segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Alexandre, o maior

Isabelle Somma


O pequeno Alexandre gostava de desafios. E dos grandes. Aos 9 anos de idade acompanhou o pai, Felipe II, a uma feira de cavalos. O monarca da Macedônia passava diante dos animais olhando-os com a cobiça que os homens hoje reservam aos carros possantes. Já tinha separado algumas Ferrari e Mercedes quando um corcel negro lhe foi oferecido. Ele era lindo, uma montanha de ossos e músculos imponente, a montaria de um rei. Felipe o queria e seus assessores se apressaram em adquiri-lo, mas depararam com um problema: ninguém conseguia montá-lo. Estavam para desistir da compra quando o jovem Alexandre disse que aquilo não era motivo para dispensar o animal. Felipe, então, desafiou o filho a domá-lo. O menino sabia montar, mas sabia também que para enfrentar um animal daquele tamanho não bastariam força e habilidade, era preciso estratégia. Com habilidade incomum, Alexandre puxou a cabeça do cavalo em direção ao Sol. A cegueira momentânea confundiu o animal e deu tempo para que ele pudesse dominá-lo. Emocionado, papai Felipe não se conteve. “Garoto, você precisa encontrar um reino grande o suficiente para suas ambições. A Macedônia é muito pequena para você.” O próprio Alexandre adorava contar essa história, segundo relata o historiador grego Calístenes, que viveu de 346 a 289 a.C. e acompanhou muitas das expedições militares do rei.

Nem o oráculo de Delfos faria uma previsão tão precisa. Em pouco mais de uma década, Alexandre da Macedônia conquistou o Egito, a Mesopotâmia e a Pérsia e foi além das fronteiras conhecidas pelos gregos, chegando à região que hoje é o Paquistão. “O Império Romano teve 1 milhão de quilômetros quadrados. O de Alexandre foi além disso”, diz Ettore Quaranta, professor de história da Antiguidade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tudo isso antes de completar 33 anos. Não foi à toa que Alexandre III passou à história como “O Grande".

“Ele foi um gênio militar, provavelmente o maior general que o mundo já viu”, afirma o historiador britânico Peter Green, professor da Universidade do Texas, Estados Unidos, e autor de Alexander The Macedon: 356-323 b.C:

A Historical Biography (“Alexandre, o Grande, 356-323 a.C: Uma Biografia Histórica”, inédito no Brasil). “Muitas vezes, por puro brilhantismo pessoal, ele conseguiu obter sucesso de derrotas prováveis. Ele era mais rápido, mais flexível, mais criativo que aqueles contra quem lutou”, diz Green. Segundo ele, Alexandre tinha o carisma necessário para levar soldados veteranos adiante e para seduzir novos recrutas por onde passava. “Ele os fez seguir por milhares de quilômetros e 11 longos anos, enfrentando batalhas terríveis.”

Berço de ferro

O menino precoce teve a quem puxar. Seu pai, Felipe II, assumiu o poder na Macedônia em 359 a.C. e iniciou uma política expansionista voraz. Invadiu a Grécia e unificou as cidades-estado gregas, exceto Esparta, criando a Liga Coríntia e governando com mão de ferro. Felipe, porém, tinha pretensões ainda mais ousadas. Ele queria realizar uma espécie de cruzada contra os persas para vingar as invasões realizadas no século 5 a.C., quando os exércitos de Xerxes conquistaram grande parte da Grécia, destruindo Atenas em 479 a.C.

Mas não teve tempo. Felipe morreu em 336 a.C., apunhalado por um guarda-costas – não se sabe se resultado de uma vingança pessoal ou de um complô. Aos 20 anos, Alexandre herdou do pai a liderança dos exércitos e o desejo de vingança contra os persas. No entanto, seu primeiro desafio foi enfrentar um levante em Tebas, que revoltara-se contra a liderança macedônia. Alexandre foi impiedoso. Seus homens invadiram a cidade e a destruíram completamente. No ataque, 6 mil tebanos foram mortos e 30 mil escravizados.

Após reafirmar sua liderança sobre os gregos, o jovem macedônio não tinha mais tempo a perder no Peloponeso (a parte continental da Grécia). Seu objetivo agora era retaliar os persas e seguir para a Ásia Menor. A região, uma província dos aquêmidas, foi tomada dos gregos um século antes e incorporada ao Império Persa. Para recuperá-la, Alexandre atravessou o Helesponto – o atual estreito de Dardanelos – com 32 mil soldados. Uniu-se às tropas de seu pai que permaneciam por ali e convocou todos a lutar.

Primeiras vitórias

Em 334 a.C, Alexandre chegou às margens do rio Grânico e lá aguardou a chegada de seus oponentes. Posicionado em uma das margens, frente a frente com o exército inimigo, ele tinha sob seu comando 13 mil soldados a pé e 5 mil cavaleiros. Do alto de uma colina ele viu se aproximarem cerca de 5 mil soldados e uma cavalaria de 10 mil conjuntos. Era o momento de cumprir a profecia de seu pai. Mas agora não haveria truques. “Suas armas eram a dedicação absoluta de seus homens, que o admiravam e confiavam nele, e uma estratégia militar prodigiosa, outra herança de Felipe II”, diz Robert Lovett, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. “Nesse dia, os persas experimentaram a força da temível ‘falange macedônia’.

A tática consistia de armar colunas de infantaria com longas lanças, com até 5 metros de comprimento. Os homens avançavam em fileiras compactas, transformando-se numa poderosa força ofensiva”, afirma Lovett, especialista em táticas militares e autor de Warfare (“Guerra”, sem versão em português). Foi um terrível combate. O exército dos aquêmidas, formado em sua maioria por mercenários, foi derrotado. Apenas 2 mil sobreviveram e foram enviados ao Peloponeso como escravos.

O avanço de Alexandre chegou rápido aos ouvidos do imperador persa, Dario III, que decidiu deslocar seu poderoso exército estacionado em Susa, uma das principais cidades persas. As duas forças se encontraram em Issus. Dario contava com cerca de 50 mil homens, 10 mil a mais que Alexandre. A vantagem numérica, no entanto, não lhe foi suficiente. “Apesar de perder grande parte de seu contingente, a cavalaria macedônia conseguiu furar o bloqueio persa e abriu o caminho para os falangistas. Daí para a frente, a vitória trocou de lado”, diz Lovett. Diante da derrota iminente, Dario fugiu, mas deixou para trás a própria mãe e a mulher grávida, que foram presas.

Alexandre seguiu para a Fenícia – atual Líbano – levando Sisygambis, mãe de Dario, e os familiares de oficiais persas capturados. Dario tentou negociar o resgate dos parentes oferecendo dinheiro e terras, mas Alexandre achou pouco. Enquanto continuava sua marcha rumo ao centro do poder inimigo, o exército invasor foi conquistando as cidades que viviam sob o domínio aquêmida. Aquelas que não se renderam se arrependeram.

Uma delas foi Tiro. A principal cidade fenícia era protegida por muralhas e ficava em uma ilha a 800 metros da costa. Durante sete meses o exército de Alexandre construiu um dique de 60 metros de largura até a entrada de Tiro. Mas os portões da cidade resistiram e, furioso, Alexandre mudou de planos. Trouxe e armou uma pequena frota que atacou e derrubou os muros de Tiro, invadindo a cidade e matando cerca de 8 mil pessoas. O relato de Calístenes dá conta de que cerca de 2 mil homens foram crucificados. Se isso é verdade, é difícil saber. Mas o certo é que Dario ficou muito impressionado com as notícias, tanto que fez uma nova oferta de paz. E novamente ela foi inútil.

Da costa fenícia, o exército macedônio foi em direção ao delta do rio Nilo. Depois de dois séculos sob o domínio persa, os egípcios os receberam como libertadores. O místico Alexandre viajou mais de mil quilômetros pelo deserto até chegar a Siwa, onde ficava o oráculo de Amon. O líder macedônio, que acreditava ser descendente dos heróis mitológicos Aquiles e Hércules e do próprio deus Dionísio, foi recebido como filho do deus solar. “O oráculo previu que ele conquistaria o mundo. Fortalecido por suas vitórias militares e espiritualmente, Alexandre não via mais barreiras para aniquilar de vez o exército persa”, afirma Green.

A caça a Dario

A conquista do Egito deu tempo a Dario para que ele reunisse um novo exército. Dois anos depois da derrota em Issus, o líder persa estava pronto para a revanche. Ele e cerca de 25 mil cavaleiros e 50 mil soldados vindos das províncias orientais do império. Alexandre avançou vindo do oeste e chegou a Gaugamela – região que hoje fica ao norte do Iraque – com apenas 7 mil homens montados e 40 mil a pé. Mais uma vez, a desvantagem numérica não foi obstáculo para a vitória do macedônio. Mas Dario tornou a escapar.

Alexandre seguiu triunfante para a Babilônia, onde, assim como no Egito, foi recebido como herói. Os orgulhosos babilônios haviam sido subjugados pelos persas e humilhados com a destruição de seus símbolos sagrados. Para Alexandre, a Babilônia tinha ainda um gosto especial. Era a última grande cidade que o separava da Pérsia. De agora em diante, os combates se dariam no quintal do inimigo. O líder macedônio anunciou que todas as tiranias haviam sido abolidas e que todos os povos poderiam viver sob suas próprias leis. Desde que fiéis ao seu controle, é claro.

Apenas dois meses foram necessários para Alexandre reunir reforços, descansar seus homens, curar os feridos e partir para Susa. As defesas da cidade, centro comercial e administrativo do império, não lhe foram páreo. Ele invadiu a cidade e se fez coroar como Grande Rei de Gregos e Asiáticos. “Aos 25 anos de idade, Alexandre sentou-se no trono que havia pertencido a Dario. Como era baixinho e o persa tinha quase 2 metros de altura, seus pés não tocaram o chão”, afirma o historiador britânico John Maxwell O’Brien, no livro Alexander The Great: The Invisible Enemy (“Alexandre o Grande: O Inimigo Invisível”, sem versão em português). Mas faltava a presa principal, Dario. Para surpresa de seus generais, Alexandre anunciou que partiria imediatamente para Persépolis, o coração do império. Na noite, antes de partir, depois de uma de bebedeira, Alexandre e seus amigos colocaram fogo na cidade.

A fuga de Dario terminou em 330 a.C. O líder persa foi assassinado, não por seus inimigos gregos ou macedônios, mas por um de seus parentes, um homem chamado Bessus, que governava a Báctria – atual Afeganistão.

Sem Dario, Persépolis, a capital do império, prostrou-se ao pés de Alexandre. Não houve combates. O rei e seus homens invadiram o belíssimo palácio imperial e saquearam cerca de 3 toneladas de ouro e prata. Em outra de suas comemorações, a cidade toda foi incendiada. Calístenes escreveu que, passada a ressaca, o macedônio se arrependeu. Típico papo de bêbado.

A vingança estava concluída. Mas Alexandre ainda não ficara satisfeito. Ele queria conquistar uma região que nos mapas gregos da época recebia o sugestivo nome de “Terra Incógnita”, que ficava muito além das fronteiras persas. O problema era convencer seus homens, há cinco anos na estrada, a irem adiante.

Império de Alexandre em seu auge

Volta para casa

Além de loucos para voltar, os macedônios estavam incomodados com a “orientalização” de seu líder. Alexandre adotou o modo de vida persa, que sempre criticou. Os gregos consideravam os persas como bárbaros, criticando seus hábitos nômades, o gosto pelos tecidos luxuosos. Para eles, isso era sinal da fraqueza dos persas. Agora, seu líder estava se tornando um deles.

O descontentamento provocou revoltas entre os oficiais. Mesmo assim, Alexandre levou suas tropas adiante. Passou dois anos na Báctria. Ali, sofreu mais baixas que contra os persas, principalmente devido às duras condições a que submeteu seus homens durante a travessia das montanhas do Hindu Kush. Lutaram contra os marajás do Sind (Paquistão) e do Punjab (Índia) e chegaram às margens do rio Indo.

Em 326 a.C., um motim daria fim à marcha rumo ao Extremo Oriente. “Alexandre disse que queria alcançar a costa do Grande Oceano e pensou que iria atingi-lo indo um pouco mais ao leste. No lugar, ele encontrou o planalto do Ganges. Isso e três monções levaram sua tropa a se rebelar”, afirma Green. Contrariado, Alexandre teve de retroceder.

A volta iniciou-se no ano seguinte. Parte do exército seguiu pelo mar, através do oceano Índico, até o golfo Pérsico. Alexandre liderou as tropas restantes, que atravessaram o deserto de Gedrósia. A viagem foi desastrosa. Estima-se que ele tenha entrado na região com 60 mil soldados e, depois de 60 dias, apenas 15 mil conseguiram sobreviver à falta de água e de suprimentos. “Foi terrível. Foi como se ele tivesse descido ao inferno, exatamente como os heróis mitológicos”, diz o professor Ettore Quaranta.

Depois da desastrosa marcha, Alexandre reuniu suas tropas na Babilônia e, por fim, sossegou. Ali, entre uma festa e outra, ele planejou anexar a península Arábica e promover uma expedição à poderosa Cartago, no norte da África. Porém, após uma dessas bebedeiras, em maio de 323 a.C., Alexandre caiu de cama com febre alta, provavelmente causada por uma malária, e nunca mais se levantou. Pouco antes de completar 33 anos, o homem mais poderoso do mundo morreu de causas desconhecidas.

Tão rápido como surgiu, o poder acumulado por Alexandre esvaiu-se. Sem um herdeiro que pudesse exercer a liderança sobre um território tão vasto, habitado por povos tão diferentes, o império de Alexandre não sobreviveu à sua morte e acabou dividido entre seus generais. Antígono, que governava a Macedônia, fundou sua própria dinastia. Os descendentes de Seleuco ficaram com a maior parte, que ia de Antióquia a Selêucia (atual Iraque). A Ásia Menor se separou e vários pequenos reinos se tornaram independentes. No Egito, Ptolomeu fundou uma nova dinastia, que reinaria por três séculos. Cleópatra, a última governante helênica, caiu frente aos romanos, em 30 a.C.

Mestre Aristóteles

Dos 13 aos 16 anos, Alexandre foi aluno de Aristóteles (384-322 a.C.). Para convencê-lo a aceitar o posto de tutor de seu filho, Felipe fez uma proposta irrecusável. Prometeu reconstruir sua cidade natal, Stagira, que ele mesmo destruíra anos antes. O filósofo, que tinha pouco mais de 40 anos e ainda não havia escrito suas obras mais famosas, não pensou duas vezes e aceitou. Alexandre cresceu mais próximo do mestre que de seu pai. Com ele, aprendeu sobre assuntos como medicina, filosofia e ciências naturais. O pupilo era tão aplicado que sabia a Ilíada de cor e viajava com uma cópia do épico com anotações feitas por seu tutor. A relação entre os dois sofreu um duro golpe quando Alexandre condenou um primo de Aristóteles, Calístenes, à morte. Calístenes, que era o historiador oficial do rei, foi acusado de traição

Em 11 anos, a maior campanha militar da história

1. Pela (356 a.C.)

Nasce Alexandre, filho de Felipe II, rei da Macedônia.O príncipe cresce entre aulas de equitação e filosofia

2. Tebas (335 a.C.)

Assim que assume o trono, o novo soberano enfrenta uma rebelião. Seus homens destroem a cidade

3. Rio Grânico (334 a.C.)

Alexandre atravessa o Helesponto (estreito de Dardanelos) e vence sua primeira batalha na Ásia Menor

4. Issus (333 a.C.)

Enfim, Alexandre enfrenta Dario III, rei dos persas. O exército macedônio vence, mas Dario foge

5. Gaugamela (331 a.C.)

Depois de conquistar a Fenícia e o Egito, Alexandre se volta ao coração do Império Persa

6. Persépolis (330 a.C.)

Alexandre invade a capital persa sem resistência. Seus homens saqueiam e queimam a cidade
7. Báctria e Sogdiana (328 a. C.)

Alexandre convence seus homens a prosseguir e conquista a região onde morreu Dario

8. Taxila (326 a.C.)

Barrado pelo mau tempo e pelo relevo, Alexandre encerra sua exitosa campanha militar

9. Gedrósia (325 a.C.)

Na travessia de volta pelo deserto, o exército macedônio sofre mais baixas que em dez anos de combates

10. Babilônia (323 a.C.)

Depois de adotar a cidade como sede de seu governo, Alexandre morre de causas desconhecidas

Homem de família

Alexandre se casou pela primeira vez aos 27 anos com Roxane, uma sogdiana (nascida em uma região que hoje fica no Afeganistão), com o intuito de garantir seu poder naquele pedaço. Com ela teve um filho. Ambos, mãe e criança, foram assassinados poucos depois da morte de Alexandre. Na Babilônia, casou-se com duas parentes de Dario, na tentativa de legitimar sua influência entre os persas. Mesmo com tantas mulheres em sua vida, Alexandre ainda é perseguido por quem duvide de sua masculinidade. As intrigas surgiram depois que ele teria se recusado a encomendar um herdeiro antes de embarcar rumo ao Oriente. Disse que queria acompanhar o crescimento de seu filho e, por isso, deixou o assunto para mais tarde. Outro motivo de desconfiança era o tratamento que dispensava às mulheres, estranho para a época. Ele era tolerante e justo com as prisioneiras, algo incomum entre os gregos, que as consideravam pessoas de segunda categoria.

O "marvado" vinho

Os macedônios eram conhecidos pelo hábito de beber excessivamente. Ao contrário dos gregos, que misturavam água ao vinho, os conterrâneos de Alexandre tomavam a bebida pura. E em grandes quantidades. O conquistador macedônio não era diferente. Sempre que podia, promovia um symposium. Ou seja, uma festa em que antes de ser servido o primeiro prato todos os convidados já estavam bem altos. Num desses eventos, Alexandre discutiu com um de seus mais conhecidos generais, Cleitus. Ambos já tinham entornado muitas taças, quando Alexandre puxou uma adaga de um de seus guarda-costas e assassinou o amigo. Diante da perplexidade de todos, Alexandre puxou a arma e tentou se matar. Foi contido e nunca se perdoou pela atitude.Foi também durante um symposium que Alexandre colocou fogo no palácio real de Persépolis, ato que se transformou em outro motivo de arrependimento.

Alexandrias pelo mundo

Alexandre herdou um costume de seu pai: batizar cidades com seu próprio nome. A primeira delas, Alexandrópolis, na Trácia, foi fundada quando ele tinha apenas 16 anos. Até sua morte, aos 32 anos e 11 meses, Alexandre fundaria cerca de 70 novas cidades, sendo que pelo menos 17 delas ganhariam o nome dele. A mais famosa foi a Alexandria do Egito, fundada em 331 a.C.. A cidade se tornou uma metrópole-modelo e um grande centro de comércio durante a dinastia lágida, fundada por Ptolomeu, general de Alexandre. Ficou conhecida por ter abrigado uma das maravilhas da Antiguidade, uma biblioteca com 400 mil rolos de papiro fundada em 283 a.C. Poucas sobraram e nunca tiveram tanta fama como a homônima egípcia. Entre elas estão Herat (Alexandria Arion), no Afeganistão, Alexandropoulis, na Grécia, Al Iskandariyah, no Iraque, Eskandari, no Irã, e Iskenderun, na Turquia.

Nasce uma estrela, o helenismo

O resultado da passagem de Alexandre pelo Oriente foi uma fusão das culturas grega, persa e egípcia, que formaram a civilização helenística. Após a morte do conquistador macedônio, nasceram outros centros irradiadores dessa nova cultura, todos no Oriente Médio: Alexandria, Pérgamo e Antióquia. Antes disso, o pensamento tinha como centro o Peloponeso (ou seja, a Grécia continental), mais exatamente Atenas, que entrou em decadência.Alexandria, no Egito, foi o principal desses novos centros. Lá floresceu uma forte atividade econômica e também escolas de filosofia, matemática, geografia e medicina. Assim como ela, Pérgamo tinha uma atividade intelectual intensa. Possuía uma biblioteca que tentou se equiparar à de Alexandria e um templo monumental, o de Zeus. Aliás, a cultura helênica acrescentou novos deuses mitológicos não-gregos, como Ísis e Serápis.

O macedônio vai parar em Hollywood

Depois de Kennedy e Fidel, o diretor de cinema americano Oliver Stone escolheu outro personagem polêmico para levar às telas: Alexandre, o Grande. O papel principal será interpretado pelo irlandês Colin Farrell. O elenco também conta com Angelina Jolie, que fará o papel da mãe dele, Olímpia. Anthony Hopkins será o general Ptolomeu e Rosário Dawson interpretará Roxane. As filmagens começaram em abril deste ano no norte da Índia e estão sendo concluídas no Marrocos, região em que o conquistador nunca botou os pés. O filme ainda não tem data prevista para ser lançado no Brasil. Há também um projeto do canal a cabo HBO (transmitido no Brasil pela TVA) de realizar uma série com dez episódios sobre Alexandre. A produção será realizada pela Icon, empresa de Mel Gibson. “Quase dois milênios e meio após sua morte, ele ainda suscita tanto interesse e controvérsia como quando era vivo”, diz o professor Peter Green.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

[SGM] Uma espiã chamada Coco Chanel

El País, 06/12/2014


Há gênios que escondem um lado escuro. Coco Chanel é um deles. A mulher que fundou o império que leva seu nome, que transformou a maneira de vestir de milhões de mulheres e que comercializou o perfume mais prestigioso e conhecido (o Nº5), trabalhou clandestinamente para os serviços secretos alemães durante a ocupação francesa (1940-1944). Um livro biográfico entre a meia centena que foi publicada sobre o perfil deste emblema da França transformou em certeza há dois anos o que era uma suspeita até então: Coco Chanel foi recrutada pela espionagem alemã. Nesta semana, pela primeira vez, um veículo de comunicação francês –o canal de televisão estatal France 3– averiguou as profundezas de um aspecto da história que a França prefere com frequência ignorar: o colaboracionismo de um de seus grandes mitos contemporâneos.

Quando os alemães ocuparam Paris, em maio de 1940, Coco Chanel tinha 57 anos. Na época, já era uma referência mundial no universo da moda e uma empresária de prestígio com 4.000 empregados em vários ateliês. Ela, como outras celebridades da época, fugiu, assustada, para o sul do país para retornar a Paris pouco tempo depois. Os alemães desejavam manter a fama da cidade como capital das artes e do entretenimento e obtiveram o retorno de Chanel, do ator Jean Gabin e da bailarina e cantora Joséphine Baker, convertida secretamente também em espiã, mas neste caso a serviço dos aliados.

Durante duas horas, o programa mensal da France 3 A sombra de uma dúvida destrinchou na última segunda-feira, em um capítulo intitulado Os artistas sob a ocupação, o destino de um bom punhado de celebridades durante a ocupação alemã. O de Chanel resulta especialmente doloroso. A grande estilista não só voltou para Paris como também retornou à vida luxuosa no hotel Ritz e se apaixonou por Hans Günther von Dincklage, um diplomata alemão fluente em francês e que resultou ser um recrutador nazista de espiões. Por meio dele Chanel obteve a libertação de seu sobrinho Gabriel, que sempre se suspeitou ser filho da própria estilista.

Os dados e documentos revelados no programa da emissora France 3 são incontestáveis. No início da ocupação, aproveitando as novas normas antissemitas, Coco Chanel tentou arrebatar a seu sócio, o judeu Pierre Wertheimer, a empresa Bourjois, que comercializava o Chanel Nº 5. Não conseguiu. Wertheimer, sabedor dos perigos que o espreitavam, tinha colocado previamente suas ações em nome de um certo Félix Amiot, que as devolveu no fim da guerra. Para apresentar uma aparência de empresa renovada, Chanel, uma mulher altiva e de escassa empatia, despediu grande parte de seu pessoal; uma vingança, na verdade, pela greve que os empregados tinham realizado meses antes.

O estilo de vida de Chanel durante os anos de ocupação sempre levantou suspeitas na sociedade francesa. Hal Vaughan, um velho jornalista norte-americano, veterano da guerra, publicou em 2012 os dados que confirmavam tão incômoda suspeita. Gabrielle Bonheur Chanel, mais conhecida como Coco Chanel, figurava nos serviços alemães como a agente F-7124. A France 3 recuperou agora documentos inéditos do ministério de Defesa francês, da Prefeitura de polícia e do Arquivo Nacional da França que corroboram essa versão. De fato, a viagem que Coco Chanel realizou à Espanha em 1943 foi uma tentativa de utilizar suas ligações indiretas com o então primeiro-ministro britânico Winston Churchill para tentar que Londres concordasse em assinar a paz unilateralmente com Berlim. Uma missão fracassada.
O fim da ocupação de Paris, em agosto de 1944, deu lugar, nos primeiros dias, à cruel perseguição de todo colaboracionista. Enquanto as turbas castigavam as mulheres raspando-lhes o cabelo, Coco Chanel foi detida e levada a um comitê de depuração que a interrogou durante algumas horas antes de liberá-la. Nunca mais foi incomodada. Ninguém investigou. Nenhum tribunal sequer interrogou a proprietária de um império da moda, a joalheira e a perfumista que mantinha esplêndidas relações com a aristocracia e a arte de todo o continente. Apesar disso, ela optou por um exílio dourado na Suíça que durou dez anos. Lá foi feita a última foto que se tem dela, datada de 1949, ao lado de seu charmoso amante alemão.

Coco Chanel voltou a Paris e retomou as luxuosas estadias no Ritz. Ali morreu a milionária, em 1971, depois de ficar doente repentinamente, deitada em sua cama, perfeitamente vestida, penteada e maquiada, aos 88 anos de idade. Depois disso, poucos quiseram mexer no lado mais tenebroso de sua biografia. “Você viu a repercussão do programa?”, pergunta retoricamente ao EL PAÍS o produtor executivo da Martange Production, Frédéric Lusa, responsável pelo programa, para responder: “Essa história só interessou veículos de comunicação estrangeiros”.

A sobrinha-neta de Gabrielle Bonheur Chanel, Gabrielle Palasse, filha de Gabriel -aquele que foi salvo por Hans Günther von Dincklage-, confessou uma vez publicamente que nunca se atreveu a perguntar a Coco Chanel se na verdade era neta dela. Pierre Wertheimer terminou convencendo o gênio da moda para ficar com a empresa, embora mantivesse a grande Coco como sócia criativa e cobrisse todos os seus gastos até o fim. Os netos de Pierre, Gerard e Alain Wertheimer, são hoje os donos do império Chanel, que tem quase 200 lojas em todo o mundo. Empresa familiar não cotada em bolsa, a Chanel é a responsável pela fortuna dos Wertheimer, avaliada recentemente pela Bloomberg em 5,6 bilhões de euros (cerca de 17,8 bilhões de reais).

Em 1983, os novos gestores contrataram o estilista Karl Lagerfeld, extravagante e genial personagem. Esta é a opinião dele sobre Coco Chanel e seu lado escuro: “A verdade não nos diz respeito. Uma lenda é uma lenda. Prefiro minha fantasia aos detalhes históricos [...]. O que importa não é a realidade, a não ser a ideia que temos das coisas e das pessoas. Para mim, Chanel é uma ideia e isso é o que eu desenvolvo”.

Uma Vida de Luxo

Coco Chanel nasceu em 1883, em Saumur (um vilarejo do centro da França), no seio de uma família humilde.

O grande amor de sua vida, o aristocrata britânico Boy Capel, emprestou-lhe o dinheiro para montar seu primeiro ateliê. Alguns anos depois, a estilista tinha criado um império da moda e explorava, com o sócio Pierre Wertheimer, o Chanel Nª 5, o perfume criado por ela em 1921.
Viveu quase toda a vida em grandes hotéis. Duas 'suítes' do Ritz foram sua casa em Paris até sua morte, em 1971.

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/05/estilo/1417797621_395729.html

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domingo, 30 de novembro de 2014

[SGM] Tudo o que sabemos sobre as intenções de Hitler foi um mito criado por Churchill

Kevin Myers, 19/06/2012

 
É bom que o governo vá perdoar os milhares de desertores do Exército que foram convocados para as forças britânicas durante a Segunda Guerra Mundial. É claro, nenhum exército pode permitir a deserção; entretanto, estes homens não foram levados à corte marcial, mas foram submetidos a uma exclusão do emprego público que privou-lhes de seu direito constitucional devido ao processo. Além disso, a vasta maioria deles desertou de junho de 1941 em diante, quando a possibilidade teórica de uma invasão alemã já havia desvanecido, e após o governo De Valera ter violado, ao decidir reter os voluntários indefinidamente, os termos originais do alistamento (entre um e dois anos) pelo qual a maioria havia assinado em 1940.[1] Os homens que desertaram o fizeram depois de perceber que haviam sido enganados e terem se tornado servos, apenas cortando relva no Pântano de Allen.

Esta foi a segunda grande mentira de nossas vidas na juventude. A primeira foi que a Irlanda enfrentou uma ameaça séria de invasão pela Alemanha, que foi a semente de uma falsidade ainda maior – que em 1940 Hitler queria invadir a Grã-Bretanha. Mas ele não queria. Ele, de fato, admirava o Império Britânico, por causa de sua inerente presunção de superioridade racial. Sabemos dos diários de Lorde Halifax, o ministro do exterior britânico, que Hitler ofereceu termos que não envolviam o controle alemão da Grã-Bretanha. Churchill recusou permitir que estes termos fossem lidos ao Gabinete, e eles ainda permanecem prudentemente escondidos sob o manto do sigilo absoluto.

Ao invés disso, a determinação de Churchill em manter a Grã-Bretanha em guerra revelou-se meramente em uma derrota continental de seu exército no mito duradouro de que em 1940, a Grã-Bretanha enfrentava uma luta pela sobrevivência.[2]

Mas o líder naval, Almirante Raeder, repetidamente proibiu que sua equipe planejasse uma invasão da Grã-Bretanha. E longe de querer continuar a guerra, em junho de 1940, Hitler ordenou que 20 divisões de seu exército fossem desmobilizadas no sentido de recuperar a economia alemã. A “frota de invasão” que os nazistas começaram a montar naquele verão era tão capaz de invadir a Grã-Bretanha quanto o Havaí. Era uma guerra por ilusão: sua proposta era fazer com que a Grã-Bretanha se sentasse à mesa de negociação.

Esta “frota” consistia de 1900 barcaças de canal, somente um terço das quais eram motorizadas, para serem alinhadas ao longo do canal, em grupos de três, por cerca de 380 rebocadores. Estas barcaças  tinham pequenas quilhas, proas contundentes e pequenos lemes com apenas dois metros de altura livre: a distância entre a água e a parte superior do casco. Elas teriam sido mesmo afundadas durante uma travessia direta do Canal da Mancha, um trajeto violento e raso ligando o violento Mar do Norte ao Atlântico. Mas uma invasão não teria sido direta. As barcaças, com suas tripulações mal treinadas, teriam sido capazes somente de fazer três nós, a partir dos três “centros” de invasão: Rotterdam, Le Havre e Boulogne. Estes portos estão, respectivamente, de quaisquer praias de desembarque, na melhor das hipóteses, 320 km e 60 horas, 160 km e 30 horas e 80 km e 15 horas, com soldados enjoados empilhados em barcaças apertadas sem banheiro ou água. Qual exército estaria preparado para lutar após uma viagem como esta? E, além disso, havia os 55.000 cavalos que a Wehrmacht precisaria, já que seu transporte ainda não era mecanizado.

Se tudo corresse bem, e este é um termo relativo, a primeira “onda” consumiria 10 dias para desembarcar, com as que operam para e destes três portos distantes, exigindo marés que teriam de obedecer às exigências do Fuehrer, ao invés dos velhos lobos do mar, em comboio, muitas vezes, à noite, e sempre sem luzes de navegação.

Por que sem luzes? Ah, a Marinha Real. É aqui que o assunto torna-se totalmente fantasmagórico. Em agosto de 1940, a Frota doméstica britânica SOZINHA consistia de 140 destróieres, 40 cruzadores e fragatas, cinco encouraçados e dois porta-aviões.

A marinha alemã total, a Kriegsmarine, consistia de apenas 7 destróieres, um cruzador com motores não confiáveis, dois cruzadores em operação, sem porta-aviões, encouraçados ou cruzadores de batalha: o Bismarck e o Tirpitz ainda estavam em construção e o Gneisenau e o Scharnhorst foram danificados e estavam fora de ação até o próximo inverno.

E  a Luftwaffe? Bem, ela não tinha nenhuma aeronave transportadora de torpedos, enquanto que a Grã-Bretanha tinha dois (o Beaufort e o Swordfish, ambos mais tarde mostrando seu poderio ao desabilitar importantes navios alemães), e bombardeio aéreo em mar aberto de navios armados é incrivelmente difícil, mesmo para bombardeios de mergulho: as miras do Stuka eram calibradas para alvos estacionários. Tudo bem, mas a costa britânica não estava indefesa em 1940? Não – além de um grande exército britânico intocado, duas novas divisões canadenses bem equipadas chegaram naquele verão, assim como 200.000 fuzis importados dos EUA.

Isto não diminui o valor da causa aliada, ou a decisão posterior de aproximadamente 7.000 desertores do Exército em pegar novamente em armas contra um dos regimes mais tirânicos da história.

Contudo, quase tudo o que as pessoas acreditaram sobre as intenções de Hitler em relação à Grã-Bretanha em 1940 – e ainda continuam acreditando – foi um mito criado por Churchill, que provavelmente ele próprio acreditava. Considere todos os fatos acima, e então considere como o mito tem perdurado, apesar deles. Faz você pensar, não?


Notas

[1] Éamon de Valera (1882 – 1975) foi uma das figuras políticas dominantes na Irlanda no século XX. Ele foi um dos líderes da Guerra de Independência da Irlanda contra a Grã-Bretanha e era um político conservador que acreditava que a Igreja Católica e a família eram os elementos centrais da identidade irlandesa. De Valera era a favor da neutralidade em relação à guerra na Europa, mas pressão popular obrigou o governo irlandês a ceder tropas para a Grã-Bretanha.

[2] Churchill estava tão obstinado em destruir Hitler que mandou seu serviço secreto forjar um suposto mapa do continente americano sob o controle alemão no sentido de puxar os EUA para a guerra. Ver tópico “O Mapa Secreto de Hitler que colocou os EUA na guerra”.

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sábado, 29 de novembro de 2014

Waterloo: a última batalha de Napoleão

Fabiano Onça

 


Os últimos dias de março de 1815 foram azedos para os diplomatas reunidos em Viena. Ali, representantes de Rússia, Prússia, Áustria, Suécia, Inglaterra e várias nações e reinos menores tentavam, havia meses, redesenhar o mapa político da Europa, reinstaurando as monarquias e os territórios que existiam antes do furacão napoleônico. Porém a ilusão de que o general corso estava liquidado acabou quando souberam que ele não só havia retornado do exílio em Elba (uma ilhota no Mediterrâneo), como no dia 20 de março fora recebido em glória em Paris. Os aliados mal puderam acreditar. Napoleão, dez meses antes, em 11 de abril de 1814, fora derrotado por uma coalizão de mais de 500 mil soldados de várias nações européias, que se sublevaram contra o domínio francês após a desastrosa campanha napoleônica na Rússia, em 1812. Vitoriosos, os aliados colocaram Luís XVIII no trono da França e enviaram Bonaparte ao exílio. Agora, quando estavam prestes a dividir o bolo, teriam de brigar novamente com seu pior pesadelo. E em etapas longas, até a definição, na batalha conhecida como Waterloo.

A escalada de Napoleão começou rápida. Em 15 de julho, com 124 mil homens, invadiu a Bélgica. "Seu único trunfo era bater separadamente os exércitos inimigos antes que se reunissem", diz o professor Alexander Mikaberidze, especialista em história napoleônica da Universidade de Mississipi, nos EUA. "As tropas que estavam na área eram formadas por prussianos e outras compostas por ingleses, belgas, holandeses e alemães, instalados na Bélgica. Napoleão tentaria batê-los para forçar algum armistício com as outras nações, que estavam com seus exércitos mais distantes da França." O desafio não era fácil. O exército anglo-batavo-alemão contava com 93 mil homens, liderados pelo duque de Wellington. O prussiano tinha 117 mil homens, comandados por uma velha raposa, o general Blücher. Mesmo em inferioridade numérica, Napoleão teria de atacar. Dentro de um mês, um exército austríaco de 210 mil homens, outro russo, de 150 mil, e um terceiro grupo austro-italiano, de 75 mil, invadiriam a França pelo norte e pelo sul.

VITÓRIA APERTADA

Quando invadiu a Bélgica, as tropas anglo-batavo-alemãs ainda não haviam se juntado ao exército prussiano. Napoleão decidiu bater primeiramente os prussianos, que estavam a sua direita, em Ligny. E mandou o marechal Ney, com 24 mil homens, para Quatre-Bras a fim de barrar qualquer tentativa de os ingleses ajudarem os aliados. No dia 16 de junho de 1815, Bonaparte encarou o velho Blücher. Sabendo que eram os franceses que tinham de correr atrás do osso, o prussiano entrincheirou seus homens em fazendas próximas a Ligny e esperou. A batalha durou todo o dia. No fim da tarde, a Guarda Imperial francesa arrebentou o centro prussiano, decidindo a batalha. Blücher evitou uma desgraça maior, liderando o contra-ataque com a cavalaria. Os prussianos puderam recuar em ordem, na escuridão.

Ao término do embate, os prussianos amargavam 22 mil baixas, contra 11 mil dos franceses. "Blücher evitou a derrota. Napoleão, porém, conseguiu o que queria: afastar os prussianos para bater os ingleses em seguida", afirma o professor Mikaberidze. Para não deixar que os prussianos pudessem se juntar aos ingleses na batalha seguinte, Napoleão destacou uma tropa de 30 mil homens, entregou-a ao general Grouchy e ordenou que perseguisse os prussianos.

No dia seguinte, 17 de junho, Wellington se aproveitou da chuva forte que caiu sobre a região para levar o exército a uma posição mais segura, o monte Saint Jean. Os franceses chegaram lá ao fim do dia. O temporal continuava. Mas Napoleão não dispunha de tempo. Mesmo sob tempestade, ele foi pessoalmente verificar as condições do campo durante a noite. "Naquele momento, Bonaparte tinha a chance com que tanto sonhara. Os prussianos estavam em retirada, sendo acossados por Grouchy. A ele só restava ter um bom desempenho contra os ingleses no dia seguinte e demonstrar à Europa que a França ainda estava viva", comenta o professor Wayne Hanley, especialista em história moderna da Universidade de West Chester, na Pensilvânia, EUA.

Pela manhã, o tempo melhorara. Wellington contava com 23 mil ingleses e 44 mil soldados aliados, vindos da Bélgica, da Holanda e de pequenos estados alemães, num total de 67 mil homens, apoiados por 160 canhões. Os franceses contavam com 74 mil homens e 250 canhões. Wellington posicionou suas tropas ao longo da elevação de Saint Jean. Sua ala direita se concentrava em torno da fazenda de Hougomount. No centro, logo abaixo da colina, outra fazenda, La Haye Sainte, estava ocupada por unidades do exército dos Países Baixos. À esquerda, tropas aliadas se posicionavam em torno de uma terceira fazenda, a Papelotte. "Wellington assumiu uma postura extremamente defensiva. Em parte porque seu exército não era dos melhores e porque, para ele, quanto mais tempo demorasse a batalha, maiores eram as chances de o reforço prussiano chegar", relata Hanley.

CANHÕES NA FAZENDA

Napoleão queria começar o ataque cedo. Mas a chuva do dia anterior havia transformado o campo de batalha num lamaçal. Ele teve de esperar até as 11 horas da manhã, quando o solo ficou mais seco, para iniciar o ataque contra Wellington. A idéia era chamar a atenção para esse setor e fazer o inglês desperdiçar tropas ali e então atacar no centro. O ataque a Hougomount, com fogo de canhões, durou meia hora. O lugar era protegido por duas companhias inglesas, que não somavam mais de 3,5 mil homens. Elas receberam o peso de mais de 10 mil franceses, mas não cederam. Aos poucos, o que era para ser um blefe tragou durante todo o dia preciosos recursos franceses. Pior, Wellington não caíra na armadilha e mantinha as melhores tropas no centro, perto de La Haye Sainte. Napoleão então decidiu que era a hora de atacar o centro da linha inglesa. Por volta de 12h30, o marechal Ney, seu braço-direito, posicionou 74 canhões contra a estratégica fazenda de La Haye Sante. "Napoleão era militar da artilharia, e essa experiência ganhou uma grande importância no exército. Virou a arma mais temível", explica o professor Mikaberidze.

Napoleão agora faria o que sempre comandava com eficiência: explodir o centro adversário. Pressentindo o perigo, Wellington ordenou às as tropas posicionadas no alto do monte Saint Jean que se jogassem ao chão para diminuir os danos, mas nem todos tiveram a chance. As tropas belgo-holandesas do general Bilandt, que permaneceram na encosta desprotegida do monte, foram simplesmente massacradas. Mal os canhões se calaram, foi a vez de os tambores da infantaria francesa iniciarem seu rufar. Às 13 horas, marchando em colunas, os 17 mil homens do corpo comandado pelo general D·Erlon atacaram. O objetivo: conquistar a fazenda de La Haye Sainte, o ponto vital do centro inglês. Ao mesmo tempo, outro contingente se aproximava, pressionando a ala esquerda dos britânicos. Napoleão agora declarava as suas verdadeiras intenções e partia para o ataque frontal. Acossadas pela infantaria francesa, as tropas inglesas perderam Papellote e deixaram vulnerável a ala esquerda. Ao mesmo tempo, as tropas alemãs da Legião do Rei, as responsáveis pela guarda de La Haye Sainte, no centro, ameaçavam sucumbir.

Foi o momento de Wellington pensar rápido. Na ala esquerda, o comandante inglês ordenou que o príncipe alemão Bernhardt de Saxe-Weimar retomasse Papelotte, o que foi feito com sucesso. Para conter o ataque da infantaria napoleônica no centro, ele acionou a 5ª Brigada, veterana da guerra na Espanha. Fuziladas a curta distância, as tropas de Napoleão retrocederam, não sem antes deixar morto no campo, com uma bala na cabeça, o chefe da brigada inimiga, o general Picton. Ao ver os franceses recuando, Wellington viu a chance de liquidar a batalha. Acionou sua cavalaria para um contra-ataque no centro. As brigadas Household, Union e Vivian provocaram desordem entre os franceses. Mas por pouco tempo. Perto da linha de canhões inimiga, a cavalaria inglesa foi surpreendida por um contragolpe mortal. A cavalaria pesada francesa, com seus Courassiers (couraceiros), apoiados pelos Lanciers (cavalaria leve), atacou os ingleses. O general Ponsonby, chefe da brigada Union, morreu junto com sua unidade, aniquilada. Napoleão dava o troco e continha os ingleses.

Eram 15 horas e a batalha permanecia num impasse. Na ala direita de Wellington, a luta prosseguia sem um resultado decisivo em Hougomount. No centro e na esquerda, os ingleses e os aliados batavos e alemães haviam a muito custo mantido La Haye Sainte e Papilotte. Foi nessa hora, entretanto, que Bonaparte recebeu uma notícia que o alarmou. Cerca de 40 mil homens se aproximavam do lado direito do exército francês, nas imediações de Papilotte. De início, chegou a pensar que fosse o general Grouchy - que havia sido encarregado de afastar os prussianos - chegando. Logo suas esperanças se desfizeram. Grouchy falhara. Aquele corpo de exército era simplesmente a vanguarda do exército prussiano, que chegava para socorrer o aliado inglês. Napoleão teve que improvisar. Sua ala direita, comandada pelo general Lobau, se realinhou de modo defensivo para segurar a chegada dos prussianos e dar ao imperador algumas horas para agir.

FIM TRÁGICO

Enquanto isso, ele ordenou ao marechal Ney que, de uma vez por todas, tomas-se La Haye Sainte e rompesse o centro inglês, assegurando a vitória. Ney, com dois batalhões de infantaria, atacou a fazenda. Nesse momento, cometeu um erro fatal de julgamento. "Em meio à fumaça dos canhões e à loucura da batalha, Ney supôs que o exército inglês estava recuando. Ele então ordenou que sua cavalaria partisse para cima do inimigo. Napoleão achou o movimento precipitado, mas, uma vez que Ney era quem estava encabeçando o ataque, enviou mais cavaleiros para sustentar a carga", comenta o professor Hanley.

A tremenda carga dos Courassiers terminou de forma trágica. A infantaria inglesa não estava recuando, como Ney imaginava. Eles se agruparam em quadrados e passaram a fuzilar os cavaleiros franceses, que não conseguiam romper as formações defensivas. Nas duas horas seguintes, Ney lideraria ao menos 12 cargas de cavalaria contra o centro inglês, com mais de 5 mil cavaleiros. Às 17 horas, La Haye Sainte finalmente caiu em mãos francesas, mas os ingleses ainda mantinham seu centro coeso no alto do monte Saint Jean. Às 17h30, a cavalaria francesa lançou o assalto final e foi novamente batida. Os ingleses não estavam em melhor estado e suas linhas estavam a ponto de romper. Ney, dessa vez corretamente, identificou a oportunidade de vencer e implorou a Napoleão por mais tropas. "De onde você espera que eu tire mais tropas? Quer que eu invente algumas agora?", respondeu Napoleão, irritado.

"Nesse momento, Bonaparte viu a vitória escapar. Mais um esforço e Wellington teria sido derrotado. A essa altura, os prussianos estavam esmigalhando a direita de seu exército e ele teve que priorizar esse setor para ganhar mais fôlego. Na verdade, talvez ele esperasse ver surgir, a qualquer momento, as tropas de Grouchy. Com 30 mil homens a mais, ele poderia ter vencido a batalha", pondera o professor Mikaberidze. A luta com os prussianos ia de mal a pior. Dez batalhões da Jovem Guarda, após um combate feroz contra o dobro de inimigos, haviam perdido 80% de seus homens e começavam a recuar.

Napoleão decidiu então utilizar sua última e preciosa reserva: a Velha Guarda, a elite de seus veteranos. Ele enviou dois batalhões contra os prussianos - e mais uma vez eles fizeram valer sua fama. "Quando a Velha Guarda entrava em campo, os inimigos tremiam. Até então, ela nunca havia sido derrotada em batalha", relembra o professor Hanley. "Os dois batalhões varreram, sozinhos, 14 batalhões prussianos, estabilizaram a ala direita e deram ao imperador a chance de lutar novamente contra Wellington no centro", comenta. Napoleão então jogou a última cartada. Às 19 horas, enviou contra o centro inglês os últimos quatro batalhões da Velha Guarda. "Wellington, nesse meio tempo, embora quase tenha dado o toque de retirada, foi beneficiado pela intensa pressão dos prussianos, que diminuíram seu front e lhes livraram algumas unidades", aponta Hanley. Em desespero, o general inglês reuniu tudo o que tinha e esperou o ataque final entrincheirado no alto do Saint Jean. Enquanto subia o monte, a Velha Guarda foi assaltada pelas unidades inglesas, alemãs e holandesas. Uma a uma, foram repelidas, enquanto os veteranos de Napoleão continuavam seu avanço.

"A 5ª Brigada inglesa, do general Hallket, tentou pará-los, mas logo seus homens fugiram assustados diante do avanço francês. Apesar de sofrer baixas horríveis e lutar na proporção de 1 para 3, simplesmente ninguém conseguia parar a Velha Guarda", afirma Hanley. Wellington, por ironia, foi salvo não por suas próprias tropas, mas por um general belga que durante anos lutou ao lado de Napoleão - quando a Bélgica era um domínio francês. O general Chassé, à testa de seis batalhões holandeses e belgas, se lançou numa carga feroz de baioneta contra os franceses. O ataque foi demais, até mesmo para a Velha Guarda. Sem apoio e em menor número, pela primeira vez os veteranos de Napoleão recuaram.

Logo, os gritos de "la Garde recule!" (a Guarda recua) ecoaram pelo campo. O centro inglês havia resistido a despeito de todos os esforços. Pelo lado direito, os 40 mil prussianos finalmente esmagavam os 20 mil franceses que lhes haviam obstruído durante horas. Em um último ato de coragem, três batalhões da Velha Guarda permaneceram lutando para dar ao imperador a chance de fugir. Lutariam até o fim. Cercados por prussianos, receberam ordem de rendição. O general Cambonne, o líder, teria então afirmado: "A Guarda morre, mas não se rende". Em outro ponto, o marechal Ney, apelidado por Napoleão como "o bravo dos bravos", ao ver tudo perdido, reuniu um grupo de soldados fiéis e liderou uma última carga de cavalaria, gritando: "Assim morre um marechal da França!" Capturado, foi fuzilado depois pelo governo monarquista francês por alta traição.

Napoleão, agarrado por auxiliares, foi retirado à força do campo de batalha. Seria posteriormente posto sob custódia inglesa e enviado à distante ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde morreria em 1821. A batalha custara a ingleses, belgas, holandeses e alemães 15 mil baixas. Os prussianos deixaram no campo 7 mil homens. Os franceses amargaram 25 mil mortos e feridos, além de 8 mil prisioneiros.

Foi só às 21 horas que Wellington finalmente se encontrou com Blücher para o aperto de mãos. A ameaça napoleônica fora vencida de vez. Blücher queria chamar a batalha de Belle Aliance - nome da fazenda que fora o quartel - general de Napoleão durante a batalha. Wellington, porém, teve outra idéia. É que ele tinha suas manias. Uma delas era batizar combates com o nome do lugar onde ele dormira na noite anterior. Uma vila a alguns quilômetros dali, conhecida por Waterloo, deu então o nome à histórica batalha.

Grouchy, o traidor de Napoleão?

Quase dois séculos depois, ainda permanece a dúvida sobre o marechal Grouchy Ter ou não passado Napoleão para trás. "Grouchy é visto como o culpado pela derrota de Bonaparte por não ter evitado que os prussianos se unissem aos ingleses e por não ter acorrido à Waterloo, com seus 30 mil homens, quando ouviu a canhonaria da batalha", aponta o professor William Flayhart, professor de história moderna da Delaware State University, nos EUA. "Os bonapartistas mais exaltados viram aí sinal de traição. Na época, especulava-se que Grouchy fora subornado. Ele virou bode expiatório." Emmanuel Grouchy passaria o resto da vida tentando provar a inocência. Seu passado ao lado da causa napoleônica era o maior argumento. Ele se juntara ao exército em 1781. As habilidades como comandante foram notadas nas batalhas de Eylau (1807), Friedland (1807) e Borondino, contra os russos - uma atuação muito elogiada. "Talvez tenha faltado a Grouchy presença de espírito. Mesmo quando seu subordinado, o general Gerárd, lhe implorou para que dirigisse as tropas a Waterloo, Grouchy preferiu seguir as ordens à risca, ou seja, dar caça aos prussianos", completa o professor Flayhart. Grouchy combateu os prussianos em Wavre, em 18 de junho, dia em que Napoleão foi derrotado em Waterloo. Blücher deixara sua retaguarda como isca - e o marechal francês interpretou que esse fosse o grosso do exército inimigo. Grouchy venceu o embate para no dia seguinte receber a notícia da chegada de mais soldados inimigos. Ele ainda recuou para Paris com seus homens. Escorraçado por seus pares e pela opinião pública, só foi reaver seu bastão de marechal em 1830. "As cargas desordenadas de Ney e o medíocre dispositivo de batalha de Napoleão pesaram muito mais na derrota do que a ausência de Grouchy, que ficou com a maior culpa", diz Alfred Fierro, ex-diretor da Biblioteca Histórica de Paris.

Os maiores erros

IMPRUDÊNCIA

"Napoleão deveria ter preservado seu exército, como escreveu seu general Kellerman: ·Não poderíamos vencer os britânicos naquele dia. Com calma, evitaríamos o pior·." Steven Englund, historiador americano.

ATAQUE INFRUTÍFERO A HOUGOMOUNT

"Napoleão foi pretensioso em seu ataque à ala direita de Wellington. Só desperdiçou recursos que seriam vitais em outras áreas. No fim, Bonaparte provou que seus homens estavam fatigados. As manobras foram inócuas diante de inimigos." Wayne Hanley, da Universidade de West Chester, nos EUA.

AUXILIARES FRACOS

"Seu melhor general, Davout, estava em Paris, para a segurança da capital. Outra opção infeliz foi Soult, inadequado para a função logística. Pior foi ter dado ao inexperiente Grouchy o comando da ala esquerda, o que se provou fatal." Alexander Mikaberidze, da Universidade de Mississipi (EUA).

ATAQUES DESESPERADOS

"Ney era provavelmente o mais corajoso e leal de todos os oficiais a serviço de Bonaparte. Foi o último francês a sair da Rússia, em 1812, e Napoleão o chamava de ·o bravo dos bravos·. Mas seu ataque em Waterloo, com a cavalaria, foi puro desespero, um verdadeiro suicídio. Napoleão deveria ter abortado essa ação impensada de seu general." Alfred Fierro, ex-diretor da Biblioteca Histórica de Paris.

A morte de Napoleão

Depois de dois meses de viagem, em 17 de outubro de 1815, o ex-imperador da França chegou à longínqua ilha de Santa Helena, uma possessão inglesa encravada no Atlântico Sul, distante 1,9 mil km da África e 2,9 mil km do Brasil. A seu lado, apenas alguns poucos servos e amigos. Mas o pior ainda estava por vir. Em 14 de abril de 1816, chegou o novo governador da ilha, sir Hudson Lowe. Esse não tinha nenhuma qualidade excepcional, exceto seu fanático amor ao dever. Durante os anos de seu mandato, ele submeteu Bonaparte a toda sorte de mesquinharias. Em 1819, Napoleão caiu doente, mas ainda escreveria, em 1820: "Eu ainda estou suficientemente forte. O desejo de viver me sufoca". Na prática, porém, não foi bem assim. Ele morreria às 17h51, em 5 de maio de 1821, depois de sofrer fortes dores no estômago por meses. Ironicamente, mesmo após sua morte ele ainda levantaria controvérsias. Para muitos, o ex-imperador dos franceses fora lentamente envenenado com arsênico pelos ingleses. Pesquisas recentes descartam a hipótese, conforme registra Steven Englund em seu livro Napoleão - Uma Biografia Política. Porém a última glória os ingleses não puderam lhe roubar. Em 1840, seu corpo foi retirado da ilha e levado de volta à França. Durante dias, Paris parou para saudar a volta de seu imperador, em um desfile fúnebre grandioso.



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