segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

[POL] Hitler: o Führer Filósofo

Yvonne Sherratt

History Today, Vol. 63 nº 4, Abril de 2013


Apesar de mais de 70 anos de interesse inabalável no Nazismo, a história de Hitler como filósofo permanece esquecida. Hitler tinha o sonho de dominar o mundo, não somente com as armas mas com o pensamento. Surpreendentemente, ele via a si mesmo como um “líder filósofo”. A filosofia era central na cultura alemã, lembrada como um feito nacional. Pensadores como Kant, Hegel e Nietzsche eram tão sagrados ao povo alemão quanto Shakespeare e Dickens eram para os britânicos ou Thomas Jefferson e Mark Twain para os americanos. O desejo ardente de Hitler de ser o mais autêntico de todos os alemães tornou estas figuras icônicas profundamente sedutoras e seu egocentrismo cresceu ao ponto dele próprio pensar que era um grande pensador.

Hitler manteve seu interesse em filosofia cresceu durante sua permanência na prisão de Landsberg, onde foi encarcerado por nove meses na primavera de 1924 após o golpe malsucedido do Beer Hall[1] em novembro do ano anterior. Ele descreveu esse período de detenção como sua “universidade paga pelo Estado” pelo fato de “os longos dias de ócio obrigatório foram ideais para leitura e reflexão.” Durante esta época, ele afirmou ter lido muito e desenvolvido uma filosofia que guiou o curso de todas as suas ações posteriores. De fato, ele usurpou algumas das grandes mentes da cultura alemã para legitimar seu projeto macabro. Hitler também usou seu tempo em Landsberg para forjar um trabalho que ele acreditava que constituiria seu legado. Inicialmente chamado de Quatro Anos e Meio de Lutas contra Mentiras, Estupidez e Covardia, este foi o trabalho que mais tarde tornar-se-ia Minha Luta (Mein Kampf).   

Na realidade, Hitler sempre foi considerado por seus professores como tendo pouco talento, descrito como um estudante preguiçoso sem nenhum interesse em trabalho. Apesar de muita dúvida ter sido colocada em relação à sua proficiência em leitura, Hitler afirma ter lido “tudo o que ele conseguia”: Nietzsche, Houston Stewart Chamberlain... Marx...” Ele também afirmou ter se aprofundado na “literatura teórica do Marxismo”, o que, evidentemente, ele desprezou.

Hitler idolatrava certos pensadores e alguns destes atraiam seu interesse desde a mais tenra idade. Ele ficou impressionado pelo erudito bíblico alemão Paul de Lagarde, pelo escritor e filósofo britânico Houston Stewart Chamberlain, pelo historiador de arte e filósofo Julius Langben e pelos historiadores/filósofos Heinrich Von Treitschke e Oswald Spengler. Ele havia emprestado cópias de Spengler do Instituto Nacional Socialista em Munique entre 1919 e 1921, antes mesmo de seu internamento em Landsberg. Mas seu interesse nestes pensadores não é particularmente surpreendente; todos eles defendiam uma perspectiva antissemita, racista, nacionalista ou militarista – de modo que não devemos ficar surpresos pelo interesse de Hitler neles. O que é extraordinário é a identificação de Hitler com muitos dos grandes filósofos alemães dos séculos XVIII e XIX. À medida que curtia seus longos meses na prisão, ele aparentemente absorveu as ideias do famoso filósofo idealista alemão Immanuel Kant (1724 – 1804), assim como de Friedrich Schiller (1759 – 1805), Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), Richard Wagner (1813 – 1883) e Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), entre outros. Seu amigo August Kubizec mais tarde defendeu que Hitler digeria uma lista impressionante de clássicos, “incluindo Goethe, Schiller, ... Schopenhauer e Nietzsche...”

Sem dúvida, devido a um grande complexo de inferioridade da memória de seus próprios fracassos acadêmicos Hitler ficou inicialmente ressentido do “tipo erudito” e repreenderia os “governantes” da Alemanha que “eram homens excessivamente educados”. Não obstante, durante sua época em Landsberg, ele disse: “Tenho apenas um prazer: meus livros... eu os li e estudei muito.” Hitler desenvolveu uma fascinação particular pelo pensador iluminista Immanuel Kant, insistindo que “a refutação completa de Kant dos ensinamentos que foram herança da Idade Média, e da filosofia dogmática da Igreja, é o grande legado que ele nos deixou.” Esta afirmação foi seguida de outras. Talvez sejamos ignorantes dos tesouros mais preciosos da humanidade... Em nossas partes do mundo os judeus teriam imediatamente eliminado... Kant.”

A importância da razão era algo que Hitler afirmava Kant tê-la inspirado nele. Em um discurso da campanha eleitoral de março de 1936[2] ele declarou:

Há muitos que dizem que a razão não é o fator decisivo, mas que outros fatores imponderáveis devem ser considerados. Acredito que não pode haver nada de valor que não é realizada, em última instância, com base na razão. Recuso-me a acreditar que na posição de estadista alguém poderia manter visões corretas sem elas estarem ancoradas na razão.

Tais declarações são superficiais e amadoras, mas Hitler alegava ter grande conhecimento e sentia-se bem qualificado para expressá-las. Como associado, Hermann Rauschning, lembrou, “Hitler foi um boêmio por toda sua vida. Ele levanta-se tarde. Ele pode passar dias inteiros sem fazer nada e cochilando. Ele odeia ter que ler sem concentração. Ele raramente lê um livro completo; geralmente apenas o começa.”

Outro pensador que Hitler admirava grandemente era o filósofo-dramaturgo Friedrich Schiller, que foi exaltado largamente por líderes nazistas como um nacionalista e patriota alemão. Hitler admitia um amor por sua filosofia, brincando afetuosamente: “Nosso Schiller não fez nada melhor do que glorificar um arqueiro suíço!” – referindo-se ao mais famoso trabalho de Schiller, William Tell (1804), que exaltou o nacionalismo suíço. Antes da unificação dos Estados alemães em 1871, Schiller foi mais popular do que Goethe em virtude de seus escritos encorajando a unificação alemã. Como o amigo de Hitler Ernst Hanfstaengl observou, Hitler “prefere o revolucionário dramático Schiller ao contemplativo e esplendoroso Goethe.” Hitler confirmou sua preferência: “A casa de Goethe dá a impressão de uma coisa morta. E compreendemos que no quarto onde ele morreu ele deve ter pedido um pouco de luz – sempre mais luz.” Enquanto que “A casa de Schiller pode nos emocionar pela penúria na qual o poeta viveu.” Schiller tornou-se o gênio de estimação dos generais nazistas, que dariam  a si mesmos apelidos de suas peças. Hanfstaengl relembrou:

Mesmo Göring começou a me chamar de “Questenberg no campo”, uma frase que ele inventou em 1923, que era uma referência ao personagem na peça de Shiller, Wallenstein.

“O homem forte é mais forte sozinho”: Hitler usou esta citação do William Tell de Schiller (Ato I, Cena III) como título de um capítulo no segundo volume do Minha Luta[3] e ela tornou-se seu lema durante seus últimos anos como Führer. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele construiu um abrigo especial para os monumentos de Schiller e Goethe em Weimar para protegê-los do bombardeio aliado. Mas, além de Schiller e outros trabalhos de grandeza, Hitler era conhecido por possuir “na cabeceira de sua cama... literatura de uma pessoa com reputação mais baixa,” de acordo com Rauschning.

Em sua cela de prisão, Hitler estabeleceu os fundamentos de sua filosofia a partir de trechos de outros idealistas alemães como Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831) e Johann Gottlieb Fichte (1762 – 1814). A visão histórica de Hegel da formação do Estado a partir de origens antigas tornou-se um tema favorito e frequentemente apareceria, numa forma adulterada, nos discursos de Hitler, tais como este trecho de um discurso na Faculdade de Ciência Militar em novembro de 1937:

Para os Estados do mundo antigo que não foram arruinados por suas cidades... O Império Romano não caiu por causa de Roma, pois sem ela jamais teria sido um império. O caminho mais natural para a formação dos grandes Estados – o caminho pó meio do qual a maioria dos grandes Estados nasceu – foi começar com um ponto de cristalização e mais tarde a vida cultural que, então, como capital, frequentemente emprestava seu nome ao Estado.

Stephen Tansey e Nigel Jackson comentaram:

As visões de Hitler articuladas no Minha Luta foram construídas, sob muitos aspectos, a partir de teóricos políticos e filósofos conservadores alemães. Hegel, por exemplo, havia apontado a importância de um Estado forte... e a existência de um... (destino) na história que justificasse a guerra por Estados superiores contra os inferiores.

O historiador Frank McDonough observou: “É possível detectar a visão de Hegel de Estado tendo ‘poder supremo sobre o indivíduo’ nos escritos e discursos de Hitler.” Outros apontaram como “o meio-educado Hitler era um mosaico de influências... (incluindo) o complexo messiânico de Fichte.”
                       
O associado de Hitler e colega de prisão em Landsberg, Dietrich Eckart, identificou Fichte, o pensador metafísico pessimista Arthur Schopenhauer e o filósofo-poeta Friedrich Nietzsche como “o triunvirato filosófico do Nacional Socialismo.” Em 1933, a diretora cinematográfica Leni Riefenstahl presenteou Hitler com a primeira edição em oito volumes dos trabalhos reunidos de Fichte publicados em 1848, encadernados em veludo creme com a borda das páginas cobertas por tinta ouro.

Durante seu tempo de contemplação para o Minha Luta, a admiração de Hitler por Schopenhauer foi talvez a mais notável, já que “Schopenhauer glorificava a Vontade sobre a Razão.” Hitler relembrou isso: “Carreguei os trabalhos de Schopenhauer comigo por toda a Grande Guerra. Dele, aprendi grandes coisas.” No tópico da pureza da lingual alemã, ele referia-se ao seu “querido” Schopenhauer: “Somente escritoires geniais podem ter o direito de modificar a língua. Na geração passada, não penso em outro nome senão Schopenhauer que poderia realizar tal tarefa.”

Em um restaurante opulento em Berlim em 16 de maio de 1944, o Führer se dirigiu aos seus generais dizendo:

É na teoria do conhecimento de Kant que Schopenhauer construiu o edifício de sua filosofia, e é Schopenhauer que aniquilou o pragmatismo de Hegel.

Entretanto, Hitler tornar-se-ia eventualmente irritado com o lado contemplativo da filosofia, reclamando:

Onde eu chegaria se tivesse escutado toda sua conversa transcendental (de Schopenhauer)? Uma sabedoria final é: reduza-se a um mínimo de desejo e vontade. Uma vez que a vontade tenha acabado, tudo acabou. Esta vida é guerra.

Schopenhauer morreu. Outro filósofo alemão apareceu. Mas qual? O amigo de Hitler Ernst Hanfstaengl lembrou ele afirmar: “Agora, é o heroico Weltanschauung que iluminará os ideais do futuro da Alemanha...” “O que significa isso?” perguntou Hanfstaengl. “Isto não era Schopenhauer, que havia sido o deus filosófico de Hitler nos velhos tempos. Não, isto era novo. Era Nietzsche.” A admiração de Hitler mudou. Como ele expressou:

O pessimismo de Schopenhauer que brota em parte, acho, de sua linha de pensamento filosófico e parte do pensamento subjetivo e das experiências de sua própria vida, foram superadas por Nietzsche.

Os discursos de Hitler tornaram-se cheios de ideias extraídas de Nietzsche. Hitler copiou o amor nitzscheniano pelos ancestrais, especialmente sua veneração pelos gregos, como é mostrado em Nuremberg em 1938:

A arte da Grécia não apenas uma reprodução formal do modo de vida grego, da paisagem e da população da Grécia; não, ela é uma proclamação do espírito grego essencial.

       
Combinar o amor de Nietzsche pelos gregos com a representação de Hegel das origens ancestrais do mundo ocidental tornou-se um tema favorito. Exceto que Hitler usava o darwinismo para afirmar que os antigos eram ancestrais biológicos dos alemães:

Um ideal cultural permanece diante de nós mesmo hoje graças a sua arte e a nossa própria origem que nos relaciona através de nosso sangue, ainda medeia para nós uma imagem convincente de épocas mais justas do desenvolvimento humano, e dos portadores mais resplandecentes de sua cultura.

Hitler copiou Nietzsche ao admirar os ideais de força e beleza dos gregos antigos e tomou emprestado frases como “afirmação da vida”. Falando na abertura da segunda exibição de Arte Alemã em Munique em 10 de julho de 1938, ele proclamou:

O povo alemão deste século XX é o povo de uma nova recém despertada afirmação da vida, baseada na admiração pela Força e Beleza e, portanto, que é saudável e vigorosa. Força e Beleza – elas são fanfarras que anunciam esta nova era.

Hitler passou dos limites em sua veneração ao ideal de Nietzsche e afirmou que os nazistas eram o renascimento moderno da cultura ancestral:

Os trabalhos gigantescos do Terceiro Reich são uma representação de seu renascimento cultural e devem, um dia, pertencer à inalienável herança cultural do mundo ocidental, assim como os grandes conquistas culturais deste mundo no passado pertencem a nós hoje. (setembro de 1938)        
  
O jornalista William Shirer (1904 – 93) notou que, após deixar a prisão, Hitler “frequentemente visitava o museu de Nietzsche em Weimar e alardeava sua veneração pelo filósofo ao posar para fotografias ao lado do busto do grande homem.” Uma década após sua libertação, em agosto de 1934, no 90º. Aniversário do nascimento de Nietzsche, Hitler visitou os Arquivos de Nietzsche em Weimar. Um amigo relembrou assim:

Lembro-me somente uns poucos meses antes de uma visita que ele devia cumprir durante uma de suas campanhas eleitorais, enquanto viajava de Weimar para Berlim, à vila Silberblick, onde Nietzsche morreu e onde sua irmã viúva, com 86 anos, ainda vivia. O resto de nós esperou por uma hora e meia. Hitler desembarcou carregando seu chicote, mas, para minha surpresa, ele saiu da casa tropeçando com uma bengala escorregando de seus dedos: “Que velha senhora maravilhosa,” ele disse para mim. “Que vivacidade e inteligência. Uma personalidade real. Olhem, ela me deu a última bengala de seu irmão como souvenir…”

A partir daquele momento, bordões nitzschenianos visivelmente apimentavam seus discursos: Wille zur Macht (o desejo do poder), Herrenvolk (raça mestre), Sklavenmoral (moralidade do escravo) – a luta pela vida heroica; contra a educação formal inútil, contra a ética cristã da compaixão. Mas muitos eruditos, incluindo McDonough, rastrearam o interesse de Hitler por Nietzsche até sua época em Landsberg. O termo do filósofo “Senhores da Terra” está em constante uso no Minha Luta. Como o historiador James Giblin coloca, Nietzsche “previu que a sociedade moderna implicaria na ‘morte de Deus’... No geral, o que Hitler focou nos escritos de Nietzsche foram (o que ele considerava ser) suas críticas ferrenhas às formas democráticas de governo, seu louvor pela violência e guerra e sua previsão da chegada da ‘raça mestre’ liderada por um poderoso ‘super homem’... que governaria o mundo.”

No Reichstag em 11 de dezembro de 1941, apenas alguns dias após o ataque em Pearl Harbor, Hitler fez um discurso explicando sobre as ideias que ele teve em Landsberg. Ao declarar guerra aos EUA ele citou a noção mítica do “sacrifício de sangue”, que surgiu diretamente de sua leitura de Nietzsche. “Vocês, meus parlamentares, estão em melhor posição para medir a extensão do sacrifício de sangue,” declarou. No mesmo discurso, Hitler justificou uma invasão da Europa usando a ideia histórica de Hegel do “vir a ser”: “Na história completa do vir a ser,” proclamou, “o Reich alemão... vai fazer a guerra imposta pelos EUA.” Assim, foi durante um ano de meditação na prisão que Hitler encontraria ideias para usar anos mais tarde na justificativa de uma guerra contra o mundo[4].  

Hanfstaengl mais tarde refletiu sobre o ‘expurgo selvagem de Nietzsche por Hitler’ comentando: “A deturpação da guilhotina que Robespierre deu aos ensinamentos de Jean Jacques Rousseau foi repetida por Hitler e pela Gestapo em sua simplificação política das teorias contraditórias de Nietzsche.”

Cerca de um ano antes de seu internamento em Landsberg, Hitler encontrou-se com a família de seu grande herói Richard Wagner, o compositor alemão do século XIX de Bayreuth. Vestido em seu tradicional lederhosen[5], meias grossas de lã e uma camisa xadrez em vermelho e azul, ele chegou em Haus Wahnfried, onde na sala de música e biblioteca ele se maravilhou com os antigos objetos pessoais de Wagner. Em um suspiro reverencial, “assim como se estivesse vendo relíquias numa catedral,” ele articulou sua reverência.

A admiração de Hitler não tinha limites: “Wagner era um homem da Renascença,” “Wagner foi basicamente um príncipe” e assim por diante. Ele se referia em discursos públicos ao “gênio de Richard Wagner” e entre os grandes homens da história ele sempre destacava Wagner. Além da música, a veneração de Hitler ao compositor de fato tornou-se uma emulação. Hitler assistiu a Tristão e Isolda 30 ou 40 vezes e usava a paisagem cênica do palco para apresentações militares do Terceiro Reich. “Fui ver,” escreveu Hanfstaengel

um paralelo direto entre a construção das (óperas wagnerianas)... e aquela de seus (Hitler) discursos. Todo o entrelaçamento de leitmotifs, de embelezamentos, de contrapontos e contrastes musicais e argumentos, eram exatamente espelhados no padrão de discursos, que eram sinfônicos em construção e terminavam em um grande clímax, como o rufar dos trombones de Wagner.

No Minha Luta, Hitler também descreveu Wagner como um dos precursores intelectuais do Nacional Socialismo, não somente por sua música, mas seu antissemitismo atingiu um acorde: “Para entender o Nazismo precisamos primeiro conhecer Wagner,” ele escreveu.

Em setembro de 1924, o diretor da prisão de Landsberg escreveu um relatório sobre Hitler ao ministro da justiça bávaro. Não poderia ser mais favorável. Adolf Hitler foi “todo tempo cooperativo, modesto e cortês a todos, particularmente aos funcionários da instituição,” diz o relatório. “Não há dúvidas de que tornou-se mais quieto, mais maduro e um indivíduo consciente durante seu encarceramento do que ele era antes, e não contempla agir contra a autoridade existente.” Hitler respondeu, “Quando deixei Landsberg... todos lamentaram (o diretor e os outros membros da direção da prisão) – mas não eu! Trouxemos eles para a nossa causa.” Foi assim que eles liberaram um Hitler jubiloso. Ele chegou como um homem de ação e deixou, ele alegou, como um “líder filosófico”.

Como seu amigo Hanfstaengl expressou, Hitler “era uma espécie de bartender genial. Ele pegou todos os ingredientes da tradição alemã que lhe ofereceram, misturou-os por meio de sua alquimia pessoal em uma bebida que eles queriam beber.” Mas, para um homem para quem todo ingrediente de sua vida era a fantasia, sua admiração declarada pela filosofia não era menos significativa do que qualquer outra coisa a mais sobre ele próprio.            


Notas

[1] Ver tópico “As Origens do NSDAP e o Golpe no Salão da Cervejaria”


[2] Logo após a ocupação da Renânia, em 29 de março. O Reichstag foi dissolvido em 7 de março e foram convocadas novas “eleições”. Na verdade, tratava-se de escolher o candidato entre vários nomes dentro do Partido Nazista.

[3] Capítulo VIII, pg. 379. Minha Luta, Editora Centauro, 2005.

[4] A guerra de Hitler nunca foi contra o mundo, e sim, como sempre ficou explícito em seus escritos e discursos, contra o Bolchevismo e a suposta conspiração judaica internacional. É claro, a guerra era essencial à Alemanha Nazista para atender aos anseios de Lebensraum (espaço vital) e independência em relação a petróleo e cereais, que só poderiam ser obtidos a partir da conquista dos territórios ocidentais da União Soviética. Ao dizer que Hitler queria dominar e subjugar o mundo inteiro alguns historiadores apenas tentam reforçar o estereótipo de Hitler, construído ao longo de décadas, mostrando-o como megalomaníaco e psicopata; a razão por trás disso pode ser o receio de ser acusado de estar relativizando o Holocausto.

[5] calças feitas de couro, que podem ser curtas ou na altura do joelho; parte do traje típico da Baviera, Salzburgo e do Tirol


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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

[HOL] Israelense resgata história de futebol e propaganda em Theresienstadt

Deutschewelle, 28/01/2015


Oded Breda aponta para um pedaço amarelado de papel. Ele conhece essas linhas escritas quase de cor, são as anotações de um prisioneiro de 13 anos, que descreve no seu diário um jogo de futebol no campo de concentração de Theresienstadt, em 1944.

Só que esse não foi um jogo que se prestava à diversão, mas à propaganda nazista. A SS colocou prisioneiros saudáveis, com roupas limpas, nas primeiras fileiras dos assentos, bem perto das câmeras. Idosos e doentes foram escondidos. "Temos que ver a propaganda de forma crítica", diz Breda. "Caso contrário, o jogo parece um acampamento de verão."

Breda, um israelense de 60 anos, especialista em computação, é diretor da Beit Theresienstadt, a Casa Theresienstadt, um memorial em Givat Haim, um kibutz ao norte de Tel Aviv. A casa é inspirada nos muros angulosos da Fortaleza de Theresienstadt.

Breda caminha até a frente da sala e passa a mão sobre fotos emolduradas em preto e branco: são fotos daquele filme de propaganda. Nelas há prisioneiros aparentemente felizes na biblioteca ou na sáuna. Eles aparecem como escultores, músicos de orquestra, metalúrgicos. E como jogadores de futebol num pátio de quartel, cercados por milhares de espectadores. O filme se tornou um mito. Seu título não oficial: "O führer presenteia os judeus com uma cidade".

Uma das fotos mostra um homem jovem, loiro e forte. Ele entra no campo empoeirado de Theresienstadt, sua camisa branca tem, bordada, uma estrela amarela. "Esta foto me tira o sono", diz Breda. A imagem é do seu tio Pavel. Sorrindo.

O pai dele, Moshe, foi um dos poucos membros da família que conseguiram escapar para a Palestina, em 1939. Breda perguntou a ele o que havia acontecido com o tio Pavel em Theresienstadt, mas não obteve resposta. Um dia, Breda não aguentou mais, largou o emprego e se dedicou à pesquisa sobre Theresienstadt, sua família, suas raízes. E – o que no início jamais imaginaria – sobre jogos de futebol no campo de concentração.

Campo "modelo"

Os nazistas usaram Theresienstadt, perto de Praga, como um campo de trânsito, antes de os prisioneiros serem enviados para os campos de extermínio, como Auschwitz. No final de 1943, 450 judeus foram deportados para lá, vindos da Dinamarca. O governo dinamarquês fez questão que inspetores avaliassem o local. Antes disso, os presos tiveram que renovar as casas.

Em 23 de junho de 1944, uma delegação da Cruz Vermelha Internacional visitou o gueto, e foi ludibriada pelas "medidas de embelezamento". O comandante do campo ordenou que fosse feito um filme de propaganda, mostrando os internos trabalhando em jardinagem, famílias jogando cartas e um jogo de futebol entre os trabalhadores da "câmara de roupas" e da "assistência à juventude". A maioria dos jogadores e espectadores morreu algumas semanas mais tarde em Auschwitz. Das 157 mil pessoas que passaram por Theresienstadt, só 4 mil sobreviveram.

As imagens do filme nem sempre são nítidas. Assim, por muito tempo, Breda não teve certeza se seu tio Pavel havia participado no jogo. Breda pesquisou em Brünn e Praga, em arquivos e sinagogas. Oito anos atrás, visitou a Casa Theresienstadt, construída pelos sobreviventes na década de 1970.

Lá conheceu Peter Erben, o último daqueles jogadores de futebol ainda vivo. Erben, com 94 anos, confirmou que Pavel participara da partida, jogando no time da "assistência à juventude". Quatro semanas depois da filmagem, Pavel foi enviado a Auschwitz, onde morreu de inanição, aos 20 anos.

Breda coletou notas, desenhos, memórias e rascunhos de planos de jogos. Com amigos, reconstruiu a Liga Terezin: no pátio do quartel, no chamado "Barracão de Dresden", foram realizados, entre 1942 e 1944, dezenas de jogos. As equipes eram divididas conforme as profissões dos internos: cozinheiros contra eletricistas, jardineiros contra alfaiates. Outros jogadores quiseram prestar homenagem a seus times favoritos, unindo-se em equipes, chamadas Fortuna Colônia ou Fortuna Viena. "O futebol proporcionava um pouco de solidariedade", diz Breda.

Novas maneiras de transmitir a história

Há seis anos, Breda inaugurou a exposição Liga Terezin, como sala para juventude do memorial em Givat Haim. Todo outono é realizado um torneio em memória da época, em que jovens jogam vestidos com reproduções das camisas das equipes do campo de concentração.

"A geração mais jovem vive numa sociedade de bem-estar, e refletir sobre o Holocausto é, muitas vezes, encarado como uma tarefa obrigatória para eles", diz Breda, acrescentando que, através do futebol, ele pode falar para jovens que não alcançaria de outra forma.

Breda produziu um filme de 50 minutos, em cooperação com os jornalistas Mike Schwartz e Avi Kanner. Breda e Schwartz vão exibir a obra a partir desta segunda-feira (26/01) em sete cidades alemãs, 70 anos depois da libertação de Auschwitz, incluindo Berlim, Munique e Stuttgart.

Segundo estimativas, vivem ainda 350 mil sobreviventes do Holocausto. Essa geração provavelmente não existirá dentro de 15 anos. Por isso, museus e memoriais precisam pensar em novas maneiras de transmitir a história. Breda quer resgatar velhos exemplos através do futebol.

Pavel Mahrer, por exemplo, participou dos Jogos Olímpicos de 1924 pela Tchecoslováquia. Ele jogou nos Estados Unidos e, durante a crise econômica, foi para a Europa. Mahrer foi deportado para Theresienstadt, onde jogou pela equipe dos açougueiros.

Quando Breda recebe os jovens em seu memorial, menciona não só o elevado número de mortes do Holocausto. Ele também conta histórias pessoais, como as de seu tio e de Pavel Mahrer.


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sábado, 10 de janeiro de 2015

O Pequeno Ditador da Áustria: Engelbert Dollfuss

A. D. Harvey

History Today, Vol. 59 nº 7 jul/2009




Em julho de 2009 foi lembrado o assassinato de Engelbert Dollfuss, um dos ditadores da Europa do século XX menos conhecidos, porém mais intrigantes. Em 25 de julho de 1934, menos de um mês após a “Noite das Longas Facas”, quando Hitler executou sumariamente a liderança das tropas de assalto que o ajudaram a chegar ao poder, grupos nazistas lançaram um golpe de estado na Áustria. Na região sul do país, a luta continuou por quase uma semana. Em Viena, os nazistas que invadiram os escritórios do Chanceler em Ballhausplatz se renderam poucas horas depois, mas não antes de Dollfuss, atingido com um tiro no peito nos primeiros minutos após a rebelião, ter sido permitido afogar-se em seu próprio sangue.

Engelbert Dollfuss tornou-se Chanceler da Áustria em maio de 1932, cinco meses após o seu quadragésimo aniversário, após servir por quase um ano como ministro da agricultura. Ele tinha uma maioria parlamentar de apenas um e, em outubro de 1932, ele reativou o Ato de Permissão de Economia de Guerra de 1917 de modo que ele poderia governar por decreto. Sempre mais interessado em reformas sociais do que na democracia, o primeiro decreto de Dollfuss sob o Ato de 1917 foi tornar os acionistas do maior banco da Áustria, o Creditanstalt, responsáveis pelas perdas do banco insolvente.

Em março de 1933, os três presidentes do Parlamento austríaco renunciaram para votar em uma divisão; foi percebido somente após suas renúncias que sem um presidente não havia nenhum método constitucional de conduzir as atividades parlamentares.

Dollfuss anunciou imediatamente que ele governaria sem parlamento e proibindo manifestações públicas. Em maio de 1933, ele uniu seu Partido Social Cristão e outros grupos nacionalistas com milícias organizadas de ex-combatentes conhecidas como Heimwehr, para criar a Frente Patriótica (Vaterländische Front). Ele também baniu o Partido Comunista. Em junho de 1933, ele baniu o Partido Nazista também. No núcleo de seu programa estava a manutenção da independência da república austríaca; os nazistas da Áustria exigiam a união com a Alemanha sob a liderança de Adolf Hitler. Talvez um tipo de rival no simbolismo para a suástica nazista, Dollfuss começo a promover o uso da “Cruz da Muleta”, ou “Cruz de Jerusalém” (Krückenkreuz) como símbolo nacional, uma cruz branca com pedaços transversais no final de cada braço, delineado em vermelho. As eleições locais foram canceladas e uma concordata foi assinada com o papado dando mais independência à hierarquia católica na Áustria. Em outubro de 1933, Dollfuss sobreviveu a uma tentativa de assassinato: um projétil de pistola que atingiu seu peito foi defletida por uma caixa de rapé em seu bolso, provocando somente um arranhão e uma contusão; um segundo projétil atingiu seu braço.

Bandeira fascista austríaca

Em fevereiro de 1934, um levante descoordenado de milícias socialistas em Linz, Steyr e Viena, em resposta à tomada de poder por Dollfuss, levou ao bombardeio com artilharia dos condomínios dos trabalhadores. Somente um par de canhões de pequeno diâmetro foi utilizado e cerca de seis insurgentes foram mortos com o bombardeio. Oito insurgentes foram julgados subsequentemente e executados por rebelião armada. Mas o espetáculo de um político de extrema direita que governava por decreto empregando artilharia contra lares e famílias de trabalhadores esquerdistas causou furor e terror nas capitais da Europa. O próximo passo de Dollfuss foi banir todos os partidos políticos na Áustria, exceto sua Frente Patriótica.

Apesar deste currículo pouco lisonjeiro, Dollfuss tinha pouco em comum com seus contemporâneos Mussolini e Hitler. Ele também diferia deles por ter uma origem social mais sombria e na trajetória de sua ascensão ao poder. Parte da lenda de Hitler e Mussolini era a humildade de suas origens; respeitáveis, mas na parte inferior da classe média baixa. Dollfuss era filho de um camponês. Diferentemente de Mussolini e Hitler, ele era adotado, criado em um lar cujo chefe da família não era seu pai. Trabalhador árduo, ao invés de estudante talentoso, ele foi educado em um Seminário e eventualmente foi para a Universidade de Viena para estudar teologia no sentido tornar-se padre. Achando-se mais interessado em estudos sociais, em 1914 Dollfuss voltou-se para o Direito. Ele também começou a lecionar em cursos noturnos voltados para operários. Então veio a Primeira Guerra Mundial. Com estatura insuficiente para o Exército, Dollfuss foi recusado para qualquer serviço militar por causa de sua fragilidade física, mas ele agora tornou-se um oficial do Landwehr (algo como Exército Territorial, com qualificações inferiores ao Exército regular). Ele acabou tornando-se um excelente oficial, foi condecorado oito vezes e, incomum para um oficial sem nenhuma experiência em combate, promovido a Tenente (Oberleutnant).

Após a guerra, ele terminou sua graduação em Direito (especializando-se em economia agrícola), continuando seus estudos por alguns meses em Berlim. Lá, ele conheceu a filha de um latifundiário alemão e a levou para Viena como sua noiva. Eles tiveram três filhos, o primeiro tendo falecido ainda na infância. Dollfuss conseguiu emprego na administração de agricultura em sua província natal da Áustria Baixa, tornando-se diretor da Câmara de Agricultura em 1927. Ele representou a república austríaca em congressos internacionais em Roma em 1928 e em Bucareste em 1929. Sua reputação crescente levou à sua indicação como presidente do Departamento Ferroviário em outubro de 1930 e como Ministro da Agricultura no governo federal cinco meses depois. Um autodidata intelectual como Hitler, pintor e bibliófilo, e Mussolini, o jornalista, sua ascensão profissional foi de uma origem pouco promissora até uma carreira mais distintamente convencional.

A Áustria foi uma das nações mais traumatizadas pela Primeira Guerra Mundial. Em 1914, ela representava o núcleo de um império multicultural, indo de umas poucas centenas de quilômetros da fronteira com a França até bem no interior do Leste Europeu onde hoje é a Ucrânia. O desmembramento do Império Habsburgo separou as províncias que se tornaram a república austríaca da Boêmia, a principal região industrial do antigo império e da Hungria, uma principal fonte de alimentos. Viena, uma capital agitada com uma população de mais de dois milhões de habitantes, tornou-se uma metrópole sem interior, sem função e sem empregos suficientes para sua população.

Inicialmente, os austríacos, sendo alemães étnicos, esperavam a união com a Alemanha, mas isto foi vetado pela Grã-Bretanha, França e Itália, os vitoriosos da Europa na guerra. Um plebiscito extraoficial em Vorarlberg, a província mais ocidental, optou esmagadoramente pela união com a Suíça, mas o governo suíço recusou o resultado. Unidas somente pela língua, as províncias da Áustria tinham pouco espírito de identidade cultural. A cidade e província de Salzburgo não tinha sido território Habsburgo até o início do século XIX, tendo previamente sido um principado eclesiástico do Sacro Império Romano.

A nova nação foi criada, ou melhor imposta, nas circunstâncias econômicas e constitucionais pouco familiares da era pós-Primeira Guerra Mundial sob o acompanhamento de crises esporádicas de violência e banhos de sangue. Dollfuss foi um daqueles que lutaram para ajudar a construí-la. A realização da qual ele era mais orgulhoso como administrador agrícola na Áustria Baixa foi o estabelecimento de um esquema de seguro social para trabalhadores agrícolas, mas ele também planejou um aumento de 60% na produção de laticínios. Num certo sentiso, ele conseguiu ficar imune à política altamente polarizada da capital. Ernst Starhemberg, líder do Heimwehr de extrema direita, e logo um aliado-chave do Chanceler, mais tarde afirmou que ele encontrou-se com Dollfuss somente duas vezes antes de 1932.

A relação de Dollfuss com Starhemberg pode ser vista como típica ou mesmo como definidora de sua ditadura. Apesar dos títulos aristocráticos terem sido abolidos no início republicano da nova Áustria, Starhemberg era um príncipe, da mesma família de Ernst Starhemberg que comandou a defesa de Viena contra os turcos em 1683 e foi um dos homens mais ricos e com melhores conexões do país. Apesar de ter nascido somente em 1899, ele lutou nos estágios finais da Primeira Guerra Mundial, servindo, como Dollfuss, no front italiano. Em 1930, ele foi brevemente Ministro do Interior, mas renunciou após o Heimwehr ter conseguido apenas 6% dos votos nas eleições daquele ano. Tirando o fato de ser autoritário e antissocialista, ele tinha poucas convicções políticas firmes, havia flertado com a ideia de união com a Alemanha e, como deve ter sido óbvio pata Dollfuss, ele não era particularmente brilhante. Mesmo assim, estes dois homens logo estavam familiares um com o outro, usando seus nomes e a forma familiar “você” para se dirigir um ao outro que era normalmente empregada somente entre parentes e crianças na fase escolar. Dollfuss indubitavelmente via o Heimwehr como sendo útil ao regime, uma contraparte aos camisas negras de Mussolini e às tropas de assalto de Hitler. Ele foi ativo em desbaratar a revolta socialista em 1934 e foi em parte ao reconhecimento de sua lealdade que Starhemberg foi indicado vice-chanceler da república em maio daquele ano. No mesmo mês, foi promulgada a nova constituição na qual as eleições seriam na base de pertencer a sete estados ou setores econômicos, por exemplo, agricultura, indústria ou serviço público: na prática, um sistema que favorecia os patrões ao invés dos empregados. É fácil detectar um cálculo cínico na relação de Dollfuss com Starhemberg e em sua falsidade constitucional e é verdade que ele era um praticante da “arte do possível”, mas seus contemporâneos não o viam como cínico ou manipulador ou um viciado em poder. Dollfuss não era um tipo super-homem messiânico e magnético como Mussolini ou Hitler. Ele também era um tipo diferente de líder: aqueles que o conheciam afirmavam que ele era calmo, generoso, razoável, sincero que trilhou seu caminho não pela sua inteligência excepcional nem charme, mas por sua devoção ao seu país. Ele gostava de Starhemberg porque ele achava que o príncipe era parecido com ele.

Em quase todos os sentidos Dollfuss oferece um contraste com os outros ditadores. Hitler e Mussolini foram cabos na guerra, mas seus postos inferiores eram mais uma questão de um ligeiro suplemento para o seu pagamento do que responsabilidade, enquanto que Dollfuss consumiu quatro anos ordenando a homens que caminhassem para sua morte e liderando o caminho. Enquanto Hitler e Mussolini somente gostavam das pessoas que poderiam dominar, Dollfuss não se incomodava em conviver com pessoas de sua classe ou aqueles, como Starhemberg, supostamente superiores por nascimento. Diferentemente de Hitler, ele era casado e diferentemente de Mussolini ele era fiel à sua esposa. Em contraste com Hitler, um não-fumante, ele fumava 40 cigarros por dia. Mussolini, apoiando e projetando seu queixo com um narcisismo ridículo, proferindo suas banalidades com a idiotice de um gramofone com defeito, foi um dos oradores menos atraentes na história da política italiana. Hitler discursava com um sotaque regional forte que o fazia parecer à maioria dos alemães um comediante de palco e reforçava o efeito com linguagem corporal que parece se opor ao que é recomendado em qualquer livro sobre o assunto. Salazar em Portugal e Franco na Espanha tinham ambos vozes chiadas. Dollfuss parecia perfeitamente normal. Ele também tinha uma face juvenil e agradável e um corpo proporcionalmente perfeito[1].

Mas, apesar de sua fragilidade física, não havia nada de frágil em relação à figura política de Dollfuss. Ele era um Chanceler que havia sido um oficial do Exército, um homem decidido a fazer qualquer coisa que seu dever o exigisse. Ele falou abertamente ao adido britânico em Viena da “luta pela independência da Áustria na qual ele estava envolvido com a Alemanha de Hitler” e em 1934 havia a perspectiva que ele poderia consolidar de vez seu poder na Áustria e sobreviver às tentativas da agora ilegal organização nazista austríaca de forçar a união com a Alemanha. Hitler ainda estava fraco. Ele nem mesmo ousou enviar suas tropas ao distrito desmilitarizado da Renânia antes de 20 meses após a morte de Dollfuss e quando ele eventualmente anexou a Áustria, em 1938, o avanço triunfal do novo Exército alemão através da fronteira deixou em seu rastro uma ninhada de tanques quebrados e, em muitos casos, obsoletos.

Havia tanto antissemitismo na república austríaca quanto no inteiro Império Habsburgo – em outras palavras, muito. Dollfuss encontrou-se com poucos judeus, mas no seminário e entre os líderes camponeses da Baixa Áustria ele encontrou-se com muitos antissemitas desinformados. Apesar dele estar provavelmente ciente que a demissão de funcionários públicos conhecidos por serem socialistas estava sendo usada como um pretexto para dispensar judeus que não tinham nenhum tipo de conexão socialista, Dollfuss simplesmente não estava interessado em copiar o programa antissemita de Hitler. Houve menos quebra de vidros e violência na Áustria do que na Alemanha Nazista, mesmo se houvesse alguns tiroteios, e seria errado sugerir que o regime de Dollfuss poderia tornar-se mais duro à medida que o tempo passasse se ele achasse isso necessário. Foi a sua devoção ao Catolicismo assim como seu comprometimento com uma Áustria não dominada politicamente pela maioria protestante dos alemães da região norte que era a base da determinação de Dollfuss em manter seu país fora do controle de Hitler, mas seu catolicismo era uma religião de ordem, obrigação e disciplina, apesar  de ser tão autoritário quanto o Nacional Socialismo de Hitler. Segue-se, portanto, que foi precisamente porque ele era católico que ele não poderia ter abraçado a eugenia racial do Terceiro Reich.

Sua estratégia-chave para manter a independência da Áustria era aliança com outros regimes autoritários que pareciam não apoiar os desenvolvimentos políticos na Alemanha Nazista, especialmente a Itália e a Hungria. As semelhanças superficiais entre os regimes nazista e fascista da Itália não recomendavam neste estágio as atividades de Hitler a Mussolini – muito pelo contrário – e a Áustria era o único vizinho da Hungria contra o qual o governo húngaro não fazia exigências territoriais exorbitantes e inconsistentes.

Miklós Horthy, o Regente da Hungria (governante ou tirano seria uma tradução mais precisa) foi comandante da frota da Marinha de Guerra Austro-Húngara na Primeira Guerra Mundial e ainda aparecia em público com seu uniforme de almirante austríaco: sua casa estava cheia de relíquias dos Habsburgos e seus filhos brincavam com Starhemberg quando este ainda era uma criança. Horthy tinha uma atração sentimental com a Áustria que não era em geral compartilhada por seus compatriotas e muitos preferiam falar alemão ao invés do húngaro. As populações da Hungria, Áustria e Itália eram predominantemente católicas apesar de Mussolini ser ateu e detestar o papado, enquanto Horthy e seu virulento antissemita Primeiro Ministro Gyula Gömbös eram (na tradição dos heróis nacionais húngaros como Gabor Bethlen e Lajos Kossuth) protestantes. Não era o caso de regimes católicos autoritários aliando-se contra o nazismo, mas vizinhos mais fracos aliando-se contra a Alemanha. A aliança ítalo-húngara foi encerrada em um encontro em Roma em março de 1934.

Jamais saberemos como esta coalizão anti-Hitler teria funcionado se Dollfuss não fosse assassinado quatro meses depois. A condenação da Liga das Nações à invasão da Itália da Etiópia e o apoio militar mais tarde dado por Hitler e Mussolini a Franco na Guerra Civil Espanhola inevitavelmente colocou ambos como aliados. O antissemitismo de Gömbös (os judeus na Hungria não tinham o domínio no sistema bancário e nas profissões liberais como a propaganda nazista alardeava que eles tinham na Alemanha) conduziu-o gradativamente a favor de uma cooperação com os nazistas: Horthy, que ele havia ajudado a chegar ao poder em 1919, tinha-o como um extremista perigoso. Quando Gömbös morreu de insuficiência renal em uma clínica de Munique em outubro de 1936, Hitler seguiu o cortejo fúnebre até a estação ferroviária e enviou Göring, o número dois do regime então, representá-lo no funeral de Budapeste.                            
         
Dollfuss gostava de vestir deu uniforme do Landwehr com todas as suas medalhas, mas a Áustria tinha apenas um décimo da população da Alemanha e era a base industrial mais fraca de todas as nações da Europa Central e não havia como o país tornar-se forte militarmente para resistir a uma invasão alemã. Por outro lado, eventos que aconteceram nas mãos de Hitler de forma notável entre 1934 e 1938 e se Dollfuss ainda estivesse no poder talvez as coisas poderiam ter evoluído de forma diferente, pois Dollfuss, apesar das desvantagens de seu histórico e de sua psique de Tom Thumb[2], foi bem sucedido em tudo que tentou; Hitler não.

Hitler esperava que os nazistas pudessem avançar na Áustria nas eleições e com a indicação de simpatizantes aos ministérios no governo, mas Mussolini impediu isso quando eles se encontraram em Veneza em junho de 1934. Logo em seguida, Theodor Habicht, que apesar de ser alemão era o líder dos nazistas austríacos, informou Berlim que o Exército estava planejando um golpe de Estado e pediu permissão aos nazistas austríacos para participar. De fato, não havia nenhum golpe planejado, mas em 25 de julho de 1934 os nazistas austríacos vestiram uniformes militares e atacaram a Chancelaria em Viena. Os golpistas alcançaram Dollfuss quando este tentava fugir e um deles, Otto Planetta, um ex-soldado do regimento Landwehr de Dollfuss atirou duas vezes com uma pistola. Uma bala passou de raspão pela garganta de Dollfuss e a outra o atingiu no peito, alcançando a espinha e paralisando suas pernas. Ninguém mais foi ferido na Chancelaria e apesar dos golpistas terem rejeitado um pedido de ajuda a um médico ou padre, não houve nenhuma tentativa de um “tiro de misericórdia”. Eventualmente, dois policiais capturados foram liberados para prestar socorro médico. As últimas palavras de Dollfuss foram dirigidas a eles: “Companheiros, vocês são tão bons para mim, por que os outros não são como vocês? Eu queria apenas paz. Nunca ataquei; queríamos apenas nos defender. Que Deus os perdoe. Dê minhas lembranças a minha esposa e filhos.” Ele morreu logo após as 4 horas da tarde, cerca de três horas após ter sido atingido. Os nazistas que ocuparam a Chancelaria se renderam poucas horas depois.

Em Rabenstein na província meridional austríaca da Carintía, insurgentes nazistas resistiram até 30 de julho quando então fugiram em direção da fronteira com a Iugoslávia. Eventualmente, eles chegaram à Alemanha pelo mar. Habicht foi dispensado, com a aprovação de Hitler, apesar de mais tarde ele tornar-se prefeito de Wittenberg na Saxônia. Ele foi morto em ação enquanto comandava um batalhão na frente oriental em janeiro de 1944.

Notas:

[1] Mesmo Dollfuss sendo um ditador – no sentido correto da palavra – o autor do texto tenta neste trecho suavizar sua imagem, ao compará-lo com os “diabólicos” Hitler e Mussolini, dando a impressão dele ser um “bom tirano”. Caso tivesse se consolidado no poder, não há motivos para imaginar que Dollfuss não seguiria a cartilha de todo líder fascista da época, até porque na Áustria havia um antissemitismo latente. Franco também não escapa dos comentários irônicos, já que contou com a ajuda de Hitler e Mussolini na Guerra Civil Espanhola e permitiu que voluntários espanhóis combatessem ao lado dos alemães na campanha da Rússia. Essa é uma tendência normal nos textos relativos à Segunda Guerra Mundial, exagerar nos estereótipos, opondo os “bons” aos “maus”, no sentido de reforçar as qualidades dos primeiros e ridicularizar as características dos segundos. Qualquer um que se opusesse a Hitler é retratado de forma benevolente, mesmo sendo tão ruim quanto o primeiro, como foi o caso de Stalin e, caso mais emblemático, o de Dollfuss, que morreu assassinado por simpatizantes nazistas. Até Ernst Röhm, uma figura deplorável até dentro do partido nazista (sodomista e violento) tornou-se mártir em boa parte da bibliografia.

[2] Tom Thumb é um personagem dos quadrinhos da Marvel Comics. Ele é anão, inventor, cientista e aventureiro e apesar de possuir um grande nível de inteligência, não tem superpoderes.


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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

[POL] As Artes na Alemanha Nazista

Emerson Paubel


Em geral, a visão histórica da Alemanha de Weimar como um período de criatividade democrática e o Terceiro Reich como o de negação ditatorial é uma simplificação abusiva e deveria ser revisto, particularmente pelo fato de que estudos recentes fornecem um quadro mais complexo do período. Parece obvio que houve um elemento forte de continuidade nas artes entre a República de Weimar e o Terceiro Reich, mas a natureza desta continuidade é complexa, permeada de paradoxos e ambivalências. Havia grupos na República de Weimar que apoiavam o sistema parlamentar democrático, mas enfatizavam as formas e métodos tradicionais nas artes, os quais mais tarde foram reconhecidos oficialmente pelos nazistas, e eles certamente não podem ser considerados como simpatizantes nazistas. Havia líderes industriais e militares cujas ideias políticas eram de extrema direita, mas que defendiam e desenvolviam uma modernidade técnica em muitos aspectos de projetos: um aspecto de modernidade era absolutamente essencial ao programa de rearmamento do Terceiro Reich. Em 1937, por exemplo, uma grande exibição foi organizada em Düsseldorf sob o título de “Uma Nação Trabalhadora”. Ela foi planejada especificamente como um instrumento de publicidade e apoio de mobilização para o Plano Quadrienal. Ela concentrou-se em mostrar o potencial da tecnologia industrial moderna e muito da arquitetura e projeto era moderno tanto na técnica quanto na forma, por exemplo, na exibição de um objeto-chave do “movimento modernista” de design dos anos 1920: uma cadeira de balanço de aço tubular.

A partir dos anos 1960, os historiadores começaram a olhar com mais atenção à burocracia cultural nazista e, ao invés de encontrar evidência de controle restrito, foi descoberto o caos administrativo e inconsistências estéticas entre as ideias propostas e os desafios artísticos reais. Além disso, por muitos anos a maioria dos estudos das artes na Alemanha Nazista tendeu a focar principalmente na condenação dos perpetradores ou hagiografia[1] das vítimas, e uma fascinação com o kitsch[2], regressão, erotismo, monumentalidade e propaganda política ostensiva que supostamente representava a estética nazista dominante. Não foi somente nos anos 1990 que uma onda de exames críticos intensos sobre a administração cultural e instituições apareceu.

Por exemplo, uma vez que os acadêmicos deixaram de lado as ideias da inferioridade das artes nazistas, foi possível considerar onde as artes alemãs dos anos 1930 e 1940 obtiveram reconhecimento internacional e ter um novo olhar sobre as semelhanças entre as artes “nazistas” e as artes contemporâneas não-alemãs. O que, por exemplo, distingue a pintura “nazista” dos trabalhos atuais de Norman Rockwell ou a arquitetura “nazista” de estruturas neoclássicas erguidas na mesma época em Washington, D.C.? Como podemos explicar o fato de que o ícone da arte nazista, o quadro “Os Quatro Elementos”, pelo “mestre dos pelos pubianos” Adolf Ziegler, ganhou o Grand Prix de 1937 da Exibição Internacional em Paris, ou que o filme Olympia de Leni Riefensthal ganhou o prêmio do Festival Internacional de Veneza em 1938?

De fato, as percepções do pós-guerra da vida cultural no Terceiro Reich foram altamente influenciadas por argumentos apaixonados e constrangedores daqueles que foram levados ao exílio. Complementando as análises de Hannah Arendt da natureza do totalitarismo, estavam os comentários sobre a vida cultural alemã pela família Mann (a condenação de Thomas àqueles que ficaram na Alemanha e a peça de Heinrich Mephisto que retratava as barganhas do diretor de teatro Gustav Gründgen com Göring), a declaração de Theodor Adorno de que nenhuma poesia poderia ser escrita após Auschwitz e a formulação influente de Walter Benjamin de que o fascismo promoveu uma estetização da política. As forças de ocupação aliadas também contribuíram grandemente ao estabelecer padrões para futuros historiadores. O processo de denazificação dividiu os alemães nas categorias de culpados e inocentes, enquanto os adidos culturais aliados (muitos deles refugiados alemães) estavam tão convencidos da destruição da cultura que no final da guerra, funcionários americanos, comentando sobre a situação da música, concluíram que Hitler “conseguiu transformar o campo exuberante de criatividade musical em um deserto estéril,” que os músicos mais talentosos da Alemanha haviam deixado o país e que os compositores do Terceiro Reich produziram apenas trabalhos destinados “a ser eficientes psicologicamente para a causa nazista.” Em resposta, a elite cultural alemã se mexeu para se proteger – mesmo aqueles que trabalharam no Terceiro Reich – e construíram uma “hora zero”, reforçando a imagem de uma terra totalitária devastada culturalmente que se contrastava com a paisagem cultural florescente da nova Alemanha.

A Sociedade de Arte Alemã (DKV - Deutsche Kunstverein) era uma organização étnica que era mais estável e consistente em suas visões conservadoras extremas do que o Partido Nazista ou os administradores culturais. Desde o seu começo no início do século XX, sua fundadora e liderança carismática Bettina Feistel-Rohdmeier, consolidou a agenta xenófoba, antimoderna e antissemita ao alvejar os impressionistas franceses e o Secessionista (e judeu) Max Liebermann. Apesar de todos os artistas sofrerem com as vicitudes econômicas dos anos 1920, o DKV conseguiu exagerar o apelo dos tradicionalistas “alemães verdadeiros” e, por meio de seu serviço de notícias bem distribuído e alianças estratégicas com organizações étnicas poderosas (e finalmente o partido nazista), conseguiu tornar-se uma entitade pequena, porém formidável. Talvez, seu maior impacto tenha sido a ideia original de Feistel-Rohdmeier em 1933 de eliminar das galerias de arte os trabalhos modernistas, exibindo-os em uma “câmara de horrores” no sentido de educar o público de injustiças passadas contra a arte alemã, apresentando a quantidade de dólares usada para comprar tais trabalhos e fazendo uso delas como “gravetos para aquecimento de prédios públicos”. Muitas exibições semelhantes de “arte degenerada” aconteceram em muitos locais antes que a ideia fosse adotada pelo governo nazista na famosa exposição em Munique em 1937. O DKV atingiu o máximo da influência durante a época em que as visões nazistas da arte atingiram o pico da ambivalência. Com facções do partido promovendo os modernistas Barlach, Nolde, Heckel e Schmitt-Rottluff como expressionistas “nórdicos”, o DKV encontrou um aliado em Alfred Rosenberg, mas também foi castigada ao presumir conhecer mais do que o partido. Ironicamente, quando a guerra contra o modernismo foi finalmente vencida e os artistas modernistas foram levados à periferia, os gritos de guerra do DKV tornaram-se redundantes, e sua promoção de tradicionalistas provou ser muito conservadora para acomodar as direções desejadas para a futura arte alemã.

Poderíamos tratar Ernst Barlach como um caso interessante de uma “vítima” indisputada do Nacional Socialismo. É verdade que o trabalho de Barlach foi alvejado pelos censores do partido nazista: uma de suas esculturas e um livro de gravuras foram incluídos na exibição de “Arte Degenerada”; suas memórias de guerra – controversas por muitos anos antes de 1933 – foram vítimas de campanhas vingativas por parte de funcionários do partido nazista local; ele foi obrigado a renunciar da Academia Prussiana de Artes; e uma publicação de 1935 de seus desenhos foi confiscada pela polícia bávara. Porém, também é verdade que Goebbels foi um entusiasta de Barlach no passado, que Barlach promoveu seu próprio trabalho como arte alemã verdadeira a funcionários nazistas, que ele foi convidado para as cerimônias de abertura das Câmaras Culturais do Reich, que ele assinou uma petição apoiando a consolidação de Hitler no poder, que – diferentemente de outros modernistas – seus trabalhos confiscados foram devolvidos a ele, que quando morreu em 1938 um jornal da SS publicou um obituário respeitoso e que, finalmente, seus trabalhos foram reeditados durante o Terceiro Reich.

Os nacional socialistas em geral, e Hitler em particular, perseguiram uma política consistente para promover seus objetivos estéticos, mesmo quando a evidência é nebulosa. Hitler desprezava o modernismo e o expressionismo, mas ele não nunca tentou atingir os trabalhos expressionistas. Ao invés disso, ele, Von Schirach (líder da Juventude Hitlerista) e outros se esforçaram para definir o rumo da arte que tendia para uma “modernidade comedida”, rejeitando tanto o realismo fotográfico quanto o avant-garde, promovendo o particularismo nacional e se aproximando das ideias que prevaleciam bem antes da Primeira Guerra Mundial e não somente na Alemanha. As semelhanças entre o gosto alemão e as inclinações artísticas na Europa fizeram com que o historiador francês Pierre Ayçoberry parafraseasse uma observação de 1943 de um socialista inglês, “Este país não é uma caricatura de nossos próprios países?”

Por exemplo, uma nova visão revelada pelas pesquisas históricas é o interesse de Hitler pela arquitetura, revelando que o ditador estava bem mais envolvido na parte de projeto e planejamento do que Albert Speer afirmou em suas memórias e entrevistas, tendo conhecimento e gosto sofisticados. O internacionalismo do estilo neoclássico tipicamente classificado como “nazista” e o entusiasmo de Hitler pelos estilos e filosofia do Bauhaus[3] (e, consequentemente, os esforços dessa escola para consagrar-se no regime) faz com que Hitler seja classificado como um verdadeiro “modernista” em relação aos planos e execução das vias expressas (autobahn).   

A música foi comprovadamente a mais evasiva das artes, quando formas de supervisionar seus modos diversos e generalizados de produção estavam além da capacidade do controle político ou policial. Mesmo assim, os nazistas promoveram os trabalhos de compositores alemães como Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven, Anton Bruckner e Richard Wagner, enquanto baniam a apresentação de obras de compositores não-arianos, como Felix Mendelssohn e Gustav Mahler. O regime também disseminou canções populares étnicas e marchas militares para encorajar a doutrinação ideológica. No entanto, um dos mitos duradouros sobre Hitler é sua paixão completa somente pelos trabalhos do compositor Richard Wagner, e as supostas ligações entre os enredos das óperas de Wagner e a política de Hitler, e a interferência deste último com assuntos artísticos em Bayreuth. Na verdade, as afirmações da inspiração de Hitler a partir de Wagner tiveram origem principalmente na cabeça dos intelectuais alemães exilados (Thomas Mann, Emil Ludwig e Theodor Adorno), que Hitler era muito mais arrebatado pelo drama altamente emotivo de Tristão e Isolda do que pelas mensagens patrióticas de Die Meistersinger, e que a relação íntima de Hitler com a família de Wagner e o patrocínio do festival de Bayreuth de fato tornou-o “a única instituição cultural no Terceiro Reich independente do controle nazista.” As atividades amadoras em música espalharam-se além das igrejas e escolas; a Hausmusik prosperava na privacidade do lar e a tecnologia tornou o consumo de música um assunto exclusivamente privado, fora do alcance dos censores. Mesmo assim, as atitudes de Hitler em relação à música eram totalmente liberais e ele procurou não impor restrições estéticas aos compositores.

Frequentemente esquecido como entretenimento escapista ou demonizado como manipulação de massa, o cinema popular no Terceiro Reich foi de fato mantido por convenções genéricas bem estabelecidas, tradições culturais, sensibilidades estéticas, práticas sociais e um altamente desenvolvido sistema de estrelato – não muito diferente de sua contraparte de Hollywood nos anos 1930. O uso do filme como um método de propaganda é uma ferramenta poderosa, e foi usada eficientemente pelos nazistas. Dos filmes claramente políticos que tinham objetivos claros até filmes sutilmente artísticos que escondiam a mensagem atrás do entretenimento, toda a gama de gêneros e estilos pode ser encontrada nos mais de 1.000 filmes produzidos pelo regime nazista.

Apesar da aparente adoração de Goebbels por Hitler, e sua concordância em relação aos ideais básicos de boa propaganda (isto é, ser simples e repetida), o Ministro da propaganda e seu Führer tinham opiniões variadas sobre os métodos de usar o filme como propaganda. Hitler acreditava qie a propaganda somente era útil se o partido fosse pequeno e fraco como uma forma de aumentar a popularidade e, portanto, o poder. No Minha Luta, por exemplo, ele diz, “Se a propaganda impregnou um povo inteiro com uma ideia, a organização pode determinar as consequências com um punhado de homens.” Goebbels, por outro lado, via o uso da propaganda como algo mais abrangente. Ao invés de apenas ganhar apoio inicial ao partido antes da tomada do poder, ela poderia ser usada para manter entusiasmo constante para a causa nazista durante os tempos de paz e de guerra e para aniquilar qualquer resistência ao criar uma massa popular de cidadãos leais, que poderiam delatar dissidentes. Em “O Triunfo da Vontade”, por exemplo, um filme que registra a reunião do partido em 1934 na cidade de Nuremberg, Goebbels afirma incisivamente, “Que a flama brilhante de nosso entusiasmo jamais se extinga. Ela sozinha dá luz e calor para a arte criativa da moderna propaganda política.”

O próprio Hitler estrelou o filme que exaltava sua grandeza. “O Triunfo da Vontade”, dirigido pela cineasta Leni Riefenstahl, era um documentário e não fez questão nenhuma de esconder sai mensagem por meio da arte. Mesmo assim, foi uma obra criativa. As imagens mostradas neste filme são inquestionavelmente o que pensamos da Alemanha nazista do pré-guerra atualmente. A parada de seguidores saudando Hitler enquanto ele está em seu carro, as reuniões em massa de pessoas gritando “Sieg Heil!” continuamente enquanto Hitler e líderes partidários discursam, as apresentações da Frente de Trabalho e da Juventude Hitlerista, as águias expostas de forma proeminente para lembrar a glória da Roma Imperial e, talvez a parte mais dramática, a passagem messiânica do avião de Hitler sobre os céus nublados de Nuremberg, deixam o espectador hipnotizado pelo Führer e pelo Reich. Hitler é apresentado exatamente como ele queria ser visto, e nenhum outro filme foi feito sobre ele mais tarde.

A superioridade do corpo ariano é exemplificado no filme Olympia, que retrata as Olimpíadas de Verão em Berlim em 1936.  Como o auge da competição atlética, os Jogos Olímpicos foram a oportunidade ideal para os nazistas finalmente apresentarem o quão superior a raça ariana eram em comparação com as outras raças do mundo, e num certo sentido eles conseguiram isso, já que a Alemanha ganhou  mais medalhas aquele ano do que qualquer outro país. O filme, dirigido por Riefenstahl, tem quatro horas de duração e levou dois anos para ser concluído, sendo dividido em duas partes: o Festival da Beleza e o Festival da Nação. Olympia é um filme longo que procura mostrar o físico alemão como perfeição. Hitler acreditava piamente que a tribo dórica[4] dos antigos gregos deve ter emigrado originalmente do norte germânico e é óbvio que seu objetivo era retornar àquela suposta perfeição. Em uma ocasião, ele viu uma nadadora atraente e disse “Que corpos esplêndidos podemos ver hoje. É somente no nosso século que os jovens podem novamente se aproximar dos ideais helenísticos através dos esportes.”

A retratação dos bolchevistas no filme nazista era muito inconstante. Até antes do pacto de não-agressão com a União Soviética ser assinado, os nazistas retratavam os bolchevistas como sub-humanos (Untermensch). Após a assinatura do tratado, os russos eram mostrados sob uma luz mais simpática em filmes como “O Chefe dos Correios” e “Bismarck”. Os filmes anticomunistas voltaram à moda quando Hitler invadiu a Rússia em 1941. Por outro lado, os britânicos eram outro inimigo/aliado que eram retratados de forma prolífica. Antes da Segunda Guerra Mundial, os britânicos eram geralmente lembrados com respeito. Após a Grã-Bretanha declarar guerra à Alemanha em 1939, a representação do inglês médio mudou drasticamente. O filme antibritânico/antissemita “As Ações dos Rothschilds em Waterloo” descrevia uma conspiração judaica e o mito da “plutocracia britânica”. Este mito explicava que os plutocratas capitalistas malvados controlavam a Grã-Bretanha nos bastidores, e que estes homens fracos e facilmente controláveis eram influenciados pela judiaria internacional. O filme fala a respeito de uma família judia com tradição bancária (os Rothschilds) que, na mente dos nazistas, estavam controlando o mundo através das finanças internacionais.

Um breve olhar sobre os exemplos mais infames da produção e administração cultural nazistas pode nos deixar com a impressão que, consistente com as concepções dos anos imediatos do pós-guerra, as artes no Terceiro Reich eram controladas rigorosamente pelo Estado, artistas tinham que subscrever os princípios da ideologia nazista, Hitler interferia constantemente nas questões culturais e quaisquer produtos artísticos do Terceiro Reich eram necessariamente deturpados e inferiores. Pesquisas recentes desde os anos 1990 mudaram radicalmente alguns desses pontos de vista e colocaram a cultura nazista num contexto mais apropriado. Apesar destes avanços e as décadas de debate histórico que desmascararam os velhos paradigmas, muitas presunções ainda se mantêm firmes nas discussões sobre arte e seus criadores. A persistência dessas presunções especialmente nas artes pode ser explicada por uma série de considerações: a necessidade da comunidade artística, assim como do público em geral, de acreditar que, exceto alguns oportunistas desprezíveis, os artistas eram seres moralmente superiores e não colaborariam com um regime bárbaro, exceto se fossem forçados; a necessidade de criar um modelo antinazista de vida artística e cultural que serviria como um padrão de sofisticação desde o fim da guerra; a necessidade de um grande número de exilados em mostrar aos países que os acolheram de que eles eram diferentes dos nazistas e, acima de tudo, a necessidade de acreditar que nem artistas e suas respectivas artes poderiam prosperar em uma atmosfera de crimes, racismo, degradação, militarismo e demagogia.
                  
Notas:

[1] Hagiografia é um tipo de biografia que consiste na descrição da vida de algum santo, beato e servos de Deus proclamados por algumas igrejas cristãs, sobretudo pela Igreja Católica, pela sua vida e pela prática de virtudes heróicas.

[2] Kitsch [quitch] é um termo de origem alemã usualmente é empregado nos estudos de estética para designar uma categoria de objetos vulgares, baratos, de mau gosto, sentimentais, que copiam referências da cultura erudita sem critério e sem atingirem o nível de qualidade de seus modelos, e que se destinam ao consumo de massa.

[3] A Staatliches-Bauhaus foi uma escola de design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda na Alemanha. A Bauhaus foi uma das maiores e mais importantes expressões do que é chamado Modernismo no design e na arquitetura, sendo a primeira escola de design do mundo.

[4] Os dóricos (ou dórios) foram uma das três principais tribos em que os antigos gregos dividiam a si próprios, ao lado dos jônicos e eólicos. Os dóricos quase sempre são referenciados na literatura grega antiga apenas como "os dóricos"; a primeira menção feita a eles data da Odisseia onde eles são encontrados como habitantes da ilha de Creta. Os dóricos se distinguiam pelo seu dialeto dórico e por suas tradições sociais e históricas características. No século V a.C. os dóricos e os jônicos, representados respectivamente pelas cidades-Estado de Esparta e Atenas, eram as duas etnias mais importantes politicamente, e o conflito entre as duas levou à Guerra do Peloponeso.

Fontes:

Heskett , John . Art and Design in Nazi Germany. History Workshop, No. 6 (Outono, 1978), pp. 139-153.

Potter, Pamela M. The Arts in Nazi Germany: A Silent Debate. Contemporary European History, pp.585-599.

Goodell, Sean. Cinema as Propaganda during the Third Reich. Historia: the Alpha Rho Papers, pp. 143 – 164.


domingo, 28 de dezembro de 2014

O Mito da Tradição Judaico-Cristã

Adam Zagoria-Moffet


Nos Estados Unidos, é comum escutar referências frequentes e apaixonadas ao conceito de uma cultura, ética ou valores “judaico-cristãos”.  Qualquer resenha simplista da mídia americana demonstrará que o conceito é usado em ambos os lados do corredor proverbial – este ideal nebuloso judaico-cristão é evocado na defesa tanto da agenda liberal quanto da agenda conservadora de forma rotineira. Raramente esta fusão entre Judaísmo e Cristianismo parece ser questionada. Com muita frequência, ela é vendida como sendo representante do sistema de crenças dos fundadores da América (os quais eram, de fato, totalmente idiossincráticos em suas doutrinas religiosas). Apesar de sua onipresença no discurso político, acredito que o conceito da tradição judaico-cristã é bizarro, impreciso e, o mais importante, perigoso.

Vamos começar com o bizarro: apesar de o termo ter aparecido pela primeira vez em meados do século XIX, ele somente ganhou sua implicação atual – qual seja, de um sistema de valores e moral compartilhado – nos anos 1940. O presidente Eisenhower tornou o conceito um termo comum quando ele conectou-o com os “Pais Fundadores” em um discurso de 1952:

“Todos os homens são dotados pelo seu Criador.” Em outras palavras, nossa forma de governo não tem sentido a menos que ele seja fundamentado em uma fé religiosa profunda, e não me importo qual seja ela. Entre nós, é claro, é o conceito judaico-cristão, mas pode ser uma religião onde todos os homens sejam criados iguais.

Para o astuto estudioso de História, a declaração do presidente Eisenhower parece incrivelmente bizarra sob a ótica do equilíbrio das relações judaico-cristãs. Não há praticamente nenhum precedente qualquer para o Judaísmo e o Cristianismo compartilharem um núcleo comum de crenças, práticas ou moral. Além disso, há um bom argumento a ser feito que a fundação completa da Civilização Ocidental (que é mais ou menos contérmino com a Cristandade) é baseada em oposição ao Judaísmo e aos seus valores (por exemplo, o trabalho de David Nirenberg, “Antijudaísmo: a Tradição Ocidental”). A história excessiva da violência religiosa cristã contra os judeus, da Antiguidade até os tempos atuais, incluindo libelos de sangue, as Cruzadas, pogroms, expulsões e queima de livros, todos testemunham a rejeição altamente enraizada e ódio aos judeus pelos cristãos. Mesmo proeminentes pais da Igreja João Crisóstomo e Tertuliano[1] definiram o Cristianismo como a antítese do Judaísmo. O texto infame de Crisóstomo Adversus Judaeos contém a seguinte pérola:

“O povo judeu foi movido pelo seu alcoolismo e sua obesidade à maldade suprema; eles se esquivaram, eles falharam em aceitar o comando de Cristo nem eles aceitaram seguir Seus ensinamentos. Um profeta deu a entender isto quando ele disse: “Israel é tão obstinado e teimoso quanto uma novilha.” Apesar de tais bestas serem despreparadas para o trabalho, elas são preparadas para matar. E isto é o que acontece com os judeus: enquanto eles mesmos tornam-se despreparados para o trabalho, eles se preparam gradativamente para o massacre. Por este motivo Cristo disse: “Mas quanto a meus inimigos, que não querem ver-me reinando sobre eles, traga-os aqui e matem-nos diante de mim.” (Lucas 19:27) [2].

Lendo as declamações de Adversus Judaeos, é difícil de imaginar como qualquer um pode imaginar que possa haver uma concepção preexistente de uma visão judaico-cristã compartilhada do mundo. Além da natureza bizarra de tal afirmação, ela é também chocantemente imprecisa. O sistema de valores judaico-cristãos que os comentaristas políticos americanos adoram fazer referências não tem nenhum precedente na história (de fato, o extremo oposto), mas ele também não tem fundamento nos sistemas teológicos e éticos das duas Fés. Os defensores do uso do termo “judaico-cristão” como um adjetivo aceitável falham no núcleo de seu argumento – que o Judaísmo e o Cristianismo compartilham valores comuns – é essencialmente mentiroso.

É impossível comparar adequadamente dois sistemas teológicos extremamente desenvolvidos – nem mesmo em um trabalho de muitos volumes, imaginem em uma postagem de blog. Em nome da brevidade, simplesmente considere alguns princípios básicos de cada Fé. Lei, salvação, pós-vida, pecado, hierarquia, ritual, monoteísmo – mesmo crença, fé e prática – quase todo componente de uma autêntica prática cristã e uma autêntica prática judia diferirá em um modo elementar. Se desejarmos sermos precisos (o que deveria ser), simplesmente não tem nenhum sentido considerar Judaísmo e Cristianismo como compartilhando a mesma visão sobre Deus e o mundo.

Mais importante, o conceito de um sistema de valores judaico-cristãos é perigoso. Antes que se pense que os dias da teologia supersessionista passaram[3], a fascinação contemporânea com a fusão do Judaísmo e o Cristianismo pode ser entendida como uma continuação das primeiras tentativas supersessionistas. Stephen Feldman coloca bem a questão da seguinte forma:

“Para os cristãos, o conceito de uma tradição judaico-cristã sugere confortavelmente que o Judaísmo progride em direção do Cristianismo – que o Judaísmo está de alguma forma completado no Cristianismo. O conceito de uma tradição judaico-cristã flui da teologia cristã da supersessão, onde a Aliança Cristã (ou Testamento) com Deus substitui a Aliança com o povo judeu. A Cristandade, de acordo com este mito, reforma e substitui o Judaísmo. O mito portanto implica, primeiro, que o Judaísmo precisa de reforma e substituição, e segundo, que o judaísmo moderno permanece simplesmente como uma ‘relíquia’. Mais importante ainda, o mito da tradição judaico-cristã obscurece insidiosamente as diferenças reais e significativas entre Judaísmo e Cristianismo.”

Fundir Judaísmo com Cristianismo no modo que vemos hoje na América é simplesmente o meio polêmico de eliminar o Judaísmo e definir o mundo ocidental como aquele que conquistou o Judaísmo.

Mesmo que fossemos da opinião que é produtivo e sábio falar a respeito de uma cultura interreligiosa  compartilhada, ela não seria definitivamente Cristã ou Judia. Onde tal coisa fosse um conceito útil, a única encarnação potencialmente precisa, seria uma cultura judaico-mulçumana. O Islã e o Judaísmo na verdade compartilham conceitos básicos sobre lei, comportamento, fé, natureza de Deus, obrigações das pessoas, governança da sociedade, etc. Há algumas exceções notáveis para suas tradições surpreendentemente semelhantes, mas no geral sua moral, ética e valores são consideravelmente mais semelhantes do que diferentes. E elas são certamente mais semelhantes entre si do que em relação ao Cristianismo. Mesmo Slavoj Zizek em “Uma Olhada nos Arquivos do Islã” escreve:

Falamos geralmente de uma Civilização Judaico-Cristã – talvez, já chegou a hora, especialmente em virtude do conflito no Oriente Médio, de falar de uma civilização Judaico-Mulçumana como um eixo de oposição à Cristandade.

No final, nenhuma tentativa de tratar duas culturas diferentes como uma única é produtiva ou prática – mas se o fizermos há poucos motivos (exceto do supersessionismo e antijudaísmo) de tentar fundir Cristianismo e Judaísmo. Quando falamos de uma civilização judaico-cristã, diminuímos e colocamos em risco tanto o Judaísmo quanto o Cristianismo, e não fazemos nenhum favor a elas ao continuar acreditando em tal ideia.

Notas:

[1] João Crisóstomo (c. 347 - c. 407), Patriarca de Constantinopla, é conhecido como um pregador, teólogo e liturgista. João é conhecido por ser contra o abuso da riqueza, pela defesa do auxílio aos pobres, pela veneração e sua relação com o Papa Inocêncio I é um exemplo do primado papal. Quinto Setímio Florente Tertuliano (em latim: Quintus Septimius Florens Tertullianus; c. 160 - c. 225), se converteu ao cristianismo antes de 197, foi um escritor prolífico de apologética, obras teológicas e ascéticas. Ele era filho de um centurião romano. Tertuliano era um advogado em Roma.

[2] O verso é parte de uma parábola que Jesus ensinou. A parábola parecia querer ensinar sobre o Julgamento de Deus nesta questão. Ela não sugere que o governo dos homens deveria sequer seguir este caminho.  Jesus apenas usa o que poderia e frequentemente acontecia para ilustrar um aspecto do governo supremo de Deus. Ver Lucas, Capítulo 19, versículos 11 a 27.

[3] A teologia da substituição (também conhecida como supersessionismo) essencialmente ensina que a Igreja substituiu Israel no plano de Deus. Os aderentes à teologia de substituição acreditam que os judeus não sejam mais o povo escolhido de Deus e que Deus não tenha planos futuros específicos para a nação de Israel. Todas as opiniões diferentes do relacionamento entre a Igreja e Israel podem ser divididas em duas áreas: ou a Igreja é a continuação de Israel (Teologia da Substituição / Teologia do Pacto), ou a Igreja é completamente diferente e distinta de Israel (Dispensacionalismo / Pré-milenismo).

http://www.stateofformation.org/2014/04/the-myth-of-a-judeo-christian-tradition/

O Zelo dos Cristãos

Edward Gibbon

Extraído do livro "Os Cristãos e a Queda de Roma" (Capítulos 15 e 16 de Declínio e Queda do Império Romano, 1778).

"Já tivemos ocasião de descrever a harmonia religiosa do mundo antigo e a facilidade com que as nações mais diversas, e mesmo hostis, abraçavam, ou pelo menos respeitavam, as superstições umas das outras. Um só povo se recusou a partilhar desse intercãmbio comum da humanidade. Os judeus, que durante as monarquias assíria e persa haviam definhado por longo tempo na condição de seus mais desprezíveis escravos, emergiram da obscuridade sob os sucessores de Alexandre... A casmurra obstinação com que mantinham seus ritos peculiares e suas maneiras antissociais parecia assinalá-los como uma espécie diferente de homens, que audazmente professavam ou que mal escondiam sua implacável aversão ao resto da humanidade... Embora a lei lhes tivesse sido dada entre trovões no monte Sinai, e as marés do oceano e o curso dos planetas se suspendessem para a conveniência dos israelitas, e castigos e recompensas temporais fossem consequências imediatas de sua piedade ou desobediência, eles voltavam sempre a rebelar-se contra a majestade visível de seu Rei Divino...

A religião judaica se adequava admiravelmente à defesa, mas nunca à conquista; e é provvável que o número de seus prosélitos nunca tivesse sido muito superior ao dos seus apóstatas... A conquista de Canaã se fez acompanhar de tantos acontecimentos prodigiosos e de tantas circunstâncias sangrentas que os judeus vitoriosos foram deixados num estado de irreconciliável hostilidade com todos os seus vizinhos... A religião de Moisés parece ter sido instituída para um território determinado, assim como para uma única nação... Suas peculiares regras relativas a dias, alimentos e variegadas observãncias, triviais mas trabalhosas, constituíam motivos de fastio e aversão para as demais nações, a cujos hábitos e predisposições elas se opunham diametralmente. por si só, o doloroso e até perigoso rito da circuncisão era capaz de fazer um prosélito voltar da porta da sinagoga.


Nessas circunstâncias, o cristianismo se oferecia ao mundo armado da força da lei mosaica e liberto do peso das suas cadeias... Admitia-se a divina autoridade de Moisés e dos profetas, inclusive como a mais firme base da cristandade... À lei cerimonial, que consistia apenas em símbolos e figuras, sucedeu um culto espiritual e puro igualmente adaptado a todos os climas e a todas as condições humanas; a iniciação pelo sangue foi substituída pela inofensiva iniicação pela água. A promessa do favor divino, em vez de confinar-se facciosamente à posteridade de Abraão, estendeu-se universalmente ao liberto e ao escravo, ao grego e ao bárbaro, ao judeu e ao gentio."