domingo, 10 de maio de 2015

[POL] Hitler como Líder Militar

Carole Chapman

History Review, Nº 71, dezembro 2011


Em setembro de 1938, o apaziguamento em ação na Conferência de Munique frustrou o desejo de Adolf Hitler por uma guerra europeia oriental limitada para destruir o Estado Tcheco. Hitler estava determinado que, durante a crise polonesa do verão seguinte, nada o desviaria de seu objetivo: a destruição da Polônia pela guerra. Entretanto, a guerra que se iniciou em setembro de 1939 não foi um conflito limitado que Hitler desejava e incluiu a Grã-Bretanha, junto com a França, em uma situação que não foi prevista pelo Führer. De 1939 a 1941, os britânicos exerceriam um papel crucial na estratégia de Hitler, já que ela implicava não somente na Grã-Bretanha, mas na URSS e nos EUA.

Esta situação surgiu em virtude da ocupação alemã da Boêmia e Morávia em março de 1939 (a Eslováquia tornou-se um estado fantoche independente). O desprezo de Hitler pelos líderes ocidentais foi alimentado por Munique: eles eram “pequenos vermes”. Contudo, ele calculou errado a resposta deles a suas ações em março de 1939. Os fundamentos do apaziguamento foram abalados. Hitler quebrou sua promessa de que ele não tinha mais nenhuma exigência territorial. Além disso, a noção de que suas políticas objetivavam somente unificar os povos de língua alemã foi exposta como uma ficção. Acima de tudo, estava claro que Hitler não podia ser confiado. O resultado foi uma garantia à Polônia, o próximo alvo de Hitler, pelas potências ocidentais.

O que Hitler lutou para evitar aconteceu. Ele pensou em usar pressão sobre os poloneses assim como o fez com sucesso sobre os tchecos, presumindo que eles entregariam Danzig e concederiam rotas extraterritoriais através do corredor polonês. A Polônia tornar-se-ia um satélite alemão, e útil em um ataque posterior à URSS.

Guerra

Durante a primavera e o verão de 1939, a diplomacia alemã objetivou isolar a Polônia e deter o envolvimento das potências ocidentais. Uma consequência disto foi a assinatura em maio do Pacto de Aço com a Itália. Entretanto, a situação do inimigo ideológico da Alemanha, a União Soviética, causava mais preocupações.

Era a Rússia que poderia interferir nas intenções de Hitler em relação à Polônia. Se ela pudesse ser impedida de se aliar com as potências ocidentais – uma possibilidade que a Grã-Bretanha e a França estavam relutantes de explorar – e se, além disso, ela pudesse ser persuadida a fazer um pacto com a Alemanha, então a Polônia estaria nas mãos de Hitler, com as garantias anglo-francesas totalmente inúteis. A Grã-Bretanha, em especial, seria significativamente enfraquecida.

Este foi o motivo por trás do Pacto nazi-soviético de agosto de 1939. Ele tornou inevitável uma guerra contra a Polônia, mas seria preciso um conflito de proporções maiores? Hitler, encorajado pelo Ministro do Exterior Ribbentrop, acreditava que isto era improvável. Porém, apesar de seus apelos aos poloneses para negociar, foi repetidamente afirmado que as potências ocidentais honrariam suas obrigações com a Polônia. As hostilidades foram iniciadas em 1º de setembro; no dia 3, Grã-Bretanha e França declararam guerra.

Hitler tinha agora começado uma guerra geral europeia que, como indicado no encontro de novembro de 1937 registrado no Memorando Hossbach, ele pretendia evitar até meados dos anos 1940. O Führer tinha feito um pacto com seu oponente ideológico, a União Soviética, e estava em guerra com a Grã-Bretanha, um país que ele admirava e retratava como um aliado natural do Reich no Mein Kampf. Ele tinha presumido que a Grã-Bretanha não entraria na guerra, apesar de que ele também foi descuidado da possibilidade. Se o intérprete Paul Schmidt está correto, quando Hitler soube da declaração de guerra britânica em 3 de setembro, ele virou-se raivosamente para Ribbentrop e disse, “O que faremos agora?”

A Guerra de Hitler?

Em 1º de setembro de 1939, Chamberlain, referindo-se a Hitler, disse na Casa dos Comuns: “A responsabilidade por esta terrível catástrofe está nos ombros de um único homem.” Qual foi o nível de responsabilidade de Hitler?

Claramente, as ações de outras nações ajudaram a conduzir Hitler ao ponto onde ele podia ameaçar a paz na Europa. Mesmo na época que as potências ocidentais perceberam a extensão das ambições do Führer, suas opções para contê-lo eram perigosamente limitadas.

Dentro da Alemanha, o poder pessoal de Hitler expandiu-se após 1933 às custas de outros grupos – notavelmente os nacionalistas conservadores – até que se tornou absoluto. No rescaldo do encontro de novembro de 1937, registrado no Memorando Hossbach, Hitler havia se voltado contra os militares e civis receosos, como indica o ano de 1938 como uma fase mais radical do regime. O ministro da guerra, Marechal Blomberg, e o chefe do exército, general Fritsch, saíram em virtude de escândalos, e Hitler assumiu a liderança pessoal da Wehrmacht em fevereiro. Ribbentrop substituiu o conservador Neurath como ministro do exterior.

É certo que, à época da crise dos Sudetos em 1938, elementos do exército, encabeçados pelo Chefe de Estafe General Ludwig Beck, foram apaziguados pelo aparente desejo de Hitler de não arriscar uma guerra contra a França e Grã-Bretanha. Contudo, nunca houve um esforço concentrado para se opor ao Führer, e o próprio Beck, uma figura crescentemente isolada, demitiu-se em agosto de 1938. De qualquer forma, o comportamento das potências ocidentais em Munique acabou com qualquer oposição que existisse a Hitler na Alemanha. À medida que a guerra se aproximava em 1939, os opositores conservadores do Führer estavam sem comando e incertos do modo como proceder.

Dentro da hierarquia nazista, perspectivas diferentes eram representadas por Göring e Ribbentrop. O primeiro foi influente na época de Munique, clamando pela aceitação de um acordo. Esta foi uma posição que subsequentemente manchou sua reputação com um Hitler que acreditava que havia sido enganado de sua guerra. Em 1939, Göring permaneceu convencido de que uma guerra com a Grã-Bretanha deveria ser, pelo menos, evitada e culpou Ribbentrop pela falha nesta estratégia. Entretanto, seja qual for a diferença na ênfase, Göring era o vassalo subserviente de Hitler.

O próprio Ribbentrop era arrogante em sua certeza de que os britânicos não lutariam pela Polônia. Movido em parte pelo ressentimento em relação ao tratamento que teve enquanto era embaixador na Grã-Bretanha (1936 – 1938), ele era certamente um beligerante. Como tal, ele ajudou a influenciar Hitler em seu erro em relação à política britânica. Contudo, uma vez mais, não pode haver dúvidas sobre a subserviência do ministro do exterior para com o Führer.

Assim, nas palavras de Ian Kershaw, “Hitler decidiu”. Pressões externas, derivadas do curso ambicioso, visionário, com o qual o Führer havia assumido as rédeas da política externa, foram reforçadas pelos elementos de seu próprio estado psicológico. À medida que atingia os 50 anos, Hitler, um hipocondríaco, estava consciente das restrições de tempo e da necessidade de agir antes que a situação se tornasse mais ameaçadora para a Alemanha. Dado que ele acreditava que o futuro da Alemanha poderia ser somente assegurado pela guerra, e que seus inimigos, a Grã-Bretanha e a França, estavam agora se preparando para um conflito, guerra em 1939, e como se desenvolveu depois disso, era uma função da personalidade de Hitler e do culto em torno dele.

“A Guerra Falsa”: Paz no Ocidente?

Com a rápida derrota da Polônia no outono de 1939, e a implantação do Pacto nazi-soviético, Hitler se voltou para as potências ocidentais. O Führer esperava que, tendo presenciado este triunfo da Wehrmacht, os britânicos e franceses pudessem ter bom senso e chegar a um acordo. Afinal, eles não moveram um dedo para ajudar a Polônia. Emissários começaram, portanto, a chegar a Berlim durante setembro e outubro. Estas conversações estavam centradas na paz do vencedor, com o retorno das colônias alemãs e, especialmente, a liberdade para avançar no leste que Hitler sempre quis. Tais ideias continuaram a surgir em 1940. Hitler estava sendo sério? Parecia que sim, apesar de que ele tinha poucas esperanças sobre sua aceitação, particularmente quando o Gabinete britânico anunciou que estava se preparando para uma guerra que poderia durar pelo menos três anos. Hitler sabia que as potências ocidentais aguardariam até que eles pudessem completar seus programas de rearmamento. Quando este ponto fosse alcançado, seria perigoso para a Alemanha. Segurar o poder militar francês, mas não o britânico, e percebendo que, atrás dos britânicos, pairava a ameaça (ainda não consumada) do envolvimento americano, Hitler apostou suas fichas ao ter o preparo militar para um ataque ao ocidente no outono. Havia uma clara suposição de que a derrota da França obrigaria a Grã-Bretanha a chegar a um acordo.

Adotando a política ambígua de oferta de paz e ameaça, Hitler fez um discurso no Reichstag em 6 de outubro de 1939 delineando a perspectiva de uma conferência das nações principais para discutir os problemas da Europa de paz e segurança. Entretanto, a divisão da Polônia entre a Alemanha e a Rússia permaneceria. Esta seria, portanto, a paz nos termos do Führer, com a ameaça de morte e destruição se as potências ocidentais recusassem. O grupo “belicoso” de Churchill e seus apoiadores foi escolhido para determinado abuso. A “oferta” de Hitler foi rejeitada por Chamberlain em 12 de outubro, provavelmente como previsto. Hitler, portanto, terminou o ano com o foco firme de um ataque iminente no oeste, o qual foi contestado como sendo prematuro pelo exército. De fato, houve vários atrasos devido ao clima ruim, mas não foi somente até 16 de janeiro de 1940 que o Führer finalmente estabeleceu-o para a primavera. Em 1940, as consequências da falha de Hitler em limitar a guerra na Europa Oriental seriam assim enfrentadas de cabeça erguida.

1940: Vitória e Atoleiro

Se o período da “Guerra Falsa” não assegurou um acordo para Hitler com as potências ocidentais, ele mostrou que estas não eram capazes de iniciativas robustas. As 65 divisões francesas disponíveis para um assalto contra a Alemanha no ocidente em setembro de 1939 superavam em grande número as unidades da Wehrmacht que estavam comprometidas na Polônia, mas elas nunca foram colocadas em combate. A Força Expedicionária Britânica na França também era puramente defensiva. Claramente, se o apaziguamento morreu com as ações de Hitler em 1939, seu fantasma continuava a ameaçar a liderança das potências ocidentais, especialmente a França. O resultado foi precaução e fraqueza, prenunciando o rápido colapso diante da Blitzkrieg alemã na primavera de 1940. Neste sentido, os interlocutores da paz contínuos de Hitler podem ser atribuídos a mais do que a uma ilusão de sua parte. Entretanto, outros fatores indicam que o erro de cálculo inicial do Führer, particularmente a respeito dos britânicos, continuou a ser influente.

Hitler sozinho não poderia moldar os eventos e encerrar a guerra. Isto era impossível a menos que a Grã-Bretanha fosse forçada à mesa de negociação ou derrotada militarmente. Porém, a Alemanha não estava equipada em 1940 para lutar uma guerra longa na qual os britânicos estavam claramente calculando. A Wehrmacht havia iniciado as hostilidades em setembro de 1939 com nenhum pensamento por meio de planos para uma guerra de grandes proporções, e nenhuma estratégia para uma ofensiva no Ocidente. Nestas circunstâncias, o fôlego que o exército alemão ganhou durante o intervalo 1939-40 foi crucial para preparar-se para o ataque contra a França. A Luftwaffe era a força melhor equipada das forças armadas. Contudo, mesmo ela tinha um programa de armamentos direcionado para 1942, não 1939. Com respeito à Marinha, a falta de acordo com a Grã-Bretanha, combinado com o sucesso diplomático crescente, fez com que Hitler se interessasse por ela no final dos anos 1930. O resultado foi o Plano Z de janeiro de 1939, no qual a insistência do Führer na construção de uma grande frota de batalha em 1944, ao contrário da preferência da Marinha por submarinos, que eram uma arma ofensiva melhor para ser usada contra a Grã-Bretanha, pareceu apontar não somente para uma luta contra a Grã-Bretanha, mas também o domínio dos mares no futuro e um conflito global, um ponto que voltou a ser pensado. Entretanto, o Plano Z foi interrompido no início da guerra e somente recomeçou em julho de 1940. Assim, dado que Hitler agora tinha que lutar o que era, sob muitos aspectos, a guerra “errada”, ele também tinha que fazer uma grande aposta. Esta foi mover todos os recursos disponíveis para a derrota da França. Tirar a Grã-Bretanha da guerra pelo isolamento após essa derrota era a principal estratégia de Hitler na primeira metade de 1940. Ela continuou a ser um fator dominante posteriormente.

Havia, é claro, algum grau de lógica na presunção de que, seguindo o espetacular avanço alemão na primavera de 1940 e a oferta de termos razoáveis, especialmente em relação ao império, a Grã-Bretanha aceitaria o inevitável até por autointeresse. Houve vozes importantes no país, como a de Lorde Halifax, que apoiavam tal ideia. Contudo, uma vez que a decisão foi tomada, ela arruinou a estartégia simples de Hitler. O Führer, assumindo que o autointeresse imediato poderia ser o único “princípio” na guerra e paz, subestimou a indubitável resistência e idealismo que surgiu na Grã-Bretanha após a marcha sobre Praga em 1939 e que, no verão de 1940, o novo Primeiro Ministro, Winston Churchill, foi capaz de articular junto ao povo. O “duelo” entre Hitler e seu arqui-inimigo, Winston Churchill, dominaria o verão. Seu resultado afetaria de forma vital o curso futuro da guerra.

Assim, apesar de em 1940-41 Hitler estar no auge do seu poder, especialmente e, relação ao seu triunfo sobre a França, sua inabilidade em concluir a guerra no Ocidente moldou o resto da guerra. De forma crucial, a decisão de direcionar o conflito para o leste antes que o Ocidente estivesse concluído retiraria da Alemanha o espaço para manobra. No final de 1941, as sementes da catástrofe começaram a dar frutos.

1940 – 1941: Guerra Mundial

Seguiu do atoleiro no Ocidente e da decisão, não obstante, de iniciar as hostilidades no leste, que duas potências impactaram na visão estratégica de Hitler: obviamente a União Soviética, mas também os Estados Unidos.

No contexto de 1940, a América não era um problema imediato para a Alemanha. Ela estava no momento dominada pelo isolacionismo e preocupada com as eleições presidenciais no outono. O envolvimento inicial dos EUA pode ser assim descontado. Porém, já que a Grã-Bretanha estava na guerra, a participação – pelo menos através de benevolente neutralidade – dos EUA, com seu imenso poder econômico, não poderia ser descartada. Esta era o maior motivo, portanto, para eliminar a Grã-Bretanha o mais rápido possível.

As visões amplas de Hitler sobre os Estados Unidos eram, de fato, confusas e fluidas. Seus discursos iniciais e escritos, incluindo o Mein Kampf, contém poucas referências a América além das denúncias de sua participação na Primeira Guerra Mundial e no tratado de paz. No final dos anos 1920, pontos de vista de uma ameaça de longo termo da América contra a Alemanha não eram comuns, e este era o contexto no qual Hitler expressou sua noção vaga sobre o conflito vindouro entre o império Euroasiático dominado pela Alemanha e os EUA, que é discutido no Segundo Livro de 1928 (n. do t.: a continuação do Mein Kampf). Era a visão de Hitler de que os EUA só poderiam ser derrotados por um estado europeu racialmente puro: a Alemanha Nazista. Entretanto, ele também acreditava que seria também do interesse da Grã-Bretanha colaborar contra a ameaça do Novo Mundo.                     
  
Mesmo assim, uma vez no poder, os pontos de vista de Hitler mudaram. A chegada da Depressão deixou os EUA como um Estado fraco, miscigenado e dominado pelos judeus que seria incapaz de deixar sua marca no conflito europeu. Sua única esperança residia em seu sangue nórdico, anglo-germânico, despertado pelo nazismo. No final dos anos 1930, o desgosto americano – particularmente de F. D. Roosevelt – pela política racial e religiosa nazista confirmou a avaliação de Hitler das deficiências dos americanos[1]. Ele não via ainda os EUA como rivais e sua visão permaneceu basicamente europeia. A ideia de um conflito futuro não tinha importância prática.

A questão dos pontos de vista de Hitler sobre os Estados Unidos[2] é, não obstante, conectada àquela de suas intenções finais sobre um estágio global. Uma discussão completa deste tópico está além do objetivo deste artigo, mas já foi notado que a estratégia naval de Hitler no final dos anos 1930 implicou em tal confronto, além daquele contra a Grã-Bretanha. Isto está de acordo com seu pensamento igualmente vago sobre os Estados Unidos. O que está claro é que, entre 1940 e 1941, o pensamento “global” de Hitler era largamente uma reação às circunstâncias que, se ele tivesse tornado realidade, estavam saindo de seu controle. Aqui, planejamento para uma guerra contra a União Soviética, que Hitler sempre quis ideologicamente, tornou-se estrategicamente direcionada pela necessidade de conduzir a Grã-Bretanha à conversações de paz, manter a América fora da guerra e, assim, concluir o conflito com a vantagem da Alemanha.

Resumindo, integral ao pensamento de Hitler entre 1940 e 1941 era um ataque contra a União Soviética. Ideologicamente, ela sempre foi o inimigo natural do Führer e, como explicado ainda no Mein Kampf, a fonte do futuro lebensraum (espaço vital) para o estado Nazista. As circunstâncias de 1939 garantiram um acordo com Stalin. Entretanto, isto não impediria um confronto posterior assim que a Grã-Bretanha tivesse sido eliminada. Quando esta última condição tornou-se inatingível, foi lançado o holofote sobre a URSS, tanto ideologicamente quanto, ainda mais, estrategicamente. Assim, em julho de 1940, com a França derrotada, mas a Grã-Bretanha desafiadora, Hitler considerou o inimaginável: uma guerra de duas frentes. O Chefe do Estafe Geral, general Halder, lembrou a avaliação do Führer em uma conferência militar em 31 de julho de 1940: “A Grã-Bretanha se apoia na Rússia e Estados Unidos. Se a Rússia for eliminada, a América também será perdida, pois a eliminação da Rússia aumentaria tremendamente o poder do Japão no Oriente... Decisão: a destruição da Rússia deve ser, portanto, tornada parte da luta. Primavera de 1941.”

No outono de 1940, conversações de paz com a Grã-Bretanha falharam e também a batalha pelo domínio de seus céus. A ajuda americana à Grã-Bretanha foi iniciada com um acordo destróieres por bases em setembro[3]. Tirar a Grã-Bretanha da guerra era urgente. Neste estágio, as opções de Hitler não estavam totalmente fechadas. Havia a possibilidade de forçar a Grã-Bretanha à mesa de negociação através de uma série de ataques contra suas bases no Mediterrâneo e Oriente Médio. Contudo, uma vez esta opção tenha desaparecido, o Führer só ficou com uma possibilidade. Em 18 de dezembro de 1940, a cruzada contra o “Bolchevismo Judaico” foi inserida em uma diretiva de guerra. Um ano depois, o progresso inicial da Operação Barbarossa, lançada em junho de 1941, foi interrompido[4].

Houve outro desenvolvimento significativo no outono de 1940. Ribbentrop era capaz agora de ressuscitar a ideia que ele havia promovido antes da guerra: um bloco antibritânico da Alemanha, Itália e Japão. As negociações começaram no final de agosto e resultaram na assinatura do Pacto Tripartite em setembro de 1940. As três potências concordavam em ajudarem-se mutuamente no caso de uma delas ser atacada por potências estrangeiras não envolvidas no conflito europeu ou sino-japonês. Enquanto isso poderia preocupar os soviéticos, o alvo claro era a outra “esperança” dos britânicos, os Estados Unidos[5].

É claro que o Pacto Tripartite não cobriu o ataque japonês aos americanos em Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Hitler declarou ao Reichstag em 11 de dezembro de 1941 que a Alemanha e a Itália se sentiam compelidas, de acordo com o Pacto, a declarar guerra contra os Estados Unidos. Isto era claramente uma inverdade: o Japão atacou os EUA. O Führer escolheu a guerra contra a América. À primeira vista, esta parece ser uma decisão incrível, mas ela é explicável pelo fato de que a visão de Hitler sobre os EUA novamente havia mudado.

Entre 1940 e 1941, Hitler ficou convencido que a América entraria na guerra em 1942 e, já que o reeleito Roosevelt aumentou seus esforços para ajudar a Grã-Bretanha, principalmente através do Lend-Lease a partir de março de1941, seus pontos de vista voltaram-separa a imagem da força americana. A guerra no leste, que estrategicamente objetivava em parte encerrar o desafio britânico e deter os EUA, atolou no inverno de 1941, mas deveria ser encerrada de modo que poder-se-ia tratar da América separadamente. O outro fator foi a visão de Hitler de que, antes de Pearl Harbor, uma guerra não-declarada já existia com os americanos no Atlântico. Uma declaração removeria a necessidade de agir com cautela na região.

Portanto, do ponto de vista de Hitler, a decisão de 11 de dezembro de 1941 tomou a forma de um elemento de inevitabilidade. A guerra com os EUA estava chegando de modo que o Führer anteciparia-a e tentaria tomar de volta a iniciativa ao declarar a guerra ele próprio. De fato, não havia nada de inevitável sobre a situação que a Alemanha havia alcançado no final de 1941. O desafio da Grã-Bretanha, a guerra contra a Rússia e a ameaça americana não estavam interconectados. Não obstante, o ponto de partida foi a postura britânica, os erros de cálculo de Hitler e seus esforços para resolver o problema que isso provocou. A consequência foi uma guerra mundial que a Alemanha não poderia ganhar.
     

Notas:

[1] Vale lembrar que leis raciais segregacionistas existiam nos EUA por volta desta época; que o programa de eugenia alemão foi baseado em estudos realizados primeiramente nos EUA; que Roosevelt só começou a trabalhar com judeus após assumir a presidência. O repúdio do povo americano aos conceitos religiosos praticados na Alemanha Nazista só surgiram após a divulgação por Roosevelt de um documento falso (elaborado pelo Serviço Secreto Britânico) que afirmava que o objetivo do regime nazista era o fim do Cristianismo. Enfim, a antipatia do povo americano pela Alemanha Nazista só apareceu após Hitler ter tomado a decisão desastrosa de declarar guerra aos EUA.

[2] Ver tópico “Hitler e a América”:


[3] A Grã-Bretanha forneceria suas bases militares ao redor do mundo como forma de pagamento pelos equipamentos militares.

[4] Ver tópico “Reviravolta na SGM: A Vitória do Exército Vermelho em Moscou”:

http://epaubel.blogspot.com.br/2013/01/sgm-reviravolta-na-sgm-vitoria-do.html

 

[5] Em virtude deste Pacto, a Alemanha declarou guerra aos EUA. No entanto, esperava-se a contrapartida dos japoneses, isto é, sua declaração de guerra à União Soviética. Caso os japoneses tivessem feito isso, Stalin teria sido obrigado a manter uma grande força militar no Oriente. Como o Japão manteve-se neutro, os soviéticos conseguiram deslocar milhões de soldados estacionados na região oriental do país para a parte ocidental, já que o Exército Vermelho fora massacrado na etapa inicial da Operação Barbarossa. Se os japoneses não tivessem traído a confiança dos alemães, provavelmente o resultado da guerra teria sido outro.


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terça-feira, 5 de maio de 2015

[POL] O Fascismo de Mussolini

Thomas Meakin

History Review Issue 59 December 2007


O assassinato de Benito Mussolini em 28 de abril de 1945 marcou o fim do regime de 26 anos do Fascismo italiano. Il Duce foi elevado ao auge da máxima popularidade desde os dias do Risorgimento[1] e Giuseppe Garibaldi, mesmo assim o destino do ditador na pequena vila de Giulino di Mezzegra representou uma morte infame para o “deus Sol” italiano.

O sucesso do movimento fascista pode ser atribuído à sua habilidade fundamental em evoluir em resposta à opinião pública italiana. Mussolini era adaptável em sua continuação da longa prática da política do transformismo. Entretanto, ele diferia de seus predecessores liberais em seu foco político. A política italiana não era mais somente restrita à elite conservadora e aos latifundiários, de modo que o regime fascista teve que consolidar sua posição através da propaganda direcionada para as massas populares. Assim, o fascismo italiano representou uma série de fachadas, mascarando as inadequações políticas, econômicas, sociais e militares que marcaram a ditadura desde o seu nascimento em 1919 e finalmente garantiu seu final.

Chegando ao Poder

Talvez o exemplo mais notável da tática reacionária adotada por Mussolini e pelo Fascismo italiano pode ser vista em sua transição através do espectro político entre março de 1919 e outubro de 1922. A falta de uma ideologia política definitiva permitiu à organização fascista adaptar-se ao clima político italiano continuamente variável que existia após a Primeira Guerra Mundial. O Fascio di Combattimento, ou Grupo de Combate, que foi estabelecido em Milão não representava um partido político, mas somente um movimento de revolucionários de ocasião que estavam insatisfeitos com o status quo. Este bando florescente de militantes, cujo corpo constituinte principal era composto dos recentemente desmobilizados Arditi, expressava ideais sociais radicais e acreditava que eles ocupariam a extrema esquerda da política italiana. A publicação de Mussolini Il Popolo d´Italia permitiu ao grupo nacional-socialista-radical expressar sua opinião para as massas. Entretanto, nas eleições de 1919, os fascistas tiveram um desempenho pífio, ganhando somente 2% dos votos em Milão, e Mussolini começou a buscar meios alternativos para ganhar suporte e influência política.

Revoltas e violência socialistas em setembro de 1920 deram aos fascistas uma oportunidade ideal para mostrar sua vitalidade e dinamismo, e seus ataques aos trabalhadores socialistas atraíram empresários conservadores. Em uma guinada política verdadeiramente importante em sua carreira, Mussolini percebeu que o poder só poderia ser alcançado apelando-se ao medo italiano do socialismo. Ele adotou pontos de vista gradativamente à direita, combatendo tanto o anticlericalismo e o republicanismo em setembro de 1921, e começou a isolar a minoria do Fascismo dos membros socialistas, enquanto que líderes locais, ou Ras, como Italo Balbo, Roberto Farinacci e Dino Grandi, estabeleciam controle dentro das áreas rurais do norte e centro da Itália.

O movimento fascista em expansão começou a atrair todas as camadas da sociedade, muitas das quais haviam sofrido nas mãos da militante federterra[2] socialista ou aqueles cuja prosperidade econômica foi prejudicada devido a imposições colocadas sobre eles pelos conselhos socialistas. O fascismo antissocialista criou genuinamente um movimento popular de massa, transformando o prospecto político de Mussolini no processo. O volte-vace[3] ideológico que foi assumido pelo Partido Fascista a partir de 1919 representava o desejo pelo sacrifício, e de fato uma ausência de, valores e crenças centrais em um esforço para alcançar o poder.

Em 1921, o uso fascista do squadrismo[4] dividiu o poder socialista em muitas áreas da Itália setentrional, ganhando enorme apoio do público italiano. Diante de uma entidade política desconhecida e instável, os políticos liberais, tais como Giovanni Giolitti, tantaram absorver o Partido Fascista em uma coalizão governamental de acordo com a política do transformismo[5]. Contudo, fortalecido pelo sucesso eleitoral de maio de 1921, no qual os fascistas ganharam 35 assentos no Parlamento, Mussolini se recusou a entrar na instituição a menos que ele fosse apontado Primeiro Ministro. Cercado pelas ameaças da violência fascista e a possibilidade de guerra civil, o Rei Victor Emmanuel II convidou Mussolini a formar um governo em 29 de outubro de 1922. Não obstante a ameaça de violência fascista, apesar de talvez ser genuína, não era certamente realista. Um Congresso Fascista foi realizado em 24 de outubro em Nápoles, onde Mussolini e os quatro Quadrumvirs[6], Balbo, Emilio de Bono, Cesare de Vecchi e Michele Bianchi, se encontraram para discutir a grande jogada que garantiria o poder aos fascistas. Em forte contraste com a pretendida “gloriosa Marcha sobre Roma”, apenas 10.000 dos 50.000 squadristi fascistas propostos apareceram nos locais designados. Confrontado com tamanha derrota, Mussolini organizou uma rota de fuga para a Suíça no caso de uma falha, um fato que demonstra o nível de confiança dos fascistas no movimento. Apesar disso, às duas horas da manhã de 29 de outubro de 1922, Mussolini recebeu um telegrama do Rei Victor Emmanuel II exigindo sua presença. Somente neste momento Mussolini surgiu da segurança relativa no lado norte do país.

Em sua chegada ao palácio real, ele cumprimentou o rei explicando, “Vim direto da batalha, que, felizmente, foi ganha sem banho de sangue.” Em 30 de outubro de 1922, 50.000 camisas-negras desfilaram ao lado das forças armadas regulares em frente de seu líder e do rei. A “Marcha sobre Roma” real, que ficou na história fascista como a revolução heroica através da qual eles tomaram o poder, foi somente completada após a indicação de Mussolini como Primeiro Ministro.

A Economia Italiana

Ao chegar ao poder em 1922, Mussolini herdou uma Itália economicamente pobre e dividida. Logo após Mussolini conseguiu consolidar seu poder e instigar um sistema econômico autárquico[7] que forneceria uma base para futura expansão militar. Para este objetivo, uma série de estratégias econômicas foi adotada para aumentar a prosperidade da nação italiana, enquanto ganhava apoio e respeito do exterior[8].     

A Batalha pela Lira foi criada para fortalecer o valor da lira, de 150 liras por libra esterlina em 1927 para 90, e reduzir o impacto da inflação contínua que estava dificultando o crescimento econômico. Mas o orgulho econômico na moeda era também um fator. Apesar do ressurgimento artificial da lira ter demonstrado a autoridade do regime e aumentado o prestígio internacional, as ramificações econômicas da política foram mal calculadas. O preço dos produtos italianos no exterior aumentou exponencialmente, assim dificultando as exportações e causando deflação posterior da moeda à medida que os mercados internacionais tiveram que compensar. Os padrões de vida para os italianos foram reduzidos, seguido por um corte de 20% nos salários imposto em 1932, aumentando a pobreza entre a população setentrional. Embora ostensivamente os ganhos imediatos da propaganda da Batalha da Lira tenham sido altos, à política faltava visão do futuro e acabou atrapalhando a indústria italiana.

Em um esforço para adaptar a economia italiana às necessidades de uma guerra futura, o Partido Fascista tentou reduzir a dependência italiana com os produtos importados. A Batalha do Grão, lançada em 1925, impôs altas tarifas sobre cereais estrangeiros, enquanto que o governo subsidiava a compra de maquinário e fertilizantes. Na década, a partir de 1925 as importações de trigo caíram 75%, e em 1940 o país quase alcançou a completa autossuficiência em cereais. Entretanto, estes ganhos econômicos vieram a um alto custo, já que as exportações caíram e a importação de fertilizantes falhou em manter o ritmo. A propaganda e os benefícios agrícolas da Batalha dos Grãos foram logo ultrapassados por um declínio na qualidade da dieta do italiano, e uma subsequente queda no nível de vida, especialmente no sul mais pobre.

A Terceira das batalhas econômicas de Mussolini foi a Batalha dos Pântanos, criada para aumentar a disponibilidade de terra agriculturável, demonstrar o dinamismo fascista e gerar emprego. O esquema foi introduzido em 1923. Trechos enormes de terras pantanosas anteriormente inabitáveis e transmissores de malária, tais como os Pântanos Pontine, foram drenados, enquanto que as novas cidades criadas de Aprilla, Latina e Sabaudia ganharam o louvor internacional do regime. “A recuperação de terras fascista não é somente uma defesa contra a malária,” proclamou um panfleto fascista de 1938, “é a nova função do Estado.” Na realidade, contudo, o projeto teve somente sucesso parcial. Somente 80.000 hectares foram recuperados, nem um sexto da área da Itália, como o governo insistia.

No total, a intervenção fascista na economia resultou em alguns ganhos, incluindo uma queda geral nos níveis de desemprego para somente 12.000 em 1938. Porém, as vitórias da propaganda não refletiam a situação econômica precária trazida pelas incursões burras, não planejadas e desorganizadas na economia a partir de 1925.

As Mulheres Italianas

A política social sob o Partido Fascista foi criada para alimentar uma nação militarista forte, que forneceria os recursos humanos necessários para ajudar a Itália a alcançar seu destino imperial tão sonhado. Mussolini insistiu que “lugar de mulher, tanto no presente quanto no passado, é no lar,” uma visão que foi responsável por sua campanha em reduzir o número de mulheres na força de trabalho e aumentar a população total. Em 1933, o Estado impôs restrições de cota em empresas públicas, alegando que as mulheres deveriam constituir menos de um décimo da força de trabalho; mais tarde, em 1938, este limite foi estendido para todas as companhias registradas italianas. A mulher ideal fascista deveria ser relativamente obesa e madura, diferentemente da imagem contemporânea de beleza criada por Hollywood nos anos 1930. De fato, o historiador ítalo-americano Gaetano Salvemini descreveu a campanha fascista para obrigar um papel “tradicional” para as mulheres como “A Batalha pela Obesidade”. Contudo, na realidade, o regime fascista teve que aceitar a posição das mulheres na força de trabalho como uma necessidade cultural e econômica. Apesar da percentagem de mulheres na força de trabalho total tenha caído entre 1921 e 1936, a percentagem de mulheres empregadas na indústria na realidade aumentou, de 23,6% para 24,1%.

A Batalha pelos Nascimentos objetivava aumentar a população da Itália para 60 milhões em 1950. As campanhas publicitárias, melhor saúde pública, prêmios financeiros e cerimoniais foram criados para estimular o povo italiano a ter mais filhos. Seguindo um período inicialmente sem sucesso, legislação draconiana foi aprovada no sentido de aumentar a pressão sobre as famílias para gerar bebês. Em 1931, o Código Penal Italiano incluiu “crimes contra a inteireza e saúde da raça” que vitimou sobretudo os solteiros. Mesmo assim, as taxas de nascimento continuaram a cair, e apesar de a população ter crescido para 45 milhões em 1940, em 1950 os níveis populacionais eram 12,5 milhões abaixo do objetivo fascista. Parece que as políticas fascistas em relação às mulheres foram um fracasso total.

Educação

No sentido de consolidar a posição do fascismo, Mussolini estimulou um programa de doutrinação através da educação e organizações juvenis. Imagens de Mussolini eram fornecidas a todas as salas de aula italianas, enquanto que estudantes recitavam o Juramento Fascista duas vezes ao dia, repetindo a frase “Acredito no gênio de Mussolini e em nosso Santo Pai Fascismo”. Em 1928, um livro escolar aprovado pelo governo foi introduzido em todas as escolas, com aulas em treinamento militar e cultura fascista com início em 1938. A partir de 1925, leis do emprego foram aprovadas que permitiam ao regime controlar professores e outros trabalhadores educacionais. O juramento obrigatório de lealdade, além do uso do uniforme fascista, foi introduzido em 1931, assim consolidando o fascismo na sociedade italiana.

Com exceção da educação, as organizações juvenis foram o método mais bem sucedido de inculcar os valores fascistas nas crianças italianas. A Opera Nazionale Balilla (ONB) consistia de numerosos subgrupos e esportes organizados, atividades físicas e militares para crianças entre 6 e 18 anos. Em 1929, cerca de 60% da juventude setentrional era membro, apesar de a proporção ser consideravelmente menor no sul. Contudo, é quase certo que muitas atividades realizadas pela ONB permitiram às crianças oportunidades que, de outro modo, não teriam sido possíveis, a introdução da participação compulsória em 1935 catalisou o desenvolvimento de um clima de ressentimento e desilusão em torno das organizações juvenis fascistas. Além disso, o impacto ideológico de tais grupos é difícil de avaliar dado o predomínio de movimentos juvenis de oposição, como os Escoteiros Católicos. A rapidez na qual o apoio ao fascismo desapareceu em seguida à deposição de Mussolini em 1943 é claramente relevante aqui.

O estabelecimento da Opera Nazionale Dopolavoro (OND) em 1925, ilustra as aspirações totalitárias do regime. A OND fornecia  instalações de lazer e assist~encia financeira àqueles membros do público italiano que estavam em situação precária. As férias subsidiadas e excursões oferecidas demonstravam um golpe sem paralelos de propaganda nacional e internacional para o Partido Fascista. Entretanto, apesar do sucesso inicial, mostrado pela associação impressionante de 3,8 milhões de pessoas em 1939, os ganhos feitos não foram consolidados eficientemente. Como John Whittam diz, a OND era “tão popular precisamente porque ela permitiu que milhões de italianos aproveitassem os recursos sem a obrigação de qualquer comprometimento com as práticas e ideais do Fascismo.”

Política Externa e Guerra

Mussolini havia determinado seus objetivos de política externa logo no início do poder: ele desejava aumentar a influência italiana nos Bálcãs, Mediterrâneo e África Ocidental, além de alcançar uma posição internacional comparável à da Grã-Bretanha e França. Os anos iniciais de seu regime podem ser lembrados como um sucesso; ele começou a estabelecer a Itália como uma grande nação, enquanto tentava estender a influência dela na Albânia por meio de governantes fantoches, como Ahmed Zog. Entretanto, à medida que as relações europeias deterioraram nos anos precedentes à Segunda Guerra Mundial, a posição do Fascismo italiano começou a aparecer gradativamente insustentável em um clima internacionalmente hostil. Uma série de erros diplomáticos, incluindo o impacto negativo político e humanitário da guerra com a Abissínia e sua falha em julgar corretamente a resposta franco-britânica à sua postura imperial, serviu no final para lançar Mussolini numa aliança com Adolf Hitler e conflito futuro.

Durante o período fascista, as forças armadas italianas foram glorificadas e reverenciadas, mas a realidade foi bem diferente. Com a possibilidade de guerra em 1939, os recursos militares italianos eram severamente faltantes: 35 das 80 divisões do exército estavam equipadas com fuzis de 1891; o exército tinha somente 1.500 tanques e eles tinham combustível para somente 5 meses; e o caça italiano Fiat CR42 era comparativamente obsoleto e tecnologicamente inferior a outras aeronaves. Quando o Chefe de Estafe do Exército Graziani reclamou em maio de 1940 que havia somente 1,3 milhão de fuzis, muitos sem baionetas, apesar da ostentação de Mussolini de 8 milhões, o Duce lhe disse para não se preocupar já que o exército servia apenas para espetáculo. A lastimável situação dos militares italianos, quando comparada a nações europeias similares, era uma consequência direta de uma total falta de investimentos pelo regime fascista. Mussolini preferia manter uma pequena, mas bem treinada, força para impressionar dirigentes estrangeiros, tal como Hitler durante sua visita de maio de 1938, ao invés de apoiar uma força grande e cara.

A Igreja

Os Pactos Lateranenses de 1929 encerraram a disputa de 70 anos entre a Igreja e o Estado e, aos olhos de muitos italianos, representa o maior feito de Mussolini e do Partido Fascista. Sob os Pactos Lateranenses, a Igreja obtinha total soberania sobre a cidade do Vaticano, além de receber poderes limitados em assuntos do governo, enquanto o Papa Pio XI reconhecia o Estado italiano como uma entidade legítima.

A importância dos Pactos Lateranenses tanto para a longevidade do regime quanto para o nível de apoio que ele recebeu em casa e no exterior não deve ser subestimado. Mussolini foi saudado como o restaurador do poder da autoridade terrena para Il Papa. Mesmo assim, apesar de a ferida entre a Igreja e o Estado ter sido aparentemente cicatrizada, a aliança não duraria. A radicalização crescente do Partido Fascista trouxe uma condenação áspera por parte do Vaticano, como mostrado no conflito entre os grupos juvenis rivais Ação Católica e a ONB. À medida que a situação social e econômica dentro da Itália deteriorava no final dos anos 1930, críticas abertas da Igreja tornaram-se mais comuns, com o Papa emitindo a encíclica Non Abbaiamoso Biscogno e outros materiais inflamatórios no jornal do Vaticano L´Obsservatore Romano. Quando a sociedade italiana mergulhou no caos, a Igreja onipresente cresceu em uma força formidável de oposição que danificaria irremediavelmente a reputação do Partido fascista e de Mussolini dentro da Itália.

Conclusão

O fascismo italiano indubitavelmente teve um número de sucessos isolados, que até hoje permanecem como um feito impressionante. De 1922 até o início dos anos 1940, o Partido Fascista, e especificamente a liderança de Benito Mussolini, facilitou o desenvolvimento de uma nação italiana mais unificada do que em qualquer outro tempo em sua história. Mussolini conseguiu, até certo ponto, reparar as desigualdades e disparidades que atrapalharam a política italiana desde 1870. Contudo, cada vez mais, o Estado Fascista falhou em resolver uma grande agenda de assuntos, desde a parte social até a militar. Políticas e iniciativas foram colocadas no assunto do dia apenas para estarem lá, na esperança de atingir o objetivo de Mussolini de tornar a Itália grande, respeitada e temida. A legislação e negociação eram continuamente negligenciados provocando a perda de suas potencialidades, e quaisquer vitórias menores serem desperdiçadas.

A popularidade dos fascistas pode ser atribuída à sua implantação percebida de numerosas políticas revolucionárias sociais e econômicas que aparentemente sinalizavam para a aurora de uma nova era para a Itália. Contudo, a percepção pública do regime era muito longe da realidade, e, neste caso, o fascismo italiano representou um caso claro de “estilo sobre a substância”. Finalmente, a tentativa de Mussolini de garantir sua posição dentro da Itália e Europa através somente da propaganda conduziu à desintegração da nação italiana com o início da Segunda Guerra Mundial e a morte eventual do fascismo italiano.

            
Notas:

[1] O Risorgimento (em português: Ressurgimento) é o movimento na história italiana que buscou entre 1815 e 1870 unificar o país, que era uma coleção de pequenos Estados submetidos a potências estrangeiras. Na primeira fase do Risorgimento (1848-1849), desenvolveram-se vários movimentos revolucionários e uma guerra nacionalista contra o Império Austríaco, mas concluiu-se sem modificação do statu quo. A segunda fase, em 1859-1860, prosseguiu no processo de unificação e concluiu com a declaração da existência de um Reino de Itália. Completou-se com a anexação de Roma, antes a capital dos Estados Pontifícios, em 20 de setembro de 1870.

[2] Uma espécie de MST italiano, criado em 1901.

[3] Volte-vace é uma mudança total de posição, tanto em política quanto em opinião.

[4] Esquadrões é o termo usado para descrever um fenômeno característico do início do fascismo italiano, que consiste na prática da luta política dos esquadrões fascistas de ação entre 1919 e 1924.

[5] Transformismo se refere ao método de criar uma coalizão de governo centrista flexível que isolou tanto da extrema esquerda quanto da direita na política italiana após a unificação (1871), mas que ocorreu antes da ascensão de Benito Mussolini e do Fascismo. Um dos políticos mais bem sucedidos foi Giovanni Giolitti, que tornou-se Primeiro Ministro em cinco ocasiões diferentes ao longo de mais de 20 anos. Sob sua influência, os liberais não se desenvolveram como um partido estruturado. Eles eram, ao invés disso, uma série de grupos informais sem vínculos partidários. Entretanto, o transformismo ficou associado à corrupção. Ele foi visto como sacrificando os princípios e políticas para ganhos de curto prazo. O sistema do transformismo teve pouco apoio e parece ter criado uma lacuna enorme entre a Itália “legal” (parlamentar e política) e a Itália “real”, onde os políticos tornaram-se cada vez mais isolados.  

[6] Na Roma antiga, quadrumvirus era um cargo eletivo designado a quatro cidadãos tendo poder de polícia e legal. No início do Fascismo italiano, era um grupo de quatro líderes que lideraram a Marcha sobre Roma de Mussolini em outubro de 1922.

[7] Autarquia é a qualidade de ser autossuficiente. Geralmente, o termo é aplicado a Estados políticos ou seus sistemas econômicos. A Autarquia existe sempre que uma entidade pode sobreviver ou continuar suas atividades sem ajuda externa ou comércio internacional. Se uma economia autossuficiente também se recusa a ter comércio com o mundo exterior então ela é chamada de economia fechada. A Autarquia não é necessariamente um fenômeno econômico; por exemplo, uma autarquia militar seria um Estado que poderia defender-se sem ajuda de outro país, ou poderia fabricar todas as suas armas sem quaisquer importações do mundo exterior. A Autarquia pode ser considerada ser a política de um Estado ou outra entidade quando ele busca ser autossuficiente como um todo, mas também pode ser limitado a um campo restrito tal como a posse de uma matéria-prima essencial. Por exemplo, muitos países têm uma política de autarquia em relação a alimentos e água por motivos de segurança nacional.

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terça-feira, 28 de abril de 2015

[SGM] Os Desertores

Laura Collins

Dailymail, 11/06/2013


Nas semanas seguintes à libertação dos nazistas, Paris foi atingida por uma onda de crimes e violência que transformou a cidade na Nova York e a Chicago da época da Lei Seca. E a causa foi a mesma: gângsteres americanos.

Enquanto os Aliados lutavam contra as forças de Hitler na Europa, policiais lutavam contra os criminosos que ameaçavam aquela vitória. Homens que abandonaram o “bem maior” em troca do autointeresse, lucros do mercado negro e a luxúria dos cafés e bordéis de Paris: os desertores.

A existência de tais gangues é uma das muitas revelações em um novo livro constrangedor, “Os Desertores: Uma história secreta da Segunda Guerra Mundial”.

Altamente organizados, armados até os dentes e impiedosos, estes desertores usaram seus uniformes americanos como outra ferramenta de seu negócio junto com as vastas quantidades de armas roubadas, passaportes falsos e veículos roubados que eles tinham à sua disposição.

Entre junho de 1944 e abril de 1945, o Departamento de Investigação Criminal do Exército Americano (CBI) envolveu-se com 7.912 casos. Quarenta por cento envolviam apropriação indébita de material americano.

Maior ainda era a proporção de crimes de violência – estupros, assassinatos, homicídio involuntário e assalto que respondeu por 44% da força de trabalho. Os restantes 12% foram crimes tais como roubo, invasão doméstica e baderna.

Antigo correspondente-chefe da ABC News, o autor do livro, Charles Gass, havia se interessado pelo tema há muito tempo. Mas tudo começou somente quando ele teve a chance de se encontrar com Steve Weiss – combatente veterano condecorado da 36ª. Divisão de Infantaria e antigo desertor.

Glass estava dando uma entrevista para divulgar seu livro anterior, “Americanos em Paris: Vida e Morte sob a Ocupação Nazista” quando o americano começou a fazer perguntas. Ficou claro, Glass reconta, que o conhecimento do entrevistador da Resist~encia Francesa era mais profundo que o seu próprio.

Eles marcaram um café e Weiss perguntou a Glass no que ele estava trabalhando. Glass relembra: “Disse-lhe que era um livro sobre os desertores americanos e britânicos na Segunda Guerra Mundial e perguntei se ele sabia algo sobre isso. Ele respondeu: ‘Fui um desertor.’”

Este outrora garoto idealista do Brooklyn, que se alistou aos 17 anos, lutou na praia de Anzio e através da perigosa foresta das Ardennas, ele foi um dos poucos soldados regulares americanos a lutar com a Resistência em 1944. E ele desertou.

Sua história era, Glass percebeu, tanto secreta quanto emblemática de um grupo de homens, envoltos sob uma bandeira de vergonha que os classificava como covardes. Mesmo assim, a verdade era muito mais complexa.

Muitos tinham medo. Eles haviam atingido um ponto além do qual eles não poderiam voltar e decidiram pela desgraça ao invés do túmulo. Alguns relembraram acordar, como se estivessem em um sonho, para constatar que seus corpos os haviam deixados longe do campo de batalha.

Outros, como Weiss, lutaram até que sua fé em seus comandantes imediatos desapareceu. Foi uma forma de loucura ou uma lucidez repentina que os levou a desertar? Glass não afirma ser capaz de responder esta questão para a qual o próprio Weiss dedicou seus últimos anos sem nenhum sucesso.

Outros desertaram ainda para ganhar dinheiro, roubando e vendendo suprimentos militares que seus camaradas no front precisavam para sobreviver. Oportunistas e cafajestes, certamente, mas não covardes – a vida que escolheram era tão violenta e sanguinária quanto a da guerra.

50.000 soldados americanos e 100.000 britânicos desertaram durante a Segunda Guerra Mundial. Contudo, de acordo com Glass, o fato surpreendente não é que tantos homens tenham desertado, mas que tão poucos o tenham feito.

Somente um foi executado por isso, Eddie Slovik. Ele foi, até aquela época, por sua própria avaliação, o homem mais azarado vivo.

Ele nunca lutou uma batalha sequer. Ele jamais fugiu como a maioria dos desertores o fizeram. Ele simplesmente deixou claro que preferia a prisão ao campo de batalha.

Dos 49 americanos sentenciados à morte por deserção durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi o único cujo apelo para comutação da pena foi rejeitado. Seu grande pecado, como nos conta Glass, foi o momento. Seu apelo foi feito em janeiro de 1945, justamente quando a contraofensiva alemã, a Batalha das Ardenas, estava no seu auge. As forças aliadas estavam quase em seu ponto de ruptura. Não era tempo, pensou o Comandante Supremo Aliado, general Dwight Eisenhower, para perdoar deserções.

Ele foi então enviado à remota vila francesa de Sainte-Marie-aux-Mines e a verdade foi escondida mesmo de sua esposa, Antoinette. Ela foi informada que seu marido tinha morrido no Teatro Europeu de Operações. Sua identidade foi finalmente revelada em 1954 e vinte anos depois Martin Sheen o interpretou no filme televisivo, “A Execução do Soldado Slovik”. Nele, Sheen recita as palavras que Slovik disse diante do pelotão de fuzilamento: “Eles não estão me fuzilando por ter desertado do Exército dos Estados Unidos. Eles apenas precisam de um exemplo para os outros e estou nessa porque sou um ex-preso. Costumava roubar quando era garoto, e este é o motivo pelo qual vão me fuzilar. Vão me fuzilar por causa do pão e da goma de mascar que roubei quando tinha 12 anos.”

O soldado Alfred T. Whitehead teve uma história diferente. Ele era um garoto do interior do Tennesse que se alistou para escapar de uma vida miserável e violência que sofria nas mãos de seu padrasto. Ele acabou como um gângster apavorando as ruas de Paris.

Whitehead lutou na Normandia e afirma ter enfrentado o inferno das praias nos desembarques do Dia-D. Ele considerava-se um soldado profissional “duro-na-queda” e o resto de sua piedade na infância evaporou no calor da batalha. Ele esteve em combate contínuo contra os alemães do Dia-D até 30 de dezembro de 1944. Ele foi condecorado com a Estrela de Prata, duas Estrelas de Bronze, a medalha do combate de infantaria e uma citação de distinção de sua unidade.

Quando ele foi considerado inválido para Paris por causa de uma apendicite, ele pensou que voltaria para sua unidade, a 2ª. Divisão, para se recuperar. Ao invés disso, foi enviado para o 94º. Batalhão de Reforço, um grupo de substituição em Fontainbleau. Quando um jovem oficial forneceu a Whitehead um fuzil da Primeira Guerra Mundial para montar guarda, ele disse ao oficial para pegar a “espingarda de chumbinho” e enfiá-la no rabo. Ele exigiu as armas com as quais estava acostumado – uma pistola .45, uma submetralhadora Thompson e uma faca de trincheira.

Sua deserção real foi medíocre. Whitehead procurava por uma bebida. O Clube de Serviço Americano recusou-lhe a entrada porque ele não tinha passe e, assim, ele vagou em busca de uma cama num bordel. Ele a encontrou. Pela manhã, ele foi declarado Ausente sem Licença Oficial (AWOL). No dia seguinte, uma garçonete de um café ficou com pena dele e acrescentou ovos fritos e batatas ao seu pedido de sopa e pão. Quando a Polícia Militar chegou e começou a fazer perguntas, ela deu a Whitehead a chave do seu quarto em um hotel barato e lhe disse para esperar por ela.

De soldado condecorado ele moveu-se sem problemas para uma vida de criminoso no submundo de Paris. Uma chance de encontro o levou para tomar seu lugar como membro de uma das muitas gangues de ex-soldados aterrorizando Paris.

Comandada por um ex-sargento paraquedista, os assaltos eram planejados como operações planejadas. O próprio Whitehead admitiu, “roubávamos caminhões, vendíamos o que eles carregavam, e usávamos os caminhões para roubar armazéns.” Eles usavam táticas de combate, roubando suprimentos que eram destinados às tropas da linha de frente. Seus crimes se espalharam, inclusive, na Bélgica. Eles atacavam civis e alvos militares indiscriminadamente. Suas atividades criminais deram a Whitehead “uma excitação maior que a guerra.” Citando a memória do ex-soldado, Glass reconta suas vanglórias: “Roubamos cada café de Paris, em todos os setores, exceto o nosso, enquanto os policiais ficavam loucos.”

Eles roubavam caixas de conhaque e champagne, jipes e invadiam casas cujos lençóis e rádios eram “fáceis de passar adiante”. Eles roubavam gasolina, cigarros, licor e armas. Em seis meses, Whitehead conseguiu acumular U$ 100 mil com a pilhagem.

Não é de estranhar que quando a vitória na Europa foi anunciada em 7 de maio de 1945, Whitehead admitiu que “aquele dia, todos em Paris e no resto da Europa estavam celebrando, mas eu apenas fiquei em meu apartamento pensando sobre tudo.” Isto porque a deserção do soldado Whitehead não encerrou sua guerra – era uma parte dela. Assim como era parte das muitas guerras dos soldados que há muito tempo não foram registradas.

No final, Whitehead foi capturado e julgado. Ele foi dispensado desonradamente e passou um tempo no Campo de Treinamento Disciplinar Delta no sul da França e em penitenciárias federais em Nova Jersey.

Muitos anos depois, ele teve a “dispensa desonrosa” convertida em uma geral ao invés de ser processado por falsidade ideológica.

Em tempos de paz, as aparências importavam mais a Whitehead do que a presença deles na guerra. Desde então, ele admitiu: “Jamais soube o que o future me reservava, logo tinha todo dia como se fosse o último. A guerra faz coisas estranhas às pessoas, especialmente em relação à sua moral.”

Aquelas “coisas estranhas” mais do que os extremos falsos de coragem e covardia são as verdades revelados neste relato da guerra e de seus desertores.            



sábado, 25 de abril de 2015

[SGM] Os Americanos foram tão maus quanto os Soviéticos?

Klaus Wiegrefe

Der Spiegel, 02/03/2015


Os soldados chegaram no crepúsculo. Eles forçaram a entrada na casa e tentaram arrastar as duas mulheres para cima. Mas Katherine W. e sua filha de 18 anos Charlotte conseguiram escapar.

Contudo, os soldados não desistiram da ideia tão facilmente. Eles começaram a procurar em todas as casas da área e finalmente encontraram as duas mulheres no banheiro do vizinho logo antes da meia-noite. Os homens as tiraram para fora e as jogaram em duas camas. O crime que os seis soldados cometeram aconteceu em março de 1945, logo antes do final da Segunda Guerra. A garota clamou por ajuda: “Mama. Mama.” Mas nenhuma chegou.

Centenas de milhares, talvez milhões, de mulheres alemãs experimentaram destino semelhante na época. Frequentemente, tais gangues estupradoras eram acusadas de serem soviéticas no leste da Alemanha. Mas este caso era diferente. Os estupradores eram soldados dos Estados Unidos da América e o crime aconteceu em Sprendlingen, uma vila próxima do Rio Reno no Ocidente.

No final da guerra, cerca de 1,6 milhões de soldados americanos tinham avançado em território alemão, finalmente encontrando os soviéticos no Rio Elba. Nos EUA, aqueles que libertaram a Europa da praga dos nazistas vieram a ser conhecidos como “A Grande Geração”. E os alemães também desenvolveram uma imagem positiva de seus invasores: soldados legais que ofereciam doces para as crianças e flertavam com as fräuleins alemãs com jazz e nylons.

Mas esta imagem é consistente com a realidade? A historiadora alemã Miriam Gebhardt, bem conhecida na Alemanha por seu livro sobre a líder feminista Alice Schwarzer e o movimento feminista, publicou agora um novo livro revendo a versão oficial do papel da América na história do pós-guerra alemão.

Relatórios do Arquivo Católico

O trabalho, que foi publicado em alemão na segunda-feira, toma um olhar próximo na questão do estupro de mulheres alemãs pelas quatro potências vitoriosas no final da Segunda Guerra Mundial. Em particular, contudo, suas visões sobre o comportamento dos GIs americanos possivelmente deixarão todos de queixo caído. Gebhardt acredita que os membros do corpo militar dos EUA estupraram cerca de 190.000 mulheres na antiga Alemanha Ocidental, que ganhou a soberania em 1955, com a maior parte dos assaltos acontecendo nos meses imediatamente seguintes à invasão americana da Alemanha Nazista.

A autora baseia suas afirmações em grande parte em relatórios de padres bávaros no verão de 1945. O Arcebispo de Munique solicitou ao clérigo católico que mantivesse registros sobre o avanço aliado e a Arquidiocese publicou excertos de seus arquivos há alguns anos atrás.

Michael Merxmüller, um padre na vila de Ramsau próximo a Berchtesgaden, escreveu em 20 de julho de 1945, por exemplo: “Oito garotas e mulheres estupradas, algumas delas na frente de seus pais.”

O padre Andreas Weingand, de Haag na der Amper, uma pequena vila localizada ao norte de onde o aeroporto de Munique é hoje, escreveu em 25 de julho de 1945: “O evento mais triste durante o avanço foram três estupros, um de uma mulher casada, um de uma mulher solteira e um de uma adolescente de 16 anos. Eles foram cometidos por soldados americanos altamente bêbados.”

O padre Alois Sciml, de Moosburg, escreveu em 1º. de agosto de 1945: “Por ordem do governo militar, uma lista de todos os residentes e suas idades devem ser colocadas na parta de cada casa. Os resultados desse decreto não são difíceis de imaginar... Dezessete garotas ou mulheres... foram trazidas para o hospital, tendo sido abusadas sexualmente uma ou várias vezes.”

A vítima mais nova mencionada nos relatórios foi uma menina de oito anos. A mulher mais velha, tinha 69 anos.

Fantasias Machistas

Os relatórios levaram a autora do livro Gebhardt a comparar o comportamento do exército americano com os excessos violentos perpetrados pelo Exército Vermelho na metade leste do país, onde brutalidade, estupros em massa e incidentes de pilhagem dominaram a percepção do público da ocupação soviética. Gebhardt, contudo, diz que os estupros cometidos na Bavária Superior mostram que as coisas não foram muito diferentes no oeste e sul da Alemanha.

A historiadora também acredita que motivos similares estavam em curso. Assim como suas contrapartes russas, os soldados americanos, ela acredita, estavam horrorizados pelos crimes cometidos pelos alemães, amargurados por seus esforços inúteis e mortais para defender o país até o final, e furiosos em relação ao relativamente alto grau de prosperidade do país. Além disso, propaganda na época conduzia à ideia de que as mulheres alemãs eram atraídas pelos soldados americanos, alimentando ainda mais as fantasias machistas.

As ideias de Gebhardt estão firmemente enraizadas no atual pensamento acadêmico. Na onda do escândalo da tortura em Abu Ghraib e outros crimes de guerra cometidos pelos soldados americanos no Iraque e Afeganistão, muitos historiadores estão tendo um olhar mais crítico no comportamento dos militares americanos durante os dias precedendo e seguindo o fim da Segunda Guerra Mundial na Alemanha. Estudos nos anos recentes tem lançado luz em incidentes envolvendo os GIs roubando igrejas, assassinando civis italianos, matando prisioneiros de guerra alemães e estuprando mulheres, mesmo quando eles avançavam através da França.

Apesar de tais descobertas, os americanos ainda são considerados relativamente disciplinados em comparação com o Exército Vermelho e o exército francês – sabedoria convencional que Gebhardt está esperando desafiar. Mesmo assim, todos os relatórios compilados pela Igreja Católica na Bavária somente englobam umas poucas centenas de casos. Além disso, os clérigos frequentemente elogiavam o comportamento “extremamente correto e respeitável” das tropas americanas. Seus relatórios parecem mostrar que os abusos sexuais feitos por americanos eram mais exceção do que regra.

Como, então, a historiadora chegou ao número chocante de 190.000 estupros?

Evidência suficiente?

O total não é o resultado de uma pesquisa profunda nos arquivos em todo o país. Ao invés disso, é uma extrapolação. Gebhardt faz o pressuposto de que 5% das “crianças da guerra” nascidas de mulheres não-casadas na Alemanha Ocidental e Berlim Ocidental por meados dos anos 1950 foram produtos de estupros. Isto soma um total de 1.900 crianças de pais americanos. Gebhardt pressupõe, além disso, que na media, houve 100 incidentes de estupro para cada nascimento. O resultado que ela chega com isso é assim de 190.000 vítimas.

Tal número, porém, parece ser dificilmente plausível. Fosse o número assim tão grande, é quase certo que teria havido mais relatórios sobre estupros nos arquivos de hospitais ou autoridades de saúde, ou que haveria mais relatos de testemunhas oculares. Gebhardt é incapaz de apresentar tal evidência em quantidade suficiente.

Uma outra estimativa, do professor de criminologia americano Robert Lilly, que examinou casos de estupro investigados por tribunais militares americanos, chegou a um número de 11.000 assaltos sexuais sérios cometidos em novembro de 1945 – um número nojento por si só.

Mas Gebhardt está certamente certa em um ponto: por muito tempo, a pesquisa histórica foi dominada pelo pensamento de que estupros cometidos por infantes americanos eram improváveis, pois mulheres alemãs estavam ansiosas para cair na cama com eles.

Como, entretanto, alguém pode interpretar uma reclamação feita por uma gerente de hotel em Munique em 31 de maio de 1945? Ela relata que soldados americanos tinham alugado uns poucos quartos e que quatro mulheres estavam “correndo de um lado para outro completamente nuas” e foram “trocadas muitas vezes.” Aquilo foi realmente voluntário?

Mesmo que não seja provável que os americanos tenham cometido 190.000 crimes sexuais, permanece verdadeiro que as vítimas de estupro do pós-guerra – que foi sem dúvidas um fenômeno comum no final da Segunda Guerra  Mundial, não há “nenhuma cultura da memória, nenhum reconhecimento público, muito menos um pedido de desculpas” dos perpetradores, Gebhardt nota. E hoje, 70 anos após o final da guerra, infelizmente parece que a situação não vai mudar.     



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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Kazária: o império judeu esquecido

Nicolas Soteri

History Today, Vol. 45, Nº 4, Abril 1995


Com o esfacelamento da União Soviética e os problemas existentes nos Bálcãs está havendo muito interesse renovado na história antiga da Europa Oriental. Os problemas alimentaram as tendências nacionalistas na região e há muita conversa sobre uma divisão Ortodoxa-Católica (leste-oeste) e islâmica, que possui uma história bem documentada e que os historiadores estão revisitando. Muita atenção tem sido colocada na diferença e intolerância religiosa como a fonte do problema. Mas tal explicação é o motivo principal do problema ou é a religião apenas uma pequena parte de conflitos maiores e mais complicados? Se a religião tem um papel, quão importante ele é? São as tendências nacionalistas largamente moldadas por considerações de religião? Qual parte tem a questão racial? Os conceitos de raça são influenciados pelos conceitos de nacionalismo ou vice-versa? E quanto as ideias religiosas influenciam aquelas relacionadas à raça? O quanto a religião e a raça são indicadores claros de etnicidade? De fato, o que é “raça”? Estas questões têm intrigado a humanidade desde tempos imemoriais e tentativas de respondê-las nunca foram satisfatoriamente realizadas, mas frequentemente levaram a incompreensão. A natureza sodômica das ideias sobre nacionalismo parecem não ter fim. Não é preciso dizer que as religiões do Islã e a Cristandade Ortodoxa e Católica exerceram uma grande influência na história e formação da Europa Oriental.

Mesmo assim, uma época muito interessante da Europa Oriental tem sido subestimada, senão totalmente esquecida, pela maioria dos historiadores que é de importância para outra grande religião na área – o judaísmo. Kazária, ou a menção aos kázaros, é praticamente desconhecida para muitos. Entretanto, historiadores e medievalistas em particular devem estar cientes da existência importante deste reino poderoso que teve papel crucial na contenção do avanço árabe na Europa, assim como Charles Martel o fez em Tours por volta da mesma época (isto é, o oitavo século). Entretanto, este reino kázaro não era nem cristão nem muçulmano no auge de seu poder, mas judaico, o que torna seu estudo mais interessante, desde que coloca uma presença militar judaica poderosa entre as potências políticas do período em questão.

Eruditos nos últimos 100 a 150 anos mais ou menos têm tratado Bizâncio (berço da cristandade no leste) como uma força geradora, poderosa e criativa e uma superpotência dos seus dias, ao invés dos restos degenerados de um império romano no leste como Edward Gibbon uma vez o descreveu. As relações entre Bizâncio e o império árabe (a outra superpotência da época) e suas influências têm sido lembradas como importantes para o estudo de qualquer aspecto da história medieval. Contudo, entre estas duas superpotências existia uma terceira, senão uma superpotência pelo menos uma potência importante, estratégica, militar e economicamente – Kazária. Este reino teve considerável oscilação entre o início do sétimo e oitavo séculos, estendendo seu poder de sua terra natal no norte do Cáucaso até a Europa Oriental e além. Foi somente em 1016, quando uma aliança russo-bizantina foi lançada contra os kázaros, que o império kázaro sofreu perda irremediável e seu declínio foi selado. A maioria de nossa evid~encia da história dos kázaros vem de fontes literárias. Informação nos sítios arqueológicos é escassa, já que toda ela estava na antiga União Soviética e não são muito acessíveis; os sítios de sepultamento real não existem já que, como nossas fontes nos dizem, estes foram instalados sob córregos.    

Tanto Bizâncio quanto o império árabe viam os kázaros como um elemento fundamental no jogo da diplomacia e um fator importante em qualquer consideração de balanço de poder. Bizâncio tinha Kazária como tão importante quanto qualquer outro reino ocidental, como pode ser visto na obra De Cerimoniis, do imperador bizantino Constantino, uma tratado escrito como protocolo de estado no século X, onde cartas de correspondência para o governante (Khagan) dos kázaros recebiam um selo de ouro valendo três solidi (moeda local), enquanto que aquelas endereçadas ao Papa em Roma, ou “Imperador do Ocidente”, recebiam um selo valendo apenas dois solidi. A importância dada ao poder dos kázaros pode também ser vista na prática adotada pelo rei persa de ter três tronos de ouro permanentemente colocados no palácio real, além do seu, representando as grandes potências da época: uma para o khagan kázaro, uma para o imperador bizantino e uma para o imperador da China. Como aliados dos bizantinos, os kázaros não somente interromperam o avanço árabe na Europa (a partir do século VII) mas também ajudaram na queda do império persa ao fornecer 40.000 soldados para o imperador bizantino, Heraclius, sob a liderança de Ziebel em 627.

Contudo, quem eram esses kázaros e de onde eles vieram? Como eles chegaram a construir um poderoso império ao norte dos grandes estados civilizados da época na Europa e Oriente Médio – principalmente Bizâncio, Pérsia e mais tarde império árabe? Como eles resistiram a estes estados avançados culturalmente que buscavam influência na área estrategicamente crucial que os kázaros controlavam? Que os kázaros resistiram culturalmente, na tentativa de não permitir que qualquer uma dessas potências estrangeiras ganhassem influência em seu território, é amplamente ilustrada pela decisão da família real, em algum momento do oitavo século sob o reinado de Bulan ou Obadiah, em dar o passo incomum na conversão para o judaísmo. Deste modo, nem Bizâncio cristão ou o novo império muçulmano ao sul poderiam ganhar poder indiretamente por meio de chantagem religiosa e outros meios. Ao adotar o judaísmo, o governante kázaro engenhosamente mostrou uma impressão neutra àquelas potências envolvidas disputas cristãs-muçulmanas (e cristãs-cristãs). Assim, Kazária não somente resistiu à influência religiosa, e à influência política que a acompanhava, das potências cristã e muçulmana mas também conseguiu de algum modo desviar suas percepções de hostilidade que teriam surgido caso os kázaros tivessem se convertido a qualquer uma destas religiões.

Expansão do Império Kázaro - de 650 até o século X

A história da conversão kázara, apesar de ser altamente ficcional, contém ideias reveladoras da política imperial da época e como considerações religiosas tiveram uma parte importante. De acordo com a história do khagan, ao ouvir os vários argumentos colocados pelos missionários cristãos, muçulmanos e judaicos, perguntou a cada um deles quais outras duas religiões seriam mais aceitáveis que sua próprias. Já que o representante judeu respondeu que não haveria consequências desde que tanto o representante cristão quanto o muçulmano (temendo um ao outro) responderam que depois de sua própria fé a fé judaica seria a mais aceitável – as consequências de uma conversão kázara tanto para o cristianismo quanto para o islamismo poderia ter sido desastrosa para a parte vencida. Como ficou claro, os kázaros optaram por um caminho que atraía menos hostilidade, menos obrigação e menos influência cultural de qualquer uma das potências existentes.

Quanto à origem do reino kázaro, ela pode ser traçada de volta ao império turco ocidental – uma confederação de tribos turcas, das quais os kázaros eram apenas uma, abrangendo do Mar Negro até o Turquestão em meados dos séculos VI e VII. Em algum momento do século VII, este império começou a se dissolver e os kázaros mais tarde emergiram como dominadores na área norte do Cáucaso. Mais tarde expandindo seus domínios, até o décimo século, eles controlaram um império que abrangia das planícies da Hungria até o Mar Aral e as montanhas Urais, os kázaros controlaram toda a rota de comércio passando pelo sudeste da Europa em direção dos impérios bizantino e árabe e os numerosos povos que viviam nessa vasta área. Assim, Kazária não era apenas estrategicamente importante e uma força militar a ser respeitada, mas controlava uma importante rota comercial. Sua capital, Itil, era o cruzamento das rotas do leste-oeste assim como das do norte-sul, e os kázaros obtinham um grande lucro da taxa de impostos que passavam por seu território, não somente em direção das grandes civilizações do Islã e Bizâncio, mas também dos reinos europeus ocidentais, Europa setentrional e dos povos turcos a leste de seus domínios. Quanto aos produtos produzidos dentro do próprio reino kázaro, eles eram basicamente agrícolas – arroz, painço, mel, vinho, ovelhas e pescaria do Mar Kázaro (“Cáspio”). Entretanto, os kázaros possuíam poucos recursos naturais e nunca desenvolveram sua economia pelo comércio a qualquer nível de sofisticação. Muito da renda do Estado vinha de impostos cobrados de comerciantes que atravessavam o território imperial, e dos impostos cobrados dos povos que viviam dentro do território. Foi principalmente o poderio militar que manteve o império kázaro intacto. Uma vez este enfraquecido, através de ataques russos contínuos no final do século X e início do século XI, não havia como manter o império unido. Na época da invasão mongol de Gengis Khan, no início do século XIII, o império kázaro encolheu tanto em tamanho quanto importância para uma pequena área entre as montanhas do Cáucaso e os rios Don e Volga.

Não obstante, Kazária provou ser uma força extremamente poderosa entre os séculos VII e X. Durante este período, ela interrompeu o avanço do império árabe em sua fase mais dinâmica (de conquista) e conseguiu manter o status quo por séculos; ela se interessou nos assuntos da política bizantina, algumas vezes granjeando considerável influência; ela também conteve as persistentes migrações tribais de povos das estepes da Ásia Central e Rússia, que estavam ameaçando a Europa por séculos; e ela manteve poder considerável e influência sobre os Eslavos e outros povos emergentes da Europa Oriental. Por que, então, não há substancial quantidade de literatura em língua inglesa desse aparentemente império obscuro (como resultado) e das pessoas que tiveram tal papel importante na história inicial da Europa e especialmente do sudeste e Europa Oriental? Na época do declínio do império kázaro, que aconteceu entre os séculos X e XI em diante, parece seguir um período de formações rudimentares de Estados na Europa Oriental. Entretanto, estes reinos que mais tarde viriam a desenvolver os estados modernos da Rússia, Ucrânia, Polônia, Hungria, Romênia, as repúblicas tcheca e eslovaca, Áustria e Alemanha, até o nosso século foram lares de substanciais comunidades de povos que abraçaram a fé judaica. Que estas comunidades judaicas poderiam bem ser os descendentes dos kázaros e dos povos submetidos ao seu império levanta a questão de todos os movimentos antissemitas existentes na Europa Central e Oriental serem desprovidos de qualquer sentido (já que estas comunidades teriam ancestralidade nativa na região, assim como os povos nos quais elas se encontram inseridas, inclusive podendo ter uma presença mais antiga).

É uma crença profundamente difundida entre os historiadores que as comunidades judaicas da Europa são descendentes da diáspora da época romana e das subsequentes diásporas da Europa Ocidental. Afora o ponto que muitos não conhecem a existência importante deste reino judeu medieval, e não podem, portanto, considerar seu impacto na história subsequente, parece haver uma falácia aqui. Porque a diáspora da época romana levou a um êxodo dos judeus da Palestina para outras partes do Império Romano, o qual nunca incorporou a maioria das terras da Europa Oriental, assim estes emigrantes judeus se assentaram principalmente no oeste da Europa. As diásporas posteriores da Europa Ocidental em direção do leste não explicam o substancial número de comunidades judaicas existentes na Europa Oriental desde uma data remota, isto é, antes do século X. Acrescentando a isto, a principal língua dos judeus europeus do Centro e Leste antes deste século era o Ídiche, que é uma mistura dos dialetos hebraico, eslavo e alemão oriental. Estes judeus que migraram da Europa Ocidental não teriam incorporado um grande número de elementos das línguas ocidentais? De qualquer forma, não existem registros de um grande êxodo de povos judeus da Europa Ocidental para a Oriental. Porém, grandes movimentos populacionais ocorreram do leste para o oeste ocorreram na época das invasões mongóis e nenhum historiador o negará. Que os kázaros e seus descendentes teriam feito parte desse movimento geral é uma consequ~encia lógica.

Se este é o caso, há uma lição a ser aprendida de tal correção irônica da história. Enquanto alguém se considera russo, bósnio, sérvio, albanês, croata ou macedônio, não existe nenhum critério válido para estabelecer tais nacionalidades. Assim como os judeus da Europa central e Oriental (usando o exemplo kázaro) são mais ou menos do mesmo “estoque racial” que os povos nos quais eles se encontram inseridos, assim como são os muçulmanos dos Bálcãs, croatas, bósnios e sérvios. Quando alguém fala de bósnios croatas e sérvios, isto se torna uma contradição em termos (exemplificando a futilidade da categorização racial). Ambos são bósnios, ainda que sua religião seja diferente, isto é, Cristianismo Ortodoxo e Católico, ou sejam identificados com os nacionalismos sérvio ou croata. Para acrescentar combustível ao fogo, por que nós do ocidente nos referimos a bósnios muçulmanos? Usar religião como uma indicação de etnicidade para o último grupo, mas não para sua contraparte cristã.

Os problemas do nacionalismo na Europa Oriental são muito mais complexos do que uma simples explicação da diferença religiosa. Contudo, usando o exemplo dos kázaros e de seus descendentes, pode ser exemplificado que os movimentos nacionalistas, com suas convicções a respeito de raça, podem afetar as percepções do agressor e da vítima que, quando investigamos fundo nas ideologias defendidas, parecem ser baseadas em falsas premissas e, definitivamente, em teorias contraditórias.