sábado, 14 de junho de 2014

[HOL] A verdade por trás do Dossiê Odessa e a fuga dos nazistas

Guy Walters

 


Vejo que os jornais de hoje estão repletos de relatos sobre Gudrun Burwitz, a filha de Heinrich Himmler, e sua organização Stille Hilfe (Ajuda Silenciosa), que é acusada de ajudar nazistas no exílio. Presumivelmente, as reportagens mencionam como a Stille Hilfe coopera com a Odessa, a rede clandestina nazista de fuga. Não estou qualificado para discutir as atividades da Stille Hilfe, mas sei uma coisa ou duas sobre a “Odessa”, e acredito que esta organização é mais o produto de fantasia do que realidade. Peço desculpas pela postagem longa, mas é um assunto próximo da minha vida profissional, e nada me deixa mais furioso do que ver pessoas que falam sem conhecimento algum sobre a “Odessa”.

O problema mais óbvio com a Odessa é o próprio nome. Se você está organizando uma rede super secreta de fuga para membros da SS, você realmente a nomearia com um acrônimo que significa Organização de Ex-Membros da SS (Organisation der ehemaligen SS-Angehörigen)? Acho que não.

A verdade sobre as organizações de fuga nazistas, sob nuvens de cogumelos de fumaça, é que elas eram muito semelhantes à uma organização filantrópica, ou talvez mesmo a uma rede de células terroristas chamada Al-Qaeda. Após a guerra, havia incontáveis organizações que ajudavam na fuga de nazistas, e alguns destes grupos tinham nomes – tais como “Konsul”, “Scharnhorst”, “Sechsgestirn”, “Leibwache”, “Lustige Brüder” – e outros não. Ao invés de um grande incêndio sob a fumaça, havia vários pequenos, a combinação de suas emissões múltiplas e tóxicas sugerindo um único grande incêndio. Assistência também seria fornecida em uma base específica, algumas vezes por um único indivíduo ou por um grupo de pessoas ao invés de um único grupo coordenado.

Contudo, os registros mostram que havia algo chamado “Odessa”. Longe de ser o monstro de tentáculos globalizado da imaginação popular, pareceu começar como pouco mais que uma palavra de ordem, e tornar-se-ia um termo vagamente atribuído ao grupo que levou fugitivos da Alemanha e Áustria para Roma e Genova, e de lá para a Espanha e Argentina. Uma das primeiras menções documentadas da “Odessa” está num memorando do Corpo de Contrainteligência dos EUA (CIC) datado de 31 de julho de 1946, no qual uma organização clandestina em um campo de prisioneiros da SS em Auerbach foi identificada. Ela não era chamada “Odessa”, mas a palavra era empregada como uma senha na ordem para ganhar privilégios e considerações especiais de alimentação da Cruz Vermelha em Augsburg.    

O termo também valia em outros lugares, em cidades como Kempten, Rosenheim, Mannheim e Berchtesgaden, onde foi aplicado a pequenas células de membros impenitentes da SSno sentido de dar-lhes um sentimento de solidariedade. Como estes grupos careciam de qualquer forma de organização e liderança, o CIC não se preocupou com eles.

Entretanto, em novembro, os tchecos informaram aos americanos que eles souberam de rumores sobre uma organização chamada “ODESSA” que estava operando na zona britânica de ocupação, e que ela teve seu primeiro encontro em Hamburgo em setembro. Em janeiro do ano seguinte, o CIC enviou um agente a um campo de internamento em Dachau, que relatou que havia uma organização de fuga operando lá sob o nome de “ODESSA” e organizada pelo tenente-coronel da SS Otto Skorzeny, ele próprio um prisioneiro.

“Isto é feito com a ajuda de guardas poloneses,” relatou o agente, “que os estão ajudando a receber ordens de Skorzeny para escapar.” O informante revelou que a organização era “mundial” e que ela fornecia documentos portugueses para aqueles que queriam viajar para a Argentina. Para aqueles que decidiram permanecer na Alemanha, o grupo forneceria emprego e documentação. Entretanto, nem os americanos nem os britânicos foram capazes de verificar quaisquer das afirmações do informante. “Personagens-chaves têm sido vigiadas atentamente,” relatou o CIC, “mas nenhuma de suas atividades tem se estendido além do estabelecimento de contato com antigos membros da SS em seus locais.” O CIC também achava que o nome de Skorzeny era usado apenas como “suporte e prestígio”.

A ideia de que Otto Skorzeny bolou uma sociedade secreta é fantasiosa, até porque quase todo movimento que ele fazia era monitorado pelos americanos, e provavelmente, por outras nações. Skorzeny também não era, sendo franco, inteligente ou discreto o suficiente para gerenciar uma rede clandestina de fuga.

Ao longo dos meados dos anos 1940, os serviços de inteligência aliados receberiam uns poucos relatórios sobre a “Odessa”, mas eles sugeriam que a organização era um pouco mais do que um bote salva-vidas para antigos nazistas que queriam continuar lutando. Além disso, a natureza da Odessa parecia mudar dependendo de quem estava sendo interrogado. Em dezembro de 1947, o CIC em Donauwörth interrogou um antigo oficial da SS chamado Robert Markworth, que foi preso por uma tentativa de suborno. Markworth afirmou que ele estava em uma missão secreta para a Odessa, missão que era infiltrar-se no governo militar russo e não tinha nada a ver com fuga.

No começo daquele ano, os americanos ficaram sabendo por um informante que o modo de contatar a organização era simplesmente se misturar com a multidão em estações ferroviárias principais até que alguém fosse abordado por uma pessoa dizendo a palavra ODESSA. O informante, que os americanos não conheciam e que havia se apresentado como voluntário, tentou a sorteem Hanover, onde ele encontrou um tal de “Herbert Ringel”, que afirmou que o objetivo da Odessa era o planejamento de uma “eventual revolução”. A informação atravessou o grupo e foi espalhada por uma rede de contatos, nenhum dos quais conhecia o nome da próxima pessoa na cadeia. O método de identificação era a presença de três pequenas marcas na forma de um triângulo na base do polegar e do dedo indicador da mão direita. “Ringel” também mostrou ao informante sua carteira de identificação (Odessa Ausweis), que mostrava o suposto símbolo da Odessa em sua frente: duas flechas cruzadas sobre as letras “ODESSA”. Os americanos classificaram o informante como F3, que indicava que sua falta de fiabilidade não poderia ser julgada e que a informação era possivelmente verdade.

De fato, o que ele havia relatado tinha todo jeito de desinformação, e uma tentativa amadora de fazer isso. A noção de que a Odessa forneceria aos seus membros documentos de identificação era absurda, e a presença das três marcas era igualmente improvável. Também parecia improvável que um membro da Odessa ofereceria tais segredos a um estranho em uma estação ferroviária em Hanover.

No mesmo ano, outra organização se autodenominando Odessa foi descoberta em Rosenheim pelo CIC, apesar de parecer consistir de pouco mais de uma dúzia de homens, alguns dos quais tendo sido aprisionados previamente por roubo e possessão de armas. O CIC relatou que tinha se infiltrado no grupo e notou que a palavra Odessa era usada como uma espécie de senha. O líder do grupo, Hans Schuchert, foi descrito como um “soldado SS fanático que sempre saudava seus colegas com um ‘Hail Odessa’.” Em um baile dançante no Gasthaus Plestkeller em Ziegelberg nos arredores de Rosenheim, Schuchert reuniu um número de membros da SS. “Agora vem a dança pela Odessa,” disse ele. “Isto significa muito para a SS.” Apesar de alguns convidados ficarem chocados, ninguém – incluindo alguns policiais presentes – registraram qualquer queixa.

Uma pessoa que ficou interessada na Odessa foi Simon Wiesenthal. Em 3 de abril de 1952, Wiesenthal escreveu uma longa carta ao jornalista alemão Ottmar Katz sobre  ouro nazista e como o tesouro estava sendo supostamente usado para financiar a fuga dos nazistas. Na carta, uma cópia vagabunda da qual está guardada nos Arquivos Nacionais em Washington, Wiesenthal diz a Katz sobre várias sociedades secretas nazistas, tais como a Scharnhorst, Sechsgestirn, Edelweiss, Spinne e PAX. Wiesenthal também escreve sobre a Odessa, a qual, ele informa Katz, é uma organização de fuga que transportava fugitivos para Bispo Hudal em Roma e de lá eles partiam para Madri e América do Sul.

A fonte de Wiesenthal para seu conhecimento sobre a Odessa era Wilhelm Hoettl, um antigo membro da SD que estava administrando redes altamente duvidoss para os americanos até que eles o dispensaram em setembro de 1949[1]. A informação que ele reuniu tinha sido avaliada como pobre e o CIC o considerou desonesto. Também havia uma suspeita que ele leiloava informação a quem pagasse mais alto, não importando de que lado da Cortina de Ferro o dinheiro viesse.

Também não deve haver dúvidas de que muito do que Wiesenthal disse a Katz em sua carta era ainda mais idiotice fornecida a ele por Hoettl. É interessante que a carta para Katz tenha terminado no arquivo de Hoettl nos Arquivos Nacionais dos EUA. Consequentemente, é extremamente difícil confiar em qualquer coisa que o ingênuo Wiesenthal apresentaria mais tarde ao mundo relativo à Odessa e como os nazistas escaparam.

Mesmo nazistas como Reinhold Kops, que escreveu um conjunto de memórias sinceras em 1987, negaram a existência de tal organização chamada Odessa. Alfred Jarschel, cujo livro fantasioso Fugindo de Nuremberg está repleto das estórias mais ultrajantes dobre as fugas nazistas – incluindo a “escapada” de Martin Bormann – era cético em relação a Odessa, e a via mais como uma forma de Wiesenthal vender material a jornalistas.

Além disso, Erich Priebke, o antigo capitão da Gestapo preso em Roma, me disse que a Odessa é um mito. “Sempre digo que Odessa é uma invenção dos ingleses,” diz ele, se referindo a Frederick Forsyth. “Teria sido sortudo se alguém tivesse me ajudado, mas não havia tal Odessa.” Priebke citou a falta de assistência financeira que ele sofreu como evidência de que o grupo não existia.

Frederick Forsyth ouviu sobre a estória em um artigo do Sunday Times escrito por Antony Terry em julho de 1967, na qual a função da Odessa era descrita, e como seu grande golpe foi o resgate de – quem mais? – Martin Bormann. A fonte de Terry para a estória era ninguém menos que Simon Wiesenthal. Tivesse o editor de Terry sabido que a fonte principal de tal informação era um antigo membro do SD chamado Wilhelm Hoettl, então ele teria descartado o artigo.

Ou talvez não. Acima de tudo, a Odessa, como Frederick Forsyth a concebeu, é uma grande estória de ficção.            


Nota:

[1] Wilhelm Hoettl, uma fonte comprovadamente desonesta, foi usado no Julgamento de Nuremberg como testemunha de acusação, afirmando que tivera uma conversa com Adolf Eichmann, quando então o seu chefe na Questão Judaica teria confirmado que 4 milhões de judeus tinham sido mortos em vários campos de concentração e cerca de 2 milhões morreram de outras formas, totalizando o famoso número do Holocausto, 6 milhões.

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"Por que eu acredito que Simon Wiesenthal é uma Fraude"

http://epaubel.blogspot.com.br/2013/03/hol-por-que-eu-acredito-que-simon.html

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O BRICS deve se lançar ao espaço

Pedro Riopardense

Defesanet, 21 de Abril, 2014

 
A cooperação na área de lançadores e de satélites poderia ser um dos pontos altos do BRICS. Os cinco sócios do bloco possuem indústrias aeroespaciais sólidas e sofisticadas e três deles, China, Índia e Rússia, realizaram disparos bem sucedidos. Herdeira da União Soviética, a Rússia se destaca. Coloca homens no espaço e realiza praticamente todas as missões de suprimento da Estação Espacial Internacional. Os feitos da República Popular da China falam por si, realizando voos tripulados e estabelecendo bases para uma instalação própria capaz de alojar homens e laboratórios em órbita da Terra em um futuro próximo. Por sua vez, a Índia realiza corriqueiramente disparos de satélites com peso superior a uma tonelada.

Os feitos do Brasil, diante desses gigantes, são relativamente modestos, mas estabelecemos um bom recorde no disparo de foguetes de sondagem suborbitais. O país apostava pesadamente na parceria tecnológica com a Ucrânia, ao integrar a Alcântara Cyclone Space (ACS), empresa binacional que pretende explorar serviços de satélites a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. No entanto, o quadro político do país coloca em dúvida a viabilidade do programa. Kiev se aproxima da União Europeia e dos Estados Unidos, que veem o esforço brasileiro com suspeita, apesar de nossa adesão clara ao MCTR, Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis.

A Agência Espacial Europeia opera o Centro de Lançamentos de Kourrou, na Guiana Francesa e não vê com bons olhos o possível surgimento de um concorrente. O governo brasileiro já investiu R$ 1 bilhão no CLA para cumprir os termos do acordo espacial assinado em 2002. Parte desse dinheiro foi empregada como contrapartida no desenvolvimento do Cyclone 4. Para o Brasil, a parceria garante a troca de experiência e de tecnologia na construção de foguetes. A Ucrânia será beneficiada pelo uso da base de lançamento de foguetes em Alcântara (MA). O local é considerado privilegiado por estar próximo à linha do Equador, o que garante boas condições climáticas e um menor custo para impulsionar o foguete até a órbita.

Segundo o cronograma original, o primeiro lançamento deveria ter ocorrido em dezembro de 2010, mas foi adiado para dezembro de 2012. Agora, não se espera um lançamento até 2015. A cooperação com Kiev poderia ser ampliada com a construção de satélites. O Brasil necessita, em médio prazo, de um satélite geoestacionário para ajudar na previsão do tempo e integrar o Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres.

Vários problemas colaboraram para o atraso. Comunidades quilombolas (formadas por descendentes de escravos) vivem na região e criaram obstáculos para o projeto, que também teve de enfrentar as autoridades ambientais federais e estaduais. As obras, finalmente, tiveram início em setembro de 2010. A área de 500 hectares incluirá as estruturas do Complexo Técnico, do Complexo de Lançamento e da área de armazenamento de propelente. O governo brasileiro também construirá um porto em Alcântara, o qual, além de atender às necessidades do sítio de lançamento da ACS, para receber cargueiros de até 100 mil toneladas.

O acordo entre Brasil e Ucrânia nunca foi uma unanimidade. Sofre forte oposição de setores da Força Aérea Brasileira e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que gostariam de aplicar mais recursos no Veículo Lançador de Satélites (VLS), de concepção nacional. O Brasil já aplicou mais de US$ 2 bilhões no programa, sem nenhum resultado positivo. Depois de um grande acidente, em 25 de agosto de 2003, que dizimou a equipe que trabalhava no projeto, o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) recebeu apoio de técnicos russos. Com base nessa cooperação, as falhas do foguete foram sanadas. Um novo terceiro estágio foi desenhado, usando combustível líquido em lugar de sólido, ampliando a capacidade de carga do lançador. Esse projeto, no entanto, foi substituído por outro, de tecnologia alemã.

O BRICS

O Itamaraty e a chancelaria russa são os maiores entusiastas do processo de institucionalização dos BRICS. O bloco torna-se cada vez mais importante para a formação e regulação de uma ordem multipolar. Nesse âmbito, o surgimento de uma agência espacial do grupo ofereceria uma excelente alternativa de mercado aos Estados Unidos e à União Europeia. A cooperação poderia explorar o desenvolvimento conjunto de um novo vetor na classe do Cyclone 4 (ou superior) a combustível líquido, com o possível uso dos propulsores sólidos do VLS como segundo ou terceiro estágio ou o desenvolvimento binacional de um novo lançador de pequeno porte envolvendo tecnologia brasileira de combustível sólido desenvolvida para o VLS e para a Missão Completa Brasileira.

Outro ponto interessante está no desenvolvimento de satélites de sensoriamento remoto e de comunicações. Brasil e China montaram uma parceria bem sucedida na série CBERS. Infelizmente, o último disparo não foi bem sucedido, mas os anos de experiência conjunta dão uma boa ideia das potencialidades do programa.

Para a viabilização do CLA seria interessante obter repasse de tecnologia para o gerenciamento de sítios de lançamento, de maneira a evitar potenciais problemas e minimizar danos no caso de eventual catástrofe. Outro ponto atrativo envolveria a fabricação in loco de combustível líquido em instalações montadas em Alcântara (a proposta ucraniana não abrangia essa possibilidade e estabelecia o arriscado procedimento de transportar o material preparado em navios).

Brasil e África do Sul também poderiam se beneficiar de um maior intercâmbio técnico e de pessoal com a China, a Índia e a Rússia. A verdade é que a cooperação entre os países do BRICS apresenta um potencial que vai muito além da área econômica. Explorá-lo é questão de tempo.



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domingo, 13 de abril de 2014

[ARM] Embraer inova com cargueiro gigante

Defesanet, 24 de Novembro, 2013


O gigante está trancado em uma sala grande como ele mesmo, um prédio inteiro para acomodar com folga o corpo de 35 metros. O modelo em escala real do novo jato da Embraer, o cargueiro militar KC-390, criado para cumprir várias missões, fica isolado na reservada unidade de Eugênio de Melo, a 20 quilômetros da sede da empresa em São José dos Campos. O jato em modelagem ainda está sem as asas - seriam necessários outros 35 metros.

Do mesmo local, há pouco menos de 40 anos, o Brasil influenciou guerras travadas no Oriente Médio e no norte da África, armou Exércitos latinos e equipou ex-colônias portuguesas, Em certa época, o complexo de Eugênio de Melo abrigou a extinta Engesa - de onde saíram os blindados batizados com nomes de serpentes brasileiras, Urutu e Cascavel.

O tempo é outro e a influência está regida pelo mercado. O KC-390 é uma iniciativa focada na ampla demanda internacional detectada pela Embraer - cerca de 700 aeronaves desse tipo serão negociadas em dez anos por US$ 50 bilhões. "Acreditamos que poderemos entrar na disputa por alguma coisa como 15% desse total, na faixa de 105 unidades", diz o presidente da Embraer Defesa e Segurança, Luiz Carlos Aguiar.

Incluído no Programa de Aceleração do Crescimento - o PAC da presidente Dilma Rousseff , o cargueiro e reabastecedor vai custar R$ 4,9 bilhões até a fase de construção dos 2 protótipos de desenvolvimento. A propriedade intelectual é da FAB. A etapa de encomendas pode chegar a mais R$ 3 bilhões ao longo de 12 anos, estima o Ministério da Defesa.

O programa já acumula 60 cartas de intenção de compra emitidas por seis diferentes governos: Brasil (28 jatos), Colômbia (12), Chile (6), Argentina (6), Portugal (6) e República Checa (2). "Penso que, mais uma vez, chegamos na hora certa em um segmento restrito, não atendido pelas ações tradicionais", diz Aguiar.

De fato, o nicho está virtualmente vago. O principal concorrente é nobre: o poderoso Hércules C-130J, o mais recente arranjo da Lockheed-Martin, para o seu quadrimotor tur-boélice. A primeira versão voou faz 60 anos. Até 2010, haviam sido entregues 2.500 deles para 70 clientes.

O KC-390 leva vantagem em quase tudo, a começar pelo fato de estar saindo agora das telas dos engenheiros de projeto. Mais que isso, transporta 23 toneladas contra os 20 mil quilos do C-130. Voa a 860 km/hora, mais alto, a 10,5 mil metros, e a um custo significativamente menor.

A concorrência de outras fontes é rarefeita e não se encaixa exatamente no mesmo viés, como é o caso do japonês Kawasaki C-2, em teste desde 2010, ou do europeu A-400M. Os dois são maiores e têm valor de aquisição elevado, de US$ 120 milhões a US$ 180 milhões. O modelo da Embraer fica na faixa pouco superior a US$ 80 milhões. E carrega tecnologia embarcada de última geração.

Os motores, por exemplo, permitem a operação nas pistas não pavimentadas e sem acabamento. As turbinas V-2500 da americana International Aero Engines não estão sujeitas à sucção de detritos. Todo o projeto utiliza conceitos avançados.

Na Embraer, o grupo de profissionais que trabalha no desenvolvimento do cargueiro e avião-tanque para reabastecimento em voo, é conhecido como "o pessoal do KC".

Jovens quase todos, como o engenheiro Rodrigo Salgado, de 34 anos. Formado na escola de Itajubá, sul de Minas, trabalha na empresa há 11 anos. No programa, cuida dos aviônicos e da integração dos sistemas. Considera a possibilidade de conviver com o produto ainda por muito tempo, decorrência "do desenvolvimento contínuo e da atualização das funções".

De olho na impressionante cabine, repleta de telas digitais, terminais móveis e painéis de instrumentos que dão ao módulo ares de ônibus espacial, um piloto de ensaios da Força Aérea torcia para estar na equipe dos testes, previstos para o primeiro semestre de 2015. Combatente, "com mais de 2 mil horas de voo" em supersônicos, e contemplado com um curso de especialização de custo estimado em US$ 1,2 milhão, o oficial avalia o advento do KC-390 na Aeronáutica "pelo valor estratégico a aviação militar do País será capaz de se manter no ar, em quaisquer condições, com aeronaves de abastecimento, de ataque, transporte e inteligência, todas de projeto e fabricação próprios".

O gigante da Embraer é parte de um acordo de cooperação entre a EDS e a Boeing. A composição abrange o compartilhamento de conhecimento tecnológico e avaliação conjunta de mercados. É um bom modelo. A Boeing produz transportadores de carga e reabaste-cedores em voo hánão menos de 45 anos. AEmbraer é inovadora e imbatível em redução de custos. Conforme Luiz Aguiar, a análise dos mercados potenciais incluirá clientes que não haviam sido considerados nas projeções iniciais para o KC-390. É uma forma cuidadosa de dizer que os alvos passam a incluir países como a Itália e, talvez, mesmo os Estados Unidos.

Entrevista: Paulo Gastão Silva, diretor do Programa KC-390

"HÁ MERCADO EM TODA PARTE"

O diretor do Programa KC-390 trabalha na Em-braer há 13 anos - e desde 2005, depois de um longo período na área de inteligência de mercado, atua na definição dos conceitos que levaram ao maior avião produzido pela empresa. Paulo Gastão é engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), turma de 1976.

Como nasceu o programa KC-390?

No começo, aí por 2005, a ideia era outra, era a de usar partes do modelo civil 190, integradas a uma nova fuselagem com rampa traseira, e um ou outro ajuste. Era muito menor e mais leve. Ele foi revelado como C-390, apenas cargueiro, em 2007. Ao longo de 2008, a FAB, que já tinha entrado na história, revelou parâmetros do que seria o avião que serviria à Força. Redefinimos do zero. Trabalhamos em um avião completamente novo. O contrato foi assinado em abril de 2009. Assim foi a gênese.

Houve dificuldades, claro.

Ah, sim. Cada fase tem algo difícil. A primeira foi convencer as pessoas que vinham da outra ideia, a migrar para o novo avião. Depois tem o momento em que se diz "Será que vai dar certo? Nunca fizemos nada desse tamanho..Foi a etapa do ganho de credibilidade. Hoje, temos 1.500 pessoas trabalhando no KC-390.

Em relação ao mercado mundial, em que regiões 0 KC pode prosperar?

É um mercado muito espalhado, tem potencial em toda parte, não depende de poucos e grandes clientes. Nosso estudo de mercado endereçado indica demanda por 700 aeronaves em 80 países (menos Estados Unidos, Rússia e China) em 10,15 anos. A gente quer disputar pelo menos 15% disso.

Quais são os concorrentes do 390?

Há um projeto conjunto da índia e da Rússia, mas em fase preliminar. Os chineses falam do Y-9, um turboélice. Ainda indefinido. O japonês Kawasaki está focado na necessidade interna. Tem quem pergunte sobre o A-400M, da Airbus. É uma outra classe de carga, alcance maior, preço bem maior. Sobra o C-130J. Não é pouco. A Embraer encara todo concorrente com muito respeito.

Haverá uma versão de ataque ao solo como o Hércules Spectre/Stinger II, armados com canhões, mísseis, foguetes e bombas?

Não está no portfolio e depende de haver um cliente que eventual; mente queira essa versão. Acho difícil.

O avião sairá da fábrica de Gavião Peixoto, a 300 km de São Paulo. Que tamanho terá o hangar de produção?

O pavilhão maior, da montagem final, é imenso, tem 13 mil metros quadrados com pé direito de 22 metros, cerca de sete andares de altura. altura. O vão livre para movimentar o avião tem de ter 18 metros. Fica pronto nas próximas semanas. O módulo por onde passará o KC-390 é um hangar de 40 por 60 metros.


KC-390 Programa Avança e o 1º Voo em 2014

Defesanet, 11 de Abril, 2014

A EMBRAER Defesa e Segurança aproveitou a XVIII Feria Internacional del Aire y del Espacio” ( FIDAE 2014), 25 a 30 Mar 14 para apresentar sua estrutura e empresas coligadas. Também a estreia publica de Jackson Schneider, como presidente da EMBRAER Defesa e Segurança (EDS).

Programou duas entrevistas coletivas, e as realizou, o que não ocorreu em edições anteriores da FIDAE.. A principal foi uma atualização sobre o Programa KC-390. Foi a primeira desde a entrevista coletiva, que ocorreu na LAAD 2013, em abril daquele, quase um ano antes. Já que, em Le Bourget 2013, não houve uma apresentação sobre o Programa KC-390

Jackson Schneider , que junto com o VP do Programa KC 390 Paulo Gastão recepcionaram a imprensa internacional. Conduziu as atividades o Assessor de Imprensa da EDS, o jornalista Valtécio Alencar..

Paulo Gastão foi incisivo e claro, ao apresentar o cronograma do Projeto KC-390, que mostra, com satisfação, está sendo cumprido.

Para representar o avanço da construção do protótipo para ter o voo inaugural no quarto trimestre deste ano, foram apresentados slides de peças estruturais usinadas, algumas com 12 a 16 metros. As peças usinadas estão sendo produzidas na OGMA, em Portugal.

E a construção das instalações onde serão montados os KC-390, em Gavião Peixoto (GPX).

 
Um plano de negócios com a perspectiva de mercado por regiões foi apresentado pela primeira vez.

Esta oportunidade perguntado se a decisão do Programa F-X2, tinha afetado os dois acordos que a EDS e a Boeing formalizaram referente ao KC-390:

1 – Acordo de cooperação comercial, e,
2 – Cooperação Técnica .

Jackson Schneider foi enfático em afirmar, que a parceria firmada coma Boeing é para um período de 40 anos e não serão decisões outras, que afetarão este relacionamento. Ao que o editor de DefesaNet complementou que séria “eterno durante este período”.

Atualmente a EDS e a FAB, através da COPAC, estão negociando o contrato de aquisição das 28 aeronaves KC-390, que deverá ser assinado ainda no primeiro semestre deste ano.


domingo, 6 de abril de 2014

[POL] De que lado Deus está?

Patrick Buchanan, 04/04/2014


Em sua defesa no Kremlin da anexação da Criméia pela Rússia, Vladimir Putin, mesmo antes de começar a listar as batalhas onde sangue russo foi derramado em solo da Criméia, falou de uma conexão mais antiga e profunda.

A Criméia, disse Putin, “é o local dos antigos khersons, onde o príncipe Vladimir foi batizado. Sua opção espiritual de adotar a Ortodoxia predeterminou toda a base cultural, civilizatória e de valores humanos que uniram os povos da Rússia, Ucrânia e Belorússia.”

A Rússia é um país cristão, estava dizendo Putin.

Este discurso lembra o último discurso em dezembro onde o antigo chefe da KGB falou da Rússia como uma resistência ao decadente Ocidente.

“Muitos países euro-atlânticos se afastaram de suas raízes, incluindo os valores cristãos. As políticas estão sendo feitas colocando a família tradicional e a união homossexual no mesmo nível, uma fé em Deus e uma crença em Satã. Este é o caminho para a decadência.”

Alguém ouviu algum líder ocidental, por exemplo, Barack Obama, falar desta forma ultimamente?

Culpando os “bolchevistas”, que cederam a Criméia à Ucrânia, Putin declarou, “Deus os julgará.”

Afinal, o que está acontecendo?

Com o Marxismo-Leninismo morto, Putin está dizendo que a nova batalha ideológica é entre um Ocidente em decadência liderado pelos EUA e um mundo tradicionalista que a Rússia estaria orgulhosa de liderar.

Na nova guerra de crenças, Putin está dizendo que Deus está do lado da Rússia. O Ocidente é Gomorra.

Os líderes ocidentais, que comparam a anexação da Criméia por Putin ao Anschluss de Hitler com a Áustria, que o consideram um assassino da KGB, que o chamam de “ladrão, mentiroso e assassino que governa a Rússia,” como o Wall Street Journal fez, acreditam que a afirmação de Putin em estar num terreno moral mais elevado é além de blasfemo.

Mas Vladimir Putin sabe exatamente o que está fazendo, e sua nova reivindicação tem uma linhagem venerável. O ex-comunista Whittaker Chambers, que denunciou Alger Hiss como espião soviético, estava, na época de sua morte em 1964, escrevendo um livro sobre “A Terceira Roma”.

A primeira Roma foi a Cidade Santa e o berço da Cristandade que caiu diante de Odoacer e seus bárbaros em 476. A segunda Roma foi Constantinopla, Bizâncio (hoje Istambul), que caiu diante dos turcos em 1453. A cidade sucessora de Bizâncio, a Terceira Roma, a última Roma para os crentes antigos, era Moscou.

Putin está dizendo que Moscou é a atual Cidade Sagrada e posto de comando da contra-reforma contra o novo paganismo.

Putin está se conectando a algumas nas correntes mais poderosas do mundo moderno.

Não somente em seu desafio do que o mundo vê como uma manobra arrogante da América para a hegemonia global. Não somente em sua defesa tribal dos russos perdidos deixados para trás quando a URSS desintegrou.

Ele também está aderindo à rebelião e resistência mundiais ao crescimento de uma revolução social e hedonista secular que está engolindo o Ocidente.

Na guerra cultural pelo futuro da humanidade, Putin está plantando firmemente a bandeira da Rússia ao lado da Cristandade tradicional. Seus discursos recentes fazem eco ao Papa João Paulo II, cuja encíclica Evangelium Vitae em 1995 acusou o Ocidente de abraçar uma “cultura da morte.”

O que o Papa João Paulo quis dizer com crimes morais?

A capitulação do Ocidente à revolução sexual do divórcio fácil, da promiscuidade alarmante, pornografia, homossexualismo, feminismo, aborto, casamento gay, eutanásia, suicídio assistido – a substituição dos valores cristãos pelos valores de Hollywood.

A colunista Anne Applebaum escreve que ela ficou impressionada em Tbilisi ao escutar de um advogado da Georgia declarar a respeito do antigo regime pró-ocidente de Mikhail Saakashvili, “Eles eram do LGTB.”

“Foi um momento de reflexão,” escreveu Applebaum. O medo e a repulsa pela pandemia de casamento gay tornaram-se globais. Em Paris, um milhão de franceses marcharam em um protesto raivoso.

O autor Masha Gessen, que escreveu um livro sobre Putin, diz de seus últimos dois anos, “A Rússia está se auto-designando como líder de um mundo antiocidental.”

Mas a guerra a ser travada contra o Ocidente não com o uso de foguetes. É uma guerra cultural, social, moral onde o papel da Rússia, nas palavras de Putin, é “prevenir as idas e vindas em direção de uma escuridão caótica e um retorno ao estado primitivo.”

Seria a “escuridão caótica” e o “estado primitivo” da humanidade antes que a Luz viesse ao mundo?

Este autor ficou perplexo ao ler no jornal bimestral de janeiro-fevereiro do Conselho Mundial das Famílias em Rockford, Illinóis, que dos “dez melhores acontecimentos” no mundo em 2013, o número um era “Rússia emerge como líder pró-família.”

Em 2013, o Kremlin impôs o banimento da propaganda homossexual, uma proibição da propaganda de aborto, a criminalização do aborto após 12 semanas e a criminalização contra insultos sacrílegos contra crentes religiosos.

“Enquanto as outras superpotências marcham em direção do paganismo,” escreve Allan Carlson do CMF, “a Rússia está defendendo os valores judaico-cristãos. Durante a era soviética, os comunistas ocidentais corriam para Moscou. Este ano, o Congresso Mundial das Famílias VII será realizado em Moscou, 10 a 12 de setembro.” Vladimir Putin dará o tom no encontro?

Na nova Guerra Fria ideológica, de que lado ficará Deus?   


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Cheiro de guerra no ar

Eric Margolis, 29/03/2014


Cheiro de guerra está no ar. Cinquenta mil soldados russos e blindados foram descolados para a fronteira oriental da Ucrânia. A Europa e Washington preocupam-se que o renascido Exército Vermelho possa partir para o ocidente através da Ucrânia, Romênia e os países bálticos – mesmo na Polônia.

O Ocidente está sofrendo de um caso grave de calafrios.

Não somente as potências ocidentais estão preocupadas, elas estão descobrindo que não dispõem dos meios de parar possíveis incursões russas no que era o antigo Império Soviético.

Elas não deveriam se surpreender que a Rússia está novamente dando sinais de vida.

Frederico, o Grande, o conhecido rei-guerreiro prussiano, alertou: “Aquele que tenta defender tudo, não defende nada.”

Todo jovem oficial deveria ter as palavras de Frederico gravadas em sua mão direita. Logo após o colapso da União Soviética em 1991, um pequeno número de estrategistas, incluindo este analista que vos escreve, alertou a OTAN, “não se mova para o leste. É uma ponte longe demais.”

O líder soviético Mikhail Gorbachev havia concordado em deixar a rebelde Alemanha Oriental escapar do controle soviético – mas em troca, pediu a promessa da OTAN para não se mover para leste em direção das áreas previamente dominadas pelos soviéticos na Europa Oriental e Cáucaso. Os EUA e a OTAN concordaram, então rapidamente quebraram sua promessa.

O avanço da OTAN em direção da Europa Oriental, o Báltico e o Cáucaso – sem mencionar a antiga Ásia Central Soviética – acabou levando a aliança com os EUA diretamente sobre as fronteiras russas. Os sistemas antimísseis americanos foram programados para serem instalados na Polônia, próximo do território russo. Novas bases americanas foram criadas na Bulgária, Romênia e Ásia Central.

Esforços públicos dos EUA para trazer a Ucrânia e a base naval de Sevastopol na Criméia sob o controle da OTAN – sem dúvida para punir a Rússia pelo seu apoio à Síria e ao Irã – provou ser a gota d´agua para o Kremlin.

Falar grosso é fácil. Defender a Europa Oriental de uma possível invasão russa não será. O problema principal é que, enquanto as garantias da aliança EUA/OTAN avançaram em direção das sensíveis fronteiras russas, sua capacidade militar não foi. Ou seja, comprometimento sem capacidade[1].

As forças russas poderiam tomar o controle das repúblicas bálticas em uma tarde. Boa parte de sua população é formada de russos étnicos.

A OTAN não está preparada e equipada para uma guerra na Ucrânia: suas tropas estão posicionadas muito a oeste, sem sistemas logísticos ou cobertura aérea. Além disso, as potências europeias, exceto por um punhado de neonazistas na Dinamarca e nacionalistas na Ucrânia, não querem fazer parte de uma guerra contra a Rússia – isto foi deixado para os falcões vivendo confortavelmente em Washington.

A barreira das sanções econômicas que Washington está impondo à Rússia é um ato de pré-guerra. Devemos lembrar que as sanções americanas ao Japão em 1941 levaram ao ataque de Tóquio contra as potências ocidentais.

Durante a Guerra Fria, os EUA tinham algo como 400.000 soldados na Europa, 800 aviões de guerra e poderosas forças navais. Hoje, os EUA têm somente 43.000 soldados no continente: duas brigadas de combate e alguma força aérea e pessoal de logística. Os velhos dias quando a União Soviética tinha 50.000 tanques apontados para a Europa Ocidental acabaram, mas as modernas forças armadas russas ainda podem causar estrago.

Enquanto isso, os EUA espalharam suas forças por todo o globo no que Frederico, o Grande, chamaria de um esforço de defender tudo. Em particular, as tropas americanas foram para o Afeganistão, Iraque, então Kuweit e muitas de volta ao país. As divisões mais fortes da América estão agora defendendo o Kansas e o Texas ao invés de Fulda Gap[2] e Hanover na Alemanha.

O poder militar americano foi dissipado em pequenas guerras coloniais, exatamente como aconteceu com a Grã-Bretanha no século XIX. Quando as tropas imperiais britânicas tiveram que enfrentar os soldados alemães, eles foram massacrados. Analogamente, as forças americanas, reconfiguradas após o Vietnã para enfrentar guerrilhas[3], não estão preparadas hoje para enfrentar os netos do outrora poderoso Exército Vermelho.

Precavido, o paciente Vlad Putin não deverá intervir agora na Polônia. O perigo real, o que aconteceria se os russos étnicos vivendo no Báltico, Ucrânia e Romênia se rebelassem e exigissem reunificação com a Mãe Rússia?[4]

Deveria a Rússia ir à sua ajuda? A Europa e os EUA deveriam estar preparados para o risco de uma guerra nuclear por causa de lugares desconhecidos como Luhansk, Kharkov, Chisinau ou Kaunus?

Na Ucrânia e Criméia estamos vendo agora os resultados da geopolítica agressiva ocidental. A Rússia não pode ser subestimada. Uma crise entre potências nucleares jamais deveria ser permitida. É loucura suicida. Como uma criança brincando com uma faca.

Notas:

[1] Basicamente o que ocorreu em 1939, quando a Grã-Bretanha e França deram garantias de soberania à Polônia contra as intenções do Terceiro Reich em expandir suas fronteiras a leste, mesmo sem ter condições militares e logísticas de enfrentar a Alemanha.

[2] Fulda Gap é uma área entre a fronteira Hesse-Turíngia (a antiga fronteira interna entre as Alemanhas Ocidenal e Oriental) e Frankfurt am Main que contém dois corredores de planícies onde tanques poderiam se deslocar em um ataque surpresa dos soviéticos e seus aliados do Pacto de Varsóvia para alcançar o Rio Reno.

[3] Guerrilhas, terrorismo, guerra urbana, etc. são classificadas modernamente como “Guerra Irregular”, já que não empregam métodos tradicionais das guerras entre nações.

[4] Situação análoga à da Europa nos anos 1930, quando em 1938 e 1939, alemães étnicos vivendo na Áustria, Tchecoslováquia e Polônia, exigiram unificação com a Alemanha.

sábado, 5 de abril de 2014

Os últimos pagãos da Europa

Fabio Marton

A força era relativamente pequena. Não passava de 300 cavaleiros e soldados de infantaria. Estava às portas da cidade de Gdansk, no litoral da atual Polônia. O uniforme era um paradoxo: túnicas com cruzes pretas cobriam as armaduras. Na cabeça, os elmos eram decorados com chifres. Pareciam demônios agindo em nome de Jesus Cristo. Há controvérsia sobre o que se seguiu.Não está claro se as portas foram abertas, se houve cerco ou combate. O fato é que a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos entrou em Gdansk sem muita resistência. Sua missão era retomá-la para o rei da Polônia, após uma revolta de comerciantes alemães negar a autoridade do soberano. Com a cidade conquistada, em 13 de novembro de 1308, todos os resistentes foram mortos. Eram, em sua maioria, compatriotas alemães. As mulheres e crianças tiveram o mesmo destino. Depois, os invasores atearam fogo no local. Cachorros lambiam o sangue que escorria copioso nas ruas. As crônicas medievais, provavelmente exageradas, falam em 10 mil vítimas no que ficou conhecido como o Massacre de Gdansk.

Os Cavaleiros Teutônicos esperavam o pagamento real pelo serviço prestado. Como não se chegou a um acordo, convocaram mais 4 mil cavaleiros, expulsaram a guarnição polonesa e prosseguiram conquistando e arrasando todas as cidades da Pomerélia, deixando a Polônia sem litoral. O massacre gerou um processo em Roma, durante o qual a Ordem chegou a ser excomungada pelo papa, mas terminou absolvida. Se um massacre covarde não parece uma boa introdução para uma história de cavalaria, é porque as Cruzadas do Norte não foram feitas de honra e glória, mas forjadas em combates desiguais, fanatismo, traição e ambição mercantil. Como no Oriente Médio, guerreiros que fizeram votos de pobreza e castidade cometeram saques e estupros. Por mais de dois séculos, a cristandade esteve em guerra santa contra diversos povos do Mar Báltico, os últimos pagãos da Europa.

 
Cristianismo, armado e perigoso

Após a conquista de Jerusalém pela Primeira Cruzada, em 1099, a cristandade viveu uma fase de violenta euforia. A conversão dos vikings, iniciada no século 8, havia se dado de forma relativamente pacífica, por contato, diplomacia e trabalho missionário - ninguém precisou conquistá-los para impor a crença à força. A opção começou a parecer atraente após a vitória na Cidade Santa. Em 1147, o abade Bernardo de Clairvaux anunciou a primeira das Cruzadas do Norte: "Proibimos expressamente que por qualquer razão se faça paz com esses povos, seja por dinheiro ou tributo, até chegar o tempo em que, com a ajuda de Deus, eles ou sua religião sejam destruídos". As palavras de Bernardo (mais tarde São Bernardo) têm origem um ano e meio antes, quando o papa Eugênio III convocou a Segunda Cruzada para recuperar um território perdido no Oriente Médio. Os alemães da Saxônia pediram uma reunião com Clairvaux, já então um grande ideólogo e propagandista da guerra santa, para demonstrar que o inimigo infiel estava na porta de casa e não era preciso viajar ao Oriente Médio para enfrentá-lo. Numa faixa entre a Alemanha e a Rússia, povos de diversas etnias recusavam a conversão. Uma dessas regiões era a Prússia, habitada então por eslavos. Em 997, o missionário São Adalberto foi morto pelos prussianos a golpes de lança depois que tentou, sem sucesso, cortar a árvore sagrada dos pagãos com seu machado. Sua cabeça desfilou pelas ruas. Havia também apostasia, como a que ocorreu na ascensão do príncipe Niklot, dos vendos, em 1131, que retomou crenças ancestrais depois de dois príncipes cristãos.

Os povos do báltico viviam em sociedades violentas, com frequentes ataques de uns contra os outros. Haviam sido empurrados para a região na Antiguidade, por inimigos eslavos, celtas e germânicos, até conseguirem se proteger atrás de uma faixa de pântanos e florestas que cruzava a atual Polônia. Não tinham escrita. O que se sabe deles vem de sítios arqueológicos, folclore e relatos de seus inimigos. Suas armas eram primitivas: lanças, machados e porretes. Tinham cavalos, mas eram pôneis, menores que os de outros europeus. Sabiam fazer fortificações de madeira e não tinham armas de cerco, como catapultas, torres e trabucos. Os únicos entre eles que chegaram a ter um exército foram os lituanos, que adotaram as tecnologias de seus inimigos - todos os outros eram bandos desorganizados de guerreiros, a típica imagem do bárbaro.

Com barcos de construção similar aos dos vikings, os pagãos que viviam no litoral faziam incursões de pirataria. Por ironia, seu alvo costumava ser os países nórdicos. "Jovens [bálticos] só conseguiam adquirir o dinheiro necessário para comprar uma fazenda e casar por meio da guerra - pilhagens traziam dinheiro, gado, cavalos e escravos", afirma o historiador William Urban, da Universidade de Monmouth (EUA). Influenciado por Bernardo de Clairvaux, o papa Eugênio III lançou uma bula, em 13 de abril de 1147, afirmando que guerrear contra os infiéis na Península Ibérica e no Báltico teria o mesmo efeito que fazer isso no Oriente Médio. O guerreiro seria perdoado por todos os seus pecados, ganhando acesso direto ao Paraíso.

Guerra confusa

O príncipe Niklot reagiu ao avanço cristão na região com um ataque preventivo aos saxões, dando início à Cruzada dos Vendos. Foi uma guerra curta e confusa. Forças unidas de dinamarqueses, saxões e poloneses, comandadas muitas vezes por bispos e abades, invadiram o território eslavo, saqueando, queimando templos e batizando guerreiros derrotados pelo caminho. No cerco à principal fortificação dos vendos, Dobin, os saxões exigiram o batismo das tropas dentro da fortaleza. Niklot não só aceitou como prometeu pagar tributos a eles. Os cruzados passaram água na cabeça dos inimigos e deram as costas, como se a missão estivesse cumprida. Tanto o príncipe como a maioria dos "convertidos" continuariam pagãos até o fim da vida. Em 1160, após uma revolta, o líder dos vendos foi morto em combate.

Muitos cristãos tomaram a nova regra papal como licença para abusar dos infiéis. Em 1186, com problemas financeiros por causa de uma guerra interna, o rei Sverre da Noruega foi buscar recursos saqueando as terras dos bálticos. Em 1195, atendendo a um pedido por reforços militares em uma missão na Livônia, os suecos se limitaram a encher seus barcos de carga roubada e ir para casa celebrar. Com a autorização do papa, os nórdicos tiveram a chance de voltar a fazer "ataques vikings à moda antiga", descreveu o historiador Eric Christiansen, autor do livro The Northern Crusades (sem tradução). Na Livônia (território das atuais Estônia e Letônia) havia uma missão cristã desde 1185.

Ela começou pacífica, mas se militarizou quando os religiosos perderam a paciência com as conversões insinceras dos pagãos. Em 1193, o papa Celestino III autorizou privilégios cruzadistas para quem reforçasse as tropas na região. Liderando esses exércitos, o bispo Bernardo de Hanover acabou morto, em 1198. Isso levou Inocente III, sucessor de Celestino, a decretar a Cruzada da Livônia. A guerra durou quase um século, e se estendeu a vários outros alvos, como os estonianos e letões. A Ordem Livônia dos Irmãos da Espada foi fundada em 1202. O território conquistado por esses monges guerreiros passou a ser chamado de Terra Mariana - a "terra santa" da Virgem Maria, não menos importante que Jerusalém.

Ainda hoje, os Irmãos da Espada são particularmente infames entre os povos bálticos: "Em nome de Cristo, atacavam, saqueavam, sequestravam, estupravam, matavam", escreveu o historiador letão Visvaldis Mangulis. Estupros eram obviamente proibidos pelos votos de castidade, mas, segundo Christiansen, "o irmão-cavaleiro estava exposto a fortes tentações, pois o poder frequentemente deixava as mulheres à sua mercê. Elas eram butim, e a expectativa de estupro era o que mantinha seus auxiliares nativos motivados. Alguns cavaleiros devem ter se juntado a eles".

Enquanto prosseguia a Cruzada da Livônia, entraram em ação os Cavaleiros Teutônicos. Surgida no final do século 12 em Acre, na Palestina, a ordem era formada por guerreiros que viviam em conventos, renunciando à propriedade e aos prazeres carnais, até mesmo à mesa: se alimentavam quase só de pão, água e alguns vegetais insossos. Os Cavaleiros passaram a procurar novos alvos após as sucessivas derrotas dos cristãos na Palestina, principalmente com a queda de Jerusalém em 1187. Em 1226, aceitaram o convite do duque polonês Conrado I, de Masóvia, para tomar parte em sua até então malfadada campanha contra os prussianos. Conrado deu a eles um feudo em Chelmno, que se expandiria em um novo país.

Com uma força de 10 mil homens, em 1233, os cruzados levariam quase 30 anos para conquistar a Prússia. Os territórios passaram a fazer parte do Ordensstaat, o Estado da Ordem, ao qual se juntaram as conquistas dos Irmãos da Espada, em 1236, após a Batalha de Saule, na qual os lituanos praticamente aniquilaram os monges-guerreiros - os sobreviventes se juntaram aos teutônicos. Com pagãos escasseando na região, em 1241, a Ordem passa a atacar outros cristãos, invadindo a República de Novgorod, de ortodoxos russos, com apoio do papa e dos reinos da Suécia e Dinamarca. Foram derrotados na Batalha do Gelo, imortalizada no filme Alexander Nevsky (1938), de Sergei Eisenstein. A cavalaria russa empurrou os cruzados para dentro de um lago congelado - com suas armaduras pesadas, o gelo se partiu e 20 deles foram ao fundo. A humilhação delimitou a fronteira máxima da ação dos cruzados: eles nunca mais voltariam a atacar os russos. O território do Ordensstaat cresceu em outras direções e chegou a dominar todo o litoral do Báltico entre a Alemanha e Rússia no final do século 15.

A vingança dos poloneses

Em 1283, a Ordem voltou-se contra o Grão-Ducado da Lituânia, o último e mais poderoso reino pagão da Europa. E também seu maior fracasso. Mesmo após um século de guerras e devastação, os lituanos só aumentaram seus domínios, chegando a uma imensa faixa entre os mares Negro e Báltico. Em 1385, a guerra acabou em derrota moral para os Cavaleiros, quando o grão-duque Jogalia da Lituânia casou-se com a rainha Edviges da Polônia, convertendo-se ao catolicismo e unificando os reinos. Quando uma revolta nativista no Ordensstaat foi apoiada pelos lituanos, os Cavaleiros declararam guerra aos países unificados, em 1409. Foi um desastre: acabaram trucidados na Batalha de Grunwald, um ano depois. A ordem perdeu suas possessões bálticas, principalmente para a Polônia-Lituânia, até os últimos e pequenos feudos monásticos, em 1583, após a Guerra da Livônia - quase dois séculos após os últimos pagãos da Europa terem se inclinado à pia batismal e 446 anos após o início das Cruzadas do Norte. A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos existe ainda hoje, depois de abandonarem qualquer propósito militar. Algo que só aconteceu em 1929.


O panteão báltico

Os pagãos do Mar Báltico não eram uniformes: falavam línguas eslavas, bálticas (como o letão e o lituano) e fínicas (como o finlandês e o estoniano), completamente ininteligíveis entre si. Mas sua religião tinha várias características comuns. Os povos bálticos reverenciavam a natureza, com os deuses principais relacionados ao céu, e os menores à terra, florestas e agricultura. Dievas era o deus do céu, onde tinha uma fazenda. Sua noiva era Saule, o Sol. Todos os dias, Saule se movia numa carruagem para seu casamento com Dievas. O rival de Dievas era Menuo, a Lua, o deus da guerra. Em algumas tradições, a Lua conseguia se casar com o Sol, mas era infiel, e por isso era punida por Perkunas, o deus do trovão. A deusa da terra era chamada Zemyna ("mãe terra"). Os cristãos relacionaram Zemyna à Virgem Maria e Dievas a Deus - ainda hoje essa é palavra para o deus cristão em lituano (do qual adotamos a grafia).

 
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[PGM] Cientista político afirma que Primeira Guerra teve caráter de alerta

Defesanet, 05 de Abril, 2014


Autor do volume Der Grosse Krieg: Die Welt 1914 - 1918 (A Grande Guerra: O Mundo entre 1914 e 1918), o cientista político Herfried Münkler fala à Deutsche Welle sobre a memória da Primeira Guerra, o papel desempenhado pela Alemanha no contexto do conflito armado e as lições que a Guerra deixou.

Münkler é um dos mais importantes especialistas alemães que se dedicaram a uma análise profunda da Primeira Guerra Mundial e do significado do conflito para a história posterior da humanidade.

Deutsche Welle: Desde o início de 2014 a mídia tem lembrado a eclosão da Primeira Guerra Mundial, há 100 anos. A razão disso é realmente o centenário da Guerra ou estamos vivenciando uma nova forma de elaboração da história?

Herfried Münkler: Uma coisa não exclui a outra. Muitas vezes essas comemorações são uma oportunidade de se debruçar com calma e de maneira mais profunda sobre um tema. E isso mostra que a "Grande Guerra", como os britânicos, franceses e italianos chamam o conflito, deu o tom da violência que assolaria o século 20. É possível aprender muito estudando sobre a guerra, sobretudo sobre o que não se deve fazer. Penso que este tenha sido realmente um grande acontecimento, ao qual a Europa deve se deter para avaliar o que aconteceu de errado no século 20, e fazer melhor no século 21.

Na Alemanha, chamamos essa guerra que aconteceu entre 1914 e 1918 de "Primeira Guerra Mundial". Por que o título do seu livro é "A Grande Guerra"?

O conceito "Grande Guerra" tem, a princípio, algo estranho. E tem também um caráter de alerta, pelo menos para os ouvidos alemães. Pois foi a Guerra que, como guerra europeia, determinou o século 20. É possível dizer: sem esta guerra, não teria havido a Segunda Guerra Mundial, possivelmente também não teria havido o nazismo, nem o stalinismo, nem a tomada de poder bolchevique em Petrogrado [hoje São Petersburgo]. Ou seja, teria sido um século totalmente diferente. De forma que o termo "Grande Guerra" é adequado.

Se a Primeira Guerra Mundial teve esse efeito de alerta para todo o século 20 que se seguiu, por que ela é tão pouco presente na elaboração do passado alemão? Pelo menos muito menos que a Segunda Guerra Mundial.

É preciso diferenciar: nos países vizinhos da Europa Ocidental, como Itália, França e Reino Unido, a Primeira Guerra Mundial está muito presente como a Grande Guerra. Isso tem a ver com o fato de que as perdas humanas causadas por esta guerra foram maiores para estes países do que as da Segunda Guerra.

Na Alemanha isso é diferente, pois a Segunda Guerra Mundial estava atrelada a deslocamentos forçados, às destruições causadas pelos bombardeios, aos crimes praticados pelos alemães e à culpa alemã. Quanto mais você se locomove rumo ao Leste Europeu, mais presente é a Segunda Guerra Mundial na memória. É possível falar de um abismo entre Leste e Oeste na cultura da memória na Europa.

Um século depois da eclosão da Guerra, ressurge o debate sobre a culpa pelo conflito. O livro Os Sonâmbulos, do historiador australiano Christopher Clark, desencadeou esta discussão. Ele revida a tese, aceita há tempos, de que a culpa teria sido somente dos alemães, apontando como as grandes potências estavam inaptas a evitar a Guerra que começou nos Bálcãs. Qual é sua posição nesse debate sobre a culpa pela Guerra? Esse debate leva a algum lugar?

Não acho que o conceito de culpa seja útil neste contexto. Trata-se de um conceito moral ou talvez jurídico, formulado no artigo 231 do Tratado de Versalhes, segundo o qual toda a culpa é creditada à Alemanha. Mas esta é uma discussão que não precisamos levar adiante hoje em dia. Ou seja, faz mais sentido falar sobre a responsabilidade e voltar os olhos para as estimativas e decisões incorretas daquele momento. Isso é o que acredito ser útil hoje para aprender alguma coisa 100 anos depois da Guerra.

Qual foi o papel do Império Alemão naquela época na Europa Central?

A Alemanha não compreendeu seu papel peculiar de centro geopolítico. Não se pode dizer que não teria acontecido uma guerra aqui ou outra acolá no século 20, mas teria sido possível localizar essas guerras. O que os alemães fizeram foi reunir diversos caldeirões de conflito, ou seja, o conflito manifesto nos Bálcãs, com o conflito latente, mas de forma alguma agudo em torno da Alsácia-Lorena, e também o conflito em torno do controle do Mar do Norte. Isso foi uma burrice política óbvia.

O senhor diz que não se deve perder a periferia de vista. Devemos nos preocupar atualmente com o que acontece na Crimeia? Pode eclodir lá uma nova guerra mundial, 100 anos depois da Primeira?

Precisamos nos preocupar, mas não por causa da ameaça de uma guerra, mas pelas tensões políticas e pelas consequências das sanções econômicas. Mas principalmente porque fica claro aqui que o poder militar ainda é um fator determinante da política europeia – naturalmente apenas na periferia. O governo alemão não deixou o conflito acontecer, mas se envolveu em suas diversas etapas várias vezes como mediador – e isso não porque tenha relevância militar, mas apenas por causa de seu peso econômico e político.

No seu livro, o senhor aponta também a Ásia como região de conflito em potencial. O senhor chega a comparar a China de hoje com o Império Alemão da época.

Digno de nota é o fato de a China ser um país tão grande e tão forte, sobretudo economicamente, embora não se sinta reconhecida do ponto de vista político. Essa é uma situação que se assemelha em muitos aspectos ao Império Alemão de 1914. Pode-se dizer: muita coisa que deu errado na Europa de 1914 poderia também dar errado na China hoje. Ou seja, os políticos e estadistas chineses deveriam analisar detalhadamente a história que precedeu a Primeira Guerra Mundial e a Crise de Julho [desencadeada pelo atentado contra o casal herdeiro da coroa austríaca] a fim de não cometerem os mesmos erros de então.

Ressurgiu na Alemanha a discussão a respeito de uma participação mais intensa do país nas missões militares europeias. Como o senhor vê isso, tendo em vista nosso próprio passado? Fica bem para a Alemanha participar destas missões exatamente por causa do seu passado? Ou não?

Invertemos a pergunta: Fica bem para a Alemanha, tendo em vista seu passado, ficar de fora de tudo e, aos olhos dos vizinhos europeus, parecer covarde ou oportunista? Os outros puxam o carro em que os alemães seguem sentados e vão ficando cada vez mais gordos e se deliciando. Ou seja, acredito que esse papel especial, que tanto a Alemanha Ocidental quanto a extinta Alemanha Oriental desempenharam ,e com razão, precisa definitivamente acabar 25 anos depois da Queda do Muro de Berlim. Precisamos ser um povo, uma nação como as outras. Não precisamos nos destacar, mas não devemos fugir da raia quando somos requisitados.