domingo, 24 de maio de 2015

Guerra Híbrida

Frederico Aranha

Defesanet, 30 de Abril, 2015


Roger Trinquier, Coronel do Exército Francês (originalmente um Colonial – Infantaria da Marinha Francesa) foi um notável operador de guerra irregular. Em 1953, o Major Trinquier era o responsável por todas as operações atrás das linhas inimigas na Indochina. Comandava mais de 20.000 nativos e regulares franceses do GMI (Groupement Mixte d’Intervention), engajados em guerra sem quartel às forças comunistas num teatro de operações de milhares de quilômetros quadrados de território inimigo.

Após o desastre de Dien Bien Phu, a Convenção de Genebra selou o fim da formidável operação.  Proibia à França suprir as forças partisan que permaneciam de qualquer modo lutando contra as forças comunistas no norte.

No relatório final, Trinquier, amargurado, lamenta a sorte da sua gente: A total supressão do apoio logístico ... resultará na progressiva liquidação dos nossos elementos (infiltrados). Não há a menor esperança dos líderes do nosso maquis escaparem da “clemência” do Presidente Ho Chi Minh. Após uma estada na França no Centro de Paraquedismo do Exército é promovido a Tenente Coronel e transferido para a 10ª Divisão de Paraquedistas, na Argélia, assumindo a área de inteligência da unidade.

O alto comando francês ordenou à Divisão que ocupasse Argel com a missão de limpar a cidade dos terroristas que infernizavam a vida dos cidadãos e desestabilizavam a autoridade, praticando atentados com bombas, assassinatos seletivos, sequestros e extorsão. Trinquier planeja, organiza e opera o desmantelamento de toda a estrutura da FLN (Front Nationale de Libération) na cidade, mediante o emprego (também) de métodos não convencionais de investigação e operação policial (entre eles tortura e ações de caça e extermínio).

Essa operação ficou plasmada em relatórios, estudos acadêmicos e militares, livros e filmes como A Batalha de Argel. Apesar do amplo sucesso da ofensiva, erradicando o problema, o destino da Argélia já estava traçado. De Gaulle apenas bateu o martelo da independência da colônia.  Com base na sua intensa experiência de guerra irregular, identificou uma dicotomia entre a guerra praticada até a IIª GM, a que chamou de guerre traditionale, e a surgida posteriormente – guerra subversiva ou guerra revolucionária – a que denominou guerre moderne.

Explica: (...) Difere (esta) fundamentalmente da guerra do passado, pois a vitória não resulta do choque de dois exércitos no campo de batalha. Essa confrontação, que em tempos passados ocasionava a aniquilação do exército inimigo em uma ou mais batalhas, não mais subsiste. A guerra é agora um sistema articulado de ações – política, econômica, psicológica, militar – que visa a derrubada da autoridade estabelecida no país e sua substituição por outro regime. Conhecia como ninguém a doutrina revolucionária de Mao Tse Tung, pois não só lutara contra os adeptos dela como até a adotara no comando de forças irregulares. Pode-se dizer que praticou embrionariamente a chamada Guerra Híbrida.
      
Outro inovador, o teórico militar israelense Martin van Creveld prognosticou nos idos de 1980 que o conflito convencional entre forças regulares de Nações-Estado declinaria em freqüência ao passo que conflitos de baixa intensidade, levados a cabo por guerrilhas, milícias religiosas, grupos terroristas e pelo crime organizado cresceriam de forma exponencial no mundo em desenvolvimento.

Suas previsões materializaram-se nas últimas décadas, resultando num desafio direto à ortodoxia dos sistemas militares ocidentais fundados no pensamento de Clausewitz. Saliente-se que o mestre prussiano passou ao largo das Guerras Medievais ao formular sua doutrina. Considerou que foram conflitos de Não-Estados caracterizados pela participação de exércitos de senhores da guerra, de facções religiosas, mercenários e de bandos de criminosos, ausentes, portanto, o Estado e exércitos nacionais. Na visão ortodoxa de Clausewitz o exame dessas guerras não tinha lugar reservado nas grandes questões que sobressaltavam e afligiam estadistas e estrategistas na era pós-Napoleão Bonaparte, período conturbado de transição da história política e militar universal. De fato, a Idade Média presenciou, levando em conta os degraus históricos que os separam, conflitos manifestamente assemelhados aos do cotidiano de hoje em dia.
           
São incontáveis as interpretações de especialistas buscando caracterizar a cognominada Guerra Híbrida: Nathan Freier do CSIS (Center for Strategic and International Studies), supostamente criador do termo, resume a Guerra Híbrida em quatros ameaças:

(1) tradicional ou convencional;
(2) irregular;
(3) terrorismo catastrófico e,
(4) caos.– proporcionando campo aos ativistas para explorar a melhor tecnologia visando contra atacar a superioridade militar.

O Tenente Coronel David Kilcullen (Australian Army, Ret.), conselheiro do Departamento de Defesa Americano e assessor do Gen. David Petraus, antigo Comandante Supremo no Iraque e no Afeganistão, classifica “Guerra Híbrida” como a melhor definição para os conflitos modernos, abrangendo uma combinação de guerra irregular, terrorismo e crime organizado para alcançar objetivos políticos.

Amanda Paul, jornalista investigativa turca de nomeada, afirma que a operação de ocupação e anexação da Criméia é o mais recente exemplo de Guerra Híbrida: (...) Começou com a presença em Fevereiro de 2014 dos ‘little green men’ na península, homens fortemente armados sem insígnia e identificação. Espraiaram-se e tomaram pontos chave da infraestrutura, pavimentando o caminho para a separação da Criméia. Na ocasião, Putin, questionado, insistiu que se tratava de ‘forças de autodefesa locais’. Mais tarde, após a anexação, admitiu que tropas russas estavam envolvidas na operação. A expressão little green men é um eufemismo de active intelligence empregada pelos soviéticos para abertamente cognominar grupo de irregulares (na verdade regulares) comandados e patrocinados secretamente pelo Estado.

O primeiro registro do termo se encontra em memorando de Stalin a Molotov datado de 07 de outubro de 1929, se referindo aos grupos armados de tropas soviéticas sem identificação infiltrados na Manchúria para combater e eliminar as milícias dos Senhores de Guerra chineses ao longo do eixo da Estrada de Ferro Chinesa do Leste, que a União Soviética por fim passou a controlar (Letters Stalin Molotov. 1925 - 1936. Collection of Documents. M., "Young Russia", 1995, str.167-168).

Ao examinarmos essas e outras definições e evidências, verificamos que todas têm em comum a mesma raiz: o conflito descentralizado, disperso (mas capaz de se concentrar rapidamente), caótico e, aparentemente, sem um objetivo estratégico convencional. Na verdade, a Guerra Híbrida não pode ser entendida e explicada à luz dos pensamentos político e militar ortodoxos.          

O país mais sensível às profundas alterações da estratégia conservadora é os EEUU. De acordo com o manual National Defense Strategy, melhorar a capacidade das forças armadas dos Estados Unidos em guerra irregular é a prioridade máxima do departamento de Defesa. Em artigo na Foreign Affairs, o antigo Secretário de Defesa americanoRobert Gates declarou enfaticamente que era hora de fomentar algum pensamento não convencional no Pentágono.
     
Mas, afinal, o que é a Guerra Híbrida? Pode-se cogitar de um conflito no qual os atores, Estado ou Não-Estado, exploram todos os modos de guerra simultaneamente, empregando armas convencionais avançadas, táticas irregulares, tecnologias agressivas, terrorismo e criminalidade visando desestabilizar a ordem vigente.

Essas atividades multimodais podem se realizar por meio de unidades operacionais separadas embora capazes de serem dirigidas e coordenadas de forma operacional e tática no âmbito da batalha principal, de forma a obter efeitos sinergéticos na dimensão física e dimensão psicológica do conflito. Sem embargo, o Coronel Frank G. Hoffman (USMC, Ret.), formulador da teoria da Guerra Híbrida, admite que a guerra híbrida não significa a derrota ou substituição da guerra antiga ou guerra convencional pela nova. Ainda assim, representa um fator embaraçoso para o planejamento da defesa no século 21.

Enfatiza que ocombate futuro premiará as forças versáteis, ágeis, adaptáveis e de mente expedicionária. Se refere, sem dúvida a tropas de elite, forças especiais e congêneres, unidades vistas com reserva por militares conservadores, o grosso dos altos comandos no mundo ocidental. A guerra ainda significa aplicar a força cinética, não importa o apelido que se lhe dê e o meio que se emprega.
       
A mais recente doutrina naval estadunidense reflete a visão de futuro do comando do Corpo de Fuzileiros Navais, do Chefe das Operações Navais e do comandante da Guarda Costeira a respeito: Os conflitos se caracterizam cada vez mais por uma mescla híbrida de táticas tradicionais e irregulares, planejamento e execução descentralizados e agentes que são Não-Estado e que utilizam tecnologias simples e as sofisticadas de forma inédita.

A Guerra Híbrida pode ser uma variação moderna do que se chamou guerra composta – começa com uma força regular e aumenta sua capacidade operacional agregando atividades irregulares ou vice-versa. Na Guerra da Península Ibérica Wellington expulsou os franceses da Espanha conduzindo uma luta convencional contra os marechais de Napoleão enquanto empregava as guerrilhas espanholas em ataques à retaguarda francesa. O Marechal de Campo Allenby operou de igual forma na Palestina contra os turcos na Grande Guerra, lançando um amplo assalto frontal de armas combinadas ao mesmo tempo em que irregulares beduínos e árabes, sob o comando de Lawrence da Arábia, infiltravam-se nas linhas interiores turcas, interrompendo comunicações e linhas de abastecimento e destruindo a infraestrutura.
     
Mao Tse Thung foi o primeiro a entender a alternância entre técnicas de guerra regular e as de guerra irregular. O líder chinês deduziu a teoria original da guerra revolucionária como o emprego de um misto de técnicas de guerra. Estabeleceu que a guerra revolucionária é, antes de mais nada, política, não militar, e que a primeira fase do conflito sempre envolve técnicas de guerra irregular. Não obstante, a vitória só será alcançada por meio do combate regular com forças convencionais. Destarte, sem cunhar o termo, o conceito da Guerra Híbrida nascia. Ho Cho Min empregou-a com sucesso contra japoneses, franceses, vietnamitas do sul e norte-americanos.
      
O plano operacional da Guerra Híbrida de que tratamos, inicia com a guerra irregular – as forças irregulares aumentam sua capacidade com armas convencionais. O termo em si captura a essência do problema ao definir sua organização e meios. Como já se viu neste século, essa situação cria um novo nível de ferocidade, combinando o fanatismo da guerra irregular com a capacidade militar convencional. Um bom exemplo é o Hezbolah na sua luta contra o Estado de Israel, acionando forças regulares as quais acresce grupos irregulares aptos a operar armas sofisticadas e atuando de forma independente com comando descentralizado.


Pode ocorrer também quando uma Nação-Estado converte suas formações regulares em combatentes irregulares como fez Saddam com seus fedayens em 2003. Exemplo marcante é o das forças regulares chechenas do antigo Exército Soviético transformadas em facções irregulares independentes, agindo em pequenas unidades e impondo derrotas contundentes ao Exército Russo.
      
Ron Tira, do Jaffa Center de Israel, observa que os atores híbridos são geralmente imunes à aplicação da força convencional, como o fazem os EEUU e Israel: empregar o conceito Schock and Awe e o método operacional de resultados contra uma organização guerrilheira do tipo Hezbolah, usando força alheia às circunstâncias, aos fatos e à natureza da guerra, é como tentar quebrar os ossos de uma ameba.
      
É, talvez, a assimetria moral o maior diferencial no campo de operações da Guerra Híbrida. Insurgentes taliban, iraquianos e soldados do Hezbolah, entre tantos outros irregulares, lutam, de um modo geral, por sua terra, sua religião e sua família, e mostram uma determinação de assumir ações de risco e morrer, o que tem alta significação tática.
      
O que parece perdido neste e em outros debates em que há empenho constante para reinventar princípios e teorias de guerra é o fato de ambos terem permanecido constantes, embora com nuances resultantes do desenvolvimento tecnológico, da ordem e desordem econômica e política, das ideologias e da alteração do quadro de poder mundial.
      
O criador e formulador da Teoria da Guerra de Quarta Geração, uma das variantes que pretende conceituar os conflitos contemporâneos, Coronel Thomas X. Hammes (USMC, Ret.), após o 11 de Setembro ponderou a respeito: Não há nada de misterioso com relação à Guerra de 4ª Geração. Assim como todas as guerras, objetiva alterar a posição política do inimigo. (...) Como todas as guerras reflete a sociedade de que faz parte. (...) Como todas as prévias gerações da guerra, evolui em consonância com a sociedade como um todo. Evolui porque gente prática resolve problemas específicos relacionados com suas metas políticas e com as lutas contra inimigos mais poderosos. Frente a adversários que não podem bater empregando a guerra convencional, adotam outra conduta.
      
O famigerado Tenente–General confederado Nathan Bedford Forrest, considerado por muitos historiadores militares o mais destacado comandante de cavalaria da Idade Moderna, tinha razão: Guerra quer dizer lutar e lutar quer dizer matar.
      
Os denominados paradigmas revolucionários da arte da guerra não podem alterar esta realidade.


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terça-feira, 19 de maio de 2015

[SGM] Como ações em Lisboa mudaram os rumos da Segunda Guerra Mundial

Dejan Stankovic

Galileu, 19/05/2015


Quando os aliados desembarcaram na Normandia, na França, o coronel norte-americano George Taylor disse: “Só dois tipos de homens ficarão nesta praia: os mortos e aqueles que vão morrer”. Era dia 6 de junho de 1944, data que entrou para a história como o Dia D.

Os militares não estavam tão confiantes. Afinal, era difícil ser discreto numa região dominada por 156 mil soldados em 7 mil embarcações, 20 mil veículos e 13 mil aviões nazistas. Por garantia, um dia antes, o então general Eisenhower até escreveu uma carta assumindo a culpa em caso de fracasso.

Os alemães sabiam do ataque. Mas esperaram pelo inimigo em Pas-de-Calais, a mais de 300 quilômetros do lugar certo. Hitler baseou-se na mensagem de um espião, o espanhol Juan Pujol García. O Führer só não sabia que o espião era agente duplo, mentor da maior mentira do século 20. E ele não foi o único a atuar em Lisboa durante a Segunda Guerra.

No início do conflito, Portugal apressou-se a declarar “neutralidade equidistante”. A simpatia do ditador António de Oliveira Salazar estava com os alemães, mas ele precisava honrar a aliança com os ingleses — a mais antiga em vigor no mundo, de 1373. 

Com o fechamento dos portos, Lisboa tornou-se o único ponto de saída da Europa, como bem sabiam Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, no filme Casablanca. Enquanto os outros países se digladiavam, Portugal permaneceu um oásis de paz, e a proximidade física mostrou-se ideal para as atividades dos serviços secretos.

James Bond da Vida Real

O Hotel Palácio ficava perto da capital portuguesa, na luxuosa região do Estoril. Em 1940, hospedou-se lá o iugoslavo Duško Popov. Festeiro, ele era o estereótipo do boêmio mulherengo. Ou seja, o exato oposto da figura discreta de um espião.

Na verdade, Popov era agente duplo. Além de trabalhar para a Abwehr, a agência de informação alemã, ele também era funcionário do governo britânico. Em uma viagem aos Estados Unidos, namorou estrelas de Hollywood, gastou quantias obscenas e não recolheu nenhum dado útil para os alemães. A única informação digna que conseguiu foi para os norte-americanos: ele previu o ataque japonês a Pearl Harbor. Infelizmente, a informação foi ignorada por J. Edgar Hoover, então diretor do FBI, que o considerou pouco confiável depois de saber que seu codinome era Triciclo, porque gostava de ménage à trois. Mas a previsão mostrou-se verdadeira. A avaliação errada de Hoover — que gostava de se vestir de mulher e frequentar orgias, segundo a biografia Official and Confidential (“Oficial e confidencial”, em tradução livre), escrita por Anthony Summers — custou muitas vidas norte-americanas.

Na autobiografia Spy — Counterspy (“Espião — contraespião”, em tradução livre), Popov narra a ocasião em que cruzou com Ian Fleming, autor de James Bond, no Casino Estoril. À mesa de bacará estava um lituano de má figura, metido a gastador. Como Popov já o conhecia, quis dar-lhe uma lição: tirou do bolso um maço de US$ 30 mil, que recebera dos alemães para viajar aos Estados Unidos, e colocou tudo sobre o pano verde para aposta.

Seguiu-se um momento de silêncio e tensão. Ninguém cobria a aposta. O lituano não tinha como se safar de maneira honrosa. Popov, então, recolheu o dinheiro, dirigiu-se ao bar e, mesmo tendo ganhado muito, resmungava contra a política pouco séria do cassino. Ao passar por Fleming, captou uma inconfundível expressão de admiração.

Há quem afirme que Fleming modelou o caráter de James Bond pensando nesse episódio. Não há provas. Mas alguns críticos consideram que a cena mais marcante da bibliografia do inglês é uma de seu primeiro romance, Cassino Royale, na qual ele descreve um jogo de bacará com 007. Anos depois, o escritor afirmou que foram essas noites no Estoril que lhe serviram de inspiração.

Depois do fim da guerra, Popov casou-se várias vezes. Um integrante da sua família revelou que, na infância, fora certa vez com os pais para a Provença, na França, visitar o velho tio James Bond. Encontraram-no sentado na soleira de casa, doente, magro e tomando sol com um casaco de pele. A uns outros amigos meus ficou devendo dinheiro. No fim da vida, sempre tinha frio. E assim morreu em 1981.

Meu Nome é Fleming

Durante a guerra, o escritor Ian Fleming prestava serviço no departamento de informações da marinha de guerra do Reino Unido — era um espião. Mas, como o trabalho era de natureza administrativa, sua dedicação pouco contribuiu para a vitória dos aliados.

No início do conflito, o escritor foi encarregado de desenvolver um plano de defesa de Gibraltar, para o caso de o ditador espanhol Francisco Franco decidir entrar na guerra ao lado de Hitler e invadir esse estratégico território ultramarino britânico, que liga o sul da Espanha ao norte do Marrocos. O nome da operação era Goldeneye.

Com essa missão, Fleming passou por Lisboa. Mas, dos relatórios, depreen­de-se que ele fazia que sua vida imitasse a ficção, como na ocasião em que, sem motivo plausível, alugou um avião de Tânger, no Marrocos para Lisboa, pagando uma fortuna e enfurecendo seus superiores.

Impossibilidade Necessária

Em 1940, apareceu na embaixada britânica de Madri um sujeito meio calvo. Pediu para falar com alguém do serviço secreto e foi atendido. Disse ser Juan Pujol García, da Catalunha, e oferecia seus serviços como espião, mas não conseguiu a vaga.

Um ano antes, a Inglaterra declarara guerra à Alemanha. A solidariedade de Pujol intensificou-se quando ele soube dos campos de concentração. “Meus instintos humanistas não me permitiriam fechar os olhos para o sofrimento causado por esses psicopatas”, escreveu o agente no livro Operation Garbo.

Foi com esse humanismo aguçado que ele surgiu pela segunda vez na embaixada britânica para tentar uma vaga como espião. Foi novamente dispensado. Nessa época já não restava dúvida: tratava-se de um louco.

Dois anos depois, em 1942, através das mensagens inimigas interceptadas, os ingleses souberam que os alemães tinham uma rede de agentes secretos em solo britânico. E iniciaram uma busca.

No meio da comoção provocada por aquela informação, apareceu na embaixada britânica, desta vez em Lisboa, um sujeito meio calvo. Pediu para falar com alguém do serviço secreto e foi atendido. Disse ser Juan Pujol García, o chefe da rede de espiões procurada na Inglaterra. Na verdade, seus relatórios eram fictícios e estavam sendo enviados de Lisboa, não de Londres.

Pujol explicou então que, em 1940, depois de ter sido rejeitado pelos ingleses em Madri, decidira aproximar-se dos ale­mães com a mesma proposta. Convencera a Abwehr e, sob o codinome Arabel, recebera formação básica em técnicas de espionagem e cerca de US$ 900 para ir à Inglaterra.

Passando por Lisboa, única rota possível para Londres, Pujol decidiu ficar. Inventou uma rede de subagentes secretos imaginários e começou a enviar seus relatórios falsos, que se baseavam em pesquisas nas revistas da Biblioteca Nacional e nas notícias que chegavam a Portugal. Às vezes acertava alguma informação por sorte, o suficiente para tornar-se um nazista confiável. Sem sequer ter saído de Lisboa.

Mas Pujol não queria trabalhar para Hitler. Encantados com seu esquema, os britânicos lhe ofereceram um emprego. Por considerarem-no um grande ator, atribuíram-lhe o sobrenome da diva sueca Greta Garbo. E Garbo tornou-se agente duplo.

“Os mortos e aqueles que vão morrer”

Graças aos aviões de reconhecimento alemães que sobrevoavam a França, Hitler sabia que a Inglaterra estava preparando alguma coisa. Então, um novo plano começou a ser pensado pelos ingleses. Se Hitler acreditasse que um ataque à França (dominada pelos nazistas) aconteceria em determinado ponto, os aliados poderiam desembarcar em outro lugar e chegar de surpresa. O problema era movimentar 156 mil soldados em segredo. Para resolver o impasse, a rede de espiões imaginários de Garbo entrou em ação.

De acordo com Stephan Talty, no livro Agent Garbo, os aliados não economizaram esforços para fazer os alemães acreditarem que eles atacariam Pas-de-Calais, o ponto mais próximo entre a França e a Inglaterra, e não a Normandia. Criou-se um exército falso chamado First United States Army Group (“Primeiro Grupo das Forças Armadas dos Estados Unidos”, em tradução livre), ou Fusag, bem como uma estrutura inventada, com pistas de pouso, hospitais e acampamentos de madeira, tudo produzido por equipes de cinema. A encenação era levada tão a sério que, toda noite, um grupo de soldados era encarregado de mover os tanques de guerra infláveis para simular um movimento real.

Em posições estratégicas, os agentes falsos de Garbo relatavam a preparação cada vez mais intensa de um iminente ataque inglês.Os alemães não tinham dúvida de que o Fusag era real e de que o ataque aconteceria perto de Pas-de-Calais. Assim, o batalhão dos aliados chegou à praia de Omaha, na Normandia, sem ser percebido, na manhã de 6 de junho de 1944. 

Depois da guerra, Pujol temia represálias dos nazistas sobreviventes. Com a ajuda dos ingleses, viajou para Angola, onde fingiu a própria morte por malária. Às escondidas, mudou-se para a Venezuela e lá abriu uma livraria. Em 6 de junho de 1984, 40º aniversário do Dia D, o ex-agente foi convidado para a grande celebração nas praias da Normandia. Lá, fez sua última apresentação teatral: quando os sobreviventes vieram agradecer-lhe por ter ajudado, Garbo desatou a chorar. Chorou por não ter feito mais. Ele morreu em Caracas, em 1988.


sábado, 16 de maio de 2015

[SGM] Hitler não jogou mal sua última carta

Jacinto Antón

El País, 10/05/2015


A batalha das Ardenas, ou do escape, travada em condições muito sacrificantes no inverno de 1944-45, durante quase sete semanas, foi um dos grandes enfrentamentos da II Guerra Mundial e a última grande ofensiva do Exército alemão na frente ocidental. As imagens dos tanques Tiger e Panther avançando rapidamente sobre a neve, dos soldados norte-americano cavando trincheiras no solo gelado e dos combates sem quartel nos bosques, povoados e encruzilhadas fazem parte das mais icônicas do confronto, assim como figuram entre seus nomes emblemáticos os de Malmedy, Bastogne, a operação aérea Bodenplatte, o Kampfgruppe Peiper e os comandos de Skorzeny –que causaram grande confusão se infiltrando com uniforme inimigo–. Hitler lançou o melhor que tinha, 300.000 soldados (muitos fantasmagoricamente vestidos de branco), 1.800 tanques e destruidores de tanques e 2.400 aviões, em uma tentativa desesperada de mudar o curso da guerra.

O ataque, iniciado em 16 de dezembro, pegou completamente desprevenidos os Aliados, que, meio ano depois do desembarque na Normandia, davam a guerra quase que como acabada. Após um início promissor, lutas de uma brutalidade tremenda e uma defesa tenaz das tropas dos EUA –é famosa a resposta do general McAuliffe, da 101ª Aerotransportada, ao receber uma demanda para entregar Bastogne: “Nuts! (loucos, em versão livre)– os alemães se viram obrigados a interromper seu avanço sem conseguir o novo Dunkerque desejado pelo Führer. Vários livros e filmes recriaram a luta, entre estes últimos, o mais famoso é A Batalha das Ardenas (1965) –com sua conhecida cena dos jovens tripulantes de carros alemães entoando o cântico de sprit de corps conhecido como Panzerlied–, além de O Preço da Glória (1949) e Noites Calmas (1992), sem esquecer dos capítulos correspondentes no seriado de televisão Band of Brothers (sem dúvida, o melhor).

No 70º aniversário da batalha, e à espera da iminente publicação do novo e aguardado livro de Antony Beevor sobre ela, o historiador sueco Christer Bergström faz um relato monumental e detalhado em The Ardennes, 1944-1945: Hitler's Winter Offensive, que oferece, além de uma perspectiva insólita, uma surpreendente reinterpretação daquele confronto, do qual destaca que nenhum veterano entre os que entrevistou conta qualquer história amável, mas só coisas terríveis. “Está claro que foi uma das experiências bélicas mais assustadoras desses homens”, diz. Algumas imagens do livro ficam gravadas na memória, como o regimento alemão avançando em corrida gritando “ianques filhos da puta!”, os soldados norte-americanos que descobrem em 13 de janeiro os corpos congelados dos presos executados pela SS na estrada de Malmedy em dezembro, que continuam deitados no lugar em que foram abatidos, o Panther que se confunde e se mete em uma coluna de carros Sherman e a luta com granadas em uma casa de Thirimont, em que cada lado ocupava um andar.

Bergström, autor de 22 livros sobre a II Guerra Mundial, inicia seu relato detalhado a partir do ponto de vista de uma das unidades blindadas lançadas ao rio Mosa com a mira voltada para o porto de Amberes: toda uma declaração de princípios, pois uma das coisas do livro que mais surpreende o leitor, acostumado com as versões anglo-saxãs, é que muito da narração dos fatos seja feita da perspectiva do lado alemão. Mas tem muito mais: Bergström considera que os alemães estavam melhores preparados do que se considera normalmente, que seu moral era elevado, seu equipamento excelente, seus comandantes muito bons e Hitler não estava tão perdido em seus planos como se acredita. A operação não estava condenada ao fracasso e, em alguns de seus aspectos, era inclusive “magistral”.

Vamos por partes: a situação do exército alemão não era então tão ruim ao final de 1944? “Em novembro-dezembro, em absoluto”, explica o autor, que esteve com veteranos em Bastogne em dezembro passado devido ao aniversário da batalha. “O fato de os alemães terem conseguido deter os Aliados ocidentais na fronteira de seu país, a vitória de Arnhem, a promessa das novas armas maravilhosas (reatores, foguetes, submarinos elétrico, etc) e –não menos importante– o plano Morgenthau dos britânicos e norte-americanos que estabelecia mais ou menos a destruição industrial da Alemanha tinham elevado o moral da luta de uma forma que, em muitos casos, inclusive excedia o nível normal nos primeiros compassos da guerra”. Quanto ao equipamento militar, o historiador sueco afirma de forma muito clara: “Os alemães eram absolutamente superiores nos campos mais importantes, na verdade, pela primeira vez na guerra. O tanque pesado Königstiger, ou Tiger II, superava qualquer coisa que os Aliados tinham –em janeiro de 1945, dois desses aniquilaram uma companhia inteira de tanques Sherman, sem sofrer um arranhão–, e nenhum tanque médio podia competir com o Panther. Tinham o primeiro fuzil de assalto do mundo, o Sturmgewehr 44, os aviões Me-262 e Ar 234 eram totalmente superiores no ar”.

O livro se desprende da crença de que a ofensiva alemã das Ardenas foi uma tentativa desesperada, e aponta que tinha chances reais de sucesso. “Na verdade, da perspectiva de Hitler, era o mais inteligente que podia fazer, enquanto esperava a ofensiva russa seguinte no Vístula. Foi cuidadosamente planejada e preparada, e fracassou principalmente por dois fatores que poderiam não ter ocorrido: primeiro, porque as linhas de abastecimento alemães foram cortadas pela aviação Aliada quando o tempo melhorou no oitavo dia da ofensiva, e, segundo, porque as SS, menos competentes que o exército regular, a Wehrmacht, receberam a responsabilidade de conseguir os objetivos mais importantes. Mas esses dois fatores, como disse, poderiam ter sido diferentes. Se os alemães tivessem reposicionado sua aviação de elite, enviada para a frente do Leste, no Oeste, a aviação Aliada provavelmente não teria sido capaz de cortar as linhas de abastecimento alemães. Então, os alemães teriam 50% de possibilidades de alcançar a Antuérpia, cortar as forças Aliadas em duas e cercar o grupo de exércitos de Montgomery".

A melhor aviação alemã estava no Leste? “Exatamente. Havia uma enorme diferença entre os pilotos de uma frente e da outra. Enquanto a maioria de aviadores do Oeste era, em 1944, de novatos treinados de forma inadequada, uma parte importante dos pilotos alemães no Leste era formada pelo que os padrões norte-americanos descrevem como ases. Lá havia pilotos como Erich Hartmann e Gerhard Barkhorn, com 300 vitórias cada um, ou pilotos de ataque ao chão como Hans-Ulrich Rudel, com experiência em 2.000 missões de combate. Os pilotos alemães com experiência em 500 ou mais saídas de combate não eram incomuns no Leste no final de 1944. Os pilotos Aliados no Oeste não tinham essa experiência”.

Em termos claros e futebolísticos, os alemães eram melhores no campo do que os norte-americanos? “Sim, seus comandos eram melhores, suas táticas eram melhores, muitas de suas tropas estavam mais motivadas (com exceção das tropas aerotransportadas dos EUA), e seu armamento era melhor, com exceção também da artilharia dos EUA”. Bergström é ainda mais polêmico quando lhe pergunto se deveríamos repensar a (in)capacidade de Hitler como comandante militar. “Acho que deveríamos. Apesar de Hitler carecer de alta educação militar, tinha comprovado ter uma intuição das possibilidades no campo de batalha. Os ataques no Oeste em 1940 e 1944 são bons exemplos. No entanto, essa intuição falhou em várias ocasiões no final da guerra, a mais notável talvez em Falaise, em agosto de 44. Mas a ideia de atacar nas Ardenas com o objetivo de pegar rápido os exércitos de Montgomery foi brilhante”.

Voltando às SS, no livro se destaca algumas vezes que a Wehrmacht lutou melhor nas Ardenas que as SS, contrariando que as Waffen SS eram superiores. “Sem dúvida nenhuma foi assim. Muitos depoimentos, de comandos da Wehrmacht e dos EUA, comprovam de fato que as SS combateram de forma bastante inferior, como amadores, durante a batalha das Ardenas. Essa era a regra geral –ainda que com exceções notáveis– para as tropas novatas das SS em suas primeiras campanhas no campo de batalha durante toda a II Guerra Mundial”.

E como lutaram os norte-americanos na que foi a sua pior batalha na guerra, em intensidade e baixas? “Segundo todos os depoimentos, as tropas aerotransportadas foram muito bem, assim como outras unidades, como a 30ª e a 84ª divisões de Infantaria. Mas, no geral, devo dizer que considerando sua crescente vantagem numérica, esperava-se que o Exército dos EUA se comportasse melhor em um bom número de casos durante a batalha. A contraofensiva de Patton, que na verdade foi um grande fracasso em comparação com seus objetivos, é um bom exemplo em que se pode ver que se os alemães desfrutassem das mesmas vantagens, provavelmente teriam obtido muito mais sucesso”.

Ser sueco parece dar uma visão diferente, mais objetiva e mais neutra, à história da II Guerra Mundial. “Acho que simplesmente é natural que se seja influenciado pela perspectiva da sociedade em que vive, em muitos casos é o seu próprio país. Mais ainda, quando se trata de história militar, muito do que se pensa é influenciado pela propaganda de guerra da época. Isso obrigatoriamente tem uma grande influência na forma em que se aprende a história, de forma que ser de um país neutro é uma grande vantagem se sua vontade é proporcionar uma descrição neutra e objetiva de uma batalha como essa.”

Uma das conclusões mais surpreendentes de Bergström é que a batalha foi uma vitória para... os soviéticos. “Com certeza. A ofensiva das Ardenas enfraqueceu os Aliados ocidentais; de forma material e, particularmente, psicológica teve um impacto prejudicial em seus próprios planos de ofensiva, e os deixou extremamente cautelosos. Graças a isso, a União Soviética conseguiu o crédito de capturar Berlim”. A história tem, segundo o historiador, um corolário estremecedor: uma vitória alemã nas Ardenas poderia ter representado que fossem duas cidades alemães as vítimas das bombas atômicas em vez de Hiroshima e Nagasaki. “Se Hitler tivesse conseguido cercar e talvez aniquilar o exército de Montgomery, pode ser que tivesse sido capaz de aguentar até o verão de 1945. Nesse caso, as bombas atômicas provavelmente seriam lançada contra a Alemanha, como era o plano original. Da forma que aconteceu, os alemães se renderam antes que as bombas atômicas estivessem disponíveis”.

Christer Bergström está de acordo que chegou a hora de se fazer um bom filme moderno sobre a batalha. “É verdade, a batalha das Ardenas tem tudo que é preciso para se fazer um grande filme de guerra de sucesso: o drama do combate, o milagre quando o céu abre no último minuto permitindo às forças aéreas dos EUA salvar suas tropas terrestres, o retorno inesperado dos alemães em janeiro de 1945, a luta interna entre os generais Aliados (particularmente Patton e Montgomery), e os dois anjos femininos que trabalharam como enfermeiras e salvaram tantas vidas na assediada Bastogne”. O historiador lembra bem a cena dos militares alemães cantando o Panzerlied no filme de 1965. “Essa cena foi ideia do general Meinrad von Lauchert, um veterano da batalha das Ardenas, Cruz de Cavalheiro com folhas de carvalho, que comandou uma das pontas de lança alemães durante a ofensiva, e que foi assessor do filme”. Do último filme sobre a II Guerra Mundial, Corações de Ferro, com Brad Pitt, diz que recentemente falou com vários veteranos das forças norte-americanas que serviram na batalha das Ardenas e todos concordam que Corações de Ferro é um dos filmes de guerra mais realistas que já viram. “Logicamente, eu tenho que compartilhar essa opinião”.

A Batalha que Comoveu a Europa, sobre a batalha de Poltava, de Peter Englund, A Beleza e a Dor, do mesmo autor, e seu próprio Ardenas parecem mostrar um auge da história militar sueca. “O primeiro livro de Englund mencionado abriu caminho para um novo interesse pela história militar na Suécia. Os livros de História, particularmente história militar e, em especial, sobre a II Guerra Mundial, são muito populares na Suécia. A edição sueca do meu livro das Ardenas vendeu quase 3.000 cópias em seis meses e foi feita uma segunda edição, o que não está ruim em um país de 9 milhões de habitantes”.


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sexta-feira, 15 de maio de 2015

[POL] O Último Führer: Karl Dönitz e o Fim do Terceiro Reich

Richard Overy

History Today, Vol. 65, Nº 5, maio 2015


O holofote histórico sobre Hitler como o Führer indiscutível do Terceiro Reich lançou uma sombra sobre o começo do fim do regime, quando Hitler não era o chefe do Estado. Entre janeiro de 1933 e agosto de 1934, e novamente nas primeiras semanas de maio de 1945, a presidência alemã foi mantida por duas figuras militares respeitadas. A primeira foi o ancião marechal de campo Paul Von Hindenburg, cuja morte em agosto de 1934 abriu o caminho para Hitler criar o cargo sem precedentes unindo as figuras do presidente e do chanceler sob a simples palavra “Führer”, ou Líder; a segunda foi o chefe da Marinha alemã, o Almirante Karl Dönitz, que foi escolhido por Hitler para ser seu sucessor como presidente após o suicídio do ditador em 30 de abril de 1945.

Para os historiadores, o regime de Dönitz, que durou três semanas em maio, incluindo duas semanas seguindo a rendição alemã, é pouco mais do que uma nota de rodapé bizarra no final do terceiro Reich. Mesmo assim, a existência do que os diplomatas britânicos chamaram de o “quase governo”, estabelecido na cidade costeira meridional de Flensburg, marcou um passo importante no rompimento da aliança da guerra entre as democracias ocidentais e a União Soviética de Stalin bem antes de a Guerra Fria tornar-se uma realidade histórica. A luta entre os aliados em relação ao status e destino do regime de Dönitz refletiu diferenças importantes no modo como os dois lados viam o modo apropriado para tratar a derrotada Alemanha.

Os argumentos balançavam primeiramente na questão de como a rendição alemã deveria ser aceita. O objetivo em vista era a rendição incondicional de todas as forças alemãs, mas os exércitos alemães na Itália, então no norte da Alemanha e Escandinávia renderam-se entre 2 e 4 de maio de 1945 para os comandantes aliados locais, americanos e britânicos. Suspeitas soviéticas foram erguidas quando Dönitz decidiu enviar o chefe de operações do Comando Supremo Alemão (Oberkommando der Wehrmacht, OKW), general Alfred Jodl, para o quartel general supremo do general Dwight Eisenhower, localizado na cidade francesa de Reims. Ele foi enviado como um representante do que o porta-voz em Flensburg continuou chamando de “novo governo”. O vice-chefe do Estafe do Exército Vermelho, Marechal Alexei Antonov, disse aos representantes britânicos e americanos em Moscou, em 6 de maio de 1945, que para o regime soviético, o governo de Dönitz “na verdade não existe” e não deveria ser referido como governo. Antonov deixou claro que o lado soviético aceitaria somente a rendição incondicional do Alto Comando militar alemão e lembrou aos aliados ocidentais que círculos em Moscou suspeitavam fortemente agora de que a Grã-Bretanha e a América estavam negociando um acordo em separado no sentido de permitir que os alemães pudessem manter a luta no leste.

As suspeitas soviéticas são fáceis de entender. Não somente o grupo de exército do Marechal de Campo Montgomery falhou em ocupar Flensburg e prender Dönitz e seus associados, muitos dos quais estavam na lista de criminosos de guerra dos aliados, mas quando Jodl chegou em Reims, um documento de rendição foi assinado logo pela manhã de 7 de maio sem Stalin ser consultado. Sob a insistência furiosa do líder soviético, o Ocidente concordou em agendar uma segunda cerimônia de rendição em Berlim no dia seguinte no qual o Marechal Wilhelm Keitel, chefe do OKW, assinou em nome das forças alemãs. O lado soviético lembrou a cerimônia de Berlim como o ato formal e legítimo de “rendição incondicional”. Nada disso, contudo, apaziguou a ansiedade soviética de que o Ocidente trataria o regime de Dönitz como o governo legalmente constituído da Alemanha e pudesse realizar algum tipo de acordo com o antigo inimigo.

Na União Soviética, a imprensa promoveu uma campanha, quase certamente aprovada por Stalin, mais ou menos acusando o Ocidente de conluio com o Fascismo. O jornal Frota Vermelha Soviética escreveu que uma palavra “vergonhosa e inglória” havia agora entrado nos anais da guerra: “Esta palavra é Flensburg e ela mancha a vitória que tivemos!” Nos dias imediatamente após a rendição nenhum esforço foi feito para derrubar o governo de Dönitz e nenhuma decisão foi tomada sobre seu status constitucional ou legal. Desde que Flensburg estava na zona britânica de ocupação, a decisão final cabia a Churchill e ao Gabinete de Guerra Britãnico. O regime de Flensburg anunciou que o exército britânico concordou em permitir que o Marechal Ernst Busch assumisse o comando da província setentrional de Schleswig-Holstein em 12 de maio para manter a ordem e o suprimento de bens essenciais à população: um ato que significou parcialmente o reconhecimento da autoridade de Dönitz. Em Flensburg, milhares de soldados alemães foram reunidos, ainda em uniforme, enquanto que soldados da SS faziam a segurança dos principais ministros. Somente uma semana antes, Busch clamou a Dönitz para lutar pela defesa de Hamburgo ao invés de render a cidade.

A maior resistência em dissolver o novo regime e prender seus membros veio de Churchill. Orme Sargent, Subsecretário do Departamento do Exterior, já estava preocupado que os soviéticos poderiam, em retaliação, instalar seu próprio regime fantoche em Berlim, como eles fizeram em Varsóvia poucos meses antes, escreveu para Churchill em 12 de maio clamando a ele para chegar a uma decisão sobre o futuro do governo de Flensburg, cujo chefe, lembrou Sargent, era um criminoso de guerra. A resposta de Churchill mostrou-o em seu pior momento. Ele se recusou a sancionar a dissolução do regime que poderia ajudar as autoridades britânicas em manter a ordem na zona de ocupação. “Eu me recuso a levantar essas graves questões constitucionais,” escreveu Churchill, “numa época quando a única questão é evitar o caos.” Ele esperava que Dönitz e Busch conseguissem apressar a rendição das tropas alemãs ao invés de forçar os soldados britânicos a “correr atrás de todo barraco alemão” para convencer os homens a baixar suas armas. Se Dönitz é uma “ferramenta útil para nós”, concluiu Churchill, seria necessário eliminar suas “atrocidades de guerra”.

Churchill permaneceu consistentemente hostil ao rápido fim do regime alemão do pós-guerra. Eisenhower queria o poder para prender seus membros de uma vez e clamou aos Chefes de Estafe Anglo-Americanos Combinados para emitir instruções para ele o fazê-lo, mas Churchill foi contra. A crise piorou quando, na manhã de 14 de maio, a BBC transmitiu os resultados de uma entrevista conduzida pelo jornalista Edward Ward com o homem que alegava ser o Secretário do Exterior alemão e vice de Dönitz, o Conde Schwerin Von Krosigk, Ministro das Finanças de Hitler ao longo de todo o Terceiro Reich. Von Krosigk tentou explicar que, como chefe de Estado, Dönitz deveria ser lembrado como a soberania alemã, enquanto que os homens reunidos em seu gabinete eram as figuras melhor qualificadas na tarefa de organizar a Alemanha do pós-guerra e salvar o país dos russos. Como seria de esperar, o Departamento do Exterior protestou em termos fortes que a transmissão estava na realidade reconhecendo o regime ao descrevê-lo como “governo alemão” e apresentando Von Krosigk como “Primeiro Ministro ativo e Secretário do Exterior”. Um raivoso Brendan Bracken, Ministro da Informação (e fundador do History Today), rechaçou a BBC pela “performance lamentável”, mas o dano estava feito, encorajando o que um funcionário britânico descreveu como “o medo mórbido russo de que nós ainda estivéssemos negociando com os alemães para lutar contra o Bolchevismo.”

A hostilidade soviética com o Ocidente em relação a Dönitz atingiu o máximo na semana seguinte, alimentada pela suspeita adicional de que Hitler não havia sido morto em Berlim e estava sendo blindado pelos Aliados. “Estes homens formam uma gangue fascista,” reclamou o Estrela Vermelha. “Eles fizeram parte dos crimes nazistas.” O jornal governamental Izvestia anunciou que a simpatia inesperada do Ocidente com o regime de Flensburg “atingiu a consciência de todas as pessoas sensíveis.” Os representantes de Eisenhower encontraram-se com Dönitz em 18 de maio, enquanto que funcionários da inteligência americana, trabalhando para a Vistoria do Bombardeio Estratégico dos Estados Unidos, entrevistaram membros do governo, focando seus esforços particularmente em Albert Speer, agora Ministro da Economia, cujas visões eram desejadas sobre o efeito do bombardeio sobre a produção de guerra alemã. Em sua entrevista, Dönitz confirmou que ele atrasou a rendição tanto quanto pôde para permitir que os soldados e os refugiados escapassem do avanço do Exército Vermelho, mas ele também possuía cópias do “Último Desejo e Testamento” de Hitler, o qual incluía sua indicação como evidência de sua alegação legal para ser o chefe de Estado alemão. Estes contatos foram facilmente sujeitos a má interpretação em Moscou, apesar de que eles finalmente convenceram Eisenhower de que nada seria ganho prolongando a existência do regime alemão. No dia seguinte, 18 de maio, ele escreveu ao Departamento do Exterior e ao Departamento de Estado em Washington dizendo que o regime “era de pouco valor” e deveria ser extinto. Ao contrário do Primeiro Ministro, o Secretário do Exterior britânico, Anthony Eden, concordou totalmente, mas ele pediu a Eisenhower para agir por conta própria, ignorando os russos. Alguns funcionários do Departamento do Exterior ainda pensavam que, na escolha entre princípios e conveniência, a última fazia mais sentido dado que a colaboração alemã tinha apressado o desarmamento das forças alemãs e poderia agir como força de estabilidade.

Eisenhower emerge da história como o mais sensato de todos os envolvidos. Ele insistiu que, como comandante militar sênior no Ocidente, ele tinha que ser instruído pelos Chefes de Estafe Combinados, não por políticos, e que, apesar de Eden, os russos teriam que ser consultados. O vice-comandante supremo soviético, Marechal Georgii Zhukov, pediu aos representantes soviéticos em Flensburg para se encontrar com os americanos em 19 de maio e aqui os dois lados concordaram que o governo Dönitz deveria ser preso e seu trabalho ser extinto tão rápido quanto possível. A aprovação formal soviética chegou em 21 de maio. Ficou registrado que Churchill “se opõe fortemente à ação proposta”, mas os Chefes de Estafe
Combinados deram sua aprovação e, em 23 de maio, uma unidade de soldados britânicos prendeu os membros do gabinete de Flensburg. Eles foram enviados aos centros de detenção para grandes criminosos de guerra em Mondorf-les-Bains em Luxemburgo (codinome ASHCAN) e em Kransberg, próximo a Frankfurt-am-Main (codinome DUSTBIN). O resultado talvez reflita a extensão na qual a autoridade de Churchill estava se deteriorando na primavera de 1945.

Isto não encerrou a incerteza em ambos os lados. O governo soviético continuou a se preocupar que os britânicos e americanos poderiam estar procurando algum meio de usar a Alemanha como um novo aliado contra a ameaça soviética, enquanto que Churchill e seu gabinete temiam que a prisão do governo de Dönitz poderia tornar difícil a manutenção da ordem, reforçar o desarmamento das tropas alemãs e combater guerrilheiros insurgentes. Ironicamente, muitos soldados e oficiais britânicos na Alemanha deploraram o que Geoffrey Harrison, um representante do Departamento do Exterior na Alemanha, chamou de “barbarismo e insensibilidade” do Exército Vermelho em seu tratamento dos alemães; esta realidade, ele continuou, trabalhava para “inflamar o desgosto” contra os russos, enquanto, simultaneamente, inspirava “tolerância e alguma piedade pelos alemães”. O Estafe de Planejamento Conjunto foi solicitado a relatar em 23 de maio o efeito na Alemanha da prisão do governo de Flensburg. O grupo relatou dois dias depois que a extinção da anomalia de Flensburg “não provocaria dificuldades aos aliados em realizar seu trabalho.” As prisões abriram o caminho para o que o lado soviético desejava, o estabelecimento formal da Comissão Aliada de Controle para a Alemanha e uma declaração formal aliada da derrota da Alemanha, o que aconteceu poucos dias depois em Berlim.

Dönitz foi julgado como criminoso de guerra em Nuremberg e sentenciado a dez anos de prisão. Ele foi libertado em 1956, morrendo de um ataque cardíaco em 1980 em uma vila na Alemanha setentrional. Ele foi, até 2012, o único chefe de Estado a ser condenado por um tribunal internacional.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

[SGM] Revendo os mitos soviéticos da Segunda Guerra Mundial

Joseph C. Goulden

The Washington Times – 29/06/2010

Resenha do livro DEATHRIDE: HITLER VS. STALIN: THE EASTERN FRONT, 1941-1945, de John Mosier


Um dos grandes mitos da Segunda Guerra Mundial é a imagem de um Josef Stalin cercado inspirando o galante Exército Vermelho soviético a segurar o superior exército alemão por anos e finalmente prevalecer apesar da recusa de seus aliados ocidentais, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, de abrir uma “segunda frente” para aliviar as pressões da guerra sobre ele.

Fazendo eco aos temas de propaganda estabelecidos por Stalin, muitos historiadores creditam o “heroico soldado soviético” sozinho segurando o avanço alemão durante os primeiros anos da guerra, derramando seu sangue para impedir que Hitler tomasse Moscou ou Leningrado, e então expulsar a Wehrmacht de volta para Berlim.

A interpretação de Stalin foi estabelecida em uma série de discursos na guerra mais tarde incorporados em um livro de 1945, “A Grande Guerra Patriótica”. Como escreve John Mosier, “Sua versão da guerra foi perfeitamente elaborada. Após recuar do ataque traidor e não provocado hitlerista, o exército vermelho conseguiu prevenir que os invasores alcançassem Moscou. A grande batalha diante dos portões de Moscou foi a primeira em uma série de derrotas cambaleantes, nas quais os hitleristas foram expulsos da pátria... pela fúria patriótica despertada do povo russo, cuja força foi reforçada pelos objetivos do socialismo e inspirados pelo exemplo do próprio Stalin...”

O Sr. Mosier, um dos historiadores militares mais divertidamente revisionistas escrevendo hoje, destrói todos estes mitos de forma convincente – e mais – em um livro importante e surpreendente sobre o front oriental. Um crítico de um de seus livros iniciais escreve que o Sr. John Mosier “lança granadas de mão da história militar em quase toda página...” Tais granadas certamente reverberam através de “Deathride”, que olha além das verdades da propaganda soviética para apresentar um relato genuíno e revelador da campanha. O Sr. Mosier ensina história na Universidade Loyola em Nova Órleans.

O Sr. Mosier aceita que os expurgos pré-guerra de Stalin retirou do exército vermelho suas lideranças e deixou-o mal preparado para a invasão alemã em junho de 1941. (Outro fator foi que Stalin rejeitou os relatórios de inteligência, muitos escritos por seus próprios espiões, que Hitler planejava romper seu tratado de 1939 e invadir.) E que muitos soldados russos lutaram bravamente, apesar da falta de liderança e equipamento, está além de qualquer dúvida.

Mas o preço pago em sangue foi horrível. O exército vermelho sofreu baixas à taxa de 5 para 1 em relação aos alemães. A sabedoria convencional diria que aquelas perdas foram devidas aos vastos números superiores da Rússia, mas como o Sr. Mosier mostra, a população russa era somente o dobro da da Alemanha, e apesar de suas próprias baixas pesadas em 1941, a Wehrmacht em 1942 tinha mais homens em uniformes do que no ano anterior.

Os alemães capturaram quase 2 milhões de soldados soviéticos nos primeiros meses de guerra. “Ninguém tinha qualquer ideia de quantos russos haviam sido mortos,” escreve o Sr. Mosier. “Basicamente, havia dois prisioneiros de guerra soviéticos para cada três soldados alemães indo para a batalha.”

Enquanto isso, Stalin estava fornecendo números de baixas alemãs incrivelmente inflacionadas – “Em quatro meses e meio de guerra a Alemanha havia perdido 4,5 milhões de soldados. A Alemanha está sangrando branco.” O inverso exato era o correto. À medida que a guerra intensificou na primavera de 1945, as baixas russas continuaram a ser tão pesadas que o exército vermelho alistou todos os homens com idades entre 14 e 60 anos e organizou unidades de combate exclusivamente femininas.

Como Sir Winston Churchill ironicamente comentou sobre a tendência de Stalin para mentir, “os bolchevistas descobriram que a verdade não interessa desde que haja confirmação...” Se uma mentira é “repetida com frequência e espalhafatosamente, (ela) torna-se aceita pelas pessoas.”

Em outra pancada na sabedoria convencional, o Sr. Mosier afirma que a captura de Moscou e Leningrado não eram assuntos de importância para Hitler, já que nenhuma das cidades tinha valor estratégico. Seu objetivo principal era tomar os campos de petróleo próximos do Mar Cáspio. De fato, ele afirma, Hitler teria se dado bem se a invasão aliada da África do Norte o tivesse feito retirar unidades chaves do front oriental para proteger seu flanco meridional. De outra forma, ele pensa, ambas as cidades teriam caído.

Tanto durante quanto após a guerra, “historiadores” pró-soviéticos exageraram na decisão de Franklin D. Roosevelt e Churchill em não atacar a Europa Ocidental até junho de 1944, assim obrigando Stalin a segurar Hitler com recursos próprios. Escritores mais sérios aceitam que aquela decisão foi estratégica – que os aliados não estavam preparados para invadir a Europa antes. Não obstante, o atraso deu aos apologistas de Stalin base para aprovar sua tomada pós-1945 de vastas partes da Europa Oriental como espólios de guerra merecidos. Em qualquer dos eventos, o Sr. Mosier mostra, a Segunda Guerra Mundial foi uma guerra de duas frentes desde o início e os russos levaram uma surra.

O Sr. Mosier vai talvez um pouco longe em sua conclusão, na qual ele argumenta que as perdas de Guerra contribuíram pesadamente para o eventual colapso do comunismo e da União Soviética. A URSS estava em um estágio primitivo de desenvolvimento quando a guerra eclodiu, e muito de sua infraestrutura física foi reduzida a escombros pela guerra. A relocação da indústria para as montanhas Urais por Stalin, enquanto uma necessidade da guerra, não pôde ser revertida facilmente quando a guerra acabou. Foi somente em um censo de 1980 que os soviéticos admitiram que a guerra deixou “um déficit severo na população masculina com 55 anos e acima.”

O “experimento” soviético igualmente fracassou desde o seu nascimento, apesar de décadas tenham passado até o seu colapso. Como o Sr. Mosier coloca, porém, “Quaisquer chances que o estado soviético tinha para alcançar seus sonhos de prosperidade e igualdade para seus cidadãos, uma utopia realizada baseada em princípios socialistas, estas visões morreram junto com as dezenas de milhões de russos na Grande Guerra Patriótica.”


Europa: Documentos americanos liberados lançam nova luz na Segunda Guerra Mundial

Charles Fenyvesi

Os Arquivos Nacionais da América receberam cerca de 11 milhões de páginas de documentos liberados da Segunda Guerra Mundial, produzindo uma fonte de riqueza para historiadores e outros pesquisadores.

Muitos dos outrora secretos despachos diplomáticos, relatórios de inteligência e outros documentos também estão se tornando fontes de notícias.

Uma dessas revelações é um relatório do embaixador japonês Osama em seu encontro particular com Adolf Hitler em Berlim em agosto de 1943. Após a derrota alemã em Stalingrado mas como destino da contraofensiva do Exército Vermelho ainda em dúvida, o embaixador perguntou ao chanceler alemão se ele consideraria uma paz em separado com a União Soviética.

A resposta foi um imediato e surpreendente sim, relatou o embaixador a Tóquio. Mas com uma condição, acrescentou Hitler: os russos teriam que ceder a Ucrânia para o Reich. Hitler explicou que ele precisava dos ricos recursos da Ucrânia para ganhar a guerra na frente ocidental.

Os historiadores sabem que, em vários momentos, tanto os alemães quanto os russos consideraram uma paz em separado. Os historiadores também sabem que os japoneses estavam ansiosos em mediar dois beligerantes europeus, já que eles temiam que a União Soviética unir-se-ia aos seus aliados anglo-americanos na luta contra o Japão, o que de fato ocorreu nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial.

Mas a condição de Hitler para uma paz em separado é nova para os historiadores, que não tiveram o privilégio de ler os relatórios do embaixador em Berlim. Até poucas semanas atrás, estes relatórios eram altamente secretos, parte de um lote de informações diplomáticas interceptadas e decodificadas pela inteligência americana e levadas ao presidente Franklin Roosevelt diariamente.

Os documentos, agora nos Arquivos Nacionais dos EUA, estão acessíveis, gratuitamente, para os cidadãos americanos com um cartão de seguro social ou carteira de motorista, ou a estrangeiros com passaporte.  


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terça-feira, 12 de maio de 2015

[SGM] Stalin planejou invadir a Alemanha

Nick Holdsworth

The Telegraph, 11/05/2015


Documentos que foram mantidos em segredo por quase 70 anos mostram que a União Soviética propôs enviar uma poderosa força militar em um esforço para aliciar a Grã-Bretanha e a França em uma aliança antinazista.

Tal acordo poderia ter mudado o curso do século XX, prevenindo o Pacto de Hitler com Stalin, o qual deu a ele caminho livre para ir à guerra contra outros vizinhos da Alemanha.

A oferta de uma força militar para ajudar a conter Hitler foi feita por uma delegação militar soviética no Kremlin durante um encontro com funcionários britânicos e franceses, duas semanas de a guerra estourar em 1939.

Os novos documentos, cópias dos quais foram vistos pelo The Sunday Telegraph, mostram que vasto número de forças de infantaria, artilharia e aerotransportada que os generais de Stalin diziam que poderiam ser mobilizadas, se as objeções polonesas ao Exército Vermelho atravessando seu território pudessem ser removidas[1].

Mas o lado britânico e francês – limitados pelos seus governos a negociar, mas não autorizados a assumir qualquer acordo – não responderam à oferta soviética, feita em 15 de agosto de 1939. Ao invés disso, Stalin voltou-se para a Alemanha, assinando o tratado conhecido de não-agressão com Hitler apenas uma semana depois.

O Pacto Molotov-Ribbentrop, chamado assim em virtude dos secretários do exterior dos dois países, foi assinado em 23 de agosto – apenas uma semana antes de a Alemanha Nazista atacar a Polônia, provocando destarte o início da guerra. Mas ela jamais teria acontecido se a oferta de Stalin à aliança ocidental tivesse sido aceita, de acordo com o General de Divisão aposentado da inteligência russa Lev Sotskov, que estudou os documentos de 700 páginas liberados.

“Esta foi a chance final de parar o lobo, mesmo após Chamberlain e os franceses terem dado a Tchecoslováquia para a agressão alemã no ano anterior no Acordo de Munique,” disse o general Sotsok, 75 anos.

A oferta soviética – feita pelo ministro da guerra Klementi Voroshilov e o chefe do estafe geral Boris Shaposhnikov – teria colocado cerca de 120 divisões (cada qual com 19.000 soldados), 16 divisões de cavalaria, 5.000 peças de artilharia, 9.500 tanques e cerca de 5.500 caças e bombardeiros nas fronteiras da Alemanha no evento de guerra no Ocidente, mostram as minutas liberadas do encontro[2].

Mas o almirante Sir Reginald Drax, que liderou a delegação britânica, disse às suas contrapartes soviéticas que ele autorizaria somente conversações, e não faria acordos.

“Tivessem os britânicos, franceses e seu aliado europeu, a Polônia, aceitado esta oferta seriamente, então juntos poderíamos ter colocado 300 ou mais divisões em campo em duas frentes contra a Alemanha – o dobro do número que Hitler tinha na época,” disse o general Sotskov, que se juntou ao serviço de inteligência soviética em 1956. “Esta foi uma chance de alvar o mundo ou pelo menos parar o lobo em suas ambições.”

Quando perguntado que forças a própria Grã-Bretanha poderia mobilizar no ocidente contra a possível agressão nazista, o almirante Drax disse que seriam apenas 16 divisões prontas, deixando os soviéticos preocupados pela falta de preparação da Grã-Bretanha pelo conflito vindouro.

A tentativa soviética de assegurar uma aliança antinazista envolvendo os britânicos e franceses é bem conhecida. Mas a extensão na qual Moscou estava preparada para seguir em frente nunca antes tinha sido revelada.

Simon Sebag Montefiore, o autor dos livros “O Jovem Stalin” e “Stalin: A Corte do Czar Vermelho”, disse que era evidente que havia detalhes nos documentos liberados que não eram conhecidos dos historiadores ocidentais.

“O detalhe da oferta de Stalin salienta o que é conhecido; que os britânicos e franceses podem ter perdido uma oportunidade colossal em 1939 de prevenir a agressão alemã que despertou a Segunda Guerra Mundial. Ela mostra que Stalin pode ter sido mais sério do que nós percebemos na oferta desta aliança.”

O professor Donald Cameron Watt, autor de “Como a guerra aconteceu” – vista como a obra definitiva sobre o relato dos acontecimentos dos últimos doze meses antes de a guerra começar – disse que os detalhes são novos, mas também que ele estava cético sobre a afirmação de que elas foram esclarecidas durante o encontro.

“Não houve nenhuma menção disto em qualquer dos três diários contemporâneos, dois britânicos e um francês – incluindo o de Drax,” ele disse. “Eu particularmente não acredito que os russos estivessem sendo sérios.”

Os arquivos liberados – que cobrem um período do começo de 1938 até o início da guerra em setembro de 1939 – revelam que o Kremlin sabia da tremenda pressão que a Grã-Bretanha e a França colocaram sobre a Tchecoslováquia para apaziguar Hitler pela entrega da região dos Sudetos alemães em 1938.

“Em todo estágio do processo de apaziguamento, dos encontros iniciais ultrassecretos entre britânicos e franceses, compreendemos exatamente e em detalhes o que estava acontecendo,” disse o general Sotskov.

“Estava claro que o apaziguamento não seria interrompido com a rendição dos Sudetos da Tchecoslováquia e que nem os britânicos nem os franceses moveriam um dedo quando Hitler desmembrasse o resto do país.”

As fontes de Stalin, diz o general Sotskov, eram agentes de inteligência soviéticos na Europa, mas não em Londres. “Os documentos não revelam precisamente quem eram os agentes, mas eles provavelmente estavam em Paris ou Roma.”

Um pouco antes do conhecido Acordo de Munique de 1938 – no qual Neville Chamberlain, o primeiro ministro britânico, efetivamente deu a Hitler a autorização para anexar os Sudetos – o presidente da Tchecoslováquia, Eduard Benes, não foi informado dos termos para não invocar o acordo militar que seu país tinha com a União Soviética em face de uma possível agressão alemã.

“Chamberlain sabia que a Tchecoslováquia tinha dado como perdido o dia que ele retornou de Munique em setembro de 1938, carregando um pedaço de papel com a assinatura de Hitler nele,” disse o general Sotksov.

As discussões ultrassecretas entre a delegação militar anglo-francesa e os soviéticos em agosto de 1939 – cinco meses após os nazistas terem marchado sobre a Tchecoslováquia – sugerem tanto desespero quanto impotência das potências ocidentais em face da agressão nazista.

A Polônia, cujo território o vasto exército russo poderia ter atravessado para enfrentar a Alemanha, estava firmemente convicta contra esta aliança. A Grã-Bretanha estava duvidosa da eficácia de quaisquer forças soviéticas porque somente no ano anterior, Stalin havia expurgado milhares de comandantes do Exército Vermelho.

Os documentos serão usados por historiadores russos para ajudar a explicar e justificar o pacto controvertido com Hitler, que permanece infame como um exemplo de contingência diplomática.

“Fica claro que a União Soviética estava sozinha e teve que se voltar para a Alemanha e assinar o pacto de não-agressão para ganhar algum tempo para se preparar para o conflito que claramente estava se delineando,” disse o general Sotskov.

Uma tentativa desesperada pelos franceses em 21 de agosto para recomeçar as conversas foi repelida, já que as conversações soviéticas-nazistas estavam bem avançadas.

Foi somente dois anos mais tarde, após o ataque Blitzkrieg de Hitler contra a Rússia em junho de 1941, que a aliança com o ocidente que Stalin planejou tornou-se realidade – na época França, Polônia e a maior parte da Europa estavam sob a ocupação alemã.   
   
Notas:

[1] Havia um bom motivo para os poloneses não abrirem suas fronteiras aos soviéticos. Ver tópico “Varsóvia, 1920” (http://epaubel.blogspot.com.br/2014/02/varsovia-1920.html). Parece claro, para quem conhece o regime stalinista que o avanço temporário sobre o território polonês tornar-se-ia uma ocupação definitiva.

[2] Estes números corroboram a tese de que Stalin tinha um plano de invasão da Europa e desmente, outrossim, o argumento de que a União Soviética era militarmente fraca em 1939, por isso Stalin teria feito o acordo com Hitler, para ganhar tempo e se armar.


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