quinta-feira, 3 de julho de 2014

Indiana Jones e suas histórias não resolvidas

José Francisco Botelho

Ele derrotou soviéticos e nazistas, explorou lugares incríveis e achou tesouros desconcertantes. Mas, ao fazer tudo isso, mais confundiu do que explicou: como misturam pitadas de realidade com muita ficção, as aventuras do arqueólogo mais famoso do cinema não solucionam os mistérios que levantam. Saiba o que a ciência tem a dizer e desvende conosco os 7 maiores enigmas da série.
 


01. ONDE ESTÁ A ARCA PERDIDA?

Símbolo do pacto entre Deus e a humanidade, ela contém as tábuas de pedra onde estão escritos os 10 mandamentos. Mas pode estar em jerusalém ou na áfrica – se é que existe.

Se a arca existir, provavelmente está enterrada em Jerusalém ou na Etiópia. Como ela foi parar lá é uma história que começa há 2 300 anos, num deserto do Oriente Médio, quando Deus faz uma aliança com a humanidade (ou pelo menos parte dela). Foi selado um pacto entre o deus Javé e o povo hebreu, com os 10 Mandamentos: duas tábuas de pedra contendo o código de conduta para as futuras gerações de fiéis. Essas tábuas teriam sido guardadas pelo profeta Moisés numa arca de ouro e madeira, que é considerada uma das maiores relíquias da religião judaica – e, por tabela, do cristianismo. Enigmático e poderoso, o baú ganhou o nome de Arca da Aliança.

De acordo com o Talmude, livro sagrado do judaísmo, a arca teria sido guardada, por volta de 1000 a.C., num grandioso templo construído pelo rei Salomão em Jerusalém – cidade que os hebreus tinham acabado de tomar dos cananeus. A arca teria ficado lá até o ano 586 a.C., quando Jerusalém foi invadida pelos exércitos de Nabucodonosor, rei da Babilônia. O Templo de Salomão foi destruído. Em seu lugar, foi erguido o Segundo Templo. Que também acabou destruído, no ano 71 d.C., pelos romanos, que expulsaram a maior parte dos judeus de lá.

Mesmo com todas essas peripécias, ninguém encontrou a arca, o que leva alguns pesquisadores a acreditar que ela possa estar enterrada. O antigo local do templo fica hoje na metade árabe de Jerusalém. O grande problema é que, para escavar o local, seria necessário danificar o Domo da Rocha – que é um dos santuários muçulmanos mais importantes do mundo. Coisa que, tirando alguns grupos evangélicos extremistas dos EUA, ninguém pensa em fazer. Em suma: mesmo se a arca estiver enterrada nesse lugar, ela dificilmente será recuperada.

A Bíblia conta uma história diferente. Prevendo a invasão dos babilônios, o profeta Jeremias teria escondido a arca num certo monte Nebo, que fica na atual Jordânia. Acontece que, entre os antigos hebreus, “ir para o monte Nebo” era uma expressão proverbial que correspondia a ir para o beleléu. Ou seja: é possível que a arca não exista mais. “O mais provável é que a arca tenha sido derretida pelos babilônios”, escreve o historiador Eric Cline no livro From Eden to Exile, de 2007 (“Do Éden ao Exílio”, por enquanto sem tradução em português).

Isso, é claro, se é que ela algum dia existiu – coisa que está longe de ser um consenso entre os especialistas. “É importante lembrar que o texto bíblico não é factual”, diz o teólogo Rafael Rodrigues da Silva, da PUC-SP, especialista no Velho Testamento. “A arqueologia não deve levar ao pé da letra um texto que não relata os fatos exatamente como aconteceram.”

Seja como for, as buscas continuam. E os caçadores mais modernos preferem olhar para o leste da África. Segundo tradições locais, a arca estaria escondida num recinto secreto da Igreja de Santa Maria de Sião, no vilarejo de Axum, na Etiópia. A caixa de Javé teria sido levada à África em 950 a.C. por Menelik, filho do rei Salomão e da rainha de Sabá – um antigo Estado que realmente existiu naquela região. Em 2008, arqueólogos alemães desenterraram em Axum um suntuoso palácio construído no século 10 a.C., suposta morada de Menelik e seus descendentes. Mas não encontraram a arca.

Arma de guerra

Os 10 Mandamentos teriam sido entregues a Moisés quando os hebreus fugiam do antigo Egito, onde foram escravos, rumo a Canaã – terra descrita como presente divino aos judeus e que hoje corresponde a Israel, Palestina e partes do Líbano. Isso teria ocorrido por volta de 1300 a.C. Quando os hebreus chegaram à Terra Prometida, entraram em guerra com os habitantes da região . E a arca era levada para as batalhas, pois acreditava-se que sua simples presença seria capaz de garantir a vitória dos judeus.

A Bíblia descreve em detalhes as instruções dadas por Deus para a construção da arca. “Assim falou Javé a Moisés: ‘Farás uma arca com madeira de acácia: seu comprimento será de 2 côvados e meio; sua largura, de 1 côvado e meio; sua altura, também de 1 côvado e meio. Tu a revestirás com ouro puro por dentro e por fora’.” Em medidas modernas, isso dá 1,1 metro de comprimento por 66 centímetros de altura e largura. Ainda segundo a Bíblia, dois querubins de ouro foram esculpidos na tampa da arca, com os rostos inclinados e as asas esticadas para a frente. Ela era guardada num altar portátil, do qual apenas um grupo de sacerdotes (conhecidos como levitas) era autorizado a se aproximar. Se um pecador ousasse tocar o recipiente, a ira do Senhor o fulminaria no ato.

A arca foi capturada por um povo inimigo, os filisteus, por volta de 1200 a.C. Mas, logo após o roubo, o talismã divino teria mostrado seu poder: ídolos pagãos amanheciam com as cabeças cortadas, ratos invadiam as casas e os azarados filisteus eram assolados por temíveis hemorróidas. Maldições lançadas pelo poder mágico da arca.

O QUE DIZ INDIANA

• Em Caçadores da Arca Perdida, que é o primeiro filme da série, Indiana precisa impedir que a Arca da Aliança caia nas mãos de Hitler – que pretende usá-la para conquistar o mundo.

• A arca está num local chamado Poço dos Espíritos. Para encontrá-lo, Indy usa o Cetro de Rá (que, quando posicionado diante de uma miniatura da cidade de Tânis, revela a localização do poço).

• A arca é capturada pelos nazistas. Eles resolvem abri-la, mas só encontram pó. Essa ousadia desencadeia a ira divina, que envia uma fumaça mortal e elimina de uma só vez todos os vilões do filme.

• Após recuperar a arca, Indiana quer levá-la para um museu. Mas, no fim das contas, a relíquia superpoderosa vai parar nos depósitos do Exército americano, onde é tratada como segredo de Estado.

02. O SANTO GRAAL EXISTE?

Chave para a vida eterna, ou mera obra de ficção: qual é a verdade sobre o cálice usado por jesus na última ceia?

É provável que Jesus Cristo tenha, em algum momento de sua vida, utilizado um cálice para beber. Mas o Graal como o conhecemos, que teria sido usado na Última Ceia e tem poderes mágicos, é uma obra de ficção. Isso não impediu que pesquisadores buscassem o objeto. Um deles foi o medievalista alemão Otto Rahn, que era membro do Partido Nazista. Ele jamais encontrou nada que se parecesse com qualquer descrição do Graal, mas suas andanças deram origem à lenda de que Hitler tentou um dia se apoderar do cálice de Cristo – idéia na qual se baseia, justamente, o enredo do filme Indiana Jones e a Última Cruzada.

A primeira aparição do Graal ocorreu por volta de 1190, nas páginas do livro Le Conte du Graal, do francês Chrétien de Troyes. A obra conta a história de Percival, um dos cavaleiros da Távola Redonda. Ele tenta encontrar um recipiente misterioso, cravejado de jóias. O livro não explica a origem nem o significado do estranho objeto – que é descrito no livro como um graal, antiga palavra francesa que indica uma travessa usada em refeições aristocráticas. O mistério caiu no gosto do leitor medieval, e o Graal começou a aparecer em vários outros livros. Embora a maioria dos escritores o descrevesse como um cálice, outros imaginaram o Graal como um prato, uma tigela ou uma jóia. Mas a versão mais célebre está nas páginas do Roman de l’Histoire du Graal, escrito por Robert de Boron entre 1200 e 1210.

Nessa obra, pela primeira vez o Graal foi descrito como o cálice utilizado por Jesus para beber vinho na Última Ceia. O livro também dizia que a taça teria poderes divinos, como exorcizar demônios, fazer a terra florescer, revelar segredos apocalípticos e curar feridas.

No século 19, quando a arqueologia fez suas primeiras grandes descobertas, houve uma explosão de interesse pelo Graal. A partir daí novas versões, das plausíveis às mais alucinadas, começaram a surgir. Em 1818 o erudito austríaco Joseph von Hammer-Purgstall afirmou que o Graal, na verdade, era um símbolo demoníaco adorado pelos templários, a ordem de monges guerreiros perseguida pela Igreja no século 14. Mais tarde, em 1898, um arqueólogo amador encontrou um vaso medieval dentro de um poço na cidade inglesa de Glastonbury – lugar onde, segundo lendas medievais, teria sido enterrado um dos portadores do Graal.

Na década de 1930, escavações arqueológicas na Palestina desenterraram uma magnífica taça de vidro e prata, aparentemente da mesma época em que Jesus viveu. O artefato está exposto no Metropolitan Museum de Nova York. Mas, apesar do entusiasmo que esse e outros achados despertaram, não há evidências garantindo que algum deles realmente tenha passado pelas mãos de Jesus Cristo (muito menos que tenha poderes mágicos).

O QUE DIZ INDIANA

• Em Indiana Jones e a Ultima Cruzada, o Graal está escondido no Cânion da Lua Crescente, que fica na cidade de Iskenderun (território que, hoje em dia, pertence à Turquia).

• O Graal é descoberto por 3 cavaleiros ingleses. Dois voltam para a Europa. O terceiro bebe do cálice, ganha vida eterna e fica guardando a relíquia – até que Indiana vem bater à sua porta.

• O Graal não é de ouro. É bem simples, feito de madeira (enfatizando a humildade de Cristo). Ele tem poder de cura – isso permite a Indiana salvar a vida do pai, que havia levado um tiro dos nazistas.

• Indiana também bebe do Graal e ganha vida eterna. Mas a imortalidade só vale no Cânion da Lua Crescente. Indy prefere ir embora – e volta a ser um reles mortal.

03. O QUE SÃO AS LINHAS DE NAZCA?

Desenhos enigmáticos, que só são visíveis de avião e cobrem um deserto do Peru. Homenagem aos deuses? Ou aeroporto de ETs?

No desértico vale de Nazca, no sul do Peru, está um dos maiores enigmas da arqueologia moderna. São cerca de 800 linhas, com centenas de quilômetros de extensão, que formam desenhos geométricos como trapézios e espirais e também representam animais gigantescos: há pássaros, répteis, um macaco, uma assustadora aranha de 2 quilômetros de comprimento e até uma figura humana acenando com a mão erguida. Quem fez essas marcas no solo, e o que elas significam?

A resposta exata desapareceu junto com a civilização Nazca, que floresceu no sul do Peru entre os anos 200 a.C. e 600 d.C. – e, assolada por desastres naturais, foi varrida da história no início do século 7. Mas falta de chuvas, o clima seco e a escassez de habitantes na região ajudaram a conservar as linhas (chamadas de “geóglifos” pelos cientistas). Elas foram descobertas pelo mundo moderno na década de 1920, quando vôos comerciais começaram a sobrevoar o vale de Nazca. E, a milhares de quilômetros de altura, os passageiros se depararam com um cenário impressionante: visto de cima, o deserto parecia uma gigantesca tela. O grande mistério está no tamanho dessas gravuras – elas são tão grandes, mas tão grandes, que só de um avião ou helicóptero poderiam ser vistas com clareza. Mas, se os nazcas não tinham aeronaves, como faziam para desenhar as gravuras com tanta precisão? De lá para cá, surgiram várias hipóteses. No livro Carruagens dos Deuses, de 1968, o ufólogo suíço Erich von Daniken afirmou que os geóglifos de Nazca foram desenhados com a ajuda de alienígenas e serviriam como pistas de pouso para os ETs (embora seja bem difícil imaginar uma nave pousando em uma pista em forma de macaco). Outra teoria diz que não houve participação de aliens, e as linhas realmente foram desenhadas pelo povo de Nazca – que supostamente tinha balões primitivos e, portanto, era capaz de sobrevoar o próprio território. Também houve quem dissesse que as linhas são mapas astronômicos, representando a posição das estrelas.

Foi só às vésperas do século 21 que o enigma começou a se resolver. Em 1997 uma equipe internacional de arqueólogos, engenheiros e técnicos de computação gráfica desembarcou no vale de Nazca com equipamentos de última geração. Eles tiraram fotos aéreas do local e usaram as imagens para montar um mapa tridimensional, que permitiu explorar os geóglifos a partir de vários ângulos. Ao que tudo indica, as linhas realmente foram desenhadas pelos nazcas, que levaram séculos para completar os desenhos utilizando um método relativamente simples. O solo da região é formado por rochas vulcânicas, que são escuras e ficam espalhadas sobre uma base de areia. Os nazcas só precisaram movimentar as rochas e ordená-las de acordo com o desenho que queriam fazer – cada rocha forma um pontinho da imagem.

E, ao contrário do que se acreditava, as linhas de Nazca podem ser vistas com clareza ao nível do solo, dispensando o uso de aviões, balões ou naves espaciais. Os nazcas ficavam em pé em cima das linhas, e pronto: os desenhos ganhavam vida e se tornavam visíveis a partir de elevações do terreno. Hoje, a maioria dos especialistas acredita que o vale de Nazca servia como palco para gigantescas cerimônias religiosas. Os geóglifos marcariam o trajeto de enormes procissões destinadas a atrair a atenção dos deuses. E o que os antigos peruanos pediam aos céus com tanta gana? Provavelmente, eles queriam água – dádiva realmente divina numa região muito seca, em que o índice de chuvas não passa de meio milímetro por ano.

O QUE DIZ INDIANA

• Indy encontra uma mensagem, escrita por um arqueólogo envolvido na busca das caveiras, que menciona as linhas de Nazca.

• O bilhete, que traz desenhos e está escrito numa língua extinta, diz: “Siga as linhas que só os deuses podem ler”.

• As linhas de Nazca funcionam como uma espécie de mapa, que orienta a expedicão em busca das caveiras de cristal.

04. ELDORADO ERA MESMO FEITO DE OURO?

Na região da floresta amazônica, teria existido um reino secreto e riquíssimo, com templos e montanhas de ouro maciço. O metal era tão farto, mas tão farto, que o chefe do lugar chegava a se cobrir com ouro em pó. Será?

Muitos especialistas acreditam que a civilização de Eldorado, na região da floresta Amazônica, realmente possa ter existido. Mas nada indica que fosse uma cidade totalmente construída de ouro, como sugere o filme de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. As lendas a respeito surgiram no século 16, pois as riquezas encontradas nos templos e palácios incas despertaram a esperança de que civilizações ainda mais ricas, e tesouros ainda mais incríveis, se escondessem nas selvas e montanhas das Américas. As histórias da época contam que em Eldorado o ouro realmente era farto e usado em rituais religiosos.

O líder dessa civilização era o príncipe Dourado (ou “El Dorado”), termo que viria a designar a cidade em si. “Dizem que esse príncipe anda sempre coberto de pó de ouro, fino como sal, grudado em seu corpo por óleos e bálsamos, dos pés à cabeça. Sua aparência é resplandecente, como um objeto de ourivesaria trabalhado por um grande artista”, escreveu o historiador espanhol Gonzáles Fernandes de Oviedo em História Geral das Índias, de 1535.

As histórias sobre o príncipe Dourado se inspiravam na civilização chibcha, que existiu na Colômbia antes da invasão européia. Adoradores do Sol, os chibchas consideravam o ouro uma encarnação terrena da sua divindade favorita, o Deus-Sol. Uma vez por ano, o cacique chibcha se cobria de pó de ouro, pegava uma jangada até o centro da lagoa de Guatavita, que ficava próxima à atual cidade de Bogotá, e ali fazia uma oferenda com objetos de ouro.

Esse ritual, praticado por centenas de anos, já havia desaparecido quando os espanhóis invadiram a América do Sul. Mas a imaginação dos europeus se misturou a relatos dos índios, e a história foi ficando cada vez mais impressionante. A capital de Eldorado seria uma cidade chamada Omágua ou Manoa, cheia de templos e palácios reluzentes e atravessada por cordilheiras de ouro maciço. O país seria habitado por estranhas criaturas chamadas ewaipamonas – uma raça de homens sem pescoço, cujo rosto ficava na altura do peito. E as fronteiras de Eldorado seriam defendidas por mulheres guerreiras, que foram batizadas de “amazonas” – nome que foi inspirado por uma nação de mulheres-soldados da mitologia grega.

As expedições

A principal busca começou em 1542, quando, acompanhado por apenas 60 aventureiros, o espanhol Francisco de Orellana se embrenhou na selva amazônica para procurar Eldorado. Ele começou sua busca na parte equatoriana da floresta. Foi uma expedição dura. Quando a comida acabou, os exploradores começaram a comer o couro de suas botas e roupas. Os que não morreram de fome tiveram de sobreviver a ataques de índios da região. Mesmo assim, a expedição conseguiu avançar mais de 4 mil quilômetros até a foz do rio Amazonas, no oceano Atlântico. Orellana viveu para contar a história, e ganhou fama como o primeiro europeu a navegar o rio mais extenso do mundo. Que ele batizou de um jeito curioso. Quando Orellana foi atacado por índios de cabelos compridos, durante sua expedição, pensou que fossem mulheres guerreiras. Por isso, em homenagem a elas, batizou de Amazonas o grande rio recém-descoberto.

Mas Orellana não encontrou o que procurava – e, durante, os 3 séculos seguintes, Eldorado continuou sendo o alvo de buscas vertiginosas na América do Sul. Além de Orellana, dezenas de outros aventureiros percorreram Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana e Brasil em busca da cidade de ouro. Antes de Orellana, em 1536, Jimenez de Quesada vasculhara os planaltos da Colômbia – numa expedição que resultou na fundação da cidade de Bogotá. Mas não encontrou Eldorado. Gonzalo Pizarro (irmão de Francisco Pizarro, que havia encontrado os tesouros do Império Inca) também tentou. Ele partiu de Quito com 350 espanhóis e 4 mil índios. O grupo escalou os Andes e atravessou florestas em condições terríveis. 70% dos exploradores morreram, e os que sobreviveram voltaram de mãos vazias. Em 1540, foi a vez de a coroa inglesa cair na chamada “síndrome de Eldorado”, como a busca foi apelidada por historiadores. Enviado às Américas pela rainha Elizabeth, o aventureiro Walter Raleigh vasculhou durante anos o interior da Guiana e do Suriname – mas só encontrou tribos esparsas e algumas pepitas de ouro.

Após séculos e séculos de frustração, pesquisadores conseguiram localizar supostos vestígios da civilização do ouro.

Em 1856 o geólogo alemão Alexander von Humboldt achou, nas proximidades de Bogotá, uma estatueta de ouro maciço representando um cacique dourado, de pé no centro de uma jangada suntuosa, que poderia ter sido o príncipe Dourado. Outro artefato idêntico foi descoberto por agricultores colombianos na mesma região, em 1969. No início do século 20 uma firma inglesa tentou drenar as águas da lagoa de Guatavita – local onde os chibchas faziam seus rituais religiosos. Mas um deslizamento de terra impediu que essa moderna busca de Eldorado fosse concluída. Para muita gente, o tesouro que arrastou tantos aventureiros à morte continua lá no fundo, escondido pelas águas da lagoa sagrada.

O QUE DIZ INDIANA

• O reino é totalmente feito de ouro, e foi erguido cerca de 7 mil anos atrás. Tem conexão com as caveiras de cristal.

• A cidade dourada recebe o nome fictício de Akator. Ela é guardada por índios de aspecto físico normal.

• O explorador Francisco de Orellana (leia mais na página ao lado) é citado como o primeiro a tentar desbravar Eldorado.

• O filme diz que Orellana morreu durante a exploração. Na vida real, isso não ocorreu (Orellana sobreviveu).

05. EXISTEM ALIENS NA ÁREA 51?

Do tamanho da cidade de São Paulo, essa base militar está cheia de segredos e tecnologias que parecem de outro mundo.

Com 1 500 km2 de tamanho, o equivalente à cidade de São Paulo, a base militar Área 51, que fica no estado de Nevada, é uma espécie de continuação do mistério de Roswell – pois é nela que estaria guardada a nave espacial encontrada pelo Exército dos EUA. Em 1989, um homem chamado Bob Lazar deu uma entrevista na TV dizendo que tinha trabalhado na base, como físico e engenheiro. Sério, com jeitão de nerd e nenhuma pinta de louco, Bob Lazar parecia ser uma testemunha confiável. Segundo ele, os EUA estavam trabalhando secretamente em uma nave alienígena. Lazar disse ter passado 4 meses tentando copiar a tecnologia extraterrestre.

Desconfiados da história, alguns pesquisadores foram atrás de provas, mas não conseguiram encontrar registros da passagem de Lazar pela Aeronáutica dos EUA. O Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde Lazar disse ter estudado, também nunca tinha ouvido falar dele. Lazar explicava essas incongruências dizendo que, para desacreditá-lo, o governo apagara os registros dele por todas as instituições em que tinha passado.

Mesmo sem convencer, a história de Bob Lazar atiçou o interesse sobre a Área 51. Em 1996, um engenheiro mecânico veio a público dizer que tinha trabalhado lá, durante os anos 50, em um simulador de disco voador construído para treinar pilotos americanos. Ele também alegava ter convivido com um extraterrestre chamado J-Rod, descrito como tradutor telepático. Outro homem, chamado Dan Burisch, disse ter trabalhado na clonagem de vírus alienígenas, também com o alien J-Rod. Houve até quem mostrasse vídeos do suposto interrogatório de um alien. Coisa que, para a ciência, jamais ocorreu. “A comunidade científica não aceita a idéia de que o planeta já tenha sido visitado por extraterrestres”, diz Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, um dos principais astrônomos brasileiros e autor de Quem É Vivo Sempre Aparece – Pequeno Ensaio sobre a Procura dos ETs (DPA Editora). Se os aliens nunca estiveram aqui, não podem ter ido parar na Área 51.

Mas existe uma explicação para as lendas relacionadas à Área 51. Lá foram desenvolvidos e testados os aviões mais secretos da Guerra Fria. Aeronaves como o mítico U-2, que tinha por missão espionar a URSS, o avançadíssimo SR-71 Blackbird, capaz de voar 3 vezes mais rápido do que o som, e o F-117 Nighthawk, uma das máquinas mais estranhas que já voou sobre a Terra (ele tem um formato triangular, nada parecido com qualquer coisa vista antes). Como esses aviões eram muito esquisitos, voavam muito mais rápido do que se acreditava ser possível e não eram detectados pelos radares, podem ter sido confundidos com naves espaciais. Daí a conexão entre a Área 51 e as supostas aparições de ETs.

O QUE DIZ INDIANA

• Como na vida real, é uma base secreta do Exército americano e está localizada no estado de Nevada. Mas, no filme, o local foi batizado com um nome ligeiramente diferente: Hangar 51.

• Os EUA utilizam a base para desenvolver tecnologia aeroespacial, como os motores usados em foguetes da Guerra Fria, e também para fazer testes com bombas nucleares.

• Aparece um carro com a inscrição “1B7731”, o que supostamente é uma mensagem secreta para os fãs da série. Já existem teorias a respeito na internet, mas até agora nenhuma convincente.

• Dentro da base militar, está guardada a Arca da Aliança. Mas é uma menção rápida: o objeto fica menos de 3 segundos na tela.

06. O QUE ACONTECEU EM ROSWELL?

Um disco voador realmente caiu lá? Como uma tentativa de enganar a URSS trouxe ao mundo os ETs mais famosos da história.

Em julho de 1947, o fazendeiro William Brazel estava passeando por seu rancho, na cidadezinha americana de Roswell, e encontrou uma coisa estranha: uma maçaroca de tiras de borracha, papel-alumínio e algumas varas. O fazendeiro chamou o xerife, que chamou os militares – e, daí, surgiria um dos maiores mistérios do século 20. Tudo porque, para explicar o que havia ocorrido, a Aeronáutica dos EUA divulgou um comunicado dizendo que aqueles destroços, na realidade, eram pedaços de um disco voador.

Ao que tudo indica, os destroços não tinham nada de alienígenas. Eram pedaços de um balão ultra-secreto, que os americanos estavam desenvolvendo para espionar a URSS. A tese dos destroços extraterrestres teria sido inventada por militares dos EUA, que queriam evitar um acirramento das tensões com os soviéticos. “Essa mitologia em torno de Roswell jamais teria se desenvolvido se o aparato [o balão] não fosse parte de um programa governamental destinado a monitorar os testes nucleares soviéticos”, diz o ufólogo americano Gary Posner.

No dia seguinte, os militares mudaram sua versão, negando que os destroços fossem alienígenas – segundo a Aeronáutica, eram restos de um balão meteorológico.Mas o estrago já estava feito: a história sobre aliens estourou nos jornais americanos, e a lenda de Roswell estava formada. Em 1978, o caso ganharia ainda mais força. O major Jesse Marcel, que recolhera os destroços em Roswell 30 anos antes, disse que eram, sim, pedaços de uma nave espacial. Isso detonou uma onda de conspiracionismo e gerou livros como The Roswell Incident, de 1980, que acusa o governo dos EUA de esconder a verdade sobre os aliens.

Foram aparecendo novas testemunhas, que confundiam cada vez mais a história. Os filhos do fazendeiro Brazel deram mais detalhes sobre os destroços: eles eram feitos de um material desconhecido e inquebrável. Outra testemunha célebre foi Glenn Dennis, que trabalhava na funerária de Roswell na época do incidente. Segundo ele, a Força Aérea foi à funerária querendo comprar caixões pequenos, como os usados no sepultamento de crianças. E com um detalhe ainda mais estranho: os caixões tinham de ser hermeticamente selados.

Dennis disse ter conversado com uma amiga enfermeira, que teria ajudado os militares a fazer uma autópsia de 3 ETs – eles seriam negros, com cerca de 1,20 metro de altura. Chegou a aparecer, até, um vídeo da tal autópsia. Era uma fraude. Logo após o caso, a tal enfermeira viajou para a Europa e desapareceu para sempre (Dennis tentou se corresponder com ela, mas todas as cartas voltaram com o carimbo “destinatário falecido”).

Tentando acabar com todos os mitos, a Força Aérea dos EUA acabou fazendo, na década de 1990, uma investigação. Dela saíram dois relatórios, que negam qualquer contato com discos voadores ou tecnologia alienígena – e afirmam que os destroços faziam parte do Projeto Mogul, um balão que estava sendo desenvolvido para espionar a URSS. Os relatórios desmontavam os relatos das pessoas que diziam ter havido ETs em Roswell. Alguns dos fatos relatados pelo coveiro Dennis eram verdadeiros. Mas ele foi acusado de descontextualizar, e juntar numa história só, coisas que tinham acontecido ao longo de vários anos. Os militares compraram caixões na funerária de Dennis, mas isso aconteceu nos anos 50 – não em 1947. A tal enfermeira, que parecia invenção, realmente existiu. Mas só começou a trabalhar em Roswell um mês depois do suposto incidente com aliens.

O QUE DIZ INDIANA

• O Exército dos EUA possui caixas com a inscrição “Roswell, Novo México, 1947” e a observação “top secret” (confidencial).

• Indy afirma que esteve em Roswell, aonde teria sido chamado para examinar os destroços de um objeto voador.

• Os destroços do óvni são feitos de um material fortemente magnetizado – sugerindo uma relação com a Caveira de Cristal.

07. O QUE É A CAVEIRA DE CRISTAL?

Um objeto sobrenatural, feito por civilizações antigas? Um gerador de energia criado por aliens? Ou um golpe para enganar colecionadores?

No novo filme de Indiana Jones, aparecem várias caveiras de cristal – que, se unidas, viram uma imbatível arma de guerra. E na vida real, fora do cinema, os mitos não deixam por menos. Há quem diga que as caveiras são geradores de energia ou computadores fabricados por civilizações alienígenas. Uma das caveiras, que teria sido esculpida pelos maias 3 600 anos atrás, promete poderes ainda mais bizarros. Bastaria tocá-la para se curar de qualquer doença (ou encomendar a morte de alguém). Existe até uma seita, no México, para a qual as caveiras precisam ser reunidas até dezembro de 2012 – do contrário, a Terra sairá de órbita, com conseqüências catastróficas para a humanidade. Nada disso tem fundamento científico. Mas, na vida real, as caveiras de cristal realmente existem.

Há pelo menos 12 delas, supostamente de origem pré-colombiana, em museus e acervos particulares. A mais famosa teria sido descoberta por Frederick Mitchell-Hedges, em 1924, no Belize (América Central). É um crânio esculpido em quartzo, com 13 centímetros de altura e 5 quilos. Em 1970, o pesquisador Frank Dorland analisou o objeto, o que teria revelado dois detalhes intrigantes. A caveira realmente foi esculpida a partir de um bloco de quartzo, mas no sentido errado – o que, em tese, deveria ter quebrado o cristal. E a superfície do objeto era absolutamente uniforme, sem arranhões, sugerindo o uso de uma tecnologia que os maias certamente não tinham. Para os mais crédulos, isso serviu como prova de que as caveiras seriam obra de alienígenas. Dorland propôs uma tese um pouco menos mirabolante, mas que também não é fácil de engolir. Para ele, o objeto teria sido esculpido à mão pelos maias, com areia e água, num processo extremamente lento – que poderia ter levado de 150 a 300 anos. Será possível? O arqueólogo Paulo Zanettini, da Universidade de Campinas (Unicamp), que viu uma das caveiras no Museu Antropológico da Cidade do México, acredita que os povos da América Central eram capazes de fazer esse tipo de polimento. “A sofisticação deles era inimaginável.”

Mas, provavelmente, a solução do mistério é bem mais simples. Estudos recentes comprovaram que duas das caveiras de cristal, a do British Museum e a do Museu Quai Branly, na França, são fraudes. Os objetos contêm traços de polimento e perfurações características de instrumentos modernos, como os utilizados por joalheiros europeus a partir do século 19 – mais precisamente os do sul da Alemanha, onde as duas caveiras teriam sido fabricadas.

O QUE DIZ INDIANA

• Existem várias caveiras de cristal, mas apenas uma já foi descoberta. Acredita-se que as caveiras tenham poderes paranormais.

• Mesmo sendo feita de cristal, material que não é magnético, a caveira atrai objetos metálicos – o que supostamente é um indício do seu poder.

• A principal caveira de cristal do filme é a de Mitchell-Hedges, que realmente existe na vida real (veja mais no texto da página ao lado).

• As caveiras são motivo de disputa entre Indiana e os vilões do filme, os soviéticos, que querem transformá-las em arma de guerra.

sábado, 28 de junho de 2014

As 10 principais razões para não considerar a Idade das Trevas tão sombria

Jamie Frater

 


Acredito que possamos seguramente dizer que o período da história humana de 476 a 1.000 d.C. é o mais maligno de todos. Este período, conhecido dos historiadores como Idade Média, é ainda conhecido pela maioria dos leigos como Idade das Trevas. De fato, o termo “idade das trevas” é quase tão velho quanto o próprio período – ele foi cunhado em 1330 por Petrarca, o erudito italiano, para se referir ao declínio da literatura latina. Mais tarde, ele foi usado pelos reformistas protestantes (século XVI) e então pelos membros do Iluminismo (século XVIII) como um termo depreciativo com implicações muito maiores, pois eles viam seu próprio “iluminismo” como ausente do período anterior. Dificilmente um julgamento justo do passado. Felizmente, para os modernos estudantes de história, o termo é agora oficialmente conhecido como Alta Idade Média – um nome que não tem nenhuma conotação. Assim, tendo dado a vocês um histórico dos termos empregados, aqui estão dez razões porque a idade das trevas foi, de fato, um período de grande progresso e conhecimento.

10 – As Universidades foram criadas

A Educação Clássica (ainda hoje utilizada em algumas escolas) foi o sistema usado pelas Universidades que foram criadas na Alta Idade Média (as primeiras na história). As universidades ensinavam artes, direito, medicina e teologia (o estudo da religião). A Universidade de Bolonha (fundada em 1088) foi a primeira a conceder títulos. Além da estrutura clássica (baseada na educação grega clássica), estas universidades medievais foram fortemente influenciadas pela educação islâmica que era próspera na época. Enquanto as mulheres não eram admitidas nas universidades no início, a educação feminina existia. Os conventos da época educavam as garotas que frequentemente entravam na escola com pouca idade. Uma delas, chamada Hildegard Von Bingen, é uma das mulheres mais celebradas da era medieval e que teve grande influência no poder.

9 – Estabelecimento das Fundações da Ciência

Enquanto o progresso da ciência era lento durante este período no Ocidente, o progresso era uniforme e de alta qualidade. A fundação foi estabelecida aqui para o maravilhoso florescimento da ciência que ocorreria na Baixa Idade Média. Pode ser dito seguramente que, sem o estudo de ciência da Alta Idade Média, estaríamos consideravelmente atrasados em nosso conhecimento científico hoje.  O professor Ronald Numbers, da Universidade de Cambridge, diz:  “Noções como ‘o surgimento do Cristianismo matou a ciência’, ‘a Igreja Católica medieval criou obstáculos para o crescimento das ciências naturais’, ‘os cristãos medievais achavam que o mundo era plano’ e que ‘a Igreja proibiu autópsias e dissecações durante a Idade Média’ são exemplos de mitos populares ainda vendidos como verdade histórica, mesmo que eles não sejam apoiados por pesquisa histórica.”

8 – Renascimento Carolíngio

O renascimento carolíngio foi o período de avanços na literatura, escrita, artes, arquitetura, jurisprudência, estudos litúrgicos e das Escrituras que ocorreram no final dos séculos oitavo e nono. Os carolíngios eram francos[1] e o mais conhecido deles foi Carlos Magno. O império carolíngio foi considerado um renascimento da cultura do Império Romano. Na época, o latim vulgar estava começando a ser substituído pelos vários dialetos como línguas faladas principais na Europa, de modo que a criação de escolas foi vital para espalhar conhecimento adiante entre o povo. Foi também o período que nos deu a fundação da Música Clássica Ocidental.

7 – Era de Ouro Bizântina

Sob Justiniano, este período nos deu o Corpo de Lei Civil (Corpus Juris Civilis) – um enorme compêndio de Lei Romana.  A alfabetização era alta, a educação elementar era comum (mesmo no interior do país), o ensino básico estava disponível a muitas pessoas e a educação superior (como discutida acima) era também ltamente acessível. No império bizantino durante este período assistimos a uma maciça efusão de livros – enciclopédias, dicionários e antologias. Apesar de não terem criado uma grande nova quantidade de informações, eles solidificaram e protegeram para o futuro muito do que já era conhecido.

6 – Unidade Religiosa

Este é um assunto  controverso, mas o fato é que, durante a Idade Média, a Europa tinha uma única Igreja e concordava com o cânone da Bíblia, e tinha uma tradição filosófica bem desenvolvida. Isto levou (como podemos imaginar) a um grande período de paz dentro das nações ocidentais. Enquanto o Islã não estava de acordo com as doutrinas ocidentais, muito compartilhamento de informações ocorreu e a contribuição islâmica no Ocidente ainda hoje é sentida. Esta união de crenças permitiu um progresso intelectual não visto desde a época do Império Romano em seu auge. De uma certa forma, podemos considerar este período como a calmaria antes da tempestade, já que apenas cem anos depois a Primeira Cruzada haveria de ser convocada para tomar Jerusalém dos mulçumanos – um evento que terminou o compartilhamento de conhecimento entre os dois grupos.

5 – A Chegada da Álgebra

Graças ao aprendizado do povo islâmico no oriente, o mundo recebeu seu primeiro livro de álgebra. O Compêndio sobre Cálculo por Conclusão e Balanceamento foi escrito por Al-Khwarizmi (790-840) e o título árabe do livro nos deu a palavra “álgebra”. Ela vem do nome de Al-Khwarizmi . Este livro nos deu a primeira solução sistemática de equações lineares (de primeiro grau) e quadráticas (de segundo grau). Traduções posteriores de seus livros nos deram o sistema numérico posicional que ainda hoje utilizamos. Al-Khwarizmi, junto com Diofanto de Alexandria, é considerado o Pai da Álgebra.

4 – Arte e Arquitetura

Durante a Alta Idade Média, a arquitetura era eclética e inovadora. Ela introduziu ideia de imagens realistas na arte e preparou o terreno para o período romanesco que viria na Baixa Idade Média. O período também incluiu a introdução e absorção de formas e conceitos clássicos na arquitetura. Pode seguramente ser dito que este período foi o primeiro de alta arte – com estilos prévios (período migratório) sendo muito mais funcional e menos “artístico”. Na Alta Idade Média presenciamos o nascimento de uma incrível e bonita história da arte e engenharia civil.

3 – Clima fantástico

Trivial quanto pareça ser, o clima teve um papel importante nas vidas das pessoas durante a Idade Média e além. Pensamos em “Idade das Trevas” como tempestades de neve, chuvas, trovões e escuridão – tal como vimos em filmes como “O Nome da Rosa”. O fato é que, na Alta Idade Média, a região do Atlântico norte estava aquecendo -  tanto que no início da Baixa Idade Média (1100), a região estava há 100 anos em um evento conhecido como Período de Aquecimento Medieval. Este aquecimento derreteu muito gelo e permitiu aos vikings começar a colonização da Groenlândia e outras nações nórdicas. Ironicamente, da Reforma Protestante (século XVI) até o século XIX, a Europa passou por uma pequena era glacial – o período do Iluminismo era literalmente sombrio e mais frio que a idade das “trevas”. Durante este período, reformas e melhor conhecimento da agricultura forneceram um melhoramento no armazenamento de comida.

2 – A Lei se torna Justa

A Alta Idade Média tinha um sistema complexo de leis que não eram frequentemente relacionadas entre si, mas elas eram eficientes e justas para a maioria. Para os mercadores viajando ao redor do mundo, havia a Lei Mercante (Lex Mercatoria) que evoluiu com o tempo, ao invés de ser criada. Esta lei incluía a arbitragem e promovia as boas práticas entre os negociantes. Simultaneamente, a Lei Anglo-Saxônica foi criada com foco em manter a paz na terra. Enquanto isto eventualmente levou a leis muito duras, viver sob o sistema legal na Alta Idade Média foi provavelmente a melhor época para viver – já que ele era ainda flexível e justo com a maioria. O terceiro sistema legal importante era a Lei Germânica que permitia que cada pessoa fosse julgada pelo seu próprio povo – de modo a não ser uma desvantagem pela ignorância ou diferenças culturais marcantes.

1 – Explosão Agrícola

Se quiséssemos matar um mártir pela fome, a Alta Idade Média não era a época de fazê-lo! Como resultado do clima excelente e grande conhecimento agrícola, o Ocidente estava muito bem na foto. Ferramentas de ferro foram extensamente usadas no império bizantino, o feudalismo em outras partes do mundo introduziu um eficiente gerenciamento da terra e excedentes maciços foram criados de modo que os animais eram alimentados com grãos e não grama. A segurança pública também era garantida sob o sistema feudal e assim a paz e a prosperidade atingiu a maioria das pessoas.  


Nota:

[1] Os francos formavam uma das tribos germânicas que adentraram o espaço do Império Romano a partir da Frísia como federados e estabeleceram um reino duradouro na área que cobre a maior parte da França dos dias de hoje e na região da Francônia na Alemanha, formando a semente histórica de ambos esses países modernos.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

[POL] O Cristianismo no Terceiro Reich: A Busca pelo Jesus Ariano

André dos Santos Falcão Nascimento

 



O estudo sobre a pessoa de Jesus Cristo remonta aos primórdios da igreja. Ao longo da história, inúmeros questionamentos foram levantados a respeito de quem foi o carpinteiro de Nazaré, sempre buscando responder a demandas levantadas pelos fieis em suas épocas. No processo, várias ideias foram apresentadas, com algumas perdurando até os dias de hoje e outras tantas sendo apagadas pela força do tempo.

Uma dessas ideias, levantada a partir do final do séc. XIX e fundamental para a divisão da igreja alemã durante o governo nazista na década de 1930, foi a visão de que Jesus Cristo não poderia ter sangue judeu. Tal interpretação foi motivada pelo profundo sentimento de repúdio e medo que os europeus, em especial os alemães na época pré-Segunda Guerra Mundial, sentiam do povo judeu, além da visão de que a raça ariana seria superior à raça judaica.

Uma das iniciativas tomadas para realizar este intento foi reinterpretar a figura de Jesus Cristo, analisando sua vida e ministério, separando-os do panorama judaico que a Bíblia apresenta no relato de sua vida. Para chegar à conclusão de que Jesus não poderia ser judeu, os estudiosos analisaram o relato de seu nascimento, seu local de origem, seu ministério duplo de ensino e sinais, seu relacionamento com a liderança judaica e sua constituição divina. Em todos os casos, tais estudiosos buscaram filtrar qualquer traço judaico e místico da figura de Jesus, desta forma “purificando” o pilar sobre o qual o Cristianismo foi construído.

Desconstruindo o nascimento de Jesus

A teoria de que Jesus seria de origem ariana foi difundida no final do séc. XIX pelo escritor Houston Stewart Chamberlain, porém foi a influência de Wagner que motivou as crenças de Hitler. Antissemita radical, Wagner afirmava que Jesus Cristo nascera com sangue ariano, conforme uma revelação que tivera, e que não se tratava do Cristo judeu do Novo Testamento, mas “de um Cristo que derramara sangue ariano e que lideraria a Alemanha de volta à grandeza que era sua por direito”. Paul de Lagarde, um dos grandes acadêmicos semitas, também rejeitou a visão cristã tradicional de que Jesus era judeu, afirmando que isso era uma “distorção intolerável”.

Para se chegar a esta conclusão, os estudiosos e teólogos da época se apoiaram em duas teorias a respeito da origem de Jesus: A primeira, de que Jesus não teria nascido de uma virgem, e a segunda, de que a região da Galileia possuía quase nenhum vínculo sanguíneo em relação a região da Judeia.

Para eliminar totalmente a possibilidade de origem judaica de Jesus, os estudiosos alemães precisavam determinar que ele não tinha sangue judeu em suas veias. Relacionando a sua origem paterna a um soldado romano, eles conseguiram alcançar metade do objetivo. A outra metade, porém, precisava trabalhar a origem de Maria, mãe de Jesus. Para tal, os estudiosos afirmaram que o local de nascimento de Maria, a Galileia, não possuía traços sanguíneos judaicos.

Desconstruindo a origem de Jesus

Segundo Steigmann-Gall, o conceito de um Jesus ariano teria surgido nos escritos de Ernest Renan, francês católico estudioso de linguística e religião e na disciplina científica desenvolvida por ele, a filologia. Nas discussões desta matéria, teriam surgido os conceitos de Semita e Ariano, inicialmente para descobrir o local das línguas indo-europeias no momento originário do cristianismo, buscando estudar suas características essenciais em conjunto com as características do idioma semita judeu, e posteriormente sendo utilizados para assinalar características essenciais para as pessoas que as falavam.

Segundo Cornelia Essner, o antropólogo alemão Felix Von Luschan teria concluído, em uma assembleia de especialistas em 1892, que “o povo judeu moderno é oriundo ‘primeiramente dos Amoritas arianos, em segundo lugar de Semitas autênticos, final e principalmente dos descendentes dos antigos Hititas’”. Segundo Steigmann-Gall, o próprio conceito de Houston Stewart Chamberlain da arianidade de Jesus teria surgido com esta disciplina, da qual Renan era um dos expoentes, e segundo a própria Heschel, para Renan, durante sua carreira, “idioma, raça, cultura e religião se tornaram intercambiáveis”.

A ideia da formação racial diferenciada do povo galileu já era conhecida no séc. XIX. Friedrich Delitzsch, segundo Heschel, já havia sugerido que, após a conquista assíria, a Galileia havia sido reassentada com babilônios de origem mestiça ariana. Segundo Heschel, vários assiriólogos atestaram que a população da Galileia teria origem gentílica nos séculos imediatamente anteriores aos de Jesus, apesar de se basearem muito mais em mito do que provas.

Desconstruindo o discurso de Jesus

A questão da mensagem de Jesus Cristo como sendo opositora à mensagem do judaísmo seria muito difundida pelo Movimento Cristão Alemão. Em abril de 1939, segundo Bergen, um grupo de líderes assinou um documento, a Declaração de Godesberg, onde afirmaram categoricamente que o cristianismo era o oposto religioso irreconciliável do judaísmo. Um mês depois, um grupo de Cristãos Alemães moderados e pessoas de fora do movimento assinaram seu próprio documento em resposta, mas reafirmando que a raça era o único princípio sob o qual o Cristianismo na Alemanha poderia ser organizado e que “não há oposição maior do que a mensagem de Jesus Cristo e a religião judaica da legalidade com sua esperança por um Messias político”.

Uma obra muito popular que questionava a origem de Jesus através de seu discurso foi publicada em 1921, conforme aponta Édouard Conte, por Artur Dinter: o romance, chamado O Pecado Contra o Sangue. Nesse livro, o protagonista, Hermann Kampfer,  afirma que Jesus não poderia ser judeu, por dividir o seu pensamento do pensamento e da sensibilidade judaicos. Segundo o protagonista, por pregar interioridade, desinteresse e sinceridade, a ideia de um Jesus judeu era incoerente, já que os judeus pregavam exteriorização, egoísmo e fraude. Esse conflito de ideias só poderia ser explicado pela diferença racial entre Jesus e os judeus.

Desconstruindo o ministério de Jesus

Esta oposição de fé entre Jesus e os judeus foi muito trabalhada ao longo dos anos finais do séc. XIX e começo do séc. XX. Segundo vários estudiosos, “a originalidade da fé de Jesus” só poderia ser restaurada removendo-a do contexto do judaísmo que deturpou a sua mensagem, e apresentando a Cristo como “uma figura heroica com uma fé audaz em Deus que o levou a se posicionar descompromissadamente contra a falsa piedade do seu tempo”.

Após analisar essas questões, fica a pergunta: quais eram as influências na configuração desse novo Jesus, distinto do movimento judaico? Além da influência assíria, alguns estudiosos começaram a teorizar, ao comparar os textos sagrados de outras religiões com o cristianismo, que haveriam correlações entre ambas que provariam que o relato bíblico de um Jesus judeu não poderia ser verdadeiro. Heschel cita vários estudiosos que tentaram fazer paralelos entre a vida de Jesus e a vida de Buda, como Arthur Schopenhauer, que afirmava uma correlação entre os dois personagens porque ambos “pregavam ascetismo”. Outros estudiosos, segundo ela, teriam começado a analisar o Zoroastrismo para encontrar pontos de encontro com os ensinamentos de Jesus que demonstrassem a sua raça.

Entretanto, segundo Heschel, o povo do leste era muito remoto e efeminado, segundo alguns alemães nacionalistas, para ser aceito como total orientador da origem de Jesus Cristo. Nesse sentido, a partir dos anos 1890, Jesus começou a ser descrito como uma combinação da “imanência do Ariano do Leste com a forma e pureza racial do alemão, como exemplificado nos mitos teutônicos”. Esta teoria mostrou-se extremamente perigosa, segundo Heschel, pois, com base na teoria de um pastor da época - de que Jesus marcou a transição de um Deus transcendente para um Deus imanente dentro de nós, sendo esta presença prova da identidade germânica de Jesus – o foco da preocupação cristológica passou da incarnação de Deus para a divinização do homem, abrindo caminho para a identificação de Hitler e do povo alemão como divinos ou até mesmo como a personificação de Cristo.

A pergunta que resta, então, é sobre a teoria dos autores para o fato do cristianismo ter se rejudaizado nos anos seguintes à morte de Jesus. Legarde, segundo Heschel, joga a culpa em Paulo, judeu declarado no próprio texto bíblico, que teria reconfigurado a imagem de Cristo de um herói antissemita para um niilista, que negava a identidade racial do homem ao clamar que “não há judeu nem grego”. Já Walter Grundmann joga a culpa não em Paulo, mas nos autores judeus dos evangelhos.

A questão da origem antijudaica de Jesus, porém, não era unanimidade. Segundo Hershel, Ernest Renan, em sua famosa obra de 1863, Life of Jesus, Jesus é caracterizado como um galileu que transformou-se de judeu em cristão, descrevendo o cristianismo como uma forma religiosa purificada de qualquer judaísmo. Desta forma, Renan diverge de seus sucessores, ignorando a questão racial na origem galileia de Jesus e partindo para um viés mais religioso.

Conclusão

De qualquer forma, seja qual for o motivo, o fato é que o movimento cristão-alemão adotou como uma de suas premissas a noção de que Jesus Cristo não poderia ser judeu, adotando-o como um campeão ariano que lutou contra aquele grupo. Como a intenção do movimento era desvincular o cristianismo do judaísmo, é fácil perceber que o movimento não se deteria apenas na desjudaização de Jesus, mas sim que ele partiria para uma estratégia maior: Desjudaizar a religião cristã como um todo.


 
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quinta-feira, 19 de junho de 2014

[SGM] A Blitz esquecida da França

BBC News, 04/06/14

 
Historiadores acreditam que os bombardeios aliados mataram quase tantos franceses quanto as bombas alemãs mataram britânicos durante a Blitz.

De acordo com pesquisa conduzida por Andrew Knapp, professor de história na Universidade de Reading na Grã-Bretanha, as missões aéreas britânicas, americanas e canadenses resultaram em 57.000 baixas civis francesas na Segunda Guerra Mundial.

“Este é um número um pouco abaixo, mas comparável aos 60.500 britânicos mortos como resultado do bombardeio da Luftwaffe no mesmo período,” diz Knapp que é coautor de Blitzes Esquecidas e um livro recentemente publicado na França chamado Os Franceses sob o Bombardeio Aliado (Les francais sous les bombes alliees 1940-1945).

“Também é verdade que a França levou sete vezes mais toneladas de bombas aliadas que a Grã-Bretanha da Alemanha Nazista,” diz Knapp. “Aproximadamente 75.000 toneladas de bombas foram despejadas no Reino Unido (incluindo os mísseis V de Hitler). Na França, ficou na ordem de 518.000 toneladas,” ele diz.

Crimes de Guerra

Winston Churchill, que se dirigiu aos franceses sobre as missões aéreas com confiança, e mesmo um certo alívio, em francês, disse-lhes como aliados apesar da colaboração com os nazistas de uma parte da população francesa.

Mas a tática de bombardeio empregada nem sempre refletiu isso.

Knapp divide os bombardeios aliados em três categorias: “Alguns foram precisos e causaram perdas mínimas civis. A segunda categoria, podemos ver por que eles fizeram, mas o nível de perdas civis pode ser considerado desproporcional em relação à vantagem militar. E a terceira categoria é realmente difícil de compreender, mesmo com perspectiva, por que eles o fizeram.”

O exemplo mais perturbador é o bombardeio de Le Havre em setembro de 1944. Quase toda a cidade foi reduzida a pó e 5.000 franceses – homens, mulheres e crianças – foram mortos. A infantaria aliada tomou o porto poucos dias mais tarde mas, muitos acreditam, eles o poderiam ter feito sem o bombardeio.

“É muito claro que,” diz Knapp, “com base nos tratados que assinamos agora – não os tratados assinados na época – algumas destas missões poderiam ser classificadas como crimes de guerra.”

Silêncio “surpreendente”

Catherine Monfajon, autora de um documentário sobre o assunto que foi recentemente mostrado na TV francesa, diz que os franceses frequentemente mostravam grande espírito.

No funeral de mais de 100 estudantes franceses mortos em um bombardeio aliado em Saint Nazaire, quando um funcionário do governo Vichy falou das “aves da morte”, uma vaia de desaprovação surgiu na parte onde estavam os pais das crianças mortas.

No fim da guerra, Saint Nazaire foi classificada como 100% destruída, mas falar sobre a destruição dela e de outras 1.500 cidades era um tabu.

“O silêncio era surpreendente e me surpreendia,” diz Monfajon. “A França foi o terceiro país mais bombardeado depois da Alemanha e Japão pelos aliados e isto é raramente mencionado nos livros de história.”

Isto é devido em sua maior parte ao modo como o regime colaboracionista de Vichy usou estas baixas em sua propaganda no sentido de jogar o público contra os aliados.

Desde então, questionar o bombardeio era considerado suspeito, ela diz. “E as pessoas estavam divididas entre sua dor, sua raiva e sua gratidão a esses pilotos que lhes trouxeram a liberdade. Quem morreu por isso.”

Escombros e Cinzas

À medida que os bombardeios das cidades francesas se intensificou na proximidade do Dia D, Churchill expressou que a escala de perdas civis poderia prejudicar por longo tempo as relações anglo-francesas mesmo após a guerra ter sido ganha.

Arthur “Bombardeiro” Harris, chefe do Comando de Bombardeiros da RAF, queria todos os seus aviões atingindo a Alemanha.

Apesar de insensível à carnificina imposta aos civis alemães, ele ficou arrependido pelas perdas francesas ao ponto de fazer campanha de arrecadação de dinheiro para ajudar os órfãos do bombardeio aliado.

Quase metade das tripulações do Comando de Bombardeiros foi morta em ação. Suas ações, seus comandantes argumentavam, ajudariam a ganhar a guerra mais rapidamente.

Mas, como os franceses finalmente ousam dizer, a libertação das cidades da Normandia como Saint Lo, Caen e Le Havre transformou-as em terras desertas de escombros e pó.

No próprio Dia D, 2.500 soldados aliados foram mortos. Aproximadamente o mesmo número de civis franceses também foi morto.

Sem heróis talvez. Mas, como o presidente francês afirmará nas praias de desembarque em 6 de junho, seu sacrifício pela liberdade foi grande.


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quarta-feira, 18 de junho de 2014

Veteranos nazistas criaram exército ilegal

Der Spiegel, 14/05/2014

 
Por quase seis décadas, o arquivo de 321 páginas permaneceu despercebido nos arquivos do BND, a agência de inteligência alemã – mas agora seu conteúdo revelou um novo capítulo da história alemã do pós-guerra que é tão espetacular quanto misterioso.

Os documentos previamente secretos revelam a existência de uma coalizão de aproximadamente 2.000 antigos oficiais – veteranos da Wehrmacht e da Waffen-SS – que decidiram reunir um exército na Alemanha do pós-guerra em 1949. Eles se prepararam sem o consentimento do governo alemão, sem o conhecimento do parlamento e, os documentos mostram – circunavegando as forças de ocupação aliadas.

O objetivo dos ex-oficiais: defender a nascente Alemanha Ocidental contra a agressão comunista nos estágios iniciais da Guerra Fria e, no front doméstico, mobilizar forças contra a esquerda no caso de uma guerra civil. Essa frente anticomunista juntou informação sobre políticos esquerdistas como Fritz Erler, do Partido Social Democrata (SPD), um elemento-chave na reforma do partido após a Segunda Guerra Mundial, e espionou estudantes como Joachim Peckert, que mais tarde tornou-se um funcionário de alta patente na Embaixada da Alemanha Ocidental em Moscou durante os anos 1970.

A nova descoberta foi trazida à luz por uma coincidência. O historiador Agilof Kesselring encontrou os documentos – que pertenciam à Organização Gehlen, predecessor da atual agência de inteligência estrangeira – enquanto trabalhava para uma Comissão Histórica Independente formada pelo BND par investigar sua história inicial. Comissões semelhantes têm sido constituídas por um número de autoridades alemãs nos anos recentes, incluindo os Ministérios das Finanças e do Exterior para criar um registro preciso de seus legados silenciosos.

Kesselring revelou os documentos, que receberam o estranho nome de “Seguros”, enquanto tentava determinar o número de funcionários empregados pelo BND.

Ao invés de documentos de seguros, Kesselring se deparou com o que agora pode ser considerada a descoberta mais importante da Comissão Histórica Independente. O estudo que ele escreveu sobre a descoberta foi liberado esta semana.  

Uma facilidade na democracia enfraquecida

O arquivo está incompleto e, portanto, precisa ser considerado com certa reserva. Mesmo assim, seu conteúdo testemunha a facilidade com a qual os padrões constitucionais e democráticos poderiam ter sido enfraquecidos nos primeiros anos de existência da Alemanha Ocidental.

De acordo com os documentos, o Chanceler Konrad Adenauer não descobriu sobre a existência do grupo paramilitar até 1951, quando então ele evidentemente decidiu não revelá-lo.

No caso de uma guerra, os documentos afirmam, o exército secreto poderia mobilizar 40.000 combatentes. O envolvimento de figuras importantes nas forças armadas alemãs do futuro, o Bundeswehr, são um indicativo de quão séria a empreitada teria sido.

Entre os seus atores mais importantes estava Albert Schnez. Schnez nasceu em 1911 e serviu como coronel na Segunda Guerra Mundial antes de ascender em patentes no Bundeswehr, que foi criado em 1955. No final dos anos 1950, ele era parte da equipe do então Ministro da Defesa Franz Josef Strauss (CDU) e mais tarde serviu como comandante do exército alemão no governo Willy Brandt e Ministro da Defesa no governo Helmut Schmidt (ambos do SPD).

Declarações de Schnez citadas nos documentos sugerem que o projeto para construir um exército clandestino também era apoiado por Hans Speidel – que tornar-se-ia o Comandante Supremo da OTAN do Exército Aliado na Europa Central em 1957 – e Adolf Heusinger, o primeiro inspetor geral do Bundeswehr.

Kesselring, o historiador, tem uma conexão especial com a história militar: seu avô Albert era um marechal e comandante supremo das forças meridionais no Terceiro Reich, com Schnez como seu “general de transporte” subordinado na Itália. Ambos os homens tentaram prevenir a rendição parcial da Alemanha na Itália.

Em seu estudo, Kesselring dá uma folga para Schnez: ele não menciona suas ligações com a extrema direita e ele descreve sua espionagem em supostos esquerdistas como “checagens de segurança”. Quando perguntado sobre isso, o historiador explica que ele lidará com estes aspectos do arquivo em um estudo compreensivo no próximo ano. Mas o BND recentemente liberou os arquivos de “Seguros”, tornando possível apresentar um quadro independente.

O projeto do exército começou no período pós-guerra na Suábia, a região que cerca Stuttgart, onde o então Schnez com 40 anos de idade negociava com madeira, têxteis e itens domésticos e, por outro lado, organizava eventos sociais para os veteranos da 25ª. Divisão de Infantaria, na qual ele serviu. Eles ajudavam um ao outro, apoiavam as viúvas e órfãos de colegas e conversavam sobre os velhos e novos tempos.

Medo de um Ataque vindo do Leste

Mas seus debates sempre voltavam à mesma questão: o que deveria ser feito se os russos ou seus aliados da Europa Oriental invadissem? A Alemanha Ocidental ainda estava se, um exército na época e os americanos haviam retirado muito de seus soldados da Europa em 1945.

A princípio, o grupo de Schnez considerava-se derrotado e então liderando uma guerrilha por trás da linhas, antes de realocar-se em algum lugar fora da Alemanha. No evento de um ataque do Leste, um funcionário da Organização Gehlen mais tarde escreveria, Schnez queria recuar suas tropas e conduzi-las com segurança para fora da Alemanha. Elas então promoveriam uma batalha para libertar a Alemanha a partir do exterior.

Para preparar uma resposta à ameaça potencial, Schnez, o filho de um funcionário público da Suábia, pensou em criar um exército. Mesmo ele violando a lei aliada – organizações militares ou paramilitares foram banidas e os contraventores sujeitos a prisão – a ideia tornou-se muito popular.

O exército começou a tomar forma no final de 1950. Schnez coletou doações de empresários e antigos oficiais, contatou grupos de veteranos de outras divisões, pediu a empresas de transporte quais veículos eles poderiam fornecer no pior cenário e trabalhou num plano de emergência.

Anton Grasser, um antigo general de infantaria que foi empregado pela empresa de Schnez, cuidou das armas. Em 1950, ele começou sua carreira no Ministério Federal do Interior em Bonn, onde ele tornou-se inspetor geral e cuidou da coordenação das unidades de Polícia Tática alemã nos estados alemães no caso de uma guerra. Ele queria usar seus recursos para equipar a tropa no caso de uma emergência. Não há sinais de que o Ministro do Interior Robert Lehr tivesse sido informado destes planos.

Schnez queria encontrar uma organização de unidades compostas de antigos oficiais, idealmente staffs completos de divisões de elite da Wehrmacht, que poderiam ser rapidamente mobilizadas no caso de um ataque. De acordo com listas contidas no documento, todos os homens seriam empregados: eles incluíam empresários, vendedores, advogados, instrutores técnicos e mesmo prefeitos. Presumivelmente, eles eram todos anticomunistas e, em alguns casos, motivados pelo desejo de aventura. Por exemplo, os documentos dizem que o tenente-general aposentado Herrmann Hölter “não estava contente trabalhando em um escritório.”

A maioria dos membros da reserva secreta vivia na parte meridional da Alemanha. Uma visão geral nos documentos mostra que Rudolf Von Bünau, um general de infantaria da reserva, liderava um “grupo de staff” nos arredores de Stuttgart. Havia também subunidades em Ulm (comandadas pelo tenente-general da reserva Hans Wagner), Heilbronn (tenente-general da reserva Werner Kampfhenkel), Freiburg (general de divisão da reserva Wilhelm Nagel) e muitas outras cidades.

A lista de Schnez não foi repassada, mas os documentos afirmam que ele disse ter incluído 10 mil nomes, o suficiente para constituir o núcleo de um staff para três divisões. Por motivos de segurança, ele mencionou apenas 2.000 oficiais. Mesmo assim, Schnez não tinha dúvidas que o resto se juntaria a ele. Não parecia haver qualquer escassez de candidatos para as unidades: acima de tudo, não havia falta de alemães com experiência de guerra.

Ficou para determinar onde eles poderiam se reunir no caso de uma emergência. Schnez negociou locais suíços, mas as autoridades locais reagiram de forma muito restritiva, os documentos afirmam que ele mais tarde planejou um possível deslocamento para a Espanha no sentido de usá-la como base a partir do qual ele lutaria ao lado dos americanos.

Colegas descreveram Schnez como um organizador enérgico, mas também autoconfiante e indiferente. Ele mantinha contatos com a Liga da Juventude Alemã e sua organização especializada, Serviço Técnico, a qual ela própria estava se preparando para uma guerrilha contra os soviéticos. Os dois grupos, criados secretamente pelos EUA, incluíam antigos oficiais nazistas como membros e ambos foram banidos pelo governo da Alemanha Ocidental em 1953 como organizações de extrema-direita. Schnez, parece ser, não tinha escrúpulos de qualquer natureza em se associar com ex-nazistas.

Schnez também manteve um autodenominado aparato de inteligência que avaliava candidatos para a “Companhia de Seguros”, como ele se referia ao projeto, e determinava se eles tinham qualidades suspeitas. Um criminoso chamado K. foi descrito como “inteligente, jovem e meio-judeu.”

Documentos americanos acessados pela SPIEGEL indicam que Schnez negociou com o ex-tenente-coronel da SS Otto Skorzeny. O oficial da SS tornou-se um herói nacional durante a Segunda Guerra Mundial após ele ter conduzido uma missão bem sucedida para libertar o ditador italiano deposto Benito Mussolini, que foi preso pelo rei italiano. O antigo membro da SS tinha planos similares aos de Schnez. Em fevereiro de 1951, os dois concordaram em “cooperar imediatamente na região da Suábia.” Até hoje é desconhecido o conteúdo do acordo.

Em sua busca por financiamento para uma operação contínua, Schnez pediu ajuda do service secreto alemão ocidental durante o verão de 1951. Em um encontro em 24 de julho de 1951, Schnez ofereceu os serviços de seu exército clandestino a Gehlen, o chefe do serviço de Inteligência, para “uso militar” ou “simplesmente como uma força potencial”, tanto para um governo alemão no exílio ou para os aliados ocidentais.

Uma anotação nos documentos da Organização Gehlen indica que havia “longas relações de natureza amigável” entre Schnez e Reinhard Gehlen. Os documentos também indicam que o serviço secreto tornou-se ciente da força clandestina primeiramente na primavera de 1951. A Organização Gehlen classificou Schnez como uma “conexão especial” com o desagradável codinome “narceja” (Schnepfe).

Adenauer recuou?

É provável que o entusiasmo de Gehlen com a oferta de Schnez teria sido maior se ela tivesse aparecido um ano antes, quando a Guerra da Coréia estava acontecendo. Na época, a capital da Alemanha Ocidental, Bonn e Washington estavam considerando a possibilidade de “reunir membros das antigas divisões de elite alemãs no evento de uma catástrofe, armando-os e recrutando-os para as tropas de defesa aliadas.”

Após um ano, a situação mudou completamente e Adenauer recuou da ideia. Ao invés disso, ele forçou uma integração da Alemanha Ocidental com o Ocidente e preparou o terreno para a formação do Bundeswehr. O grupo ilegal de Schnez tinha o potencial de ameaçar aquela política – se sua existência se tornasse pública, poderia ter se tornado um escândalo internacional.

Mesmo assim, Adenauer decidiu não tomar nenhuma ação contra a organização de Schnez – o que levanta várias questões: ele estava recuando de um conflito com os veteranos da Wehrmacht e da Waffen-SS?

Havia dúvidas dentro da Organização Gehlen, particularmente em relação a Skorzeny. De acordo com outro documento da BND analisado pela SPIEGEL, um chefe de divisão levantou a questão se seria possível à organização tomar uma atitude agressiva contra Skorzeny. O homem da Organização Gehlen sugeriu consultar a SS, acrescentando que “a SS é um fator e devemos ouvir opiniões antes de tomar uma decisão.” Aparentemente, redes de velhos e ex-nazistas ainda exerciam influência considerável durante os anos 1950.

Tornou-se também claro em 1951 que anos passariam antes que o Bundeswehr pudesse ser criado. Da perspectiva de Adenauer, isto significava que, por enquanto, a lealdade de Schnez e seus camaradas deveriam ser garantidas para o caso de um cenário catastrófico. Provavelmente por causa disso, Gehlen foi recrutado pela Chancelaria “para vigiar e monitorar o grupo.”

Parece que Konrad Adenauer informou tanto seus aliados americanos quanto a oposição política do plano na época. Os documentos parecem indicar que Carlo Schmid, na época membro do comitê executivo nacional do SPD estava “na jogada”.

Pouco Conhecimento sobre a dissolução do Exército

A partir deste ponto, o staff de Gehlen manteve contato frequente com Schnez. Gehlen e Schnez também fizeram um acordo para compartilhar informações resultantes dos esforços de espionagem. Schnez se gabava de ter um aparato de inteligência “particularmente bem organizado”.

A Organização Gehlen começou a receber listas de alerta, incluindo nomes de ex-soldados alemães que haviam supostamente se comportado de maneira “indigna” enquanto prisioneiros de guerra dos soviéticos, a insinuação sendo de que os homens haviam desertado para apoiar a União Soviética. Em outros relatórios, eles relatavam “pessoas suspeitas de ser comunistas na área de Stuttgart.”

Mas Schnez nunca foi agraciado com o dinheiro que ele esperava. Gehlen somente permitiu que ele recebesse pequenas quantias, que acabaram no outono de 1953. Dois anos depois, o Bundeswehr nasceu com seus primeiros 101 voluntários. Com o rearmamento da Alemanha Ocidental, a força de Schnez tornou-se redundante.

Atualmente é desconhecido quando exatamente o exército secreto foi dissolvido, já que nõ houve nenhum comentário na época. Schnez morreu em 2007 sem mencionar nada publicamente sobre estes eventos. Seus registros da “Companhia de Seguros” desapareceram. O que é sabido baseia-se largamente nos documentos relacionados à Organização Gehlen que acabaram como arquivo secreto do seu sucessor, o BND.

Parece que eles foram deliberadamente denominados sob o título enganador de “seguros” na esperança que ninguém jamais ficasse interessado neles.