sábado, 6 de junho de 2015

[POL] O Incêndio do Reichstag: A História de uma Lenda

A.J.P. Taylor

History Today, Vol. 10, Nº 8, agosto 1960


Na noite de 27 de fevereiro de 1933, o prédio do Reichstag em Berlim foi incendiado e consumido pelas chamas. Isto foi um golpe de sorte para os nazistas. Apesar de Hitler ter sido apontado Chanceler pelo presidente Hindenburg em 30 de janeiro, os nazistas não tinham uma maioria parlamentar, mesmo com seus aliados nacionalistas.

O Reichstag foi dissolvido; e os nazistas começaram uma campanha eleitoral raivosa. Eles ainda estavam em dúvida sobre o sucesso. Eles mal precisaram usar o perigo vermelho. Em 24 de fevereiro, a polícia invadiu a sede do partido comunista. Foi anunciado que eles descobriram planos para uma revolução comunista. Evidentemente, eles não descobriram muita coisa: os alegados documentos subversivos nunca foram publicados.

Então veio o incêndio do Reichstag. Aqui foi onde o medo vermelho realmente aconteceu. No dia seguinte, Hindenburg promulgou um decreto emergencial “para a proteção do Povo e do Estado”. As garantias constitucionais de liberdade individual foram suspensas. Os nazistas foram autorizados a estabelecer um reino legal de terror.

Graças largamente a isto, eles e os nacionalistas fizeram uma grande maioria nas eleições gerais de 5 de março; e, em seguida, primeiro o Partido Comunista, e então todos os partidos exceto o Nacional Socialista foram tornados ilegais. O incêndio do Reichstag foi o prelúdio essencial para a ditadura de Hitler.

Quem cometeu o ato decisivo? Quem na verdade começou o incêndio do Reichstag? Os nazistas disseram que foi trabalho dos comunistas. Eles tentaram estabelecer este veredicto no julgamento dos supostos incendiários diante da Corte Suprema em Leipzig. Eles falharam. Dificilmente qualquer um acreditaria que foi obra dos comunistas.

Se não foram os comunistas, então quem foi? As pessoas fora da Alemanha, e muitos dentro dela, pensaram numa resposta simples: os próprios nazistas. Esta versão foi geralmente aceita. Ela aprece nos livros de história. Os historiadores mais respeitados, como Allan Bullock, a repetem. Eu mesmo a aceitei inquestionavelmente, sem olhar para a evidência.

Um servidor público aposentado, Fritz Tobias – um antinazista – recentemente olhou a evidência. Ele publicou seus resultados no semanário alemão Der Spiegel, de onde eu tirei a informação. Eles são surpreendentes. Aqui está a história.

Pouco antes das vinte e uma horas de 27 de fevereiro, um estudante de teologia chamado Hans Floter, agora um professor universitário em Bremen, estava indo para casa após um dia na biblioteca. Quando ele atravessou o espaço aberto em frente ao Reichstag, ele ouviu o som de vidro quebrado. Ele olhou para o alto, e viu alguém escalando o Reichstag através de uma janela no primeiro andar. Caso contrário, o local estava deserto.

Floter correu para o canto e encontrou um policial. “Alguém está invadindo o Reichstag.” Os dois homens voltaram correndo. Através da janela, eles viram não somente uma figura, mas também chamas. Era 21:03. Floter cumpriu sua missão. Ele voltou para casa para a janta e deixou a história. Outro transeunte juntou-se ao policial: um jovem tipógrafo chamado Thaler, que coincidentemente foi um social-democrata. Ele morreu em 1943.

Thaler gritou: “Atire, homem, atire!” O policial ergueu seu revólver e disparou. A figura desapareceu. O policial correu para o posto policial mais próximo e acionou o alarme. O horário foi registrado como 21:15. Em minutos a polícia invadiu o Reichstag. Às 21:22, um policial tentou entrar na Câmara de Debates. Ele foi afastado pelo calor das chamas. Às 21:27, a polícia descobriu e prendeu um jovem seminu. Ele era holandês e se chamava Marinus van der Lubbe.
Enquanto isso, a brigada de incêndio também foi acionada. O primeiro relatório alcançou-os às 21:13. O primeiro caminhão chegou ao Reichstag às 21:18. Houve atrasos inevitáveis. Somente uma porta lateral foi mantida destrancada após às 20:00.

Os bombeiros, que não sabiam disso, foram à porta errada. Então, eles perderam tempo apagando pequenos incêndios nas passagens. Houve confusão quando um alarme tocava após o outro. A força total da brigada de incêndio de Berlim – cerca de sessenta caminhões – foi mobilizada somente às 21:42. Naquele momento, o prédio inteiro estava irreparavelmente perdido. Ele permanecia em pé, mas como uma casca vazia.

Houve um alarme de outro tipo. Transversalmente à rua do Reichstag estava a casa de seu presidente, o líder nazista Göring. Mas este não havia ainda se mudado para lá. A casa, ou palácio, estava desocupada exceto por um flat no topo que Göring havia emprestado para Putzi Hanftstängel, um alpinista social ligado aos nazistas. Hanftstängel olhou por sua janela e viu o Reichstag queimando. Ele sabia que Hitler e Goebbels estavam em uma festa próxima do local. Ele ligou para Goebbels.

Goebbels achou que era mais uma das piadas de Hanftstängel e desligou o telefone. Hanftstängel ligou novamente. Goebbels checou com o Reichstag e descobriu que a notícia era verdadeira. Em poucos minutos, ele e Hitler e uma multidão de funcionários nazistas também estavam no Reichstag.

Um jornalista inglês, Sefton Delmer, conseguiu se misturar a eles. Hitler estava ao seu lado todo frenético: “Isto é um complô comunista, o sinal de uma rebelião. Todo comunista será fuzilado. Os parlamentares comunistas serão enforcados!”

Talvez ele já estivesse antevendo as vantagens. Se for assim, aqueles ao seu lado foram todos enganados. Para eles, Hitler parecia surpreso, ultrajado e mesmo temente.

Van der Lubbe foi levado à delegacia mais próxima. Ele foi interrogado até as três da manhã. Então, ele dormiu, recebeu um café da manhã e às 08:00 interrogado novamente. Ele deu respostas claras e coerentes. Ele descreveu como ele entrou no Reichstag; onde ele iniciou o incêndio, primeiro com a ajuda de quatro isqueiros, então tirando suas roupas e colocando fogo nelas.

A polícia verificou sua estória indo ao Reichstag de acordo com sua declaração portando um cronômetro. Eles descobriram que ela se encaixava precisamente com o momento de sua prisão.

Van der Lubbe estava convicto sobre seu motivo. Ele esperava que todo povo alemão protestaria contra o governo nazista. Quando isto não aconteceu, ele percebeu que somente um indivíduo deveria fazer seu protesto.

Apesar de o incêndio do Reichstag ter sido certamente um sinal de protesto objetivando uma revolta – um “farol” como ele o chamou – este se restringiu a uma pessoa. Ele negou veementemente que tivesse quaisquer associados. Ele não conhecia nenhum nazista. Ele não era comunista – isto é, ele não era membro do partido comunista. Ele era, de fato, um socialista com pontos de vista vagamente de esquerda.

Van der Lubbe também descreveu seus movimentos durante as semanas anteriores, deslocando-se através da Alemanha de uma pensão para outra; ele mesmo descreveu as lojas onde ele adquiriu os isqueiros e fósforos. Aqui, também, a polícia checou sua estória. Todo detalhe estava correto. Os oficiais de polícia concluíram que ele tinha algum problema mental, mas era inteligente, com um senso preciso de local e direção.

Seus interrogadores eram profissionais experientes, sem qualquer comprometimento político. Eles se convenceram que ele falava a verdade e que havia posto fogo no Reichstag sozinho. Os oficiais da brigada de incêndio também concordaram com isso, pois na medida em que poderiam dizer o Reichstag queimou exatamente com van der Lubbe o disse.

Isto não se aplica a Hitler e a outros líderes nazistas. Eles se comprometeram desde o primeiro momento com o ponto de vista de que o incêndio do Reichstag foi um plano comunista. Independentemente de acreditarem ou não nisto, isto deveria ser mantido para o público alemão.

Quando van der Lubbe foi a júri, quatro outros o acompanharam: Torgler, líder do grupo comunista no reichstag, e três comunistas búlgaros que viviam na Alemanha, um deles o famoso Dimitrov.

O julgamento diante da Suprema Corte em Leipzig teve pouco a ver com van der Lubbe. Ele foi encontrado no Reichstag; ele começou o incêndio; as evidências contra ele estavam tão claras que valia pouco a pena prosseguir. O promotor público e o governo nazista por trás dele estavam preocupados em colocar a culpa em quatro comunistas. Eles falharam completamente.

Torgler esteve em seu escritório mo Reichstag até as 20:00. Então, ele foi embora; testemunhas o viram ir. Tudo então ficou quieto no Reichstag. Não houve evidência ligando-o a van der Lubbe. Quanto a Dimitrov e os outros dois búlgaros, não havia nenhuma evidência para ligá-los tanto a van der Lubbe quanto ao fogo. Isto foi embaraçoso aos juízes da Suprema Corte. Eles eram advogados conscientes, não nazistas. Eles não condenariam indivíduos sem evidência. Mas eles desejavam agradar ao governo nazista onde nenhuma injustiça flagrante a indivíduos parecia estar envolvida.

A Suprema Corte, assim, escutou complacentemente enquanto os supostos especialistas demonstraram que o incêndio não poderia ter começado por somente um homem. Talvez a Suprema Corte mesmo acreditasse nos especialistas, como algumas vezes os juízes acreditam. Estes especialistas não eram bombeiros, policiais ou cientistas forenses. Eles eram professores de química e criminologia, que teorizaram a respeito do incêndio, sem mesmo visitar o Reichstag.

Van der Lubbe estava desesperado. Ele queria abalar o governo nazista. Ao invés disso, ele consolidou sua ditadura e, também, envolveu pessoas inocentes. Pela maior parte do tempo, ele permaneceu em arrasado, com sua cabeça afundada em seu peito. Algumas pessoas associaram isso ao uso de drogas. Fisiologistas independentes que o examinaram acharam que não havia nada de errado com ele, exceto desespero.

Uma vez ele se manifestou. Por seis horas, ele tentou convencer os juízes que ele havia iniciado o incêndio sozinho. Ele falou de forma clara, coerente e precisa. Um observador holandês – ele próprio um juiz criminal experiente – ficou convencido de que van der Lubbe estava falando a verdade.

Os juízes alemães pensaram o contrário. Com um preconceito inabalável, eles partiram para a intimidação. Como, eles perguntaram, ele podia se opor à evidência das testemunhas especialistas? Van der Lubbe respondeu: “Eu estava lá, e não eles. Eu sei como pôde ter acontecido porque eu o fiz.”

A Corte Suprema chegou a um veredicto estranho. Van der Lubbe foi considerado culpado, e, apesar de o incêndio culposo não ser um crime capital quando ele cometeu sua transgressão, Hitler o tornou pela retroatividade da lei. Van der Lubbe foi assim sentenciado à morte e executado por decapitação.

Os quatro comunistas foram absolvidos, mas os juízes lembraram que van der Lubbe deve ter tido assistentes. O Reichstag, portanto, foi queimado por pessoas desconhecidas; e os nazistas tiveram que se satisfazer com a implicação de que estas pessoas misteriosas, nunca vistas e sem deixar nenhum rastro, eram comunistas.

Tem havido uma reclamação na Alemanha, e principalmente nos países comunistas, que o Sr. Tobias, ao ressuscitar o caso, limpou a barra dos nazistas. Mesmo que isso fosse verdade, isto é culpa daqueles que produziram o Livro Marrom[1], e não o Sr. Tobias. Este é o pior tipo de falsificação.
Mas a nova versão não absolve, de fato, os nazistas. Mesmo que eles não tenham tido nada a ver com o incêndio, mesmo que eles acreditassem verdadeiramente que foi trabalho dos comunistas, isto não justifica suas subsequentes ilegalidades e reino do terror. Eles continuam sendo maus como sempre foram.

Mas o caso deveria mudar nosso pensamento sobre os métodos de Hitler. Ele estava longe de ser o planejador detalhista que geralmente é pensado ser. Ele tinha um gênio para a improvisação; e seu comportamento em relação ao incêndio do Reichstag foi um exemplo maravilhoso disto. Quando tornou-se Chanceler, ele não tinha nenhuma ideia como transformaria sai posição constitucional em uma ditadura. A solução apareceu diante dele como um raio quando ele olhou as ruínas chamuscadas do Reichstag naquela noite de fevereiro.

O incêndio foi, em suas próprias palavras, “uma oportunidade caída dos céus”; e podemos concordar com ele que chegou-lhe nas mãos por um evento externo, apesar de dificilmente ser dos céus. Este é o modo como a história trabalha. Os eventos acontecem aleatoriamente; e os homens então os moldam segundo um padão. Van der Lubbe ateou fogo no Reichstag; mas a lenda de que os nazistas o fizeram provavelmente continuará indestrutível.

Nota:

[1] O Livro Marrom do Terror Nazista foi escrito pelo chefe de propaganda do Partido Comunista Alemão (KPD) Willy Münzenberg em conjunto com o comunista e agente soviético tcheco Otto Katz.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

[HOL] O Plano Madagáscar da Alemanha Nazista, há 75 anos atrás

Evan Andrews

History in the Headlines, 03/06/2015




No verão de 1940, a Alemanha Nazista arquitetou um esquema aparentemente estranho: exilar a população judaica da Europa na ilha africana de Madagáscar. Apoio à proposta surgiu após a emissão de um memorando de 3 de junho do Departamento do Exterior Alemão e foi colocado quase imediatamente em ação antes de as vitórias aliadas na Segunda Guerra Mundial o tornassem inviável. Setenta e cinco anos após ter sido proposto, é interessante relembrar o plano de deportação brutal que precedeu os horrores do Holocausto.

“A vitória próxima dá a Alemanha a possibilidade, e sob muitos aspectos também a obrigação, de resolver a Questão Judaica na Europa. A solução desejada é: todos os judeus fora da Europa.” Assim foi como Franz Rademacher, chefe do “Setor Judaico” do Departamento do Exterior Alemão iniciou o memorando para o Alto Comando Nazista no verão de 1940. No documento que se seguiu, ele desenvolveu um audacioso plano para banir milhões de judeus europeus para a ilha africana de Madagáscar. O esquema previa que a cidadania europeia dos judeus fosse revogada e sua propriedade e riquezas pessoais fossem confiscadas para ajudar no estabelecimento do novo “superguetto” no Oceano Índico. Uma vez reassentados, seriam governados por uma força policial da SS. Rademacher argumentou que a escolha da ilha poderia ser vendida como propaganda para mostrar ao mundo a “generosidade” do povo alemão. Em uma nota mais sinistra, ele acrescentou que “os judeus permanecerão sob jugo alemão como uma promessa de bom comportamento para os membros de sua raça na América.” Os judeus de Madagáscar não seriam apenas exilados – eles também seriam reféns.

A proposta de Rademacher foi a mais ambiciosa das várias tentativas do Terceiro Reich de Hitler de expulsar os judeus. Assim que assumiram o poder no início dos anos 1930, os nazistas implementaram uma série de políticas repressivas antissemitas que retirou dos judeus seus direitos e forçou muitos deles a deixar o país. A perseguição piorou após o início da Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas começaram a obrigar os judeus a viver em campos e guetos. Seguindo o plano abortado de transformar o distrito polonês de Lublin em uma reserva gigante judaica, os alemães desviaram seu foco em direção de remover os judeus de todo o continente. Em uma carta de maio de 1940 para Hitler, o chefe da SS Heinrich Himmler expressou seu desejo “... que o conceito de judeu será completamente extinto por meio da possibilidade da emigração em larga escala de todos os judeus para a África ou qualquer outra colônia.”

Madagáscar apresentava-se como um destino possível em maio e junho de 1940, quando as forces alemãs começaram a avançar pela Europa Ocidental. A vitória sobre a França parecia iminente, e com ela veio a dominação sobre seu vasto império colonial, que incluía Madagáscar e outras partes da África. Franz Rademacher enviou o primeiro de vários memorandos sobre o “Projeto Madagáscar” em 3 de junho, e a ideia rapidamente se espalhou entre os vários níveis da hierarquia nazista. A aprovação de Adolf Eichmann e do Ministro do Exterior Joachim Von Ribbentrop e a menção dele por Hitler num encontro com Benito Mussolini ajudaram a divulgá-lo ainda mais. Na Polônia, a construção de guetos foi temporariamente interrompida em antecipação ao plano, já que eles não seriam mais necessários. Os líderes judeus foram informados sobre o plano num encontro secreto no começo de julho, e não demorou muito para alcançar as ruas. Adam Czerniakow, um funcionário judeu em Varsóvia, notou que um burocrata alemão lhe disse que “a guerra estaria terminada em um mês e que todos nós estaríamos sendo enviados para Madagáscar.”

Por incrível que pareça, a ideia de colocar os judeus em Madagáscar não era nova. O plano foi originalmente proposto em 1885 pelo acadêmico alemão Paul de Lagarde, cujos escritos tiveram uma grande influência em Hitler. Ele foi mais tarde adotado por uma grande variedade de políticos e figuras antissemitas na Europa, algumas das quais acreditavam erroneamente que os judeus eram ancestrais dos nativos malgaxes da ilha. Em 1937, o governo polonês chegou a enviar uma missão a Madagáscar para investigar a possibilidade para um novo lar judeu. A delegação formada por judeus voltou convencida de que as temperaturas sufocantes e a infraestrutura quase inexistente a tornava uma péssima escolha, e eles estimaram que ela seria capaz de abrigar somente poucas centenas de famílias.

Se Madagáscar poderia manter de forma segura um fluxo maciço de imigrantes era de pouca importância para os nazistas no verão de 1940. Em agosto, Rademacher, Eichmann e outros submeteram várias propostas revisadas ao Alto Comando nazista. Seus planos solicitavam provisões para uma colônia judaica em Madagáscar como parte de um tratado de paz com os franceses. Os alemães reassentariam e compensariam os colonos franceses que viviam lá, e então começariam a mover os judeus para a ilha após a guerra a uma taxa de 1 milhão por ano. Para dar uma ilusão de propriedade, os judeus assentados em Madagáscar teriam direito a ter seu próprio prefeito, agência de correios e força policial, ainda que o poder real estivesse nas mãos de um governador indicado pelos nazistas. Grandes partes da ilha também receberiam bases militares alemãs.

Muitos líderes alemães viam o Plano Madagáscar como uma resposta ideal à assim chamada “Questão Judaica”, mas em setembro de 1940, seu futuro parecia incerto. O esquema dependia essencialmente da rapidez com que os nazistas conquistavam a Europa, e seu progresso empacou junto com seus exércitos. O principal problema era a Grã-Bretanha, que suportou teimosamente o ataque aéreo durante a Batalha da Inglaterra. Os nazistas esperavam se apropriar da Marinha Real para transportar os judeus para Madagáscar, mas com a Grã-Bretanha ainda de pé, a logística de repente tornou-se impossível. A Alemanha não tinha navios suficientes para forçar a deportação por sua própria conta, e os navios de guerra aliados tornavam os caminhos marítimos intransponíveis. No final de 1940, o plano foi interrompido, porém não esquecido. O tiro de misericórdia foi dado em maio de 1942, quando forças britânicas desembarcaram em Madagáscar em uma invasão anfíbia chamada “Operação Ironclad” A ilha caiu em mãos aliadas no final do ano.

No final, nenhum judeu foi enviado à África como parte do Plano Madagáscar. Historiadores ainda debatem o que teria acontecido se os judeus tivessem sido levados para lá, mas não há dúvidas de que teria sido brutal. Muitas pessoas teriam sucumbido diante das doenças tropicais ou fome devido à falta de recursos e aqueles que sobrevivessem teriam sido sujeitos a abuso ou morte nas mãos da SS. Com isto em mente, muitos estudiosos argumentam que o reassentamento era uma sentença de morte. Outros ponderam que era um subterfúgio para mascarar as reais intenções de Hitler em exterminar os judeus[1]. Pelo menos, foi uma ação em direção da infame “Solução Final” que logo se seguiria. Menos de um ano após o Plano Madagáscar ter sido abandonado, os campos de extermínio foram criados e o Holocausto começou.

Nota:

[1] Se o objetivo era exterminar os judeus, por que todo o trabalho de transportá-los para uma ilha distante? Será que os líderes poloneses também pensavam assim quando elaboraram seu próprio “Plano Madagáscar”? Este plano deveria resolver definitivamente a “Questão Judaica”. Fico imaginando quantas vidas teriam sido salvas com esse reassentamento e como seria hoje o Oriente Médio se Israel não existisse.


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domingo, 24 de maio de 2015

Muralhas de Adriano: os limites do Império Romano

Fernando Duarte


Retratada em brochuras como um programa familiar, unindo história, natureza e exercício num mesmo passeio, a Muralha de Adriano, nas proximidades da fronteira entre a Inglaterra e a Escócia, é hoje uma das principais atrações turísticas do norte inglês, contando com o status de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Porém, o que hoje é lugar para piqueniques e caminhadas ecológicas e mesmo um serviço de chá tradicionalmente britânicos, é o marco de uma das mais bizarras e sangrentas campanhas militares do Império Romano. O símbolo de uma história que mistura tons de resistência dignas de um episódio das aventuras de Asterix com os efeitos colaterais da grandiosidade geográfica e política de Roma. E que ainda provoca surpresas em arqueólogos e historiadores.

Erguida no ano 122, a mando do imperador Adriano, a muralha, que se estendia por mais de 120 km, o suficiente para cobrir de costa a costa a região em que o território britânico afunila, teve um objetivo duplo: consolidar os ganhos territoriais obtidos pelas incursões romanas nas Ilhas Britânicas e ao mesmo tempo esfriar os ânimos do que pode ser descrito como uma guerrilha vinda do norte. Por décadas, Roma tentara e fracassara na missão de subjugar os povos do norte da ilha batizada de Britânia. E novas descobertas arqueológicas sugerem que não foi por falta de tentativas graúdas. Um estudo publicado no ano passado pela arqueóloga Rebecca Jones, do Instituto de Patrimônio Arqueológico Escocês, garante ter encontrado vestígios de nada menos que 260 fortificações romanas no território do que hoje conhecemos como Escócia.

Guerrilha

A quantidade de fortes corresponde ao maior esforço de pessoal do império numa campanha europeia e que torna ainda mais estranha a história das incursões na região. Especialmente se comparada com a relativa facilidade com que o restante das ilhas tinha sido dominado. "O exército romano era mais bem equipado, treinado e disciplinado que as tribos do norte. Era uma força profissional lutando contra a rebeldia isolada e fragmentada das tribos. Mas ataques típicos de guerrilha fizeram a vida dos romanos muito complicada", diz Jones.

Não que Roma simplesmente tivesse desfilado pelo resto do país. O império experimentou um histórico de rebeliões ao sul, a mais famosa delas o levante comandado pela rainha celta Boadicea, em 61, e que resultou na destruição de Londinium, o povoado romano que deu origem a Londres. As primeiras campanhas tiveram início ainda com Júlio César, em 55 a.C., quando os generais romanos suspeitavam que a proximidade geográfica com a Gália resultava em colaboração contra o domínio imperial.


Mas foi quase um século depois, por volta do ano 43, e com Cláudio no trono, que as operações se intensificaram. O que hoje é conhecido como Inglaterra, em especial a região sul e leste, foi conquistado. Na década de 70, as atenções se voltaram para o norte. Além da busca por escravos e metais, conquistar era uma demonstração de poder para os imperadores.

No norte estavam habitantes conhecidos como caledônios. De origem celta, mostraram-se um inimigo mais voluntarioso do que as legiões esperavam. Aproveitando-se de aliados naturais, como o terreno montanhoso que marca boa parte da Escócia, faziam ataques-surpresa em vez de buscar o confronto direto. No mais famoso e ousado deles, uma emboscada noturna em 83 teria causado sérias baixas à IX Legião.

No ano seguinte, a batalha de Monte Graupius resultou numa carnificina maior a favor das tropas do general Julius Agricola. Parecia apenas questão de tempo para que houvesse o controle total do norte. Segundo o historiador romano Tácito, a ferocidade do combate foi tamanha que os caledônios que bateram em retirada mataram suas próprias mulheres e crianças temendo a represália romana. "Se os romanos tivessem colocado mais tropas, teriam subjugado os rebeldes. Mas Roma tinha fronteiras extensas, não era possível canalizar todos os recursos para a região", diz Jones.

O controle total jamais veio. Em séculos de presença nas ilhas, os romanos jamais controlaram toda a Escócia. As razões provocam divergências no meio acadêmico, mas as evidências arqueológicas são de que, ao contrário da Inglaterra, a presença romana na Escócia foi mais militar do que civil, ainda que haja registros de tribos que mantinham relação amigável com os romanos. No geral, porém, o clima era pesado. Em textos antigos romanos, por exemplo, os caledônios eram descritos como encrenqueiros e bárbaros.

Tribos hostis

"Foram repetidas campanhas para tentar subjugar as tribos caledônias. Operações brutais, sangrentas e malsucedidas para a máquina de guerra romana. As legiões tinham que lidar com tribos hostis e com as próprias dificuldades logísticas proporcionadas pela falta de uma estrutura maior e pelos problemas em Roma", diz Jones. Há uma corrente que vê nos tropeços romanos um problema causado pelo próprio expansionismo imperial. Agricola, por exemplo, foi chamado de volta à Roma em caráter de urgência após o evento de Monte Graupius para ajudar a lidar com uma crise militar nas fronteiras do Reno e do Danúbio, mais próximas do coração do império e mais problemática que os "guerrilheiros" caledônios.

Outra muralha

"Precisamos deixar um pouco de lado o romantismo. Roma tinha plenas condições de consolidar seu domínio sobre os escoceses, mas fatores muito mais importantes mudaram o foco das ações militares. A crise no Danúbio enfraqueceu a presença militar na Caledônia. Foram eventos de força maior que impediram uma conquista total, não algum tipo de heroísmo tribal", afirma Bill Hanson, professor de arqueologia da Universidade de Glasgow e especialista do chamado "período romano" britânico.

A construção da Muralha de Adriano é vista como uma mudança de estratégia. O imperador mostrava-se menos entusiasmado com a expansão a todo custo e os objetivos de captação de recursos tinham sido atingidos com o domínio no sul. "Adriano até recuou de algumas campanhas iniciadas no reinado de seu antecessor, Trajano. Não havia uma obsessão em terminar o trabalho, especialmente quando Roma tinha que priorizar o uso de seus recursos militares em áreas mais sensíveis", diz Hanson.

O fato é que sucessores de Adriano voltaram à carga. Em 138, o imperador Antonino ordenou nova invasão. As tropas romanas avançaram de forma significativa em território escocês, a ponto de construírem uma nova muralha, a de Antonino, 160 km ao norte da de Adriano e já bem mais próxima das Highlands. Era menor, com 63 km de extensão, e erguida com barro em vez das pedras da fortificação original. A construção durou 12 anos, até 154. Apenas oito anos depois, as linhas romanas já tinham recuado para a Muralha de Adriano. O império faria mais quatro grandes invasões, incluindo uma, em 209, com 40 mil homens. Em 211, chegou-se a um armistício.

Latim

Os dominadores provaram do próprio remédio: no século 4, os caledônios lançaram uma ofensiva que a muralha não foi capaz de segurar. Às voltas com as invasões bárbaras em Roma, mais e mais tropas foram deslocadas das ilhas britânicas, até que em 410 teve fim a administração romana. Os romanos deixaram sua marca nos povos caledônios: além da adoção do latim como língua para assuntos burocráticos, os avanços semearam o cristianismo na região. Mas a resistência evitou que a Escócia experimentasse pontos positivos da ocupação. "A região não passou pelo mesmo crescimento de centros urbanos como no sul. Os romanos incentivaram a criação de cidades e isso se reflete no cotidiano britânico, em que a Inglaterra é mais desenvolvida que a Escócia", diz Hanson. Na Escócia, que em breve terá um referendo sobre sua independência do Reino Unido, o passado é explorado com orgulho. Turistas à parte, a Muralha de Adriano é um monumento que nem Mel Gibson e seu Coração Valente conseguem superar.

Muralha de Adriano

Início da construção: 122

Final da construção: 126

Extensão: 118 km

Material: pedra e madeira

Altura: 4,5 m

Largura: 2,5 m

Muralha de Antonino

Início da Construção: 142

Final da construção: 154

Extensão: 63 km

Material: turfa e pedra

Altura: 4 m

Largura: n/d


Prevendo a Guerra do Futuro

Robert A. Johnson

Defesanet, 23 de Março, 2015


Prevendo os Ambientes Operativos do Futuro
 
Ao longo da história, tem sido difícil aos que vivem o dia-a-dia identificar as mudanças no caráter da guerra, particularmente durante longos períodos de paz. Apesar de algumas tendências e princípios de estratégia e relações internacionais serem possivelmente mais duradouros, é o caráter mutável das condições, das formas de aplicação da tecnologia, da adaptação e da dinâmica do conflito que torna desafiador o exercício de prever e, por via de consequência, de planejar.

A dificuldade de realizar previsões não impediu o surgimento de assertivas ousadas e algumas visões distópicas têm sido propaladas em algumas publicações sensacionalistas e, aparentemente, até em estudos sérios.

Entre os modernos profetas da destruição, que preveem uma anarquia Hobbesiana, estão nomes consagrados, como Robert Kaplan, Francis Fukuyama, Samuel B. Huntington e, apesar de menos apocalíptico, David Kilcullen [1].

Martin van Creveld e Philip Bobbitt sugerem que o estado está em declínio terminal nas relações internacionais, o que abriria caminho para o caos e a guerra [2]. Outros afirmam que a guerra seria conduzida "no meio do povo", com terríveis resultados em termos de baixas civis. Ao fazer referência ao caráter do conflito futuro, a Doutrina Militar oficial do Reino Unido de 2009 cita, em termos exclusivamente negativos, um campo de batalha  "híbrido" que seria inevitavelmente, "contestado, congestionado, desordenado, conectado e restrito"[3] .

Trabalhos relacionados ao estudo das tendências globais preveem um futuro violento, permeado por recursos naturais em crescente escassez, pressões climáticas e crescimento da população mundial. Entretanto, tais projeções são absolutamente contraditórias com as conclusões de Steve Pinker, Andrew Mack e Håvard Hegre, mais especificamente quando dizem que a guerra, tanto de pequena quanto de grande escala, estaria em declínio [4].

Trabalhos estatísticos da Upsala University, que incorporam todos os indicadores-padrão de conflitos desde 1945, preveem uma redução no número de guerras e no total de baixas nos próximos cinquenta anos.

No passado, tentativas de prever o futuro da guerra foram igualmente contraditórias. Sempre foi algo tentador prender-se a valores e estruturas de força sobre os quais se tinha forte convicção e minimizar o peso de verdades menos palatáveis. A opção por hipóteses que preferimos, ao invés das verdades absolutas, tem sido um problema comum. Entretanto, algumas projeções, descartadas como absurdas por alguns contemporâneos, acabaram provando sua precisão com o tempo.

Seletividade, exagero, opção pelo absurdo, predileções e temores contemporâneos, malentendidos e previsões de longo termo mal colocadas foram características das previsões sobre as guerras do futuro feitas no passado. E todas elas ainda dominam o presente [5].

Há muitas razões para explicar porque fazer previsões é tão difícil, mesmo quando aparentemente há "tendências" positivistas óbvias a nos guiar. É tentador fazer projeções baseadas nos tipos de guerra que parecem ser as prevalentes nos dias atuais e assumir que, pelo futuro previsível, todas as guerras irão cair no mesmo padrão.

Analistas militares querem identificar as características da guerra do futuro com alguma precisão, não apenas porque programas de desenvolvimento tecnológico caros dependem de seu julgamento, mas porque treinar especialistas é um processo demorado e os governos demandam sucesso com a máxima eficiência. A dificuldade está no fato de que o sucesso é condicionado pelo contexto.

É essencial obter clareza sobre o objetivo [de cada guerra], mas sua dinâmica muda com frequência as condições que vigoravam no início do conflito. Assim, os objetivos evoluem tão rapidamente e de modo tão abrangente quanto o próprio conflito. As tendências observadas no passado recente dão-nos fortes indicações sobre a guerra no futuro próximo, mas ainda requerem cautela.

Estados falidos, terrorismo internacional guiado por ideologias radicais e a diminuição da capacidade de estados ocidentais para influenciar eventos e populações talvez possam caracterizar o futuro imediato. No entanto, o verdadeiro valor da história não está em invocar analogias diretas.

Tampouco encontraremos respostas sendo seletivos, na tentativa de nos adequar a uma agenda particular, como ocorre muitas vezes. Ao contrário, o valor da história está em encorajar-nos a refletir criticamente para encontrar respostas e questionar as premissas positivistas que obscurecem nosso campo de visão.

Estamos sujeitos ao fluxo da história e não podemos escapar inteiramente do nosso presente. Mas devemos procurar nos libertar de suposições não fundamentadas sobre o futuro, empregando o pensamento crítico.

Guerra e as Mudanças Cada Vez Mais Rápidas

Avaliações recentes sobre o ambiente operativo do futuro enfatizam tendências visíveis no presente. O relativo declínio econômico do ocidente, comparado ao crescimento da manufatura chinesa – um fenômeno não necessariamente inevitável no futuro – tem gerado previsões de que o mundo irá se tornar mais multipolar. Dada a brevidade do momento unipolar dos Estados Unidos da América, após a Guerra Fria, não surpreende que haja multipolaridade. Mas associá-la a um relativo declínio econômico do Ocidente é ilógico: não é algo automático.

De fato, o crescimento do potencial militar da China e a ambiguidade advinda dos planos de longo termo de Pequim – citados com tal regularidade e desconfiança que o confronto agora parece atingir uma condição aceitável de inevitabilidade – talvez nunca ocorra, mesmo no Pacífico [6].

A China fornece tropas de paz para as Nações Unidas e está principalmente voltada para a sua segurança doméstica. Temores acerca do seu potencial para conduzir uma guerra cibernética geralmente desconsideram o desejo do governo chinês de monitorar a sedição interna.

A República Popular da China é particularmente sensível quanto à integridade de suas fronteiras – uma atitude que não pode ser considerada irracional, dadas as ameaças que sofreu nas fronteiras em 1950, 1960, 1962 e 1979. E o mais importante: a China está contida em suas ambições por sua interdependência com o Ocidente e a economia global. Ela depende dos mercados tanto quanto do apoio que recebe de sua própria população.

Outra afirmação comum é de que o enquadramento legal das operações conduzidas por países ocidentais irá se tornar menos flexível e os militares já expressam seu temor de que serão de tal modo restringidos por ele, que não poderão mais manobrar, no futuro [7].

Assessores jurídicos são fundamentais nas operações de baixa intensidade entre populações e nas ações de contraterrorismos, mas teriam menos influência nas campanhas de alta intensidade. De fato, é preciso notar que, em geral, a assessoria jurídica nos países ocidentais tem facilitado as operações, ao invés de impedi-las.

O verdadeiro obstáculo é a aversão ao risco e o medo de judicialização das operações nos níveis estratégico e de elaboração das políticas. Há preocupações, por exemplo, quanto às operações psicológicas, a vigilância e a busca de alvos, ainda que essas atividades sejam intrínsecas às operações de contraterrorismo.

A terceira assertiva prevê que os ambientes operativos do futuro serão urbanos, com o rápido crescimento populacional exercendo pressões insustentáveis sobre a infraestrutura e os recursos. Uma agravante viria das mudanças climáticas, vistas como catalisadoras de maior incidência de desastres naturais, afetando particularmente as cidades litorâneas – e as forças do Ocidente poderiam ter seu emprego em regiões devastadas.

As crises de recursos – que, supõe-se, seriam um gatilho para a guerra – são vislumbradas como atingindo um estágio agudo no futuro, no qual as demandas por energia começariam a exceder os estoques e as reservas disponíveis. As primeiras a serem afetadas, imagina-se, seriam as cidades com populações empobrecidas.

É verdade que há probabilidade de ocorrerem ajustes significativos, mas estes ajustes serão ditados pelo mercado: os custos tornam-se muito altos e os consumidores e os estados são forçados a buscar alternativas, mas a guerra nem sempre será a consequência disso.

O mapeamento dos pontos de estrangulamento entre demanda e suprimento disponível e do poder relativo dos estados, das cidades e dos atores não estatais talvez produza alguma correlação com os conflitos do futuro. Todavia, essas correlações não podem ser consideradas deterministas.

As avaliações mais precisas de como será a guerra no futuro próximo estão baseadas no presente. Essas preveem grandes movimentos insurgentes, eclodindo em áreas rurais e urbanas, profundamente enredadas na política local e disfrutando da simpatia – se não do apoio – das populações locais. Iraque, Afeganistão e Somália têm sido caracterizadas como intervenções ocidentais de larga escala que antagonizaram povos, ameaçaram interesses escusos e foram marcadas por mal elaboradas tríades de fins, modos e meios.

Mesmo nos casos em que o intento não é a intervenção deliberada, é possível que, no curto prazo, as tentativas de levar ajuda humanitária a uma população em meio à guerra – ou uma missão de manutenção da paz mal conduzida – poderiam produzir complicações e obrigações similares.

Como a capacidade militar convencional dos Estados Unidos é tão superior e o confronto nuclear é algo tão inimaginável, muito acreditam que todos os futuros adversários do Ocidente irão empregar guerra irregular ou não convencional. Alguns afirmam que as guerras "por procuração" serão mais comuns [8].

Alguns desses "procuradores" poderão não ser forças militares convencionais, variando de companhias militares privadas a corporações e instituições financeiras transacionais.

Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos sugerem que os ataques futuros a alvos ocidentais serão dirigidos a pontos fracos específicos. Esses serão invariavelmente não militares, como a população civil, embaixadas e a infraestrutura. E são exatamente essas vulnerabilidades que devem ser a preocupação das Forças Armadas ocidentais, até porque as agências civis não têm capacidade para protegê-las.

Para enfrentar essas fraquezas, é possível que seja necessária uma reavaliação radical do papel e das funções dos exércitos, juntamente com a nova constatação de que o ambiente operativo futuro tem probabilidades iguais de estar no estrangeiro e na esfera interna [9].

A ansiedade acerca das vulnerabilidades ocidentais tem produzido muita especulação acerca da "e-guerra", de cenários de contraterrorismo, de batalhas inter-robóticas e do futuro do poder aéreo não tripulado para conduzir ataques a distância. O problema é que esses instrumentos podem não caracterizar a guerra do futuro, ainda que sejam confortavelmente previsíveis para aqueles que os advogam ou criticam.

Os analistas militares ocidentais são rápidos em identificar os padrões com os quais eles estão familiarizados, mesmo nas ocasiões nas quais tendem a serem seletivos e a exagerar as ameaças e ignorar futuras oportunidades. Muito disso é cultural. Noções Clausevitianas de poder decisório – a política da decisão – e resultados rápidos são altamente atraentes, mesmo considerando que a guerra pode ser, em essência, não decisiva, prolongada, dinâmica e imprevisível.

Uma característica corrente da guerra, podemos notar, é a crescente digitalização, com ênfase nas métricas de busca de alvos, fogos, vigilância e efeitos. A firme evolução deste fenômeno tem sido obscurecida pelos recentes debates sobre técnicas de contrainsurgência. Ainda assim, os temas são intimamente relacionados, pois, no nível tático, os insurgentes empenham-se em sobrecarregar esses sistemas superiores com inúmeros alvos e várias formas para atacar, incluindo ações suicidas. As equipes de forças especiais ainda precisam realizar vigilância cerrada para permitir que armas computadorizadas possam engajar seus alvos.

E eles frequentemente devem estar mesclados à população local ou recrutar colaboradores, empregando pessoas com alto grau de empatia e entendimento das necessidades de atores não estatais e de suas agendas [10].

Apesar das tentativas de eliminar a fricção no contraterrorismo e na contrainsurgência com as novas tecnologias, a tropa e os seus sistemas high-tech ainda estão vulneráveis ao cansaço, às falhas técnicas e às decisões erradas tomadas por comandantes cansados, estressados e cada vez mais escrutinizados. A névoa da informação pode ser um obstáculo menor na guerra convencional, mas insurgentes sempre tentarão subverter os sistemas informacionais – confundir, mantendo-se ocultos.

O ritmo enormemente acelerado da guerra convencional adequa-se bem aos sistemas tecnológicos ocidentais, mais isso não acontece com a guerra no meio do povo por períodos prolongados, uma vez quem nestes casos, a fricção impõe-se de modo mais enfático.

A principal suposição, muitas vezes repetida, considera que as operações ocidentais no futuro serão expedicionárias, já que não existem estados capazes de ameaçar os Estados Unidos ou o continente Europeu. Os que desejam evitar o caráter prolongado típico das operações terrestres – como no Afeganistão – defendem a necessidade de operações aéreas e navais ou, no máximo, uma estrutura de força terrestre mais leve.

Os advogados dessa postura raramente reconhecem as limitações do poder aéreo que foram recentemente expostas nas operações no Kosovo. Os "navalistas", ansiosos por enfatizar o modo como os governos poderiam manter sua liberdade de ação sem ficarem enredados em campanhas terrestres, dão menor atenção às vulnerabilidades do poder naval em litorais congestionados ou ao fato de que, no passado as decisões das guerras ocorreram tanto em terra quanto no mar.

Os que vislumbram forças terrestres leves engajando-se em operações de manutenção da paz parecem não levar em conta as consequências que adviriam se tais missões entrassem em dificuldades, o que poderia resultar em acirramento do combate e no risco de uma derrota catastrófica.

A lógica ocidental [por trás da decisão] de manter forças leves para os combates nos anos 2001-03 era [justificada pela] manutenção de agilidade, redução da cauda logística e para evitar o antagonismo do povo local contra qualquer presença militar ostensiva de larga escala. Os Estados Unidos visaram especificamente a evitar qualquer ideia de ocupação do Afeganistão, para que não se repetissem os erros soviéticos de 1979. Em 2001, havia uma crença considerável na capacidade do poder aéreo em produzir resultados sem [que houvesse] empenho terrestre substancial [11].

Na verdade, o raciocínio que defende forças terrestres menores conduz a maior vulnerabilidade e menos inteligência, o que só poderia ser compensado por uma grande disponibilidade de poder aéreo. Ainda assim, apesar do advento dos ataques de precisão e da melhoria dos sistemas de busca de alvos, apostar no poder aéreo tem causado aumento no número de baixas civis.

Esta solução provou ser contraprodutiva na sequência das operações, nas quais as forças ocidentais se viram envolvidas na condução de política local [a reconstrução do país – N. do T.]. O poder aéreo não pôde, sozinho, proporcionar a segurança para o estabelecimento de um novo governo. A partir das operações na Líbia, em 2011, ressurgiu o entusiasmo pelas operações aéreas como forma de evitar o emprego de forças terrestres.

Ataques limitados com mísseis foram postulados nas operações contra o regime sírio em 2013. Tem levado algum tempo para que os governos ocidentais percebam que seus métodos de guerra e de estabilização, bem como seus planejamentos para as campanhas e suas doutrinas não podem ser considerados superiores. Eles têm sido obrigados a mudá-los constantemente, à medida que as operações evoluem no tempo.

Novas tecnologias – de veículos remotamente pilotados à robótica – e novos métodos – como a negação de serviço ou a interrupção cibernéticas – não podem garantir a vitória, como não pode a crença no poder aéreo e naval nos primórdios do século XXI. A novidade proporcionada por tecnologias nunca garantiu o sucesso por si só – é a integração do novo com os métodos e os meios efetivos que possibilita a vantagem tática ou estratégica.

Este tem sido particularmente o caso das aeronaves não tripuladas dotadas de mísseis. Tem havido muito debate sobre o caráter legal e ético de matar alvos em países que não estão em guerra com o Ocidente – como o Iêmen e o Paquistão – e em torno da remoção de insurgentes do campo de batalha por meio de prisões extrajudiciais, ou, ainda, da apreensão de suspeitos de serem combatentes [12].

A verdade é que inimigos do Ocidente subvertem as leis ocidentais; atacam enquanto estão misturados à população civil local, não têm compromisso com a verdade em suas operações de informação e declaram abertamente que sua intenção é infringir baixas em massa àqueles que não se submetem às suas ideias. A preocupação ocidental de proteger as populações, internalizada profundamente a partir do advento dos bombardeios maciços durante as guerras mundiais, não está entre as prioridades de muitos dos beligerantes não ocidentais.

Ainda que sejam [soluções] perturbadoras e não palatáveis segundo os [padrões] ocidentais, em geral é a intimidação, o medo de retaliação e o poder militar esmagadoramente superior que têm obrigado populações a submeterem-se, e não o ético engajamento seletivo, tão valorizado pelo Ocidente [13].

Ainda assim, as inconsistências podem ser exploradas [negativamente]. Os ataque com drones, sem que haja regras de engajamento claras, provoca uma erosão dos limites entre guerra e paz, alimentando e facilitando a argumentação de grupos não estatais de que eles também têm o direito de contra-atacar no cenário internacional.

Ambientes urbanos e periféricos, nos quais o controle governamental não é exercido ou não está claro, apresentam-se como os maiores problemas para as forças de segurança e, em algumas situações, forças militares podem assumir temporariamente o papel de autoridade governamental, com os poderes legais para isso. Pensar em segurança interna é algo menos atraente às forças terrestres ocidentais do que conduzir guerras além das fronteiras de seus países.

A segurança interna é vista como uma forma de policiamento e não como uma atividade militar. O triste histórico relacionado à segurança interna e à coerção de populações, ainda que tenha sido um papel tradicional dos exércitos antes do século XIX, podem parecer um anátema ao profissionais das armas.

De qualquer modo, é preciso dar mais ênfase ao objetivo de trazer os adversários à mesa de negociação como um parâmetro para medir o sucesso. As negociações devem ser vistas como norma, e não a exceção, no conceito de guerra total militar, que considera a vitória [somente] com a destruição dos meios que permitem [ao inimigo] resistir [14].

Tratar a guerra como a continuação da política por outros meios significa dizer que a vitória é uma correlação entre fins, modos e meios... e que é um processo contínuo, não um estado-final.

Acima de tudo, a inabilidade para prevermos o futuro com confiança pode nos ajudar a explicar porque temos o desejo de procurar pelo novo enquanto nos prendemos àquilo que nos é familiar, quando estamos planejando hipóteses de guerra. Ainda assim, em um ambiente operativo do futuro, novos e antigos conceitos de guerra irão coexistir.

Enquanto alguns contendores estarão empregando novos sistemas de armas e operações de informação, outros estarão atacando infraestruturas e tentando cooptar populações por meio de ressentimentos religiosos. E haverá aqueles que estarão cavando trincheiras e travando combate corpo-a-corpo. Não haverá padrão previsível, pois cada conflito terá seu próprio contexto.

O discurso sobre a guerra do futuro está repleto de tentativas de encontrar padrões e as incertezas do presente são projetadas para o amanhã, geralmente de modo exagerado [15].

Avaliações menos sensacionalistas não possuem o mesmo apelo, atraem menor atenção e, quando provadas errôneas, são tomadas como exemplos da complacência [de quem as produziu]. Tendências históricas de longo prazo são difíceis de identificar: ninguém pode estar certo de que a tendência identificada é correta. Ademais, é impossível ignorar as características das guerras do presente.

Parece que o mundo, por enquanto, vive um período de conflitos não convencionais. E as projeções são confrontadas com os padrões identificados – o que ajuda a explicar porque os que empregam estatísticas para provarem suas teses sobre a guerra do futuro se sentem tão confiantes quanto os catastrofistas.

As contradições inerentes a essas análises nos sugerem que, na verdade, não há garantias de que os padrões ou trajetórias sejam confiáveis. Não é uma verdade inexorável que as guerras não convencionais de baixa intensidade de hoje irão se repetir, até mesmo no futuro próximo. É possível [até mesmo] que aconteçam episódios de guerra interestatal de grande intensidade e altamente destrutivas, talvez incluindo uma limitada troca de agressões com armas nucleares táticas.

Como indica David Kilcullen no seu recente "Out of the Mountains: the Coming Age of the Urban Guerrilla" ("Saindo das Montanhas: a próxima Era da Guerrilha Urbana!", em tradução livre), [a dificuldade] não está na falta de familiaridade e na imprevisibilidade das tendências de mudança, mas no ritmo com que essas mudanças ocorrem [16].

Ele argumenta que as atuais instituições, estados, governos e forças armadas estarão sobrecarregados pela magnitude da instabilidade das novas megacidades e pelo ritmo da nova conectividade. Mais especificamente, ele argumenta que o futuro ambiente operativo serão as cidades e não os estados, com os conflitos do futuro provavelmente concentrados na periferia de grandes centros urbanos litorâneos nos países em desenvolvimento, onde grupos armados não estatais – como cartéis, gangues de rua e caudilhos – estejam disputando recursos e influência.

Além disso, Kilcullen ilustra como a conectividade moderna – como as redes sociais – apresentam tanto desafios quanto oportunidades nesse novo ambiente operativo. Essas ferramentas podem mobilizar manifestantes como na Primavera Árabe, manter uma economia informal em Mogadíscio, treinar soldados e armeiros sem experiência e serem utilizadas por estudantes do ensino médio para identificar posições de atiradores de elite do regime líbio. Essa conectividade se apresenta tanto no nível local quanto no internacional e irá sobrecarregar forças militares convencionais e instituições de governo.

Quando defendemos uma tese sobre qual será o ambiente operativo do futuro, podemos perder de vista o [sindícios de] continuísmo. Se é verdade que as cidades serão potencialmente o berço das agitações populares, também é possível afirmar que essas concentrações urbanas são dependentes das áreas do interior. O fato é que as cidades podem ser desbordadas ou contidas, tanto quanto podem se tornar parte do espaço de batalha.

São todas interdependentes com outras cidades, portos, infraestrutura de transporte e seu entorno, o que, como afirma Kilcullen, significa que o sistema urbano consiste não apenas do ambiente construído, mas das redes que o sustentam e servem.

Indo mais além, é preciso reconhecer a importância dos aspectos legais e ideológicos do ambiente operativo, uma vez que é grande a possibilidade de produzirem restrições à forças de segurança, particularmente se elas tiverem que enfrentar ataques terroristas em massa como o de Mumbai, uma contaminação em massa, ou operações de baixa intensidade contra populações pobres e carentes, que se manifestem com violência contra as privações a que estão submetidas.

Kilcullen reitera que é pouco provável que ansiedades históricas geradas por recursos, ameaças e reputações deixem de ser fatores causadores de guerras. É provável que as finalidades das guerras permaneçam previsíveis, mas que os modos e meios para conduzi-las sejam transformados significativamente. Ainda assim, o modo tradicional de conduzir a guerra continuará a existir.

O uso da força como um instrumento da política – o que parece inevitável – ainda pode ser estratificado em guerra limitada, ameaça de guerre a l‘outrance (em termos de armas de destruição em massa) e tentativas de neutralizar um inimigo por meio da derrota de sua estratégia. Entretanto, novos meios [que irão surgir] durante este século podem abrir novas possibilidades e novos modos para atingir os fins estratégicos.

No futuro, ao invés de uma única crise global, haverá variados enfrentamentos por recursos e pressões populacionais, diferentes em cada região [17]. Algumas delas, por sua escala, poderão acelerar rapidamente. Suprimentos limitados e a exaustão ou os altos custos de extração de recursos – como energia, água e alimentos – também irão afetar as regiões com intensidade variada; provavelmente mais o mundo em desenvolvimento do que o mundo desenvolvido.

O Global Environment Outlook de 1999 previu conflitos por água no norte da África e no Oriente Médio entre os anos 2000 e 2025, ainda que os conflitos ideológicos e de governança tenham predominado naquelas regiões até agora [18].

As pressões financeiras também provaram ser muito mais do que isotrópicas: a falta de crédito nos países em desenvolvimento os deixa vulneráveis à agitação interna. Há muitos que preveem que a desigualdade e o desemprego de jovens irão aumentar nos próximos trinta anos, o que pode gerar um correspondente aumento do número de grupos descontentes que optem por adotar ações violentas.

Ainda assim, há um risco de que [toda essa argumentação] esteja sendo exagerada: ataques terroristas à infraestrutura têm efeito limitado no tempo e não são capazes de destruir sistemas na sua totalidade. A verdadeira vulnerabilidade do Ocidente seria exposta por um colapso econômico da China, a partir de uma agitação social, e por uma estagnação do comércio e do intercâmbio financeiro globais. No entanto, a revolução digital promete aumentar o Produto Interno Bruto global em ritmo e extensão muito maiores do que durante a revolução industrial.

É provável que o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas produza tanto benefícios significativos quanto resultados indesejados. Enquanto o mapeamento do genoma humano em 2000 consumiu cinquenta milhões de dólares e vários anos para ser concluído, hoje podemos obtê-lo em um dia, ao custo de menos de mil dólares [19].

Essa pesquisa médica avançada permitiu aos Estados Unidos obterem uma vantagem estratégica significativa, nas relações mundiais. O mesmo é válido para a revolução da informação que está em curso. Mais informações são geradas a cada dois dias do que o total produzido ao longo dos últimos dois mil anos [20].

A consequência é que as insatisfações serão amplificadas mais rapidamente a um público maior do que antes. Mas também haverá soluções que poderão ser obtidas mais rapidamente. Essas possibilidades sugerem que haverá maior volatilidade nos domínios informacional, físico, de infraestrutura e de ideias.

Tendências para a Guerra do Futuro

O caráter das guerras irá mudar com tanta frequência no futuro quanto mudou no passado, mas haverá continuísmos marcantes, como o terrorismo e os protestos de massa violentos. Haverá, quase certamente, um aumento significativo de guerras irregulares nas cidades e guerras sistêmicas.

Há dez tendências para a guerra do futuro: ações irregulares em áreas urbanas, que exploram vulnerabilidades da infraestrutura; porosidade; dispersão; profundidade; furtividade (stealth, no original, em inglês); miniaturização do poder de combate; privatização da violência; descentralização; operações sistêmicas nodais; e precisão.

Nas grandes cidades, imagina-se que o terrorismo de baixa intensidade possa ocorrer com maior probabilidade. Conflitos prolongados necessitam de significativa mão de obra militar e policial e operações de mídia controladas. Na guerra do futuro, as milícias urbanas talvez obtenham acesso a armamento mais letal, incluindo misseis terra-ar, armas anticarro e contaminantes químicos e biológicos.

No combate urbano, as forças militares encontrariam a autoridade civil colapsando, várias agências trabalhando em suas agendas dentro do mesmo espaço físico e uma população civil vulnerável esperando por ajuda.

A guerra sistêmica é igualmente não-convencional, pois envolve ataques ao sistema financeiro, desgastando economias locais para criar regiões e povos dependentes, participações difusas e de massa em ações contra os estados e os governos, operações de informação, crimes cibernéticos, bloqueios cibernéticos, ações disruptivas de guerra eletrônica, ataques biológicos seletivos em porções da sociedade, colapsos energéticos e contaminação de água e comida.

Cada tipo de ação é caracterizada por uma ênfase na natureza sistêmica de suas consequências: são concebidos para interromper, degradar, desacreditar ou destruir sistemas dos quais dependem os estados e as populações.

Os processos de engajamento [de alvos] têm afetado o campo de batalha desde o início da era industrial, na medida em que armamentos mais letais e com maior precisão e alcance os tornaram mais abrangentes. Enquanto, em 1863, [a batalha de] Gettysburg ocorreu em um espaço de poucas milhas, a Segunda Guerra Mundial foi caracterizada como um conflito que se estendeu a vários teatros por todo o mundo, requerendo a mobilização de economias domésticas e de suas populações. Desde 1945, o mundo tem sido afetado tanto por guerras não-convencionais quanto por guerras convencionais e ostensivas.

A natureza interconectada da economia e do sistema de comunicações mundiais significa que mesmo o menor dos ataques terroristas alcança toda a população mundial. Intimamente ligada à ideia de dispersão está o ocultamento – ou a furtividade – com pequenas organizações operando fora das vistas, ou tentando permanecer ocultas em meio à população ou em partes remotas do território.

Curiosamente, apesar das afirmações de que organizações clandestinas são particularmente ameaçadoras ao Ocidente, assinaturas digitais estão cada vez mais difíceis de esconder. As forças estatais modernas ficaram muito mais expostas e vulneráveis e, no futuro, a camuflagem nos conflitos no meio do povo irá requerer completa miscigenação.

Desde a revolução industrial, a engenharia de precisão tem permitido surgir menores e mais eficientes sistemas de armas, enquanto os avanços na física e na química têm aumentado seu poder explosivo. Ao mesmo tempo, tem sido possível desenvolver plataformas que são menores, mas que carregam o mesmo ou maior poder de combate.

Metralhadoras – antes grandes e desajeitadas – agora são portáteis. Depois da bomba atômica, foram desenvolvidas novas gerações de artefatos nucleares até que se tornou possível produzir um dispositivo nuclear tão pequeno quanto uma granada de artilharia. Pode-se imaginar que, no futuro próximo, haverá sistemas de armas de grande magnitude que serão transportáveis por indivíduos. Dessa tendência pode-se deduzir que cada cidade, porto ou província é potencialmente um espaço de batalha.

É provável que o combate se torne cada vez mais individualizado no futuro próximo, à medida que grupos cada vez menores passem a reclamar o direito de recorrer à guerra, equipando-se com poder de combate significativo. O aumento do número de empresas de segurança e de companhias militares privadas, tanto no ambiente interno, quanto nas missões de segurança expedicionárias parece ser uma tendência que irá se manter.

Esse fenômeno torna mais fácil a condução de guerras "por procuração", com grupos e indivíduos de fachada equipados e treinados tanto por agentes estatais quanto não estatais. Combatentes irregulares assameses, cartéis de droga mexicanos, piratas somalis e combatentes do delta do Niger têm conseguido conduzir campanhas prolongadas contra seus governos, interesses nacionais e grandes companhias, nos seus próprios termos.

A propagação do poder e das comunicações ocorrida no ocidente desde o final do século XIX – e que agora alcançou todo o globo – causou reflexos no modo como se conduz a guerra.

O desenvolvimento da tecnologia e das comunicações – antes reservado à elite e ao estado – chegou à população e tornou-se um elemento importante para o desenvolvimento de conflitos de natureza irregular.

A descentralização também trouxe mais poder às forças do estado: rádios portáteis e comunicações móveis permitem que pequenas frações e indivíduos isolados desfrutem de consciência situacional avançada, tanto para localizar alvos quanto para manobrar no terreno. Maior especialização significa maior conectividade. Interoperabilidade e descentralização são essenciais para uma entrega de efeitos eficaz.

O desenvolvimento tecnológico continua a ampliar a precisão e a superioridade com os quais se conduzem os ataques à distância com efeitos considerados aceitáveis. Meios mais precisos irão demandar mais combatentestécnicos, aptos a utilizar esses recursos tanto na ofensiva quanto na defensiva. Entre os exemplos estão a nova geração de antimísseis e os veículos semiautônomos.

Deverá haver plataformas multiuso, capazes de operar em solo, no mar e no ar, com capacidade eletrônica, bem como equipes de Forças Especiais em menor número, altamente treinadas e muito bem equipadas – cuja vulnerabilidade poderá ser compensada por uma ampla gama de opções de apoio (em transporte, inteligência, fogos, especialização e logística).

Mas em todas as operações conduzidas pelo estado, a ênfase será na precisão, juntamente com a dissimulação, a dispersão e a adaptação às ameaças geradas por grupos não estatais e de fachada que se utilizam de ataques clandestinos. Novos sistemas serão  necessários para atuar com precisão em ambientes urbanos, em arranhas-céus, no subsolo, sob a água e no espaço.

No futuro, se as forças pretendem estar aptas a destruir forças terroristas mescladas ou operando junto às populações, terão que dispor de precisão ainda maior do que na atualidade e, o que é mais importante, de maior velocidade na aquisição da alvos.

A habilidade de impor degradação nodal ou sistêmica ao inimigo, afetando sua capacidade de resistir, comandar ou de comunicar-se, será a característica marcante da guerra do futuro, envolvendo a paralisia das comunicações e grande ênfase nas guerras psicológica-informacional, cibernética e, até mesmo, neurológica.

Irá representar uma forma de "e-envolvimento"; furtivo e clandestino. Esses modais serão parte de uma gama mais ampla de operações contra as principais ameaças geradas por inimigos situados entre as populações domésticas.

Implicações para as Forças Armadas Contemporâneas

Deduzir é algo difícil e, em um artigo curto como este, as deduções são necessariamente seletivas. Ainda assim, a superficialidade e as afirmações impactantes podem provocar o pensamento crítico; e será mediante intercâmbio fundamentado [de ideias] que poderemos desafiar as pressuposições, redefinir nossas conclusões e permanecer alertas para os erros de avaliação.

É com esse espírito que as conclusões a seguir são oferecidas. No futuro, as forças farão uso da furtividade, operando sistematicamente por redes de comunicações e pela exploração das vulnerabilidades da sociedade. Farão emprego da guerra da informação para espalhar o medo e o pânico, mas também irão conduzir o combate cinético em meio às populações.

Seus objetivos serão a destruição dos sistemas financeiros, da infraestrutura e da vontade de manter a resistência. Esse tipo de guerra não convencional será muito mais frequente do que as guerras prolongadas e de alta intensidade do passado – apesar de que estas ainda poderão ocorrer.

E a militarização do espaço parece ser algo iminente. Para enfrentar essas ameaças, os estados devem identificar suas próprias vulnerabilidades e adotar ações para minimizá-las, mesmo que isso signifique reorganizar suas Forças Armadas. Preparar-se para essa forma de combate difusa, dispersa e clandestina também significará adotar novas medidas para a defesa civil.

No conflito antiterror do futuro, as operações psicológicas e de informação serão essenciais. É possível que a preparação [das tropas] em tempo de paz ocorra em meio a operações de segurança de longa duração (por vezes em ambiente doméstico), a operações de manutenção da paz ou a operações de combate ao terrorismo ou de contrainsurgência.

É provável que as forças sejam desdobradas em resposta a informações específicas obtidas pela inteligência, em ações de grande mobilidade e com duração excepcionalmente rápida. Os ataques serão semelhantes a incursões.

A inteligência será o esteio das operações, mas alvos de oportunidade irão surgir de modo fugaz, exigindo resposta rápida e precisa. A aplicação inteligente dos conceitos da tática será tão crítica para o sucesso quanto a capacidade [das tropas] de se comunicarem com toda sorte de agências civis.

As atuais tendências de guerra fornecem um guia incompleto sobre o ambiente operativo futuro, mas nos dão certos indícios sobre qual direção seguirmos. As questões relacionadas à porosidade, à dispersão, à profundidade, à furtividade, à miniaturização do poder de combate, à privatização da violência, à descentralização, à precisão, às operações nodais sistêmicas e à vulnerabilidade da infraestrutura irão afetar vários domínios: físico, ideacional, informacional e de infraestrutura, particularmente em relação às cidades e aos sistemas. A gramática da guerra, nessas áreas, mudou.

Os comandantes que forem capazes de compreender as cidades e suas áreas periféricas, sua morfologia, suas conexões e suas vulnerabilidades terão significativa vantagem para o emprego de seus meios, seja em operações regulares, irregulares ou "por procuração".

A habilidade para entender a nova inter-relação que rege os vários sistemas – sejam eletrônicos, urbanos, baseados em recursos ou informacionais – irá definir a "alfabetização militar", no futuro.

As forças militares serão forçadas a se adaptarem ao novo ambiente – ou terão que encarar a derrota. Uma forma de aumentar a capacidade de adaptar-se é enfatizando a importância da inovação, da improvisação e da adaptação, usando o passado como um guia fundamental para o desenvolvimento educacional e a mudança institucional.

NOTAS:

[1] Robert D. Kaplan, "The Coming Anarchy", (The Atlantic, February 1994), disponível em http://www.theatlantic.com/ideastour/archive/kaplan.mhtml, publicada no Brasil como "À Beira da Anarquia" (Ed. Futura, 2000); Francis Fukuyama, "The End of History and the Last Man" (New York: Free Press, 1992), publicada no Brasil como "O Fim da História e o Último Homem" (Ed. Gradiva, 1999); Samuel B. Huntington, "Clash of Civilizations and the Remaking of the World Ordem" (New York: Simon and Schuster, 1996), publicada no Brasil como "O Choque das Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial" (Rio de Janeiro: Ed.
Objetiva, 1997); David Kilcullen, "Out of the Mountains" (London: Hurst & Co., 2013).

[2] Martin van Creveld, "The Fate of the State", Parameters 26, no. 1 (Spring 1996): p. 4-18; Philip Bobbit, "The Shield of Achilles!" (New York: Penduin, 2003).

[3] Rupert Smith, "The Utility of the Force" (Londres: Allen Lane, 2005), publicado no Brasil como "A Utilidade da  Força – A Arte da Guerra no Mundo Moderno" (Ed. Edições 70, 2008); Ministério da Defesa da Grã-Bretanha, "The
Future Character of Conflict" (MOD, DCDC Strategic Trends Programme, February 2, 2010).

[4] Steve Pinker, "The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined" (New York: Viking Books, 2011); Andrew Mack, "More Secure World" – palestra na ANU, fevereiro de 2011; Havard HEgre et al "Predicting Armed Conflit, 2010-2050", International Studies Quarterly 55(2) (2013): p. 1-21.

[5] Veja Antulio J. Echevarria II, "Imagining Future War: The West‘s Technological Revolution and Visions of Wars to Come 1880-1914" (New York: Praeger, 2007).

[6] Para uma visão alternativa, veja Christopher Coker, "The Improbable War: China, the United States and the Logic of Great Power Conflict" (Londres: Hurst, 2014).

[7] Akbar Ahmed, "The Thistle and the Drone: How America‘s War on Terror Became a Global War on Tribal Islan"(New York: Brookings, 2013).

[8] Andrew Mumford, ?Proxy Warfare?(Cambridge: Polity, 2013).

[9] As implicações são que as Forças Policiais podem ser compelidas a desenvolver mais capacidades paramilitares ou, talvez, que as forças militares sejam levadas a executar tarefas de ajuda militar à governabilidade civil com mais frequência e, ainda, a imiscuir-se em tarefas policiais.

[10] Diane E. Davis and Anthony W. Pereira, eds., "Irregular Armed Forces and their Role in Politics and State Formation" (Cambridge University Press, 2003), 149-177; Austin Long, "Going Old School – US Army Special Forces Return to the Villages", Foreign Policy, July 21, 2010, disponível em http://afpak.foreignpolicy.com/posts/2010/07/21/going_old_school_us_army_special_forces_return_to_the_villages ; Charles Tilly, "Teh Politics of Collective Violence"(Cambridge University Press, 2003), p. 19.

[11] D. M. Drew, "US Airpower Theory and the Insurgent Challenge: A Short Journey to Confusion", Journal of Military History, 62 (1998): 809-32.

[12] Kenneth Roth, "What Rules Should Govern US Drone Attacks?" The New York Review, March 25, 2013, p. 16-18.

[13] Os mais bem documentados e mais extensivos exemplos de emprego de terror contra insurgências incluem a aniquilação bolchevique da resistência branca na guerra civil russa e a destruição nazista das atividades da resistência
francesa no centro e no sul da França, durante a Segunda Guerra Mundial.

[14] Richard Hobbs, ?The Myth of Victory: What is Victory in War? ?(Boulder, CO: Westview, 1979).

[15] Até agora, as mudanças na história da humanidade têm sido progressivas, com eventos periódicos e episódicos que causam ruptura, subsequentemente interpretados como "pontos de virada". Para Clausewitz e Jomini, o grande ponto de virada de seu tempo foi a Revolução Francesa. Mas, para muitos historiadores militares, esses momentos foram identificados ou como batalhas decisivas ou como tecnologias de impacto, ou, ainda, como conquistas individuais de determinados comandantes. Esses determinismos são desafiados pela corrente principal da história e da ciência social, mas parecem ter conseguido certa longevidade no meio militar. Veja Jeremy Black, "Rethinking Military History"(Londres: Routledge, 2004).

[16] David Kilcullen, "Out of the Mountains: The Coming Age of the Urban Guerrilla" (Oxford: Oxford UniveristyPress, 2013).

[17] Em um trabalho recente, McKinsey and Company afirmam que as mudanças demográficas e o crescimento de mercados emergentes irão pressionar os recursos globais a um nível sem precedentes. Os preços dos alimentos crescerão em 40 % até 2030 e haverá um déficit de 30% entre a energia disponível e as demandas por petróleo e gás. É provável que haja um déficit em torno de 40% entre o suprimento e as demandas de água. O consumo de carne irá crescer no mundo, aumentando a pressão na busca por terras.

[18] Michael T. Klare, "Resource Wars: The New Landscape of Global Conflict" (New York: Metropolitan Owl, 2001). Os estados mais vulneráveis a conflitos são: Somália, República Democrática do Congo, Sudão e Sudão do Sul. Áreas com risco significativo incluem: Chade, Iemêm, Afeganistão, Haiti, República Centro-Africana, Zimbabwe, Iraque, Costa do Marfim, Paquistão, Guiné, Guiné-Bissau e Nigéria.

[19] Palestra de McKinsey na Universidade de Oxford, 28 de novembro de 2013.

[20] Ibid.


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