quinta-feira, 2 de julho de 2015

[POL] A Ética de um Juiz Nazista



Georg Konrad Morgen foi o primeiro homem a processar comandantes dos campos de concentração nazistas, mas ele não foi um oficial dos tribunais dos crimes de guerra. Ele mesmo era um oficial alemão da SS, e ele processou seus colegas oficiais da SS nos tribunais da SS durante a Segunda Guerra Mundial. Morgen os acusou não de crimes contra a humanidade, mas de crimes comuns de corrupção e assassinato. Enquanto investigava estes crimes, ele chegou na máquina de extermínio em Auschwitz-Birkenau e, surpreso em horror, ele perguntou-se o que fazer a respeito.

Mas, como ele explicou após a guerra, aquela máquina foi colocada em movimento por Hitler, cuja vontade era uma lei no Estado-Führer: extermínio em massa havia se tornado “Tecnicamente legal”. Tudo o que ele pôde fazer, ele disse, foi avançar o processo dos perpetradores por mortes “ilegais” e crimes menores, na esperança de alguma forma atrapalhar o trabalho. Ele até conseguiu um mandato de prisão contra Adolf Eichmann – mas somente por desviar uma bolsa de diamantes.

Morgen foi um juiz no Judiciário da SS, um sistema de tribunais que julgava casos contra membros da Waffen SS nazista, assim como os tribunais militares julgam membros das forças armadas. Em 1941 e na primeira metade de 1942, ele investigou a corrupção financeira por membros da SS na Polônia ocupada. Em julho de 1943, Heinrich Himmler, Reichsführer SS, escolheu Morgen para investigar a corrupção da SS nos campos de concentração. O resultado dessas investigações o levou ao limiar das câmaras de gás.

A primeira missão de Morgen no judiciário da SS em 1941 foi na Cracóvia, a sede da administração alemã na porção da Polônia ocupada não incorporada ao Reich. Logo após chegar lá, Morgen começou a investigar membros do círculo de Himmler, mostrando coragem admirável e talvez também ingenuidade – qualidades que apareceriam constantemente em sua carreira.

Seu suspeito principal na Cracóvia era Hermann Fegelein, que liderava o regimento montado da SS. Fegelein era um dos favoritos de Himmler, e mais tarde ligado a Hitler. Em 1944, ele se casaria com Gretl Braun, irmã de Eva Braun. Um ano antes de despertar a atenção de Morgen, Fegelein foi acusado de roubo de propriedade em caminhões da Polônia para a escola de montaria da família em Munique. Quando uma busca na escola descobriu bens de origem questionável, Fegelein apelou para Himmler, dizendo que a propriedade tinha origem legítima e as acusações eram pura malícia. Himmler escreveu para o Departamento de Segurança do Reich apoiando as alegações de Fegelein e a investigação foi encerrada.

Morgen suspeitava que Fegelein saqueou uma empresa de peles judaica que havia sido confiscada – “arianizada” no jargão nazista. Outro cavaleiro nazista, Albert Fassbender, foi colocado no comando da companhia como seu liquidante. Tanto Fegelein quanto Fassbender tomaram funcionárias da empresa como amantes, que os ajudaram a desviar seus ativos. A amante de Fassbender, Jaroslawa Mirowska, foi colocada idealmente para esta exploração, já que ela anteriormente havia sido a amante do proprietário judeu, que fugiu durante a invasão alemã e a deixou no comando.

Novamente, Himmler veio em defesa de Fegelein. Ele escreveu que sabia e aprovava o plano dos suspeitos para a firma. O plano aparente era transformar a companhia, com suas conexões internacionais, em um ponto de contato para agentes alemães. Himmler disse que foi graças ao trabalho de Fegelein, Fassbender e Mirowska que o valor da companhia foi recuperado – significando, presumivelmente, convertido em um ativo de inteligência.

Com seu sorriso doce e rosto alegre, Mirowska encantou Himmler. De acordo com Morgen, ela foi tratada como “a primeira-dama da SS”, mas o interesse de Morgen nela era puramente jurídico. Em setembro de 1941, ele entregou o caso Fegelein para um novo investigador, desmascarando Mirowska como uma fraude. Ela não era, como alegava, a filha de um pai russo e mãe alemã: ela era polonesa pura. Além disso, Morgen não conseguiu encontrar evidência para apoiar a alegação dela de estar trabalhando para o serviço de segurança alemão. Tomar controle da firma para incorporar sua rede internacional no serviço de inteligência era uma boa ideia, Morgen concordou, mas acrescentou: “Esta ideia tem tanto apelo que não posso deixar de imaginar que o regime polonês já não tenha feito uso da possibilidade.”

Morgen suspeitava que Mirowska era uma espiã da resistência polonesa, uma suspeita que ele apoiou em muitas páginas de evidência circunstancial. Sua conclusão: “Uma mulher tão bonita e encantadora quanto ela é inteligente e inescrupulosa, especialista em línguas, conhecida internacionalmente, uma líder na sociedade e moda – ela seria uma excelente ferramenta de espionagem.”

Nove dias depois, o novo investigador enviou a Himmler um memorando marcado como “urgente”, “secreto” e “em mãos do Reichsführer”. Ele escreveu que Mirowska, a suposta meio-russa, mentiu sobre seu passado e parecia ter “contatos perigosos”. As suspeitas de Morgen eram verídicas: “Um ano depois,” ele lembrou após a guerra, “toda a resistência polonesa foi pega e Frau Mirowska, a primeira-dama da SS, era seu agente principal.” Mirowska vendeu a Himmler a ideia de usar a firma para juntar inteligência, mas ela estava trabalhando como agente dupla para os poloneses.

No final, Himmler a deixou ir. “Uma chamada veio do Reichsführer,” continuou Morgen. “A mensagem era: Sim, Mirowskaja é uma espiã.” Quando ele perguntou onde ela deveria ser julgada, porém, “Himmler disse, ‘Não, não – isto não vai acontecer,’ e ele a retirou das garras da Gestapo.” A intervenção de Himmler a favor de uma espiã conhecida indica o risco que Morgen assumiu ao acusá-la. Como ele escreveria para sua noiva, era seu “destino” perseguir suas investigações até “as mais altas esferas” do poder. Para seu desespero, Morgen foi removido do judiciário e enviado como soldado na frente oriental, onde os soviéticos mal haviam começado seu contrataque em Stalingrado.

Entretanto, no começo de 1943, o próprio Himmler chamou Morgen para continuar suas investigações sobre a corrupção na SS, desta vez nos campos de concentração. A preocupação crescente de Himmler sobre a corrupção pode ser vista em seu discurso infame de Posen a oficiais da SS em 4 de outubro de 1943. Falando das vítimas das câmaras de gás, Himmler lembrou os oficiais que sua propriedade deve ser “entregue ao Reich sem reservas”:

“Quem quer que seja que tome alguma coisa para si, é um homem morto. Um certo número de homens da SS – não há muitos deles – caíram na tentação, e eles morrerão, sem piedade. Tínhamos o direito moral, tínhamos o dever para com nosso povo, de destruir estas pessoas que queriam nos destruir. Mas não temos o direito de nos enriquecer com peles, relógios, marcas, um cigarro ou qualquer outra coisa.”

O trabalho de Morgen envolvendo corrupção na Cracóvia em 1941-1942 foi frustrado por Himmler, mas ele agora recomendava-o para o trabalho de investigar crimes semelhantes nos campos de concentração. Assim, ele foi readmitido no judiciário da SS.

Morgen então gastou a última metade de 1943 em casos de corrupção em Buchenwald, Dachau e outros campos, incluindo Cracóvia-Plaszow, o campo que se tornou famoso graças ao filme “A Lista de Schindler” (1993). Em uma cena do filme, os trabalhadores estão descarregando provisões solicitadas para 10.000 prisioneiros – prisioneiros não-existentes inventados pelo comandante, Amon Göth, de modo que ele poderia solicitar provisões extras para vender no mercado negro. O narrador do filme lembra que Göth está sendo auditado pela SS. De fato, os investigadores estavam trabalhando para Morgen.

Morgen não restringiu suas investigações na corrupção. Ele descobriu que os prisioneiros de Buchenwald estavam desaparecendo – especialmente aqueles que haviam presenciado corrupção – e concluiu que eles foram assassinados. Indo além de sua missão, ele acrescentou a acusação de assassinato contra o comandante de Buchenwald, Karl Otto Koch.

Mas então Morgen descobriu mortes em uma escala ainda maior. Ele narrou sua descoberta 20 anos depois, em 1964, para um tribunal em Frankfurt, onde, de 1963 a 1965, os perpetradores de Auschwitz foram julgados por crimes de guerra. Morgen era uma testemunha chave no julgamento, tendo visto tudo o que havia de ser visto em Auschwitz e seu campo irmão de Birkenau – porém, com o olhar de um promotor:

Minhas investigações no campo de concentração de Auschwitz foram motivadas por um pequeno pacote no correio militar. Era de alguma forma pequeno, mais comprido do que largo, uma caixa comum, que recebeu atenção do serviço postal mais por causa de seu enorme peso, e os investigadores aduaneiros a confiscaram por causa de seu conteúdo. Ela continha três pedaços de ouro. Eram de ouro de alto quilate de uso dental que foram grosseiramente fundidos juntos. Um deles era grande, talvez do tamanho de dois punhos; o segundo era consideravelmente menor e o terceiro insignificante. Mas, em qualquer caso, era uma questão de quilos... Eu sabia que auxiliares de dentista dos campos de concentração eram solicitados a coletar ouro que acumulava da queima dos corpos e enviá-lo ao Reichsbank. E um dente de ouro tem somente poucos gramas; 1.000 gramas, ou vários milhares de gramas, assim representavam a morte de muitos milhares de pessoas. Mas nem todo mundo tinha próteses de ouro naqueles tempos de pobreza, somente uma fração. E, dependendo da estimativa de 1 para 20 ou 50 ou 100 que tivessem ouro em suas bocas, isto significava que este pacote confiscado representava cerca de 20, 50 ou 100.000 corpos. Um pensamento chocante.

Uma causa natural de morte não funcionava: estas pessoas devem ter sido assassinadas.

Poderia ter lidado com o caso deste ouro confiscado de maneira muito fácil. Os pedaços de evidência eram conclusivos. Poderia ter feito o perpetrador ter sido preso e acusado, e o assunto ter sido encerrado. Mas, dado as reflexões que eu rapidamente delineei para os senhores, eu absolutamente tinha que ver com meus próprios olhos. Assim, fui tão rápido quanto pude para Auschwitz, no sentido de conduzir minhas investigações no local.

Relatei ao comandante, Standartenführer Höss, um homem atarracado, taciturno e monossilábico com uma face pedregosa. Eu já o havia notificado por telégrafo de minha chegada e deixá-lo saber que tinha perguntas a fazer. Ele disse algo no sentido de que eles haviam sido encarregados de uma tarefa extremamente difícil, e nem todos tinham coragem para isso. Ele então perguntou secamente como eu queria começar. Disse-lhe que eu deveria primeiro fazer um tour pelo campo inteiro… Ele olhou rapidamente para o registro de service, fez uma chamada e um Hauptsturmführer apareceu. E dirigiu este homem para me conduzir dentro do complexo e mostrar-me tudo o que eu quisesse ver. Iniciei com o começo do fim, nomeadamente, a rampa em Birkenau.

A rampa parecia com qualquer outra rampa num terminal de carga. Não havia nada de especial para descobrir lá, nenhuma precaução especial a ser tomada. Logo, perguntei ao meu guia como funcionava. Ele me explicou que o campo era avisado pela estação de um transporte, geralmente de judeus, pouco antes da chegada, antes de chegar em Auschwitz. Então, uma unidade militar era convocada e eles isolavam as faixas dos trilhos e da rampa. Então as portas dos vagões eram abertas e os recém-chegados tinham que desembarcar e desembarcar suas malas.

Aqueles que eram qualificados para o trabalho marchavam a pé para o campo de Auschwitz, onde funcionários os registravam, divididos em grupos. Ou outros tinham que ficar sentados em um caminhão e iam, sem seus nomes serem registrados, direto para Birkenau e direto para as câmaras de gás. Meu guia me disse, com humor negro, que se não houvesse tempo, ou nenhum médico estivesse presente, ou houvesse muitos recém-chegados, eles ocasionalmente encurtavam o procedimento dizendo aos recém-chegados em termos educados que o campo estava longe a muitos quilômetros e, quem quer que se sentisse doente ou fraco ou desconfortável caminhar poderia fazer uso das instalações de transporte que o campo fornecia. Então havia um estampido para os veículos. E somente aqueles que não se juntaram poderiam marchar para o campo, enquanto os outros involuntariamente optaram pela morte.

[Pausa]

Da rampa, seguimos o caminho dos transportes da morte para o campo de Birkenau, que se localizava uns poucos quilômetros longe. Exteriormente, novamente não havia nada de importante para ver: uma grande cerca de arame farpado, um pouco deformada, com um guarda. Atrás, havia o campo chamado “Canadá”, onde os objetos pessoais das vítimas eram analisados, colocados em ordem, reciclados. Você podia ver uma pilha de malas abertas dos transportes anteriores, itens de lingerie, pastas, mas também equipamento completo de dentista, equipamentos de sapateiro, sacos médicos. Obviamente, os retirantes realmente tinham a impressão, como lhes era contado, de que eles estavam sendo reassentados no Leste e encontrariam uma nova vida lá, e portanto tinham trazido tudo o que precisavam. [Pausa] E atrás havia os crematórios. Eles eram térreos, edifícios triangulares que poderiam muito bem ter sido pequenas oficinas ou galpões de trabalho ... Na parte de trás do pátio havia um grande portão que dava para os chamados vestiários, como os vestiários de uma academia. Havia bancos simples de madeira com prateleiras de roupas, e cada ponto era claramente numerado e tinha uma etiqueta de armário. E as vítimas eram instruídas a anotar o número de seu armário e manter o número de seu armário - tudo de modo a não deixar que eles tivessem a menor suspeita até literalmente o último segundo, e conduzir o condenado à armadilha sem uma indicação.

Na parede havia uma grande seta apontando para um corredor, e nele as palavras concisas “Para os banheiros” repetida em seis ou sete línguas. Eles eram avisados: dispam-se e vocês tomaram um banho e serão desinfetados. E neste corredor havia várias câmaras sem mobília – frias, nuas, um piso de cimento. O que era visível e a princípio inexplicável era que havia um grande duto no meio, alcançando as celas. A princípio, não tinha explicação para ele, até que fui informado que gás – Zyklon B na forma cristalina – era lançado nesta câmara da morte através de uma abertura na cela, Até aquele momento, o prisioneiro estava ignorante, e então, é claro, era tarde demais. Compreensivelmente, não pude dormir aquela noite. Já tinha visto algumas coisas nos campos de concentração, mas nunca nada como aquilo. E considerei o que poderia ser feito a respeito disso.

  
Morgen relatou o que ele tinha encontrado para vários de seus superiores, incluindo o chefe da Gestapo, Heinrich Müller:

O Obergruppenführer Müller ficou surpreso ao ouvir sobre as execuções ilegais nos campos de concentração, principalmente sobre os atos cometidos nos campos de concentração contra a lei, e ele também ficou surpreso com a vasta extensão do crime, mas ele não ficou surpreso que havia um extermínio de judeus, que havia tratamento desumano que tinha sido ordenado e, ele me disse ironicamente, “Por que você não me prende?”

Morgen havia alcançado os limites de seus poderes jurídicos. Assim, ele fez a única coisa que ele poderia pensar, ao levar alguns dos perpetradores a julgamento em outras acusações. Ele descobriu que Maximiliam Grabner, chefe da Gestapo em Auschwitz, rotineiramente matava prisioneiros nas celas do campo quando elas se tornavam superlotadas. É claro, Morgen percebeu que estes assassinatos eram pouca coisa comparado ao crime horroroso que ele havia descoberto, mas este crime foi ordenado por Hitler, e processar matanças “ilegais” como as de Grabner era tudo o que ele podia fazer para interferir.

Os julgamentos de Koch e Grabner aconteceram no outono de 1944. Superiores hostis enviaram vários oficiais da SS para observar. Eles se reuniram após horas com membros da corte e denunciaram Morgen como um autopromotor, um mentiroso e um inimigo da SS. Morgen sentiu-se ele próprio em julgamento. Ele foi avisado ser um “homem morto”; um mandato de prisão para ele foi informado estar pronto ao final do julgamento. Em uma carta dramática para sua noiva, ele escreveu: “Indefeso, permaneço sozinho na tempestade como objeto do tribunal. [...] É triste e inútil ser um promotor do Estado contra instituições do Estado.”

O comandante de Buchenwald Koch foi condenado, mas somente na acusação de corrupção, apesar de ter sido de fato executado em 1945, pouco antes do fim da guerra. O julgamento do chefe da Gestapo em Auschwitz entrou em recesso até a primavera e jamais foi concluído. A punição de Grabner teve que esperar até 1948, quando ele foi executado por um tribunal de crimes de guerra na Polônia.

Após a guerra, Morgen foi colocado sob custódia e interrogado extensamente pelo Corpo de Contrainteligência Americano (CIC). Ele testemunhou em numerosos julgamentos de crimes de Guerra – primeiro no julgamento de Nuremberg dos principais criminosos de Guerra realizado pelas forces aliadas em 1945-46, então em vários julgamentos menores no período do pós-guerra e, finalmente, após estabelecer-se como advogado em Frankfurt, na última onda de julgamentos que começaram nos anos 1960. Ele deu seu último testemunho em 1980, dois anos antes de sua morte.

Morgen uma vez descreveu-se como um fanático por justiça. Esta autodescrição é verdadeira de certo modo, mas este modo não é tão claro nem favorável como ele pensava. Morgen era, de fato, fanático em relação à justiça como ele a concebia, mas sua concepção de justiça nem sempre foi adequada para a sistemática desumanidade que o cercava. Como especialista em crimes de corrupção, ele tendia a focar na mente corrupta dos criminosos ou sua influência corrupta em sua organização, a SS. Apesar de chocado com a desumanidade, ele também ficou chocado pela impropriedade, assim como pelo efeito deletério tanto do Estado quanto de seus funcionários.

Assim, quando Morgen relatou o extermínio em massa aos seus superiores, seu “argumento mais enfático e crucial,” ele diz, “foi que membros da SS que participaram no gaseamento eram portanto tão corrompidos que eles provariam no futuro não ser mais úteis como soldados normais ou mesmo como cidadãos, e além disso a liderança do estado estava destruindo sua própria fundamentação moral com estes crimes monstruosos.”



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O Sistema Judicial do Partido Nazista

terça-feira, 30 de junho de 2015

[POL] A Noite das Longas Facas

Elizabeth Wiskemann

History Today, Vol. 14, Nº 6, junho 1964



Em 30 de janeiro de 1933, Franz Von Papen e o general Von Blomberg convenceram o presidente Hindenburg a aceitar Adolf Hitler como Chanceler, com Papen como seu vice, mas com somente dois colegas nazistas.

Os líderes do Reichswehr estavam divididos, mas eles e Papen e seus outros amigos do Herrenklub acreditavam que poderiam manobrar os líderes nazistas enquanto faturavam em cima de seu apoio popular: alguns deles esperavam em breve restaurar a monarquia.

Hitler, porém, não pretendia ser usado, mas usá-los, como ele manipulou o incêndio do Reichstag um mês mais tarde, e qualquer outra oportunidade, para ficar com o poder para si. Ele pretendia assumir o comando para voltar seiscentos anos atrás, como ele disse no Mein Kampf, e restaurar a colonização alemã da Europa Oriental.

Ele estava preocupado em preparar tal ação e, consequentemente, para a guerra. Isto, e eliminar os judeus, eram seus principais interesses. Ele não tinha nenhuma simpatia pelo socialismo, exceto quando os capitalistas eram judeus, apesar de ter feito uso hábil uso do sentimento popular socialista quando ele se dirigia às grandes massas. Após um ano como Chanceler, ele deu grandes passos para atingir o poder absoluto.

Ele suprimiu toda crítica aberta e todos os outros partidos, exceto o nazista; todo aparato policial estava sob seu comando, inicialmente através da indicação de Göring como ministro prussiano do interior, e depois por meio da acumulação do controle policial e de outras forças paramilitares (Länder) nas mãos de Heinrich Himmler, o Reichsführer da SS.

Havia, contudo, certos empecilhos na situação como Hitler a encarava. O julgamento em Leipzig de Marinus van der Lubbe e dos búlgaros pelo incêndio do Reichstag mostrou que o sistema judiciário ainda não estava totalmente nazificado; Göring fez estardalhaço à toa na Corte para que os búlgaros fossem condenados. Além disso, tanto a Igreja Protestante quanto a Católica não estavam totalmente submissas.

Ademais, após a absorção de corpos como os “Capacetes de Aço” (Stahlhelm), havia agora mais de 4 milhões de tropas paramilitares cujos líderes exigiam a conflagração da tão sonhada revolução social e do Estado SA (Sturmabteilungen, ou tropa de assalto). Isto, Hitler estava determinado a prevenir a qualquer custo. Para as tropas de assalto, a revolução social deveria incluir a absorção do Reichswehr e a dominação do Estado por esta massa armada permanente.
   
Isto envolveria atrasos e riscos que Hitler não pretendia enfrentar; ele desejava recrutar o expertise do Reichswehr para remilitarizar a Alemanha e tornar a guerra o mais rápido possível; quando isto estivesse feito, seria hora de encerrar sua dependência invisível, porém necessária, da Reichswehr e humilhar e degradar seus líderes como ele fez em 1938.

Vindo da “Divisão de Defesa” (Wehrverbände) que ele controlava, Ernst Rohm forneceu originalmente a Hitler a S.A. em cuja intimidação da mente popular Hitler havia baseado seu poder. Agora, se Rohm seguia seu próprio caminho, ele, o Chefe de Estafe da S.A., dominaria o novo exército e, através do Exército, o Estado.

Rohm esperava suceder Blomberg como Ministro da Defesa Nacional, mas Hitler temia, de maneira correta, que, se os planos de Rohm fossem colocados em prática, a S.A. colocaria na sombra o Partido Nacional Socialista e o Chefe de Estafe da S.A. eclipsaria o Führer do partido. Rohm não compreendia o quão perigoso era ser alguém no qual Hitler uma vez havia dependido e que poderia depender novamente se ele, Rohm, fosse bem sucedido.
Esta criatura áspera e viciosa era menos servil a Hitler do que os outros líderes nazistas; de fato, ele tentou honestamente converter Hitler ao seu próprio credo e, falhando, não abandonou sua agenda, mas buscou abertamente outros aliados.

Ele não aprovava o clamor de Hitler pela tirania total, condenando por exemplo a destruição dos sindicatos; pela mesma razão, ele se aproximou de Gregor Strasser – afastado de Hitler porque ele não havia rejeitado os avanços de Schleicher – e manteve contato com ele.

Várias vezes Rohm entreteve o embaixador italiano naquele inverno, e viu o francês no final de fevereiro: ele não hesitou em explicar a François-Poncet que a S.A. não constituía nenhuma violação do Tratado de Versalhes.

Durante aquele mês, contudo, Hitler e Blomberg raramente poderiam ser vistos – apesar de que como muitas outras coisas, estava longe de estar claro para as pessoas na época – conseguindo uma barganha. Em 2 de fevereiro, o Reichswehr excluiu seus oficiais judeus utilizando os mesmos expedientes adotados pelo Serviço Público, e a suástica tornou-se parte de sua insígnia. Em 28 de fevereiro, veio a resposta de Hitler.

Em um encontro no Departamento de Guerra, na Bendlerstrasse em Berlim, entre os líderes do Reichswehr e da S.A., ele declarou que o novo exército popular deveria ser baseado no Reichswehr, que no futuro deveria supervisionar todas as atividades da S.A.; o Reichswehr teria, então, o monopólio de portar armas na Alemanha. Blomberg e o maior admirador de Hitler entre os generais, Reichenau, podem muito bem ter acordado antes da sucessão de Hitler a Hindenburg.

Não há realmente evidência autêntica; mas após 28 de fevereiro, Rohm foi supostamente ouvido dizer por testemunhas que Hitler era um asno, e que a S.A. ignoraria sua decisão. Uma das testemunhas era Viktor Lutze, um líder da S.A. que odiava Rohm; Hitler, entretanto, disse a Lutze que as coisas deveriam se acalmar. Assim, em 5 de junho, Hitler teve uma longa conversa com Rohm que o deixou “satisfeito” – Hitler assim o viu.

O desgosto evidente de Hitler pelo programa da S.A., que foi chamado por seus oponentes de revolução permanente, encorajou alguns dos mais conservadores escrupulosos a preparar um protesto contra os métodos da S.A. que Hitler também havia condenado.

Hindenburg estava agora em seu octogésimo sétimo aniversário e no início de maio ele ficou doente, partindo para Neudeck em 4 de junho, no caso de uma última vez. Sua morte era esperada a qualquer momento, e isto forneceria a oportunidade para a restauração monárquica; um dos netos do Kaiser era visto como possível sucessor.

Junto com a monarquia, a supressão do terrorismo, um judiciário independente e certamente uma liberdade de expressão tal como existia antes de 1914 poderiam ser assegurados.

Muitos jovens, assim como a geração mais velha, condenaram o liberalismo do período Weimar, mas sem nenhuma intenção de abandonar o Estado de Direito (Rechsstaaf), e muita opinião educada em relação ao lado “nacional” das coisas foi genuinamente constrangida pelo terrorismo da S.A. – a SS, sendo até o momento uma subsidiária da S.A., não atraíra muita atenção.

Vários representantes destes conservadores sensatos – alguns dos quais sobreviveram em 1934, mas foram executados após o atentado contra Hitler em julho de 1944 – trabalharam na vice-chancelaria de Papen, notavelmente um jovem escritor protestante chamado Edgar Jung e um católico, Herbert Von Bose. Jung certamente tinha inteligência e eloquência. Ele esboçou um discurso, que Papen então proferiu na Universidade de Marburg no domingo, em 17 de junho.

O discurso foi interrompido com a necessária ovação a Hitler; mas ele francamente deplorava a condição sufocada da imprensa alemã, a qual, ele manteve, deveria existir para informar e criticar.

“O Estadista ou político,” continuou Papen, “pode reformar o Estado, mas não a vida... O Estado pode favorecer uma interpretação da história, mas não pode sujeitá-la, já que a história depende de pesquisa precisa que não pode ser desprezada... Estamos ameaçados por permanente revolução...

Assim, me parece que o Estado alemão deveria logo ser governado por um chefe de estado que está acima da batalha política... A ditadura de um único partido... parece-me uma condição transitória somente justificável tanto quanto o novo regime exigir e até que novos compromissos estejam em operação.”

Papen continuou com o lamento pela retirada da Alemanha da comunidade dos outros países cristãos da Europa.

“Não devemos nos fechar intelectualmente dentro de nossas fronteiras e nos aposentar em nosso próprio gueto... Inteligência inferior ou primitiva não justifica uma batalha contra o intelectualismo. E se resmungamos contra os nacionais socialistas radicais, estamos pensando naqueles que, sem raízes próprias, desejam privar os intelectuais do mundo conhecido dos meios de existência porque os intelectuais não são membros do partido... E não deixe ninguém discordar que intelectuais são desprovidos de vitalidade... para confundir vitalidade com brutalidade é curvar-se à força de uma maneira perigosa...”

É impossível estar certo se Papen compreendeu o discurso que Jung redigiu para ele; mas ele o leu completamente. Aqueles presentes mal podiam acreditar em seus ouvidos. A edição seguinte do Frankfurter Zeitung publicou o texto; mas após isso, Goebbels tratou de suprimi-lo completamente na Alemanha.

A imprensa do jornal católico Germania imprimiu o texto e distribuiu algumas cópias; e o discurso foi espalhado através de rumores com a ajuda no sul de um bom resumo que apareceu no Neue Freie Presse de Viena em 19 de junho. Quando, em 24 de junho, Papen apareceu em Hamburgo para um encontro sobre raça, pessoas de todos os lugares e o saudaram com um Heil Marburg!

Jung e Bose deviam estar esperando que esta situação encorajasse opinião moderada no Reichswehr – ainda a mais poderosa instituição na Alemanha – para decidir-se em favor da restauração da monarquia. Um punhado de homens resolutos e implacáveis, contudo, estavam preparando um caminho diferente, e o discurso em Marburg e as notícias de Neudeck mostraram-lhes que eles não tinham mais tempo a perder.

O melhor aliado nesta conjuntura era o próprio Papen. Jung e Bose induziram-no a fazer o discurso em Marburg; mas eles não puderam persuadi-lo a viver de acordo com ele. Quando ele foi a Hitler para protestar contra sua supressão e demitir-se da posição de vice-chanceler, Hitler foi capaz de mudar sua cabeça. O Führer tinha, de fato, acabado de voltar de seu primeiro encontro com Mussolini em Veneza em 15 e 15 de junho, um encontro que Papen ajudou a acontecer.

Hitler, que deveria reportar-se ao presidente sobre sua visita à Itália em Neudeck em 21 de junho, sugeriu primeiramente que Papen deveria ir com ele. Ao ler as memórias de Papen, ficamos surpreendidos no modo no qual ele permitiu a Hitler jogar areia em seus olhos. Pelo fato do Führer em visitar Hindenburg sozinho e Papen ter-se permitido permanecer afastado.

Em 21 de junho, Hitler não tinha dúvidas que Hindenburg estava acabado – ele ostentou uma vez antes que, sendo quarenta anos mais novo, ele poderia dar-se ao luxo de esperar – e poderia ser isolado de outros “reacionários”; a partir de agora, Papen era informado que Hindenburg estava muito doente para vê-lo, apesar dele estar bem o suficiente para aprovar o que Hitler fazia.

Agora, desde que foi decretado por Hitler com a aprovação de Rohm que a S.A. deveria ser entrar em um mês de férias a partir do domingo, 1º de julho, as últimas medidas para organizar e justificar a destruição de seus líderes deve ser tomada.

Parece claro que virtualmente toda evidência direta em relação aos dias que conduzem a 30 de junho foi sistematicamente destruída; isto por si só tende a lançar suspeita sobre aqueles que estavam no topo. Por outro lado, há somente indicações deste ponto na mesma direção.

Em abril de 1934 o chefe da Polícia Secreta do Estado da Prússia (Gestapo), Diels, sob o comando de Göring, foi substituído por Himmler; assim, o controle deste último sobre toda maquinaria da polícia foi completa: seu mão direita era Reinhard Heydrich, o chefe do S.D. (Sicherheitsdienst ou serviço de segurança do NSDAP), que sucedeu Göring como chefe da Gestapo em Berlim.

Todos os relatórios enviados a Hitler e ao Reichswehr seriam avaliados, portanto, por Himmler e Heydrich, e todas as atividades de Rohm eram retratadas como perigosas. Mais surpreendente foi o comportamento do general Von Reichenau, chefe do Wehrmachtsamt e a força propulsora por trás do Ministério da Guerra.

Por que era necessário a Reichenau ter uma série de encontros com o novo chefe da Polícia Secreta e pelo menos um com Lutze? De onde os boatos de que a S.A. planejava um golpe vieram? Muitos membros da força podem ter dito coisas precipitadas, entre eles o próprio Ernst Rohm. Mesmo assim, nenhuma evidência de quaisquer preparações sérias jamais foi encontrada, apesar de ser útil a Hitler e a Himmler fornecê-la. Em 27 ou 28 de junho, Sepp Dietrich, chefe da guarda pessoal de Hitler, pediu ao Reichswehr ajuda para fornecer armas para uma tarefa secreta e importante de Hitler, e produziu simultaneamente uma lista supostamente compilada pela S.A. de pessoas que seriam provavelmente executadas pelos membros da força; no topo da lista estavam os nomes dos generais Fritsch e Beck, para os quais Sepp Dietrich estava respondendo.

Logo após isso, o chefe da S.A. na Silésia, Heines, foi capaz de convencer o comandante do Reichswehr da área, general Von Kleist, que ele, Heines, não sabia de nenhum plano de golpe, mas tinha informação de que o Reichswehr estava planejando uma ação contra a S.A. Kleist, portanto, voou para Berlim em 29 de junho para relatar a Fritsch e Beck, significando, quando ele o fez, o que era praticamente certo, que uma terceira parte – a SS, de fato – estava jogando o Reichwehr e a S.A. um contra o outro. Reichenau foi chamado.

Três dias antes ele teria dito que era o momento; mas em 29 de junho, ele lembrou que o que Kleist tinha dito estava tudo bem, mas agora era tarde demais. Naquela noite, Hitler, já a caminho, partiu para a ação. Caracteristicamente, após o que pareceu aos outros como um período de incerteza, mas na realidade uma de gestação, ele repentinamente compreendeu o massacre de todos aqueles que lhes pareciam obstrutivos ou irritantes.

No sentido de desviar a atenção, Hitler fez algumas visitas na Renânia em 28 de junho. O plano para combater o desemprego (Arbeitsbeschaffung) ainda não dera seus primeiros passos e, quando Hitler viu Krupp em Essen naquele dia, o último enfatizou a necessidade da ditadura econômica para evitar o caos – este foi sem dúvida um encorajamento bem vindo.

Na mesma noite, Hitler havia, de fato, telefonado para Rohm; e eles concordaram que uma reunião dos líderes da S.A., para a qual Hitler iria, seria realizada em Wiessee, próximo de Munique, onde Rohm estava de férias desde 7 de junho.

Rohm parecia contente com este acordo, que concentraria seus comandados em um local bem remoto à mercê de Hitler. Após semanas das injúrias de Goebbels contra os “censuradores e críticos” e o fluxo fresco de boatos desde o discurso de Papen em Margburg, e então no último dia ou próximo a ele a respeito das preparações do Reichswehr, um punhado de líderes da S.A. organizaram marchas e discursos em Munique por sua própria conta, ou mais provavelmente em resposta a ordens falsificadas por Heydrich.

Hitler chegou em Munique por avião às 4 horas da manhã de 30 de junho; e, enquanto ele rodava a cidade, sua raiva foi alimentada pela visão de alguns grupos remanescentes da S.A. na rua, que foram citados como representando a intenção da rebelião das Tropas de Assalto.

Cruzando com um par de oficiais da S.A. que vieram encontrá-lo, Hitler, com seu habitual charme barato, lembrou a dois oficiais da Reichswehr que este era o seu dia mais negro na vida, e que somente a lealdade de seu chefe, o general Von Blomberg, o sustentava naquela crise. Ele imediatamente prendeu e humilhou dois líderes proeminentes da S.A., Schneid-Huber e Schmid – isto aconteceu no Ministério do Interior da Baviera.

Hitler, então, rapidamente se dirigiu a Wiessee, onde Sepp Dietrich e seus homens haviam chegado com a ajuda do transporte do Reichswehr e se reuniram a membros da SS do campo de concentração de Dachau próximo. Às 6:45 da manhã, Rohm e aqueles que o acompanhavam foram retirados de suas camas e levados à prisão de Stadelheim nos arredores de Munique: aqui, muitos líderes da S.A., presos quando chegaram à estação de Munique para a conferência de Wiessee, se juntaram a eles.

No final da manhã, Hitler pronunciou um discurso furioso na Casa Marrom contra os vícios perigosos de Rohm e seus associados; nunca houve segredo sobre a homossexualidade de Rohm, mas de repente ela se tornou um crime. Havia aqueles que, nas próximas semanas, refletiram que, na SS triunfante, os homossexuais não eram de forma alguma desconhecidos. Após sua preleção, Hitler voou para Berlim.

Aqui, às 10 horas da manhã, Goebbels é conhecido por ter dado o “sinal” para Göring ir adiante. Uma reconciliação vazia entre Goebbels e Papen foi armada para o benefício dos jornalistas estrangeiros em 21 de junho; mas em 26 de junho, Edgard Jung, como eles iriam descobrir rapidamente, foi preso pela Gestapo.

Na manhã de 30 de junho, Papen foi proibido de deixar sua casa, enquanto que seu escritório foi vasculhado. Lá, Bose e três outros em seu estafe foram presos; e Bose e Jung foram fuzilados no mesmo dia. Entre outros assassinatos em Berlim estavam os de Gregor Strasser, de Klausener, uma figura de liderança da Ação Católica e um alto funcionário do Ministério dos Transportes, que foi morto em seu escritório, e do general Kurt Von Bredow, um amigo de Schleicher.

Vários dias na quinzena anterior, como uma testemunha mais tarde informou, um carro marrom-avermelhado conduziu seis homens, provavelmente com idades entre 25 e 30 anos, para a Pensão Lippmann, uma casa próxima da de Schleicher em Neubabelsberg, próximo a Postdam.

Ao meio-dia e meia de 30 de junho, o carro apareceu novamente; e dois de seus ocupantes – eles jamais foram identificados – abriram caminho pelo cozinheiro, que involuntariamente abriu a porta, em direção da sala onde Schleicher estava sentado numa cadeira, lendo: eles o executaram lá. Sua esposa estava repousando em uma sala adjacente, mas evidentemente tentou alcançá-lo e também foi executada. O carro marrom-avermelhado fugiu rapidamente.

A governanta dos Schleicher, Ottilie, deve então ter telefonado para alguns primos em Postdam, que enviaram a polícia. A Sra. Schleicher ainda estava viva quando a polícia chegou, e foi levada ao hospital, onde morreu. Um funcionário da justiça, o Dr. Grützner, chegou às 13:50 e examinou algumas testemunhas, incluindo o cozinheiro dos Schleicher. Indiscretamente, Grützner telefonou a um superior às 15:00 que o general Von Schleicher foi assassinado por motivos políticos.

Após isto, Himmler bloqueou quaisquer passos legais adicionais, reclamando que um advogado novamente havia interferido com a SS. Às 23:30, uma equipe da Gestapo, liderada por Freissler e Dohnanvi, visitou Grützner e obteve dele segredo.

Seis dos líderes da S.A. na prisão de Stadelheim foram executados na manhã de 30 de junho. Um número de outras pessoas foram mortas em Munique nos dias seguintes, a maioria por um grupo de membros da Legião Austríaca, liderada por um homem do S.D.; eles pareciam ter recebido ordens precisas da Gestapo em Berlim, isto é, de Heydrich.

Algumas das vítimas foram mortas em Dachau, ou no caminho até lá; e algumas, por nenhuma razão aparente, foram levadas a Berlim e fuziladas na escola de Cadetes no subúrbio de Lichterfelde, onde os executores de Göring estavam trabalhando.

Gustav Von Kahr, que, na visão de Hitler, o traiu em novembro de 1923, ouviu os rumores do fuzilamento dos primeiros seis líderes da S.A. e expressou satisfação, como muitos outros, já que a ordem havia sido restaurada. Entretanto, quase ao mesmo tempo, ele próprio foi preso e levado a Dachau, onde dois membros da SS se aproximaram dele e o lembraram de sua “traição” e o mataram.

Não foi até as 18:00 do domingo, 1º de julho, que Rohm, tendo recusado a se suicidar, teve a distinção de ser fuzilado em sua cela pelos dois chefes de Dachau, Lippert e Eicke, com Eicke lembrando “Camaradas importantes que arriscam suas cabeças têm que ser executados por camaradas importantes.”

Após alguns assassinatos na Silésia, que não foram autorizados por Hitler, o Führer declarou o fim da operação no início da manhã de segunda-feira, 2 de julho de 1934. Agora era possível rastrear os nomes das 83 pessoas mortas durante o final de semana, um número curiosamente próximo das 74 vítimas admitidas por Hitler diante do Reichstag em 13 de julho.

Na época, aqueles que não foram afetados, notaram com interesse que Goebbels ainda estava vivo; ele tinha sido, após tudo, um dos maiores detratores dos reacionários do reichswehr. Olhando para trás, é fácil ver por que Goebbels não estava em perigo. Ele havia subido ao poder às expensas de Gregor Strasser e não tinha boa relação com Rohm.

Mais tarde, ele tornou-se indispensável a Hitler e, embora não sem o espírito, estava pronto para toda bajulação do Führer. Talvez, também, ele melhor do que ninguém entendeu que a concentração de poder que estava acontecendo e estava satisfeito em se identificar com ela.

Na terça, 3 de julho, a edição setentrional do Völkischer Beobachter publicou uma declaração, escrita por Reichenau, de acordo com a qual Rohm e Schleicher conspiraram juntos e com um Estado estrangeiro, e Schleicher foi morto porque havia resistido à prisão.

É claro que o ódio eterno de Hitler estava direcionado contra Schleicher, que havia concebido a ideia de cooperação entre o Reichswehr, os sindicatos e os nazistas moderados liderados por Gregor Strasser, uma ideia que ele, Schleicher, foi incapaz de realizar. Desde que Hitler o sucedeu como Chanceler, Schleicher foi altamente indiscreto, enquanto que sua reputação para a intriga tinha, de qualquer forma, encorajado a Gestapo a ficar de olho nele.

Mas eles não tinham nenhuma evidência de qualquer tipo de cooperação entre Schleicher e Rohm; de fato, eles estavam provavelmente cientes de que Rohm condenava as atividades “reacionárias” de Schleicher. Apesar de ambos terem visitado o embaixador francês, não havia nada a respeito de seus encontros que pudesse ser classificado como “conspiração”. Quanto ao assassinato de Schleicher, vimos que ele foi deliberado.

Assim, ao escrever o anúncio no Völkischer Beobachter, Reichenau tornou a si mesmo e ao Reichswehr responsáveis, não somente pelo fornecimento das armas, barracas e transporte para os assassinos de 30 de junho, mas também por falsificar a justificação para seus crimes. Reichenau pensava que isso valia a pena no sentido de ter o monopólio militar para o Reichswehr, como Hitler havia antecipado em 28 de fevereiro.

Na mesma terça-feira, 3 de julho, cerca de duzentos homens que conduziram os assassinatos foram homenageados na presença de Himmler em Berlim, agradecidos por seus serviços, presenteados com adagas gravadas com o nome de Himmler e com juramento de segredo (sob a pena de morte) mesmo entre eles; aqueles que pertenciam ao SD foram promovidos. Himmler tinha todos os motivos para celebrar a ocasião.

“A Noite das Longas Facas” garantiu o controle complete da SS sobre todos os órgãos policiais na Alemanha; a rivalidade da S.A. foi eliminada; quanto a Lutze, que sucedeu Rohm, estava preparado para pegar um lugar secundário e obedecer Himmler. A SS agora estabeleceu seu próprio Estado dentro do Estado. Além disso, apesar de sua promessa ao Reichswehr, Hitler permitiu a formação de uma divisão armada da SS obediente a Himmler, não a Blomberg: este foi o início da Waffen SS.

O mais significativo de tudo, talvez, tenha sido o decreto publicado no mesmo dia por Hitler e seus ministros, de acordo com o qual “as medidas tomadas para suprimir os atos traiçoeiros e sediciosos em 30 de junho e 1º e 2 de julho de 1934, tornam-se leis para a defesa do Estado em uma emergência.”

Quando Hindenburg morreu em 2 de agosto, o Führer automaticamente tornou-se presidente do Reich, assim como seu Chanceler, e cada membro do Reichswehr fez um juramento de lealdade pessoal a ele. Além do assassinato de dois generais, ato impensável na Alemanha, Hitler quebrou sua promessa de que o Exército manteria o monopólio militar.

As tropas de assalto foram as ferramentas que ele precisava para chegar ao poder. Em 1934, ele usou a destruição de seu poder para enganar e domesticar o Reichswehr, enquanto ao mesmo tempo a SS tomava todo controle político, fornecendo os meios para a tirania total de Hitler.



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sábado, 6 de junho de 2015

[POL] O Incêndio do Reichstag: A História de uma Lenda

A.J.P. Taylor

History Today, Vol. 10, Nº 8, agosto 1960


Na noite de 27 de fevereiro de 1933, o prédio do Reichstag em Berlim foi incendiado e consumido pelas chamas. Isto foi um golpe de sorte para os nazistas. Apesar de Hitler ter sido apontado Chanceler pelo presidente Hindenburg em 30 de janeiro, os nazistas não tinham uma maioria parlamentar, mesmo com seus aliados nacionalistas.

O Reichstag foi dissolvido; e os nazistas começaram uma campanha eleitoral raivosa. Eles ainda estavam em dúvida sobre o sucesso. Eles mal precisaram usar o perigo vermelho. Em 24 de fevereiro, a polícia invadiu a sede do partido comunista. Foi anunciado que eles descobriram planos para uma revolução comunista. Evidentemente, eles não descobriram muita coisa: os alegados documentos subversivos nunca foram publicados.

Então veio o incêndio do Reichstag. Aqui foi onde o medo vermelho realmente aconteceu. No dia seguinte, Hindenburg promulgou um decreto emergencial “para a proteção do Povo e do Estado”. As garantias constitucionais de liberdade individual foram suspensas. Os nazistas foram autorizados a estabelecer um reino legal de terror.

Graças largamente a isto, eles e os nacionalistas fizeram uma grande maioria nas eleições gerais de 5 de março; e, em seguida, primeiro o Partido Comunista, e então todos os partidos exceto o Nacional Socialista foram tornados ilegais. O incêndio do Reichstag foi o prelúdio essencial para a ditadura de Hitler.

Quem cometeu o ato decisivo? Quem na verdade começou o incêndio do Reichstag? Os nazistas disseram que foi trabalho dos comunistas. Eles tentaram estabelecer este veredicto no julgamento dos supostos incendiários diante da Corte Suprema em Leipzig. Eles falharam. Dificilmente qualquer um acreditaria que foi obra dos comunistas.

Se não foram os comunistas, então quem foi? As pessoas fora da Alemanha, e muitos dentro dela, pensaram numa resposta simples: os próprios nazistas. Esta versão foi geralmente aceita. Ela aprece nos livros de história. Os historiadores mais respeitados, como Allan Bullock, a repetem. Eu mesmo a aceitei inquestionavelmente, sem olhar para a evidência.

Um servidor público aposentado, Fritz Tobias – um antinazista – recentemente olhou a evidência. Ele publicou seus resultados no semanário alemão Der Spiegel, de onde eu tirei a informação. Eles são surpreendentes. Aqui está a história.

Pouco antes das vinte e uma horas de 27 de fevereiro, um estudante de teologia chamado Hans Floter, agora um professor universitário em Bremen, estava indo para casa após um dia na biblioteca. Quando ele atravessou o espaço aberto em frente ao Reichstag, ele ouviu o som de vidro quebrado. Ele olhou para o alto, e viu alguém escalando o Reichstag através de uma janela no primeiro andar. Caso contrário, o local estava deserto.

Floter correu para o canto e encontrou um policial. “Alguém está invadindo o Reichstag.” Os dois homens voltaram correndo. Através da janela, eles viram não somente uma figura, mas também chamas. Era 21:03. Floter cumpriu sua missão. Ele voltou para casa para a janta e deixou a história. Outro transeunte juntou-se ao policial: um jovem tipógrafo chamado Thaler, que coincidentemente foi um social-democrata. Ele morreu em 1943.

Thaler gritou: “Atire, homem, atire!” O policial ergueu seu revólver e disparou. A figura desapareceu. O policial correu para o posto policial mais próximo e acionou o alarme. O horário foi registrado como 21:15. Em minutos a polícia invadiu o Reichstag. Às 21:22, um policial tentou entrar na Câmara de Debates. Ele foi afastado pelo calor das chamas. Às 21:27, a polícia descobriu e prendeu um jovem seminu. Ele era holandês e se chamava Marinus van der Lubbe.
Enquanto isso, a brigada de incêndio também foi acionada. O primeiro relatório alcançou-os às 21:13. O primeiro caminhão chegou ao Reichstag às 21:18. Houve atrasos inevitáveis. Somente uma porta lateral foi mantida destrancada após às 20:00.

Os bombeiros, que não sabiam disso, foram à porta errada. Então, eles perderam tempo apagando pequenos incêndios nas passagens. Houve confusão quando um alarme tocava após o outro. A força total da brigada de incêndio de Berlim – cerca de sessenta caminhões – foi mobilizada somente às 21:42. Naquele momento, o prédio inteiro estava irreparavelmente perdido. Ele permanecia em pé, mas como uma casca vazia.

Houve um alarme de outro tipo. Transversalmente à rua do Reichstag estava a casa de seu presidente, o líder nazista Göring. Mas este não havia ainda se mudado para lá. A casa, ou palácio, estava desocupada exceto por um flat no topo que Göring havia emprestado para Putzi Hanftstängel, um alpinista social ligado aos nazistas. Hanftstängel olhou por sua janela e viu o Reichstag queimando. Ele sabia que Hitler e Goebbels estavam em uma festa próxima do local. Ele ligou para Goebbels.

Goebbels achou que era mais uma das piadas de Hanftstängel e desligou o telefone. Hanftstängel ligou novamente. Goebbels checou com o Reichstag e descobriu que a notícia era verdadeira. Em poucos minutos, ele e Hitler e uma multidão de funcionários nazistas também estavam no Reichstag.

Um jornalista inglês, Sefton Delmer, conseguiu se misturar a eles. Hitler estava ao seu lado todo frenético: “Isto é um complô comunista, o sinal de uma rebelião. Todo comunista será fuzilado. Os parlamentares comunistas serão enforcados!”

Talvez ele já estivesse antevendo as vantagens. Se for assim, aqueles ao seu lado foram todos enganados. Para eles, Hitler parecia surpreso, ultrajado e mesmo temente.

Van der Lubbe foi levado à delegacia mais próxima. Ele foi interrogado até as três da manhã. Então, ele dormiu, recebeu um café da manhã e às 08:00 interrogado novamente. Ele deu respostas claras e coerentes. Ele descreveu como ele entrou no Reichstag; onde ele iniciou o incêndio, primeiro com a ajuda de quatro isqueiros, então tirando suas roupas e colocando fogo nelas.

A polícia verificou sua estória indo ao Reichstag de acordo com sua declaração portando um cronômetro. Eles descobriram que ela se encaixava precisamente com o momento de sua prisão.

Van der Lubbe estava convicto sobre seu motivo. Ele esperava que todo povo alemão protestaria contra o governo nazista. Quando isto não aconteceu, ele percebeu que somente um indivíduo deveria fazer seu protesto.

Apesar de o incêndio do Reichstag ter sido certamente um sinal de protesto objetivando uma revolta – um “farol” como ele o chamou – este se restringiu a uma pessoa. Ele negou veementemente que tivesse quaisquer associados. Ele não conhecia nenhum nazista. Ele não era comunista – isto é, ele não era membro do partido comunista. Ele era, de fato, um socialista com pontos de vista vagamente de esquerda.

Van der Lubbe também descreveu seus movimentos durante as semanas anteriores, deslocando-se através da Alemanha de uma pensão para outra; ele mesmo descreveu as lojas onde ele adquiriu os isqueiros e fósforos. Aqui, também, a polícia checou sua estória. Todo detalhe estava correto. Os oficiais de polícia concluíram que ele tinha algum problema mental, mas era inteligente, com um senso preciso de local e direção.

Seus interrogadores eram profissionais experientes, sem qualquer comprometimento político. Eles se convenceram que ele falava a verdade e que havia posto fogo no Reichstag sozinho. Os oficiais da brigada de incêndio também concordaram com isso, pois na medida em que poderiam dizer o Reichstag queimou exatamente com van der Lubbe o disse.

Isto não se aplica a Hitler e a outros líderes nazistas. Eles se comprometeram desde o primeiro momento com o ponto de vista de que o incêndio do Reichstag foi um plano comunista. Independentemente de acreditarem ou não nisto, isto deveria ser mantido para o público alemão.

Quando van der Lubbe foi a júri, quatro outros o acompanharam: Torgler, líder do grupo comunista no reichstag, e três comunistas búlgaros que viviam na Alemanha, um deles o famoso Dimitrov.

O julgamento diante da Suprema Corte em Leipzig teve pouco a ver com van der Lubbe. Ele foi encontrado no Reichstag; ele começou o incêndio; as evidências contra ele estavam tão claras que valia pouco a pena prosseguir. O promotor público e o governo nazista por trás dele estavam preocupados em colocar a culpa em quatro comunistas. Eles falharam completamente.

Torgler esteve em seu escritório mo Reichstag até as 20:00. Então, ele foi embora; testemunhas o viram ir. Tudo então ficou quieto no Reichstag. Não houve evidência ligando-o a van der Lubbe. Quanto a Dimitrov e os outros dois búlgaros, não havia nenhuma evidência para ligá-los tanto a van der Lubbe quanto ao fogo. Isto foi embaraçoso aos juízes da Suprema Corte. Eles eram advogados conscientes, não nazistas. Eles não condenariam indivíduos sem evidência. Mas eles desejavam agradar ao governo nazista onde nenhuma injustiça flagrante a indivíduos parecia estar envolvida.

A Suprema Corte, assim, escutou complacentemente enquanto os supostos especialistas demonstraram que o incêndio não poderia ter começado por somente um homem. Talvez a Suprema Corte mesmo acreditasse nos especialistas, como algumas vezes os juízes acreditam. Estes especialistas não eram bombeiros, policiais ou cientistas forenses. Eles eram professores de química e criminologia, que teorizaram a respeito do incêndio, sem mesmo visitar o Reichstag.

Van der Lubbe estava desesperado. Ele queria abalar o governo nazista. Ao invés disso, ele consolidou sua ditadura e, também, envolveu pessoas inocentes. Pela maior parte do tempo, ele permaneceu em arrasado, com sua cabeça afundada em seu peito. Algumas pessoas associaram isso ao uso de drogas. Fisiologistas independentes que o examinaram acharam que não havia nada de errado com ele, exceto desespero.

Uma vez ele se manifestou. Por seis horas, ele tentou convencer os juízes que ele havia iniciado o incêndio sozinho. Ele falou de forma clara, coerente e precisa. Um observador holandês – ele próprio um juiz criminal experiente – ficou convencido de que van der Lubbe estava falando a verdade.

Os juízes alemães pensaram o contrário. Com um preconceito inabalável, eles partiram para a intimidação. Como, eles perguntaram, ele podia se opor à evidência das testemunhas especialistas? Van der Lubbe respondeu: “Eu estava lá, e não eles. Eu sei como pôde ter acontecido porque eu o fiz.”

A Corte Suprema chegou a um veredicto estranho. Van der Lubbe foi considerado culpado, e, apesar de o incêndio culposo não ser um crime capital quando ele cometeu sua transgressão, Hitler o tornou pela retroatividade da lei. Van der Lubbe foi assim sentenciado à morte e executado por decapitação.

Os quatro comunistas foram absolvidos, mas os juízes lembraram que van der Lubbe deve ter tido assistentes. O Reichstag, portanto, foi queimado por pessoas desconhecidas; e os nazistas tiveram que se satisfazer com a implicação de que estas pessoas misteriosas, nunca vistas e sem deixar nenhum rastro, eram comunistas.

Tem havido uma reclamação na Alemanha, e principalmente nos países comunistas, que o Sr. Tobias, ao ressuscitar o caso, limpou a barra dos nazistas. Mesmo que isso fosse verdade, isto é culpa daqueles que produziram o Livro Marrom[1], e não o Sr. Tobias. Este é o pior tipo de falsificação.
Mas a nova versão não absolve, de fato, os nazistas. Mesmo que eles não tenham tido nada a ver com o incêndio, mesmo que eles acreditassem verdadeiramente que foi trabalho dos comunistas, isto não justifica suas subsequentes ilegalidades e reino do terror. Eles continuam sendo maus como sempre foram.

Mas o caso deveria mudar nosso pensamento sobre os métodos de Hitler. Ele estava longe de ser o planejador detalhista que geralmente é pensado ser. Ele tinha um gênio para a improvisação; e seu comportamento em relação ao incêndio do Reichstag foi um exemplo maravilhoso disto. Quando tornou-se Chanceler, ele não tinha nenhuma ideia como transformaria sai posição constitucional em uma ditadura. A solução apareceu diante dele como um raio quando ele olhou as ruínas chamuscadas do Reichstag naquela noite de fevereiro.

O incêndio foi, em suas próprias palavras, “uma oportunidade caída dos céus”; e podemos concordar com ele que chegou-lhe nas mãos por um evento externo, apesar de dificilmente ser dos céus. Este é o modo como a história trabalha. Os eventos acontecem aleatoriamente; e os homens então os moldam segundo um padão. Van der Lubbe ateou fogo no Reichstag; mas a lenda de que os nazistas o fizeram provavelmente continuará indestrutível.

Nota:

[1] O Livro Marrom do Terror Nazista foi escrito pelo chefe de propaganda do Partido Comunista Alemão (KPD) Willy Münzenberg em conjunto com o comunista e agente soviético tcheco Otto Katz.