sexta-feira, 10 de julho de 2015

Esparta moldou os maiores guerreiros antiguidade

Fabio Marton

Aventuras na História, 22/08/2014



Os meninos eram apartados de casa quando faziam 7 anos. O Estado se encarregava de treiná-los como guerreiros. Não qualquer guerreiro. Eles seriam soldados espartanos, o militar mais capacitado, temido, odiado e perfeito da Antiguidade. Para quem assistiu à primeira parte de 300, ou a sequência que chegou aos cinemas este ano, 300 – A Ascensão do Império, os feitos dos esparciatas são bem conhecidos (ainda que com visual de história em quadrinhos). Mas qual era o segredo da cidade para forjar militares tão formidáveis? A origem da tradição talvez resida nas Leis de Licurgo, legislador provavelmente mitológico do século 8 a.C. que deixou um código não escrito determinando praticamente tudo na vida de um espartano.

Antes disso, a cidade era algo bem diferente da que conhecemos. Esparta é central na Ilíada, que narra a Guerra de Troia, por volta de 1200 a.C. Da cidade veio Helena, a esposa do rei Menelau que, ao ser raptada pelo príncipe troiano Páris, deu início ao confronto. “Achados arqueológicos atestam o amor pelo luxo, humor e mesmo frivolidade no período arcaico, que dificilmente relembram os sisudos e militaristas espartanos da imaginação antiga e contemporânea”, diz o historiador Nigel M. Kennell, do Centro de Estudos Helênicos e Mediterrâneos, em Atenas.

Por volta do ano 1000 a.C., a cidade foi conquistada pelos dóricos, que se consideravam descendentes do semideus Héracles (o Hércules romano). Eles estabeleceram uma monarquia dual, com reis de diferentes dinastias. “A dualidade levava a conselhos divididos, rivalidades dinásticas, ansiedades de sucessão, luta faccional”, diz Paul Cartledge, da Universidade de Cambridge. Os reis podiam não se bicar, mas não tinham muito poder. As decisões mais importantes eram tomadas por cinco éforos eleitos e pela gerúsia, formada por 28 cidadãos com mais de 60 anos – sempre com base nas Leis de Licurgo. E o principal tópico da legislação era que o cidadão de Esparta não trabalhava na terra, não praticava o comércio nem ganhava a vida como artesão. A única atividade nobre para um homem era a guerra. E eles passavam a vida treinando para ela.

Eles eram legendários porque, enquanto em outras cidades gregas as pessoas dividiam o tempo entre o treinamento militar e os afazeres cotidianos, a vida do espartano era focada no combate. O estado estava tão impregnado na vida privada que cabia à gerúsia decidir quais bebês deveriam viver (nas outras cidades, que também praticavam o infanticídio, a decisão cabia ao pai, não ao governo). Esparta era tão superior que a cidade não tinha muralhas. Não havia o que temer.

Missão suicida

O primeiro encontro militar entre espartanos e persas se deu na celebrada Batalha das Termópilas, entre 8 e 10 de setembro de 480 a.C., durante a segunda incursão persa à Grécia – a primeira foi repelida pelos atenienses, dez anos antes. Celebrizada, estilizada e romantizada no filme e nos quadrinhos 300, muito do que vem a partir daqui deve ser familiar para quem os viu, menos isto: os 300 espartanos lideravam 7 mil soldados. Somados à tropa de elite do rei Leônidas, havia mais 700 periecos, homens livres, mas sem direitos políticos, e 900 hilotas, escravos espartanos, que atuavam como arqueiros ou armados de fundas. Além de milhares de aliados de cidades como Tebas e Corinto. Periecos e hilotas eram os moradores encarregados das atividades que não cabiam aos esparciatas.

Era uma missão suicida e eles sabiam. Os 300 foram selecionados apenas entre os que já tinham filhos homens para passar seu legado. Do outro lado, havia no mínimo 70 mil persas, talvez até 250 mil, de acordo com estimativas modernas. O historiador mais influente do século 5 a.C., Heródoto, disse que eram 1,7 milhão.

Para frustração dos persas, a superioridade numérica não bastava. Termópilas era uma garganta com meros 100 m de largura. Por mais tropas que houvesse, elas eram forçadas a lutar com uma unidade de cada vez. Atirar flechas, sua tática favorita, era inútil: os espartanos levantavam os escudos, que tinham uma extensão de tecido para desviar flechas, e esperavam a chuva passar. Dienekes, um dos 300, foi informado que as flechas eram suficientes para tapar o sol. Saiu-se com uma das maiores tiradas do humor lacônico: “Melhor assim, combateremos à sombra”.

Homem por homem, os persas não tinham chance contra os espartanos, donos de melhores armaduras, lanças mais longas e escudos que protegiam melhor. Além de tudo, lutavam como ninguém. “Os espartanos usaram o tipo de tática que só um exército treinado e disciplinado poderia contemplar – falsas retiradas seguidas por uma súbita meia-volta e o massacre de seus perseguidores”, diz Carledge. Em três dias, os persas perderam 20 mil soldados, contra 2 mil no lado grego. Os números seriam muito maiores se um traidor grego, Efialtes, não tivesse indicado um caminho pelas montanhas. Num ataque em duas direções, os 300 e outros 1 200 aliados foram, enfim, massacrados.

Comportamento

Em tese uma derrota, a Batalha das Termópilas inspirou os vizinhos a resistir. “O fator moral no comportamento dos espartanos explica o sucesso final dos gregos”, diz Cartledge. O comportamento de um espartano era bastante curioso. Até os 30 anos, ele não tinha uma casa para chamar de sua. Morava com a tropa, em geral em barracos, na periferia da cidade ou em tendas de campanha – arqueólogos nunca encontraram nada parecido com um “quartel-general”, algo esperado para quem nasceu para guerrear. Segundo o historiador Scott Rusch, autor de Sparta at War (sem tradução), a razão é que eles eram apenas jovens cidadãos, ainda que focados no combate. Como não eram soldados, não fazia sentido viver em quartéis.

Em uma Esparta com poucas mulheres, submetidas a humilhações até na hora do casamento e que passavam boa parte do tempo longe dos filhos e dos maridos, a condição feminina era bem distinta se comparada a outras cidades gregas. Elas faziam exercícios ao ar livre, usavam pouca roupa e tinham senso de humor. Um ateniense perguntou a Gero, mulher do general Leônidas, por que as espartanas mandavam nos homens. “Por que somos as únicas que podem gerar homens”, respondeu. Elas podiam ter até casamentos poliândricos, se os maridos concordassem – como a geração de novos guerreiros era a prioridade, casamentos múltiplos tornaram-se um jeito de resolver o problema.


 Guerra fria

A guerra contra os persas uniu as cidades gregas, mas, com o invasor derrotado, restou saber o que fazer da Grécia após a vitória na Batalha de Plateias, em agosto de 479 a.C. A aliança entre Atenas e Esparta era precária. Durante o século 5 a.C., a Grécia se dividiu em dois campos. Ao lado de Atenas, ficaram as cidades democráticas da Liga de Delos. Com Esparta, as oligarquias da Liga do Peloponeso. Sem um inimigo externo, os modos de vida opostos entraram em confronto. Esparta era uma sociedade rigidamente oligárquica e tradicional, que rejeitava o comércio. Atenas era uma vibrante e democrática metrópole de comerciantes. Os espartanos haviam ajudado, por acidente, a instalar a democracia ateniense em 510 a.C., ao removerem o tirano Hípias do poder da cidade. Três anos depois, o novo regime foi instaurado, uma experiência radical e profundamente perturbadora para uma sociedade petreamente ligada à ordem, como Esparta.

As tensões começaram logo depois da guerra, quando os espartanos sugeriram que os atenienses seguissem seu exemplo e não reconstruíssem seus muros. Eles viram isso como uma tentativa de criar uma ameaça constante de forma a dominar a cidade, mantendo-a sob ameaça dos hoplitas espartanos. Sua recusa foi tomada como uma afronta. Em 465 a.C., um grande terremoto atingiu a Lacônia. Sentindo a fraqueza dos seus mestres, os hilotas iniciaram uma grande revolta. Atenas se dispôs a enviar um contingente de 4 mil hoplitas para ajudar seus ainda formalmente aliados. Então ocorreu o primeiro conflito ideológico direto.
“Devem ter sido intensos o choque e a surpresa dos atenienses ao descobrir que os ‘escravos’ hilotas não eram bárbaros, mas gregos com orgulhosas tradições”, afirma Paul Cartledge. Notando a relutância, os espartanos dispensaram seus aliados, o que gelou as relações entre as duas cidades.

Com uma série de episódios de hostilidade entre Atenas e os aliados de Esparta, em 431, um congresso da Liga do Peloponeso foi convocado para decidir pela guerra. De forma atípica, o rei Arquídamo II fez um discurso pedindo por paciência. O éforo Estelenides usou o estilo espartano típico: “Os atenienses são culpados de quebrar a paz, então vamos para a guerra!” A decisão ficou empatada. Estelenides propôs separar os votantes em duas alas. Sendo quem eram, nenhum espartano quis ser visto no lado da paz, e o “sim” ganhou por larga margem. Era o início da Guerra do Peloponeso.

No verão do mesmo ano, os espartanos estavam em frente aos muros que tanto odiavam. Esparta podia ser ainda a melhor força terrestre do mundo, mas não entendia nada de navios. Atenas era uma das maiores potências navais da época. O plano era simplesmente cercar a cidade até os atenienses morrerem de fome ou saírem para enfrentá-los. Nada disso aconteceu: com sua frota livre para fazer comércio, os atenienses simplesmente importaram alimentos.

A Guerra do Peloponeso se estenderia, com períodos de paz precária, por 35 anos, até o espartano Lisandro fazer uma espécie de pacto com o diabo. Buscando auxílio entre os persas, conseguiu que eles providenciassem uma frota naval para Esparta. Ainda que não conseguissem aniquilar os atenienses no mar, os espartanos fizeram um bloqueio naval. Com a fome ameaçando acabar com a cidade, em 404 a.C. Atenas se rendeu. Ao som de flautas tocadas por moças espartanas, os muros foram destruídos, assim como a democracia. No lugar foram colocados 30 tiranos, ditadores que respondiam à cidade vizinha.

O fim de uma era

A hegemonia espartana não duraria muito tempo. Um ano depois, os tiranos foram depostos e a democracia foi restaurada em Atenas. Em 395 a.C., eles estariam de volta ao combate contra Esparta na Guerra de Corinto, que terminou em empate. Mediando a paz, estava ninguém menos que o rei da Pérsia. A forma de guerrear estava mudando, e Esparta já não era mais tudo isso. “O Estado reacionário espartano estava menos pronto que as cidades-estados da época para adotar um número adequado de auxiliares e cavalaria, em grande parte porque sua infantaria era superior”, afirma o historiador militar Victor Davis Hanson, da Universidade Stanford. Mas essa superioridade estava em risco. O terremoto, as revoltas e as guerras haviam cobrado seu preço à população.

Havia apenas 400 esparciatas durante a Batalha de Leuctra, em 371 a.C., um dos muitos conflitos locais que se seguiram à Guerra de Corinto. Espartanos ainda podiam ser fortes, mas eram previsíveis. E o general Epaminondas, líder de Tebas, faria uso disso. Hoplitas colocavam suas melhores forças sempre à direita. Epaminondas formou uma coluna de 50 linhas com suas tropas mais capazes, e posicionou-as à esquerda, de forma a enfrentarem a elite espartana primeiro. Mil soldados morreram só nessa parte do combate. “No período da vida adulta de um homem, a cidade passou de líder indisputável dos gregos para um pequeno jogador na cena local”, diz o historiador Nigel Kennel. Pela primeira vez, os espartanos viram exércitos inimigos em suas fronteiras.

Além disso, um grande personagem entrava em campo. Os macedônios, sob Felipe II (382-336 a.C.), criariam um novo tipo de exército, baseado no uso combinado de infantaria e cavalaria. Esparta acabou deixada de lado por Felipe e seu filho, Alexandre, o Grande. Mas a Liga do Peloponeso foi extinta em 338 a.C., e todos os antigos aliados juntaram-se aos exércitos macedônicos, quando conquistaram a Pérsia.

Com Esparta isolada e acumulando derrotas no século 3 a.C., o rei Cleômenes III, que ascendeu ao trono em 236 a.C., estabeleceu reformas radicais, confiscando e dividindo as terras igualmente, transformando periecos em cidadãos e adotando um exército ao estilo macedônico. Confiante na modernização, começou a conquistar o entorno, a partir da cidade-estado de Argos, a única cidade da região a não se unir à Liga do Peloponeso. A Liga Aqueia, que reunia os ex-aliados de Esparta, reagiu unindo-se à Macedônia. Cleômenes foi derrotado na Batalha de Selásia, em 222 a.C.

Seguiram-se dez anos de vácuo no poder, até que, em 207 a.C., o tirano Nabis executou os membros das duas famílias reais, exilou ou matou os nobres resistentes e libertou os hilotas. De forma ainda mais subversiva, construiu muros em Esparta. Uma guerra internacional foi convocada contra ele, trazendo como aliada a nova potência internacional, Roma.

Em 189 a.C., a Liga Aqueia decidiu pôr fim à independência de Esparta. A cidade foi capturada no ano seguinte e as Leis de Licurgo, revogadas. Incorporada a Roma em 146 a.C., a cidade se tornaria atração turística para romanos ricos que queriam ver os hábitos bárbaros de seus habitantes. Triste fim para os melhores guerreiros da História.

O HOPLITA ESPARTANO - O segredo da vitória

Hoplitas eram soldados armados com lanças de 3 m, chamadas dory, e xiphos, espadas curtas para combate próximo. Eram munidos de um escudo, o hóplon, e uma armadura de bronze, a panóplia. Atuavam em colunas largas, com oito a 12 linhas de soldados, com os mais experientes à direita. A razão disso era que os homens se moviam instintivamente em direção ao escudo de seu parceiro, e os veteranos evitavam que a tropa toda se desviasse. As lanças podiam ser seguradas por baixo ou por cima, permitindo que um soldado das linhas de trás atacasse sobre os ombros dos companheiros. A combinação de armadura e escudo e a coesão da tropa os tornavam quase invulneráveis a um ataque frontal, fosse por flechas, espadas ou lanças.


Todas as cidades-estados gregas usavam hoplitas. O que tornava os espartanos especiais era o fato de serem soldados profissionais e exclusivos, com um espírito de ferocidade e companheirismo militar incutido desde a mais tenra idade, enquanto os outros eram comerciantes e artesãos que ocasionalmente pegavam em armas. Espartanos ou não, hoplitas pagavam pelas próprias armas e armaduras – quem não tivesse dinheiro ficava de fora. No caso de Esparta, era uma desgraça total: significava perder a cidadania e juntar-se aos periecos.

IMPÉRIO DA MODÉSTIA - Esparta não impressionava. As ruínas são exíguas

Os espartanos preferiam se referir às suas terras pelo nome da região, Lacônia ou Lacedemônia. Daí vinha a letra lambda – λ – em seus escudos. De acordo com as lendas gregas, Lacedemon era um filho de Zeus com a ninfa Taigete, que fundou um reino na Península do Peloponeso, uma vasta região que é ligada ao continente por um istmo de 6,3 km de largura. Ele batizou seu país em sua própria homenagem, e a capital, em honra à esposa, Esparta.

A cidade era formada por quatro vilas com uma acrópole central, onde havia o templo de Ártemis Órtia e o dedicado a Atena Calcieco. As ruínas são exíguas. “Não há sinais de edificações de nenhuma natureza, exceto os templos. O que faz muitos suporem que as construções eram de madeira”, diz a historiadora Maria Aparecida de Oliveira Silva, da USP. Até o reinado do tirano Nabis, não havia muros, uma manifestação da confiança que depositavam na ponta de suas lanças. O general ateniense Tucídides (460-395 a.C.) visitou a cidade e escreveu, profeticamente: “Suponha, por exemplo, que a cidade de Esparta se tornasse deserta e que apenas os templos e as fundações dos prédios sobrevivessem. As gerações do futuro achariam difícil acreditar que o lugar foi tão poderoso como representado”.



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quinta-feira, 9 de julho de 2015

[SGM] A Última Batalha da Europa

Larry Hannant

History Today, 07/07/2015


Por cinco anos, era tão idílica quanto a guerra poderia ser. Mas nas últimas seis semanas – estendendo-se além do término oficial da Segunda Guerra Mundial – tornou-se uma carnificina sangrenta. Aqueles que outrora foram camaradas no uniforme de repente massacraram-se entre si em um conflito que pode ser chamado de “A Última Batalha da Europa”.

Fotografias de soldados alemães, que na Segunda Guerra Mundial estavam estacionados na ilha pastoral de Texel (pronuncia-se “tessel”), a maior das ilhas friesianas ocidentais, mostram-nos sorridentes como se estivessem escrevendo para casa. Texel era como uma vista de cartão postal, uma gema de praias exuberantes ilimitadas cercando campos agrícolas produtivos de grãos, batatas e pastos para ovelhas felizes. Em abril de 1945, no que todos sabiam ser os últimos dias de um conflito apavorante, os 1.200 soldados da Wehrmacht em Textel tinham um bom motivo para esperar que eles pudessem ver o fim da guerra sem disparar um único tiro.

Mas na manhã de 6 de abril, a tranquilidade transformou-se em terror quando soldados da Wehrmacht mataram soldados da Wehrmacht, usando tudo, de baionetas até artilharia. Amigo e inimigo eram diferenciados por um pequeno detalhe em seus uniformes: cerca de 800 dos homens usavam um pequeno emblema os identificando como georgianos, enquanto que 400 oficiais e suboficiais eram alemães.

Os georgianos começaram a guerra não em uniformes alemães, mas soviéticos. Em 1941, quando a URSS montou uma resistência desesperada contra o maciço exército de invasão de Hitler, os soviéticos pressionaram todos os cidadãos ao serviço militar. Vindos da terra natal de Stalin, os cidadãos georgianos receberam cores soviéticas e armas e foram jogados em campo para a defesa da Pátria.

Os georgianos, capturados inicialmente na frente oriental, receberam uma proposta difícil. Eles poderiam aceitar receber a condição de prisioneiros de guerra, com um futuro incerto de fome, abuso e possivelmente morte, ou poderiam se alistar na Wehrmacht. A escolha de cerca de 30.000 georgianos para vestir um uniforme alemão foi compreensível, mas isso os tornou traidores.

À medida que o fim da guerra se aproximava, o futuro dos georgianos em Texel tornou-se sombrio – o retorno à retaliação e punição na URSS. Temendo este destino, os membros do 822º. Batalhão, tendo já substituído os uniformes soviéticos pelos alemães, mudaram sua aliança novamente, agora para o lado aliado.

Dentro de suas barracas, logo após a meia-noite de 5-6 de abril de 1945, os georgianos voltaram-se contra seus camaradas alemães, matando muitos deles com baionetas e facas em ataques coordenados. Mas alguns, incluindo o comandante, major Klaus Breitner, que passou a noite com sua amante na vila de Den Burg, sobreviveu. Breitner e os poucos sobreviventes alemães foram capazes de escapar para o continente.

Em 6 de abril, Breitner lançou um contrataque, tendo mobilizado uma força de 2.000 marinheiros e membros da temida SS. O que parecia ter sido uma completa vitória georgiana foi rapidamente revertido. Uma caçada casa por casa pelos georgianos varreu Texel.

Os georgianos capturados, incluindo 57 que finalmente entregaram o controle do farol onde haviam se entrincheirado, foram forçados a tirar a roupa – seu motim acabou desgraçando seus uniformes – e cavar suas próprias sepulturas. Cerca de 130 deles foram executados desta forma horrível.

Texel tornou-se um cenário de carnificina que não poupou ninguém, incluindo os habitantes civis holandeses. Forças de resistência e cidadãos comuns que protegeram e ajudaram os georgianos foram executados e as vilas de Den Burg e Ejerland presenciaram danos sérios em casas e prédios à medida que os alemães se vingavam. “Texel está sob o reino do terror,” escreveu um tessiano.

Mesmo a rendição das forças alemãs nos Países Baixos em 5 de maio e o fim oficial da guerra em 8 de maio não trouxeram o fim do massacre, já que a campanha de execução alemã continuou por mais duas semanas. O resultado final de baixas da batalha de seis semanas foi 812 alemães, 586 georgianos e 120 holandeses.

Ao longo do pesadelo, Texel não recebeu nenhuma ajuda aliada. Somente em 20 de maio foi que uma pequena unidade do Primeiro Exército Canadense chegou à ilha para negociar o fim do conflito.

O comandante canadense no local ficou tão impressionado pela resistência georgiana que ele se recusou a classificar os 228 sobreviventes como inimigos. O general de divisão Charles Foulkes escreveu para o Alto Comando Soviético pedindo clemência para os georgianos. Isto teria sido uma grande recomendação segundo as regras acordadas pelos Três Grandes líderes na Conferência de Yalta, isto é, de que todos os nacionais retornariam para seus países de origem com o fim das hostilidades.

Boatos circularam que os 228  georgianos sobreviventes não deveriam retornar à URSS. Mas, se a promessa foi feita, ela foi revogada ao longo das próximas semanas e os sobreviventes foram enviados de volta para seu país.

Contrariamente às expectativas de retribuição, em 1946 o diário soviético Pravda louvou os georgianos de Texel como “patriotas soviéticos” e descreveu-lhes como prisioneiros de guerra rebeldes. Oficiais soviéticos também visitaram a ilha regularmente após a Segunda Guerra Mundial para prestar homenagem à resistência antialemã dos georgianos.

Hoje, poucos param no túmulo coletivo dos 475 georgianos mortos em combate ou executados sumariamente, sendo seu local de repouso marcado por 12 colunas de rosas vermelhas e um monte de pedras. A última batalha da Europa está silenciosa, lembrando os antagonismos nacionalistas assassinos liberados mesmo quando o resultado da Segunda Guerra já estava decidido.
      

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quarta-feira, 8 de julho de 2015

[SGM] Anthony Beevor: Hollywood falsifica a Segunda Guerra Mundial

Juan Fernández

El Periódico, 21/06/2015


Em desespero, como alguém que coloca um desafio final para o destino que o aguarda, Hitler lançou um ataque feroz no final de 1944 sobre as florestas nevadas das Ardenas, na Bélgica, para tentar virar a maré da guerra. Essa batalha, finalmente ganha pelos aliados, provocou níveis de violência jamais vistos na Frente Ocidental. O historiador britânico Antony Beevor, considerado um dos maiores especialistas em Segunda Guerra Mundial, conta agora em detalhes as histórias desta pequena tragédia gigante que matou mais de 160.000 pessoas e colocou em cena os piores instintos desumanos em ambos os lados. Em Ardennes 1944 (crítica), existem bons e maus em todos os lugares.

O senhor escreveu sobre Stalingrado, o desembarque na Normandia, a queda de Berlim... Por que considerou a batalha das Ardenas digna de um livro?

Este combate foi o equivalente no Ocidente ao cerco de Stalingrado. Ambas são as batalhas mais brutais que aconteceram na guerra. Pelas condições meteorológicas nas quais se desenvolveram, no inverno mais cruel, e pelo grau de atrocidades que se cometeram. As Ardenas trouxe ao Ocidente a crueldade que havia existido no Leste Europeu. De fato, a Waffen SS colocou em prática as técnicas de terror que havia experimentado em solo soviético.

A que se deve tal loucura?

Diante da superioridade aérea aliada, Hitler pensou que sua única cartada seria usar o terror como arma de guerra para espalhar o pânico entre os soldados e desmoralizar o inimigo. Joachim Peiper, o coronel que dirigiu a primeira divisão Panzer que avançou sobre a Bélgica, se dedicou a fuzilar civis desde o primeiro minuto. Antes, na frente oriental, havia comandado o Batalhão Lança-Chamas, conhecido porque ateava fogo nas vilas pelas quais passava. Esse espírito sanguinário nunca havíamos visto na frente ocidental.

Surtiu efeito?

Não, porque Hitler voltou a cometer um de seus tradicionais erros de cálculo. Desta vez, subestimou os soldados norte-americanos. Ainda que muitos tenham fugido, outros resistiram em seus postos e bloquearam o avanço alemão, permitindo a Eisenhower trazer reforços e começar a reconquista. Hitler acreditava que o pânico causado pela crueldade extrema poderia derrubar o inimigo, mas às vezes o terror tem o efeito contrário e estimula a resistência.

Estrategicamente, a jogada de Hitler tinha sentido?

Nenhum. De fato, seus generais se posicionaram contra. O ataque das Ardenas foi uma fantasia construída sobre um mapa. O problema de Hitler foi que nunca esteve na frente de batalha. Dirigia a guerra movendo peças sobre um tabuleiro em seu bunker, como se fosse um jogo. Do ponto de vista militar, suas decisões eram desastrosas e isto o sabiam os Aliados. Por isso, cancelaram a Operação Foxley, destinada a assassiná-lo [1]. Pensaram que ganhariam a guerra mais rápido tendo Hitler à frente do exército alemão.

Sua investigação põe em foco um aspecto que se fala pouco: nas Ardenas se cometeram crimes em ambos os lados.

Durante a reconquista, os americanos conduziram fuzilamentos de prisioneiros e crimes comuns que logo foram deixados de lado. Respondiam à crueldade usada pelos alemães, mas não tinham justificativa. Se matava gente por vingança e outras vezes por conveniência, para não ter que transportar feridos. Nunca saberemos quem efetuou mais fuzilamentos indiscriminados, se os alemães ou os americanos, mas isto ocorreu em ambos os lados.

Por que os EUA nunca reconheceram esses crimes?

Nesse país se cultivou o mito de uma participação limpa e bondosa na Segunda Guerra Mundial. Teve a ver com o impacto que causou a experiência do Vietnã, que foi reconhecida como uma guerra moralmente suja. Isto potencializou a mentalidade americana no desejo de ver a Europa como uma guerra boa. Mas, por que uma guerra boa? Não creio que elas existam.

Não é porque ela foi libertada pelos Aliados?

Seu objetivo era louvável, sem dúvida. Tratava-se de libertar a Europa da ocupação nazista e, neste sentido, foi uma boa missão. Mas para alcançá-la, seus soldados cometeram uma variedade de atos abomináveis que não se deseja reconhecer, nem se quer investigar. É uma pena que os historiadores americanos sejam guiados por esse mito e não tenham se atrevido a se aventurar nas zonas mais sombrias da participação de seu exército na guerra, que não era.

Menos ainda o tem feito as produções de guerra de Hollywood.

Os filmes de Hollywood e a realidade da guerra são completamente incompatíveis. O cinema americano somente busca contar histórias a partir de arquétipos sem matizes. O herói, o covarde, o mau, o bom... Mas seu respeito à verdade dos fato é nulo.

É impossível encontrar um filme de guerra que siga rigorosamente os fatos em termos históricos?

Poderia numerar alguns títulos aceitáveis: A Batalha da Argélia, produção ítalo-argelina de 1966, e Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood. Mas Hollywood nunca este interessada em fazer filmes sobre a Segunda Guerra Mundial que fossem fieis à realidade. O curioso é essa indústria detectou há tempos uma demanda do público para ser entretido e educado e, para atendê-lo, dedicou-se a vender seus filmes como se estivessem baseados em fatos reais, quando na verdade não é bem assim. Hollywood falsifica a história descaradamente.

Mas o público os toma como verdadeiros.

Vivemos numa era pós-literária. Agora, a imagem em movimento é a que reina e o conhecimento sobre nosso passado é adquirido, majoritariamente, através do cinema e TV. Hollywood emprega o argumento falso de que com estes filmes faz um trabalho didático, mas não está certo. O terível é a capacidade das pessoas em acreditar em qualquer coisa. Quando saiu O Código da Vinci, uma agência de pesquisas fez um trabalho na Grã-Bretanha e descobriu que metade do país acreditava firmemente que a história do livro era real.

Imagine quando saiu o filme...

Nunca esquecerei o que ouvi em filmes. Minha mulher e eu resistimos a ver a adaptação cinematográfica do livro, mas finalmente aceitamos acompanhar nossa filha. Recordo que do nosso lado havia um casal e, ao acabar o filme, o rapaz se levantou e disse para sua acompanhante: “A verdade é que te faz pensar.” Eu queria gritar. Como historiador, tudo isso é muito deprimente.

Seus livros tentam combinar o relato dos acontecimentos com a narrativa de testemunhas humanas. É a melhor maneira de contar história?

Creio que sim, cobrindo todos os aspectos. Em meu caso, tendo sido romancista antes de ser historiador me influenciou na hora de construir meus livros. Fico satisfeito que os relatos sejam visuais, que o leitor possa imaginar os cenários. Somente assim pode se tornar compreensível às gerações mais jovens, nascidas na era pós-militar, os horrores de uma guerra que teve lugar aqui mesmo, há apenas 70 anos.

Alguns detalhes são especialmente sangrentos e duros. Onde é a linha do que pode ser contado e o que é melhor ser mantido em segredo?

É muito difícil. No meu livro sobre a queda de Berlim levou muito em conta esse detalhe porque houve crueldades que gostaria de contar, como suicídios de crianças e mulheres e estupros selvagens que podiam ser considerados pornografia pura. Por isso, procuro contar com a opinião de outras pessoas. Minha principal conselheira é minha esposa, que lê primeiro o texto que escrevo.

A Batalha das Ardenas contém alguma reflexão útil para a atualidade?

Na Europa existe a tendência a crer que somente a interação na União Europeia pode nos livrar de outra guerra. Creio que não está certo. O único meio que nos previne de outra guerra é a democracia, porque um regime democrático nunca lutará contra outro igual. Mas forçar a integração pode ter o efeito contrário. O renascimento do nacionalismo verificado ultimamente em países como França, Finlândia ou Hungria o demonstra claramente. De qualquer forma, a Europa de 1944 e a de agora, felizmente, não tem nada a ver uma com a outra.

Nota:

[1] Operação Foxley foi um plano de assassinato de Adolf Hitler idealizado em 1944 pelo SOE (Special Operations Executive) britânico mas nunca levado adiante. Historiadores acreditam que o atentado seria realizado entre 13-14 de julho de 1944, durante uma das visitas de Hitler à Berghof, sua residência e quartel-general em Obersalzberg,Berchtesgaden, nos Alpes Bávaros, sul da Alemanha.



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terça-feira, 7 de julho de 2015

[HOL] Diplomata Israelense Em Berlim: Manter A Culpa Alemã No Holocausto Ajuda Israel

Polina Garaev

i24News, 29 de junho de 2015


Normalização é uma palavra comumente usada no contexto das atuais relações germano-israelenses. Seu significado: um perdão não totalmente aceito, o não esquecimento, mas seguir em frente. Mesmo assim, enquanto seus usuários apoiam sua afirmação ao apontar para as hordas de israelenses mudando-se para Berlim e os jovens alemães descobrindo a vida noturna de Tel Aviv, a verdade sublinhada é diferente. A assim chamada normalização jamais se espalharia das ruas e das praias ao nível diplomático pela própria vontade.

A porta-voz da embaixada de Israel em Berlim encontrou-se alguns meses atrás com um grupo de repórteres israelenses. O que foi dito na sala somente poucos conhecem, mas de acordo com o Haaretz, ela admitiu abertamente que é interesse de Israel manter a culpa alemã no Holocausto. Procurar a normalização plena das relações não é o objetivo, supostamente ela afirmou durante o encontro fechado.

Tanto a porta-voz quanto o Ministério dos Assuntos Estrangeiros em Jerusalém afirmam que as declarações não eram corretas e foram tomadas fora de contexto, mas independentemente de sua veracidade, é difícil argumentar contra seu conteúdo.

Ao sugerir que Israel se beneficia da culpa alemã é, sob muitos aspectos, declarar o óbvio. Culpa é a razão pela qual a Alemanha está construindo submarinos para Israel e os vendendo a preço abaixo de custo, culpa é a razão pela qual Berlim evita criticar Israel mesmo quando seus parceiros europeus condenam fortemente o Estado judeu, e culpa foi a razão pela qual a Chanceler Angela Merkel definiu sem precedentes que a segurança de Israel faz parte da razão de ser da Alemanha. Portanto, por que Israel sairia desta zona de conforto?

Esta política pode não ser ditada oficialmente de Jerusalém para a embaixada de Israel em Berlim, mas em relação a esse assunto, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu é o principal exemplo. Sua comparação rotineira entre a Alemanha Nazista e o Irã, Hamas e mais recentemente o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel) é projetada justamente para isso – direcionar a consciência da culpa da comunidade internacional, e especialmente de seus líderes.

Sua insistência em reusar esta metáfora sempre é somente prova de sua eficácia, contrariamente à metáfora do pato nuclear, por exemplo, que foi mencionada somente uma vez [1]. Não há motivo para mudar o time que está ganhando. A memória coletiva de Israel do Holocausto pode preferir enfatizar as manifestações do heroísmo judaico durante o Terceiro Reich, mas politicamente, fazer o papel de vítima serve a Israel muito bem.

Especialmente numa época em que a Europa está se voltando gradativamente contra Israel, quando estados líderes europeus como a França e Suécia estão apoiando a proposta de um Estado palestino, e na Hungria e Grécia o antissemitismo mostra sua face má, Israel precisa manter os amigos que possui – e não há cola mais forte que a culpa.

Mas o uso do remorso como ferramenta política deve permanecer sob quatro paredes. Os editoriais criticando Benjamin Netanyahu após toda comparação nazista não são motivados estritamente pelo tédio dos jornalistas. O uso descaradamente cínico do Holocausto não se casa bem com o papel de vítima que Israel está interessado em projetar. Portanto, deve permanecer um segredo de estado: uma admissão aberta do carinho pouco diplomático que Israel sente por seus aliados é um tiro no pé.        

Nota:

[1] “Senhoras e senhores, se a coisa se parece com um pato, caminha como um pato, faz um som parecido com o do pato, então o que é? Isto mesmo, é um pato!Mas este pato é um pato nuclear. É hora do mundo começar a chamar o pato de pato.” Benjamin Netanyahu diante do Senado americano, em 2012, sobre a suposta ameaça do Irã.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

[HOL] Filme raro achado no Brasil mostra vida de judeus em campo da Bulgária

Globo, 03/07/2015


Quando migrou da Bulgária para o Brasil, em 1948, Licco Haim trouxe na bagagem um material que, décadas depois, revelou-se um tesouro histórico: filmes que mostram o dia a dia de judeus em um campo de trabalhos forçados na 2ª Guerra Mundial.

Judeu nascido na Áustria, Licco morava na Bulgária, que na época era aliada da Alemanha nazista. Em 1941, foi enviado para o campo de Lakatnik, a 40 km da capital, Sófia. Lá, participou da construção de uma estrada junto com outros judeus, ciganos e minorias discriminadas. Anos depois, migrou com a família para o Brasil, onde morou por 54 anos, até sua morte.

Fã de fotografias e filmes, Licco tinha uma câmera, algo incomum na época, e com ela registrou a sua rotina e a de outros prisioneiros.

As imagens, redescobertas pela família no ano passado, mostram cenas como os presos quebrando pedras, afiando ferramentas, explodindo dinamite, pegando sua ração de comida ou fumando e escalando montanhas nos momentos de folga (veja trechos no vídeo acima).

De acordo com o Museu da Memória do Holocausto dos EUA, que recebeu os filmes como doação, a gravação tem grande valor histórico por ser uma das poucas no mundo feitas sob a ótica de um prisioneiro, e não do regime que controlava o campo.

Não se sabe como Licco conseguiu captar as imagens dentro do local. Uma das hipóteses é que os próprios guardas tenham pedido que ele levasse a câmera para filmar cerimônias oficiais e ele aproveitou a oportunidade para gravar outros momentos do cotidiano.

Após seis meses, ele foi dispensado do campo de trabalhos forçados por suas habilidades com mecânica, necessárias para o país naquela época. Sete anos depois, quando a Bulgária já era comunista, migrou para o Brasil com a família e morou em São Paulo até 2002, quando morreu.

Os filmes perderam qualidade e ficaram incógnitos por muito tempo, já que a família não sabia exatamente do que se tratava. “Ele trouxe para o Brasil, o que significa que dava importância ao material. Mas depois disso nunca mais deu bola e raríssimas vezes tocou no assunto”, conta seu filho, Salvator Haim.

Em 2014, quando o sobrinho dele, Ilko Minev, escreveu um romance baseado na história do tio, a família redescobriu as latas com os filmes. “Não conseguimos ver o conteúdo, porque a lâmpada do projetor queimou. Foi o que preservou, porque esses filmes antigos se desgastam cada vez que são vistos. Eles estavam dentro de uma mala e não sabíamos o que fazer com eles”, conta Ilko.

Por sugestão de um amigo, a família levou os filmes para o museu em Washington, que os recuperou, remasterizou e usou como objeto de pesquisa.

Segundo Ilko, os diretores do museu tiveram uma surpresa quando perceberam do que se tratava o material. “Foi emocionante. Não esperávamos a recepção que tivemos. Aí que nos demos conta de que nossos filmes tinham um valor extraordinário”, afirmou.

Ao G1, Lindsay Zarwell, que trabalha no Arquivo de Filmes Steven Spielberg, pertencente ao museu, afirmou que as gravações de Licco são valiosas para o acervo da instituição e para ajudar a reconstruir a história dos judeus na Bulgária.

“Filmes assim são poderosos não apenas por seu significado histórico, mas também porque chamam a atenção para a vida das pessoas comuns. É importante capturar a história de indivíduos para revelar a verdade sobre os horrores do Holocausto na esperança de um futuro mais justo”, diz.

Os filmes de Licco estão sendo incorporados a um arquivo do museu que inclui entrevistas do diretor Steven Spielberg com sobreviventes de campos de concentração e por isso foi batizado com seu nome.

Nazismo, comunismo e vinda ao Brasil

Licco Haim mudou-se com o pai da Áustria para a Bulgária aos 18 anos. Entendido de mecânica, prosperou no ramo automobilístico até sua empresa ser confiscada pelo governo antissemita e ele ser enviado para o campo de trabalhos forçados, como quase todos os outros homens judeus.

Graças a uma ponte que aparece nas filmagens, os familiares conseguiram localizar onde ficava o campo. A estrada construída pelos prisioneiros existe até hoje. Na Bulgária, esses campos – inicialmente administrados pelo exército do país e depois pelos alemães – não eram de extermínio, como em outros países.

“Foi um regime duro, mas a intenção não era exterminar. Era explorar, mas não matar. Por isso a Bulgária começou e terminou a guerra com o mesmo número de judeus: cerca de 50 mil”, conta Ilko, que é búlgaro e veio para o Brasil já adulto, em 1970, por perseguições políticas do regime comunista.

Depois de ser liberado do campo, Licco conseguiu recuperar a empresa, mas ela foi tomada novamente em 1948, quando a Bulgária já era comunista. “Aí ele desistiu e resolveu ir embora de lá”, conta Salvator.

Após passar pela Suíça e pela França, Licco, a mulher, a sogra e o filho (que na época tinha dois anos) pediram visto para vários países. Resolveram vir para o Brasil, onde o documento saiu primeiro. Entre sair da Bulgária e chegar ao Brasil a família levou seis meses.

Em São Paulo, Licco trabalhou em companhias de automóveis e depois fundou a própria empresa metalúrgica. Tinha vários hobbies: escalar, velejar e jogar xadrez eram alguns deles.

Ele e a mulher adoravam morar aqui. “Ai de quem falasse mal do Brasil”, afirma Salvator. "Eles se consideravam brasileiros."


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quinta-feira, 2 de julho de 2015

[POL] A Ética de um Juiz Nazista



Georg Konrad Morgen foi o primeiro homem a processar comandantes dos campos de concentração nazistas, mas ele não foi um oficial dos tribunais dos crimes de guerra. Ele mesmo era um oficial alemão da SS, e ele processou seus colegas oficiais da SS nos tribunais da SS durante a Segunda Guerra Mundial. Morgen os acusou não de crimes contra a humanidade, mas de crimes comuns de corrupção e assassinato. Enquanto investigava estes crimes, ele chegou na máquina de extermínio em Auschwitz-Birkenau e, surpreso em horror, ele perguntou-se o que fazer a respeito.

Mas, como ele explicou após a guerra, aquela máquina foi colocada em movimento por Hitler, cuja vontade era uma lei no Estado-Führer: extermínio em massa havia se tornado “Tecnicamente legal”. Tudo o que ele pôde fazer, ele disse, foi avançar o processo dos perpetradores por mortes “ilegais” e crimes menores, na esperança de alguma forma atrapalhar o trabalho. Ele até conseguiu um mandato de prisão contra Adolf Eichmann – mas somente por desviar uma bolsa de diamantes.

Morgen foi um juiz no Judiciário da SS, um sistema de tribunais que julgava casos contra membros da Waffen SS nazista, assim como os tribunais militares julgam membros das forças armadas. Em 1941 e na primeira metade de 1942, ele investigou a corrupção financeira por membros da SS na Polônia ocupada. Em julho de 1943, Heinrich Himmler, Reichsführer SS, escolheu Morgen para investigar a corrupção da SS nos campos de concentração. O resultado dessas investigações o levou ao limiar das câmaras de gás.

A primeira missão de Morgen no judiciário da SS em 1941 foi na Cracóvia, a sede da administração alemã na porção da Polônia ocupada não incorporada ao Reich. Logo após chegar lá, Morgen começou a investigar membros do círculo de Himmler, mostrando coragem admirável e talvez também ingenuidade – qualidades que apareceriam constantemente em sua carreira.

Seu suspeito principal na Cracóvia era Hermann Fegelein, que liderava o regimento montado da SS. Fegelein era um dos favoritos de Himmler, e mais tarde ligado a Hitler. Em 1944, ele se casaria com Gretl Braun, irmã de Eva Braun. Um ano antes de despertar a atenção de Morgen, Fegelein foi acusado de roubo de propriedade em caminhões da Polônia para a escola de montaria da família em Munique. Quando uma busca na escola descobriu bens de origem questionável, Fegelein apelou para Himmler, dizendo que a propriedade tinha origem legítima e as acusações eram pura malícia. Himmler escreveu para o Departamento de Segurança do Reich apoiando as alegações de Fegelein e a investigação foi encerrada.

Morgen suspeitava que Fegelein saqueou uma empresa de peles judaica que havia sido confiscada – “arianizada” no jargão nazista. Outro cavaleiro nazista, Albert Fassbender, foi colocado no comando da companhia como seu liquidante. Tanto Fegelein quanto Fassbender tomaram funcionárias da empresa como amantes, que os ajudaram a desviar seus ativos. A amante de Fassbender, Jaroslawa Mirowska, foi colocada idealmente para esta exploração, já que ela anteriormente havia sido a amante do proprietário judeu, que fugiu durante a invasão alemã e a deixou no comando.

Novamente, Himmler veio em defesa de Fegelein. Ele escreveu que sabia e aprovava o plano dos suspeitos para a firma. O plano aparente era transformar a companhia, com suas conexões internacionais, em um ponto de contato para agentes alemães. Himmler disse que foi graças ao trabalho de Fegelein, Fassbender e Mirowska que o valor da companhia foi recuperado – significando, presumivelmente, convertido em um ativo de inteligência.

Com seu sorriso doce e rosto alegre, Mirowska encantou Himmler. De acordo com Morgen, ela foi tratada como “a primeira-dama da SS”, mas o interesse de Morgen nela era puramente jurídico. Em setembro de 1941, ele entregou o caso Fegelein para um novo investigador, desmascarando Mirowska como uma fraude. Ela não era, como alegava, a filha de um pai russo e mãe alemã: ela era polonesa pura. Além disso, Morgen não conseguiu encontrar evidência para apoiar a alegação dela de estar trabalhando para o serviço de segurança alemão. Tomar controle da firma para incorporar sua rede internacional no serviço de inteligência era uma boa ideia, Morgen concordou, mas acrescentou: “Esta ideia tem tanto apelo que não posso deixar de imaginar que o regime polonês já não tenha feito uso da possibilidade.”

Morgen suspeitava que Mirowska era uma espiã da resistência polonesa, uma suspeita que ele apoiou em muitas páginas de evidência circunstancial. Sua conclusão: “Uma mulher tão bonita e encantadora quanto ela é inteligente e inescrupulosa, especialista em línguas, conhecida internacionalmente, uma líder na sociedade e moda – ela seria uma excelente ferramenta de espionagem.”

Nove dias depois, o novo investigador enviou a Himmler um memorando marcado como “urgente”, “secreto” e “em mãos do Reichsführer”. Ele escreveu que Mirowska, a suposta meio-russa, mentiu sobre seu passado e parecia ter “contatos perigosos”. As suspeitas de Morgen eram verídicas: “Um ano depois,” ele lembrou após a guerra, “toda a resistência polonesa foi pega e Frau Mirowska, a primeira-dama da SS, era seu agente principal.” Mirowska vendeu a Himmler a ideia de usar a firma para juntar inteligência, mas ela estava trabalhando como agente dupla para os poloneses.

No final, Himmler a deixou ir. “Uma chamada veio do Reichsführer,” continuou Morgen. “A mensagem era: Sim, Mirowskaja é uma espiã.” Quando ele perguntou onde ela deveria ser julgada, porém, “Himmler disse, ‘Não, não – isto não vai acontecer,’ e ele a retirou das garras da Gestapo.” A intervenção de Himmler a favor de uma espiã conhecida indica o risco que Morgen assumiu ao acusá-la. Como ele escreveria para sua noiva, era seu “destino” perseguir suas investigações até “as mais altas esferas” do poder. Para seu desespero, Morgen foi removido do judiciário e enviado como soldado na frente oriental, onde os soviéticos mal haviam começado seu contrataque em Stalingrado.

Entretanto, no começo de 1943, o próprio Himmler chamou Morgen para continuar suas investigações sobre a corrupção na SS, desta vez nos campos de concentração. A preocupação crescente de Himmler sobre a corrupção pode ser vista em seu discurso infame de Posen a oficiais da SS em 4 de outubro de 1943. Falando das vítimas das câmaras de gás, Himmler lembrou os oficiais que sua propriedade deve ser “entregue ao Reich sem reservas”:

“Quem quer que seja que tome alguma coisa para si, é um homem morto. Um certo número de homens da SS – não há muitos deles – caíram na tentação, e eles morrerão, sem piedade. Tínhamos o direito moral, tínhamos o dever para com nosso povo, de destruir estas pessoas que queriam nos destruir. Mas não temos o direito de nos enriquecer com peles, relógios, marcas, um cigarro ou qualquer outra coisa.”

O trabalho de Morgen envolvendo corrupção na Cracóvia em 1941-1942 foi frustrado por Himmler, mas ele agora recomendava-o para o trabalho de investigar crimes semelhantes nos campos de concentração. Assim, ele foi readmitido no judiciário da SS.

Morgen então gastou a última metade de 1943 em casos de corrupção em Buchenwald, Dachau e outros campos, incluindo Cracóvia-Plaszow, o campo que se tornou famoso graças ao filme “A Lista de Schindler” (1993). Em uma cena do filme, os trabalhadores estão descarregando provisões solicitadas para 10.000 prisioneiros – prisioneiros não-existentes inventados pelo comandante, Amon Göth, de modo que ele poderia solicitar provisões extras para vender no mercado negro. O narrador do filme lembra que Göth está sendo auditado pela SS. De fato, os investigadores estavam trabalhando para Morgen.

Morgen não restringiu suas investigações na corrupção. Ele descobriu que os prisioneiros de Buchenwald estavam desaparecendo – especialmente aqueles que haviam presenciado corrupção – e concluiu que eles foram assassinados. Indo além de sua missão, ele acrescentou a acusação de assassinato contra o comandante de Buchenwald, Karl Otto Koch.

Mas então Morgen descobriu mortes em uma escala ainda maior. Ele narrou sua descoberta 20 anos depois, em 1964, para um tribunal em Frankfurt, onde, de 1963 a 1965, os perpetradores de Auschwitz foram julgados por crimes de guerra. Morgen era uma testemunha chave no julgamento, tendo visto tudo o que havia de ser visto em Auschwitz e seu campo irmão de Birkenau – porém, com o olhar de um promotor:

Minhas investigações no campo de concentração de Auschwitz foram motivadas por um pequeno pacote no correio militar. Era de alguma forma pequeno, mais comprido do que largo, uma caixa comum, que recebeu atenção do serviço postal mais por causa de seu enorme peso, e os investigadores aduaneiros a confiscaram por causa de seu conteúdo. Ela continha três pedaços de ouro. Eram de ouro de alto quilate de uso dental que foram grosseiramente fundidos juntos. Um deles era grande, talvez do tamanho de dois punhos; o segundo era consideravelmente menor e o terceiro insignificante. Mas, em qualquer caso, era uma questão de quilos... Eu sabia que auxiliares de dentista dos campos de concentração eram solicitados a coletar ouro que acumulava da queima dos corpos e enviá-lo ao Reichsbank. E um dente de ouro tem somente poucos gramas; 1.000 gramas, ou vários milhares de gramas, assim representavam a morte de muitos milhares de pessoas. Mas nem todo mundo tinha próteses de ouro naqueles tempos de pobreza, somente uma fração. E, dependendo da estimativa de 1 para 20 ou 50 ou 100 que tivessem ouro em suas bocas, isto significava que este pacote confiscado representava cerca de 20, 50 ou 100.000 corpos. Um pensamento chocante.

Uma causa natural de morte não funcionava: estas pessoas devem ter sido assassinadas.

Poderia ter lidado com o caso deste ouro confiscado de maneira muito fácil. Os pedaços de evidência eram conclusivos. Poderia ter feito o perpetrador ter sido preso e acusado, e o assunto ter sido encerrado. Mas, dado as reflexões que eu rapidamente delineei para os senhores, eu absolutamente tinha que ver com meus próprios olhos. Assim, fui tão rápido quanto pude para Auschwitz, no sentido de conduzir minhas investigações no local.

Relatei ao comandante, Standartenführer Höss, um homem atarracado, taciturno e monossilábico com uma face pedregosa. Eu já o havia notificado por telégrafo de minha chegada e deixá-lo saber que tinha perguntas a fazer. Ele disse algo no sentido de que eles haviam sido encarregados de uma tarefa extremamente difícil, e nem todos tinham coragem para isso. Ele então perguntou secamente como eu queria começar. Disse-lhe que eu deveria primeiro fazer um tour pelo campo inteiro… Ele olhou rapidamente para o registro de service, fez uma chamada e um Hauptsturmführer apareceu. E dirigiu este homem para me conduzir dentro do complexo e mostrar-me tudo o que eu quisesse ver. Iniciei com o começo do fim, nomeadamente, a rampa em Birkenau.

A rampa parecia com qualquer outra rampa num terminal de carga. Não havia nada de especial para descobrir lá, nenhuma precaução especial a ser tomada. Logo, perguntei ao meu guia como funcionava. Ele me explicou que o campo era avisado pela estação de um transporte, geralmente de judeus, pouco antes da chegada, antes de chegar em Auschwitz. Então, uma unidade militar era convocada e eles isolavam as faixas dos trilhos e da rampa. Então as portas dos vagões eram abertas e os recém-chegados tinham que desembarcar e desembarcar suas malas.

Aqueles que eram qualificados para o trabalho marchavam a pé para o campo de Auschwitz, onde funcionários os registravam, divididos em grupos. Ou outros tinham que ficar sentados em um caminhão e iam, sem seus nomes serem registrados, direto para Birkenau e direto para as câmaras de gás. Meu guia me disse, com humor negro, que se não houvesse tempo, ou nenhum médico estivesse presente, ou houvesse muitos recém-chegados, eles ocasionalmente encurtavam o procedimento dizendo aos recém-chegados em termos educados que o campo estava longe a muitos quilômetros e, quem quer que se sentisse doente ou fraco ou desconfortável caminhar poderia fazer uso das instalações de transporte que o campo fornecia. Então havia um estampido para os veículos. E somente aqueles que não se juntaram poderiam marchar para o campo, enquanto os outros involuntariamente optaram pela morte.

[Pausa]

Da rampa, seguimos o caminho dos transportes da morte para o campo de Birkenau, que se localizava uns poucos quilômetros longe. Exteriormente, novamente não havia nada de importante para ver: uma grande cerca de arame farpado, um pouco deformada, com um guarda. Atrás, havia o campo chamado “Canadá”, onde os objetos pessoais das vítimas eram analisados, colocados em ordem, reciclados. Você podia ver uma pilha de malas abertas dos transportes anteriores, itens de lingerie, pastas, mas também equipamento completo de dentista, equipamentos de sapateiro, sacos médicos. Obviamente, os retirantes realmente tinham a impressão, como lhes era contado, de que eles estavam sendo reassentados no Leste e encontrariam uma nova vida lá, e portanto tinham trazido tudo o que precisavam. [Pausa] E atrás havia os crematórios. Eles eram térreos, edifícios triangulares que poderiam muito bem ter sido pequenas oficinas ou galpões de trabalho ... Na parte de trás do pátio havia um grande portão que dava para os chamados vestiários, como os vestiários de uma academia. Havia bancos simples de madeira com prateleiras de roupas, e cada ponto era claramente numerado e tinha uma etiqueta de armário. E as vítimas eram instruídas a anotar o número de seu armário e manter o número de seu armário - tudo de modo a não deixar que eles tivessem a menor suspeita até literalmente o último segundo, e conduzir o condenado à armadilha sem uma indicação.

Na parede havia uma grande seta apontando para um corredor, e nele as palavras concisas “Para os banheiros” repetida em seis ou sete línguas. Eles eram avisados: dispam-se e vocês tomaram um banho e serão desinfetados. E neste corredor havia várias câmaras sem mobília – frias, nuas, um piso de cimento. O que era visível e a princípio inexplicável era que havia um grande duto no meio, alcançando as celas. A princípio, não tinha explicação para ele, até que fui informado que gás – Zyklon B na forma cristalina – era lançado nesta câmara da morte através de uma abertura na cela, Até aquele momento, o prisioneiro estava ignorante, e então, é claro, era tarde demais. Compreensivelmente, não pude dormir aquela noite. Já tinha visto algumas coisas nos campos de concentração, mas nunca nada como aquilo. E considerei o que poderia ser feito a respeito disso.

  
Morgen relatou o que ele tinha encontrado para vários de seus superiores, incluindo o chefe da Gestapo, Heinrich Müller:

O Obergruppenführer Müller ficou surpreso ao ouvir sobre as execuções ilegais nos campos de concentração, principalmente sobre os atos cometidos nos campos de concentração contra a lei, e ele também ficou surpreso com a vasta extensão do crime, mas ele não ficou surpreso que havia um extermínio de judeus, que havia tratamento desumano que tinha sido ordenado e, ele me disse ironicamente, “Por que você não me prende?”

Morgen havia alcançado os limites de seus poderes jurídicos. Assim, ele fez a única coisa que ele poderia pensar, ao levar alguns dos perpetradores a julgamento em outras acusações. Ele descobriu que Maximiliam Grabner, chefe da Gestapo em Auschwitz, rotineiramente matava prisioneiros nas celas do campo quando elas se tornavam superlotadas. É claro, Morgen percebeu que estes assassinatos eram pouca coisa comparado ao crime horroroso que ele havia descoberto, mas este crime foi ordenado por Hitler, e processar matanças “ilegais” como as de Grabner era tudo o que ele podia fazer para interferir.

Os julgamentos de Koch e Grabner aconteceram no outono de 1944. Superiores hostis enviaram vários oficiais da SS para observar. Eles se reuniram após horas com membros da corte e denunciaram Morgen como um autopromotor, um mentiroso e um inimigo da SS. Morgen sentiu-se ele próprio em julgamento. Ele foi avisado ser um “homem morto”; um mandato de prisão para ele foi informado estar pronto ao final do julgamento. Em uma carta dramática para sua noiva, ele escreveu: “Indefeso, permaneço sozinho na tempestade como objeto do tribunal. [...] É triste e inútil ser um promotor do Estado contra instituições do Estado.”

O comandante de Buchenwald Koch foi condenado, mas somente na acusação de corrupção, apesar de ter sido de fato executado em 1945, pouco antes do fim da guerra. O julgamento do chefe da Gestapo em Auschwitz entrou em recesso até a primavera e jamais foi concluído. A punição de Grabner teve que esperar até 1948, quando ele foi executado por um tribunal de crimes de guerra na Polônia.

Após a guerra, Morgen foi colocado sob custódia e interrogado extensamente pelo Corpo de Contrainteligência Americano (CIC). Ele testemunhou em numerosos julgamentos de crimes de Guerra – primeiro no julgamento de Nuremberg dos principais criminosos de Guerra realizado pelas forces aliadas em 1945-46, então em vários julgamentos menores no período do pós-guerra e, finalmente, após estabelecer-se como advogado em Frankfurt, na última onda de julgamentos que começaram nos anos 1960. Ele deu seu último testemunho em 1980, dois anos antes de sua morte.

Morgen uma vez descreveu-se como um fanático por justiça. Esta autodescrição é verdadeira de certo modo, mas este modo não é tão claro nem favorável como ele pensava. Morgen era, de fato, fanático em relação à justiça como ele a concebia, mas sua concepção de justiça nem sempre foi adequada para a sistemática desumanidade que o cercava. Como especialista em crimes de corrupção, ele tendia a focar na mente corrupta dos criminosos ou sua influência corrupta em sua organização, a SS. Apesar de chocado com a desumanidade, ele também ficou chocado pela impropriedade, assim como pelo efeito deletério tanto do Estado quanto de seus funcionários.

Assim, quando Morgen relatou o extermínio em massa aos seus superiores, seu “argumento mais enfático e crucial,” ele diz, “foi que membros da SS que participaram no gaseamento eram portanto tão corrompidos que eles provariam no futuro não ser mais úteis como soldados normais ou mesmo como cidadãos, e além disso a liderança do estado estava destruindo sua própria fundamentação moral com estes crimes monstruosos.”



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