talvez a principal razão para a sua veemência, tem a ver com o papel simbólico descomunal que Churchill chegou a ter nos debates de política externa norte-americanos após o 11 de setembro. Quando o presidente Bush aludiu à retórica da época de guerra de Churchill em seu discurso ao Congresso após os ataques, Norman Podhoretz escreveu em A Quarta Guerra Mundial (2007) que ele “inequivocamente e sem qualquer ambiguidade colocou a guerra contra a ‘rede terrorista global’ em direta sucessão à Segunda Guerra Mundial.” Foi amplamente divulgado que Bush mantinha um busto de Churchill no Salão Oval – e que Obama o removeu.

Não é de surpreender, então, que os historiadores começariam a ver Churchill, por bem ou por mal, através do prisma da política atual. O historiador conservador Paul Johnson, para pegar um exemplo, escreveu uma pequena biografia, Churchill (2009), cuja premissa é que “de todas as grandes figuras do século 20, tanto boas como más, Winston Churchill era a mais valiosa para a humanidade.” Simultaneamente, relatos altamente críticos de Churchill proliferaram: A Loucura de Churchill: Como Winston Churchill criou o Iraque moderno (2004), Sangue, Suor e Arrogância: e os Mitos da Guerra de Churchill (2006). Não-historiadores com suas agendas políticas também entraram em cena. O romancista Nicholson Baker escreveu um relato revisionista da Segunda Guerra Mundial, Fumaça Humana: O começo da Segunda Guerra Mundial, o fim da Civilização (2008), no qual Churchill torna-se tão responsável pela Segunda Guerra quanto Hitler. Enquanto isso, Pat Buchanan escreveu Churchill, Hitler e a Guerra Desnecessária: Como a Grã-Bretanha perdeu seu Império e o Ocidente perdeu o mundo (2008), culpando Churchill por conduzir a Grã-Bretanha numa guerra contra a Alemanha acima de tudo. Esta lição isolacionista foi direcionada, disse explicitamente Buchanan, ao “culto a Churchill” que convenceu Bush, “um presidente inculto”, que libertar o Iraque de Saddam Hussein era parecido como libertar a Europa de Hitler.

Em um período que viu historiadores como Niall Ferguson recomendar o Império Britânico como um modelo para o exercício do poder americano no exterior, a conexão entre o imperialismo de Churchill e seu preconceito racial tornou-se um grande problema. Isso foi abordado com mais veemência em O Império de Churchill (2010), de Richard Toye, que explorou de forma honesta as razões do “humanitarismo não significa numa crença em igualdade racial” de Churchill. Toye frequentemente escreve de forma admirada sobre Churchill, mas não deixa de se envergonhar com a feiura de alguns de seus pontos de vista – como a confissão de que “odeio pessoas com olhos puxados e tranças nos cabelos,” ou sua nostalgia pelas “pequenas guerras contra os povos bárbaros.”

Mais sério que as declarações racistas é a acusação feita a Churchill em um livro de Madhusree Mukerjee, A Guerra Secreta de Churchill: O Império Britânico e a Devastação da Índia durante a Segunda Guerra Mundial. Mukerjee coloca a responsabilidade pela epidemia de fome em Bengala em 1943, que resultou na morte de cerca de três milhões de pessoas, nas costas de Churchill. Ela aguça seu ponto fazendo analogias provocantes entre os ingleses e os nazistas. No auge da epidemia, ela escreve, alguns restaurantes populares em Bengala estavam oferecendo uma ração de apenas 400 calorias de arroz por dia, “no nível mais baixo da escala na qual, simultaneamente, os internos de Buchenwald eram alimentados.”

Críticos têm desafiado as conclusões de Mukerjee sobre a divisão de culpa pela fome entre os britânicos, a invasão japonesa, clima inclemente em Bengala e acumulação. Mas A Guerra Secreta de Churchill é convincente em um ponto fundamental. Churchill se recusou em desviar recursos alimentícios dos britânicos para os indianos porque, seguindo a lógica do imperialismo, ele dava um valor mais alto às vidas britânicas do que às indianas. O número de bengalenses que morreram em 1943 rivaliza com o número de ucranianos que, como Timothy Snyder mostra, foram deliberadamente mortos por inanição por Stalin em 1932-33. Isto significa que uma atrocidade comparável deve ser colocada contra a posição moral da Grã-Bretanha e seus aliados na Segunda Guerra Mundial?

Ou a maior atrocidade dos Aliados cometida foi contra a própria Europa? Os horrores dos bombardeios aéreos britânicos e americanos nas cidades alemãs nunca foram segredo; O Matadouro Cinco (1969) de Kurt Vonnegut, com sua evocação terrível do bombardeio de Dresden, permanece como um dos romances de guerra americanos mais populares. Mas os debates americanos sobre a moralidade do bombardeio tem tradicionalmente se centrado na bomba atômica, uma arma única que levanta questões únicas.

O que torna os novos textos sobre o bombardeamento da Alemanha especialmente significativos é que eles têm sido influenciados por aqueles que o vivenciaram. Em um ensaio brilhante, Guerra Aérea e Literatura, o romancista alemão W. G. Sebald se pergunta por que o bombardeio aliado – que matou meio milhão de civis e devastou a maioria das cidades alemãs – “parece ter deixado poucos traços de dor na consciência coletiva.” Uns poucos anos antes, como se fosse uma resposta, o historiador alemão Jörg Friedrich publicou O Incêndio: O Bombardeamento da Alemanha, 1940 – 1945. Friedrich descreve o tipo de cena que aconteceu nas ruas alemãs após os bombardeios: por exemplo, “um homem arrastando um saco com cinco ou seis protuberâncias nele como se estivesse carregando cabeças de repolho. Eram as cabeças dos membros de sua família, uma família inteira, que ele encontrou na adega.”

Friedrich foi acusado, na Alemanha e em outros lugares, de usar linguagem que implicitamente igualava o bombardeio aliado aos crimes de guerra nazistas. Mas sua conclusão sobre a lição da Segunda Guerra Mundial – “civis não mostram piedade a civis... a guerra total consome o povo totalmente, e seu senso de humanidade é a primeira coisa a ir embora” – desafia a memória anglo-americana da guerra em modos que são impossíveis de ignorar. Em Entre as Cidades Mortas: A História e o Legado Moral do Bombardeio de civis na Alemanha e Japão na Segunda Guerra Mundial (2006), o filósofo inglês A. C. Grayling estende o desafio, perguntando: “Deveríamos nós, descendentes dos Aliados que ganharam a vitória na Segunda Guerra Mundial, responder ao desafio moral dos descendentes dasquelas cidades que foram almejadas pelos bombardeiros aliados?”

Grayling está certo de que ele, como todos na Inglaterra e América (e na atual Alemanha também), lembra a Segunda Guerra Mundial como “apenas uma guerra entre inimigos moralmente criminosos.” Mesmo assim, ele concluí que a prática do bombardeio de área – no qual o Comando de Bombardeiros da Força Aérea Real, em particular, bombardeou indiscriminadamente áreas urbanas na esperança de infligir danos morais e econômicos à Alemanha – foi “um crime moral”: “Qual é a diferença moral entre bombardear mulheres e crianças e atirar nelas com uma pistola?... O anonimato do ato de matar a uma altitude de 20.000 pés?” No final, Grayling é carregado pela força de seu próprio argumento em direção de um veredito ultrajante: “Assim, vemos que existe pouca diferença entre a Operação Gomorra da RAF, ou os ataques atômicos da Força Aérea americana a Hiroshima e Nagasaki, e a destruição do World Trade Center em Nova York pelos terroristas... Todos estes ataques terroristas são atrocidades.”

Os Aliados como a Al-Qaeda: está é a conclusão para a qual uma reavaliação da Segunda Guerra Mundial deve nos levar? Se for assim, não admira que alguns historiadores estejam impacientes com o novo projeto. O título do historiador inglês Michael Burleigh Combate Moral: Bem e Mal na Segunda Guerra Mundial, que foi publicado mês passado, resume sua resposta aos descrentes: sim, foi realmente uma combate moral. Em sua introdução, Burleigh tenta garantir que havia ambiguidades morais envolvidas, mesmo dizendo que ele não tenta “desculpar os crimes de guerra aliados.” Mesmo assim, quando ele discute o bombardeio aliado, é sob o cabeçalho do capítulo “Os raios do Rei são justos” – o lema do 44º. Esquadrão de Bombardeiros da RAF. E enquanto Burleigh tem consciência de que Arthur Harris, o chefe do Comando de Bombardeiros, era “obcecado por devastar as cidades alemãs,” ele fica mais irritado com aqueles que julgam Harris após o ocorrido. Visando Grayling, talvez, Burleigh fulmina, “Guerras não são conduzidas de acordo com deliberações dissecadas de um seminário filosófico repleto de velhas senhoras.”

Isto é bruto e mal-humorado, mas o impulso defensivo de Burleigh é compreensível. Se perdermos nossa habilidade de sentirmos orgulho da vitória sobre Hitler, ficaremos privados de um de nossos nortes morais mais garantidos. Mesmo assim, o patriotismo, sacrifício e bravura que lemos em um livro como Band of Brothers não podem ser anulados pelo conhecimento da guerra na qual eles apareceram. De fato, o melhor das novas histórias da Segunda Guerra Mundial pode ser encarado como uma tentativa de nos dar, em 2011, um senso mais completo e autêntico do que realmente foi a guerra para aqueles que a lutaram.


Nota:

[1] Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Stalin


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