quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Como o Extremismo Sionista tornou-se um problema para a Espionagem britânica

Calder Walton

Foreing Policy, 01/01/2014


Os anos após a Segunda Guerra Mundial não foram agradáveis aos serviços de inteligência britânicos – especialmente o MI5, sua agência de segurança e contrainteligência doméstica. Em nome da austeridade, o financiamento dos serviços de inteligência da nação foi reduzido, seus poderes de emergência na época da guerra foram removidos e seu número de membros drasticamente reduzido. Os postos do MI5 foram reduzidos de 350 funcionários em seu auge em 1943 para apenas uma centena em 1946. Seus registros administrativos revelam que ela foi obrigada a comprar tinta e papel baratos e seus empregados foram instruídos a datilografar relatórios nos dois lados do papel para economizar dinheiro. E houve algumas discussões sérias dentro do governo, assim como houve após a Primeira Guerra Mundial, sobre fechar o MI5. Infelizmente para o MI5, nos anos pós-guerra ela enfrentou a pior combinação de circunstâncias: recursos escassos, mas responsabilidades crescentes. Após a guerra, a Grã-Bretanha tinha mais territórios sob seu controle do que qualquer outro momento da história, e o MI5 era responsável pela inteligência de segurança em todos os territórios britânicos.

Mas a ameaça mais urgente do MI5 não estava em seus recursos diminutos, nem no seu novo inimigo soviético. Registros de inteligência recentemente liberados ao público revelam que no final da guerra a prioridade principal do MI5 era a ameaça do terrorismo emanando do Oriente Médio, especificamente dos dois principais grupos terroristas sionistas operando no protetorado da Palestina, que estava sob controle britânico desde 1921. Eles eram chamados Irgun Zevai Leumi  (“Organização Militar Nacional”, ou  simplesmente “Irgun”) e o Lehi (um acrônimo hebraico para “Combatentes Livres de Israel”), que os britânicos também chamavam de “A Gangue Stern”, em homenagem ao seu fundador, Avraham Stern. O Irgun e a Gangue Stern acreditavam que as políticas britânicas na Palestina nos anos do pós-guerra – impedindo a criação de um estado independente judaico – legitimizava o uso da violência contra alvos britânicos. O envolvimento do MI5 com contraterrorismo, que o preocupa até hoje, nasceu nos anos seguintes do pós-guerra quando ele começou a lidar com o Irgun e a Gangue Stern.

O envolvimento do MI5 com o terrorismo sionista oferece uma nova e surpreendente interpretação da história do início da Guerra Fria. Para a extensão total da Guerra Fria, a prioridade principal para os serviços de inteligência da Grã-Bretanha e outras potências ocidentais residiria na contraespionagem, mas como podemos ver agora, no período crucial de transição da Guerra Mundial para a Guerra Fria, o MI5 estava, ao invés disso, preocupado basicamente com contraterrorismo.

Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, o MI5 recebeu uma série de relatórios de inteligência alertando que o Irgun e a Gangue Stern não estavam apenas planejando violência no protetorado da Palestina, mas também lançar ataques dentro da própria Grã-Bretanha. Em abril de 1945, uma mensagem urgente do posto do MI5 no Oriente Médio, SIME, alertou que a Vitória na Europa (VE-Day) seria um Dia-D para os terroristas judeus no Oriente Médio. Então, na primavera e verão de 1946, coincidindo com uma escalada crescente de violência antibritânica na Palestina, o MI5 recebeu relatórios aparentemente confiáveis do SIME que o Irgun e a Gangue Stern estavam planejando enviar cinco “células” terroristas para Londres, “para trabalhar nas linhas do IRA”. Para usar suas próprias palavras, os terroristas pretendiam  “bater o cão em seu próprio canil”. Os relatórios do SIME foram obtidos do interrogatório de combatentes capturados do irgun e da Gangue Stern, de agentes policiais locais na Palestina e de ligações com grupos políticos oficiais sionistas como a Agência Judaica.  Eles afirmaram que entre os alvos para assassinato estavam o secretário do exterior da Grã-Bretanha, Ernest Bevin, que era lembrado como sendo o maior obstáculo ao estabelecimento de um Estado judeu no Oriente Médio, e o próprio Primeiro-Ministro. O novo diretor geral do MI5, Sir Percy Sillitoe, estava tão alarmado que em agosto de 1946 pessoalmente avisou o Primeiro-Ministro da situação, alertando-o que uma campanha de assassinato na Grã-Bretanha deveria ser considerada uma possibilidade real, e que seu próprio nome era sabido estar na lista de alvos da Gangue Stern.

Os registros de ação do Irgun e da Gangue Stern na época da guerra garantiram que o MI5 levasse a sério essas ameaças. Em novembro de 1944, a Gangue Stern assassinou o ministro britânico para o Oriente Médio, Lorde Moyne, enquanto ele retornava para sua casa alugada após almoçar no Cairo. O assassinato de Moyne foi seguido por uma escalada de violência na Palestina, com incidentes contra os britânicos e os combatentes do Irgun e da Gangue Stern sendo seguidos por represálias sanguinárias. Em meados de junho de 1946, após o Irgun lançar uma onda de ataques, bombardeando cinco trens e 10 das 11 pontes conectando a Palestina aos estados vizinhos, a passividade britânica finalmente acabou. As forças britânicas conduziram prisões em massa através da Palestina (chamada Operação Agatha), culminando em 29 de junho – conhecido como “Sabbath Negro” porque era um sábado – com a detenção de mais de 2.700 líderes sionistas e funcionários de baixo escalão, assim como membros da força de defesa judaica (Haganah) e seus comandos espalhados (Palmach). Nenhum dos líderes importantes do Irgun e da Gangue Stern foram presos na ação, e o resultado foi apenas lançá-los em contra-ações mais violentas. Em 22 de julho, o Irgun realizou uma ação devastadora, chamada Operação Pintinho, no coração do governo britânico na Palestina quando ele bombardeou o King David Hotel em Jerusalém, que era o centro dos escritórios do governo britânico no protetorado, assim como quartel-general do Exército britânico na Palestina.

O ataque foi planejado pelo líder do Irgun, Menachem Begin, mais tarde o sexto primeiro-ministro de Israel e ganhador do Prêmio Nobel da Paz. Na manhã de 22 de julho, seis membros jovens do Irgun entraram no hotel disfarçados como árabes, carregando garrafas de leite carregadas com 500 libras de explosivos. Às 12:37 pm, as bombas explodiram, arrancando a laje do lado sudoeste do edifício. Isto provocou o colapso de vários andares do hotel, resultando na morte de 91 pessoas. Em termos de fatalidades, o atentado ao King David foi uma das piores atrocidades terroristas infligidas aos britânicos no século XX. Foi também um ataque direto contra a inteligência britânica e os esforços contraterroristas na Palestina: tanto o MI5 quanto o SIS – o Serviço de Inteligência Secreto, conhecido como MI6 – tinham escritórios no hotel.

Na esteira do atentado, o Irgun e a Gangue Stern lançaram uma série de operações fora da palestina, assim como previram os relatórios do MI5. No final de outubro de 1946, uma célula do Irgun operando na Itália explodiu a Embaixada britânica em Roma e após isto, no final de 1946 e início de 1947, com uma série de ataques de sabotagem contra transporte militar britânico em rotas da Alemanha ocupada. Em março de 1947, um agente do Irgun deixou uma bomba no Clube Colonial, próximo  da Alameda St Martin no coração de Londres, que explodiu as portas e janelas do clube, ferindo muitos garçons. No mês seguinte, uma agente  do Irgun deixou uma bomba enorme, consistindo de 24 bananas de explosivo, no Colonial Office em Londres. A bomba falhou em detonar porque seu temporizador falhou. O chefe do Departamento de Polícia Metropolitana Especial, Leonard Burt, estimou que se a bomba tivesse explodido ela teria causado um número de vítimas comparável ao do King David Hotel – mas desta vez no coração de Whitehall. Quase simultaneamente, vários políticos britânicos proeminentes e figuras públicas ligadas à Palestina receberam ameaças de morte da Gangue Stern em seus lares e escritórios. Finalmente, em junho de 1947, a Gangue Stern lançou uma campanha de cartas-bombas na Grã-Bretanha, consistindo de 21 bombas no total, que almejava todo membro importante do Gabinete. As duas ondas de bombas foram postadas de uma célula subterrânea na Itália. Algumas delas na primeira onda atingiram seus alvos, mas não resultaram em quaisquer vítimas.  Sir Stafford Cripps foi somente salvo graças à mente ágil de sua secretária, que suspeitou de um pacote cujo conteúdo parecia fazer um chiado e o colocou num pote de água. O vice-líder do Partido Conservador, Sir Anthony Eden, carregou uma carta bomba consigo o dia inteiro numa pasta de executivo, achando que era um memorando de Whitehall que poderia esperar até o dia seguinte para ser lido, e somente percebeu o perigo que carregava quando foi alertado pela polícia do ataque planejado, com a informação fornecida pelo MI5.

O problema para o MI5 em Londres, e para as forças locais de segurança na Palestina, era a natureza extremamente difícil de detectar e conter o Irgun e a Gangue Stern. Ambos os grupos eram organizados verticalmente em células, cujos membros eram desconhecidos àqueles pertencentes a outras células e cuja lealdade extrema significava que elas eram quase impossíveis de serem infiltradas. Como um dos principais líderes do MI5 a enfrentar o terrorismo sionista, Alex Kellar notou em um dos relatórios do MI5, “estes terroristas são cascas grossas, e não é fácil fazê-los falar.” Para complicar ainda mais, eles frequentemente faziam uso de identidades falsas e disfarces. Agentes femininas usavam penteados para mudar sua aparência, enquanto que agentes masculinos costumavam vestirem-se de  mulheres para enganar as patrulhas de segurança.

Menachem Begin era conhecido por viajar sob vários pseudônimos, e após o atentado do King David Hotel ele conseguiu enganar a polícia palestina e a recompensa por sua cabeça por meio de uma série de disfarces inteligentes. Em novembro de 1946, a polícia palestina produziu relatórios alarmantes que ele poderia estar viajando incógnito para a Grã-Bretanha. Então,  no início de 1947, o alarme atingiu o máximo quando o SIS enviou um relatório ao MI5 alertando que Begin poderia ter feito uma cirurgia plástica para mudar sua aparência, apesar do relatório concluir causticamente que “não temos nenhuma descrição da nova face.” A estória logo vazou para a imprensa, com o News Chronicle colocando em primeira página “Palestina caça uma Face Nova” e sarcasticamente notando que apesar de Begin poder ter alterado sua aparência, “era provável que os pés chatos e os dentes ruins tenham permanecido.” Como poderia se supor, os relatórios sobre a cirurgia plástica de Begin eram incorretos: eles foram causados por confusão dentro da Polícia Palestina (CID) ao comparar fotos dele. Begin, na verdade, não havia deixado a Palestina, mas deixara crescer uma barba e disfarçou-se como rabino, iludindo a polícia local ao se esconder em um compartimento secreto na casa de um amigo em Jerusalém. Quando ele concordou dar uma entrevista secreta ao autor Arthur Koestler, ele o fez em um quarto sombrio: Koestler tentou inutilmente contar com a ajuda de cigarros, tentado gerar fumaça suficiente para conseguir um visão instantânea da aparência de Begin.

A situação ficou mais alarmante para o MI5 pelo fato de que membros do Irgun e da Gangue Stern haviam servido nas forças britânicas durante a guerra. Por ironia do destino, alguns deles foram treinados pela agência de sabotagem de guerra, SOE, e seus serviços de inteligência estrangeiros, SIS, enquanto serviam na unidade de elite dos comandos Palmach da organização paramilitar judaica, a Haganah. Assim como antigos membros de outros grupos guerrilheiros que os britânicos armaram durante a guerra, como as forças comunistas na Malásia, o Irgun e a Gangue Stern usaram seu treinamento em explosivos e outras técnicas paramilitares contra seus antigos mestres. Relatórios chegando às mesas do MI5 durante o verão de 1946 alertavam que os combatentes do Igurn e da Gangue Stern poderiam ainda estar servindo no Exército britânico e planejavam usar isto como cobertura para viajar à Grã-Bretanha. O MI5 teve que enfrentar assim a possibilidade real de que terroristas poderiam chegar à Grã-Bretanha vestindo uniformes nacionais.

Com estes relatórios surpreendentes chegando a seus escritórios em Londres, o MI5 adotou uma série de medidas para prevenir a extensão do terrorismo sionista da Palestina até a Grã-Bretanha. Estas medidas deixaram poucos traços dentro dos registros oficiais previamente liberados para domínio público, mas como podemos ver agora a partir dos próprios registros do MI5, elas eram frequentemente bem elaboradas. A linha de frente de sua defesa contraterrorista era o que foi chamado de “segurança pessoal”, que envolvia fazer verificações de histórico e avaliação de pedidos de entrada na Grã-Bretanha. Sob a recomendação do MI5, todos os pedisod de visto de entrada feita por indivíduos judeus do Oriente Médio eram imediatamente repassados ao MI5 para verificação em relação aos registros antes da permissão de entrada. O MI5 também conduziu uma série de verificações de histórico em seus registros de aproximadamente 7.000 militares judeus incorporados às forças armadas britânicas. Isto levou à identificação de 40 pessoas com suspeita de possuírem simpatias extremistas, 25 dos quais foram desligados das forças armadas. As medidas de segurança do MI5 também envolveram inspeções rígidas em portos e outros pontos de entrada para o reino Unido, para cada um dos quais o MI5 compilou e distribuiu um “Catálogo de Terroristas”, enquanto a Scotland Yard fornecia proteção a muitas figuras públicas e políticas e aumentava a presença na guarda do Palácio de Buckingham.  Em outubro de 1947, um oficial da polícia palestina, CID, Major John O´Sullivan, viajou para Londres e foreneceu ao MI5 fotografias em microfilme de suspeitos terroristas que foram adicionados ao catálogo. Algumas dessas fotos são guardadas hoje com zelo e orgulho por alguns ex-membros do Irgun e da Gangue Stern.

Simultaneamente a estas medidas de “segurança pessoal”, que foram elaboradas para frustrar a entrada de terroristas ou simpatizantes na Grã-Bretanha, o MI5 partiu para a vigilância intensiva de grupos políticos sionistas extremistas e indivíduos suspeitos. Sua lógica por trás disso era que os agentes da Irgun e da Gangue Stern que ganharam entrada na Grã-Bretanha fariam em algum momento contato com estas organizações ou indivíduos, e portanto expor suas atividades poderia fornecer elementos cruciais para rastreá-los. O MI5 também presumiu que os agentes fariam contato com elementos da comunidade judaica na Grã-Bretanha. Estas hipóteses mais tarde se provaram corretas.

Para investigar grupos e indivíduos sionistas na Grã-Bretanha, o MI5 usou o repertório completo de técnicas investigativas ao seu dispor. No coração de suas investigações estava a Garantia de Acesso Oficial[1] (GAO), que permitia interceptação de correspondência e grampos telefônicos. Nos anos do pós-guerra, o MI5 impôs GAOs em todos os principais corpos políticos sionistas na Grã-Bretanha: a Agência Judaica para a Palestina, a Legião Judaica, a Legião Árabe-Judaica, a Federação Sionista do Trabalho Judaico e a Organização Juvenil “Revisionista” Sionista[2]. A última delas, em particular, provocou um certo alarmismo no MI5. Alguns de seus membros frequentavam clubes judeus na região norte de Londres com discursos inflamados contra os britânicos, fundindo religião com política. Outra fonte de preocupação era o Luta Judaica, uma publicação “revisionista” sionista publicada em Londres que frequentemente publicava propaganda extremista do Irgun na Palestina, tipicamente denunciando os britânicos como “nazistas” e defendendo o uso da violência. O medo do MI5 era que o Luta Judaica agisse como fonte de recrutamento para futuros terroristas na Grã-Bretanha. EM dezembro de 1946, Alex Kellar e o conselheiro jurídico do MI5, Bernard Hill, encontraram-se com o diretor de promotoria pública e decidiram que, apesar da evidente falta de provas em processar, eles alertariam oficialmente os editores do Luta Judaica que se eles continuassem a publicar material do Irgun, o periódico seria fechado. O jornal aparentemente parou de publicar tal material logo depois.

Outra grande fonte de inteligência contraterrorista do MI5 nos anos de pós-guerra eram grupos sionistas e judeus moderados, tanto na Palestina quanto na Grã-Bretanha. Isso estabeleceu ligações próximas com o corpo oficialmente responsável pela representação dos desejos sionistas em relação ao governo britânico, a Agência Judaica. De fato, a política do MI5 em relação a Agência Judaica era ambígua: ele cooperava com ela, mas ao mesmo tempo a mantinha sob estrita vigilância, grampeando telefones e violando correspondências em seu quartel-general em Londres mesmo quando a Agência Judaica mantinha contato com seus funcionários. A razão para isto é que, apesar do MI5 confiar nos agentes de segurança da agência, ele suspeitava que seu grande staff e membros poderiam abrigar simpatizantes do Irgun e da Gangue Stern. A voluntariedade da agência em fornecer aos britânicos informações sobre o Irgun e a Gangue Stern revela a extensão na qual as atividades daqueles grupos não eram apoiadas pela maioria da população judaica na palestina – e isto, deve ser notado, não tem paralelo no terrorismo árabe e islâmico atual. O atentado ao King David Hotel conduziu o Movimento de Resistência Hebraico, que foi forjado entre o Haganah, o Irgun e a Gangue Stern a um fim. A operação de atentado do Irgun não foi aprovada pelo Haganah, e após julho de 1946, este último começou a fornecer aos britânicos informações sobre o Irgun e a Gangue Stern e ajudou o pessoal de segurança britânico a caçá-los.

Na própria Palestina, o oficial de ligações do MI5 estacionado em Jerusalém nos anos do pós-guerra, Henry Hunloke, um antigo deputado conservador, manteve contatos próximos com funcionários da Agência Judaica e coligiu informações valiosas deles, por exemplo, sobre terroristas suspeitos entrando ou saindo clandestinamente da palestina. Um dos funcionários da Agência de quem tanto o MI5 quanto o SIS (MI6) receberam inteligência contraterrorista foi Reuven Zislani, que trabalhou no departamento de inteligência estrangeira da Agência Judaica. Após 1948, Zislani mudou seu nome para Reuven Shiloah e tornou-se o primeiro chefe do serviço de inteligência estrangeira de Israel, o Mossad.

Em seus esforços para estabelecer contatos com funcionários da Agência Judaica na Grã-Bretanha, o MI5 usou uma série de intermediários. Apesar da documentação tornada pública estar presentemente incompleta, parece provável que o representante da Agência Judaica que encontrou o intermediário do MI5 foi Teddy Kollek, mais tarde um prefeito popular de Jerusalém, que durante a guerra tornou-se o vice-chefe do departamento de inteligência da Agência Judaica. Kollek é conhecido por ter fornecido ao MI5 inteligência contraterrorista na Palestina: por exemplo, em agosto de 1945 ele revelou a localização de um campo de treinamento secreto do Irgun próximo a Binyamina e disse a um funcionário do MI5 que “seria uma grande ideia atacar o local.” A informação que ele forneceu resultou na prisão de 27 combatentes do Irgun, incluindo o pai de um futuro ministro israelense.

Alguns dos encontros mantidos em março de 1947 entre o funcionário da Agência Judaica – provavelmente Kollek – e o intermediário do MI5, conhecido nos registros desclassificados pelo seu codinome, Escorpião, aconteceram nos restaurantes mais luxuosos de Londres. Um deles foi regado a uma refeição abundante de “ostras, pato e pequenos potes de creme de chocolate,” enquanto outro teve gim e “rosbife vermelho.” Os encontros produziram alguma inteligência sobre os combatentes do Irgun e da Gangue Stern suspeitos de estarem deixando a Palestina, cujos nomes o MI5 colocou em “listas de verificação” em portos e aeroportos britânicos. Apesar do valor desta informação, um funcionário do MI5 não poderia ajudar notando que sua boca começou a salivar quando ele leu os relatórios de Escorpião. Acima de tudo, esta era uma época quando na Grã-Bretanha austera, o racionamento de pão acontecia diariamente.

À medida que a ameaça terrorista intensificou-se, o MI5 tornou-se gradativamente preocupado com o apoio mostrado por grupos estrangeiros, e mesmo potências estrangeiras, ao Irgun e a Gangue Stern. Não exigiu muito trabalho de detetive para o MI5 descobrir que os dois grupos estavam recebendo apoio técnico do IRA. Um líder judaico do IRA, Robert Briscoe, que também foi membro do parlamento irlandês, um sionista “revisionista” e futuro prefeito de Dublin, era conhecido do MI5 por seu apoio ao Irgun, e em suas memórias ele lembrou que os ajudava da forma como ele podia. Briscoe, que em suas próprias palavras “teria feito negócios com Hitler se isso fosse bom para a Irlanda,” fez várias viagens à Grã-Bretanha antes da guerra e encontrou representantes do Irgun lá. Ele escreveu em suas memórias que ele nomeou-se “Professor com Doutorado em Atividades Subversivas contra a Inglaterra,” e ajudou o Irgun a organizar-se na linha do IRA. No sentido de aumentar a informação sobre a cooperação entre o IRA, o Irgun e a Gangue Stern, em outubro de 1947 o MI5 despachou um funcionário e um oficial da polícia palestina, o Major J. O´Sullivan, temporariamente de Londres para atualizar o MI5 sobre terrorismo sionista para Dublin. Eles contectaram-se com o CID irlandês, que manteve Briscoe sob vigilância e repassou suas informações ao MI5.

O ex-rabino chefe da Irlanda, Isaac Herzog, também era um simpatizante público da república irlandesa e do terrorismo sionista. Após sua emigração para a Palestina em 1936, Herzog ascendeu para a mais importante posição no mundo religioso judeu, o rabinato da Palestina. O DSO do MI5 na Palestina e a polícia palestina aparentemente mantiveram vigilância sobre as atividades do rabino Herzog. De uma forma que abranda as tensões que existiam entre moderados e extremistas tanto na Palestina quanto na Irlanda, um dos filhos de Herzog, Chaim, desaprovou o apoio de seu pai ao terrorismo. Em contraste gritante com seu pai, Chaim Herzog seviu na inteligência militar britânica no Dia-D, continuou ao ajudar a criar a comunidade de inteligência israelense e eventualmente tornou-se presidente de Israel.

A postura adotada pelo governo americano em relação à Palestina, e em particular a posição dos judeus americanos, algumas vezes tornaram difíceis para o MI5 obter cooperação das autoridades americanas sobre o terrorismo sionista. O apoio claro mostrado pelos EUA em relação às aspirações sionistas foi um dos muitos fatores que levaram o governo britânico em fevereiro de 1947 em colocar toda a questão da Palestina nas mãos das Nações Unidas.  Mais especificamente, o MI5 sabia que alguns grupos sionistas extremistas operando nos Estados Unidos, tais como o “Grupo Bergson” e o “Comitê Hebraico para a Libertação da Palestina” estavam levantando fundos e apoio logístico para o Irgun e a Gangue Stern, com explosivos e munição algumas vezes despachados como alimentos da Grã-Bretanha. O MI5 estabeleceu  uma relação útil de trabalho com a inteligência militar americana (G-2) nas zonas ocupadas da Europa para a migração judaica clandestina para a Palestina e terrorismo sionista, mas em geral a relação entre as inteligências britânica e americana em relação ao sionismo era difícil. Em março de 1948, a mais alta instância da comunidade de inteligência britânica, o Comitê da Junta de Inteligência, notou que seus relatórios sobre a Palestina seriam inevitavelmente controversos em Washington, e deveriam somente ser dados ao diretor da CIA em pessoa, e não deixados com ele. Também foi aconselhado que outros relatórios de inteligência britânicos sobre assuntos sionistas deveriam ser censurados antes que fossem repassados às autoridades americanas. Enquanto isso, a Operação Ouro, conduzida pela inteligência da Marinha americana, estava interceptando comunicação via cabo de combatentes judeus, mas isto não foi compartilhado com os britânicos e nem divulgado em Washington.

Um dos poucos caminhos nos quais o MI5 era capaz de receber cooperação do FBI sobre assuntos sionistas era provocando muitas conexões sionistas proeminentes com o comunismo e a União Soviética. O MI5 acreditava que muitos membros do Irgun e da Gangue Stern tinham chegado à Palestina com a ajuda da inteligência soviética. Menachem Begin e Nathan Friedman-Yellin, um líder da Gangue Stern, eram ambos poloneses de nascimento e o MI5 acertadamente suspeitava que os soviéticos ajudaram-nos a “escapar” para a Palestina durante a guerra. Muitos líderes sionistas defendiam a cooperação com a União Soviética, incluindo o chefe da “segurança” para a Agência Judaica na Palestina, Moshe Sneh, que estava ciente do – senão completamente envolvido – planejamento do atentado do King David Hotel. As suspeitas do MI5 foram confirmadas por pesquisa subsequente, que mostra que em muitas ocasiões a Gangue Stern apelou a Moscou por ajuda.

Isto torna o envolvimento do notório espião soviético Kim Philby nas investigações do SIS sobre o terrorismo sionista muito mais interessantes. Philby – agente de Moscou de longa data nos serviços de inteligência britânicos – era, na época, o chefe da seção IX no SIS, a contrainteligência soviética. A posição garantiu-lhe um interesse legítimo no Oriente Médio – um interesse que ele provavelmente também sentia por causa de seu pai, o notório arabista, Harry St John Philby. Durante a guerra, St John Philby tinha tentado sem sucesso negociar um acordo de partilha da Palestina, o chamado Plano Philby. A agenda manipuladora de Kim Philby nas investigações sionistas do SIS é difícil de determinar. Em 9 de julho de 1946, o SIS circulou um relatório em Whitehall aconselhando que o Irgun estava planejando realizar “ações criminosas” contra a missão diplomática britânica em Beirute. Quase certamente este era um alerta falso do atentado do King David, que ocorreu duas semanas depois. Foi Philby que circulou o documento. Ele tinha menos motivação em sabotar as investigações britânicas sobre o terrorismo sionista, contudo, ele o fez em outras áreas. Ele indubitavelmente teria secretamente festejado a campanha terrorista realizada no território britânico da Palestina  já que abalava o império britânico, mas quando ele estava trabalhando com assuntos sionistas para o SIS – e por extensão para a KGB – imediatamente após a guerra, a política da União soviética em relação a Palestina ainda não havia cristalizado. Moscou inicialmente apoiou a criação do Estado de Israel, esperando que ele seria um estorvo no lado do Ocidente “imperialista”, e a União Soviética foi o primeiro país no mundo a reconhecer Israel quando ele foi estabelecido em maio de 1948. Contudo, Stalin calculou mal: nos anos seguintes, Israel construiu uma relação especial com os EUA, e não com a União Soviética, e Stalin gastou seus anos finais antes de sua morte em 1953 consumido por teorias conspiratórias antissemitas. Por volta desta época, Philby já não trabalhava mais com assuntos sionistas para o SIS e, portanto, também não para a KGB. Na ausência dos ainda fechados arquivos da KGB, o papel preciso de Philby em assuntos sionistas deve permanecer uma questão de especulação. Mesmo assim, Moscou certamente teria ficado interessado em aprender, por ele, que Londres suspeitava do envolvimento soviético no terrorismo sionista.

Junto com suas operações contraterroristas na Grã-Bretanha, nos anos imediatos do pós-guerra, os serviços de inteligência da Grã-Bretanha também estavam avaliando e contendo imigração judaica “ilegal” para a Palestina. De fato, o MI5 e o SIS ajudaram a formatar a resposta do governo britânico a esta imigração. Em 1939, um sistema de cota foi estabelecido o qual limitava o número de imigrantes judeus para a Palestina em 7.500 por ano. A imigração acima deste número era classificada como “ilegal” pelo governo britânico. Então, como agora, “imigração ilegal” era um termo carregado por controvérsia, e um debate acalorado sobre ele atingiu políticos sionistas e o governo britânico. O papel do MI5 nele não era para debater os aspectos morais e legais da imigração judaica para a Palestina, mas produzir avaliações desapaixonadas para Whitehall sobre suas implicações de segurança.

A avaliação geral do MI5 era que a imigração em massa de judeus para a Palestina provocaria certamente uma guerra civil entre árabes e judeus, como já havia acontecido durante a “Revolta Árabe” nos anos 1930. A política principal elaborada pelas autoridades britânicas para prevenir imigração “ilegal” era interceptar navios de refugiados. Centros de detenção foram estabelecidos em Chipre para abrigar os refugiados interceptados, que eram então permitidos entrar na Palestina  através do sistema de cotas. Isto foi, porém, outro desastre de relações públicas para o governo britânico, cujos críticos o acusaram de estabelecer “campos de concentração ao estilo nazista”. Os britânicos também deportaram alguns combatentes do irgun e do Stern para centros de detenção na Eritréia, que novamente atraiu reclamações que eles não eram melhores do que os nazistas. Tais críticas algumas vezes vinham de fontes surpreendentes, não menos importante que o secretário adjunto no Departamento Colonial, Trafford Smith, que privadamente detalhou sua frustração:

A verdade real para a qual nós firmemente fechamos nossos olhos é que neste negócio de detenção emergencial estamos copiando os nazistas, seguindo o erro familiar de que os fins justificam os meios (especialmente quando os meios servem a conveniência atual). Estamos longe de suprimir o terrorismo, e porque não encontramos nenhum meio melhor criamos medidas que são intrinsecamente erradas, e que, desde que sua consequência é evidente para o mundo todo, deixa-nos expostos a críticas justificáveis e não respondidas.

Ao invés de buscar medidas mal concebidas e contraproducentes de deportação e detenção de refugiados judeus, o MI5 aconselhou o Gabinete e os chefes de departamento a concentrar seus esforços em prevenir a imigração “ilegal” “na fonte”. Com a ajuda do SIS, o MI5 identificou um número de companhias de transporte marítimo sulamericanas e gregas que alugavam navios para refugiados judeus, e o Departamento do Exterior era capaz de exercer pressão nestes governos para prevenir que as companhias se registrassem em seus países para praticar esse negócio. As operações parecem ter dado retorno. Um relatório do MI5 afirmou que em 1948 “somente 1 de cerca de 30 navios transportando imigrantes ilegais alcançou seu destino.”

Enquanto o MI5 fez avaliações e estava envolvido em medidas defensivas para conter migração ilimitada para a Palestina, outros serviços de inteligência britânicos tentaram ativamente subverter o fluxo de migrantes. Em fevereiro de 1947, o SIS conduziu uma operação, apropriadamente chamada de Embaraço, para a “ação de direção”. Uma pequena equipe, a maioria formada de antigos membros do SOE, foi recrutada para instalar minas em navios de refugiados e desabilitá-los antes que pudessem levantar âncoras. No verão de 1947, a equipe desabilitou cinco navios em portos italianos – tendo verificado que não havia ninguém a bordo. Mesmo assim, se a Operação Embaraço tivesse se tornado pública, o fato dos agentes do SIS estarem carregando minas em navios transportando sobreviventes do Holocausto teria sido desastroso para o governo britânico.

A Operação Embaraço não parou por aí. Quando algumas das minas foram descobertas, o SIS culpou um grupo de oposição árabe fictício, “Defensores da Palestina Árabe” e, então, o governo soviético. Ela conseguiu máquinas de datilografar que eram usadas por grupos árabes dissidentes  e autoridades soviéticas, e as usou para datilografar cartas implicando os dois grupos, que foram então convenientemente vazadas em Whitehall. Em um movimento posterior, o SIS fez parecer que o governo britânico estava usando o tráfico de refugiados judeus para conseguir tirar seus próprios agentes da Europa, esperando assim fazer com que os soviéticos bloqueassem o fluxo de migrantes para a Palestina. O SIS, portanto, tentou enganar não somente refugiados judeus, grupos de oposição árabes e o governo soviético, mas o próprio governo britânico. Isto realmente foi coisa para iludir e enganar. A política britânica de limitar a imigração judaica para a Palestina, tanto pública quanto a secreta, foi marcada por controvérsia e ressentimento. Foi, contudo, sintomática de um problema mais profundo que corroeu o poder britânico na Palestina: a Grã-Bretanha enfrentou uma série de exigências contraditórias em relação ao futuro do território – de judeus, árabes e da opinião mundial em geral. No início de 1946, um comitê anglo-americano de pesquisa foi apontado para encontrar uma solução na Palestina, mas apesar dos melhores esforços de seus membros, que  em abril de 1946 recomendaram que um compromisso fosse encontrado de modo que os judeus não dominassem os árabes na Palestina, nem os árabes dominassem os judeus, as descobertas do comitê não foram aceitas por nenhuma das partes. Em setembro de de 1947, o JIC em Londres estava apresentando um quadro sombrio para o governo britânico em relação ao futuro do território, concluindo que qualquer solução seria inaceitável tanto para judeus quanto para árabes. A Grã-Bretanha encontrou-se na situação que tornou-se rapidamente ingovernável. Em 1947, 100.000 soldados – um décimo de toda a força militar de todo império britânico – foi deslocada para a Palestina, um encargo financeiro que Londres não poderia suportar.        
           
Nota:

[1] Em inglês, Home Office Warrants.

[2] O Sionismo Revisionista é uma facção do movimento sionista que prega o direito não-religioso dos judeus a Israel (Eretz Yisrael) e à criação de um Estado judaico com população predominantemente judaica em ambos os lados do Rio Jordão. O movimento foi criado em 1925 pelo intelectual judeu russo Ze´ev Jabotinsky. As ideias do sionismo revisionista estão hoje representadas pelo partido Likud.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Desperta o Urso - Reconstruindo o Poder Soviético

Fabricio Gustavo Dillenburg

Defesanet, 25/09/2013



Comunista, ela nunca foi, na precisa acepção da palavra. Permaneceu no âmbito da utopia, num porvir almejado, mas inalcançável. Como capitalismo, também não se manifestou num contexto típico, ocidental, democrático por suposto. Pelo contrário, alimentada durante décadas por uma ilusão de paridade inexistente, ao abrir suas portas para uma economia até então estranha a seus princípios, gerou uma forma de mercado desregulada, que resultou numa verdadeira cleptocracia.

Os poucos que tiveram acesso imediato às facilidades do poder apropriaram-se de bens estatais, materiais ou por concessões de última hora e, à custa de milhares, passaram a usufruir de um estilo de vida inimaginável para a grande maioria.

A União Soviética, por conseguinte, não desapareceu. Transformou-se, sim, mas em certo sentido permanece, em essência, como sempre foi, embora com outra denominação: Rússia.

Nela, como conceito de força e influência, a União Soviética persiste. O engano da destruição da essência soviética teve seu clímax com Gorbachev. Com a Glasnost e a Perestroika, ele foi, em última instância, o responsável direto por um arremedo de abertura democrática que colocou a URSS, literalmente, de joelhos.

Nas comemorações de 1º de maio de 1990, ele teve o questionável mérito de ter sido o primeiro governante soviético a ser ridicularizado e criticado em público. Enfático, contudo, do seu ponto de vista a democracia que proclamava era real; na verdade, era uma ironia que começava na sua própria figura: apesar do discurso, Gorbachev nunca se submeteu ao voto popular. A sua proposta abertura não deu vazão à prosperidade e sua indecisão e desacertos determinaram, rapidamente, seu fim, como político.

Yeltsin, seu substituto, entretanto, tinha em mente alguns objetivos bem claros: abolir o Partido Comunista, desmantelar a já debilitada União Soviética e fazer da Rússia uma potência, através da formação de um estado democrático (à moda russa, obviamente...), capitalista e com sua independência afirmada internacionalmente.

Não demorou a realizar seus intentos. Tornou-se líder inquestionável com uma velocidade avassaladora (quase tão grande quanto sua sede por vodca), agindo pelas costas de Gorbachev, e encerrou a existência oficial da URSS.

Acabou com a superpotência enquanto unidade, mas foi incapaz de alterar definitivamente a lógica intrínseca ao pensamento soviético. Arraigada até os ossos, a mentalidade alimentada por tanto tempo com um silogismo característico ensejaria a oportunidade da criação de uma nova nação, mas com velhas ideias. Eis, pois, o argumento primordial de uma essência notavelmente persistente.

Em fevereiro de 2000, Vladimir Putin iniciou o resgate concreto da URSS: um memorial, resgatando Yuri Andropov, foi inaugurado no prédio da KGB. Em seguida, veio o restabelecimento do hino, a reutilização da bandeira vermelha, das brigadas honoríficas.

Simultaneamente, um processo de fusão de regiões de importância territorial e econômica foi iniciado, visando à criação de um Estado unitário, política e militarmente denso nas considerações de política externa.

A transferência de poder feita em 2008, de Putin para Medvedv, embora representasse, sob certos aspectos, uma tendência à estabilização política, não foi suficiente para demonstrar que a Rússia caminhava para uma abertura democrática de fato. Pelo contrário, décadas serão necessárias para que tal postura seja adotada, se é que será. Para que a democracia se instale sobre as ruínas de um sistema tipicamente ditatorial, como foi o soviético, será necessário que a economia se modernize ainda mais, dando vazão a melhores oportunidades num espectro social mais amplo, e não apenas para alguns poucos grupos privilegiados.

Por outro lado, a modernização do próprio Estado, com a redução progressiva da burocracia, é também um fator de grande importância para a definição do futuro russo. Uma manifestação clara do caminho convergente que a Rússia escolheu, em relação à antiga URSS, é a questão do partido Rússia Unida. O mecanismo de um partido governante onipresente como força organizadora e de liderança sempre foi uma característica soviética¹.

Sob este ponto de vista, a Rússia Unida representa uma força política estabilizadora e agregadora de massa. Seu rápido crescimento (em 2005 já contava com quase um milhão de afiliados) é uma indicação inequívoca de sua importância e influência na política estatal, sobretudo porque em suas fileiras estão oficiais militares de alta patente, intelectuais internacionalmente reconhecidos e outras figuras públicas de grande apelo político. Na prática, o partido possui maioria em mais da metade dos parlamentos regionais e grande número de governadores.

A modernização da frota russa objetiva maior projeção estratégica, em pé de igualdade com as forças navais norte americanas, visando não apenas o confronto pela quantidade, mas também pela qualidade.

Em outras palavras, a Rússia Unida está presente em todos os níveis de poder, gerenciando a máquina estatal tanto horizontal quanto verticalmente. O partido é, sem sombra de dúvida, a referência ideológica do poder. Putin em muito contribuiu para isso, associando uma imagem intrínseca de força ao Estado e, por decorrência, ao partido. Alguma similaridade com o antigo sistema soviético? Bem nos padrões do Kremlin, esse monopólio do poder, efetivado através do domínio partidário, garantirá transições relativamente tranquilas e uma continuidade fundamental para a completude da estrutura democrática.

Exceto se, por meandros derivados de saudosismos históricos não tão distantes, um dos próximos governantes desviar se para o caminho autoritário, o que, em se falando de Rússia, não é um devaneio remoto. Putin, o mais provável candidato, não o fez (pelo menos, não ainda, abertamente...), mas a ameaça permanece viva, inclusive com seus sucessores: embora os nomes sejam outros, a política e as forças envolvidas nos bastidores continuam as mesmas.

O paradoxo da “democracia controlada”, implantada por Putin, algo compreensível na Rússia por suas raízes históricas, não enfrentou mais do que tímidas críticas do Ocidente, o que garantiu, na prática, o reconhecimento da sua auto concepção como potência político militar.

A aprovação tácita pelos países que poderiam opor-se, de alguma forma, às suas pretensões, deu-se em São Petersburgo, quando a reunião do G8 foi presidida, pela primeira vez, e não por coincidência, pelos russos.

Determinada a colocar-se de igual para igual entre os países ocidentais com influência comprovada, a Rússia demonstrou desde cedo sua disposição através de uma postura agressiva, de parceria ou de concorrência, conforme os obstáculos se apresentavam. Além disso, tratou de estabelecer políticas que garantiam barreiras contra as tentativas de influência que julgava perniciosas para seu modelo de desenvolvimento.

O diálogo, relativamente aberto, com os Estados Unidos da América e com a União Europeia, demonstrou a crescente força econômica derivada, principalmente, da sua gigantesca ênfase na exploração petrolífera e, apesar das discussões crescentes sobre energias alternativas, a Rússia sabe que, na maior parte dos casos, trata-se realmente de discussões, sem consequências práticas, em médio prazo, o que lhe garante fonte de renda estável e a certeza de investimentos por anos a fio.

E, quando as negociações resultarem em projetos viáveis e de grande abrangência para energias limpas, ainda haverá muitos países sedentos pelo ouro negro, dispostos a pagar o preço. Se, nessa perspectiva, há o ponto negativo de deixar sua economia de Estado mais dependente dos preços e variações do mercado mundial (um problema sério, como pudemos observar novamente na crise americana, que se espalhou pelo mundo gerando perdas generalizadas), há o ponto positivo de prover as reservas do Banco Central da Federação Russa com reservas imensas de moeda, com um crescimento médio impressionante nos últimos anos.

A cristalização do imperialismo russo é só uma questão de tempo. Sua postura é a de legítima herdeira do gigantesco ex-império soviético, opinião da qual ela dificilmente será demovida. Os investimentos anunciados na área militar são uma evidência inquestionável a favor de um futuro de imposição, e a base estratégica russa, pragmática ao extremo, não deixa dúvidas de que, o que está sendo projetado e construído, será usado. É apenas uma questão de tempo.

Um exemplo cabal foi o choque com a Geórgia, mais uma operação de sondagem em relação à postura internacional do que, verdadeiramente, uma tentativa de apropriação, de “reunificação” (geopoliticamente falando, do ponto de vista do Kremlin, qualquer ex-território soviético é, substancialmente, território russo).

As eventuais fontes de tensão internas serão reduzidas, senão eliminadas, através de interferência política, aberta ou subterrânea. A simpatia ao regime russo tende a ser secundária, uma vez que seu poder se afirme cada vez mais e sua imponência militar se manifeste com mais veemência. O temor dará, gradualmente, maior importância ao Estado russo, ainda mais com sua aproximação progressiva das potências asiáticas, através de negociações em diversos níveis, e do seu papel de interferência junto a governos que, até bem pouco tempo, eram exclusividade de manipulação dos EUA, como é o caso de alguns países da América Latina. A Rússia caminha inexorável e rapidamente para sua definição de superpotência, em substituição à sua mãe soviética.

Afinal, “genes” históricos não se perdem num processo tão complexo como este. Todas as operações engendradas até o momento mostram que as ex-repúblicas soviéticas tendem, gradativamente, a ficar sob a influência russa, dependendo cada vez mais de seu fornecimento de energia. É uma questão de tempo.

Isso, irremediavelmente, garantirá a lealdade política dessas regiões e garantirá o papel russo como única esfera de influência. O mesmo se aplica às regiões do Báltico, Cáucaso, Ucrânia e Bielo-Rússia, que importam o gás russo e que, progressivamente, vem estreitando relações, principalmente devido à política de preços praticada pelo Kremlin, virtualmente, de barganha.

Trata-se, neste caso, de conseguir uma infiltração sutil e, de forma indireta, o tão necessário apoio internacional. Apesar de muitas áreas estarem progredindo lentamente rumo à independência energética, ainda dependem, em larga escala, do fornecimento constante do Kremlin para que suas economias funcionem plenamente. Aliás, a propósito disso, cabe lembrar que importantes linhas de exportação de gás russo encontram-se no território da Geórgia.

Tão importante é essa relação de dependência, que a Rússia prefere importar gás para equilibrar seu consumo interno do que reduzir suas exportações. Em 2008, foram quase 80 bilhões de metros cúbicos importados. Tudo para manter o balanço do poder.

O T-50 PAK FA simboliza um passo além, competindo diretamente com o F-22, mas com valores inferiores de compra e operação, desempenho, no mínimo, equivalente, e maior carga bélica. E disponível para o mercado internacional.

Por sua vez, pela proximidade e concorrência com a Rússia, o papel do Irã não pode ser subestimado no mercado exportador mundial de gás. Contudo, enquanto a questão nuclear iraniana não for definitivamente esclarecida, a situação manter-se-á relativamente estável, sem maiores riscos para o crescimento russo.

Enquanto isso, o Kremlin negocia armas com o Irã, e outros países do Oriente Médio, revertendo parte do lucro obtido pelos concorrentes, na exportação de gás, para o seu próprio mercado.

As reservas petrolíferas da Rússia são imensas, mas explorar novas fontes exige investimentos pesados. Num futuro próximo, é uma probabilidade considerável que haja o envolvimento maior de capital estrangeiro, ainda que limitado, nessa exploração. Cabe esperar a extensão desses investimentos para que possa ser feita uma avaliação de seu impacto na economia como um todo.

De qualquer forma, com a disponibilidade atual de investimentos, há uma profissionalização das forças militares do país. Desde Yeltsin a reorganização militar vem sendo tentada, através de um programa de reformas previsto para quatro anos, mas que fracassou por falta de planejamento adequado. Em 2000, Putin e seu Ministro da Defesa, Sergei Ivanov, retomaram a tarefa e planificaram mudanças consideráveis, que se completariam em 2010.

Completada essa etapa, novos investimentos foram programados, e o crescimento é notável – e assustador. Entrementes, verificou se que a injeção de dinheiro na área terá que ser maciça, pois que um exército profissional exige estruturas e equipamento diferentes de forças conscritas, o que vem causando certa lentidão no cumprimento de algumas metas estabelecidas, mas sem cortes ou paradas substanciais.

Há, aproximadamente, 1,3 milhões de homens no exército russo, sendo que, desses, mais da metade são soldados. Com a profissionalização das unidades, uma boa parte está sendo dispensada, e o número deverá ser substituído pela qualidade do combatente, incluindo a adoção de sistemas individuais de combate de alta tecnologia (em “parceria” com a França). Os problemas são enormes e, na prática, as unidades estão perdendo mais de um terço de seus efetivos com a reorganização, a maioria sendo dispensada devido a problemas com drogas, alcoolismo e disciplina.

Ainda, para preencher os quadros com pessoal capaz, não há boas perspectivas. As forças armadas são impopulares, mesmo entre desempregados, com o estigma de baixos salários, tratamento inumano e com problemas que perduram por décadas, como a ausência generalizada de infraestrutura para as famílias dos militares, empregos para as esposas, escolas em todos os níveis e seguro social.

O agravante final deu-se nos últimos ajustes econômicos, quando os ralos benefícios que haviam sido adquiridos anteriormente foram extintos: transporte urbano gratuito, cuidados médicos para membros da família, reembolso de despesas com tratamentos clínicos, etc.

O efeito acumulado de todos esses fatores negativos leva a crer que, eventualmente, todos os prazos definidos pelos militares não serão cumpridos, apesar de um plano emergencial de construção estar a pleno vapor. Disponibilizada a infraestrutura necessária, ainda falta a fundamental reversão da mentalidade, a fim de alcançar a prontidão e eficiência almejadas nas tropas de emprego imediato.

Como um paliativo, voluntários de territórios vizinhos, foram incorporados, com atraentes regalias, como a redução do tempo de alistamento de cinco para três anos (prazo que deverá cair para um ano), mas os resultados não foram, até o momento, muito bons. A procura foi baixa e, a qualidade técnica, ficou muito aquém do esperado.

Planos de repatriamento de russos que se encontram no Báltico e em outras áreas, com o oferecimento de notáveis compensações financeiras, também foram relativamente ineficazes, até o momento.

Enganados por Moscou em inúmeras ocasiões, com promessas que nunca se cumpriam, e com padrões de vida melhores do que os que possuíam na Rússia, poucos são os que desejam se aventurar por esse caminho, mais do que incerto.

Apesar disso, mesmo com todas as dificuldades, algumas unidades já se profissionalizaram. As primeiras a serem reorganizadas foram tropas aerotransportadas, como a 76ª e a 98ª Divisões, seguidas de meticuloso planejamento para a migração de tropas especializadas (como o 45º Regimento de Reconhecimento).

Outras tropas permanecem ativas, sendo alimentadas com alistamentos em massa, mas a situação é, evidentemente, de transição, até que as novas unidades estejam devidamente treinadas e equipadas.

Em paralelo, desenvolvem-se novas armas e investimentos em pesquisa militar são incrementados. No âmbito nuclear, o escudo antimíssil proposto pelos Estados Unidos representa uma realimentação das desconfianças oriundas da Guerra Fria, que possivelmente resultará em uma nova corrida armamentista.

A indústria bélica norte-americana, em crise sem precedentes, agradece. A imbecilidade do governo Bush promoveu uma reorganização estratégica russa e abriu caminho para que ações de porte pudessem ser tomadas pelo Kremlin, fornecendo uma justificativa conveniente. Ao fim e ao cabo, o escudo não deverá se concretizar, integral e permanentemente; caso o faça, abrirá uma nova era de problemas para toda a Europa, primariamente, e, em escala global, como efeito colateral, moldará novas relações de poder a partir de investimentos na área de vetores nucleares e de dispositivos para sua interceptação.

A postura eventual da França em apoiar a Rússia, ainda que deva ser vista com grande desconfiança, mostra o nível de preocupação europeu. A construção de um escudo antimíssil conjunto entre EUA e Rússia, empiricamente sugerido, é ilusória e fugaz, e a França tem plena consciência disso. Entretanto, convém a ela manter as relações, com ambos os países, intactas, enquanto analisa melhor a situação e busca tirar dela o máximo de vantagens, seja com a volumosa venda de equipamentos militares, seja com a ampliação de sua influência política, junto aos países satélites que estão envolvidos na discussão.

O discurso russo, numa mescla única de capitalismo, nacionalismo autoritário e socialismo, anuncia mais investimentos pesados na construção e atualização de defesas aeroespaciais e na revitalização da frota de submarinos nucleares, parte de um novo plano de renovação com prazo de término em 2020.

Trata-se de uma resposta às pretensões norte-americanas, uma demonstração de poder que pode ter sérias consequências, em longo prazo. O aumento exponencial dos gastos militares pode gerar uma crise semelhante à que a corrida espacial e a corrida armamentista provocaram na URSS. A situação é outra, os tempos são outros; os perigos, os mesmos.

O Armata contará com um canhão de 125 mm controlado por sistemas digitais de alta velocidade e grande precisão. Com 52 toneladas, levará 32 projéteis, sob nova blindagem, altamente secreta. 

A Rússia reserva-se o direito de manter sua hegemonia como potência, e não abrirá mão disso. Não há dúvidas a propósito. Para concretizar seus objetivos, ela vai agir como agiria a União Soviética, talvez com uma camada cosmética, a mais, de diplomacia. Ela é, em essência, a própria União Soviética, ciente de suas possibilidades e com a vantagem histórica do conhecimento dos erros que seu antecessor a progenitor cometeu. Habilitar-se a enfrentar o urso russo não será o desejo de nenhum país, ainda que isso sirva como Leitmotif para que ele possa cometer absurdos sob o nariz do direito internacional.

E, como a ONU representa, hoje, o mesmo papel que a Liga das Nações representou no passado, mostrando-se cada vez mais ineficiente e manipulável, medíocre em suas atitudes como mediadora internacional, a tendência é a de que os maiores continuem engolindo os menores.

A gritaria resultará, no máximo, em uma dor de cabeça, mas dificilmente acabará em confronto entre potências, enquanto forem respeitados os limites tácitos estabelecidos entre elas. Simplesmente, porque não vale a pena defender os interesses dos menores, enquanto cada um dos grandes estiver obtendo os lucros planejados. O risco, em relação aos ganhos em jogo, é grande demais.

Por isso, a questão não é se a manifestação imperialista russa vai acontecer, como a norte-americana acontece, mas quando.
Quem viver verá.

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Notas:

1 Tão importante é esta afirmação, que é um desafio lembrarmos os presidentes da URSS. O que conhecemos (e reconhecemos como líderes atuantes), na prática, são os nomes dos Secretários Gerais do Partido.

2 Não apenas a grande resistência dos materiais, mas as próprias características tecnológicas dos equipamentos russos (soviéticos...) colocaram em xeque muitas análises de conceituados especialistas ocidentais, sobretudo quando o desmonte da União Soviética trouxe à luz muitas armas, até então, desconhecidas em sua plenitude.

Por falta de compreensão da doutrina militar soviética e suas aplicações, por muito tempo houve a tendência de subestimar sua indústria bélica, em oposição às “maravilhas” ocidentais, principalmente norte-americanas.

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O Autor: Fabricio Gustavo Dillenburg tem formação em História e é fundador e responsável pelo Núcleo de Estudos de História Militar Vae Victis.

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul, é autor de “Kamikaze: as Invasões Mongóis e as Origens do Vento Divino”.




Alexandre, o maior

Isabelle Somma


O pequeno Alexandre gostava de desafios. E dos grandes. Aos 9 anos de idade acompanhou o pai, Felipe II, a uma feira de cavalos. O monarca da Macedônia passava diante dos animais olhando-os com a cobiça que os homens hoje reservam aos carros possantes. Já tinha separado algumas Ferrari e Mercedes quando um corcel negro lhe foi oferecido. Ele era lindo, uma montanha de ossos e músculos imponente, a montaria de um rei. Felipe o queria e seus assessores se apressaram em adquiri-lo, mas depararam com um problema: ninguém conseguia montá-lo. Estavam para desistir da compra quando o jovem Alexandre disse que aquilo não era motivo para dispensar o animal. Felipe, então, desafiou o filho a domá-lo. O menino sabia montar, mas sabia também que para enfrentar um animal daquele tamanho não bastariam força e habilidade, era preciso estratégia. Com habilidade incomum, Alexandre puxou a cabeça do cavalo em direção ao Sol. A cegueira momentânea confundiu o animal e deu tempo para que ele pudesse dominá-lo. Emocionado, papai Felipe não se conteve. “Garoto, você precisa encontrar um reino grande o suficiente para suas ambições. A Macedônia é muito pequena para você.” O próprio Alexandre adorava contar essa história, segundo relata o historiador grego Calístenes, que viveu de 346 a 289 a.C. e acompanhou muitas das expedições militares do rei.

Nem o oráculo de Delfos faria uma previsão tão precisa. Em pouco mais de uma década, Alexandre da Macedônia conquistou o Egito, a Mesopotâmia e a Pérsia e foi além das fronteiras conhecidas pelos gregos, chegando à região que hoje é o Paquistão. “O Império Romano teve 1 milhão de quilômetros quadrados. O de Alexandre foi além disso”, diz Ettore Quaranta, professor de história da Antiguidade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tudo isso antes de completar 33 anos. Não foi à toa que Alexandre III passou à história como “O Grande".

“Ele foi um gênio militar, provavelmente o maior general que o mundo já viu”, afirma o historiador britânico Peter Green, professor da Universidade do Texas, Estados Unidos, e autor de Alexander The Macedon: 356-323 b.C:

A Historical Biography (“Alexandre, o Grande, 356-323 a.C: Uma Biografia Histórica”, inédito no Brasil). “Muitas vezes, por puro brilhantismo pessoal, ele conseguiu obter sucesso de derrotas prováveis. Ele era mais rápido, mais flexível, mais criativo que aqueles contra quem lutou”, diz Green. Segundo ele, Alexandre tinha o carisma necessário para levar soldados veteranos adiante e para seduzir novos recrutas por onde passava. “Ele os fez seguir por milhares de quilômetros e 11 longos anos, enfrentando batalhas terríveis.”

Berço de ferro

O menino precoce teve a quem puxar. Seu pai, Felipe II, assumiu o poder na Macedônia em 359 a.C. e iniciou uma política expansionista voraz. Invadiu a Grécia e unificou as cidades-estado gregas, exceto Esparta, criando a Liga Coríntia e governando com mão de ferro. Felipe, porém, tinha pretensões ainda mais ousadas. Ele queria realizar uma espécie de cruzada contra os persas para vingar as invasões realizadas no século 5 a.C., quando os exércitos de Xerxes conquistaram grande parte da Grécia, destruindo Atenas em 479 a.C.

Mas não teve tempo. Felipe morreu em 336 a.C., apunhalado por um guarda-costas – não se sabe se resultado de uma vingança pessoal ou de um complô. Aos 20 anos, Alexandre herdou do pai a liderança dos exércitos e o desejo de vingança contra os persas. No entanto, seu primeiro desafio foi enfrentar um levante em Tebas, que revoltara-se contra a liderança macedônia. Alexandre foi impiedoso. Seus homens invadiram a cidade e a destruíram completamente. No ataque, 6 mil tebanos foram mortos e 30 mil escravizados.

Após reafirmar sua liderança sobre os gregos, o jovem macedônio não tinha mais tempo a perder no Peloponeso (a parte continental da Grécia). Seu objetivo agora era retaliar os persas e seguir para a Ásia Menor. A região, uma província dos aquêmidas, foi tomada dos gregos um século antes e incorporada ao Império Persa. Para recuperá-la, Alexandre atravessou o Helesponto – o atual estreito de Dardanelos – com 32 mil soldados. Uniu-se às tropas de seu pai que permaneciam por ali e convocou todos a lutar.

Primeiras vitórias

Em 334 a.C, Alexandre chegou às margens do rio Grânico e lá aguardou a chegada de seus oponentes. Posicionado em uma das margens, frente a frente com o exército inimigo, ele tinha sob seu comando 13 mil soldados a pé e 5 mil cavaleiros. Do alto de uma colina ele viu se aproximarem cerca de 5 mil soldados e uma cavalaria de 10 mil conjuntos. Era o momento de cumprir a profecia de seu pai. Mas agora não haveria truques. “Suas armas eram a dedicação absoluta de seus homens, que o admiravam e confiavam nele, e uma estratégia militar prodigiosa, outra herança de Felipe II”, diz Robert Lovett, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. “Nesse dia, os persas experimentaram a força da temível ‘falange macedônia’.

A tática consistia de armar colunas de infantaria com longas lanças, com até 5 metros de comprimento. Os homens avançavam em fileiras compactas, transformando-se numa poderosa força ofensiva”, afirma Lovett, especialista em táticas militares e autor de Warfare (“Guerra”, sem versão em português). Foi um terrível combate. O exército dos aquêmidas, formado em sua maioria por mercenários, foi derrotado. Apenas 2 mil sobreviveram e foram enviados ao Peloponeso como escravos.

O avanço de Alexandre chegou rápido aos ouvidos do imperador persa, Dario III, que decidiu deslocar seu poderoso exército estacionado em Susa, uma das principais cidades persas. As duas forças se encontraram em Issus. Dario contava com cerca de 50 mil homens, 10 mil a mais que Alexandre. A vantagem numérica, no entanto, não lhe foi suficiente. “Apesar de perder grande parte de seu contingente, a cavalaria macedônia conseguiu furar o bloqueio persa e abriu o caminho para os falangistas. Daí para a frente, a vitória trocou de lado”, diz Lovett. Diante da derrota iminente, Dario fugiu, mas deixou para trás a própria mãe e a mulher grávida, que foram presas.

Alexandre seguiu para a Fenícia – atual Líbano – levando Sisygambis, mãe de Dario, e os familiares de oficiais persas capturados. Dario tentou negociar o resgate dos parentes oferecendo dinheiro e terras, mas Alexandre achou pouco. Enquanto continuava sua marcha rumo ao centro do poder inimigo, o exército invasor foi conquistando as cidades que viviam sob o domínio aquêmida. Aquelas que não se renderam se arrependeram.

Uma delas foi Tiro. A principal cidade fenícia era protegida por muralhas e ficava em uma ilha a 800 metros da costa. Durante sete meses o exército de Alexandre construiu um dique de 60 metros de largura até a entrada de Tiro. Mas os portões da cidade resistiram e, furioso, Alexandre mudou de planos. Trouxe e armou uma pequena frota que atacou e derrubou os muros de Tiro, invadindo a cidade e matando cerca de 8 mil pessoas. O relato de Calístenes dá conta de que cerca de 2 mil homens foram crucificados. Se isso é verdade, é difícil saber. Mas o certo é que Dario ficou muito impressionado com as notícias, tanto que fez uma nova oferta de paz. E novamente ela foi inútil.

Da costa fenícia, o exército macedônio foi em direção ao delta do rio Nilo. Depois de dois séculos sob o domínio persa, os egípcios os receberam como libertadores. O místico Alexandre viajou mais de mil quilômetros pelo deserto até chegar a Siwa, onde ficava o oráculo de Amon. O líder macedônio, que acreditava ser descendente dos heróis mitológicos Aquiles e Hércules e do próprio deus Dionísio, foi recebido como filho do deus solar. “O oráculo previu que ele conquistaria o mundo. Fortalecido por suas vitórias militares e espiritualmente, Alexandre não via mais barreiras para aniquilar de vez o exército persa”, afirma Green.

A caça a Dario

A conquista do Egito deu tempo a Dario para que ele reunisse um novo exército. Dois anos depois da derrota em Issus, o líder persa estava pronto para a revanche. Ele e cerca de 25 mil cavaleiros e 50 mil soldados vindos das províncias orientais do império. Alexandre avançou vindo do oeste e chegou a Gaugamela – região que hoje fica ao norte do Iraque – com apenas 7 mil homens montados e 40 mil a pé. Mais uma vez, a desvantagem numérica não foi obstáculo para a vitória do macedônio. Mas Dario tornou a escapar.

Alexandre seguiu triunfante para a Babilônia, onde, assim como no Egito, foi recebido como herói. Os orgulhosos babilônios haviam sido subjugados pelos persas e humilhados com a destruição de seus símbolos sagrados. Para Alexandre, a Babilônia tinha ainda um gosto especial. Era a última grande cidade que o separava da Pérsia. De agora em diante, os combates se dariam no quintal do inimigo. O líder macedônio anunciou que todas as tiranias haviam sido abolidas e que todos os povos poderiam viver sob suas próprias leis. Desde que fiéis ao seu controle, é claro.

Apenas dois meses foram necessários para Alexandre reunir reforços, descansar seus homens, curar os feridos e partir para Susa. As defesas da cidade, centro comercial e administrativo do império, não lhe foram páreo. Ele invadiu a cidade e se fez coroar como Grande Rei de Gregos e Asiáticos. “Aos 25 anos de idade, Alexandre sentou-se no trono que havia pertencido a Dario. Como era baixinho e o persa tinha quase 2 metros de altura, seus pés não tocaram o chão”, afirma o historiador britânico John Maxwell O’Brien, no livro Alexander The Great: The Invisible Enemy (“Alexandre o Grande: O Inimigo Invisível”, sem versão em português). Mas faltava a presa principal, Dario. Para surpresa de seus generais, Alexandre anunciou que partiria imediatamente para Persépolis, o coração do império. Na noite, antes de partir, depois de uma de bebedeira, Alexandre e seus amigos colocaram fogo na cidade.

A fuga de Dario terminou em 330 a.C. O líder persa foi assassinado, não por seus inimigos gregos ou macedônios, mas por um de seus parentes, um homem chamado Bessus, que governava a Báctria – atual Afeganistão.

Sem Dario, Persépolis, a capital do império, prostrou-se ao pés de Alexandre. Não houve combates. O rei e seus homens invadiram o belíssimo palácio imperial e saquearam cerca de 3 toneladas de ouro e prata. Em outra de suas comemorações, a cidade toda foi incendiada. Calístenes escreveu que, passada a ressaca, o macedônio se arrependeu. Típico papo de bêbado.

A vingança estava concluída. Mas Alexandre ainda não ficara satisfeito. Ele queria conquistar uma região que nos mapas gregos da época recebia o sugestivo nome de “Terra Incógnita”, que ficava muito além das fronteiras persas. O problema era convencer seus homens, há cinco anos na estrada, a irem adiante.

Império de Alexandre em seu auge

Volta para casa

Além de loucos para voltar, os macedônios estavam incomodados com a “orientalização” de seu líder. Alexandre adotou o modo de vida persa, que sempre criticou. Os gregos consideravam os persas como bárbaros, criticando seus hábitos nômades, o gosto pelos tecidos luxuosos. Para eles, isso era sinal da fraqueza dos persas. Agora, seu líder estava se tornando um deles.

O descontentamento provocou revoltas entre os oficiais. Mesmo assim, Alexandre levou suas tropas adiante. Passou dois anos na Báctria. Ali, sofreu mais baixas que contra os persas, principalmente devido às duras condições a que submeteu seus homens durante a travessia das montanhas do Hindu Kush. Lutaram contra os marajás do Sind (Paquistão) e do Punjab (Índia) e chegaram às margens do rio Indo.

Em 326 a.C., um motim daria fim à marcha rumo ao Extremo Oriente. “Alexandre disse que queria alcançar a costa do Grande Oceano e pensou que iria atingi-lo indo um pouco mais ao leste. No lugar, ele encontrou o planalto do Ganges. Isso e três monções levaram sua tropa a se rebelar”, afirma Green. Contrariado, Alexandre teve de retroceder.

A volta iniciou-se no ano seguinte. Parte do exército seguiu pelo mar, através do oceano Índico, até o golfo Pérsico. Alexandre liderou as tropas restantes, que atravessaram o deserto de Gedrósia. A viagem foi desastrosa. Estima-se que ele tenha entrado na região com 60 mil soldados e, depois de 60 dias, apenas 15 mil conseguiram sobreviver à falta de água e de suprimentos. “Foi terrível. Foi como se ele tivesse descido ao inferno, exatamente como os heróis mitológicos”, diz o professor Ettore Quaranta.

Depois da desastrosa marcha, Alexandre reuniu suas tropas na Babilônia e, por fim, sossegou. Ali, entre uma festa e outra, ele planejou anexar a península Arábica e promover uma expedição à poderosa Cartago, no norte da África. Porém, após uma dessas bebedeiras, em maio de 323 a.C., Alexandre caiu de cama com febre alta, provavelmente causada por uma malária, e nunca mais se levantou. Pouco antes de completar 33 anos, o homem mais poderoso do mundo morreu de causas desconhecidas.

Tão rápido como surgiu, o poder acumulado por Alexandre esvaiu-se. Sem um herdeiro que pudesse exercer a liderança sobre um território tão vasto, habitado por povos tão diferentes, o império de Alexandre não sobreviveu à sua morte e acabou dividido entre seus generais. Antígono, que governava a Macedônia, fundou sua própria dinastia. Os descendentes de Seleuco ficaram com a maior parte, que ia de Antióquia a Selêucia (atual Iraque). A Ásia Menor se separou e vários pequenos reinos se tornaram independentes. No Egito, Ptolomeu fundou uma nova dinastia, que reinaria por três séculos. Cleópatra, a última governante helênica, caiu frente aos romanos, em 30 a.C.

Mestre Aristóteles

Dos 13 aos 16 anos, Alexandre foi aluno de Aristóteles (384-322 a.C.). Para convencê-lo a aceitar o posto de tutor de seu filho, Felipe fez uma proposta irrecusável. Prometeu reconstruir sua cidade natal, Stagira, que ele mesmo destruíra anos antes. O filósofo, que tinha pouco mais de 40 anos e ainda não havia escrito suas obras mais famosas, não pensou duas vezes e aceitou. Alexandre cresceu mais próximo do mestre que de seu pai. Com ele, aprendeu sobre assuntos como medicina, filosofia e ciências naturais. O pupilo era tão aplicado que sabia a Ilíada de cor e viajava com uma cópia do épico com anotações feitas por seu tutor. A relação entre os dois sofreu um duro golpe quando Alexandre condenou um primo de Aristóteles, Calístenes, à morte. Calístenes, que era o historiador oficial do rei, foi acusado de traição

Em 11 anos, a maior campanha militar da história

1. Pela (356 a.C.)

Nasce Alexandre, filho de Felipe II, rei da Macedônia.O príncipe cresce entre aulas de equitação e filosofia

2. Tebas (335 a.C.)

Assim que assume o trono, o novo soberano enfrenta uma rebelião. Seus homens destroem a cidade

3. Rio Grânico (334 a.C.)

Alexandre atravessa o Helesponto (estreito de Dardanelos) e vence sua primeira batalha na Ásia Menor

4. Issus (333 a.C.)

Enfim, Alexandre enfrenta Dario III, rei dos persas. O exército macedônio vence, mas Dario foge

5. Gaugamela (331 a.C.)

Depois de conquistar a Fenícia e o Egito, Alexandre se volta ao coração do Império Persa

6. Persépolis (330 a.C.)

Alexandre invade a capital persa sem resistência. Seus homens saqueiam e queimam a cidade
7. Báctria e Sogdiana (328 a. C.)

Alexandre convence seus homens a prosseguir e conquista a região onde morreu Dario

8. Taxila (326 a.C.)

Barrado pelo mau tempo e pelo relevo, Alexandre encerra sua exitosa campanha militar

9. Gedrósia (325 a.C.)

Na travessia de volta pelo deserto, o exército macedônio sofre mais baixas que em dez anos de combates

10. Babilônia (323 a.C.)

Depois de adotar a cidade como sede de seu governo, Alexandre morre de causas desconhecidas

Homem de família

Alexandre se casou pela primeira vez aos 27 anos com Roxane, uma sogdiana (nascida em uma região que hoje fica no Afeganistão), com o intuito de garantir seu poder naquele pedaço. Com ela teve um filho. Ambos, mãe e criança, foram assassinados poucos depois da morte de Alexandre. Na Babilônia, casou-se com duas parentes de Dario, na tentativa de legitimar sua influência entre os persas. Mesmo com tantas mulheres em sua vida, Alexandre ainda é perseguido por quem duvide de sua masculinidade. As intrigas surgiram depois que ele teria se recusado a encomendar um herdeiro antes de embarcar rumo ao Oriente. Disse que queria acompanhar o crescimento de seu filho e, por isso, deixou o assunto para mais tarde. Outro motivo de desconfiança era o tratamento que dispensava às mulheres, estranho para a época. Ele era tolerante e justo com as prisioneiras, algo incomum entre os gregos, que as consideravam pessoas de segunda categoria.

O "marvado" vinho

Os macedônios eram conhecidos pelo hábito de beber excessivamente. Ao contrário dos gregos, que misturavam água ao vinho, os conterrâneos de Alexandre tomavam a bebida pura. E em grandes quantidades. O conquistador macedônio não era diferente. Sempre que podia, promovia um symposium. Ou seja, uma festa em que antes de ser servido o primeiro prato todos os convidados já estavam bem altos. Num desses eventos, Alexandre discutiu com um de seus mais conhecidos generais, Cleitus. Ambos já tinham entornado muitas taças, quando Alexandre puxou uma adaga de um de seus guarda-costas e assassinou o amigo. Diante da perplexidade de todos, Alexandre puxou a arma e tentou se matar. Foi contido e nunca se perdoou pela atitude.Foi também durante um symposium que Alexandre colocou fogo no palácio real de Persépolis, ato que se transformou em outro motivo de arrependimento.

Alexandrias pelo mundo

Alexandre herdou um costume de seu pai: batizar cidades com seu próprio nome. A primeira delas, Alexandrópolis, na Trácia, foi fundada quando ele tinha apenas 16 anos. Até sua morte, aos 32 anos e 11 meses, Alexandre fundaria cerca de 70 novas cidades, sendo que pelo menos 17 delas ganhariam o nome dele. A mais famosa foi a Alexandria do Egito, fundada em 331 a.C.. A cidade se tornou uma metrópole-modelo e um grande centro de comércio durante a dinastia lágida, fundada por Ptolomeu, general de Alexandre. Ficou conhecida por ter abrigado uma das maravilhas da Antiguidade, uma biblioteca com 400 mil rolos de papiro fundada em 283 a.C. Poucas sobraram e nunca tiveram tanta fama como a homônima egípcia. Entre elas estão Herat (Alexandria Arion), no Afeganistão, Alexandropoulis, na Grécia, Al Iskandariyah, no Iraque, Eskandari, no Irã, e Iskenderun, na Turquia.

Nasce uma estrela, o helenismo

O resultado da passagem de Alexandre pelo Oriente foi uma fusão das culturas grega, persa e egípcia, que formaram a civilização helenística. Após a morte do conquistador macedônio, nasceram outros centros irradiadores dessa nova cultura, todos no Oriente Médio: Alexandria, Pérgamo e Antióquia. Antes disso, o pensamento tinha como centro o Peloponeso (ou seja, a Grécia continental), mais exatamente Atenas, que entrou em decadência.Alexandria, no Egito, foi o principal desses novos centros. Lá floresceu uma forte atividade econômica e também escolas de filosofia, matemática, geografia e medicina. Assim como ela, Pérgamo tinha uma atividade intelectual intensa. Possuía uma biblioteca que tentou se equiparar à de Alexandria e um templo monumental, o de Zeus. Aliás, a cultura helênica acrescentou novos deuses mitológicos não-gregos, como Ísis e Serápis.

O macedônio vai parar em Hollywood

Depois de Kennedy e Fidel, o diretor de cinema americano Oliver Stone escolheu outro personagem polêmico para levar às telas: Alexandre, o Grande. O papel principal será interpretado pelo irlandês Colin Farrell. O elenco também conta com Angelina Jolie, que fará o papel da mãe dele, Olímpia. Anthony Hopkins será o general Ptolomeu e Rosário Dawson interpretará Roxane. As filmagens começaram em abril deste ano no norte da Índia e estão sendo concluídas no Marrocos, região em que o conquistador nunca botou os pés. O filme ainda não tem data prevista para ser lançado no Brasil. Há também um projeto do canal a cabo HBO (transmitido no Brasil pela TVA) de realizar uma série com dez episódios sobre Alexandre. A produção será realizada pela Icon, empresa de Mel Gibson. “Quase dois milênios e meio após sua morte, ele ainda suscita tanto interesse e controvérsia como quando era vivo”, diz o professor Peter Green.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

[SGM] Uma espiã chamada Coco Chanel

El País, 06/12/2014


Há gênios que escondem um lado escuro. Coco Chanel é um deles. A mulher que fundou o império que leva seu nome, que transformou a maneira de vestir de milhões de mulheres e que comercializou o perfume mais prestigioso e conhecido (o Nº5), trabalhou clandestinamente para os serviços secretos alemães durante a ocupação francesa (1940-1944). Um livro biográfico entre a meia centena que foi publicada sobre o perfil deste emblema da França transformou em certeza há dois anos o que era uma suspeita até então: Coco Chanel foi recrutada pela espionagem alemã. Nesta semana, pela primeira vez, um veículo de comunicação francês –o canal de televisão estatal France 3– averiguou as profundezas de um aspecto da história que a França prefere com frequência ignorar: o colaboracionismo de um de seus grandes mitos contemporâneos.

Quando os alemães ocuparam Paris, em maio de 1940, Coco Chanel tinha 57 anos. Na época, já era uma referência mundial no universo da moda e uma empresária de prestígio com 4.000 empregados em vários ateliês. Ela, como outras celebridades da época, fugiu, assustada, para o sul do país para retornar a Paris pouco tempo depois. Os alemães desejavam manter a fama da cidade como capital das artes e do entretenimento e obtiveram o retorno de Chanel, do ator Jean Gabin e da bailarina e cantora Joséphine Baker, convertida secretamente também em espiã, mas neste caso a serviço dos aliados.

Durante duas horas, o programa mensal da France 3 A sombra de uma dúvida destrinchou na última segunda-feira, em um capítulo intitulado Os artistas sob a ocupação, o destino de um bom punhado de celebridades durante a ocupação alemã. O de Chanel resulta especialmente doloroso. A grande estilista não só voltou para Paris como também retornou à vida luxuosa no hotel Ritz e se apaixonou por Hans Günther von Dincklage, um diplomata alemão fluente em francês e que resultou ser um recrutador nazista de espiões. Por meio dele Chanel obteve a libertação de seu sobrinho Gabriel, que sempre se suspeitou ser filho da própria estilista.

Os dados e documentos revelados no programa da emissora France 3 são incontestáveis. No início da ocupação, aproveitando as novas normas antissemitas, Coco Chanel tentou arrebatar a seu sócio, o judeu Pierre Wertheimer, a empresa Bourjois, que comercializava o Chanel Nº 5. Não conseguiu. Wertheimer, sabedor dos perigos que o espreitavam, tinha colocado previamente suas ações em nome de um certo Félix Amiot, que as devolveu no fim da guerra. Para apresentar uma aparência de empresa renovada, Chanel, uma mulher altiva e de escassa empatia, despediu grande parte de seu pessoal; uma vingança, na verdade, pela greve que os empregados tinham realizado meses antes.

O estilo de vida de Chanel durante os anos de ocupação sempre levantou suspeitas na sociedade francesa. Hal Vaughan, um velho jornalista norte-americano, veterano da guerra, publicou em 2012 os dados que confirmavam tão incômoda suspeita. Gabrielle Bonheur Chanel, mais conhecida como Coco Chanel, figurava nos serviços alemães como a agente F-7124. A France 3 recuperou agora documentos inéditos do ministério de Defesa francês, da Prefeitura de polícia e do Arquivo Nacional da França que corroboram essa versão. De fato, a viagem que Coco Chanel realizou à Espanha em 1943 foi uma tentativa de utilizar suas ligações indiretas com o então primeiro-ministro britânico Winston Churchill para tentar que Londres concordasse em assinar a paz unilateralmente com Berlim. Uma missão fracassada.
O fim da ocupação de Paris, em agosto de 1944, deu lugar, nos primeiros dias, à cruel perseguição de todo colaboracionista. Enquanto as turbas castigavam as mulheres raspando-lhes o cabelo, Coco Chanel foi detida e levada a um comitê de depuração que a interrogou durante algumas horas antes de liberá-la. Nunca mais foi incomodada. Ninguém investigou. Nenhum tribunal sequer interrogou a proprietária de um império da moda, a joalheira e a perfumista que mantinha esplêndidas relações com a aristocracia e a arte de todo o continente. Apesar disso, ela optou por um exílio dourado na Suíça que durou dez anos. Lá foi feita a última foto que se tem dela, datada de 1949, ao lado de seu charmoso amante alemão.

Coco Chanel voltou a Paris e retomou as luxuosas estadias no Ritz. Ali morreu a milionária, em 1971, depois de ficar doente repentinamente, deitada em sua cama, perfeitamente vestida, penteada e maquiada, aos 88 anos de idade. Depois disso, poucos quiseram mexer no lado mais tenebroso de sua biografia. “Você viu a repercussão do programa?”, pergunta retoricamente ao EL PAÍS o produtor executivo da Martange Production, Frédéric Lusa, responsável pelo programa, para responder: “Essa história só interessou veículos de comunicação estrangeiros”.

A sobrinha-neta de Gabrielle Bonheur Chanel, Gabrielle Palasse, filha de Gabriel -aquele que foi salvo por Hans Günther von Dincklage-, confessou uma vez publicamente que nunca se atreveu a perguntar a Coco Chanel se na verdade era neta dela. Pierre Wertheimer terminou convencendo o gênio da moda para ficar com a empresa, embora mantivesse a grande Coco como sócia criativa e cobrisse todos os seus gastos até o fim. Os netos de Pierre, Gerard e Alain Wertheimer, são hoje os donos do império Chanel, que tem quase 200 lojas em todo o mundo. Empresa familiar não cotada em bolsa, a Chanel é a responsável pela fortuna dos Wertheimer, avaliada recentemente pela Bloomberg em 5,6 bilhões de euros (cerca de 17,8 bilhões de reais).

Em 1983, os novos gestores contrataram o estilista Karl Lagerfeld, extravagante e genial personagem. Esta é a opinião dele sobre Coco Chanel e seu lado escuro: “A verdade não nos diz respeito. Uma lenda é uma lenda. Prefiro minha fantasia aos detalhes históricos [...]. O que importa não é a realidade, a não ser a ideia que temos das coisas e das pessoas. Para mim, Chanel é uma ideia e isso é o que eu desenvolvo”.

Uma Vida de Luxo

Coco Chanel nasceu em 1883, em Saumur (um vilarejo do centro da França), no seio de uma família humilde.

O grande amor de sua vida, o aristocrata britânico Boy Capel, emprestou-lhe o dinheiro para montar seu primeiro ateliê. Alguns anos depois, a estilista tinha criado um império da moda e explorava, com o sócio Pierre Wertheimer, o Chanel Nª 5, o perfume criado por ela em 1921.
Viveu quase toda a vida em grandes hotéis. Duas 'suítes' do Ritz foram sua casa em Paris até sua morte, em 1971.

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/05/estilo/1417797621_395729.html

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