sábado, 20 de dezembro de 2014

[SGM] Oito coisas que você pode não saber sobre a Batalha das Ardenas

History, 16/12/2014


Em 16 de dezembro de 1944, Adolf Hitler lançou um contrataque audacioso contra as forças aliadas na floresta gelada das Ardenas, no sudoeste da Bélgica e Luxemburgo. Na subsequente Batalha do Bulge – assim chamada por causa da saliência (bulge) de quase 80 km que o exército alemão deixou nas linhas aliadas – os defensores americanos das Ardenas foram pegos de calças na mão quando 250.000 soldados alemães e centenas de tanques caíram sobre suas posições. Uma falta de recursos e resistência tenaz americana eventualmente interromperam o avanço alemão, mas não antes que 80.000 soldados americanos fossem mortos, capturados ou feridos – mais do que em qualquer batalha da história americana. Setenta anos depois do início do último suspiro da Alemanha Nazista na Batalha do Bulge, saiba oito fatos surpreendentes sobre a luta que Winston Churchill chamou de “indubitavelmente a maior batalha americana” da Segunda Guerra Mundial.

1 – Os Generais de Hitler aconselharam contra o ataque

Muitos historiadores argumentam que o ataque nazista nas Ardenas falhou mesmo antes de começar, e parece que muitos dos oficiais mais leais de Adolf Hitler também teriam concordado. O plano proposto por Hitler (Chamado “Operação Vigilância sobre o Reno”) baseava-se em um cronograma ambicioso que exigia que seus comandantes avançassem sobre as linhas aliadas através do Rio Meuse no intervalo de apenas poucos dias antes de tomar o porto vital da Antuérpia. Os marechais Gerd Von Rundstedt e Walther Model alertaram a respeito da impossibilidade de tal cronograma, e ambos mais tarde ofereceram muitos protestos escritos e estratégias alternativas, porém sem resposta. Pouco antes do ataque começar, Model confidenciou a subordinados que o plano de Hitler “não tem uma única maldita perna onde possa se sustentar” e “não tem mais do que dez por cento de chance de ser bem sucedido”.

2 – Os Aliados ignoraram muitos sinais de alerta de uma ofensiva

Os ganhos iniciais alemães na Batalha do Bulge foram largamente devidos à surpresa do próprio ataque. Os comandantes aliados frequentemente confiavam na inteligência fornecida pelo “Ultra”, uma unidade britânica que decifrava as transmissões de rádio nazistas, mas os alemães operavam sob um véu de segredo e tipicamente se comunicavam por telefone quando dentro de suas fronteiras. Alguns comandantes americanos também dispensaram relatórios de aumento de atividade alemã próxima das Ardenas, enquanto outros ignoraram prisioneiros inimigos que afirmavam que um grande ataque estava em andamento. Muitos desde então afirmam que os aliados ficaram cegos por seus recentes sucessos no campo de batalha – eles haviam posto os alemães na defensiva desde o Dia-D – mas o alto comando americano também considerou o terreno inapropriado das Ardenas como um sítio improvável para um contrataque. Consequentemente, quando a ofensiva alemã finalmente começou, a região estava fracamente defendida por umas poucas inexperientes e cansadas divisões americanas.

3 – Uma péssima conexão telefônica ajudou a levar a catástrofe para uma Divisão americana

Poucas unidades americanas na Batalha do Bulge sentiram a força do avanço alemão mais severamente do que a 106ª. Divisão Golden Lions. A maior parte da tropa inexperiente chegou às Ardenas em 11 de dezembro e recebeu ordens de cobrir uma grande seção da linha americana em um terreno rugoso conhecido como Schnee Eifel. Logo após o ataque alemão começar, o comandante da 106ª., General de Divisão Alan W. Jones, começou a se preocupar que os flancos de seus 422º. e 423º. Regimentos estavam muito expostos. Ele ligou para o General de Corpo Troy Middleton para pedir que elas se retirassem, mas a linha estava mal e Jones desligou o telefone acreditando incorretamente que Middleton ordenou-lhe para manter suas tropas em posição. Os alemães logo cercaram os dois regimentos e os isolaram de receber qualquer ajuda. Pouca munição e sob pesado ataque de artilharia obrigaram que 6.500 soldados americanos se rendessem em uma das maiores rendições das tropas americanas na Segunda Guerra Mundial. Após a derrota, um perturbado General Jones exclamou, “Perdi uma divisão mais rápido do que qualquer outro comandante no Exército americano.”

4 – Soldados alemães usaram uniformes americanos roubados para entrar nas linhas aliadas

Durante os primeiros estágios da Batalha do Bulge, Hitler ordenou ao comandante austríaco da Waffen-SS, Otto Skorzeny, para montar um exército de impostores para uma missão ultrassecreta conhecida como Operação Greif. Em um ardil agora famoso, Skorzeny adaptou soldados alemães que falavam inglês com armas, jeeps e uniformes americanos capturados e os lançou atrás das linhas americanas como verdadeiros G.I.s (n. do t.: infante americano). Os embusteiros alemães cortaram linhas de comunicação, trocaram sinais rodoviários e cometeram outros atos pequenos de sabotagem, mas eles foram mais bem sucedidos ao espalhar confusão e terror. Quando foi espalhada a informação que comandos alemães estavam disfarçados de americanos, os G.I.s estabeleceram pontos de verificação e começaram a averiguar a “autenticidade” do transeunte a partir de conhecimentos da cultura americana. Apesar de terem conseguido capturar uns poucos alemães, os bloqueios frequentemente produziam resultados bizarros. Soldados superzelosos atiraram nos pneus do veículo do Marechal Bernard Montgomery e um G.I. chegou a deter por alguns instantes o general Omar Bradley após ele responder que a capital de Illinois era Springfield (o soldado acreditava incorretamente que era Chicago).

5 – As tropas americanas montaram uma defesa famosa na cidade de Bastogne

A ofensiva alemã em direção do Rio Meuse dependia parcialmente da captura de Bastogne, uma pequena cidade belga que servia como junção rodoviária vital. A área foi cena de uma luta frenética durante os primeiros dias da batalha, e em 21 de dezembro, as forças alemãs cercaram a cidade e encurralaram a 101ª.Divisão Aerotransportada Americana e outros. Apesar de estarem severamente em desvantagem numérica, os defensores da cidade responderam com tenacidade. “Eles nos cercaram – pobres coitados!” tornou-se um lema entre os G.I.s da cidade, e quando os alemães mais tarde exigiram que o general Anthony McAuliffe se rendesse, ele ofereceu uma resposta curta: “Loucos!” A 101ª. Divisão continuaria a manter Bastogne até o Natal, sofrendo severas baixas. O cerco finalmente terminou em 26 de dezembro, quando o 3º. Exército do general Patton avançou sobre as linhas alemãs e tirou a pressão sobre a cidade.

6 – Pela Primeira vez na SGM o Exército americano foi dessegregado

As forças armadas americanas não acabaram com a segregação racial oficialmente até 1948, mas a situação desesperadora dos Aliados durante a Batalha do Bulge inspirou-as a recorrer à ajuda de G.I.s negros em mais de uma ocasião. Cerca de 2.500 soldados negros participaram da ação, com muitos lutando lado a lado com seus colegas brancos. Os batalhões 333º. e 969º compostos totalmente por negros sofreram perdas pesadas ao ajudar a 101a. Aerotransportada na defesa de Bastogne, e o 969º. Recebeu mais tarde uma Citação de Distinção de Unidade – a primeira concedida a uma formação composta por negros. Em todos os lugares do campo de batalha, soldados da 578ª. Artilharia empunhram fuzis para apoiar a 106ª. Divisão Golden Lions e uma formação chamada de 761º. “Panteras Negras” tornou-se a primeira unidade blindada a entrar em combate sob o comando do general George S. Patton. À medida que o combate progredia, os generais Dwight D. Eisenhower e John C.H. Lee contaram com soldados negros para cobrir as baixas aliadas no front. Milhares haviam se apresentado como voluntários na época que o conflito terminou.

7 – Inclemência do clima teve um papel principal no resultado da batalha

Além de encarar o tiro inimigo e bombardeio, as tropas na Batalha do Bulge também tiveram que enfrentar o clima inclemente das Ardenas. Os nazistas tiveram que segurar sua ofensiva até que a densa neblina e neve chegaram e mantiveram no solo o apoio aéreo superior dos Aliados, deixando ambos os lados expostos a condições quase polares. “O clima foi uma arma que o exército alemão usou com sucesso,” notou mais tarde o marechal Von Rundstedt. Enquanto a batalha transcorria, nevascas e chuva congelante frequentemente reduziam a visibilidade a quase zero. O gelo cobriu muito dos equipamentos dos soldados, e tanques tinham que ser limpos do gelo após congelarem durante a noite. Muitos soldados feridos morreram congelados antes que pudessem ser resgatados, e milhares de G.I.s sofreram ulcerações e pés congelados. Os céus finalmente limparam a favor dos aliados em 23 de dezembro, quando condições climáticas favoráveis permitiram às aeronaves erguerem voo. O subsequente ataque aéreo quebrou o avanço alemão.

No mapa, as linhas vermelhas mostram o objetivo original das forças alemãs, e a linha laranja o avanço real conseguido.

 8 – Escassez de combustível ajudou a frustrar a ofensiva alemã

Os temidos tanques Panzer e Tiger do Terceiro Reich “bebiam” muito combustível e, no final de 1944, a poderosa máquina de guerra alemã estava tendo dificuldades em conseguir combustível para mantê-los rodando. Os nazistas reservaram 5 milhões de galões para a Batalha do Bulge, mas uma vez iniciadas as operações de combate, péssimas condições rodoviárias e erros logísticos garantiram que muito do combustível jamais alcançasse aqueles que precisavam dele. As divisões de infantaria alemã acabaram utilizando cerca de 50.000 cavalos para transporte nas Ardenas, e o alto comando nazista construiu seus planos de batalha capturando depósitos de combustível americano durante seu avanço.  As forças aliadas evacuaram ou queimaram milhões de galões de combustível para prevenir que caísse nas mãos do inimigo, contudo, e pelo Natal, muitas unidades blindadas alemãs estavam parando. Sem meios de continuar o avanço através do Rio Meuse, o contrataque logo falhou. Em meados de janeiro de 1945, os Aliados conseguiram eliminar o “Bulge” em suas linhas e empurraram os alemães de volta para suas posições originais.

[ARM] Nakajima B5N “Kate”: Simplesmente o mais rápido de todos

Andrews Claudino


O “Kate”, como era conhecido em combate, era um bombardeiro transportador de torpedos da Marinha Imperial Japonesa. Era a aeronave principal utilizada pelo japoneses para atender à necessidade de defender seus mares, tendo feito parte também de toda a Segunda Guerra.

O B5N foi projetado por uma equipe liderada por Katsuji Nakamura, em resposta a uma exigência da Marinha em 1935, que necessitava de um bombardeiro torpedeiro para substituir o Yokosuka B4Y, internamente designado como Type K pela Nakajima. Em 1937, o primeiro protótipo foi ordenado em produção. Em seguida, a aeronave saiu designada como Type 97 Carrier Attack Bomber (ou então como: kyū-nana-shiki kanjō kōgeki-ki).

É um bombardeiro muito manobrável e bem rápido, podendo chegar até 378 km/h. Ele pode chegar a até 27.000 pés, e possui uma metralhadora Turret 7,62 Tipo 92, com capacidade para 1.000 tiros. Pode-se escolher entre 6 bombas de 50 kg, 2 bombas de 250 kg, uma bomba de 1.000 kg, um torpedo de 835 kg ou um torpedo 849 kg.

Assim que saíram da linha de produção, os primeiros B5N já foram designados para combater pela primeira vez na Guerra Sino-Japonesa, onde a experiência de combate revelou várias deficiências no B5N1, que foi o modelo da primeira produção. A pior parte disso é que sua fraqueza era a falta de proteção para a tripulação e os tanques de combustível.

A Marinha relutou em adicionar peso extra na aeronave para aumentar a blindagem, pois isso a faria perder o alto desempenho que oferecia. Então, resolveu aguardar uma versão mais potente da fabricante. O B5N2, que não demorou muito pra sair, mostrou-se com um motor muito mais potente. Várias modificações foram feitas para aumentar o seu desempenho.

Embora essas modificações fizessem com que seu desempenho fosse somente um pouco melhor, suas fraquezas foram sanadas. A versão N2 logo substituiu a N1, na produção e em serviço no campo de batalha a partir de 1939. Desde o primeiro exemplar, continuou sendo o bombardeiro mais rápido para a época.

O B5N2 foi designado para fazer parte do ataque de Pearl Harbor. Essas aeronaves foram transportadas pelo porta-aviões Hiryu, de onde decolaram e conseguiram afundar com sucesso o encouraçado Arizona. Durante a primeira hora do ataque, cinco torpedeiros foram abatidos.

O B5N serviu como base de projeto para o seu sucessor, o B6N, que já estava bem atrasado para a substituição do B5N na linha de frente. Por outro lado, o B5N continuou a voar e realizar missões secundárias, como missões anti-submarinos, além de servir como rebocador de alvos e mais algumas outras atribuições. Alguns dos B5N utilizados para estas finalidades foram equipados com os primeiros radares e detectores de anomalias magnéticas. Após sofrer perdas severas, os que restaram também foram utilizados pelos kamikazes.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

ISIS – Combatendo os modernos Uaabistas[1]

Eric Margolis, 22/11/2014


Sir John Baggot Glubb, melhor conhecido como Glubb Pasha, foi uma das figuras mais ecléticas e românticas do Oriente Médio moderno. Ele e o “Chinês” Gordon de Khartoum foram os últimos grandes oficiais imperiais britânicos.

Apoiado pela Grã-Bretanha em seu protetorado, o Reino Hachemita do Jordão, Glubb transformou seu pequeno exército beduíno, a Legião Árabe, na melhor força militar do mundo árabe.

A Legião Árabe de Glubb teria provavelmente derrotado as forças de Israel na Guerra Árabe-Israelense em 1948 se a Grã-Bretanha e o falso Rei Abdullah não tivessem impedido o avanço da Legião, como Glubb Pasha amargamente lembrou em suas memórias.

Quando perguntado quais de suas medalhas e condecorações ele gostava mais, Glubb respondeu surpreendentemente, “Defensor dos Pastores do Iraque”. Esta condecoração obscura foi dada a Glubb pelo Rei do Iraque quando Sir John comandou a força policial de fronteira do Iraque nos anos 1930.

Glubb Pasha e seus homens travaram uma longa campanha contra os Ikhwan da Arábia Saudita. Os Ikhwan (Irmandade) eram um amontoado de membros fanáticos de tribos sauditas que seguiam o credo puritano do Uaabismo. Eles viam todos os mulçumanos não-uaabistas como infiéis (kufr), merecedores de serem roubados ou mortos. Mesmo o Rei da Arábia Saudita falhou em controlar os vândalos Ikhwan.

Oito décadas depois, os Ikhwan estão de volta, desta vez com armas pesadas. Ao invés de camelos e cavalos, seus homens estão dirigindo Land Cruisers da Toyota e Humvees americanos capturados do exército amador do Iraque. Os Ikhwan na Síria e Iraque agora se autodenominam “Estado Islâmico”.

Não há nada de islâmico no Estado Islâmico, ou ISIS. Ele não é um Estado. O que estamos vendo é o recrudescimento do movimento fanático Uaabista da Arábia Saudita combinado com uma forma moderna de anarquismo violento árabe e niilismo abraçado por jovens amargurados e marginalizados do oriente Médio e Europa que têm muita testosterona, pouco bom senso e um profundo ódio de ser discriminado na Europa. Eles são os “descamisados” esquecidos da Europa entre os quais o desemprego está acima de 60% e sofrem uma epidemia de tráfico de drogas.

O ISIS é também resultado dos equívocos dos Impérios ocidentais no Oriente Médio. O grupo fanático foi criado e armado na Jordânia pela CIA, pela inteligência turca, britânica, e francesa e financiada pela Arábia Saudita.

O ISIS, no pensamento de Washington, deveria ser composto de “moderados”, uma força temporária e facilmente controlável para derrubar o governo da Síria, que foi condenado à morte pelas potências ocidentais por se recusar a se voltar contra seu aliado Irã.

Assim como aconteceu no passado, os saudistas resolveram usar militantes, neste caso o ISIS, como ferramenta para disseminar a revolução longe de suas fronteiras. A contribuição dos saudistas ao ISIS foi em armas, dinheiro e fanatismo uaabista. Ironicamente, enquanto o mundo assistia com horror as decapitações do ISIS, os patrões saudistas decapitavam 27 prisioneiros ao mesmo tempo – sem qualquer menção por parte da mídia ocidental.

Mas o ISIS Frankenstein logo saiu de controle e se voltou contra seus criadores.

O próximo passo neste desastre foi aumentar ainda mais o abismo que existe entre sunitas e xiitas. Logo após invadir o Iraque em 2003, os EUA, na melhor política imperial do dividir para conquistar, fez uma aliança com a maioria xiita contra a minoria sunita da nação. A estratégia de usar xiitas contra sunitas foi altamente bem sucedida em manter o controle americano no Iraque. Washington chegou mesmo a se alinhar discretamente com Teerã em relação ao Iraque.

Os esquadrões da morte xiitas foram liberados nas regiões sunitas; torturadores xiitas usaram choques elétricos e ácido para obrigar prisioneiros sunistas a falar e quebrar a resistência antiamericana. Os EUA financiaram e apoiaram essa guerra suja, usando técnicas aperfeiçoadas nas guerras civis da América Central. Israel forneceu muitos conselhos úteis.
Colocar xiitas contra sunistas “estabilizou” o Iraque, mas intensificou as tensões perigosas através do mundo mulçumano até o leste do Paquistão. A longa guerra por procuração entre saudistas e iranianos se intensificou.

Como o ódio religioso estava sendo ventilado, fora das entranhas do Oriente Médio apareceu o feroz ISIS bradando estar conduzindo a jihad contra os “descrentes” e “apóstatas” xiitas, entre os quais o regime alauita de Assad na Síria. O ISIS tornou-se a arma de escolha da Arábia Saudita. Mas então o ISIS desbancou o regime instalado pelos EUA no Iraque e converteu seus soldados de brinquedo.

O ódio e a fúria do mundo árabe foram lançados neste caldeirão de feiticeira, um mundo que foi invadido, bombardeado e explorado pelas potências coloniais por um século. Os EUA cometeram atos de guerra contra pelo menos dez nações mulçumanas em nossa era, matando número incontável de pessoas e impondo tiranos cruéis como marionetes, tudo sob a bandeira da luta contra o “terrorismo”.

Pode haver qualquer dúvida que a sede por vingança é intensa? Estes são filhos da fracassada “Primavera Árabe” que foi deformada e morreu graças à contrarrevolução empreendida pelos saudistas e ocidentais. Eles são os primos dos terroristas do 11/9 – cuja maioria veio da Arábia Saudita.

O ISIS usa o idioma do Islã, mas é uma máfia sedenta de sangue de jovens raivosos que compreendem pouco sobre o Islã. Sua brutalidade estúpida está despertando intensa islamofobia em todos os lugares.

Curiosamente, há um antigo ditado mulçumano alertando para a vinda de homens perigosos com bandeiras negras, nomes geográficos falsos e cabelos longos.

Eles aparentemente chegaram. Agora, é a vez do mundo mulçumano, e não estrangeiros, erradicar esta praga letal de um punhado de cruzados.

Nota:

[1] Wahhabismo ou uaabismo é um movimento religioso ou seita do islamismo sunita geralmente descrito como "ortodoxo", "ultraconservador", "extremista", "austero", "fundamentalista", "puritano", "movimento de reforma" islâmico para restaurar o "culto monoteísta puro", ou "movimento pseudossunita extremista". Os adeptos muitas vezes opõem-se ao termo wahhabismo por considerá-lo pejorativo e preferem ser chamados de salafistas ou muwahhid. O movimento tem o nome inspirado em um pregador e estudioso do século XVIII chamado Muhammad ibn Abd al-Wahhab (1703-1792). Ele começou um movimento revivalista na região remota e pouco povoada de Nejd, no centro da Arábia Saudita, defendendo purificar o islamismo para devolvê-lo às suas raízes do século VII, por meio de uma purga de práticas como o culto popular dos santos, de santuários e a visitação de túmulos de entes queridos, práticas generalizadas entre os muçulmanos, mas que ele considerava como "idolatria", "impurezas" e inovações dentro do islamismo.
                    

O que é o jihadismo?

BBC, 14/12/2014

O que significa jihad?

A palavra "jihad" é amplamente utilizada – muitas vezes de maneira imprecisa – por políticos ocidentais e pela mídia.

Em árabe, a palavra significa "esforço" ou "luta". No islã, isso pode significar a luta interna de um indivíduo contra instintos básicos, o esforço para construir uma boa sociedade muçulmana ou uma guerra pela fé contra os infiéis.

Qual é a diferença entre os jihadistas e os muçulmanos?

O termo "jihadista" tem sido usado por acadêmicos ocidentais desde os anos 1990, e mais frequentemente desde os ataques de 11 de setembro de 2001, como uma maneira de distinguir entre os muçulmanos sunitas não violentos e os violentos.

Muçulmanos têm, a rigor, o objetivo de reordenar o governo e a sociedade de acordo com a lei islâmica, chamada de sharia.

No entanto, jihadistas entendem que a luta violenta é necessária para erradicar obstáculos para a restauração da lei de Deus na Terra e para defender a comunidade muçulmana, conhecida como umma, contra infiéis e apóstatas (pessoas que deixaram a religião).

Se a umma é ameaçada por um agressor, eles sustentam que a jihad não é só uma obrigação coletiva (fard kifaya), mas também um dever individual (fard ayn), que deve ser cumprido por todos os muçulmanos capazes, assim como as preces rituais e o jejum durante o Ramadã.

O termo "jihadista" não é usado por muitos muçulmanos porque eles acreditam que se trata de uma associação incorreta entre um conceito religioso nobre e a violência ilegítima. Em vez disso, eles usam o termo "pervertidos", com a ideia de que muçulmanos envolvidos em atos violentos se desviaram dos ensinamentos religiosos.

Todos os jihadistas querem a mesma coisa?

Jihadistas compartilham dos mesmos objetivos básicos de expandir o islã e contrapor-se ao perigo que pode atingi-lo, mas suas prioridades podem variar. Um estudo recente de Thomas Hegghammer, do Departamento de Pesquisa de Defesa da Noruega, identificou cinco objetivos mais proeminentes:

·         Mudar a organização política e social do Estado. Por exemplo, o Grupo Armado Islâmico (GIA) e o antigo Grupo Salafista para Pregação e Combate (GSPC) lutaram por uma década contra as forças de segurança da Argélia, com o objetivo de derrubar o governo e criar um Estado islâmico.
·         Estabelecer soberania em um território percebido como ocupado ou dominado por não muçulmanos. O grupo baseado no Paquistão Lashkar-e-Taiba (Soldados da Pureza, em tradução livre) se opõe ao controle da Caxemira pela Índia, enquanto o grupo Emirado do Cáucaso quer criar um Estado islâmico nas "terras muçulmanas" da Rússia.
·         Defender a umma de ameaças externas não muçulmanas. Isso inclui jihadistas focados em lutar contra o que eles chamam de "inimigo próximo" (al-adou al-qarib) em áreas confinadas – como árabes que viajaram para a Bósnia e a Chechênia para defender muçulmanos desses locais contra exércitos não muçulmanos – e "jihadistas globais" que combatem o "inimigo distante" (al-adou al-baid), que na maioria dos casos é o Ocidente. A maioria destes são afiliados à Al-Qaeda.
·         Corrigir o comportamento moral de outros muçulmanos. Na Indonésia, justiceiros deixaram de usar paus e pedras e passaram a atacar pessoas com armas e bombas em nome da "moralidade" e contra "desvios".
·         Intimidar e marginalizar outros grupos muçulmanos. O grupo Lashkar-e-Jhangvi (Soldados de Jhangvi, em tradução livre) realizou durante décadas ataques violentos contra os xiitas paquistaneses, que eles consideram hereges. O Iraque também sofre com a violência sectária.
Como eles justificam o uso da violência?

Os jihadistas dividem o mundo em "reino do islã" (dar al-Islam), terras sob a lei muçulmana, e o "reino da guerra" (dar al-harb), terras que não seguem a lei muçulmana e onde, em determinadas circunstâncias, a guerra em defesa da fé pode ser aprovada.

Líderes e governos muçulmanos que os jihadistas acreditam terem abandonado as recomendações da sharia são considerados como estando fora do "reino do Islã", o que os tornaria alvos legítimos de ataque.

Por que civis são mortos?

Grupos jihadistas atingiam civis antes do crescimento da Al-Qaeda, mas isso resultou em violência contra eles mesmos, em uma escala que até então não tinham imaginado.

Em 1998, Osama Bin Laden e os líderes de quatro grupos jihadistas no Egito, no Paquistão e em Bangladesh assinaram uma declaração de guerra total contra os Estados Unidos e seus aliados, e pediram que tanto soldados quanto civis fossem alvejados.

O profeta Maomé disse que exércitos muçulmanos deveriam fazer o possível para evitar machucar crianças e outros não combatentes.

A declaração assinada pelos grupos, no entanto, afirma que matar os não combatentes é um ato de reciprocidade pela morte de civis muçulmanos. Após os acontecimentos de 11 de setembro de 2011, Bin Laden tentou justificar o ataque a civis dizendo que, como cidadãos de um Estado democrático que elegeu seus líderes, eles também eram responsáveis pelas ações dos governantes.

Atingir civis muçulmanos em ataques tem se provado ainda mais polêmico. Em 2005, o então segundo em comando de Bin Laden, Ayman Al-Zawahiri, aconselhou o ex-líder da Al-Qaeda no Iraque, Abu Musab Al-Zarqawi, contra a ideia de matar civis xiitas. Al-Zawahiri afirmou que "isso não será aceito pelo povo muçulmano não importa o quanto você tente explicar".

O uso de táticas semelhantes no Iraque e na Síria pelo grupo autodenominado "Estado Islâmico" (anteriormente conhecido como Isis), que nasceu da Al-Qaeda no Iraque, foi um dos motivos pelos quais Al-Zawahiri, já ocupando o lugar de Bin Laden, renegou o grupo em fevereiro de 2014.

Por que os Estados Unidos costumam ser o alvo principal?

Em uma declaração em 1998, Osama Bin Laden acusou os Estados Unidos de "ocupar as terras do islã no lugar mais sagrado de todos, a península Arábica, saqueando suas riquezas, impondo-se a seus líderes, humilhando seus povos, aterrorizando seus vizinhos e transformando suas bases na península na ponta de lança com a qual lutam contra os povos muçulmanos na região".

Segundo Bin Laden, esses "crimes e pecados" configuravam uma "clara declaração de guerra contra Alá, contra seu mensageiro e contra os muçulmanos".

Em 2013, dois anos após a morte de Bin Laden, Ayman Al-Zawahiri escreveu em suas "diretrizes gerais para a jihad" que "o objetivo de atacar a América é exauri-la e fazê-la sangrar até a morte, para que ela tenha o mesmo destino da ex-União Soviética e desabe sobre seu próprio peso, como resultado de suas perdas militares, humanas e financeiras. Consequentemente, seu controle sobre nossas terras enfraquecerá e seus aliados cairão um após o outro".

Qual é o tamanho dos Estados islâmicos que eles querem estabelecer?

Muitos grupos jihadistas buscam estabelecer Estados islâmicos em seus respectivos países de origem, como o Boko Haram na Nigéria e o Movimento Islâmico do Uzbequistão.

Outros grupos querem criar um "califado" – governado de acordo com a sharia pelo califa, que significa "substituto de Deus na Terra" – que se espalhe por diversas regiões. Alguns, como a Al-Qaeda, querem reestabelecer o antigo califado que se estendia da Espanha e norte da África até China e Índia.

O líder do grupo, Ayman Al-Zawahiri, prometeu "libertar todas as terras muçulmanas ocupadas e rejeitar todo e qualquer tratado, acordo ou resolução internacional que dê aos infiéis o direito de tomar terras muçulmanas", incluindo a Palestina história, a Chechênia e a Caxemira.

Já o líder do grupo autodenominado "Estado islâmico", Abu Bakr Al-Baghdadi, também diz querer "demolir" as fronteiras estabelecidas pelo Acordo de Sykes-Picot, de 1916 (que delimitou as zonas de influência britânica e francesa no Oriente Médio após a Primeira Guerra Mundial). Seu grupo já declarou a criação de um califato que se estende pelo leste da Síria até o oeste do Iraque.

O "Estado islâmico" e a Al-Qaeda também têm métodos diferentes de estabelecer a lei islâmica. A abordagem da Al-Qaeda é mais de longo prazo, enquanto o "Estado islâmico" procura implementar imediatamente sua versão da sharia em seus territórios.

Há grupos jihadistas xiitas?

Há grupos militantes de muçulmanos xiitas que são, por natureza jihadistas. No entanto, eles são muito diferentes dos grupos sunitas. De acordo com a tradição xiita, os mujtahids – estudiosos religiosos mais antigos – possuem a autoridade para declarar uma jihad "defensiva". Mas somente o 12º imã (alto líder religioso) – que desapareceu há 1.100 anos, mas é considerado vivo pelos xiitas – poderia declarar uma jihad "ofensiva" quando retornar.

Durante séculos, a maioria dos sacerdotes xiitas defendia o não posicionamento político, enquanto esperavam o retorno do imã. Mas essa perspectiva mudou nos anos 1960 e 1970, dando origem ao ativismo que culminou na revolução de 1979 no Irã e no estabelecimento de uma República Islâmica no país.

Recentemente, a natureza sectária do conflito na Síria fez com que grupos xiitas apoiados pelo Irã ajudassem as forças leais ao presidente Bashar Al-Assad, membro da minoria xiita alauíta. Os grupos e seus milhares de lutadores "voluntários" – que vêm do Iraque, do Irã, do Líbano e do Iêmen – dizem que estão na Síria para defender o santuário xiita de Sayyida Zaineb, em Damasco.

O grupo libanês Hezbollah diz que seus membros mortos na Síria são mártires que morreram "cumprindo deveres jihadistas". Da mesma forma, o avançao do "Estado islâmico" no Iraque em 2014 também teve a mobilização de milícias xiitas para defender locais sagrados contra o grupo sunita.


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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Como o Extremismo Sionista tornou-se um problema para a Espionagem britânica

Calder Walton

Foreing Policy, 01/01/2014


Os anos após a Segunda Guerra Mundial não foram agradáveis aos serviços de inteligência britânicos – especialmente o MI5, sua agência de segurança e contrainteligência doméstica. Em nome da austeridade, o financiamento dos serviços de inteligência da nação foi reduzido, seus poderes de emergência na época da guerra foram removidos e seu número de membros drasticamente reduzido. Os postos do MI5 foram reduzidos de 350 funcionários em seu auge em 1943 para apenas uma centena em 1946. Seus registros administrativos revelam que ela foi obrigada a comprar tinta e papel baratos e seus empregados foram instruídos a datilografar relatórios nos dois lados do papel para economizar dinheiro. E houve algumas discussões sérias dentro do governo, assim como houve após a Primeira Guerra Mundial, sobre fechar o MI5. Infelizmente para o MI5, nos anos pós-guerra ela enfrentou a pior combinação de circunstâncias: recursos escassos, mas responsabilidades crescentes. Após a guerra, a Grã-Bretanha tinha mais territórios sob seu controle do que qualquer outro momento da história, e o MI5 era responsável pela inteligência de segurança em todos os territórios britânicos.

Mas a ameaça mais urgente do MI5 não estava em seus recursos diminutos, nem no seu novo inimigo soviético. Registros de inteligência recentemente liberados ao público revelam que no final da guerra a prioridade principal do MI5 era a ameaça do terrorismo emanando do Oriente Médio, especificamente dos dois principais grupos terroristas sionistas operando no protetorado da Palestina, que estava sob controle britânico desde 1921. Eles eram chamados Irgun Zevai Leumi  (“Organização Militar Nacional”, ou  simplesmente “Irgun”) e o Lehi (um acrônimo hebraico para “Combatentes Livres de Israel”), que os britânicos também chamavam de “A Gangue Stern”, em homenagem ao seu fundador, Avraham Stern. O Irgun e a Gangue Stern acreditavam que as políticas britânicas na Palestina nos anos do pós-guerra – impedindo a criação de um estado independente judaico – legitimizava o uso da violência contra alvos britânicos. O envolvimento do MI5 com contraterrorismo, que o preocupa até hoje, nasceu nos anos seguintes do pós-guerra quando ele começou a lidar com o Irgun e a Gangue Stern.

O envolvimento do MI5 com o terrorismo sionista oferece uma nova e surpreendente interpretação da história do início da Guerra Fria. Para a extensão total da Guerra Fria, a prioridade principal para os serviços de inteligência da Grã-Bretanha e outras potências ocidentais residiria na contraespionagem, mas como podemos ver agora, no período crucial de transição da Guerra Mundial para a Guerra Fria, o MI5 estava, ao invés disso, preocupado basicamente com contraterrorismo.

Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, o MI5 recebeu uma série de relatórios de inteligência alertando que o Irgun e a Gangue Stern não estavam apenas planejando violência no protetorado da Palestina, mas também lançar ataques dentro da própria Grã-Bretanha. Em abril de 1945, uma mensagem urgente do posto do MI5 no Oriente Médio, SIME, alertou que a Vitória na Europa (VE-Day) seria um Dia-D para os terroristas judeus no Oriente Médio. Então, na primavera e verão de 1946, coincidindo com uma escalada crescente de violência antibritânica na Palestina, o MI5 recebeu relatórios aparentemente confiáveis do SIME que o Irgun e a Gangue Stern estavam planejando enviar cinco “células” terroristas para Londres, “para trabalhar nas linhas do IRA”. Para usar suas próprias palavras, os terroristas pretendiam  “bater o cão em seu próprio canil”. Os relatórios do SIME foram obtidos do interrogatório de combatentes capturados do irgun e da Gangue Stern, de agentes policiais locais na Palestina e de ligações com grupos políticos oficiais sionistas como a Agência Judaica.  Eles afirmaram que entre os alvos para assassinato estavam o secretário do exterior da Grã-Bretanha, Ernest Bevin, que era lembrado como sendo o maior obstáculo ao estabelecimento de um Estado judeu no Oriente Médio, e o próprio Primeiro-Ministro. O novo diretor geral do MI5, Sir Percy Sillitoe, estava tão alarmado que em agosto de 1946 pessoalmente avisou o Primeiro-Ministro da situação, alertando-o que uma campanha de assassinato na Grã-Bretanha deveria ser considerada uma possibilidade real, e que seu próprio nome era sabido estar na lista de alvos da Gangue Stern.

Os registros de ação do Irgun e da Gangue Stern na época da guerra garantiram que o MI5 levasse a sério essas ameaças. Em novembro de 1944, a Gangue Stern assassinou o ministro britânico para o Oriente Médio, Lorde Moyne, enquanto ele retornava para sua casa alugada após almoçar no Cairo. O assassinato de Moyne foi seguido por uma escalada de violência na Palestina, com incidentes contra os britânicos e os combatentes do Irgun e da Gangue Stern sendo seguidos por represálias sanguinárias. Em meados de junho de 1946, após o Irgun lançar uma onda de ataques, bombardeando cinco trens e 10 das 11 pontes conectando a Palestina aos estados vizinhos, a passividade britânica finalmente acabou. As forças britânicas conduziram prisões em massa através da Palestina (chamada Operação Agatha), culminando em 29 de junho – conhecido como “Sabbath Negro” porque era um sábado – com a detenção de mais de 2.700 líderes sionistas e funcionários de baixo escalão, assim como membros da força de defesa judaica (Haganah) e seus comandos espalhados (Palmach). Nenhum dos líderes importantes do Irgun e da Gangue Stern foram presos na ação, e o resultado foi apenas lançá-los em contra-ações mais violentas. Em 22 de julho, o Irgun realizou uma ação devastadora, chamada Operação Pintinho, no coração do governo britânico na Palestina quando ele bombardeou o King David Hotel em Jerusalém, que era o centro dos escritórios do governo britânico no protetorado, assim como quartel-general do Exército britânico na Palestina.

O ataque foi planejado pelo líder do Irgun, Menachem Begin, mais tarde o sexto primeiro-ministro de Israel e ganhador do Prêmio Nobel da Paz. Na manhã de 22 de julho, seis membros jovens do Irgun entraram no hotel disfarçados como árabes, carregando garrafas de leite carregadas com 500 libras de explosivos. Às 12:37 pm, as bombas explodiram, arrancando a laje do lado sudoeste do edifício. Isto provocou o colapso de vários andares do hotel, resultando na morte de 91 pessoas. Em termos de fatalidades, o atentado ao King David foi uma das piores atrocidades terroristas infligidas aos britânicos no século XX. Foi também um ataque direto contra a inteligência britânica e os esforços contraterroristas na Palestina: tanto o MI5 quanto o SIS – o Serviço de Inteligência Secreto, conhecido como MI6 – tinham escritórios no hotel.

Na esteira do atentado, o Irgun e a Gangue Stern lançaram uma série de operações fora da palestina, assim como previram os relatórios do MI5. No final de outubro de 1946, uma célula do Irgun operando na Itália explodiu a Embaixada britânica em Roma e após isto, no final de 1946 e início de 1947, com uma série de ataques de sabotagem contra transporte militar britânico em rotas da Alemanha ocupada. Em março de 1947, um agente do Irgun deixou uma bomba no Clube Colonial, próximo  da Alameda St Martin no coração de Londres, que explodiu as portas e janelas do clube, ferindo muitos garçons. No mês seguinte, uma agente  do Irgun deixou uma bomba enorme, consistindo de 24 bananas de explosivo, no Colonial Office em Londres. A bomba falhou em detonar porque seu temporizador falhou. O chefe do Departamento de Polícia Metropolitana Especial, Leonard Burt, estimou que se a bomba tivesse explodido ela teria causado um número de vítimas comparável ao do King David Hotel – mas desta vez no coração de Whitehall. Quase simultaneamente, vários políticos britânicos proeminentes e figuras públicas ligadas à Palestina receberam ameaças de morte da Gangue Stern em seus lares e escritórios. Finalmente, em junho de 1947, a Gangue Stern lançou uma campanha de cartas-bombas na Grã-Bretanha, consistindo de 21 bombas no total, que almejava todo membro importante do Gabinete. As duas ondas de bombas foram postadas de uma célula subterrânea na Itália. Algumas delas na primeira onda atingiram seus alvos, mas não resultaram em quaisquer vítimas.  Sir Stafford Cripps foi somente salvo graças à mente ágil de sua secretária, que suspeitou de um pacote cujo conteúdo parecia fazer um chiado e o colocou num pote de água. O vice-líder do Partido Conservador, Sir Anthony Eden, carregou uma carta bomba consigo o dia inteiro numa pasta de executivo, achando que era um memorando de Whitehall que poderia esperar até o dia seguinte para ser lido, e somente percebeu o perigo que carregava quando foi alertado pela polícia do ataque planejado, com a informação fornecida pelo MI5.

O problema para o MI5 em Londres, e para as forças locais de segurança na Palestina, era a natureza extremamente difícil de detectar e conter o Irgun e a Gangue Stern. Ambos os grupos eram organizados verticalmente em células, cujos membros eram desconhecidos àqueles pertencentes a outras células e cuja lealdade extrema significava que elas eram quase impossíveis de serem infiltradas. Como um dos principais líderes do MI5 a enfrentar o terrorismo sionista, Alex Kellar notou em um dos relatórios do MI5, “estes terroristas são cascas grossas, e não é fácil fazê-los falar.” Para complicar ainda mais, eles frequentemente faziam uso de identidades falsas e disfarces. Agentes femininas usavam penteados para mudar sua aparência, enquanto que agentes masculinos costumavam vestirem-se de  mulheres para enganar as patrulhas de segurança.

Menachem Begin era conhecido por viajar sob vários pseudônimos, e após o atentado do King David Hotel ele conseguiu enganar a polícia palestina e a recompensa por sua cabeça por meio de uma série de disfarces inteligentes. Em novembro de 1946, a polícia palestina produziu relatórios alarmantes que ele poderia estar viajando incógnito para a Grã-Bretanha. Então,  no início de 1947, o alarme atingiu o máximo quando o SIS enviou um relatório ao MI5 alertando que Begin poderia ter feito uma cirurgia plástica para mudar sua aparência, apesar do relatório concluir causticamente que “não temos nenhuma descrição da nova face.” A estória logo vazou para a imprensa, com o News Chronicle colocando em primeira página “Palestina caça uma Face Nova” e sarcasticamente notando que apesar de Begin poder ter alterado sua aparência, “era provável que os pés chatos e os dentes ruins tenham permanecido.” Como poderia se supor, os relatórios sobre a cirurgia plástica de Begin eram incorretos: eles foram causados por confusão dentro da Polícia Palestina (CID) ao comparar fotos dele. Begin, na verdade, não havia deixado a Palestina, mas deixara crescer uma barba e disfarçou-se como rabino, iludindo a polícia local ao se esconder em um compartimento secreto na casa de um amigo em Jerusalém. Quando ele concordou dar uma entrevista secreta ao autor Arthur Koestler, ele o fez em um quarto sombrio: Koestler tentou inutilmente contar com a ajuda de cigarros, tentado gerar fumaça suficiente para conseguir um visão instantânea da aparência de Begin.

A situação ficou mais alarmante para o MI5 pelo fato de que membros do Irgun e da Gangue Stern haviam servido nas forças britânicas durante a guerra. Por ironia do destino, alguns deles foram treinados pela agência de sabotagem de guerra, SOE, e seus serviços de inteligência estrangeiros, SIS, enquanto serviam na unidade de elite dos comandos Palmach da organização paramilitar judaica, a Haganah. Assim como antigos membros de outros grupos guerrilheiros que os britânicos armaram durante a guerra, como as forças comunistas na Malásia, o Irgun e a Gangue Stern usaram seu treinamento em explosivos e outras técnicas paramilitares contra seus antigos mestres. Relatórios chegando às mesas do MI5 durante o verão de 1946 alertavam que os combatentes do Igurn e da Gangue Stern poderiam ainda estar servindo no Exército britânico e planejavam usar isto como cobertura para viajar à Grã-Bretanha. O MI5 teve que enfrentar assim a possibilidade real de que terroristas poderiam chegar à Grã-Bretanha vestindo uniformes nacionais.

Com estes relatórios surpreendentes chegando a seus escritórios em Londres, o MI5 adotou uma série de medidas para prevenir a extensão do terrorismo sionista da Palestina até a Grã-Bretanha. Estas medidas deixaram poucos traços dentro dos registros oficiais previamente liberados para domínio público, mas como podemos ver agora a partir dos próprios registros do MI5, elas eram frequentemente bem elaboradas. A linha de frente de sua defesa contraterrorista era o que foi chamado de “segurança pessoal”, que envolvia fazer verificações de histórico e avaliação de pedidos de entrada na Grã-Bretanha. Sob a recomendação do MI5, todos os pedisod de visto de entrada feita por indivíduos judeus do Oriente Médio eram imediatamente repassados ao MI5 para verificação em relação aos registros antes da permissão de entrada. O MI5 também conduziu uma série de verificações de histórico em seus registros de aproximadamente 7.000 militares judeus incorporados às forças armadas britânicas. Isto levou à identificação de 40 pessoas com suspeita de possuírem simpatias extremistas, 25 dos quais foram desligados das forças armadas. As medidas de segurança do MI5 também envolveram inspeções rígidas em portos e outros pontos de entrada para o reino Unido, para cada um dos quais o MI5 compilou e distribuiu um “Catálogo de Terroristas”, enquanto a Scotland Yard fornecia proteção a muitas figuras públicas e políticas e aumentava a presença na guarda do Palácio de Buckingham.  Em outubro de 1947, um oficial da polícia palestina, CID, Major John O´Sullivan, viajou para Londres e foreneceu ao MI5 fotografias em microfilme de suspeitos terroristas que foram adicionados ao catálogo. Algumas dessas fotos são guardadas hoje com zelo e orgulho por alguns ex-membros do Irgun e da Gangue Stern.

Simultaneamente a estas medidas de “segurança pessoal”, que foram elaboradas para frustrar a entrada de terroristas ou simpatizantes na Grã-Bretanha, o MI5 partiu para a vigilância intensiva de grupos políticos sionistas extremistas e indivíduos suspeitos. Sua lógica por trás disso era que os agentes da Irgun e da Gangue Stern que ganharam entrada na Grã-Bretanha fariam em algum momento contato com estas organizações ou indivíduos, e portanto expor suas atividades poderia fornecer elementos cruciais para rastreá-los. O MI5 também presumiu que os agentes fariam contato com elementos da comunidade judaica na Grã-Bretanha. Estas hipóteses mais tarde se provaram corretas.

Para investigar grupos e indivíduos sionistas na Grã-Bretanha, o MI5 usou o repertório completo de técnicas investigativas ao seu dispor. No coração de suas investigações estava a Garantia de Acesso Oficial[1] (GAO), que permitia interceptação de correspondência e grampos telefônicos. Nos anos do pós-guerra, o MI5 impôs GAOs em todos os principais corpos políticos sionistas na Grã-Bretanha: a Agência Judaica para a Palestina, a Legião Judaica, a Legião Árabe-Judaica, a Federação Sionista do Trabalho Judaico e a Organização Juvenil “Revisionista” Sionista[2]. A última delas, em particular, provocou um certo alarmismo no MI5. Alguns de seus membros frequentavam clubes judeus na região norte de Londres com discursos inflamados contra os britânicos, fundindo religião com política. Outra fonte de preocupação era o Luta Judaica, uma publicação “revisionista” sionista publicada em Londres que frequentemente publicava propaganda extremista do Irgun na Palestina, tipicamente denunciando os britânicos como “nazistas” e defendendo o uso da violência. O medo do MI5 era que o Luta Judaica agisse como fonte de recrutamento para futuros terroristas na Grã-Bretanha. EM dezembro de 1946, Alex Kellar e o conselheiro jurídico do MI5, Bernard Hill, encontraram-se com o diretor de promotoria pública e decidiram que, apesar da evidente falta de provas em processar, eles alertariam oficialmente os editores do Luta Judaica que se eles continuassem a publicar material do Irgun, o periódico seria fechado. O jornal aparentemente parou de publicar tal material logo depois.

Outra grande fonte de inteligência contraterrorista do MI5 nos anos de pós-guerra eram grupos sionistas e judeus moderados, tanto na Palestina quanto na Grã-Bretanha. Isso estabeleceu ligações próximas com o corpo oficialmente responsável pela representação dos desejos sionistas em relação ao governo britânico, a Agência Judaica. De fato, a política do MI5 em relação a Agência Judaica era ambígua: ele cooperava com ela, mas ao mesmo tempo a mantinha sob estrita vigilância, grampeando telefones e violando correspondências em seu quartel-general em Londres mesmo quando a Agência Judaica mantinha contato com seus funcionários. A razão para isto é que, apesar do MI5 confiar nos agentes de segurança da agência, ele suspeitava que seu grande staff e membros poderiam abrigar simpatizantes do Irgun e da Gangue Stern. A voluntariedade da agência em fornecer aos britânicos informações sobre o Irgun e a Gangue Stern revela a extensão na qual as atividades daqueles grupos não eram apoiadas pela maioria da população judaica na palestina – e isto, deve ser notado, não tem paralelo no terrorismo árabe e islâmico atual. O atentado ao King David Hotel conduziu o Movimento de Resistência Hebraico, que foi forjado entre o Haganah, o Irgun e a Gangue Stern a um fim. A operação de atentado do Irgun não foi aprovada pelo Haganah, e após julho de 1946, este último começou a fornecer aos britânicos informações sobre o Irgun e a Gangue Stern e ajudou o pessoal de segurança britânico a caçá-los.

Na própria Palestina, o oficial de ligações do MI5 estacionado em Jerusalém nos anos do pós-guerra, Henry Hunloke, um antigo deputado conservador, manteve contatos próximos com funcionários da Agência Judaica e coligiu informações valiosas deles, por exemplo, sobre terroristas suspeitos entrando ou saindo clandestinamente da palestina. Um dos funcionários da Agência de quem tanto o MI5 quanto o SIS (MI6) receberam inteligência contraterrorista foi Reuven Zislani, que trabalhou no departamento de inteligência estrangeira da Agência Judaica. Após 1948, Zislani mudou seu nome para Reuven Shiloah e tornou-se o primeiro chefe do serviço de inteligência estrangeira de Israel, o Mossad.

Em seus esforços para estabelecer contatos com funcionários da Agência Judaica na Grã-Bretanha, o MI5 usou uma série de intermediários. Apesar da documentação tornada pública estar presentemente incompleta, parece provável que o representante da Agência Judaica que encontrou o intermediário do MI5 foi Teddy Kollek, mais tarde um prefeito popular de Jerusalém, que durante a guerra tornou-se o vice-chefe do departamento de inteligência da Agência Judaica. Kollek é conhecido por ter fornecido ao MI5 inteligência contraterrorista na Palestina: por exemplo, em agosto de 1945 ele revelou a localização de um campo de treinamento secreto do Irgun próximo a Binyamina e disse a um funcionário do MI5 que “seria uma grande ideia atacar o local.” A informação que ele forneceu resultou na prisão de 27 combatentes do Irgun, incluindo o pai de um futuro ministro israelense.

Alguns dos encontros mantidos em março de 1947 entre o funcionário da Agência Judaica – provavelmente Kollek – e o intermediário do MI5, conhecido nos registros desclassificados pelo seu codinome, Escorpião, aconteceram nos restaurantes mais luxuosos de Londres. Um deles foi regado a uma refeição abundante de “ostras, pato e pequenos potes de creme de chocolate,” enquanto outro teve gim e “rosbife vermelho.” Os encontros produziram alguma inteligência sobre os combatentes do Irgun e da Gangue Stern suspeitos de estarem deixando a Palestina, cujos nomes o MI5 colocou em “listas de verificação” em portos e aeroportos britânicos. Apesar do valor desta informação, um funcionário do MI5 não poderia ajudar notando que sua boca começou a salivar quando ele leu os relatórios de Escorpião. Acima de tudo, esta era uma época quando na Grã-Bretanha austera, o racionamento de pão acontecia diariamente.

À medida que a ameaça terrorista intensificou-se, o MI5 tornou-se gradativamente preocupado com o apoio mostrado por grupos estrangeiros, e mesmo potências estrangeiras, ao Irgun e a Gangue Stern. Não exigiu muito trabalho de detetive para o MI5 descobrir que os dois grupos estavam recebendo apoio técnico do IRA. Um líder judaico do IRA, Robert Briscoe, que também foi membro do parlamento irlandês, um sionista “revisionista” e futuro prefeito de Dublin, era conhecido do MI5 por seu apoio ao Irgun, e em suas memórias ele lembrou que os ajudava da forma como ele podia. Briscoe, que em suas próprias palavras “teria feito negócios com Hitler se isso fosse bom para a Irlanda,” fez várias viagens à Grã-Bretanha antes da guerra e encontrou representantes do Irgun lá. Ele escreveu em suas memórias que ele nomeou-se “Professor com Doutorado em Atividades Subversivas contra a Inglaterra,” e ajudou o Irgun a organizar-se na linha do IRA. No sentido de aumentar a informação sobre a cooperação entre o IRA, o Irgun e a Gangue Stern, em outubro de 1947 o MI5 despachou um funcionário e um oficial da polícia palestina, o Major J. O´Sullivan, temporariamente de Londres para atualizar o MI5 sobre terrorismo sionista para Dublin. Eles contectaram-se com o CID irlandês, que manteve Briscoe sob vigilância e repassou suas informações ao MI5.

O ex-rabino chefe da Irlanda, Isaac Herzog, também era um simpatizante público da república irlandesa e do terrorismo sionista. Após sua emigração para a Palestina em 1936, Herzog ascendeu para a mais importante posição no mundo religioso judeu, o rabinato da Palestina. O DSO do MI5 na Palestina e a polícia palestina aparentemente mantiveram vigilância sobre as atividades do rabino Herzog. De uma forma que abranda as tensões que existiam entre moderados e extremistas tanto na Palestina quanto na Irlanda, um dos filhos de Herzog, Chaim, desaprovou o apoio de seu pai ao terrorismo. Em contraste gritante com seu pai, Chaim Herzog seviu na inteligência militar britânica no Dia-D, continuou ao ajudar a criar a comunidade de inteligência israelense e eventualmente tornou-se presidente de Israel.

A postura adotada pelo governo americano em relação à Palestina, e em particular a posição dos judeus americanos, algumas vezes tornaram difíceis para o MI5 obter cooperação das autoridades americanas sobre o terrorismo sionista. O apoio claro mostrado pelos EUA em relação às aspirações sionistas foi um dos muitos fatores que levaram o governo britânico em fevereiro de 1947 em colocar toda a questão da Palestina nas mãos das Nações Unidas.  Mais especificamente, o MI5 sabia que alguns grupos sionistas extremistas operando nos Estados Unidos, tais como o “Grupo Bergson” e o “Comitê Hebraico para a Libertação da Palestina” estavam levantando fundos e apoio logístico para o Irgun e a Gangue Stern, com explosivos e munição algumas vezes despachados como alimentos da Grã-Bretanha. O MI5 estabeleceu  uma relação útil de trabalho com a inteligência militar americana (G-2) nas zonas ocupadas da Europa para a migração judaica clandestina para a Palestina e terrorismo sionista, mas em geral a relação entre as inteligências britânica e americana em relação ao sionismo era difícil. Em março de 1948, a mais alta instância da comunidade de inteligência britânica, o Comitê da Junta de Inteligência, notou que seus relatórios sobre a Palestina seriam inevitavelmente controversos em Washington, e deveriam somente ser dados ao diretor da CIA em pessoa, e não deixados com ele. Também foi aconselhado que outros relatórios de inteligência britânicos sobre assuntos sionistas deveriam ser censurados antes que fossem repassados às autoridades americanas. Enquanto isso, a Operação Ouro, conduzida pela inteligência da Marinha americana, estava interceptando comunicação via cabo de combatentes judeus, mas isto não foi compartilhado com os britânicos e nem divulgado em Washington.

Um dos poucos caminhos nos quais o MI5 era capaz de receber cooperação do FBI sobre assuntos sionistas era provocando muitas conexões sionistas proeminentes com o comunismo e a União Soviética. O MI5 acreditava que muitos membros do Irgun e da Gangue Stern tinham chegado à Palestina com a ajuda da inteligência soviética. Menachem Begin e Nathan Friedman-Yellin, um líder da Gangue Stern, eram ambos poloneses de nascimento e o MI5 acertadamente suspeitava que os soviéticos ajudaram-nos a “escapar” para a Palestina durante a guerra. Muitos líderes sionistas defendiam a cooperação com a União Soviética, incluindo o chefe da “segurança” para a Agência Judaica na Palestina, Moshe Sneh, que estava ciente do – senão completamente envolvido – planejamento do atentado do King David Hotel. As suspeitas do MI5 foram confirmadas por pesquisa subsequente, que mostra que em muitas ocasiões a Gangue Stern apelou a Moscou por ajuda.

Isto torna o envolvimento do notório espião soviético Kim Philby nas investigações do SIS sobre o terrorismo sionista muito mais interessantes. Philby – agente de Moscou de longa data nos serviços de inteligência britânicos – era, na época, o chefe da seção IX no SIS, a contrainteligência soviética. A posição garantiu-lhe um interesse legítimo no Oriente Médio – um interesse que ele provavelmente também sentia por causa de seu pai, o notório arabista, Harry St John Philby. Durante a guerra, St John Philby tinha tentado sem sucesso negociar um acordo de partilha da Palestina, o chamado Plano Philby. A agenda manipuladora de Kim Philby nas investigações sionistas do SIS é difícil de determinar. Em 9 de julho de 1946, o SIS circulou um relatório em Whitehall aconselhando que o Irgun estava planejando realizar “ações criminosas” contra a missão diplomática britânica em Beirute. Quase certamente este era um alerta falso do atentado do King David, que ocorreu duas semanas depois. Foi Philby que circulou o documento. Ele tinha menos motivação em sabotar as investigações britânicas sobre o terrorismo sionista, contudo, ele o fez em outras áreas. Ele indubitavelmente teria secretamente festejado a campanha terrorista realizada no território britânico da Palestina  já que abalava o império britânico, mas quando ele estava trabalhando com assuntos sionistas para o SIS – e por extensão para a KGB – imediatamente após a guerra, a política da União soviética em relação a Palestina ainda não havia cristalizado. Moscou inicialmente apoiou a criação do Estado de Israel, esperando que ele seria um estorvo no lado do Ocidente “imperialista”, e a União Soviética foi o primeiro país no mundo a reconhecer Israel quando ele foi estabelecido em maio de 1948. Contudo, Stalin calculou mal: nos anos seguintes, Israel construiu uma relação especial com os EUA, e não com a União Soviética, e Stalin gastou seus anos finais antes de sua morte em 1953 consumido por teorias conspiratórias antissemitas. Por volta desta época, Philby já não trabalhava mais com assuntos sionistas para o SIS e, portanto, também não para a KGB. Na ausência dos ainda fechados arquivos da KGB, o papel preciso de Philby em assuntos sionistas deve permanecer uma questão de especulação. Mesmo assim, Moscou certamente teria ficado interessado em aprender, por ele, que Londres suspeitava do envolvimento soviético no terrorismo sionista.

Junto com suas operações contraterroristas na Grã-Bretanha, nos anos imediatos do pós-guerra, os serviços de inteligência da Grã-Bretanha também estavam avaliando e contendo imigração judaica “ilegal” para a Palestina. De fato, o MI5 e o SIS ajudaram a formatar a resposta do governo britânico a esta imigração. Em 1939, um sistema de cota foi estabelecido o qual limitava o número de imigrantes judeus para a Palestina em 7.500 por ano. A imigração acima deste número era classificada como “ilegal” pelo governo britânico. Então, como agora, “imigração ilegal” era um termo carregado por controvérsia, e um debate acalorado sobre ele atingiu políticos sionistas e o governo britânico. O papel do MI5 nele não era para debater os aspectos morais e legais da imigração judaica para a Palestina, mas produzir avaliações desapaixonadas para Whitehall sobre suas implicações de segurança.

A avaliação geral do MI5 era que a imigração em massa de judeus para a Palestina provocaria certamente uma guerra civil entre árabes e judeus, como já havia acontecido durante a “Revolta Árabe” nos anos 1930. A política principal elaborada pelas autoridades britânicas para prevenir imigração “ilegal” era interceptar navios de refugiados. Centros de detenção foram estabelecidos em Chipre para abrigar os refugiados interceptados, que eram então permitidos entrar na Palestina  através do sistema de cotas. Isto foi, porém, outro desastre de relações públicas para o governo britânico, cujos críticos o acusaram de estabelecer “campos de concentração ao estilo nazista”. Os britânicos também deportaram alguns combatentes do irgun e do Stern para centros de detenção na Eritréia, que novamente atraiu reclamações que eles não eram melhores do que os nazistas. Tais críticas algumas vezes vinham de fontes surpreendentes, não menos importante que o secretário adjunto no Departamento Colonial, Trafford Smith, que privadamente detalhou sua frustração:

A verdade real para a qual nós firmemente fechamos nossos olhos é que neste negócio de detenção emergencial estamos copiando os nazistas, seguindo o erro familiar de que os fins justificam os meios (especialmente quando os meios servem a conveniência atual). Estamos longe de suprimir o terrorismo, e porque não encontramos nenhum meio melhor criamos medidas que são intrinsecamente erradas, e que, desde que sua consequência é evidente para o mundo todo, deixa-nos expostos a críticas justificáveis e não respondidas.

Ao invés de buscar medidas mal concebidas e contraproducentes de deportação e detenção de refugiados judeus, o MI5 aconselhou o Gabinete e os chefes de departamento a concentrar seus esforços em prevenir a imigração “ilegal” “na fonte”. Com a ajuda do SIS, o MI5 identificou um número de companhias de transporte marítimo sulamericanas e gregas que alugavam navios para refugiados judeus, e o Departamento do Exterior era capaz de exercer pressão nestes governos para prevenir que as companhias se registrassem em seus países para praticar esse negócio. As operações parecem ter dado retorno. Um relatório do MI5 afirmou que em 1948 “somente 1 de cerca de 30 navios transportando imigrantes ilegais alcançou seu destino.”

Enquanto o MI5 fez avaliações e estava envolvido em medidas defensivas para conter migração ilimitada para a Palestina, outros serviços de inteligência britânicos tentaram ativamente subverter o fluxo de migrantes. Em fevereiro de 1947, o SIS conduziu uma operação, apropriadamente chamada de Embaraço, para a “ação de direção”. Uma pequena equipe, a maioria formada de antigos membros do SOE, foi recrutada para instalar minas em navios de refugiados e desabilitá-los antes que pudessem levantar âncoras. No verão de 1947, a equipe desabilitou cinco navios em portos italianos – tendo verificado que não havia ninguém a bordo. Mesmo assim, se a Operação Embaraço tivesse se tornado pública, o fato dos agentes do SIS estarem carregando minas em navios transportando sobreviventes do Holocausto teria sido desastroso para o governo britânico.

A Operação Embaraço não parou por aí. Quando algumas das minas foram descobertas, o SIS culpou um grupo de oposição árabe fictício, “Defensores da Palestina Árabe” e, então, o governo soviético. Ela conseguiu máquinas de datilografar que eram usadas por grupos árabes dissidentes  e autoridades soviéticas, e as usou para datilografar cartas implicando os dois grupos, que foram então convenientemente vazadas em Whitehall. Em um movimento posterior, o SIS fez parecer que o governo britânico estava usando o tráfico de refugiados judeus para conseguir tirar seus próprios agentes da Europa, esperando assim fazer com que os soviéticos bloqueassem o fluxo de migrantes para a Palestina. O SIS, portanto, tentou enganar não somente refugiados judeus, grupos de oposição árabes e o governo soviético, mas o próprio governo britânico. Isto realmente foi coisa para iludir e enganar. A política britânica de limitar a imigração judaica para a Palestina, tanto pública quanto a secreta, foi marcada por controvérsia e ressentimento. Foi, contudo, sintomática de um problema mais profundo que corroeu o poder britânico na Palestina: a Grã-Bretanha enfrentou uma série de exigências contraditórias em relação ao futuro do território – de judeus, árabes e da opinião mundial em geral. No início de 1946, um comitê anglo-americano de pesquisa foi apontado para encontrar uma solução na Palestina, mas apesar dos melhores esforços de seus membros, que  em abril de 1946 recomendaram que um compromisso fosse encontrado de modo que os judeus não dominassem os árabes na Palestina, nem os árabes dominassem os judeus, as descobertas do comitê não foram aceitas por nenhuma das partes. Em setembro de de 1947, o JIC em Londres estava apresentando um quadro sombrio para o governo britânico em relação ao futuro do território, concluindo que qualquer solução seria inaceitável tanto para judeus quanto para árabes. A Grã-Bretanha encontrou-se na situação que tornou-se rapidamente ingovernável. Em 1947, 100.000 soldados – um décimo de toda a força militar de todo império britânico – foi deslocada para a Palestina, um encargo financeiro que Londres não poderia suportar.        
           
Nota:

[1] Em inglês, Home Office Warrants.

[2] O Sionismo Revisionista é uma facção do movimento sionista que prega o direito não-religioso dos judeus a Israel (Eretz Yisrael) e à criação de um Estado judaico com população predominantemente judaica em ambos os lados do Rio Jordão. O movimento foi criado em 1925 pelo intelectual judeu russo Ze´ev Jabotinsky. As ideias do sionismo revisionista estão hoje representadas pelo partido Likud.