sábado, 16 de maio de 2015

[SGM] Hitler não jogou mal sua última carta

Jacinto Antón

El País, 10/05/2015


A batalha das Ardenas, ou do escape, travada em condições muito sacrificantes no inverno de 1944-45, durante quase sete semanas, foi um dos grandes enfrentamentos da II Guerra Mundial e a última grande ofensiva do Exército alemão na frente ocidental. As imagens dos tanques Tiger e Panther avançando rapidamente sobre a neve, dos soldados norte-americano cavando trincheiras no solo gelado e dos combates sem quartel nos bosques, povoados e encruzilhadas fazem parte das mais icônicas do confronto, assim como figuram entre seus nomes emblemáticos os de Malmedy, Bastogne, a operação aérea Bodenplatte, o Kampfgruppe Peiper e os comandos de Skorzeny –que causaram grande confusão se infiltrando com uniforme inimigo–. Hitler lançou o melhor que tinha, 300.000 soldados (muitos fantasmagoricamente vestidos de branco), 1.800 tanques e destruidores de tanques e 2.400 aviões, em uma tentativa desesperada de mudar o curso da guerra.

O ataque, iniciado em 16 de dezembro, pegou completamente desprevenidos os Aliados, que, meio ano depois do desembarque na Normandia, davam a guerra quase que como acabada. Após um início promissor, lutas de uma brutalidade tremenda e uma defesa tenaz das tropas dos EUA –é famosa a resposta do general McAuliffe, da 101ª Aerotransportada, ao receber uma demanda para entregar Bastogne: “Nuts! (loucos, em versão livre)– os alemães se viram obrigados a interromper seu avanço sem conseguir o novo Dunkerque desejado pelo Führer. Vários livros e filmes recriaram a luta, entre estes últimos, o mais famoso é A Batalha das Ardenas (1965) –com sua conhecida cena dos jovens tripulantes de carros alemães entoando o cântico de sprit de corps conhecido como Panzerlied–, além de O Preço da Glória (1949) e Noites Calmas (1992), sem esquecer dos capítulos correspondentes no seriado de televisão Band of Brothers (sem dúvida, o melhor).

No 70º aniversário da batalha, e à espera da iminente publicação do novo e aguardado livro de Antony Beevor sobre ela, o historiador sueco Christer Bergström faz um relato monumental e detalhado em The Ardennes, 1944-1945: Hitler's Winter Offensive, que oferece, além de uma perspectiva insólita, uma surpreendente reinterpretação daquele confronto, do qual destaca que nenhum veterano entre os que entrevistou conta qualquer história amável, mas só coisas terríveis. “Está claro que foi uma das experiências bélicas mais assustadoras desses homens”, diz. Algumas imagens do livro ficam gravadas na memória, como o regimento alemão avançando em corrida gritando “ianques filhos da puta!”, os soldados norte-americanos que descobrem em 13 de janeiro os corpos congelados dos presos executados pela SS na estrada de Malmedy em dezembro, que continuam deitados no lugar em que foram abatidos, o Panther que se confunde e se mete em uma coluna de carros Sherman e a luta com granadas em uma casa de Thirimont, em que cada lado ocupava um andar.

Bergström, autor de 22 livros sobre a II Guerra Mundial, inicia seu relato detalhado a partir do ponto de vista de uma das unidades blindadas lançadas ao rio Mosa com a mira voltada para o porto de Amberes: toda uma declaração de princípios, pois uma das coisas do livro que mais surpreende o leitor, acostumado com as versões anglo-saxãs, é que muito da narração dos fatos seja feita da perspectiva do lado alemão. Mas tem muito mais: Bergström considera que os alemães estavam melhores preparados do que se considera normalmente, que seu moral era elevado, seu equipamento excelente, seus comandantes muito bons e Hitler não estava tão perdido em seus planos como se acredita. A operação não estava condenada ao fracasso e, em alguns de seus aspectos, era inclusive “magistral”.

Vamos por partes: a situação do exército alemão não era então tão ruim ao final de 1944? “Em novembro-dezembro, em absoluto”, explica o autor, que esteve com veteranos em Bastogne em dezembro passado devido ao aniversário da batalha. “O fato de os alemães terem conseguido deter os Aliados ocidentais na fronteira de seu país, a vitória de Arnhem, a promessa das novas armas maravilhosas (reatores, foguetes, submarinos elétrico, etc) e –não menos importante– o plano Morgenthau dos britânicos e norte-americanos que estabelecia mais ou menos a destruição industrial da Alemanha tinham elevado o moral da luta de uma forma que, em muitos casos, inclusive excedia o nível normal nos primeiros compassos da guerra”. Quanto ao equipamento militar, o historiador sueco afirma de forma muito clara: “Os alemães eram absolutamente superiores nos campos mais importantes, na verdade, pela primeira vez na guerra. O tanque pesado Königstiger, ou Tiger II, superava qualquer coisa que os Aliados tinham –em janeiro de 1945, dois desses aniquilaram uma companhia inteira de tanques Sherman, sem sofrer um arranhão–, e nenhum tanque médio podia competir com o Panther. Tinham o primeiro fuzil de assalto do mundo, o Sturmgewehr 44, os aviões Me-262 e Ar 234 eram totalmente superiores no ar”.

O livro se desprende da crença de que a ofensiva alemã das Ardenas foi uma tentativa desesperada, e aponta que tinha chances reais de sucesso. “Na verdade, da perspectiva de Hitler, era o mais inteligente que podia fazer, enquanto esperava a ofensiva russa seguinte no Vístula. Foi cuidadosamente planejada e preparada, e fracassou principalmente por dois fatores que poderiam não ter ocorrido: primeiro, porque as linhas de abastecimento alemães foram cortadas pela aviação Aliada quando o tempo melhorou no oitavo dia da ofensiva, e, segundo, porque as SS, menos competentes que o exército regular, a Wehrmacht, receberam a responsabilidade de conseguir os objetivos mais importantes. Mas esses dois fatores, como disse, poderiam ter sido diferentes. Se os alemães tivessem reposicionado sua aviação de elite, enviada para a frente do Leste, no Oeste, a aviação Aliada provavelmente não teria sido capaz de cortar as linhas de abastecimento alemães. Então, os alemães teriam 50% de possibilidades de alcançar a Antuérpia, cortar as forças Aliadas em duas e cercar o grupo de exércitos de Montgomery".

A melhor aviação alemã estava no Leste? “Exatamente. Havia uma enorme diferença entre os pilotos de uma frente e da outra. Enquanto a maioria de aviadores do Oeste era, em 1944, de novatos treinados de forma inadequada, uma parte importante dos pilotos alemães no Leste era formada pelo que os padrões norte-americanos descrevem como ases. Lá havia pilotos como Erich Hartmann e Gerhard Barkhorn, com 300 vitórias cada um, ou pilotos de ataque ao chão como Hans-Ulrich Rudel, com experiência em 2.000 missões de combate. Os pilotos alemães com experiência em 500 ou mais saídas de combate não eram incomuns no Leste no final de 1944. Os pilotos Aliados no Oeste não tinham essa experiência”.

Em termos claros e futebolísticos, os alemães eram melhores no campo do que os norte-americanos? “Sim, seus comandos eram melhores, suas táticas eram melhores, muitas de suas tropas estavam mais motivadas (com exceção das tropas aerotransportadas dos EUA), e seu armamento era melhor, com exceção também da artilharia dos EUA”. Bergström é ainda mais polêmico quando lhe pergunto se deveríamos repensar a (in)capacidade de Hitler como comandante militar. “Acho que deveríamos. Apesar de Hitler carecer de alta educação militar, tinha comprovado ter uma intuição das possibilidades no campo de batalha. Os ataques no Oeste em 1940 e 1944 são bons exemplos. No entanto, essa intuição falhou em várias ocasiões no final da guerra, a mais notável talvez em Falaise, em agosto de 44. Mas a ideia de atacar nas Ardenas com o objetivo de pegar rápido os exércitos de Montgomery foi brilhante”.

Voltando às SS, no livro se destaca algumas vezes que a Wehrmacht lutou melhor nas Ardenas que as SS, contrariando que as Waffen SS eram superiores. “Sem dúvida nenhuma foi assim. Muitos depoimentos, de comandos da Wehrmacht e dos EUA, comprovam de fato que as SS combateram de forma bastante inferior, como amadores, durante a batalha das Ardenas. Essa era a regra geral –ainda que com exceções notáveis– para as tropas novatas das SS em suas primeiras campanhas no campo de batalha durante toda a II Guerra Mundial”.

E como lutaram os norte-americanos na que foi a sua pior batalha na guerra, em intensidade e baixas? “Segundo todos os depoimentos, as tropas aerotransportadas foram muito bem, assim como outras unidades, como a 30ª e a 84ª divisões de Infantaria. Mas, no geral, devo dizer que considerando sua crescente vantagem numérica, esperava-se que o Exército dos EUA se comportasse melhor em um bom número de casos durante a batalha. A contraofensiva de Patton, que na verdade foi um grande fracasso em comparação com seus objetivos, é um bom exemplo em que se pode ver que se os alemães desfrutassem das mesmas vantagens, provavelmente teriam obtido muito mais sucesso”.

Ser sueco parece dar uma visão diferente, mais objetiva e mais neutra, à história da II Guerra Mundial. “Acho que simplesmente é natural que se seja influenciado pela perspectiva da sociedade em que vive, em muitos casos é o seu próprio país. Mais ainda, quando se trata de história militar, muito do que se pensa é influenciado pela propaganda de guerra da época. Isso obrigatoriamente tem uma grande influência na forma em que se aprende a história, de forma que ser de um país neutro é uma grande vantagem se sua vontade é proporcionar uma descrição neutra e objetiva de uma batalha como essa.”

Uma das conclusões mais surpreendentes de Bergström é que a batalha foi uma vitória para... os soviéticos. “Com certeza. A ofensiva das Ardenas enfraqueceu os Aliados ocidentais; de forma material e, particularmente, psicológica teve um impacto prejudicial em seus próprios planos de ofensiva, e os deixou extremamente cautelosos. Graças a isso, a União Soviética conseguiu o crédito de capturar Berlim”. A história tem, segundo o historiador, um corolário estremecedor: uma vitória alemã nas Ardenas poderia ter representado que fossem duas cidades alemães as vítimas das bombas atômicas em vez de Hiroshima e Nagasaki. “Se Hitler tivesse conseguido cercar e talvez aniquilar o exército de Montgomery, pode ser que tivesse sido capaz de aguentar até o verão de 1945. Nesse caso, as bombas atômicas provavelmente seriam lançada contra a Alemanha, como era o plano original. Da forma que aconteceu, os alemães se renderam antes que as bombas atômicas estivessem disponíveis”.

Christer Bergström está de acordo que chegou a hora de se fazer um bom filme moderno sobre a batalha. “É verdade, a batalha das Ardenas tem tudo que é preciso para se fazer um grande filme de guerra de sucesso: o drama do combate, o milagre quando o céu abre no último minuto permitindo às forças aéreas dos EUA salvar suas tropas terrestres, o retorno inesperado dos alemães em janeiro de 1945, a luta interna entre os generais Aliados (particularmente Patton e Montgomery), e os dois anjos femininos que trabalharam como enfermeiras e salvaram tantas vidas na assediada Bastogne”. O historiador lembra bem a cena dos militares alemães cantando o Panzerlied no filme de 1965. “Essa cena foi ideia do general Meinrad von Lauchert, um veterano da batalha das Ardenas, Cruz de Cavalheiro com folhas de carvalho, que comandou uma das pontas de lança alemães durante a ofensiva, e que foi assessor do filme”. Do último filme sobre a II Guerra Mundial, Corações de Ferro, com Brad Pitt, diz que recentemente falou com vários veteranos das forças norte-americanas que serviram na batalha das Ardenas e todos concordam que Corações de Ferro é um dos filmes de guerra mais realistas que já viram. “Logicamente, eu tenho que compartilhar essa opinião”.

A Batalha que Comoveu a Europa, sobre a batalha de Poltava, de Peter Englund, A Beleza e a Dor, do mesmo autor, e seu próprio Ardenas parecem mostrar um auge da história militar sueca. “O primeiro livro de Englund mencionado abriu caminho para um novo interesse pela história militar na Suécia. Os livros de História, particularmente história militar e, em especial, sobre a II Guerra Mundial, são muito populares na Suécia. A edição sueca do meu livro das Ardenas vendeu quase 3.000 cópias em seis meses e foi feita uma segunda edição, o que não está ruim em um país de 9 milhões de habitantes”.


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sexta-feira, 15 de maio de 2015

[POL] O Último Führer: Karl Dönitz e o Fim do Terceiro Reich

Richard Overy

History Today, Vol. 65, Nº 5, maio 2015


O holofote histórico sobre Hitler como o Führer indiscutível do Terceiro Reich lançou uma sombra sobre o começo do fim do regime, quando Hitler não era o chefe do Estado. Entre janeiro de 1933 e agosto de 1934, e novamente nas primeiras semanas de maio de 1945, a presidência alemã foi mantida por duas figuras militares respeitadas. A primeira foi o ancião marechal de campo Paul Von Hindenburg, cuja morte em agosto de 1934 abriu o caminho para Hitler criar o cargo sem precedentes unindo as figuras do presidente e do chanceler sob a simples palavra “Führer”, ou Líder; a segunda foi o chefe da Marinha alemã, o Almirante Karl Dönitz, que foi escolhido por Hitler para ser seu sucessor como presidente após o suicídio do ditador em 30 de abril de 1945.

Para os historiadores, o regime de Dönitz, que durou três semanas em maio, incluindo duas semanas seguindo a rendição alemã, é pouco mais do que uma nota de rodapé bizarra no final do terceiro Reich. Mesmo assim, a existência do que os diplomatas britânicos chamaram de o “quase governo”, estabelecido na cidade costeira meridional de Flensburg, marcou um passo importante no rompimento da aliança da guerra entre as democracias ocidentais e a União Soviética de Stalin bem antes de a Guerra Fria tornar-se uma realidade histórica. A luta entre os aliados em relação ao status e destino do regime de Dönitz refletiu diferenças importantes no modo como os dois lados viam o modo apropriado para tratar a derrotada Alemanha.

Os argumentos balançavam primeiramente na questão de como a rendição alemã deveria ser aceita. O objetivo em vista era a rendição incondicional de todas as forças alemãs, mas os exércitos alemães na Itália, então no norte da Alemanha e Escandinávia renderam-se entre 2 e 4 de maio de 1945 para os comandantes aliados locais, americanos e britânicos. Suspeitas soviéticas foram erguidas quando Dönitz decidiu enviar o chefe de operações do Comando Supremo Alemão (Oberkommando der Wehrmacht, OKW), general Alfred Jodl, para o quartel general supremo do general Dwight Eisenhower, localizado na cidade francesa de Reims. Ele foi enviado como um representante do que o porta-voz em Flensburg continuou chamando de “novo governo”. O vice-chefe do Estafe do Exército Vermelho, Marechal Alexei Antonov, disse aos representantes britânicos e americanos em Moscou, em 6 de maio de 1945, que para o regime soviético, o governo de Dönitz “na verdade não existe” e não deveria ser referido como governo. Antonov deixou claro que o lado soviético aceitaria somente a rendição incondicional do Alto Comando militar alemão e lembrou aos aliados ocidentais que círculos em Moscou suspeitavam fortemente agora de que a Grã-Bretanha e a América estavam negociando um acordo em separado no sentido de permitir que os alemães pudessem manter a luta no leste.

As suspeitas soviéticas são fáceis de entender. Não somente o grupo de exército do Marechal de Campo Montgomery falhou em ocupar Flensburg e prender Dönitz e seus associados, muitos dos quais estavam na lista de criminosos de guerra dos aliados, mas quando Jodl chegou em Reims, um documento de rendição foi assinado logo pela manhã de 7 de maio sem Stalin ser consultado. Sob a insistência furiosa do líder soviético, o Ocidente concordou em agendar uma segunda cerimônia de rendição em Berlim no dia seguinte no qual o Marechal Wilhelm Keitel, chefe do OKW, assinou em nome das forças alemãs. O lado soviético lembrou a cerimônia de Berlim como o ato formal e legítimo de “rendição incondicional”. Nada disso, contudo, apaziguou a ansiedade soviética de que o Ocidente trataria o regime de Dönitz como o governo legalmente constituído da Alemanha e pudesse realizar algum tipo de acordo com o antigo inimigo.

Na União Soviética, a imprensa promoveu uma campanha, quase certamente aprovada por Stalin, mais ou menos acusando o Ocidente de conluio com o Fascismo. O jornal Frota Vermelha Soviética escreveu que uma palavra “vergonhosa e inglória” havia agora entrado nos anais da guerra: “Esta palavra é Flensburg e ela mancha a vitória que tivemos!” Nos dias imediatamente após a rendição nenhum esforço foi feito para derrubar o governo de Dönitz e nenhuma decisão foi tomada sobre seu status constitucional ou legal. Desde que Flensburg estava na zona britânica de ocupação, a decisão final cabia a Churchill e ao Gabinete de Guerra Britãnico. O regime de Flensburg anunciou que o exército britânico concordou em permitir que o Marechal Ernst Busch assumisse o comando da província setentrional de Schleswig-Holstein em 12 de maio para manter a ordem e o suprimento de bens essenciais à população: um ato que significou parcialmente o reconhecimento da autoridade de Dönitz. Em Flensburg, milhares de soldados alemães foram reunidos, ainda em uniforme, enquanto que soldados da SS faziam a segurança dos principais ministros. Somente uma semana antes, Busch clamou a Dönitz para lutar pela defesa de Hamburgo ao invés de render a cidade.

A maior resistência em dissolver o novo regime e prender seus membros veio de Churchill. Orme Sargent, Subsecretário do Departamento do Exterior, já estava preocupado que os soviéticos poderiam, em retaliação, instalar seu próprio regime fantoche em Berlim, como eles fizeram em Varsóvia poucos meses antes, escreveu para Churchill em 12 de maio clamando a ele para chegar a uma decisão sobre o futuro do governo de Flensburg, cujo chefe, lembrou Sargent, era um criminoso de guerra. A resposta de Churchill mostrou-o em seu pior momento. Ele se recusou a sancionar a dissolução do regime que poderia ajudar as autoridades britânicas em manter a ordem na zona de ocupação. “Eu me recuso a levantar essas graves questões constitucionais,” escreveu Churchill, “numa época quando a única questão é evitar o caos.” Ele esperava que Dönitz e Busch conseguissem apressar a rendição das tropas alemãs ao invés de forçar os soldados britânicos a “correr atrás de todo barraco alemão” para convencer os homens a baixar suas armas. Se Dönitz é uma “ferramenta útil para nós”, concluiu Churchill, seria necessário eliminar suas “atrocidades de guerra”.

Churchill permaneceu consistentemente hostil ao rápido fim do regime alemão do pós-guerra. Eisenhower queria o poder para prender seus membros de uma vez e clamou aos Chefes de Estafe Anglo-Americanos Combinados para emitir instruções para ele o fazê-lo, mas Churchill foi contra. A crise piorou quando, na manhã de 14 de maio, a BBC transmitiu os resultados de uma entrevista conduzida pelo jornalista Edward Ward com o homem que alegava ser o Secretário do Exterior alemão e vice de Dönitz, o Conde Schwerin Von Krosigk, Ministro das Finanças de Hitler ao longo de todo o Terceiro Reich. Von Krosigk tentou explicar que, como chefe de Estado, Dönitz deveria ser lembrado como a soberania alemã, enquanto que os homens reunidos em seu gabinete eram as figuras melhor qualificadas na tarefa de organizar a Alemanha do pós-guerra e salvar o país dos russos. Como seria de esperar, o Departamento do Exterior protestou em termos fortes que a transmissão estava na realidade reconhecendo o regime ao descrevê-lo como “governo alemão” e apresentando Von Krosigk como “Primeiro Ministro ativo e Secretário do Exterior”. Um raivoso Brendan Bracken, Ministro da Informação (e fundador do History Today), rechaçou a BBC pela “performance lamentável”, mas o dano estava feito, encorajando o que um funcionário britânico descreveu como “o medo mórbido russo de que nós ainda estivéssemos negociando com os alemães para lutar contra o Bolchevismo.”

A hostilidade soviética com o Ocidente em relação a Dönitz atingiu o máximo na semana seguinte, alimentada pela suspeita adicional de que Hitler não havia sido morto em Berlim e estava sendo blindado pelos Aliados. “Estes homens formam uma gangue fascista,” reclamou o Estrela Vermelha. “Eles fizeram parte dos crimes nazistas.” O jornal governamental Izvestia anunciou que a simpatia inesperada do Ocidente com o regime de Flensburg “atingiu a consciência de todas as pessoas sensíveis.” Os representantes de Eisenhower encontraram-se com Dönitz em 18 de maio, enquanto que funcionários da inteligência americana, trabalhando para a Vistoria do Bombardeio Estratégico dos Estados Unidos, entrevistaram membros do governo, focando seus esforços particularmente em Albert Speer, agora Ministro da Economia, cujas visões eram desejadas sobre o efeito do bombardeio sobre a produção de guerra alemã. Em sua entrevista, Dönitz confirmou que ele atrasou a rendição tanto quanto pôde para permitir que os soldados e os refugiados escapassem do avanço do Exército Vermelho, mas ele também possuía cópias do “Último Desejo e Testamento” de Hitler, o qual incluía sua indicação como evidência de sua alegação legal para ser o chefe de Estado alemão. Estes contatos foram facilmente sujeitos a má interpretação em Moscou, apesar de que eles finalmente convenceram Eisenhower de que nada seria ganho prolongando a existência do regime alemão. No dia seguinte, 18 de maio, ele escreveu ao Departamento do Exterior e ao Departamento de Estado em Washington dizendo que o regime “era de pouco valor” e deveria ser extinto. Ao contrário do Primeiro Ministro, o Secretário do Exterior britânico, Anthony Eden, concordou totalmente, mas ele pediu a Eisenhower para agir por conta própria, ignorando os russos. Alguns funcionários do Departamento do Exterior ainda pensavam que, na escolha entre princípios e conveniência, a última fazia mais sentido dado que a colaboração alemã tinha apressado o desarmamento das forças alemãs e poderia agir como força de estabilidade.

Eisenhower emerge da história como o mais sensato de todos os envolvidos. Ele insistiu que, como comandante militar sênior no Ocidente, ele tinha que ser instruído pelos Chefes de Estafe Combinados, não por políticos, e que, apesar de Eden, os russos teriam que ser consultados. O vice-comandante supremo soviético, Marechal Georgii Zhukov, pediu aos representantes soviéticos em Flensburg para se encontrar com os americanos em 19 de maio e aqui os dois lados concordaram que o governo Dönitz deveria ser preso e seu trabalho ser extinto tão rápido quanto possível. A aprovação formal soviética chegou em 21 de maio. Ficou registrado que Churchill “se opõe fortemente à ação proposta”, mas os Chefes de Estafe
Combinados deram sua aprovação e, em 23 de maio, uma unidade de soldados britânicos prendeu os membros do gabinete de Flensburg. Eles foram enviados aos centros de detenção para grandes criminosos de guerra em Mondorf-les-Bains em Luxemburgo (codinome ASHCAN) e em Kransberg, próximo a Frankfurt-am-Main (codinome DUSTBIN). O resultado talvez reflita a extensão na qual a autoridade de Churchill estava se deteriorando na primavera de 1945.

Isto não encerrou a incerteza em ambos os lados. O governo soviético continuou a se preocupar que os britânicos e americanos poderiam estar procurando algum meio de usar a Alemanha como um novo aliado contra a ameaça soviética, enquanto que Churchill e seu gabinete temiam que a prisão do governo de Dönitz poderia tornar difícil a manutenção da ordem, reforçar o desarmamento das tropas alemãs e combater guerrilheiros insurgentes. Ironicamente, muitos soldados e oficiais britânicos na Alemanha deploraram o que Geoffrey Harrison, um representante do Departamento do Exterior na Alemanha, chamou de “barbarismo e insensibilidade” do Exército Vermelho em seu tratamento dos alemães; esta realidade, ele continuou, trabalhava para “inflamar o desgosto” contra os russos, enquanto, simultaneamente, inspirava “tolerância e alguma piedade pelos alemães”. O Estafe de Planejamento Conjunto foi solicitado a relatar em 23 de maio o efeito na Alemanha da prisão do governo de Flensburg. O grupo relatou dois dias depois que a extinção da anomalia de Flensburg “não provocaria dificuldades aos aliados em realizar seu trabalho.” As prisões abriram o caminho para o que o lado soviético desejava, o estabelecimento formal da Comissão Aliada de Controle para a Alemanha e uma declaração formal aliada da derrota da Alemanha, o que aconteceu poucos dias depois em Berlim.

Dönitz foi julgado como criminoso de guerra em Nuremberg e sentenciado a dez anos de prisão. Ele foi libertado em 1956, morrendo de um ataque cardíaco em 1980 em uma vila na Alemanha setentrional. Ele foi, até 2012, o único chefe de Estado a ser condenado por um tribunal internacional.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

[SGM] Revendo os mitos soviéticos da Segunda Guerra Mundial

Joseph C. Goulden

The Washington Times – 29/06/2010

Resenha do livro DEATHRIDE: HITLER VS. STALIN: THE EASTERN FRONT, 1941-1945, de John Mosier


Um dos grandes mitos da Segunda Guerra Mundial é a imagem de um Josef Stalin cercado inspirando o galante Exército Vermelho soviético a segurar o superior exército alemão por anos e finalmente prevalecer apesar da recusa de seus aliados ocidentais, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, de abrir uma “segunda frente” para aliviar as pressões da guerra sobre ele.

Fazendo eco aos temas de propaganda estabelecidos por Stalin, muitos historiadores creditam o “heroico soldado soviético” sozinho segurando o avanço alemão durante os primeiros anos da guerra, derramando seu sangue para impedir que Hitler tomasse Moscou ou Leningrado, e então expulsar a Wehrmacht de volta para Berlim.

A interpretação de Stalin foi estabelecida em uma série de discursos na guerra mais tarde incorporados em um livro de 1945, “A Grande Guerra Patriótica”. Como escreve John Mosier, “Sua versão da guerra foi perfeitamente elaborada. Após recuar do ataque traidor e não provocado hitlerista, o exército vermelho conseguiu prevenir que os invasores alcançassem Moscou. A grande batalha diante dos portões de Moscou foi a primeira em uma série de derrotas cambaleantes, nas quais os hitleristas foram expulsos da pátria... pela fúria patriótica despertada do povo russo, cuja força foi reforçada pelos objetivos do socialismo e inspirados pelo exemplo do próprio Stalin...”

O Sr. Mosier, um dos historiadores militares mais divertidamente revisionistas escrevendo hoje, destrói todos estes mitos de forma convincente – e mais – em um livro importante e surpreendente sobre o front oriental. Um crítico de um de seus livros iniciais escreve que o Sr. John Mosier “lança granadas de mão da história militar em quase toda página...” Tais granadas certamente reverberam através de “Deathride”, que olha além das verdades da propaganda soviética para apresentar um relato genuíno e revelador da campanha. O Sr. Mosier ensina história na Universidade Loyola em Nova Órleans.

O Sr. Mosier aceita que os expurgos pré-guerra de Stalin retirou do exército vermelho suas lideranças e deixou-o mal preparado para a invasão alemã em junho de 1941. (Outro fator foi que Stalin rejeitou os relatórios de inteligência, muitos escritos por seus próprios espiões, que Hitler planejava romper seu tratado de 1939 e invadir.) E que muitos soldados russos lutaram bravamente, apesar da falta de liderança e equipamento, está além de qualquer dúvida.

Mas o preço pago em sangue foi horrível. O exército vermelho sofreu baixas à taxa de 5 para 1 em relação aos alemães. A sabedoria convencional diria que aquelas perdas foram devidas aos vastos números superiores da Rússia, mas como o Sr. Mosier mostra, a população russa era somente o dobro da da Alemanha, e apesar de suas próprias baixas pesadas em 1941, a Wehrmacht em 1942 tinha mais homens em uniformes do que no ano anterior.

Os alemães capturaram quase 2 milhões de soldados soviéticos nos primeiros meses de guerra. “Ninguém tinha qualquer ideia de quantos russos haviam sido mortos,” escreve o Sr. Mosier. “Basicamente, havia dois prisioneiros de guerra soviéticos para cada três soldados alemães indo para a batalha.”

Enquanto isso, Stalin estava fornecendo números de baixas alemãs incrivelmente inflacionadas – “Em quatro meses e meio de guerra a Alemanha havia perdido 4,5 milhões de soldados. A Alemanha está sangrando branco.” O inverso exato era o correto. À medida que a guerra intensificou na primavera de 1945, as baixas russas continuaram a ser tão pesadas que o exército vermelho alistou todos os homens com idades entre 14 e 60 anos e organizou unidades de combate exclusivamente femininas.

Como Sir Winston Churchill ironicamente comentou sobre a tendência de Stalin para mentir, “os bolchevistas descobriram que a verdade não interessa desde que haja confirmação...” Se uma mentira é “repetida com frequência e espalhafatosamente, (ela) torna-se aceita pelas pessoas.”

Em outra pancada na sabedoria convencional, o Sr. Mosier afirma que a captura de Moscou e Leningrado não eram assuntos de importância para Hitler, já que nenhuma das cidades tinha valor estratégico. Seu objetivo principal era tomar os campos de petróleo próximos do Mar Cáspio. De fato, ele afirma, Hitler teria se dado bem se a invasão aliada da África do Norte o tivesse feito retirar unidades chaves do front oriental para proteger seu flanco meridional. De outra forma, ele pensa, ambas as cidades teriam caído.

Tanto durante quanto após a guerra, “historiadores” pró-soviéticos exageraram na decisão de Franklin D. Roosevelt e Churchill em não atacar a Europa Ocidental até junho de 1944, assim obrigando Stalin a segurar Hitler com recursos próprios. Escritores mais sérios aceitam que aquela decisão foi estratégica – que os aliados não estavam preparados para invadir a Europa antes. Não obstante, o atraso deu aos apologistas de Stalin base para aprovar sua tomada pós-1945 de vastas partes da Europa Oriental como espólios de guerra merecidos. Em qualquer dos eventos, o Sr. Mosier mostra, a Segunda Guerra Mundial foi uma guerra de duas frentes desde o início e os russos levaram uma surra.

O Sr. Mosier vai talvez um pouco longe em sua conclusão, na qual ele argumenta que as perdas de Guerra contribuíram pesadamente para o eventual colapso do comunismo e da União Soviética. A URSS estava em um estágio primitivo de desenvolvimento quando a guerra eclodiu, e muito de sua infraestrutura física foi reduzida a escombros pela guerra. A relocação da indústria para as montanhas Urais por Stalin, enquanto uma necessidade da guerra, não pôde ser revertida facilmente quando a guerra acabou. Foi somente em um censo de 1980 que os soviéticos admitiram que a guerra deixou “um déficit severo na população masculina com 55 anos e acima.”

O “experimento” soviético igualmente fracassou desde o seu nascimento, apesar de décadas tenham passado até o seu colapso. Como o Sr. Mosier coloca, porém, “Quaisquer chances que o estado soviético tinha para alcançar seus sonhos de prosperidade e igualdade para seus cidadãos, uma utopia realizada baseada em princípios socialistas, estas visões morreram junto com as dezenas de milhões de russos na Grande Guerra Patriótica.”


Europa: Documentos americanos liberados lançam nova luz na Segunda Guerra Mundial

Charles Fenyvesi

Os Arquivos Nacionais da América receberam cerca de 11 milhões de páginas de documentos liberados da Segunda Guerra Mundial, produzindo uma fonte de riqueza para historiadores e outros pesquisadores.

Muitos dos outrora secretos despachos diplomáticos, relatórios de inteligência e outros documentos também estão se tornando fontes de notícias.

Uma dessas revelações é um relatório do embaixador japonês Osama em seu encontro particular com Adolf Hitler em Berlim em agosto de 1943. Após a derrota alemã em Stalingrado mas como destino da contraofensiva do Exército Vermelho ainda em dúvida, o embaixador perguntou ao chanceler alemão se ele consideraria uma paz em separado com a União Soviética.

A resposta foi um imediato e surpreendente sim, relatou o embaixador a Tóquio. Mas com uma condição, acrescentou Hitler: os russos teriam que ceder a Ucrânia para o Reich. Hitler explicou que ele precisava dos ricos recursos da Ucrânia para ganhar a guerra na frente ocidental.

Os historiadores sabem que, em vários momentos, tanto os alemães quanto os russos consideraram uma paz em separado. Os historiadores também sabem que os japoneses estavam ansiosos em mediar dois beligerantes europeus, já que eles temiam que a União Soviética unir-se-ia aos seus aliados anglo-americanos na luta contra o Japão, o que de fato ocorreu nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial.

Mas a condição de Hitler para uma paz em separado é nova para os historiadores, que não tiveram o privilégio de ler os relatórios do embaixador em Berlim. Até poucas semanas atrás, estes relatórios eram altamente secretos, parte de um lote de informações diplomáticas interceptadas e decodificadas pela inteligência americana e levadas ao presidente Franklin Roosevelt diariamente.

Os documentos, agora nos Arquivos Nacionais dos EUA, estão acessíveis, gratuitamente, para os cidadãos americanos com um cartão de seguro social ou carteira de motorista, ou a estrangeiros com passaporte.  


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terça-feira, 12 de maio de 2015

[SGM] Stalin planejou invadir a Alemanha

Nick Holdsworth

The Telegraph, 11/05/2015


Documentos que foram mantidos em segredo por quase 70 anos mostram que a União Soviética propôs enviar uma poderosa força militar em um esforço para aliciar a Grã-Bretanha e a França em uma aliança antinazista.

Tal acordo poderia ter mudado o curso do século XX, prevenindo o Pacto de Hitler com Stalin, o qual deu a ele caminho livre para ir à guerra contra outros vizinhos da Alemanha.

A oferta de uma força militar para ajudar a conter Hitler foi feita por uma delegação militar soviética no Kremlin durante um encontro com funcionários britânicos e franceses, duas semanas de a guerra estourar em 1939.

Os novos documentos, cópias dos quais foram vistos pelo The Sunday Telegraph, mostram que vasto número de forças de infantaria, artilharia e aerotransportada que os generais de Stalin diziam que poderiam ser mobilizadas, se as objeções polonesas ao Exército Vermelho atravessando seu território pudessem ser removidas[1].

Mas o lado britânico e francês – limitados pelos seus governos a negociar, mas não autorizados a assumir qualquer acordo – não responderam à oferta soviética, feita em 15 de agosto de 1939. Ao invés disso, Stalin voltou-se para a Alemanha, assinando o tratado conhecido de não-agressão com Hitler apenas uma semana depois.

O Pacto Molotov-Ribbentrop, chamado assim em virtude dos secretários do exterior dos dois países, foi assinado em 23 de agosto – apenas uma semana antes de a Alemanha Nazista atacar a Polônia, provocando destarte o início da guerra. Mas ela jamais teria acontecido se a oferta de Stalin à aliança ocidental tivesse sido aceita, de acordo com o General de Divisão aposentado da inteligência russa Lev Sotskov, que estudou os documentos de 700 páginas liberados.

“Esta foi a chance final de parar o lobo, mesmo após Chamberlain e os franceses terem dado a Tchecoslováquia para a agressão alemã no ano anterior no Acordo de Munique,” disse o general Sotsok, 75 anos.

A oferta soviética – feita pelo ministro da guerra Klementi Voroshilov e o chefe do estafe geral Boris Shaposhnikov – teria colocado cerca de 120 divisões (cada qual com 19.000 soldados), 16 divisões de cavalaria, 5.000 peças de artilharia, 9.500 tanques e cerca de 5.500 caças e bombardeiros nas fronteiras da Alemanha no evento de guerra no Ocidente, mostram as minutas liberadas do encontro[2].

Mas o almirante Sir Reginald Drax, que liderou a delegação britânica, disse às suas contrapartes soviéticas que ele autorizaria somente conversações, e não faria acordos.

“Tivessem os britânicos, franceses e seu aliado europeu, a Polônia, aceitado esta oferta seriamente, então juntos poderíamos ter colocado 300 ou mais divisões em campo em duas frentes contra a Alemanha – o dobro do número que Hitler tinha na época,” disse o general Sotskov, que se juntou ao serviço de inteligência soviética em 1956. “Esta foi uma chance de alvar o mundo ou pelo menos parar o lobo em suas ambições.”

Quando perguntado que forças a própria Grã-Bretanha poderia mobilizar no ocidente contra a possível agressão nazista, o almirante Drax disse que seriam apenas 16 divisões prontas, deixando os soviéticos preocupados pela falta de preparação da Grã-Bretanha pelo conflito vindouro.

A tentativa soviética de assegurar uma aliança antinazista envolvendo os britânicos e franceses é bem conhecida. Mas a extensão na qual Moscou estava preparada para seguir em frente nunca antes tinha sido revelada.

Simon Sebag Montefiore, o autor dos livros “O Jovem Stalin” e “Stalin: A Corte do Czar Vermelho”, disse que era evidente que havia detalhes nos documentos liberados que não eram conhecidos dos historiadores ocidentais.

“O detalhe da oferta de Stalin salienta o que é conhecido; que os britânicos e franceses podem ter perdido uma oportunidade colossal em 1939 de prevenir a agressão alemã que despertou a Segunda Guerra Mundial. Ela mostra que Stalin pode ter sido mais sério do que nós percebemos na oferta desta aliança.”

O professor Donald Cameron Watt, autor de “Como a guerra aconteceu” – vista como a obra definitiva sobre o relato dos acontecimentos dos últimos doze meses antes de a guerra começar – disse que os detalhes são novos, mas também que ele estava cético sobre a afirmação de que elas foram esclarecidas durante o encontro.

“Não houve nenhuma menção disto em qualquer dos três diários contemporâneos, dois britânicos e um francês – incluindo o de Drax,” ele disse. “Eu particularmente não acredito que os russos estivessem sendo sérios.”

Os arquivos liberados – que cobrem um período do começo de 1938 até o início da guerra em setembro de 1939 – revelam que o Kremlin sabia da tremenda pressão que a Grã-Bretanha e a França colocaram sobre a Tchecoslováquia para apaziguar Hitler pela entrega da região dos Sudetos alemães em 1938.

“Em todo estágio do processo de apaziguamento, dos encontros iniciais ultrassecretos entre britânicos e franceses, compreendemos exatamente e em detalhes o que estava acontecendo,” disse o general Sotskov.

“Estava claro que o apaziguamento não seria interrompido com a rendição dos Sudetos da Tchecoslováquia e que nem os britânicos nem os franceses moveriam um dedo quando Hitler desmembrasse o resto do país.”

As fontes de Stalin, diz o general Sotskov, eram agentes de inteligência soviéticos na Europa, mas não em Londres. “Os documentos não revelam precisamente quem eram os agentes, mas eles provavelmente estavam em Paris ou Roma.”

Um pouco antes do conhecido Acordo de Munique de 1938 – no qual Neville Chamberlain, o primeiro ministro britânico, efetivamente deu a Hitler a autorização para anexar os Sudetos – o presidente da Tchecoslováquia, Eduard Benes, não foi informado dos termos para não invocar o acordo militar que seu país tinha com a União Soviética em face de uma possível agressão alemã.

“Chamberlain sabia que a Tchecoslováquia tinha dado como perdido o dia que ele retornou de Munique em setembro de 1938, carregando um pedaço de papel com a assinatura de Hitler nele,” disse o general Sotksov.

As discussões ultrassecretas entre a delegação militar anglo-francesa e os soviéticos em agosto de 1939 – cinco meses após os nazistas terem marchado sobre a Tchecoslováquia – sugerem tanto desespero quanto impotência das potências ocidentais em face da agressão nazista.

A Polônia, cujo território o vasto exército russo poderia ter atravessado para enfrentar a Alemanha, estava firmemente convicta contra esta aliança. A Grã-Bretanha estava duvidosa da eficácia de quaisquer forças soviéticas porque somente no ano anterior, Stalin havia expurgado milhares de comandantes do Exército Vermelho.

Os documentos serão usados por historiadores russos para ajudar a explicar e justificar o pacto controvertido com Hitler, que permanece infame como um exemplo de contingência diplomática.

“Fica claro que a União Soviética estava sozinha e teve que se voltar para a Alemanha e assinar o pacto de não-agressão para ganhar algum tempo para se preparar para o conflito que claramente estava se delineando,” disse o general Sotskov.

Uma tentativa desesperada pelos franceses em 21 de agosto para recomeçar as conversas foi repelida, já que as conversações soviéticas-nazistas estavam bem avançadas.

Foi somente dois anos mais tarde, após o ataque Blitzkrieg de Hitler contra a Rússia em junho de 1941, que a aliança com o ocidente que Stalin planejou tornou-se realidade – na época França, Polônia e a maior parte da Europa estavam sob a ocupação alemã.   
   
Notas:

[1] Havia um bom motivo para os poloneses não abrirem suas fronteiras aos soviéticos. Ver tópico “Varsóvia, 1920” (http://epaubel.blogspot.com.br/2014/02/varsovia-1920.html). Parece claro, para quem conhece o regime stalinista que o avanço temporário sobre o território polonês tornar-se-ia uma ocupação definitiva.

[2] Estes números corroboram a tese de que Stalin tinha um plano de invasão da Europa e desmente, outrossim, o argumento de que a União Soviética era militarmente fraca em 1939, por isso Stalin teria feito o acordo com Hitler, para ganhar tempo e se armar.


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As Razões para o Pacto de Não-Agressão Teuto-Soviético

domingo, 10 de maio de 2015

[POL] Hitler como Líder Militar

Carole Chapman

History Review, Nº 71, dezembro 2011


Em setembro de 1938, o apaziguamento em ação na Conferência de Munique frustrou o desejo de Adolf Hitler por uma guerra europeia oriental limitada para destruir o Estado Tcheco. Hitler estava determinado que, durante a crise polonesa do verão seguinte, nada o desviaria de seu objetivo: a destruição da Polônia pela guerra. Entretanto, a guerra que se iniciou em setembro de 1939 não foi um conflito limitado que Hitler desejava e incluiu a Grã-Bretanha, junto com a França, em uma situação que não foi prevista pelo Führer. De 1939 a 1941, os britânicos exerceriam um papel crucial na estratégia de Hitler, já que ela implicava não somente na Grã-Bretanha, mas na URSS e nos EUA.

Esta situação surgiu em virtude da ocupação alemã da Boêmia e Morávia em março de 1939 (a Eslováquia tornou-se um estado fantoche independente). O desprezo de Hitler pelos líderes ocidentais foi alimentado por Munique: eles eram “pequenos vermes”. Contudo, ele calculou errado a resposta deles a suas ações em março de 1939. Os fundamentos do apaziguamento foram abalados. Hitler quebrou sua promessa de que ele não tinha mais nenhuma exigência territorial. Além disso, a noção de que suas políticas objetivavam somente unificar os povos de língua alemã foi exposta como uma ficção. Acima de tudo, estava claro que Hitler não podia ser confiado. O resultado foi uma garantia à Polônia, o próximo alvo de Hitler, pelas potências ocidentais.

O que Hitler lutou para evitar aconteceu. Ele pensou em usar pressão sobre os poloneses assim como o fez com sucesso sobre os tchecos, presumindo que eles entregariam Danzig e concederiam rotas extraterritoriais através do corredor polonês. A Polônia tornar-se-ia um satélite alemão, e útil em um ataque posterior à URSS.

Guerra

Durante a primavera e o verão de 1939, a diplomacia alemã objetivou isolar a Polônia e deter o envolvimento das potências ocidentais. Uma consequência disto foi a assinatura em maio do Pacto de Aço com a Itália. Entretanto, a situação do inimigo ideológico da Alemanha, a União Soviética, causava mais preocupações.

Era a Rússia que poderia interferir nas intenções de Hitler em relação à Polônia. Se ela pudesse ser impedida de se aliar com as potências ocidentais – uma possibilidade que a Grã-Bretanha e a França estavam relutantes de explorar – e se, além disso, ela pudesse ser persuadida a fazer um pacto com a Alemanha, então a Polônia estaria nas mãos de Hitler, com as garantias anglo-francesas totalmente inúteis. A Grã-Bretanha, em especial, seria significativamente enfraquecida.

Este foi o motivo por trás do Pacto nazi-soviético de agosto de 1939. Ele tornou inevitável uma guerra contra a Polônia, mas seria preciso um conflito de proporções maiores? Hitler, encorajado pelo Ministro do Exterior Ribbentrop, acreditava que isto era improvável. Porém, apesar de seus apelos aos poloneses para negociar, foi repetidamente afirmado que as potências ocidentais honrariam suas obrigações com a Polônia. As hostilidades foram iniciadas em 1º de setembro; no dia 3, Grã-Bretanha e França declararam guerra.

Hitler tinha agora começado uma guerra geral europeia que, como indicado no encontro de novembro de 1937 registrado no Memorando Hossbach, ele pretendia evitar até meados dos anos 1940. O Führer tinha feito um pacto com seu oponente ideológico, a União Soviética, e estava em guerra com a Grã-Bretanha, um país que ele admirava e retratava como um aliado natural do Reich no Mein Kampf. Ele tinha presumido que a Grã-Bretanha não entraria na guerra, apesar de que ele também foi descuidado da possibilidade. Se o intérprete Paul Schmidt está correto, quando Hitler soube da declaração de guerra britânica em 3 de setembro, ele virou-se raivosamente para Ribbentrop e disse, “O que faremos agora?”

A Guerra de Hitler?

Em 1º de setembro de 1939, Chamberlain, referindo-se a Hitler, disse na Casa dos Comuns: “A responsabilidade por esta terrível catástrofe está nos ombros de um único homem.” Qual foi o nível de responsabilidade de Hitler?

Claramente, as ações de outras nações ajudaram a conduzir Hitler ao ponto onde ele podia ameaçar a paz na Europa. Mesmo na época que as potências ocidentais perceberam a extensão das ambições do Führer, suas opções para contê-lo eram perigosamente limitadas.

Dentro da Alemanha, o poder pessoal de Hitler expandiu-se após 1933 às custas de outros grupos – notavelmente os nacionalistas conservadores – até que se tornou absoluto. No rescaldo do encontro de novembro de 1937, registrado no Memorando Hossbach, Hitler havia se voltado contra os militares e civis receosos, como indica o ano de 1938 como uma fase mais radical do regime. O ministro da guerra, Marechal Blomberg, e o chefe do exército, general Fritsch, saíram em virtude de escândalos, e Hitler assumiu a liderança pessoal da Wehrmacht em fevereiro. Ribbentrop substituiu o conservador Neurath como ministro do exterior.

É certo que, à época da crise dos Sudetos em 1938, elementos do exército, encabeçados pelo Chefe de Estafe General Ludwig Beck, foram apaziguados pelo aparente desejo de Hitler de não arriscar uma guerra contra a França e Grã-Bretanha. Contudo, nunca houve um esforço concentrado para se opor ao Führer, e o próprio Beck, uma figura crescentemente isolada, demitiu-se em agosto de 1938. De qualquer forma, o comportamento das potências ocidentais em Munique acabou com qualquer oposição que existisse a Hitler na Alemanha. À medida que a guerra se aproximava em 1939, os opositores conservadores do Führer estavam sem comando e incertos do modo como proceder.

Dentro da hierarquia nazista, perspectivas diferentes eram representadas por Göring e Ribbentrop. O primeiro foi influente na época de Munique, clamando pela aceitação de um acordo. Esta foi uma posição que subsequentemente manchou sua reputação com um Hitler que acreditava que havia sido enganado de sua guerra. Em 1939, Göring permaneceu convencido de que uma guerra com a Grã-Bretanha deveria ser, pelo menos, evitada e culpou Ribbentrop pela falha nesta estratégia. Entretanto, seja qual for a diferença na ênfase, Göring era o vassalo subserviente de Hitler.

O próprio Ribbentrop era arrogante em sua certeza de que os britânicos não lutariam pela Polônia. Movido em parte pelo ressentimento em relação ao tratamento que teve enquanto era embaixador na Grã-Bretanha (1936 – 1938), ele era certamente um beligerante. Como tal, ele ajudou a influenciar Hitler em seu erro em relação à política britânica. Contudo, uma vez mais, não pode haver dúvidas sobre a subserviência do ministro do exterior para com o Führer.

Assim, nas palavras de Ian Kershaw, “Hitler decidiu”. Pressões externas, derivadas do curso ambicioso, visionário, com o qual o Führer havia assumido as rédeas da política externa, foram reforçadas pelos elementos de seu próprio estado psicológico. À medida que atingia os 50 anos, Hitler, um hipocondríaco, estava consciente das restrições de tempo e da necessidade de agir antes que a situação se tornasse mais ameaçadora para a Alemanha. Dado que ele acreditava que o futuro da Alemanha poderia ser somente assegurado pela guerra, e que seus inimigos, a Grã-Bretanha e a França, estavam agora se preparando para um conflito, guerra em 1939, e como se desenvolveu depois disso, era uma função da personalidade de Hitler e do culto em torno dele.

“A Guerra Falsa”: Paz no Ocidente?

Com a rápida derrota da Polônia no outono de 1939, e a implantação do Pacto nazi-soviético, Hitler se voltou para as potências ocidentais. O Führer esperava que, tendo presenciado este triunfo da Wehrmacht, os britânicos e franceses pudessem ter bom senso e chegar a um acordo. Afinal, eles não moveram um dedo para ajudar a Polônia. Emissários começaram, portanto, a chegar a Berlim durante setembro e outubro. Estas conversações estavam centradas na paz do vencedor, com o retorno das colônias alemãs e, especialmente, a liberdade para avançar no leste que Hitler sempre quis. Tais ideias continuaram a surgir em 1940. Hitler estava sendo sério? Parecia que sim, apesar de que ele tinha poucas esperanças sobre sua aceitação, particularmente quando o Gabinete britânico anunciou que estava se preparando para uma guerra que poderia durar pelo menos três anos. Hitler sabia que as potências ocidentais aguardariam até que eles pudessem completar seus programas de rearmamento. Quando este ponto fosse alcançado, seria perigoso para a Alemanha. Segurar o poder militar francês, mas não o britânico, e percebendo que, atrás dos britânicos, pairava a ameaça (ainda não consumada) do envolvimento americano, Hitler apostou suas fichas ao ter o preparo militar para um ataque ao ocidente no outono. Havia uma clara suposição de que a derrota da França obrigaria a Grã-Bretanha a chegar a um acordo.

Adotando a política ambígua de oferta de paz e ameaça, Hitler fez um discurso no Reichstag em 6 de outubro de 1939 delineando a perspectiva de uma conferência das nações principais para discutir os problemas da Europa de paz e segurança. Entretanto, a divisão da Polônia entre a Alemanha e a Rússia permaneceria. Esta seria, portanto, a paz nos termos do Führer, com a ameaça de morte e destruição se as potências ocidentais recusassem. O grupo “belicoso” de Churchill e seus apoiadores foi escolhido para determinado abuso. A “oferta” de Hitler foi rejeitada por Chamberlain em 12 de outubro, provavelmente como previsto. Hitler, portanto, terminou o ano com o foco firme de um ataque iminente no oeste, o qual foi contestado como sendo prematuro pelo exército. De fato, houve vários atrasos devido ao clima ruim, mas não foi somente até 16 de janeiro de 1940 que o Führer finalmente estabeleceu-o para a primavera. Em 1940, as consequências da falha de Hitler em limitar a guerra na Europa Oriental seriam assim enfrentadas de cabeça erguida.

1940: Vitória e Atoleiro

Se o período da “Guerra Falsa” não assegurou um acordo para Hitler com as potências ocidentais, ele mostrou que estas não eram capazes de iniciativas robustas. As 65 divisões francesas disponíveis para um assalto contra a Alemanha no ocidente em setembro de 1939 superavam em grande número as unidades da Wehrmacht que estavam comprometidas na Polônia, mas elas nunca foram colocadas em combate. A Força Expedicionária Britânica na França também era puramente defensiva. Claramente, se o apaziguamento morreu com as ações de Hitler em 1939, seu fantasma continuava a ameaçar a liderança das potências ocidentais, especialmente a França. O resultado foi precaução e fraqueza, prenunciando o rápido colapso diante da Blitzkrieg alemã na primavera de 1940. Neste sentido, os interlocutores da paz contínuos de Hitler podem ser atribuídos a mais do que a uma ilusão de sua parte. Entretanto, outros fatores indicam que o erro de cálculo inicial do Führer, particularmente a respeito dos britânicos, continuou a ser influente.

Hitler sozinho não poderia moldar os eventos e encerrar a guerra. Isto era impossível a menos que a Grã-Bretanha fosse forçada à mesa de negociação ou derrotada militarmente. Porém, a Alemanha não estava equipada em 1940 para lutar uma guerra longa na qual os britânicos estavam claramente calculando. A Wehrmacht havia iniciado as hostilidades em setembro de 1939 com nenhum pensamento por meio de planos para uma guerra de grandes proporções, e nenhuma estratégia para uma ofensiva no Ocidente. Nestas circunstâncias, o fôlego que o exército alemão ganhou durante o intervalo 1939-40 foi crucial para preparar-se para o ataque contra a França. A Luftwaffe era a força melhor equipada das forças armadas. Contudo, mesmo ela tinha um programa de armamentos direcionado para 1942, não 1939. Com respeito à Marinha, a falta de acordo com a Grã-Bretanha, combinado com o sucesso diplomático crescente, fez com que Hitler se interessasse por ela no final dos anos 1930. O resultado foi o Plano Z de janeiro de 1939, no qual a insistência do Führer na construção de uma grande frota de batalha em 1944, ao contrário da preferência da Marinha por submarinos, que eram uma arma ofensiva melhor para ser usada contra a Grã-Bretanha, pareceu apontar não somente para uma luta contra a Grã-Bretanha, mas também o domínio dos mares no futuro e um conflito global, um ponto que voltou a ser pensado. Entretanto, o Plano Z foi interrompido no início da guerra e somente recomeçou em julho de 1940. Assim, dado que Hitler agora tinha que lutar o que era, sob muitos aspectos, a guerra “errada”, ele também tinha que fazer uma grande aposta. Esta foi mover todos os recursos disponíveis para a derrota da França. Tirar a Grã-Bretanha da guerra pelo isolamento após essa derrota era a principal estratégia de Hitler na primeira metade de 1940. Ela continuou a ser um fator dominante posteriormente.

Havia, é claro, algum grau de lógica na presunção de que, seguindo o espetacular avanço alemão na primavera de 1940 e a oferta de termos razoáveis, especialmente em relação ao império, a Grã-Bretanha aceitaria o inevitável até por autointeresse. Houve vozes importantes no país, como a de Lorde Halifax, que apoiavam tal ideia. Contudo, uma vez que a decisão foi tomada, ela arruinou a estartégia simples de Hitler. O Führer, assumindo que o autointeresse imediato poderia ser o único “princípio” na guerra e paz, subestimou a indubitável resistência e idealismo que surgiu na Grã-Bretanha após a marcha sobre Praga em 1939 e que, no verão de 1940, o novo Primeiro Ministro, Winston Churchill, foi capaz de articular junto ao povo. O “duelo” entre Hitler e seu arqui-inimigo, Winston Churchill, dominaria o verão. Seu resultado afetaria de forma vital o curso futuro da guerra.

Assim, apesar de em 1940-41 Hitler estar no auge do seu poder, especialmente e, relação ao seu triunfo sobre a França, sua inabilidade em concluir a guerra no Ocidente moldou o resto da guerra. De forma crucial, a decisão de direcionar o conflito para o leste antes que o Ocidente estivesse concluído retiraria da Alemanha o espaço para manobra. No final de 1941, as sementes da catástrofe começaram a dar frutos.

1940 – 1941: Guerra Mundial

Seguiu do atoleiro no Ocidente e da decisão, não obstante, de iniciar as hostilidades no leste, que duas potências impactaram na visão estratégica de Hitler: obviamente a União Soviética, mas também os Estados Unidos.

No contexto de 1940, a América não era um problema imediato para a Alemanha. Ela estava no momento dominada pelo isolacionismo e preocupada com as eleições presidenciais no outono. O envolvimento inicial dos EUA pode ser assim descontado. Porém, já que a Grã-Bretanha estava na guerra, a participação – pelo menos através de benevolente neutralidade – dos EUA, com seu imenso poder econômico, não poderia ser descartada. Esta era o maior motivo, portanto, para eliminar a Grã-Bretanha o mais rápido possível.

As visões amplas de Hitler sobre os Estados Unidos eram, de fato, confusas e fluidas. Seus discursos iniciais e escritos, incluindo o Mein Kampf, contém poucas referências a América além das denúncias de sua participação na Primeira Guerra Mundial e no tratado de paz. No final dos anos 1920, pontos de vista de uma ameaça de longo termo da América contra a Alemanha não eram comuns, e este era o contexto no qual Hitler expressou sua noção vaga sobre o conflito vindouro entre o império Euroasiático dominado pela Alemanha e os EUA, que é discutido no Segundo Livro de 1928 (n. do t.: a continuação do Mein Kampf). Era a visão de Hitler de que os EUA só poderiam ser derrotados por um estado europeu racialmente puro: a Alemanha Nazista. Entretanto, ele também acreditava que seria também do interesse da Grã-Bretanha colaborar contra a ameaça do Novo Mundo.                     
  
Mesmo assim, uma vez no poder, os pontos de vista de Hitler mudaram. A chegada da Depressão deixou os EUA como um Estado fraco, miscigenado e dominado pelos judeus que seria incapaz de deixar sua marca no conflito europeu. Sua única esperança residia em seu sangue nórdico, anglo-germânico, despertado pelo nazismo. No final dos anos 1930, o desgosto americano – particularmente de F. D. Roosevelt – pela política racial e religiosa nazista confirmou a avaliação de Hitler das deficiências dos americanos[1]. Ele não via ainda os EUA como rivais e sua visão permaneceu basicamente europeia. A ideia de um conflito futuro não tinha importância prática.

A questão dos pontos de vista de Hitler sobre os Estados Unidos[2] é, não obstante, conectada àquela de suas intenções finais sobre um estágio global. Uma discussão completa deste tópico está além do objetivo deste artigo, mas já foi notado que a estratégia naval de Hitler no final dos anos 1930 implicou em tal confronto, além daquele contra a Grã-Bretanha. Isto está de acordo com seu pensamento igualmente vago sobre os Estados Unidos. O que está claro é que, entre 1940 e 1941, o pensamento “global” de Hitler era largamente uma reação às circunstâncias que, se ele tivesse tornado realidade, estavam saindo de seu controle. Aqui, planejamento para uma guerra contra a União Soviética, que Hitler sempre quis ideologicamente, tornou-se estrategicamente direcionada pela necessidade de conduzir a Grã-Bretanha à conversações de paz, manter a América fora da guerra e, assim, concluir o conflito com a vantagem da Alemanha.

Resumindo, integral ao pensamento de Hitler entre 1940 e 1941 era um ataque contra a União Soviética. Ideologicamente, ela sempre foi o inimigo natural do Führer e, como explicado ainda no Mein Kampf, a fonte do futuro lebensraum (espaço vital) para o estado Nazista. As circunstâncias de 1939 garantiram um acordo com Stalin. Entretanto, isto não impediria um confronto posterior assim que a Grã-Bretanha tivesse sido eliminada. Quando esta última condição tornou-se inatingível, foi lançado o holofote sobre a URSS, tanto ideologicamente quanto, ainda mais, estrategicamente. Assim, em julho de 1940, com a França derrotada, mas a Grã-Bretanha desafiadora, Hitler considerou o inimaginável: uma guerra de duas frentes. O Chefe do Estafe Geral, general Halder, lembrou a avaliação do Führer em uma conferência militar em 31 de julho de 1940: “A Grã-Bretanha se apoia na Rússia e Estados Unidos. Se a Rússia for eliminada, a América também será perdida, pois a eliminação da Rússia aumentaria tremendamente o poder do Japão no Oriente... Decisão: a destruição da Rússia deve ser, portanto, tornada parte da luta. Primavera de 1941.”

No outono de 1940, conversações de paz com a Grã-Bretanha falharam e também a batalha pelo domínio de seus céus. A ajuda americana à Grã-Bretanha foi iniciada com um acordo destróieres por bases em setembro[3]. Tirar a Grã-Bretanha da guerra era urgente. Neste estágio, as opções de Hitler não estavam totalmente fechadas. Havia a possibilidade de forçar a Grã-Bretanha à mesa de negociação através de uma série de ataques contra suas bases no Mediterrâneo e Oriente Médio. Contudo, uma vez esta opção tenha desaparecido, o Führer só ficou com uma possibilidade. Em 18 de dezembro de 1940, a cruzada contra o “Bolchevismo Judaico” foi inserida em uma diretiva de guerra. Um ano depois, o progresso inicial da Operação Barbarossa, lançada em junho de 1941, foi interrompido[4].

Houve outro desenvolvimento significativo no outono de 1940. Ribbentrop era capaz agora de ressuscitar a ideia que ele havia promovido antes da guerra: um bloco antibritânico da Alemanha, Itália e Japão. As negociações começaram no final de agosto e resultaram na assinatura do Pacto Tripartite em setembro de 1940. As três potências concordavam em ajudarem-se mutuamente no caso de uma delas ser atacada por potências estrangeiras não envolvidas no conflito europeu ou sino-japonês. Enquanto isso poderia preocupar os soviéticos, o alvo claro era a outra “esperança” dos britânicos, os Estados Unidos[5].

É claro que o Pacto Tripartite não cobriu o ataque japonês aos americanos em Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Hitler declarou ao Reichstag em 11 de dezembro de 1941 que a Alemanha e a Itália se sentiam compelidas, de acordo com o Pacto, a declarar guerra contra os Estados Unidos. Isto era claramente uma inverdade: o Japão atacou os EUA. O Führer escolheu a guerra contra a América. À primeira vista, esta parece ser uma decisão incrível, mas ela é explicável pelo fato de que a visão de Hitler sobre os EUA novamente havia mudado.

Entre 1940 e 1941, Hitler ficou convencido que a América entraria na guerra em 1942 e, já que o reeleito Roosevelt aumentou seus esforços para ajudar a Grã-Bretanha, principalmente através do Lend-Lease a partir de março de1941, seus pontos de vista voltaram-separa a imagem da força americana. A guerra no leste, que estrategicamente objetivava em parte encerrar o desafio britânico e deter os EUA, atolou no inverno de 1941, mas deveria ser encerrada de modo que poder-se-ia tratar da América separadamente. O outro fator foi a visão de Hitler de que, antes de Pearl Harbor, uma guerra não-declarada já existia com os americanos no Atlântico. Uma declaração removeria a necessidade de agir com cautela na região.

Portanto, do ponto de vista de Hitler, a decisão de 11 de dezembro de 1941 tomou a forma de um elemento de inevitabilidade. A guerra com os EUA estava chegando de modo que o Führer anteciparia-a e tentaria tomar de volta a iniciativa ao declarar a guerra ele próprio. De fato, não havia nada de inevitável sobre a situação que a Alemanha havia alcançado no final de 1941. O desafio da Grã-Bretanha, a guerra contra a Rússia e a ameaça americana não estavam interconectados. Não obstante, o ponto de partida foi a postura britânica, os erros de cálculo de Hitler e seus esforços para resolver o problema que isso provocou. A consequência foi uma guerra mundial que a Alemanha não poderia ganhar.
     

Notas:

[1] Vale lembrar que leis raciais segregacionistas existiam nos EUA por volta desta época; que o programa de eugenia alemão foi baseado em estudos realizados primeiramente nos EUA; que Roosevelt só começou a trabalhar com judeus após assumir a presidência. O repúdio do povo americano aos conceitos religiosos praticados na Alemanha Nazista só surgiram após a divulgação por Roosevelt de um documento falso (elaborado pelo Serviço Secreto Britânico) que afirmava que o objetivo do regime nazista era o fim do Cristianismo. Enfim, a antipatia do povo americano pela Alemanha Nazista só apareceu após Hitler ter tomado a decisão desastrosa de declarar guerra aos EUA.

[2] Ver tópico “Hitler e a América”:


[3] A Grã-Bretanha forneceria suas bases militares ao redor do mundo como forma de pagamento pelos equipamentos militares.

[4] Ver tópico “Reviravolta na SGM: A Vitória do Exército Vermelho em Moscou”:

http://epaubel.blogspot.com.br/2013/01/sgm-reviravolta-na-sgm-vitoria-do.html

 

[5] Em virtude deste Pacto, a Alemanha declarou guerra aos EUA. No entanto, esperava-se a contrapartida dos japoneses, isto é, sua declaração de guerra à União Soviética. Caso os japoneses tivessem feito isso, Stalin teria sido obrigado a manter uma grande força militar no Oriente. Como o Japão manteve-se neutro, os soviéticos conseguiram deslocar milhões de soldados estacionados na região oriental do país para a parte ocidental, já que o Exército Vermelho fora massacrado na etapa inicial da Operação Barbarossa. Se os japoneses não tivessem traído a confiança dos alemães, provavelmente o resultado da guerra teria sido outro.


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