quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

[HOL] Israelense resgata história de futebol e propaganda em Theresienstadt

Deutschewelle, 28/01/2015


Oded Breda aponta para um pedaço amarelado de papel. Ele conhece essas linhas escritas quase de cor, são as anotações de um prisioneiro de 13 anos, que descreve no seu diário um jogo de futebol no campo de concentração de Theresienstadt, em 1944.

Só que esse não foi um jogo que se prestava à diversão, mas à propaganda nazista. A SS colocou prisioneiros saudáveis, com roupas limpas, nas primeiras fileiras dos assentos, bem perto das câmeras. Idosos e doentes foram escondidos. "Temos que ver a propaganda de forma crítica", diz Breda. "Caso contrário, o jogo parece um acampamento de verão."

Breda, um israelense de 60 anos, especialista em computação, é diretor da Beit Theresienstadt, a Casa Theresienstadt, um memorial em Givat Haim, um kibutz ao norte de Tel Aviv. A casa é inspirada nos muros angulosos da Fortaleza de Theresienstadt.

Breda caminha até a frente da sala e passa a mão sobre fotos emolduradas em preto e branco: são fotos daquele filme de propaganda. Nelas há prisioneiros aparentemente felizes na biblioteca ou na sáuna. Eles aparecem como escultores, músicos de orquestra, metalúrgicos. E como jogadores de futebol num pátio de quartel, cercados por milhares de espectadores. O filme se tornou um mito. Seu título não oficial: "O führer presenteia os judeus com uma cidade".

Uma das fotos mostra um homem jovem, loiro e forte. Ele entra no campo empoeirado de Theresienstadt, sua camisa branca tem, bordada, uma estrela amarela. "Esta foto me tira o sono", diz Breda. A imagem é do seu tio Pavel. Sorrindo.

O pai dele, Moshe, foi um dos poucos membros da família que conseguiram escapar para a Palestina, em 1939. Breda perguntou a ele o que havia acontecido com o tio Pavel em Theresienstadt, mas não obteve resposta. Um dia, Breda não aguentou mais, largou o emprego e se dedicou à pesquisa sobre Theresienstadt, sua família, suas raízes. E – o que no início jamais imaginaria – sobre jogos de futebol no campo de concentração.

Campo "modelo"

Os nazistas usaram Theresienstadt, perto de Praga, como um campo de trânsito, antes de os prisioneiros serem enviados para os campos de extermínio, como Auschwitz. No final de 1943, 450 judeus foram deportados para lá, vindos da Dinamarca. O governo dinamarquês fez questão que inspetores avaliassem o local. Antes disso, os presos tiveram que renovar as casas.

Em 23 de junho de 1944, uma delegação da Cruz Vermelha Internacional visitou o gueto, e foi ludibriada pelas "medidas de embelezamento". O comandante do campo ordenou que fosse feito um filme de propaganda, mostrando os internos trabalhando em jardinagem, famílias jogando cartas e um jogo de futebol entre os trabalhadores da "câmara de roupas" e da "assistência à juventude". A maioria dos jogadores e espectadores morreu algumas semanas mais tarde em Auschwitz. Das 157 mil pessoas que passaram por Theresienstadt, só 4 mil sobreviveram.

As imagens do filme nem sempre são nítidas. Assim, por muito tempo, Breda não teve certeza se seu tio Pavel havia participado no jogo. Breda pesquisou em Brünn e Praga, em arquivos e sinagogas. Oito anos atrás, visitou a Casa Theresienstadt, construída pelos sobreviventes na década de 1970.

Lá conheceu Peter Erben, o último daqueles jogadores de futebol ainda vivo. Erben, com 94 anos, confirmou que Pavel participara da partida, jogando no time da "assistência à juventude". Quatro semanas depois da filmagem, Pavel foi enviado a Auschwitz, onde morreu de inanição, aos 20 anos.

Breda coletou notas, desenhos, memórias e rascunhos de planos de jogos. Com amigos, reconstruiu a Liga Terezin: no pátio do quartel, no chamado "Barracão de Dresden", foram realizados, entre 1942 e 1944, dezenas de jogos. As equipes eram divididas conforme as profissões dos internos: cozinheiros contra eletricistas, jardineiros contra alfaiates. Outros jogadores quiseram prestar homenagem a seus times favoritos, unindo-se em equipes, chamadas Fortuna Colônia ou Fortuna Viena. "O futebol proporcionava um pouco de solidariedade", diz Breda.

Novas maneiras de transmitir a história

Há seis anos, Breda inaugurou a exposição Liga Terezin, como sala para juventude do memorial em Givat Haim. Todo outono é realizado um torneio em memória da época, em que jovens jogam vestidos com reproduções das camisas das equipes do campo de concentração.

"A geração mais jovem vive numa sociedade de bem-estar, e refletir sobre o Holocausto é, muitas vezes, encarado como uma tarefa obrigatória para eles", diz Breda, acrescentando que, através do futebol, ele pode falar para jovens que não alcançaria de outra forma.

Breda produziu um filme de 50 minutos, em cooperação com os jornalistas Mike Schwartz e Avi Kanner. Breda e Schwartz vão exibir a obra a partir desta segunda-feira (26/01) em sete cidades alemãs, 70 anos depois da libertação de Auschwitz, incluindo Berlim, Munique e Stuttgart.

Segundo estimativas, vivem ainda 350 mil sobreviventes do Holocausto. Essa geração provavelmente não existirá dentro de 15 anos. Por isso, museus e memoriais precisam pensar em novas maneiras de transmitir a história. Breda quer resgatar velhos exemplos através do futebol.

Pavel Mahrer, por exemplo, participou dos Jogos Olímpicos de 1924 pela Tchecoslováquia. Ele jogou nos Estados Unidos e, durante a crise econômica, foi para a Europa. Mahrer foi deportado para Theresienstadt, onde jogou pela equipe dos açougueiros.

Quando Breda recebe os jovens em seu memorial, menciona não só o elevado número de mortes do Holocausto. Ele também conta histórias pessoais, como as de seu tio e de Pavel Mahrer.


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sábado, 10 de janeiro de 2015

O Pequeno Ditador da Áustria: Engelbert Dollfuss

A. D. Harvey

History Today, Vol. 59 nº 7 jul/2009




Em julho de 2009 foi lembrado o assassinato de Engelbert Dollfuss, um dos ditadores da Europa do século XX menos conhecidos, porém mais intrigantes. Em 25 de julho de 1934, menos de um mês após a “Noite das Longas Facas”, quando Hitler executou sumariamente a liderança das tropas de assalto que o ajudaram a chegar ao poder, grupos nazistas lançaram um golpe de estado na Áustria. Na região sul do país, a luta continuou por quase uma semana. Em Viena, os nazistas que invadiram os escritórios do Chanceler em Ballhausplatz se renderam poucas horas depois, mas não antes de Dollfuss, atingido com um tiro no peito nos primeiros minutos após a rebelião, ter sido permitido afogar-se em seu próprio sangue.

Engelbert Dollfuss tornou-se Chanceler da Áustria em maio de 1932, cinco meses após o seu quadragésimo aniversário, após servir por quase um ano como ministro da agricultura. Ele tinha uma maioria parlamentar de apenas um e, em outubro de 1932, ele reativou o Ato de Permissão de Economia de Guerra de 1917 de modo que ele poderia governar por decreto. Sempre mais interessado em reformas sociais do que na democracia, o primeiro decreto de Dollfuss sob o Ato de 1917 foi tornar os acionistas do maior banco da Áustria, o Creditanstalt, responsáveis pelas perdas do banco insolvente.

Em março de 1933, os três presidentes do Parlamento austríaco renunciaram para votar em uma divisão; foi percebido somente após suas renúncias que sem um presidente não havia nenhum método constitucional de conduzir as atividades parlamentares.

Dollfuss anunciou imediatamente que ele governaria sem parlamento e proibindo manifestações públicas. Em maio de 1933, ele uniu seu Partido Social Cristão e outros grupos nacionalistas com milícias organizadas de ex-combatentes conhecidas como Heimwehr, para criar a Frente Patriótica (Vaterländische Front). Ele também baniu o Partido Comunista. Em junho de 1933, ele baniu o Partido Nazista também. No núcleo de seu programa estava a manutenção da independência da república austríaca; os nazistas da Áustria exigiam a união com a Alemanha sob a liderança de Adolf Hitler. Talvez um tipo de rival no simbolismo para a suástica nazista, Dollfuss começo a promover o uso da “Cruz da Muleta”, ou “Cruz de Jerusalém” (Krückenkreuz) como símbolo nacional, uma cruz branca com pedaços transversais no final de cada braço, delineado em vermelho. As eleições locais foram canceladas e uma concordata foi assinada com o papado dando mais independência à hierarquia católica na Áustria. Em outubro de 1933, Dollfuss sobreviveu a uma tentativa de assassinato: um projétil de pistola que atingiu seu peito foi defletida por uma caixa de rapé em seu bolso, provocando somente um arranhão e uma contusão; um segundo projétil atingiu seu braço.

Bandeira fascista austríaca

Em fevereiro de 1934, um levante descoordenado de milícias socialistas em Linz, Steyr e Viena, em resposta à tomada de poder por Dollfuss, levou ao bombardeio com artilharia dos condomínios dos trabalhadores. Somente um par de canhões de pequeno diâmetro foi utilizado e cerca de seis insurgentes foram mortos com o bombardeio. Oito insurgentes foram julgados subsequentemente e executados por rebelião armada. Mas o espetáculo de um político de extrema direita que governava por decreto empregando artilharia contra lares e famílias de trabalhadores esquerdistas causou furor e terror nas capitais da Europa. O próximo passo de Dollfuss foi banir todos os partidos políticos na Áustria, exceto sua Frente Patriótica.

Apesar deste currículo pouco lisonjeiro, Dollfuss tinha pouco em comum com seus contemporâneos Mussolini e Hitler. Ele também diferia deles por ter uma origem social mais sombria e na trajetória de sua ascensão ao poder. Parte da lenda de Hitler e Mussolini era a humildade de suas origens; respeitáveis, mas na parte inferior da classe média baixa. Dollfuss era filho de um camponês. Diferentemente de Mussolini e Hitler, ele era adotado, criado em um lar cujo chefe da família não era seu pai. Trabalhador árduo, ao invés de estudante talentoso, ele foi educado em um Seminário e eventualmente foi para a Universidade de Viena para estudar teologia no sentido tornar-se padre. Achando-se mais interessado em estudos sociais, em 1914 Dollfuss voltou-se para o Direito. Ele também começou a lecionar em cursos noturnos voltados para operários. Então veio a Primeira Guerra Mundial. Com estatura insuficiente para o Exército, Dollfuss foi recusado para qualquer serviço militar por causa de sua fragilidade física, mas ele agora tornou-se um oficial do Landwehr (algo como Exército Territorial, com qualificações inferiores ao Exército regular). Ele acabou tornando-se um excelente oficial, foi condecorado oito vezes e, incomum para um oficial sem nenhuma experiência em combate, promovido a Tenente (Oberleutnant).

Após a guerra, ele terminou sua graduação em Direito (especializando-se em economia agrícola), continuando seus estudos por alguns meses em Berlim. Lá, ele conheceu a filha de um latifundiário alemão e a levou para Viena como sua noiva. Eles tiveram três filhos, o primeiro tendo falecido ainda na infância. Dollfuss conseguiu emprego na administração de agricultura em sua província natal da Áustria Baixa, tornando-se diretor da Câmara de Agricultura em 1927. Ele representou a república austríaca em congressos internacionais em Roma em 1928 e em Bucareste em 1929. Sua reputação crescente levou à sua indicação como presidente do Departamento Ferroviário em outubro de 1930 e como Ministro da Agricultura no governo federal cinco meses depois. Um autodidata intelectual como Hitler, pintor e bibliófilo, e Mussolini, o jornalista, sua ascensão profissional foi de uma origem pouco promissora até uma carreira mais distintamente convencional.

A Áustria foi uma das nações mais traumatizadas pela Primeira Guerra Mundial. Em 1914, ela representava o núcleo de um império multicultural, indo de umas poucas centenas de quilômetros da fronteira com a França até bem no interior do Leste Europeu onde hoje é a Ucrânia. O desmembramento do Império Habsburgo separou as províncias que se tornaram a república austríaca da Boêmia, a principal região industrial do antigo império e da Hungria, uma principal fonte de alimentos. Viena, uma capital agitada com uma população de mais de dois milhões de habitantes, tornou-se uma metrópole sem interior, sem função e sem empregos suficientes para sua população.

Inicialmente, os austríacos, sendo alemães étnicos, esperavam a união com a Alemanha, mas isto foi vetado pela Grã-Bretanha, França e Itália, os vitoriosos da Europa na guerra. Um plebiscito extraoficial em Vorarlberg, a província mais ocidental, optou esmagadoramente pela união com a Suíça, mas o governo suíço recusou o resultado. Unidas somente pela língua, as províncias da Áustria tinham pouco espírito de identidade cultural. A cidade e província de Salzburgo não tinha sido território Habsburgo até o início do século XIX, tendo previamente sido um principado eclesiástico do Sacro Império Romano.

A nova nação foi criada, ou melhor imposta, nas circunstâncias econômicas e constitucionais pouco familiares da era pós-Primeira Guerra Mundial sob o acompanhamento de crises esporádicas de violência e banhos de sangue. Dollfuss foi um daqueles que lutaram para ajudar a construí-la. A realização da qual ele era mais orgulhoso como administrador agrícola na Áustria Baixa foi o estabelecimento de um esquema de seguro social para trabalhadores agrícolas, mas ele também planejou um aumento de 60% na produção de laticínios. Num certo sentiso, ele conseguiu ficar imune à política altamente polarizada da capital. Ernst Starhemberg, líder do Heimwehr de extrema direita, e logo um aliado-chave do Chanceler, mais tarde afirmou que ele encontrou-se com Dollfuss somente duas vezes antes de 1932.

A relação de Dollfuss com Starhemberg pode ser vista como típica ou mesmo como definidora de sua ditadura. Apesar dos títulos aristocráticos terem sido abolidos no início republicano da nova Áustria, Starhemberg era um príncipe, da mesma família de Ernst Starhemberg que comandou a defesa de Viena contra os turcos em 1683 e foi um dos homens mais ricos e com melhores conexões do país. Apesar de ter nascido somente em 1899, ele lutou nos estágios finais da Primeira Guerra Mundial, servindo, como Dollfuss, no front italiano. Em 1930, ele foi brevemente Ministro do Interior, mas renunciou após o Heimwehr ter conseguido apenas 6% dos votos nas eleições daquele ano. Tirando o fato de ser autoritário e antissocialista, ele tinha poucas convicções políticas firmes, havia flertado com a ideia de união com a Alemanha e, como deve ter sido óbvio pata Dollfuss, ele não era particularmente brilhante. Mesmo assim, estes dois homens logo estavam familiares um com o outro, usando seus nomes e a forma familiar “você” para se dirigir um ao outro que era normalmente empregada somente entre parentes e crianças na fase escolar. Dollfuss indubitavelmente via o Heimwehr como sendo útil ao regime, uma contraparte aos camisas negras de Mussolini e às tropas de assalto de Hitler. Ele foi ativo em desbaratar a revolta socialista em 1934 e foi em parte ao reconhecimento de sua lealdade que Starhemberg foi indicado vice-chanceler da república em maio daquele ano. No mesmo mês, foi promulgada a nova constituição na qual as eleições seriam na base de pertencer a sete estados ou setores econômicos, por exemplo, agricultura, indústria ou serviço público: na prática, um sistema que favorecia os patrões ao invés dos empregados. É fácil detectar um cálculo cínico na relação de Dollfuss com Starhemberg e em sua falsidade constitucional e é verdade que ele era um praticante da “arte do possível”, mas seus contemporâneos não o viam como cínico ou manipulador ou um viciado em poder. Dollfuss não era um tipo super-homem messiânico e magnético como Mussolini ou Hitler. Ele também era um tipo diferente de líder: aqueles que o conheciam afirmavam que ele era calmo, generoso, razoável, sincero que trilhou seu caminho não pela sua inteligência excepcional nem charme, mas por sua devoção ao seu país. Ele gostava de Starhemberg porque ele achava que o príncipe era parecido com ele.

Em quase todos os sentidos Dollfuss oferece um contraste com os outros ditadores. Hitler e Mussolini foram cabos na guerra, mas seus postos inferiores eram mais uma questão de um ligeiro suplemento para o seu pagamento do que responsabilidade, enquanto que Dollfuss consumiu quatro anos ordenando a homens que caminhassem para sua morte e liderando o caminho. Enquanto Hitler e Mussolini somente gostavam das pessoas que poderiam dominar, Dollfuss não se incomodava em conviver com pessoas de sua classe ou aqueles, como Starhemberg, supostamente superiores por nascimento. Diferentemente de Hitler, ele era casado e diferentemente de Mussolini ele era fiel à sua esposa. Em contraste com Hitler, um não-fumante, ele fumava 40 cigarros por dia. Mussolini, apoiando e projetando seu queixo com um narcisismo ridículo, proferindo suas banalidades com a idiotice de um gramofone com defeito, foi um dos oradores menos atraentes na história da política italiana. Hitler discursava com um sotaque regional forte que o fazia parecer à maioria dos alemães um comediante de palco e reforçava o efeito com linguagem corporal que parece se opor ao que é recomendado em qualquer livro sobre o assunto. Salazar em Portugal e Franco na Espanha tinham ambos vozes chiadas. Dollfuss parecia perfeitamente normal. Ele também tinha uma face juvenil e agradável e um corpo proporcionalmente perfeito[1].

Mas, apesar de sua fragilidade física, não havia nada de frágil em relação à figura política de Dollfuss. Ele era um Chanceler que havia sido um oficial do Exército, um homem decidido a fazer qualquer coisa que seu dever o exigisse. Ele falou abertamente ao adido britânico em Viena da “luta pela independência da Áustria na qual ele estava envolvido com a Alemanha de Hitler” e em 1934 havia a perspectiva que ele poderia consolidar de vez seu poder na Áustria e sobreviver às tentativas da agora ilegal organização nazista austríaca de forçar a união com a Alemanha. Hitler ainda estava fraco. Ele nem mesmo ousou enviar suas tropas ao distrito desmilitarizado da Renânia antes de 20 meses após a morte de Dollfuss e quando ele eventualmente anexou a Áustria, em 1938, o avanço triunfal do novo Exército alemão através da fronteira deixou em seu rastro uma ninhada de tanques quebrados e, em muitos casos, obsoletos.

Havia tanto antissemitismo na república austríaca quanto no inteiro Império Habsburgo – em outras palavras, muito. Dollfuss encontrou-se com poucos judeus, mas no seminário e entre os líderes camponeses da Baixa Áustria ele encontrou-se com muitos antissemitas desinformados. Apesar dele estar provavelmente ciente que a demissão de funcionários públicos conhecidos por serem socialistas estava sendo usada como um pretexto para dispensar judeus que não tinham nenhum tipo de conexão socialista, Dollfuss simplesmente não estava interessado em copiar o programa antissemita de Hitler. Houve menos quebra de vidros e violência na Áustria do que na Alemanha Nazista, mesmo se houvesse alguns tiroteios, e seria errado sugerir que o regime de Dollfuss poderia tornar-se mais duro à medida que o tempo passasse se ele achasse isso necessário. Foi a sua devoção ao Catolicismo assim como seu comprometimento com uma Áustria não dominada politicamente pela maioria protestante dos alemães da região norte que era a base da determinação de Dollfuss em manter seu país fora do controle de Hitler, mas seu catolicismo era uma religião de ordem, obrigação e disciplina, apesar  de ser tão autoritário quanto o Nacional Socialismo de Hitler. Segue-se, portanto, que foi precisamente porque ele era católico que ele não poderia ter abraçado a eugenia racial do Terceiro Reich.

Sua estratégia-chave para manter a independência da Áustria era aliança com outros regimes autoritários que pareciam não apoiar os desenvolvimentos políticos na Alemanha Nazista, especialmente a Itália e a Hungria. As semelhanças superficiais entre os regimes nazista e fascista da Itália não recomendavam neste estágio as atividades de Hitler a Mussolini – muito pelo contrário – e a Áustria era o único vizinho da Hungria contra o qual o governo húngaro não fazia exigências territoriais exorbitantes e inconsistentes.

Miklós Horthy, o Regente da Hungria (governante ou tirano seria uma tradução mais precisa) foi comandante da frota da Marinha de Guerra Austro-Húngara na Primeira Guerra Mundial e ainda aparecia em público com seu uniforme de almirante austríaco: sua casa estava cheia de relíquias dos Habsburgos e seus filhos brincavam com Starhemberg quando este ainda era uma criança. Horthy tinha uma atração sentimental com a Áustria que não era em geral compartilhada por seus compatriotas e muitos preferiam falar alemão ao invés do húngaro. As populações da Hungria, Áustria e Itália eram predominantemente católicas apesar de Mussolini ser ateu e detestar o papado, enquanto Horthy e seu virulento antissemita Primeiro Ministro Gyula Gömbös eram (na tradição dos heróis nacionais húngaros como Gabor Bethlen e Lajos Kossuth) protestantes. Não era o caso de regimes católicos autoritários aliando-se contra o nazismo, mas vizinhos mais fracos aliando-se contra a Alemanha. A aliança ítalo-húngara foi encerrada em um encontro em Roma em março de 1934.

Jamais saberemos como esta coalizão anti-Hitler teria funcionado se Dollfuss não fosse assassinado quatro meses depois. A condenação da Liga das Nações à invasão da Itália da Etiópia e o apoio militar mais tarde dado por Hitler e Mussolini a Franco na Guerra Civil Espanhola inevitavelmente colocou ambos como aliados. O antissemitismo de Gömbös (os judeus na Hungria não tinham o domínio no sistema bancário e nas profissões liberais como a propaganda nazista alardeava que eles tinham na Alemanha) conduziu-o gradativamente a favor de uma cooperação com os nazistas: Horthy, que ele havia ajudado a chegar ao poder em 1919, tinha-o como um extremista perigoso. Quando Gömbös morreu de insuficiência renal em uma clínica de Munique em outubro de 1936, Hitler seguiu o cortejo fúnebre até a estação ferroviária e enviou Göring, o número dois do regime então, representá-lo no funeral de Budapeste.                            
         
Dollfuss gostava de vestir deu uniforme do Landwehr com todas as suas medalhas, mas a Áustria tinha apenas um décimo da população da Alemanha e era a base industrial mais fraca de todas as nações da Europa Central e não havia como o país tornar-se forte militarmente para resistir a uma invasão alemã. Por outro lado, eventos que aconteceram nas mãos de Hitler de forma notável entre 1934 e 1938 e se Dollfuss ainda estivesse no poder talvez as coisas poderiam ter evoluído de forma diferente, pois Dollfuss, apesar das desvantagens de seu histórico e de sua psique de Tom Thumb[2], foi bem sucedido em tudo que tentou; Hitler não.

Hitler esperava que os nazistas pudessem avançar na Áustria nas eleições e com a indicação de simpatizantes aos ministérios no governo, mas Mussolini impediu isso quando eles se encontraram em Veneza em junho de 1934. Logo em seguida, Theodor Habicht, que apesar de ser alemão era o líder dos nazistas austríacos, informou Berlim que o Exército estava planejando um golpe de Estado e pediu permissão aos nazistas austríacos para participar. De fato, não havia nenhum golpe planejado, mas em 25 de julho de 1934 os nazistas austríacos vestiram uniformes militares e atacaram a Chancelaria em Viena. Os golpistas alcançaram Dollfuss quando este tentava fugir e um deles, Otto Planetta, um ex-soldado do regimento Landwehr de Dollfuss atirou duas vezes com uma pistola. Uma bala passou de raspão pela garganta de Dollfuss e a outra o atingiu no peito, alcançando a espinha e paralisando suas pernas. Ninguém mais foi ferido na Chancelaria e apesar dos golpistas terem rejeitado um pedido de ajuda a um médico ou padre, não houve nenhuma tentativa de um “tiro de misericórdia”. Eventualmente, dois policiais capturados foram liberados para prestar socorro médico. As últimas palavras de Dollfuss foram dirigidas a eles: “Companheiros, vocês são tão bons para mim, por que os outros não são como vocês? Eu queria apenas paz. Nunca ataquei; queríamos apenas nos defender. Que Deus os perdoe. Dê minhas lembranças a minha esposa e filhos.” Ele morreu logo após as 4 horas da tarde, cerca de três horas após ter sido atingido. Os nazistas que ocuparam a Chancelaria se renderam poucas horas depois.

Em Rabenstein na província meridional austríaca da Carintía, insurgentes nazistas resistiram até 30 de julho quando então fugiram em direção da fronteira com a Iugoslávia. Eventualmente, eles chegaram à Alemanha pelo mar. Habicht foi dispensado, com a aprovação de Hitler, apesar de mais tarde ele tornar-se prefeito de Wittenberg na Saxônia. Ele foi morto em ação enquanto comandava um batalhão na frente oriental em janeiro de 1944.

Notas:

[1] Mesmo Dollfuss sendo um ditador – no sentido correto da palavra – o autor do texto tenta neste trecho suavizar sua imagem, ao compará-lo com os “diabólicos” Hitler e Mussolini, dando a impressão dele ser um “bom tirano”. Caso tivesse se consolidado no poder, não há motivos para imaginar que Dollfuss não seguiria a cartilha de todo líder fascista da época, até porque na Áustria havia um antissemitismo latente. Franco também não escapa dos comentários irônicos, já que contou com a ajuda de Hitler e Mussolini na Guerra Civil Espanhola e permitiu que voluntários espanhóis combatessem ao lado dos alemães na campanha da Rússia. Essa é uma tendência normal nos textos relativos à Segunda Guerra Mundial, exagerar nos estereótipos, opondo os “bons” aos “maus”, no sentido de reforçar as qualidades dos primeiros e ridicularizar as características dos segundos. Qualquer um que se opusesse a Hitler é retratado de forma benevolente, mesmo sendo tão ruim quanto o primeiro, como foi o caso de Stalin e, caso mais emblemático, o de Dollfuss, que morreu assassinado por simpatizantes nazistas. Até Ernst Röhm, uma figura deplorável até dentro do partido nazista (sodomista e violento) tornou-se mártir em boa parte da bibliografia.

[2] Tom Thumb é um personagem dos quadrinhos da Marvel Comics. Ele é anão, inventor, cientista e aventureiro e apesar de possuir um grande nível de inteligência, não tem superpoderes.


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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

[POL] As Artes na Alemanha Nazista

Emerson Paubel


Em geral, a visão histórica da Alemanha de Weimar como um período de criatividade democrática e o Terceiro Reich como o de negação ditatorial é uma simplificação abusiva e deveria ser revisto, particularmente pelo fato de que estudos recentes fornecem um quadro mais complexo do período. Parece obvio que houve um elemento forte de continuidade nas artes entre a República de Weimar e o Terceiro Reich, mas a natureza desta continuidade é complexa, permeada de paradoxos e ambivalências. Havia grupos na República de Weimar que apoiavam o sistema parlamentar democrático, mas enfatizavam as formas e métodos tradicionais nas artes, os quais mais tarde foram reconhecidos oficialmente pelos nazistas, e eles certamente não podem ser considerados como simpatizantes nazistas. Havia líderes industriais e militares cujas ideias políticas eram de extrema direita, mas que defendiam e desenvolviam uma modernidade técnica em muitos aspectos de projetos: um aspecto de modernidade era absolutamente essencial ao programa de rearmamento do Terceiro Reich. Em 1937, por exemplo, uma grande exibição foi organizada em Düsseldorf sob o título de “Uma Nação Trabalhadora”. Ela foi planejada especificamente como um instrumento de publicidade e apoio de mobilização para o Plano Quadrienal. Ela concentrou-se em mostrar o potencial da tecnologia industrial moderna e muito da arquitetura e projeto era moderno tanto na técnica quanto na forma, por exemplo, na exibição de um objeto-chave do “movimento modernista” de design dos anos 1920: uma cadeira de balanço de aço tubular.

A partir dos anos 1960, os historiadores começaram a olhar com mais atenção à burocracia cultural nazista e, ao invés de encontrar evidência de controle restrito, foi descoberto o caos administrativo e inconsistências estéticas entre as ideias propostas e os desafios artísticos reais. Além disso, por muitos anos a maioria dos estudos das artes na Alemanha Nazista tendeu a focar principalmente na condenação dos perpetradores ou hagiografia[1] das vítimas, e uma fascinação com o kitsch[2], regressão, erotismo, monumentalidade e propaganda política ostensiva que supostamente representava a estética nazista dominante. Não foi somente nos anos 1990 que uma onda de exames críticos intensos sobre a administração cultural e instituições apareceu.

Por exemplo, uma vez que os acadêmicos deixaram de lado as ideias da inferioridade das artes nazistas, foi possível considerar onde as artes alemãs dos anos 1930 e 1940 obtiveram reconhecimento internacional e ter um novo olhar sobre as semelhanças entre as artes “nazistas” e as artes contemporâneas não-alemãs. O que, por exemplo, distingue a pintura “nazista” dos trabalhos atuais de Norman Rockwell ou a arquitetura “nazista” de estruturas neoclássicas erguidas na mesma época em Washington, D.C.? Como podemos explicar o fato de que o ícone da arte nazista, o quadro “Os Quatro Elementos”, pelo “mestre dos pelos pubianos” Adolf Ziegler, ganhou o Grand Prix de 1937 da Exibição Internacional em Paris, ou que o filme Olympia de Leni Riefensthal ganhou o prêmio do Festival Internacional de Veneza em 1938?

De fato, as percepções do pós-guerra da vida cultural no Terceiro Reich foram altamente influenciadas por argumentos apaixonados e constrangedores daqueles que foram levados ao exílio. Complementando as análises de Hannah Arendt da natureza do totalitarismo, estavam os comentários sobre a vida cultural alemã pela família Mann (a condenação de Thomas àqueles que ficaram na Alemanha e a peça de Heinrich Mephisto que retratava as barganhas do diretor de teatro Gustav Gründgen com Göring), a declaração de Theodor Adorno de que nenhuma poesia poderia ser escrita após Auschwitz e a formulação influente de Walter Benjamin de que o fascismo promoveu uma estetização da política. As forças de ocupação aliadas também contribuíram grandemente ao estabelecer padrões para futuros historiadores. O processo de denazificação dividiu os alemães nas categorias de culpados e inocentes, enquanto os adidos culturais aliados (muitos deles refugiados alemães) estavam tão convencidos da destruição da cultura que no final da guerra, funcionários americanos, comentando sobre a situação da música, concluíram que Hitler “conseguiu transformar o campo exuberante de criatividade musical em um deserto estéril,” que os músicos mais talentosos da Alemanha haviam deixado o país e que os compositores do Terceiro Reich produziram apenas trabalhos destinados “a ser eficientes psicologicamente para a causa nazista.” Em resposta, a elite cultural alemã se mexeu para se proteger – mesmo aqueles que trabalharam no Terceiro Reich – e construíram uma “hora zero”, reforçando a imagem de uma terra totalitária devastada culturalmente que se contrastava com a paisagem cultural florescente da nova Alemanha.

A Sociedade de Arte Alemã (DKV - Deutsche Kunstverein) era uma organização étnica que era mais estável e consistente em suas visões conservadoras extremas do que o Partido Nazista ou os administradores culturais. Desde o seu começo no início do século XX, sua fundadora e liderança carismática Bettina Feistel-Rohdmeier, consolidou a agenta xenófoba, antimoderna e antissemita ao alvejar os impressionistas franceses e o Secessionista (e judeu) Max Liebermann. Apesar de todos os artistas sofrerem com as vicitudes econômicas dos anos 1920, o DKV conseguiu exagerar o apelo dos tradicionalistas “alemães verdadeiros” e, por meio de seu serviço de notícias bem distribuído e alianças estratégicas com organizações étnicas poderosas (e finalmente o partido nazista), conseguiu tornar-se uma entitade pequena, porém formidável. Talvez, seu maior impacto tenha sido a ideia original de Feistel-Rohdmeier em 1933 de eliminar das galerias de arte os trabalhos modernistas, exibindo-os em uma “câmara de horrores” no sentido de educar o público de injustiças passadas contra a arte alemã, apresentando a quantidade de dólares usada para comprar tais trabalhos e fazendo uso delas como “gravetos para aquecimento de prédios públicos”. Muitas exibições semelhantes de “arte degenerada” aconteceram em muitos locais antes que a ideia fosse adotada pelo governo nazista na famosa exposição em Munique em 1937. O DKV atingiu o máximo da influência durante a época em que as visões nazistas da arte atingiram o pico da ambivalência. Com facções do partido promovendo os modernistas Barlach, Nolde, Heckel e Schmitt-Rottluff como expressionistas “nórdicos”, o DKV encontrou um aliado em Alfred Rosenberg, mas também foi castigada ao presumir conhecer mais do que o partido. Ironicamente, quando a guerra contra o modernismo foi finalmente vencida e os artistas modernistas foram levados à periferia, os gritos de guerra do DKV tornaram-se redundantes, e sua promoção de tradicionalistas provou ser muito conservadora para acomodar as direções desejadas para a futura arte alemã.

Poderíamos tratar Ernst Barlach como um caso interessante de uma “vítima” indisputada do Nacional Socialismo. É verdade que o trabalho de Barlach foi alvejado pelos censores do partido nazista: uma de suas esculturas e um livro de gravuras foram incluídos na exibição de “Arte Degenerada”; suas memórias de guerra – controversas por muitos anos antes de 1933 – foram vítimas de campanhas vingativas por parte de funcionários do partido nazista local; ele foi obrigado a renunciar da Academia Prussiana de Artes; e uma publicação de 1935 de seus desenhos foi confiscada pela polícia bávara. Porém, também é verdade que Goebbels foi um entusiasta de Barlach no passado, que Barlach promoveu seu próprio trabalho como arte alemã verdadeira a funcionários nazistas, que ele foi convidado para as cerimônias de abertura das Câmaras Culturais do Reich, que ele assinou uma petição apoiando a consolidação de Hitler no poder, que – diferentemente de outros modernistas – seus trabalhos confiscados foram devolvidos a ele, que quando morreu em 1938 um jornal da SS publicou um obituário respeitoso e que, finalmente, seus trabalhos foram reeditados durante o Terceiro Reich.

Os nacional socialistas em geral, e Hitler em particular, perseguiram uma política consistente para promover seus objetivos estéticos, mesmo quando a evidência é nebulosa. Hitler desprezava o modernismo e o expressionismo, mas ele não nunca tentou atingir os trabalhos expressionistas. Ao invés disso, ele, Von Schirach (líder da Juventude Hitlerista) e outros se esforçaram para definir o rumo da arte que tendia para uma “modernidade comedida”, rejeitando tanto o realismo fotográfico quanto o avant-garde, promovendo o particularismo nacional e se aproximando das ideias que prevaleciam bem antes da Primeira Guerra Mundial e não somente na Alemanha. As semelhanças entre o gosto alemão e as inclinações artísticas na Europa fizeram com que o historiador francês Pierre Ayçoberry parafraseasse uma observação de 1943 de um socialista inglês, “Este país não é uma caricatura de nossos próprios países?”

Por exemplo, uma nova visão revelada pelas pesquisas históricas é o interesse de Hitler pela arquitetura, revelando que o ditador estava bem mais envolvido na parte de projeto e planejamento do que Albert Speer afirmou em suas memórias e entrevistas, tendo conhecimento e gosto sofisticados. O internacionalismo do estilo neoclássico tipicamente classificado como “nazista” e o entusiasmo de Hitler pelos estilos e filosofia do Bauhaus[3] (e, consequentemente, os esforços dessa escola para consagrar-se no regime) faz com que Hitler seja classificado como um verdadeiro “modernista” em relação aos planos e execução das vias expressas (autobahn).   

A música foi comprovadamente a mais evasiva das artes, quando formas de supervisionar seus modos diversos e generalizados de produção estavam além da capacidade do controle político ou policial. Mesmo assim, os nazistas promoveram os trabalhos de compositores alemães como Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven, Anton Bruckner e Richard Wagner, enquanto baniam a apresentação de obras de compositores não-arianos, como Felix Mendelssohn e Gustav Mahler. O regime também disseminou canções populares étnicas e marchas militares para encorajar a doutrinação ideológica. No entanto, um dos mitos duradouros sobre Hitler é sua paixão completa somente pelos trabalhos do compositor Richard Wagner, e as supostas ligações entre os enredos das óperas de Wagner e a política de Hitler, e a interferência deste último com assuntos artísticos em Bayreuth. Na verdade, as afirmações da inspiração de Hitler a partir de Wagner tiveram origem principalmente na cabeça dos intelectuais alemães exilados (Thomas Mann, Emil Ludwig e Theodor Adorno), que Hitler era muito mais arrebatado pelo drama altamente emotivo de Tristão e Isolda do que pelas mensagens patrióticas de Die Meistersinger, e que a relação íntima de Hitler com a família de Wagner e o patrocínio do festival de Bayreuth de fato tornou-o “a única instituição cultural no Terceiro Reich independente do controle nazista.” As atividades amadoras em música espalharam-se além das igrejas e escolas; a Hausmusik prosperava na privacidade do lar e a tecnologia tornou o consumo de música um assunto exclusivamente privado, fora do alcance dos censores. Mesmo assim, as atitudes de Hitler em relação à música eram totalmente liberais e ele procurou não impor restrições estéticas aos compositores.

Frequentemente esquecido como entretenimento escapista ou demonizado como manipulação de massa, o cinema popular no Terceiro Reich foi de fato mantido por convenções genéricas bem estabelecidas, tradições culturais, sensibilidades estéticas, práticas sociais e um altamente desenvolvido sistema de estrelato – não muito diferente de sua contraparte de Hollywood nos anos 1930. O uso do filme como um método de propaganda é uma ferramenta poderosa, e foi usada eficientemente pelos nazistas. Dos filmes claramente políticos que tinham objetivos claros até filmes sutilmente artísticos que escondiam a mensagem atrás do entretenimento, toda a gama de gêneros e estilos pode ser encontrada nos mais de 1.000 filmes produzidos pelo regime nazista.

Apesar da aparente adoração de Goebbels por Hitler, e sua concordância em relação aos ideais básicos de boa propaganda (isto é, ser simples e repetida), o Ministro da propaganda e seu Führer tinham opiniões variadas sobre os métodos de usar o filme como propaganda. Hitler acreditava qie a propaganda somente era útil se o partido fosse pequeno e fraco como uma forma de aumentar a popularidade e, portanto, o poder. No Minha Luta, por exemplo, ele diz, “Se a propaganda impregnou um povo inteiro com uma ideia, a organização pode determinar as consequências com um punhado de homens.” Goebbels, por outro lado, via o uso da propaganda como algo mais abrangente. Ao invés de apenas ganhar apoio inicial ao partido antes da tomada do poder, ela poderia ser usada para manter entusiasmo constante para a causa nazista durante os tempos de paz e de guerra e para aniquilar qualquer resistência ao criar uma massa popular de cidadãos leais, que poderiam delatar dissidentes. Em “O Triunfo da Vontade”, por exemplo, um filme que registra a reunião do partido em 1934 na cidade de Nuremberg, Goebbels afirma incisivamente, “Que a flama brilhante de nosso entusiasmo jamais se extinga. Ela sozinha dá luz e calor para a arte criativa da moderna propaganda política.”

O próprio Hitler estrelou o filme que exaltava sua grandeza. “O Triunfo da Vontade”, dirigido pela cineasta Leni Riefenstahl, era um documentário e não fez questão nenhuma de esconder sai mensagem por meio da arte. Mesmo assim, foi uma obra criativa. As imagens mostradas neste filme são inquestionavelmente o que pensamos da Alemanha nazista do pré-guerra atualmente. A parada de seguidores saudando Hitler enquanto ele está em seu carro, as reuniões em massa de pessoas gritando “Sieg Heil!” continuamente enquanto Hitler e líderes partidários discursam, as apresentações da Frente de Trabalho e da Juventude Hitlerista, as águias expostas de forma proeminente para lembrar a glória da Roma Imperial e, talvez a parte mais dramática, a passagem messiânica do avião de Hitler sobre os céus nublados de Nuremberg, deixam o espectador hipnotizado pelo Führer e pelo Reich. Hitler é apresentado exatamente como ele queria ser visto, e nenhum outro filme foi feito sobre ele mais tarde.

A superioridade do corpo ariano é exemplificado no filme Olympia, que retrata as Olimpíadas de Verão em Berlim em 1936.  Como o auge da competição atlética, os Jogos Olímpicos foram a oportunidade ideal para os nazistas finalmente apresentarem o quão superior a raça ariana eram em comparação com as outras raças do mundo, e num certo sentido eles conseguiram isso, já que a Alemanha ganhou  mais medalhas aquele ano do que qualquer outro país. O filme, dirigido por Riefenstahl, tem quatro horas de duração e levou dois anos para ser concluído, sendo dividido em duas partes: o Festival da Beleza e o Festival da Nação. Olympia é um filme longo que procura mostrar o físico alemão como perfeição. Hitler acreditava piamente que a tribo dórica[4] dos antigos gregos deve ter emigrado originalmente do norte germânico e é óbvio que seu objetivo era retornar àquela suposta perfeição. Em uma ocasião, ele viu uma nadadora atraente e disse “Que corpos esplêndidos podemos ver hoje. É somente no nosso século que os jovens podem novamente se aproximar dos ideais helenísticos através dos esportes.”

A retratação dos bolchevistas no filme nazista era muito inconstante. Até antes do pacto de não-agressão com a União Soviética ser assinado, os nazistas retratavam os bolchevistas como sub-humanos (Untermensch). Após a assinatura do tratado, os russos eram mostrados sob uma luz mais simpática em filmes como “O Chefe dos Correios” e “Bismarck”. Os filmes anticomunistas voltaram à moda quando Hitler invadiu a Rússia em 1941. Por outro lado, os britânicos eram outro inimigo/aliado que eram retratados de forma prolífica. Antes da Segunda Guerra Mundial, os britânicos eram geralmente lembrados com respeito. Após a Grã-Bretanha declarar guerra à Alemanha em 1939, a representação do inglês médio mudou drasticamente. O filme antibritânico/antissemita “As Ações dos Rothschilds em Waterloo” descrevia uma conspiração judaica e o mito da “plutocracia britânica”. Este mito explicava que os plutocratas capitalistas malvados controlavam a Grã-Bretanha nos bastidores, e que estes homens fracos e facilmente controláveis eram influenciados pela judiaria internacional. O filme fala a respeito de uma família judia com tradição bancária (os Rothschilds) que, na mente dos nazistas, estavam controlando o mundo através das finanças internacionais.

Um breve olhar sobre os exemplos mais infames da produção e administração cultural nazistas pode nos deixar com a impressão que, consistente com as concepções dos anos imediatos do pós-guerra, as artes no Terceiro Reich eram controladas rigorosamente pelo Estado, artistas tinham que subscrever os princípios da ideologia nazista, Hitler interferia constantemente nas questões culturais e quaisquer produtos artísticos do Terceiro Reich eram necessariamente deturpados e inferiores. Pesquisas recentes desde os anos 1990 mudaram radicalmente alguns desses pontos de vista e colocaram a cultura nazista num contexto mais apropriado. Apesar destes avanços e as décadas de debate histórico que desmascararam os velhos paradigmas, muitas presunções ainda se mantêm firmes nas discussões sobre arte e seus criadores. A persistência dessas presunções especialmente nas artes pode ser explicada por uma série de considerações: a necessidade da comunidade artística, assim como do público em geral, de acreditar que, exceto alguns oportunistas desprezíveis, os artistas eram seres moralmente superiores e não colaborariam com um regime bárbaro, exceto se fossem forçados; a necessidade de criar um modelo antinazista de vida artística e cultural que serviria como um padrão de sofisticação desde o fim da guerra; a necessidade de um grande número de exilados em mostrar aos países que os acolheram de que eles eram diferentes dos nazistas e, acima de tudo, a necessidade de acreditar que nem artistas e suas respectivas artes poderiam prosperar em uma atmosfera de crimes, racismo, degradação, militarismo e demagogia.
                  
Notas:

[1] Hagiografia é um tipo de biografia que consiste na descrição da vida de algum santo, beato e servos de Deus proclamados por algumas igrejas cristãs, sobretudo pela Igreja Católica, pela sua vida e pela prática de virtudes heróicas.

[2] Kitsch [quitch] é um termo de origem alemã usualmente é empregado nos estudos de estética para designar uma categoria de objetos vulgares, baratos, de mau gosto, sentimentais, que copiam referências da cultura erudita sem critério e sem atingirem o nível de qualidade de seus modelos, e que se destinam ao consumo de massa.

[3] A Staatliches-Bauhaus foi uma escola de design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda na Alemanha. A Bauhaus foi uma das maiores e mais importantes expressões do que é chamado Modernismo no design e na arquitetura, sendo a primeira escola de design do mundo.

[4] Os dóricos (ou dórios) foram uma das três principais tribos em que os antigos gregos dividiam a si próprios, ao lado dos jônicos e eólicos. Os dóricos quase sempre são referenciados na literatura grega antiga apenas como "os dóricos"; a primeira menção feita a eles data da Odisseia onde eles são encontrados como habitantes da ilha de Creta. Os dóricos se distinguiam pelo seu dialeto dórico e por suas tradições sociais e históricas características. No século V a.C. os dóricos e os jônicos, representados respectivamente pelas cidades-Estado de Esparta e Atenas, eram as duas etnias mais importantes politicamente, e o conflito entre as duas levou à Guerra do Peloponeso.

Fontes:

Heskett , John . Art and Design in Nazi Germany. History Workshop, No. 6 (Outono, 1978), pp. 139-153.

Potter, Pamela M. The Arts in Nazi Germany: A Silent Debate. Contemporary European History, pp.585-599.

Goodell, Sean. Cinema as Propaganda during the Third Reich. Historia: the Alpha Rho Papers, pp. 143 – 164.


domingo, 28 de dezembro de 2014

O Mito da Tradição Judaico-Cristã

Adam Zagoria-Moffet


Nos Estados Unidos, é comum escutar referências frequentes e apaixonadas ao conceito de uma cultura, ética ou valores “judaico-cristãos”.  Qualquer resenha simplista da mídia americana demonstrará que o conceito é usado em ambos os lados do corredor proverbial – este ideal nebuloso judaico-cristão é evocado na defesa tanto da agenda liberal quanto da agenda conservadora de forma rotineira. Raramente esta fusão entre Judaísmo e Cristianismo parece ser questionada. Com muita frequência, ela é vendida como sendo representante do sistema de crenças dos fundadores da América (os quais eram, de fato, totalmente idiossincráticos em suas doutrinas religiosas). Apesar de sua onipresença no discurso político, acredito que o conceito da tradição judaico-cristã é bizarro, impreciso e, o mais importante, perigoso.

Vamos começar com o bizarro: apesar de o termo ter aparecido pela primeira vez em meados do século XIX, ele somente ganhou sua implicação atual – qual seja, de um sistema de valores e moral compartilhado – nos anos 1940. O presidente Eisenhower tornou o conceito um termo comum quando ele conectou-o com os “Pais Fundadores” em um discurso de 1952:

“Todos os homens são dotados pelo seu Criador.” Em outras palavras, nossa forma de governo não tem sentido a menos que ele seja fundamentado em uma fé religiosa profunda, e não me importo qual seja ela. Entre nós, é claro, é o conceito judaico-cristão, mas pode ser uma religião onde todos os homens sejam criados iguais.

Para o astuto estudioso de História, a declaração do presidente Eisenhower parece incrivelmente bizarra sob a ótica do equilíbrio das relações judaico-cristãs. Não há praticamente nenhum precedente qualquer para o Judaísmo e o Cristianismo compartilharem um núcleo comum de crenças, práticas ou moral. Além disso, há um bom argumento a ser feito que a fundação completa da Civilização Ocidental (que é mais ou menos contérmino com a Cristandade) é baseada em oposição ao Judaísmo e aos seus valores (por exemplo, o trabalho de David Nirenberg, “Antijudaísmo: a Tradição Ocidental”). A história excessiva da violência religiosa cristã contra os judeus, da Antiguidade até os tempos atuais, incluindo libelos de sangue, as Cruzadas, pogroms, expulsões e queima de livros, todos testemunham a rejeição altamente enraizada e ódio aos judeus pelos cristãos. Mesmo proeminentes pais da Igreja João Crisóstomo e Tertuliano[1] definiram o Cristianismo como a antítese do Judaísmo. O texto infame de Crisóstomo Adversus Judaeos contém a seguinte pérola:

“O povo judeu foi movido pelo seu alcoolismo e sua obesidade à maldade suprema; eles se esquivaram, eles falharam em aceitar o comando de Cristo nem eles aceitaram seguir Seus ensinamentos. Um profeta deu a entender isto quando ele disse: “Israel é tão obstinado e teimoso quanto uma novilha.” Apesar de tais bestas serem despreparadas para o trabalho, elas são preparadas para matar. E isto é o que acontece com os judeus: enquanto eles mesmos tornam-se despreparados para o trabalho, eles se preparam gradativamente para o massacre. Por este motivo Cristo disse: “Mas quanto a meus inimigos, que não querem ver-me reinando sobre eles, traga-os aqui e matem-nos diante de mim.” (Lucas 19:27) [2].

Lendo as declamações de Adversus Judaeos, é difícil de imaginar como qualquer um pode imaginar que possa haver uma concepção preexistente de uma visão judaico-cristã compartilhada do mundo. Além da natureza bizarra de tal afirmação, ela é também chocantemente imprecisa. O sistema de valores judaico-cristãos que os comentaristas políticos americanos adoram fazer referências não tem nenhum precedente na história (de fato, o extremo oposto), mas ele também não tem fundamento nos sistemas teológicos e éticos das duas Fés. Os defensores do uso do termo “judaico-cristão” como um adjetivo aceitável falham no núcleo de seu argumento – que o Judaísmo e o Cristianismo compartilham valores comuns – é essencialmente mentiroso.

É impossível comparar adequadamente dois sistemas teológicos extremamente desenvolvidos – nem mesmo em um trabalho de muitos volumes, imaginem em uma postagem de blog. Em nome da brevidade, simplesmente considere alguns princípios básicos de cada Fé. Lei, salvação, pós-vida, pecado, hierarquia, ritual, monoteísmo – mesmo crença, fé e prática – quase todo componente de uma autêntica prática cristã e uma autêntica prática judia diferirá em um modo elementar. Se desejarmos sermos precisos (o que deveria ser), simplesmente não tem nenhum sentido considerar Judaísmo e Cristianismo como compartilhando a mesma visão sobre Deus e o mundo.

Mais importante, o conceito de um sistema de valores judaico-cristãos é perigoso. Antes que se pense que os dias da teologia supersessionista passaram[3], a fascinação contemporânea com a fusão do Judaísmo e o Cristianismo pode ser entendida como uma continuação das primeiras tentativas supersessionistas. Stephen Feldman coloca bem a questão da seguinte forma:

“Para os cristãos, o conceito de uma tradição judaico-cristã sugere confortavelmente que o Judaísmo progride em direção do Cristianismo – que o Judaísmo está de alguma forma completado no Cristianismo. O conceito de uma tradição judaico-cristã flui da teologia cristã da supersessão, onde a Aliança Cristã (ou Testamento) com Deus substitui a Aliança com o povo judeu. A Cristandade, de acordo com este mito, reforma e substitui o Judaísmo. O mito portanto implica, primeiro, que o Judaísmo precisa de reforma e substituição, e segundo, que o judaísmo moderno permanece simplesmente como uma ‘relíquia’. Mais importante ainda, o mito da tradição judaico-cristã obscurece insidiosamente as diferenças reais e significativas entre Judaísmo e Cristianismo.”

Fundir Judaísmo com Cristianismo no modo que vemos hoje na América é simplesmente o meio polêmico de eliminar o Judaísmo e definir o mundo ocidental como aquele que conquistou o Judaísmo.

Mesmo que fossemos da opinião que é produtivo e sábio falar a respeito de uma cultura interreligiosa  compartilhada, ela não seria definitivamente Cristã ou Judia. Onde tal coisa fosse um conceito útil, a única encarnação potencialmente precisa, seria uma cultura judaico-mulçumana. O Islã e o Judaísmo na verdade compartilham conceitos básicos sobre lei, comportamento, fé, natureza de Deus, obrigações das pessoas, governança da sociedade, etc. Há algumas exceções notáveis para suas tradições surpreendentemente semelhantes, mas no geral sua moral, ética e valores são consideravelmente mais semelhantes do que diferentes. E elas são certamente mais semelhantes entre si do que em relação ao Cristianismo. Mesmo Slavoj Zizek em “Uma Olhada nos Arquivos do Islã” escreve:

Falamos geralmente de uma Civilização Judaico-Cristã – talvez, já chegou a hora, especialmente em virtude do conflito no Oriente Médio, de falar de uma civilização Judaico-Mulçumana como um eixo de oposição à Cristandade.

No final, nenhuma tentativa de tratar duas culturas diferentes como uma única é produtiva ou prática – mas se o fizermos há poucos motivos (exceto do supersessionismo e antijudaísmo) de tentar fundir Cristianismo e Judaísmo. Quando falamos de uma civilização judaico-cristã, diminuímos e colocamos em risco tanto o Judaísmo quanto o Cristianismo, e não fazemos nenhum favor a elas ao continuar acreditando em tal ideia.

Notas:

[1] João Crisóstomo (c. 347 - c. 407), Patriarca de Constantinopla, é conhecido como um pregador, teólogo e liturgista. João é conhecido por ser contra o abuso da riqueza, pela defesa do auxílio aos pobres, pela veneração e sua relação com o Papa Inocêncio I é um exemplo do primado papal. Quinto Setímio Florente Tertuliano (em latim: Quintus Septimius Florens Tertullianus; c. 160 - c. 225), se converteu ao cristianismo antes de 197, foi um escritor prolífico de apologética, obras teológicas e ascéticas. Ele era filho de um centurião romano. Tertuliano era um advogado em Roma.

[2] O verso é parte de uma parábola que Jesus ensinou. A parábola parecia querer ensinar sobre o Julgamento de Deus nesta questão. Ela não sugere que o governo dos homens deveria sequer seguir este caminho.  Jesus apenas usa o que poderia e frequentemente acontecia para ilustrar um aspecto do governo supremo de Deus. Ver Lucas, Capítulo 19, versículos 11 a 27.

[3] A teologia da substituição (também conhecida como supersessionismo) essencialmente ensina que a Igreja substituiu Israel no plano de Deus. Os aderentes à teologia de substituição acreditam que os judeus não sejam mais o povo escolhido de Deus e que Deus não tenha planos futuros específicos para a nação de Israel. Todas as opiniões diferentes do relacionamento entre a Igreja e Israel podem ser divididas em duas áreas: ou a Igreja é a continuação de Israel (Teologia da Substituição / Teologia do Pacto), ou a Igreja é completamente diferente e distinta de Israel (Dispensacionalismo / Pré-milenismo).

http://www.stateofformation.org/2014/04/the-myth-of-a-judeo-christian-tradition/

O Zelo dos Cristãos

Edward Gibbon

Extraído do livro "Os Cristãos e a Queda de Roma" (Capítulos 15 e 16 de Declínio e Queda do Império Romano, 1778).

"Já tivemos ocasião de descrever a harmonia religiosa do mundo antigo e a facilidade com que as nações mais diversas, e mesmo hostis, abraçavam, ou pelo menos respeitavam, as superstições umas das outras. Um só povo se recusou a partilhar desse intercãmbio comum da humanidade. Os judeus, que durante as monarquias assíria e persa haviam definhado por longo tempo na condição de seus mais desprezíveis escravos, emergiram da obscuridade sob os sucessores de Alexandre... A casmurra obstinação com que mantinham seus ritos peculiares e suas maneiras antissociais parecia assinalá-los como uma espécie diferente de homens, que audazmente professavam ou que mal escondiam sua implacável aversão ao resto da humanidade... Embora a lei lhes tivesse sido dada entre trovões no monte Sinai, e as marés do oceano e o curso dos planetas se suspendessem para a conveniência dos israelitas, e castigos e recompensas temporais fossem consequências imediatas de sua piedade ou desobediência, eles voltavam sempre a rebelar-se contra a majestade visível de seu Rei Divino...

A religião judaica se adequava admiravelmente à defesa, mas nunca à conquista; e é provvável que o número de seus prosélitos nunca tivesse sido muito superior ao dos seus apóstatas... A conquista de Canaã se fez acompanhar de tantos acontecimentos prodigiosos e de tantas circunstâncias sangrentas que os judeus vitoriosos foram deixados num estado de irreconciliável hostilidade com todos os seus vizinhos... A religião de Moisés parece ter sido instituída para um território determinado, assim como para uma única nação... Suas peculiares regras relativas a dias, alimentos e variegadas observãncias, triviais mas trabalhosas, constituíam motivos de fastio e aversão para as demais nações, a cujos hábitos e predisposições elas se opunham diametralmente. por si só, o doloroso e até perigoso rito da circuncisão era capaz de fazer um prosélito voltar da porta da sinagoga.


Nessas circunstâncias, o cristianismo se oferecia ao mundo armado da força da lei mosaica e liberto do peso das suas cadeias... Admitia-se a divina autoridade de Moisés e dos profetas, inclusive como a mais firme base da cristandade... À lei cerimonial, que consistia apenas em símbolos e figuras, sucedeu um culto espiritual e puro igualmente adaptado a todos os climas e a todas as condições humanas; a iniciação pelo sangue foi substituída pela inofensiva iniicação pela água. A promessa do favor divino, em vez de confinar-se facciosamente à posteridade de Abraão, estendeu-se universalmente ao liberto e ao escravo, ao grego e ao bárbaro, ao judeu e ao gentio."

domingo, 21 de dezembro de 2014

[POL] Animais no Terceiro Reich: Política de Proteção e Holocausto

Emerson Paubel


Os historiadores têm sido mais relutantes em estudar a legislação de proteção animal nazista do que a ciência no Terceiro Reich. Ela foi primeiro examinada no trabalho de Boria Sax e Arluke, “Compreendendo a Protação Animal Nazista e o Holocausto,” em 1992 na Anthrozoos, o periódico  da Sociedade Internacional de Antrozoologia (ISAZ). A ISAZ é uma organização acadêmica dedicada ao estudo da relação humano/animal. O ensaio resultou em controvérsia e acusação, a mais perturbadora das quais sendo a acusação de que os autores estavam banalizando o que é visto geralmente como o centro da atividade nazista – o Holocausto e a tentativa de extermínio dos judeus europeus e outros não-arianos sob o pretexto da pureza racial e a limpeza étnica e racial – pelo foco em animais não-humanos. Como  Sax concluí em “Animais no Terceiro Reich”:

O fato de os nazistas terem sido capazes de criar uma legislação humanista era uma ideia tão desconcertante que mesmo o estilo acadêmico destacado de nosso trabalho não pôde torná-lo aceitável a muitas pessoas. O tópico dos animais, como o do próprio Holocausto, evoca paixões de grande intensidade e confusão.

O termo “ecologia” foi originalmente criado nos anos 1860 pelo biólogo alemão Ernst Haeckel e “em 1934, a Alemanha tornou-se a primeira nação na era moderna a colocar o lobo sob proteção.” Tão exemplares e eficientes foram a gestão florestal nazista e o programa da “protação natural” (Naturschultz) que em 1935, Aldo Leopold (professor e cientista americano especialista em meio ambiente) foi à Alemanha para estudar seus métodos e políticas. A Sociedade da Vida Selvagem de Leopold e a “ética da terra” refletem “em parte... o exemplo germânico”. Como ele, os nazistas viam a terra não como um commodity mas como uma comunidade para a qual humanos, como todas as outras criaturas, pertencem.

Na verdade, no ensaio assim como neste estudo, Sax faz duas afirmações. Primeiro, “que os nazistas, quaisquer que fossem seus motivos, estavam certos em muito de sua legislação animal. Eles estavam certos também em protegem os predadores como o lobo.” E segundo, que uma compreensão da natureza complexa e paradoxal das relações dos nazistas com os animais dá uma noção no que aconteceu com humanos durante o regime nazista assim como nossa própria relação com animais e humanos.

Ao final do século XIX, a prática kosher[1] e a vivisseção[2] eram as maiores preocupações em relação à proteção animal na Alemanha. Estas preocupações continuaram entre os nazistas. De acordo com  Sax, os nazistas rejeitaram motivos antropocêntricos para a proteção animal – os animais não deveriam ser protegidos para interesses humanos – mas para eles próprios. Em 1927, um representante nazista do Reichstag pediu ações contra a crueldade em animais na prática kosher.

Em 1931, o partido nazista propôs um banimento da vivisseção. No início de 1933, representantes do partido nazista no parlamento  prussiano realizaram uma reunião para oficializar esse banimento. Em 21 de abril de 1933, quase imediatamente após a chegada ao poder dos nazistas, o parlamento começou a aprovar leis para a regulação do sacrifício animal. No mesmo dia, ela foi aprovada. Em 24 de abril, um Decreto do Ministro Prussiano do Interior foi promulgado referente ao sacrifício de poiquilotérmicos[3]. A Alemanha foi a primeira nação a banir oficialmente a vivisseção. Uma lei impondo o banimento total dessa prática foi promulgada em 16 de agosto de 1933 por Hermann Göring, enquanto Primeiro-Ministro da Prússia. Ele anunciou um fim para a “tortura e sofrimento insuportáveis na experimentação animal” e disse que aqueles que “ainda pensam que podem continuar a tratar os animais como propriedade não-viva” serão enviados a campos de concentração. As leis contra vivisseção eram, contudo, usadas como pretexto para perseguir cientistas judeus.

Em 24 de novembro de 1933, a Alemanha Nazista promulgou outra lei chamada “Ato de Proteção Animal no Reich” (Reichstierschutzgesetz ), para proteção deanimais. Esta lei listava muitas proibições contra o uso de animais, incluindo seu uso na indústria cinematográfica e outros eventos públicos que causassem dor ou ferimentos, alimentação forçada de aves e a extração das coxas de rãs vivas.

Em 23 de fevereiro de 1934, um decreto foi promulgado pelo Ministro Prussiano do Comércio e Emprego que introduzia a educação das leis de proteção animal ao nível fundamental, médio e universitário. Em 3 de julho de 1934, a Lei de Caça do Reich (Das Reichsjagdgesetz ) foi promulgada limitando a caça esportiva. Em 1º. De julho de 1935, outra lei, o “Ato de Conservação da Natureza do Reich” (Reichsnaturschutzgesetz ) foi aprovada para proteger a natureza. De acordo com um artigo publicado na Kaltio, uma das principais revistas culturais da Finlândia, a Alemanha Nazista era a primeira nação do mundo a colocar o lobo sob proteção.

Em 1934, a Alemanha Nazista patrocinou uma conferência mundial sobre proteção animal em Berlim. Em 27 de março de 1936, um decreto sobre sacrifício de peixes vivos e outros poiquilotérmicos foi promulgada. Em 18 de março do mesmo ano, um decreto foi aprovado sobre reflorestamento e proteção da vida selvagem. Em 9 de setembro de 1937, um decreto foi publicado pelo Ministro do Interior que especificava orientações para o transporte de animais. Em 1938, a proteção animal foi aceita como assunto a ser ensinado nas escolas públicas e universidades da Alemanha.

Em 1940, uma discussão foi iniciada dentro da administração sobre proibir animais de estimação, no sentido de conservar alimentos para consumo humano em virtude da guerra. Mas a interferência pessoal de Hitler não levou adiante essa proposta. Eventualmente, um decreto foi publicado pela administração contra os animais de estimação, mas somente aqueles que estivessem sob controle de cidadãos não-arianos. Em 15 de fevereiro de 1942, um decreto foi publicado proibindo os judeus de manter animais de estimação.
     
O cão conhecido hoje como Pastor Alemão desenvolveu-se no começo do século XX para reintroduzir o que se acreditava ser “o cão original alemão”. Pretendia-se que ele incorporasse as virtudes do povo alemão, e “antecipasse as tentativas nazistas de selecionar humanos de volta ao estoque genético ariano original.” Ao enfatizar sua “descendência lupina”, os geneticistas quiseram criar não um animal de estimação, mas um animal cujos instintos predatórios serviriam ao Estado na questão militar e, como acabou acontecendo, seu uso nos campos de concentração. Assim foi que os nazistas criaram seus conceitos de pureza racial a partir dos ideais dos programas de melhoramento genético de animais, de modo que Sax, assim como provavelmente seus leitores, reconhecem o potencial para abuso nos atuais programas de melhoramento genético, talvez especialmente aqueles envolvendo manipulação de DNA ou mistura de genes de espécies diferentes. Como alerta Sax, “as forças em nossa cultura que uma vez produziram... a higiene racial nazista poderiam, se não as vigiarmos, novamente produzir os mesmos desenvolvimentos.” Para reforçar este ponto, Sax lembra seus leitores que o eminente biólogo Francis Crick (que ganhou o Prêmio Nobel em 1962 por sua descoberta conjunta com James Watson da estrutura molecular do DNA) uma vez propôs “que todas as pessoas estejam sujeitas a esterilização reversível através de produtos químicos... colocados na comida, deixando às Autoridades... liberar aqueles que sejam considerados geneticamente ótimos para tomar um antídoto e ter crianças.”

Boria Sax argumenta em seu livro que os nazistas manipularam atitudes em relação à proteção animal para se adaptarem ao seu próprio sistema simbólico. Presumivelmente, ao igualar o Partido Nazista à Natureza, os nazistas reduziram preocupações  éticas a questões biológicas. Consequentemente, animais predadores eram frequentemente honrados junto com suas contrapartes humanas, isto é, líderes e funcionários do NSDAP, e os adversários eram identificados como ovelhas destinadas a serem mortas.   

Notas

[1] Na prática kosher judaica, a carne bovina passa por um processo de retirada do sangue – isto é, o animal é sangrado até morrer através de um corte em sua garganta - onde as peças (quartos dianteiros) são imergidas em água gelada, retiradas para serem salgadas com sal grosso e, após isso, são imergidas novamente em água gelada para retirar totalmente o excesso de sal.

[2] A vivissecção é o ato de dissecar um animal vivo com o propósito de realizar estudos de natureza anatomo-fisiológica. No seu sentido mais genérico, define-se como uma intervenção invasiva num organismo vivo, com motivações científico-pedagógicas.

[3] Poiquilotermia: Variação passiva da temperatura interna do corpo de um animal de acordo com a temperatura do meio ambiente que o rodeia. Com exceção das aves e mamíferos, todos os animais são poiquilotérmicos. Nas zonas de clima quente, os poiquilotérmicos podem entrar em letargo para escapar ao calor.



Lei de Proteção Animal de 1933:


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